sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

O Narciso era um bocado parvo

A BBC News tem um artiguinho interessante acerca do crescente narcisismo da juventude, e de como uma auto-estima exagerada não conduz necessariamente ao sucesso, acabando até por ser contra-producente. Faz-se um estudo interessante sobre pronomes pessoais, dizendo-se que se tem revelado uma tendência para os usar cada vez mais em número singular (eu e respectivas declinações), e cada vez menos em número plural (nós e respectivas declinações). Também se diz, a certa altura:


Num país em que se fala tanto dos portugueses que gostam de viver acima das suas possibilidades, teremos de confessar que a afirmação acima é um tanto ou quanto verdade. Não que eu defenda esta tese parva de que todos os portugueses, tradicionalmente pobres e com vidas difíceis, tenham vivido anos que nem burgueses rotundos, mas parece-me porém verdadeiro que temos uma certa tendência para o espalhafato e para gastar dinheiro em carros e telemóveis que não podemos pagar. E isto constata-se igualmente na minha geração, que deveria ser mais esperta do que a anterior, mas não é. Creio que as pessoas da minha idade, como já li algures, foram as primeiras depois do 25 de Abril a usufruir de um verdadeiro conforto material, aproximado da classe média americana - frigoríficos a abarrotar de Coca-Cola, despensa com bens inúteis e de terceira ou quarta necessidade tipo bolachas recheadas ou batatas fritas sabor a presunto, pares de sapatos que se compram não porque os pés precisam de ser aquecidos, mas porque precisamos de usar "coisas bonitas", férias lá fora, televisão com séries a mostrar o mundo novo dos adolescentes anglo-saxónicos, com dinheiro no bolso para compras de impulso, universidade para as massas, e etc (atenção: estou a falar em geral). E talvez isto tenha contribuido para uma determinada pré-disposição face ao mundo, uma certa ideia de que é preciso trabalhar, sim, mas apenas q.b., porque nascemos com direito natural a determinado conforto, mercê da nossa espectacularidade inata.
Institivamente, porém, sabemos que as coisas não funcionam assim e que o mundo se está absolutamente a marimbar se nós cá estamos ou não. A geração que sucedeu a minha parece-me ainda pior nesta coisa do narcisismo (discurso à Velho do Restelo, eu sei), e isto porque estão ainda mais habituados a dinheiro, a conforto, a famílias mais pequenas em que eles são o centro, e qualquer tipo de esforço que se exija deles é uma espécie de ofensa à sua inexpugnável inteligência. Tão inexpugnável, na verdade, que às vezes a gente nem nota que ela lá está, mas isso é outra conversa. 
Lembro-me de ter assistido a uma comunicação numa conferência em que uma académica chinesa estuvdava, precisamente, as diferenças de uso nos pronomes pessoais e de elogios antes e depois da política do filho único na China. A diferença era absolutamente impressionante - a geração pré-filho único tendia ao "nós" e agradecia elogios, ao passo que a geração pós-filho único tendia ao "eu" e recebia elogios como se estes fossem verdades insofismáveis - em vez do "obrigado", diziam "eu sei" em resposta, por exemplo, a um comentário como "essas calças ficam-te bem". 
E não posso deixar de pensar que o artigo da BBC também poderia descrever, com alguma precisão, a proliferação de blogues, nomeadamente blogues das chamadas "fashionistas", que pululam em Portugal. Não me excluo disto, também tenho um blogue, e talvez haja de facto um certo narcisismo inerente a quem se dispõe a vir para a internet amandar bocas (expressão que eu adoro) ou falar da vidinha. Eu faço ambas as coisas, e portanto mea culpa, mas mesmo assim há casos piores do que o meu, em que a vida é toda ali escarrapachada, acompanhada por sapatos e malas e roupas, e toda a gente vive bem com isso, com esse excesso de auto-estima, esse exagero de exposição. E com o mal dos outros posso eu bem, como se diz na nossa querida língua portuguesa.
São vidas, pronto. A ler o artiguinho da BBC, porque esta coisa do narcisismo, parece-me a mim, há-de ter consequências bem nefastas, como teve, aliás, para o Narciso. Os Gregos é que sabiam, pá.

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Feliz 2013

Às vezes, há coisas a superar que têm de ser vencidas, e não sabemos bem porquê. Tem de ser e pronto.
Lembrei-me disto por ter estado hoje a falar do Moby Dick e do Velho e o Mar, em que a luta física, mental, a força da batalha e o imperativo de vencer e de conseguir são essenciais e absolutamente necessários. E certas coisas da vida também são assim, e nem sabemos explicar porquê, mas há qualquer coisa que nos diz que tem de ser, mesmo que racionalmente não o saibamos explicar.
Deixar um emprego que não nos faz feliz.
Recusar algo que parece uma grande oportunidade mas que sentimos que nos vai fazer miseráveis para o resto da vida. Nem sempre aquilo que parece o bom caminho é verdadeiramente benéfico, e o que interessa é uma estrada com espaço para andar, não um passeio pavimentado e aparentemente fácil que desemboca num beco sem saída.
Aprender que há pessoas, coisas e lugares que não nos fazem bem e saber cortá-los da nossa vida, ficando assim com muito mais tempo e energia apenas para aqueles de quem gostamos, aqueles que valem a pena.
Qualquer coisa assim. Tem de ser e pronto.
De modo que os meus votos para 2013 são mais ou menos isto que acabei de dizer - que todos consigamos ser como o Velho do Velho e o Mar ou como o Capitão Ahab (que aparentemente não conseguiu, mas na verdade, acho eu, conseguiu muito).
Feliz 2013.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

A minha Fada Oriana, chuif, chuif

O livro que eu mais adorava quando era pequena era a Fada Oriana, da Sophia. Li-o até à exaustão, não sei quantas vezes, e lembro-me de, ainda antes de começar o primeiro parágrafo, no vulto esguio, impreciso, uma silhueta apenas, que aparecia na magnífica capa da Fada Oriana:


Este vulto fazia parte da história, era a antecipação da Fada Oriana, do Peixe, do Poeta, de toda a história que eu conhecia tão bem e de gostava tanto. Imaginava, e imagino, a Fada Oriana assim, uma figura feminina leve, com esta cor azulada, roxa, verde, esquiva como uma verdadeira fada deve ser. O resto, inventava eu.
Foi, portanto, com grande tristeza e consternação que este Natal, quando quis comprar a minha Fada Oriana para dar de presente, soube da notícia que as edições antigas estão a ser substituídas por outras feiosas, mas mais modernaças, mais espalhafatosas, que entopem a imaginação e explicam tudo bem explicadinho, não vá a gente não saber como é que as fadas são:


A minha desilusão foi tão grande que até a senhora da livraria sentiu a necessidade de demonstrar alguma simpatia por mim: "eu também gostava mais das edições antigas, mas eles acham que assim é mais apelativo..."
De modo que fui a outra livraria e adquiri todas as edições antigas que consegui encontrar dos livros para crianças que a Sophia escreveu. Consegui o Cavaleiro da Dinamarca, a Floresta e o Rapaz de Bronze, mas duvido que consiga a Menina do Mar e a minha Fada. 
É muito mau corromperem-nos as memórias de infância desta forma. A minha Fada Oriana, pá. Não se faz! 

Não podemos ser normais

Indeed, the lack of any convictions in Greece over racist attacks has allowed migrants to be targeted with impunity, said Nikitas Kanakis, head of Doctors of the World in Greece.

Se fosse só a Troika a esventrar a Grécia, haveria ainda uma porta aberta. Mas a Grécia mata-se a si própria, numa onde de corrupção imparável, em que políticos perdem a vergonha na cara que provavelmente nunca tiveram e em que os cidadãos, como se vê pela notícia acima, embrenham-se na cobardia mais brutal que existe, aquela que impunemente lhes permite violentar estrangeiros, imigrantes, pobres e desprotegidos. 
A Aurora Dourada, na Grécia, reúne cerca de 10% dos votos, o que lhe confere mais ou menos 20 assentos parlamentares (figuras aproximadas, não sei os números certinhos). É uma enormidade para um partido que não deveria sequer existir, ou que se devia confinar a um grupo reduzido de lunáticos de quem as pessoas normais fazem troça. Mas estas "pessoas normais" são as mesmas que, nos dias de hoje, na Grécia, afirmam descontraidamente que há estrangeiros demais em Atenas - é tão cansativo... 
Por falar em Atenas, cidade em que já estive várias vezes, e que visitei novamente este Verão - nota-se que as coisas mudaram, e o que me fez notar que piores dias virão não foi propriamente lojas fechadas em catadupa, bombas de gasolina abandonadas onde sem-abrigos desamparados se refugiavam, mas sim um pequeno incidente que presenciei no eléctrico. Uma senhora polaca, com o filho pela mão, quer entrar no eléctrico com a bicicleta da criança, e o condutor impede-a, porque tem ordens estritas para não deixar entrar bicicletas aos Domingos. Não houve uma cena de gritos, nem o condutor foi particularmente mal-educado, mas a verdade é que se ficou ali algum tempo, a senhora a insistir, e o condutor a recusar a bicicleta. De repente, levanta-se um passageiro, que não tinha nada a ver com aquilo, e dirige-se directamente à senhora dizendo "a senhora é uma convidada na Grécia, não é daqui, portanto não pode desrespeitar as leis deste país que não é o seu". 
Há uma cena no magnífico filme de Bob Fosse, Cabaret, em que um camisola castanha vai, precisamente, ao cabaret, e é escorraçado dali para fora, elemento indesejado, escumalha com que ninguém quer conviver. Um dos artistas até troça de Hitler, fazendo a saudação nazi e colocando um dedo abaixo do nariz, na tentativa de imitar o bigodinho ridículo, e com isto conseguindo risada geral.
O mesmo filme acaba com um mar de gente num piquenique, ou numa espécie de "pub", não me lembro bem, a aplaudir um menino lourinho, da juventude hitleriana ou coisa parecida, em que todos se levantam e, de pé, fazem a saudação nazi. Tenebroso.
E lembro-me sempre desta cena quando me lembro da Grécia, a minha querida Grécia, que, como diria a nossa Sophia, parece agora um país que se mata lentamente. 
Não é normal que a Aurora Dourada tenha 20 lugares no Parlamento, não é normal que o padeiro grego tenha espancado o seu empregado egípcio quase até à morte e tenha contado com a complacência da polícia. E também não é normal que as pessoas normais, como nós, como todos os gregos, achem que isto é normal.

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Cada macaco no seu galho

Comprar um bilhete de avião na British Airways é uma experiência interessantíssima, de grande interesse sociológico.
 Ao contrário da TAP ou doutra companhia aérea qualquer, a BA faz questão de tratar o cliente como ele deve ser tratado, atribuindo-lhe a correctíssima forma de tratamento que ele merece. Assim, quando chegamos àquela parte da identificação, escrever o nome, número de passaporte e etc., temos à nossa disposição uma lista infindável de retumbantes títulos: além dos vulgares "Miss", "Mrs" ou o democrático "Ms", ainda temos opções como baronesa, condessa, viscondessa, lady, dame (e respectivos equivalentes masculinos) e quejandos - confirmar aqui, na entrada "Title". Todo um mundo de aristocracia e hierarquia por onde escolher, que efectivamente distingue a British Airways das outras companhiazecas que tratam toda a gente tu-cá-tu-lá, como se fôssemos todos iguais. Francamente. 
Mas a BA não se fica por aqui, não. A BA sabe que os seus clientes distintos têm igualmente filhos distintos, de modo que, quando se compra um bilhete de avião para uma criança, há que distinguir entre "miss" ou o encantador (e isto mata-me, sinceramente) "mstr" - "master", para os queridos varões perpetuadores do imenso brasão que cada família que voa com a BA certamente detém.
Cada macaco no seu galho, e a BA está bem ciente disto. Quem me dera que fosse sempre asssim, para que o mundo voltasse à ordem primordial de onde nunca deveria ter saído.
Porém, há que admitir que a British Airways faz anúncios muito bonitos, como este antiguinho que deixo aqui em baixo e que me lembro de ver em pequena. Há que domesticar o indígena desde tenra idade. 


Adoro pessoas...

... que dizem "o téni" como singular de "ténis". Um téni, dois ténis.
É tão querido.
E um "lápi", dois "lápis"? Fofinho.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

A oportunidade faz o ladrão

Sinceramente, houve um momento na vida em que, se eu tivesse engenho e arte, tinha surripiado uma coisa. Há uns anos, vi este poster na Cinemateca, encostado a uma parede, enorme e lindo, lindo, lindo. É uma imagem tão bonita, esta, e na Cinemateca ainda era mais bonita porque, se bem me lembro, as letras eram mais pequenas, os rostos tinham ainda mais impacto e pareciam quase desenhados a carvão (pelo menos, é assim que eu me lembro). 
Não deu para roubar, porque o poster era muito grande e estava emoldurado. Foi pena, porque ficava a matar em minha casa. Ainda nem sequer vi o filme, mas um poster destes na parede, tão bonito, daria um tal élan, um tal ambiente, que mais facilmente eu encetaria esforços para ver o filmito. 
Há que tempos que não vou à Cinemateca, de modo que não sei se o poster ainda lá está.
Gosto tanto de olhar para esta imagem, é que gosto mesmo. 

Como diz o cão dos Bichos, "misérias... "

Há tanta gente que quer escrever, escrever, escrever até morrer, não fazer mais nada, que não quer ter de se preocupar com mais nada, não quer depender de um "emprego" para pagar as contas e forçosamente perder tempo que podia aproveitar para escrever, e estas pessoas têm talento, pelo menos conheço algumas que têm, que escrevem bem melhor do que os Pedros Boucheries Qualquer Coisa deste mundo e a eles ninguém lhes edita livro nenhum (e não, não estou a falar de mim, eu nunca escrevi qualquer romance nem tenho um amontoado de folhas na gaveta à espera que o meu Max Brod revele a sua glória ao mundo).
E porém, de certa forma, estou a falar de mim. Gostava mesmo que me pagassem para escrever, não precisava de ser muito, precisava de ser o suficiente para eu deixar o "emprego" e não ter de me preocupar com as misérias de todos os dias, as misérias que necessariamente acompanham o "emprego".
E sei que tenho sorte, apesar de tudo. Não me pagam para escrever, mas também não me faltam ostensivamente ao respeito. No outro dia, por exemplo, fui ao Aki em demanda da minha primeira árvore de Natal, isto é, a primeira que a minha casa vai ter (em anos anteriores, a minha árvore de Natal era a da casa da minha mãe, mas este ano, e por motivos de força maior, vou ter uma também em minha casa, mas adiante!), dizia, estava eu no Aki e ouço um senhor que lá trabalhava, por acaso até com um ar simpático, dirigir-se assim a uma outra funcionária: "ó não-sei-quantas, acabe de limpar isto aqui e depois vá até ali ter com o não-sei-que-mais e tratem daquele assunto que eu vos disse para tratar". Isto dito de forma abrupta, assertiva, não propriamente mal-educada, mas imperativa demais para meu gosto. Que faria eu se tivesse um emprego em que a entidade patronal se dirigisse a mim nestes termos? A não ser que se tratasse de flagrante falta de respeito, o que não era o caso, provavelmente não poderia fazer nada. E percebo que a vida das pessoas em geral, e a minha também, é assim, engolir imposição atrás de imposição, coisa que apenas é amenizada quando se tem a sorte de trabalhar num sítio em que as pessoas procuram ser amenas e fingem que são todas iguais. É um fingimento, mas ajuda a suportar o dia-a-dia, acho eu.
E voltando à escrita. Vi ontem uma entrevista antiga com Saramago, na RTP Memória, e ele dizia que não percebia o conceito de arte pela arte, que o escritor não vive em torres de marfim, o escritor é um homem que vive no mundo, para o mundo, para as pessoas. E que os livros se fazem disso, de pessoas, de mundo. Eu acho que concordo (embora a ideia da torre de marfim me agrade), e precisamente por isso, porque o escritor é do mundo, seria bom haver escritores a viver apenas e só do mundo, para a escrita, sem necessidade de mais nada, sem necessidade do emprego do Kafka na repartição, por exemplo. Como diz Rilke, e como já citei e volto a fazê-lo, as profissões são todas assim, cheias de imposições, cheias de hostilidade contra o indivíduo, embebidas de ódio, por assim dizer, daqueles que cumprem mudos e a contragosto os seus insípidos deveres. Não há nenhuma profissão que seja larga e espaçosa o bastante, que esteja em relação com as coisas maiores que fazem a vida genuína.
E para acabar, é bom que fique claro que não estou aqui a dizer que o desemprego é benéfico e etc. Sei que o desemprego é trágico, e este post, ao falar de "emprego", não visa sequer tocar neste assunto. Apenas digo que os empregos, quando se arranjam, nem sempre respondem a tudo o que nós queremos. Às vezes, até nos emaranham mais a vida. Como diz Truman Capote citando Santa Teresa d'Ávila (eu cito Capote e por isso vai em inglês), more tears are shed over answered prayers than unanswered ones.
E por hoje é tudo.

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Ataque fácil

Não diferindo grandemente das pessoas que gostam de criticar livros que já se sabe que são maus, vou aproveitar e lançar a minha facadinha inconsequente não ao livro 50 Shades of Grey, que não li nem vou ler, mas antes à sua autora, EL James. O Guardian compilou uma lista de vários escritores que apresentam os seus livros preferidos de 2012 e, sem qualquer supresa, é evidente que a mesma EL James começa logo por se desculpar - It's been a whirlwind year for me so finding time to read has been difficult
 Muito mau. Muito mau, mesmo. Um "escritor" que diz que não teve tempo para ler, que começa a justificação das suas leituras com esta desculpa desleixadíssima? Mesmo que eu fosse uma pessoa melhor, que não sou, isto presta-se tanto ao enxovalho que não sou capaz de resistir ao dito enxovalho, e daí passar imediatamente para a afirmação seguinte, que é a que duvido muito que a EL James seja verdadeiramente uma escritora. Ora compare-se a sua horrível desculpa com o que diz a grande Sue Townsend: Have you ever seen Mr Magoo standing on the end of a girder, arms outstretched over the void? Well, I'm Mrs Magoo. I've not been able to read a book without a magnifier since I turned into her 10 years ago. But I didn't stop buying books...
A Sue Townsend tem tido problemas de saúde graves, e comoveu-me o amor que revela por livros e pela leitura, tão diferente da leviandade da outra James. 
Livros escritos por quem não gosta verdadeiramente de ler, por quem consegue viver sem ler, não podem ser bons, e este é um excelente argumento, se outros não existissem, para não perder tempo com o tal 50 Shades. E porém, tenho de ser absolutamente honesta e dizer que eu bem posso estar para aqui a criticar a EL James, que se presta a ataques fáceis, mas a verdade é que ela conseguiu publicar um livro que muita gente tem interesse em ler, e eu não; que ela pode confortavelmente viver da sua escrita, e eu não. De modo que ela ganhou, e eu não. Não muda em nada a crítica que lhe dirijo, mas enfim, certas coisas têm de se admitir.

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

A minha Joan, sempre "aquela" diva

O cinema não teme, o cinema não deve

Este artigo do Público, ao qual cheguei via facebook, é interessante porque fala daquilo "que o cinema deve à literatura". Não sei se concordo inteiramente com esta ideia de que o cinema deve algo ao que quer que seja, porque me parece minimizar o cinema como arte, mas a verdade é que se ouve sempre falar de grandes filmes baseados em grandes livros, sendo que o inverso raramente acontece; também é frequente o filme ser francamente pior do que o livro, o que nos pode fazer chegar à conclusão de que a literatura é a arte maior e o cinema uma arte irredutivelmente, inevitavelmente menor.
E porém, todos sabemos que não é assim, de modo que o que eu gostava de descobrir são os casos em que o filme é francamente melhor do que o livro, ou tão bom quanto o livro. Penso que já escrevi que, na minha opinião, Lolita  do Kubrick é tão bom como o original de Nabokov; apesar de nunca ter lido a Última Hora (25th Hour no original), de David Benioff, aposto, e aposto mesmo, que este livro será claramente inferior ao filme maravilhoso de Spike Lee com o mesmo nome. O conto que deu origem a Brokeback Mountain, apesar de ser muitíssimo diferente do filme,  é tão bom como o filme, mas não o ultrapassa (mais uma vez, apenas na minha opinião); nunca li o Padrinho, de Mario Puzo, mas estou igualmente disposta a apostar que ou é pior do que o filme ou tão bom como, mas não melhor; E Tudo o Vento Levou, que me dei ao trabalho de ler por gostar muito do filme, é bastante inferior ao magnificente e arrebatador pastelão melodramático e lindo que é o próprio filme. E o que dizer da dupla 120 Dias de Sodoma, Marquês de Sade/República de Saló, Pasolini? O que dizer? Alguém que responda a isto, por favor, já que eu não li o livro nem vi o filme, por falta de engenho, arte e estômago; no entanto, gostaria de poder opiniar sobre os mesmos (idem aspas para a saga Twilight; por acaso, tenho uma amiga que disseca os livros e os filmes e farta-se de protestar contra aquilo e acha que é tudo uma manobra nojenta e manipuladora dos Republicanos mais extremos lá dos States e etc. e tal, e ou ela tem razão ou leu a converseta toda nalgum lado, mas de qualquer forma, o que ela diz parece fazer sentido; eu vi o filme em que a Bella tem o bebé e meu Deus, se há visão mais castigadora da sexualidade adolescente e da emancipação feminina, não estou a ver, nem quero ver).
Continuando. Só me consigo lembrar destes exemplos. No fundo, apenas queria dizer que a arte, quando nasce, é para todos, e que o cinema é arte a par da literatura, sendo ambos, até, relativamente semelhantes. Assim, o que há a fazer é complementá-los, isto é, há que ler bons livros e ver bons filmes e exigir sempre bons filmes e bons livros para nos salvar a vida. Sem isso, a gente não vive. 

terça-feira, 27 de novembro de 2012

The Plot Against America, Philip Roth (SPOILERS!)

Breve nota (adoro esta expressão: "breve nota") para comentar o livro que recentemente acabei de ler, The Plot Against America, de Philip Roth. 
Foi o primeiro livro a sério de Roth que li. Há anos li "The Dying Animal" e não gostei muito. É daqueles livros que nos deixa um bocadinho indiferentes, nem bom nem mau, nem carne nem peixe, acho eu. No entanto, este Plot.. é bem giro, bem construído, e em geral bastante catita. Tem, contudo, uma falha grande que não consigo ultrapassar, que é aquele fim absolutamente desajeitado. Ora pensem comigo (outra expressão parva que adoro): Lindbergh é presidente, a América é varrida por uma grave onda anti-semita, a sombra ameaçadora da Alemanha nazi paira sobre a soberania dos Estados Unidos; de repente, Lindbergh tem um acidente de avião, desaparece, especulação para aqui e para ali para saber o que lhe aconteceu, a Primeira-Dama é raptada da Casa Branca e a presidência é ocupada por um facínora ainda pior que o Lindbergh, que permite que violentíssimos motins e rixas produzam uma noite em tudo semelhante à Noite de Cristal e que morram centenas de judeus, isto na terra da liberdade que deveriam ser os Estados Unidos; de repente, a Primeira-Dama, viúva de Lindbergh, escapa do colete de forças em que a haviam aprisionado, regressa à Casa Branca, diz que isto assim não pode ser, que se Lindbergh desapareceu tem de haver eleições outra vez, vai-se a eleições, felizmente ganha o Roosevelt e não o outro tal facínora, e depois de sofrimento e muita angústia e de anos a viver em efectiva ditadura, a vida volta mais ou menos ao normal, sendo que a lição a retirar é que a democracia facilmente se desmorona e se transforma em totalitarismo quando as pessoas não têm os olhos bem abertos e não defendem acerrimamente os seus direitos, liberdades e garantias. 
Esta é, sem dúvida, uma boa lição, mas o livrinho deixou-me assim um tanto ou quanto insatisfeita. Não sei, acho que falta ali uma personagem maior, mais desenvolta; por exemplo, a figura do pai Roth, que é uma figura tão interessante, fica sempre dependurada sem nunca obter o justo papel no romance que deveria ter, e o fim pareceu-me muito à pressa. As pessoas babam-se pelo Roth mas se calhar ele não é assim tão bom (digo eu, do alto da minha imensa e conhecida autoridade que qualquer dia me vai valer um Nobel ou coisa que o valha).
Mas atenção, o livro está muito giro e vale a pena ler.
Se alguém tiver lido o Plot... e tiver uma visão diferente da minha, ou igual, porreiríssimo, é usar caixa de comentários e assim "encertar" uma piquena discussão. 
Até breve.

Deve haver certamente outras maneiras de uma pessoa se salvar, senão estou perdida...

Andava aqui a ler o blog da Luna e deparei-me com o post em que ela se queixa dos reviewers que lhe fazem comentários estúpidos aos artigos que escreve; pensei que ela tinha toda a razão, porque esta coisa do "peer-review" é um processo absolutamente espúrio, em que normalmente a pessoa tem de se sujeitar a tudo os que designados "reviewers" se lembrem de dizer, mesmo que estes não percebam exactamente aquilo que estão a comentar. A minha área é bastante diferente da Luna, e consequentemente a minha experiência também, mas aconteceu-me os tais "reviewers", que não sabiam ponta de português mas sim de espanhol, darem sugestões desajustadas relativamente à tradução para inglês de certos termos em português, desvirtuando assim a relevância dos exemplos que eu queria dar. Aquilo irritou-me tanto, mas tanto, que decidi que seria preferível não ver a porcaria do artigo publicado do que andar a alterar informação só para que esta se tornasse compatível com os caprichos autoritários impostos pelo "peer-review". É um joguinho de autoridade que me agrada pouco, sendo que quem ficou a perder fui eu, o "underdog" que não publicou o tal texto, e isto porque hoje em dia o que conta são os artiguinhos publicados em toda e qualquer espécie de periódicos, mesmo que não prestem, que sejam variações ad aeternum do mesmo artigo, mesmo que as fontes bibliográficas não passem do chamado "name dropping" para impressionar o indígena e etc. e etc. (atenção: muitos parabéns e justiça seja feita aos investigadores que de facto escrevem coisas que interessam e que as publicam. Precisamos deles, eu é que não faço parte desse grupo). Mas enfim, e sumariando, falta-me fortemente a pachorra. Digamos que não quero saber.
E por não querer saber, vejo-me na iminência de ter de dar uma volta à vida de 180 graus (de 360 já dei muitas vezes e nunca saí do mesmo sítio - ah, ah, ah! Piadola, queiram desculpar, bem haja).  Tem de haver forma de a pessoa viver a vida e poder dizer "eu, de facto, quero saber. Importo-me.". É disto que estou à procura; e porém, tenho sentido grande falta de orientação. Preciso de um pouquinho de orientação, como diz a Kika no final do filme do Almodovar. 
De modo que assim sendo, boa sorte para mim e para todos nós, porque no fundo, como canta o Sérgio, cá vamos andando com a cabeça entre as orelhas e se calhar mais não podemos pedir.

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

A bola de cotão

Há muitos anos, passei um Verão a viajar por todo o lado, tendo o périplo começado num comboio que ia de Santa Apolónia a Hendaia, sendo que aqui, no meio dos Pirinéus, a gente saía (era o "transbordo") e apanhava outro comboio que atravessava a França inteira e desembocava em Paris. Espectacular.
Bom, eu tinha decidido que o melhor era poupar todos os trocos que conseguisse e reservar um lugar normal no comboio, passando a noite a dormir no banco e não naqueles vagões-cama com beliches. Assim como assim, as minhas insónias não se iam deixar abater por beliche alheio, de modo que o banquinho normal estava perfeito, ao pé da janela e tudo, a ver as vistas. Tive sorte com os companheiros de viagem, porque ao pé de mim sentaram-se uns rapazes giros que iam não sei para onde (tenho a vaga ideia de que iam de comboio até à Grécia, mas não me lembro) e um senhor muito querido e simpático, este sim, também com destino a Paris. E o senhor, como é normal, começou a conversar e a contar coisas da vida dele - que toda a vida tinha trabalhado em França mas que agora, já mais velhote, vivia em Portugal para estar perto da filha e dos netos. No entanto, de vez em quando, dava-lhe jeito trabalhar em França, e apanhava o comboio para Paris, suportando assim, ciclicamente, aqueles dois dias de viagem. 
Lembro-me de termos chegado a Paris e de nos termos despedido calorosamente e de ele me ter tratado por "Ritinha", dizendo qualquer coisa como "adeus, Ritinha, corra tudo bem, tenha uma boa viagem a partir daqui". E lembro-me de o ver a afastar-se, de boné na cabeça, e a carregar uma mala pesada, daquelas antigas sem rodinhas, daquelas que a Linda de Souza designaria por "mala de cartão".
E lembro-me de ter pensado que, se fosse escritora, pegava naquele senhor e escrevia um livro inteiro a partir do episódio em que o conheci. Nunca consegui. 
E hoje em dia penso que, se calhar, nunca consegui porque não há mais nada para dizer. A vida, se calhar, é mesmo só isto, estes pequenos episódios em que conhecemos pessoas e elas, por alguma razão, deixam uma memória. Mas não dá para fazer mais nada com essa memória. Começou e acabou, pronto.
Os Saramagos, os Hemingways deste mundo estão, no fundo, a escrever sobre eles, sobre a tralha que eles carregam e que de alguma forma tem de sair cá para fora. Não escrevem verdadeiramente sobre os outros. 
Eu não tenho tralha suficiente para escrever, e isso entristece-me. Ou por outra, tenho, toda a gente tem, mas a minha está lá para o fundo, recusa-se a sair e é como ver uma bola de cotão debaixo da cama, a gente querer lá ir com o aspirador, e o tubo ser curto de mais e ficar a bola de cotão debaixo da cama para sempre, a crescer, cada vez com mais cotão, sem nada nem ninguém que a consiga limpar. Os Saramagos e os Hemingways deste mundo são pessoas higiénicas, ao passo que eu não sou. E isso custa um bocadinho. 
O senhor era mesmo querido. Espero que tudo lhe tenha corrido bem. Sinceramente. 

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Brideshead Revisited e considerações inconclusivas

Com isto tudo e com a bandeira ao contrário, esqueci-me de dizer que já acabei de ler Brideshead Revisited, obra que recomendo. E porquê?
A princípio, e apesar de se tratar de um livro muitíssimo bem escrito, a historiazinha irritava-me um tanto ou quanto. A personagem de Sebastian como Rei-Sol, toda aquela atmosfera de deslumbre e fascínio pela aristocracia, parecia-me pouco interessante, de tal forma que comecei a pensar que, se era para ler um sonho húmido sobre a aristocracia inglesa, conseguia o mesmo efeito a ver o Downton Abbey ou coisa que o valha. E porém, convém que não nos deixemos enganar pelas erróneas primeiras impressões (as minhas primeiras impressões são quase sempre erróneas, mal informadas e desleixadas), e ainda bem que levei o mote a sério e persisti na leitura do livrinho, já que este se veio a revelar como o oposto (quase o oposto, vá) daquilo que eu pensava. 
Na verdade, quanto mais penso em Brideshead, mais o encaro como um relato bastante desiludido de um admirável mundo prometido que não encerra mais do que desilusões e mentiras. E esta conclusão baseia-se em coisas várias - o destino do pobre Sebastian que, de tão acre face à magnificência insuportável da família, prefere encafuar-se num mosteiro longínquo, desterrado, bêbedo, alvo de pena e caridade; Cordelia, tristonha, solitária; Julia, tomada de tanta religião e aristocracia que recusa uma história de amor que talvez lhe trouxesse alguma felicidade; o capitão Charles Ryder, o narrador que, por se ter metido com gente acima daquilo que a sua vã filosofia conseguia alcançar, termina, nas suas próprias palavras, sem filhos, sem casamento, sem amor, sem nada; o patriarca dos aristocratas Flyte, que percorre a Europa com a amante em constante fuga da esposa legítima, e que no fim da vida não consegue nada de melhor do que o perdão espiritual, um sinal da graça de Deus - em si mesmo, é algo poderosíssimo, claro, mas não deixa de representar igualmente o falhanço das opções que este homem tomou em vida, como marido, como pai, como ser humano.
E tudo acaba em apagada e vil tristeza, a sumptuosa Brideshead uma penosa memória da fortuna de outros tempos que acaba por não trazer nada de bom a ninguém.
Evelyn Waugh explica, no prefácio à obra, que o excesso com que às vezes se descreve a família Flyte, o palacete onde viviam, as festas, a riqueza, tinha a ver com nostalgia de um passado que ele receava ter-se perdido para sempre (diz logo a seguir que toda esta nobreza se levantou das cinzas e regressou aos palacetes, embora ele, na altura em que escreveu o livro, não pudesse prever tal ressurgimento). A graça é que essa nostalgia do passado (um passado aristocrático do qual quase ninguém no mundo, nem em Inglaterra, faz parte) continua bem presente hoje em dia, sabe-se lá porquê. O que mudou foi o "medium", já que agora as pessoas suspiram por épocas mais benevolentes e esteticamente aprazíveis quando vêem televisão, nomeadamente séries de época como a supra mencionada Downton Abbey. 
E esta nostalgia, este suspirar contente, é aquilo de que eu, não deixando de perceber, discordo. Sem dúvida que esta série está muito bem feita, mas não deixa de ser um apagar completo das contradições, dos conflitos de classe que sempre existiram e continuam a existir, especialmente se há criados e patrões  a viver na mesma casa. E chateia-me um bocadinho que esta visão falsamente benévola do mundo seja tão popular, um mundo já descrito por alguém como "upstairs, downstairs", em que todos sabem o seu lugar e satisfazem-se com isso; um mundo em que o dono do palacete é bonzinho e querido e justo para os seus empregados, fazendo com que nós, a audiência, pense que afinal este modo de vida, pouco distante do feudalismo, era tranquilo, aprazível, aceitável. Faz lembrar a morte de Vilaça n'Os Maias, em que as suas últimas palavras são "saudades ao patrão". Tristes últimas palavras. 
Talvez tudo isto seja inevitável. Como bem explica o "dilema dos Habsburgo", sobre o qual já escrevi não sei bem quando, temos sempre a tendência para relembrar certos momentos do passado  evocando apenas a sua beleza perdida, uma glória que talvez nunca tenha existido, o esplendor na relva. Quando esse passado nem sequer nos pertence, então o esplendor é ainda mais fácil de embelezar e, consequentemente, é também ainda mais fácil sentir saudades do que nunca tivemos. 
E penso que por hoje chega de filosofia de café, excepto para dizer que me ofereceram a edição especial do Brideshead em DVD, com o agradabilíssimo Jeremy Irons, e vou eu e descubro que aquilo é região 1 e só funciona nos States. E depois queixam-se dos downloads, da internet e tal. 

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Coisa que não percebo inteiramente: autocolantes nos carros a anunciar que se transporta um bebé

Não percebo muito bem a utilidade disto, porque aquele condutor que é irresponsável e descerebrado pensa sempre que pode andar à velocidade que quiser que nunca provocará um acidente, de modo que não deve querer saber se há ou não bebés nas outras "viaturas", como diria a GNR. E enfim, se se está no pára-arranca no trânsito e se vê o carro à nossa frente com o autocolante "bebé a bordo" fica-se mais ou menos na mesma - não é do meu interesse ir contra o outro carro, porque ainda por cima se chocar por trás a culpa é automaticamente minha, com ou sem criancinha. E não dá jeito andar a pagar mais seguro. 
No entanto, embora as minhas faculdades mentais não compreendam totalmente a utilidade destes autocolantes, consigo compreender que os pais mais preocupados o escarrapachem nos vidros traseiros das suas "viaturas". O que as minhas faculdades mentais e estéticas condenam, sem que eu consiga controlar, são as variações dos autocolantes "bebé a bordo" - "princesa a bordo"; "pestinha a bordo"; "Tiago a bordo" (o pessoal acha graça anunciar o nome dos filhos ao mundo - porquê?) e quejandos. É quase tão mau como aquele autocolante da menina de chapéu e cabelo comprido que dantes se via muito. Por acaso o autocolante  da menina é de facto péssimo, ao passo que os autocolantes respeitantes a bebés, em boa verdade, até se suportam, mas pronto. 
Conclusão - isto da UGT e CGTP não se entenderem no sentido de uma greve geral num momento destes é assim, tipo... nojentinho. 

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Fala com o povo

Eu adoro as pessoas que estão convencidas de que o "povo" não são elas, é uma espécie de massa quase anónima que partilha entre si os mesmos gostos, pensamentos, ideias, e talvez até roupa e casa. Assim uma espécie de pessoas que passam dificuldades, ganham pouquíssimo ("lá por ele só ganhar 1000 euros não quer dizer que não possa ficar com a custódia da filha, não acha?" Acho, claro que acho), e são quase espécimes de jardim zoológico. Ainda noutro dia tive de ir à casa de banho lá do trabalho e ouvi uma senhora, possivelmente colega, embora eu não a conhecesse, no compartimento ao lado, a dizer que o carro avariou e teve de se deslocar de autocarro, "vi imenso povo, adorei o povo!", e ria sinceramente com a amiga ao telefone. Não estava a contar nenhuma anedota, estava mesmo a falar a sério. Eu também adoro estes espécimes que adoram o povo, eles próprios dotados de grande interesse zoológico e etnográfico, até. 
E uma vez estava a almoçar, em contexto profissional, e a superiora hierárquica decide entabular conversa com as senhoras que serviam as refeições, porque de vez em quando é giro, e por acaso o almoço até era peixe, que normalmente é um factor que os portugueses têm em comum (o gosto por peixe), de modo que falar de peixe é falar do tempo, serve toda e qualquer situação; e assim se começou uma conversa sobre peixe, ai eu gosto deste peixe, não gosta também?, e sabe, uma vez comi não sei onde, com o meu marido, um peixe fresquíssimo, fresquíssimo, que me soube lindamente, porque eu estava cheia de fome, e soube-me tão bem que decidi perguntar ao senhor do restaurante que peixe era aquele, e sabe que peixe era?, sabe que peixe era? - as senhoras do almoço olham a superiora hierárquica esforçando curiosidade - imaginem, era charro! Era charro. Como é que é possível, não é, de facto, quando se está com fome...
Tive tanta vergonha. 

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Devia estar calada

Agora com a crise e as manifestações e esta falta de respeito por todos nós, "o povo", e quem se lixa é sempre o mexilhão e isso, tenho andado a pensar na prostituição, mas não como alternativa para mim, felizmente; é mais na prostituição como fenómeno social. Por acaso, ainda ontem vi um bocadinho do Estado de Graça, aquele programa da RTP, e apareceu um sketch com umas prostitutas a que eu achei piada. O Joaquim Monchique fazia de prostituta mais velha e usava joalheiras, de modo que parecia uma peregrina de Fátima, e eu fiquei a pensar para que é que o tinham caracterizado de peregrina de Fátima, as joalheiras não estavam ali a fazer sentido nenhum,  será que a ideia era fazer de prostituta religiosa?, e só hoje de manhã, ainda intrigada com o mistério das joalheiras, é que finalmente percebi a utilidade que este elemento protector de vestuário pode representar para uma prostituta. De facto, não são só os peregrinos de Fátimas que precisam de joalheiras, vestimenta que apresenta grande polivalência em actividades de índole vária, e eu sou tão parva que não percebi logo. Ri-me imenso, para atenuar. 
Continuando, e agora a sério. A prostituição sempre me fez impressão, como acho que é o caso em qualquer pessoa normal. Ainda me faz mais impressão ouvir pessoas que declaram com grande autoridade que só é prostituta quem quer, ou que "não é um trabalho digno", como recentemente ouvi. Não posso deixar de concordar que não é um trabalho digno, na medida em que eu não gostaria de ter este trabalho, mas ao mesmo tempo não considero que seja um trabalho indigno, ou por outra - as pessoas não se tornam indignas por ter este trabalho. Aliás, nem foi exactamente isto que eu ouvi, foi mais "é um trabalho que não dignifica". Pois. O que eu acho que não dignifica mesmo é ir no Seat Ibiza (ou Mercedes, ou BMW - uma vez vi uma entrevista a um travesti prostituto que dizia que não tinha nenhum cliente que andasse num Fiat Punto. É assim, as pessoas têm os seus gostos a nível de carros e a nível, vá lá, de gostos em geral), dizia, o que não dignifica é ir a um parque à noite - como diz o grande Herman a encarnar Nelo, "vá a um Campo Grande, a uma Cidade Universitária à noite e veja a quantidade de rapazes que se atiram a nós. Se calhar é para assaltar, não sei, que eu pego na pochete e ala, tumba, tumba, tumba, atravesso o parque e não dou conversa a ninguém". 
O que eu queria dizer, na verdade, não é nada daquilo que acabei de escrever. Mais do que dizer, queria reflectir sobre isto de uma pessoa, do alto do seu conforto de classe média, vir anunciar que a prostituição não é digna nem dignifica, ou alguém como eu, aconchegadinha no lar, em frente a um écrã de computador, vir para aqui pontificar sobre trabalhos dignos e indignos e pessoas de Seat Ibiza que vão para parques à noite. É estúpido.
E, por este post ser estúpido, retiro daqui a lição que queria retirar - até passarmos por determinadas situações, o melhor é estarmos calados, que é fácil falar de barriga cheia, como o meu pai está sempre a dizer. E por isso deixo um quadro de Salvator Rosa de que gosto muito, muito, muito, muito, e que sabiamente aconselha: fala melhor do que o silêncio, ou silencia-te.
Posto isto, já falei demais e vou silenciar-me. Acresce que também tenho de ir jantar.

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Telefonas ao papá e ele orienta-te

A Lena Dunham, ao que parece, é o sucesso do momento e tem uma série chamada Girls, já de grande popularidade; antes da mesma série escreveu e realizou um filme indie denominado Tiny Furniture. Vi o filme e um episódio da série e não tenho muita coisa a dizer que não argumentos que outros já escreveram - não fiquei convencida porque tanto em filme como em televisão tudo aquilo me parece um relato pouco interessante de miúdos sem grande coisa a dizer. 
Fala-se da Lena Dunham, que tem uma beleza tão pouco convencional e mesmo assim faz imensas cenas de sexo, e de como os encontros sexuais são esquisitos, frios, sem aquela magia do cinema a que estamos habituados, e de como o não encontrar emprego e depender dos pais e tentar encontrar um caminho na vida são temas tão realistas e tão bem desenvolvidos, talvez porque aquilo que escreve tenha um veio muito autobiográfico.
Eu achei que não, que não eram temas bem desenvolvidos. Esta Lena não tem culpa de ter nascido num meio cosmopolita privilegiado, com dinheiro, com amigos artísticos e tal. Não só não tem culpa, como é de louvar que uma pessoa com, aparentamente, tão poucas preocupações tenha tido o empreendedorismo e o talento de transformar a sua vidinha em produtos mediáticos que agora lhe dão dinheiro (imagino que já não viva com os pais). Mas a verdade é que não consegue dizer grande coisa que se aproveite, nem ela nem as personagens que ela inventa, ou em quem se baseia. 
Não digo que a única ficção sólida e digna de elogio seja o "kitchen sink drama" à Ken Loach ou neo-realismo italiano ou coisa que o valha. Apareceu por aí um filmito há uns tempos, "Fish Tank", sobre a adolescente alienada e pobrezinha dos bairros sociais ingleses, que parecia muito decente mas que também não era nada de especial. 
Aquilo a que quero chegar, penso, é que um filme, ou uma série, ou um livro que valha o nosso esforço e atenção tem de ter alguma honestidade que compense a sua eventual superficialidade ou vacuidade. E os Pulp cantam uma coisa muito importante e que explica isto - "you'll never live like common people, because when you're in bed at night, watching roaches climb the wall, if you call your dad, he can stop it all". E aquilo que os Pulp dizem é absolutamente verdadeiro e eloquente, quanto a mim. 

PS - o poster é um ataque fácil, eu sei, mas achei tanta piada que tive de postar aqui. E também deixo a cançãozinha dos Pulp porque gosto tanto dela que não resisto. Bem haja.

Livros fáceis e difíceis

Meu Deus, dois meses e tal sem escrever. Ah, vida, erros meus, amor ardente. São estes os culpados, já dizia Camões.
Bom, passando ao que interessa. O Guardian tem uma lista daqueles que são considerados os livros mais difíceis de ler, com base nos critérios que a seguir se enunciam: "their length, or their syntax and style, or their structural and generic strangeness, or their odd experimental techniques, or their abstraction". 
De modo que, na mesma lista, figuram obras como A Fenomenologia do Espírito, de Hegel, e To the Lighthouse, da Virginia Woolf, entre outros. Curiosamente, o Ulysses não consta, embora Finnegan's Wake lá esteja. Nunca li nem um nem outro, mas não duvido que sejam dificílimos. 
E porém. Isto de um livro ser "fácil" ou "difícil" é uma coisa estranha e ambígua, especialmente se atentarmos apenas a critérios formais, como o são essas entidades amaldiçoadas tipo "sintaxe", "estilo", "técnicas". A abstracção também é traiçoeira. Um dos livros mais fáceis (e piores) que li, The Awakening, da Kate Chopin, tinha alguma abstracção. A cena final até é digna de ser descrita como condignamente abstracta. Pelo menos simbólica, vá. 
A minha ideia principal é que o livro normalmente apelidado de "fácil" é enganoso, porque na verdade não é fácil, é difícil. Ler Paulo Coelho é difícil porque é seca. Conclusão: os livros de Paulo Coelho são difíceis. Também li uma vez um livro da Rita Ferro e considero que foi dos mais difíceis que li, porque era tão chato que não consegui acabar. Resultado: os livros de Rita Ferro são difíceis. 
E venham agora dizer que os meus exemplos são tão lugares-comuns que até faz impressão, olha esta parva a dizer mal de Paulo Coelho e Rita Ferro e Nicholas Sparks, que exemplos tão estafados, só lhe falta incluir a Margarida Pinto Rebelo. Desta, não li os livros, mas li uma crónica(zeca) que andou por aí a circular sobre  as "gordas" e devo dizer que foi muito difícil de ler. Foi penoso, digamos. Mas dou outros exemplos - sobre um dos livros mencionados na lista, To the Lighthouse, posso comentar porque li, e poderei talvez dizer que é difícil, mas não necessariamente pela sintaxe, ou abstracção, ou experimentação técnica. Achei difícil porque não gostei muito, penso que foi mais isso. A nível técnico, não considero que haja algum leitor que leia este livro e seja incapaz de perceber pelo menos alguma coisinha do que lá se passa - não desmerece em nada a obra, até a engrandece, penso; a conclusão a que quero chegar é que um livro não é fácil ou difícil pelos seus aspectos formais, tirando algumas excepções como o Som e a Fúria - um livro que dá vontade de ler mas que, pelo menos até chegarmos mais ou menos a metade, cria resistência por ser difícil. O mesmo se poderá dizer de Waste Land, propositadamente escrito para ser "difícil", e de certa forma é - mas acaba por não ser, se insistirmos e conseguirmos decifrar o código.
E de livros fáceis e propósito de códigos, o que podemos dizer? O Código Da Vinci não me custou a ler. Até li bastante bem e achei divertido (exceptuando o final, que é muito preguiçoso e estúpido). O homem (Dan Brown) pode ser um mentiroso ganancioso, mas o livro lê-se bem. Este sim, é um livro fácil.
Os livros da PD James, que eu adoro, são fáceis de ler, e não é por isso que são maus. À partida, qualquer bom livro devia ser igualmente um livro fácil porque atrai o leitor - e daí eu não concordar necessariamente com os critérios formais que definem livros fáceis e difíceis.
E foi isto que eu consegui arranjar para, ponto um, voltar a escrever, ponto dois, distrair-me do massacre que ocorre no mundo e no país, que me deixa tolhida e incapaz de fazer coisas. Como quero voltar a fazer coisas, voltei a escrever aqui.
Obrigada e boa continuação. Boa noite e boa sorte. Até a uma próxima.