Talvez devido a estes tempos de horror que vivemos, tenho lido muita literatura policial, mais especificamente aquela escrita por PD James. Ler sobre crimes e violência ficcionais alivia-me. Pode ser um bocado parvo, mas é verdade.
Voltando a PD James. Gosto muito dela, porque sabe contar e desvendar um bom mistério, sem se esquecer das personagens. Há romances policiais pouco interessantes porque se concentram só na história e nos pormenores do crime, esquecendo as pessoas que fazem parte do mesmo, mas a PD tem o cuidado de nos lembrar que, para haver mistérios e crimes, é preciso primeiro haver pessoas, de modo que humaniza as suas personagens de uma forma doce, toda psicológica e certinha, que acaba por adensar ainda mais o mistério ao conferir-lhe mais realismo.
O Poirot da PD James é o detective comandante super-importante xpto Adam Dalgliesh, cujo pai era vigário, sendo ele, Adam, poeta part-time, condutor de um Jaguar, heterossexual frustrado porque é fundamentalmente casado com a profissão, sendo obrigado a negligenciar as suas gajas, sempre professoras em Cambridge ou coisa que o valha. Mas Dalgliesh é estóico e aceita que um homem na sua condição não pode ter tudo, para poder continuar a ter quase tudo.
Comecei por ler The Black Tower, uma das primeiras aventuras de Adam Dalgliesh. Depois passei para o Murder Room, que é mais recente. São os dois bonitos, mas o primeiro, The Black Tower, é o mais bonito, assim louro de olhos azuis, ao passo que o Murder Room é, digamos que, moreno de sobrancelhass grossas, mas interessante. Em Black Tower, há uma grande sensibilidade relativamente às personagens, algumas delas comoventes, tanto mais que a acção se desenrola num lar para pessoas incapacitadas e sem mais nenhum sítio para ir. Um pormenor que quase faz chorar é quando Dalgliesh examina o cadáver de uma das vítimas, uma senhora mais velha, muito gentil e doce, muito educada, que lamentavelmente é assassinada pelo carrasco cuja identidade não vou revelar, caso alguém vá ler o livro. A senhora estava vestida com a melhor camisa de dormir que tinha e que havia deixado entre os seus pertences, caso precisasse de uma roupinha um bocadinho melhor. É uma camisa de dormir longa, branca, com um grande laçarote no pescoço, feia. Dalgliesh repara que tem um remendo no cotovelo, um remendinho que fora cuidadosamente arranjado e cosido, e fica comovidíssimo sem sequer sabe explicar porquê, a olhar para o remendinho no cotovelo.
Eu acho que percebo o Adam Dalgliesh, e que o remendinho me matava, se o visse. Ando muito sensível a peças de vestuário, ultimamente.
No Murder Room, o mesmo Adam Dalgliesh continua atento e sensível, mas muito mais James Bond, mais homem do mundo, cosmopolita e tecnológico. O James Bond é um herói da treta, quanto a mim, um chato de primeira sem qualquer qualidade que o redima, um homem de meia idade de pança ao volante de um BMW branco a pensar que a estrada é dele. Dalgliesh não chega a este ponto, mas vai endurecendo à medida que o tempo passa.
Moral da história. E agora, tal como este país, vou vestir a minha camisinha de dormir com remendinhos.
domingo, 16 de outubro de 2011
sexta-feira, 7 de outubro de 2011
O vestidinho
Estava à espera de um filmito melhor. A Jane tem uma história tão intensa, tão cheia de matéria fílmica, pelo menos eu acho que sim, aquele desolamento, a orfandade, o amor contrariado, a mansão gótica, a louca desvairada, e este filme vai-se a ver (bela expressão) e arruma tudo num segundito, tudo contado à pressa, tudo sem graça nenhuma.
E porém, acertaram nos actores. Gostei muito da menina que faz de Jane, a Mia qualquer coisa, de quem não tinha gostado na Alice no País das Maravilhas, mas que aqui está muito bem, introvertida, sensível, magrinha, pequenina, metida para si, intensazinha. Fez uma bela Jane, achei eu. Gostei particularmente das vezes em que aparecia a passear enfiada em pensamentos, de mãos na cintura. Realçava uma cinturinha fina, uma postura inteligente e decidida como a Jane devia ter, se existisse.
E isto fez-me lembrar o dia em que tive a sorte de ir ver a casa das irmãs Bronte, em Haworth, que é uma vilazinha no Yorkshire. Nada bonita, quanto a mim, nem a vilazinha nem aquela parte do Yorkshire em geral, aquelas charnecas, aquele desolamento, embora reconheça que, objectivamente, nada daquilo é propriamente feio. Enfim. Dizia, houve um dia em que fui visitar a casa das irmãzinhas, e lá estava o sofá verde, acho que era verde, em que a Emily tinha morrido, e no andar de cima estava um vestidinho da Charlotte. Um vestidinho simples, redondo, com uma golinha branca sem muito adorno, uma cintura fina, usado por alguém magrinho, enfezadinho, encabulado.
E fiquei ali a ver aquele vestidinho, que não parecia pertencer a ninguém com mais de dez anos e tinha no entanto pertencido a uma Charlotte Bronte adulta. Eu ali, com o dobro do tamanho daquele vestido, o dobro da cintura, das pernas, recheada de carne por todo o lado, anos de boa nutrição e indulgência bem à vista, de calças de ganga que me serviam, de casaco comprido, de sapatos quentes. Eu, que nunca perdi nenhum amigo na infância, nem nunca fui mandada para um colégio interno para meninas pobres onde se passava fome e frio e onde se morria de tuberculose.
Aquele vestidinho, pá. Tenho-me lembrado dele (e pode ser visto aqui onde, julgo, não tem o efeito que tem ao vivo).
E porém, acertaram nos actores. Gostei muito da menina que faz de Jane, a Mia qualquer coisa, de quem não tinha gostado na Alice no País das Maravilhas, mas que aqui está muito bem, introvertida, sensível, magrinha, pequenina, metida para si, intensazinha. Fez uma bela Jane, achei eu. Gostei particularmente das vezes em que aparecia a passear enfiada em pensamentos, de mãos na cintura. Realçava uma cinturinha fina, uma postura inteligente e decidida como a Jane devia ter, se existisse.
E isto fez-me lembrar o dia em que tive a sorte de ir ver a casa das irmãs Bronte, em Haworth, que é uma vilazinha no Yorkshire. Nada bonita, quanto a mim, nem a vilazinha nem aquela parte do Yorkshire em geral, aquelas charnecas, aquele desolamento, embora reconheça que, objectivamente, nada daquilo é propriamente feio. Enfim. Dizia, houve um dia em que fui visitar a casa das irmãzinhas, e lá estava o sofá verde, acho que era verde, em que a Emily tinha morrido, e no andar de cima estava um vestidinho da Charlotte. Um vestidinho simples, redondo, com uma golinha branca sem muito adorno, uma cintura fina, usado por alguém magrinho, enfezadinho, encabulado.
E fiquei ali a ver aquele vestidinho, que não parecia pertencer a ninguém com mais de dez anos e tinha no entanto pertencido a uma Charlotte Bronte adulta. Eu ali, com o dobro do tamanho daquele vestido, o dobro da cintura, das pernas, recheada de carne por todo o lado, anos de boa nutrição e indulgência bem à vista, de calças de ganga que me serviam, de casaco comprido, de sapatos quentes. Eu, que nunca perdi nenhum amigo na infância, nem nunca fui mandada para um colégio interno para meninas pobres onde se passava fome e frio e onde se morria de tuberculose.
Aquele vestidinho, pá. Tenho-me lembrado dele (e pode ser visto aqui onde, julgo, não tem o efeito que tem ao vivo).
segunda-feira, 3 de outubro de 2011
Sinais exteriores de tudo e alguma coisa
Eu sou uma pessoa que gosta de ler coisas, coisas variadas e ecléticas, e portanto no outro dia estava a ler um livro sobre crianças e bebés. Era um livro muito bem organizado, com uma secção dedicada a apaziguar as preocupações dos adultos sobre esses seres misteriosos e indecifráveis que são, de facto, as crianças, e intentava responder-se à pergunta parva "como é que eu sei se o meu bebé de cinco meses é muito inteligente?". O livro começa por dar uma resposta, essa sim, inteligente - ainda é cedo para qualquer pai se preocupar com isso, e todas as crianças são especiais, com talentos que lhes são próprios. Exacto.
Mas depois continuava - "no entanto, se quer mesmo saber se o seu filho é especial, aqui está uma lista de pequenos sinais que podem indicar uma inteligência fora do normal - apontar para objectos, falar, pôr-se de pé, resolver equações, dar festinhas ao cão, ler Sartre, etc. e tal.
Eh pá. Isto agastou-me, sinceramente. Se há coisa penosa de ver são pais em ataques epilépticos a quererem que o seu normalíssimo, queridíssimo filho, ocupado com carrinhos e biscoitos cobertos de baba, seja o próximo Einstein, mas já agora com a aparência do Brad Pitt, se for possível. E ainda é mais irritante quando os pais não só acalentam estes desejos, como acreditam neles piamente, de modo que a criancinha cresce convencida de que é loura, de olhos azuis, linda de morrer e absolutamente sagaz, ainda que seja morena, peluda, gorducha, e sem saber sequer como se pronuncia Dartacão.
Tudo isto é triste. Tudo bem que esta nova geração (esta maltosa nova!) é diferente da minha, acho eu, mais convencida, mais empertigada, com a mania de que tem direito a tudo e de que sabe tudo, não sabendo quase nada, como é próprio da juventude. Mas entre esta arrogância e a certeza absoluta de que o mundo nos deve tudo ainda vai uma distância, distância essa que se encurta quando os paizinhos dão muita atenção a artigos um tanto ou quanto idiotas como aquele a que me referi no início do post.
E porém. Hoje estava a ler um artigo que considerei ligeiramente tenebroso, mas começo agora a compreender a razão de ser de certas coisas. Será que, nos dias de hoje, diria ainda Jesus "deixai vir a mim as criancinhas?" Ou diria antes "deixem lá, filhos, que eu agora não tenho vagar e não estou na disposição de ser gozado por uma data de fedelhos só porque não tenho um iphone. E não tenho porque não preciso, estou em todo o lado e vejo tudo, mas vocês não sabem disso, só ligam aos sinais exteriores de riqueza, os mesmos aos quais me oponho, e portanto faltavam-me ao respeito e quer dizer".
Pois é.
quarta-feira, 21 de setembro de 2011
Não tenho escrito muito.
Que grande constatação, tão verdadeira e acertada.
As razões da minha ausência explicar-se-iam muito facilmente se se prendessem com falta de tempo. E, de certo modo, tenho alguma falta de tempo, mas não é este o factor predominante. Felizmente, sempre fui e continuo a ser uma pessoa com tempo, que não gosta de trabalhar e que tem a sorte de ser suficientemente esperta para despachar o trabalho o mais depressa possível, consumindo o menor tempo e energia possíveis. Não espero muito, não dou muito, e consequentemente não recebo muito, mas sou amplamente recompensada em tempo, o que para mim é o mais importante.
E porém. Não tenho escrito. Estive meses sem perceber exactamente porquê, mas agora já percebi. A minha vida encheu-se de coisas importantes, coisas que preenchem, fazem pensar e trazem muita felicidade, aquele tipo de felicidade que não se consegue transmitir ou explicar sem entrar em pormenores mais pessoais, o tipo de pormenores que queria aqui evitar.
De modo que tem sido difícil pensar em coisas interessantes para escrever. Normalmente, as coisas interessantes, ácidas, sardónicas, vêm com uma certa dose de negrume que, como diz o outro, não me assiste. A felicidade não tem piada porque não precisa de ter - é a felicidade, e por isso nada a ultrapassa. A felicidade pode ser pirosa, entediante para os outros, foleira, mas é imbatível. E traz também com ela uma certa satisfação, uma certa paz de espírito que, para mim, se tem revelado incompatível com a escrita.
Portanto, a não ser que passe a desfiar urbi et orbi os detalhezinhos da minha vidinha, os mesmos pormenores que me deixam tão feliz, coisa que não vou fazer, acho que vou continuar sem escrever. Embora queira voltar a escrever, assim que tiver algo de inteligente para dizer. Não tem acontecido.
Quando descobrir como aliar a felicidade, coisa que eu nunca pensei ser tão avassaladora, com uma escrita que me satisfaça, volto a escrever. Espero que aconteça rapidamente.
Uma outra hipótese é começar a encetar esforços para tornar a minha Rua num blog de moda. Por exemplo, neste momento tenho umas havaianas calçadas. Havaianas é fashion... certo?
Pois. Também não vai dar.
Que grande constatação, tão verdadeira e acertada.
As razões da minha ausência explicar-se-iam muito facilmente se se prendessem com falta de tempo. E, de certo modo, tenho alguma falta de tempo, mas não é este o factor predominante. Felizmente, sempre fui e continuo a ser uma pessoa com tempo, que não gosta de trabalhar e que tem a sorte de ser suficientemente esperta para despachar o trabalho o mais depressa possível, consumindo o menor tempo e energia possíveis. Não espero muito, não dou muito, e consequentemente não recebo muito, mas sou amplamente recompensada em tempo, o que para mim é o mais importante.
E porém. Não tenho escrito. Estive meses sem perceber exactamente porquê, mas agora já percebi. A minha vida encheu-se de coisas importantes, coisas que preenchem, fazem pensar e trazem muita felicidade, aquele tipo de felicidade que não se consegue transmitir ou explicar sem entrar em pormenores mais pessoais, o tipo de pormenores que queria aqui evitar.
De modo que tem sido difícil pensar em coisas interessantes para escrever. Normalmente, as coisas interessantes, ácidas, sardónicas, vêm com uma certa dose de negrume que, como diz o outro, não me assiste. A felicidade não tem piada porque não precisa de ter - é a felicidade, e por isso nada a ultrapassa. A felicidade pode ser pirosa, entediante para os outros, foleira, mas é imbatível. E traz também com ela uma certa satisfação, uma certa paz de espírito que, para mim, se tem revelado incompatível com a escrita.
Portanto, a não ser que passe a desfiar urbi et orbi os detalhezinhos da minha vidinha, os mesmos pormenores que me deixam tão feliz, coisa que não vou fazer, acho que vou continuar sem escrever. Embora queira voltar a escrever, assim que tiver algo de inteligente para dizer. Não tem acontecido.
Quando descobrir como aliar a felicidade, coisa que eu nunca pensei ser tão avassaladora, com uma escrita que me satisfaça, volto a escrever. Espero que aconteça rapidamente.
Uma outra hipótese é começar a encetar esforços para tornar a minha Rua num blog de moda. Por exemplo, neste momento tenho umas havaianas calçadas. Havaianas é fashion... certo?
Pois. Também não vai dar.
domingo, 18 de setembro de 2011
We are are currently wealthy, fat, comfortable, and complacent. We have a built in allergy to unpleasant or disturbing information; our mass media reflect this. But unless we get up off our fat surpluses, and recognize that television, in the main, is being used to distract, delude, amuse, and insulate us, then television and those who finance it, those who look at it, and those who work at it, may see a totally different picture, too late.
Tirei esta citação do excelente filme de George Clooney, Good Night and Good Luck, que revi na TV há uns minutos (a citação em si foi copy paste do IMDB). Aquilo que se diz da televisão aplica-se, penso eu, aos meios de comunicação social em geral (rima, que cacofónico) - distrair, iludir, divertir e isolar. "Informar", pouco, e infelizmente mal. Sempre esta sensação de que estou a perder, como cantava Variações.
O mundo existe, está lá fora, e a gente nunca o consegue apanhar. Era bom que os media nos ajudassem na tarefa e fossem um exemplo de cidadania.
Não é o caso. Que pena.
Boa noite, e boa sorte para todos nós. Ou, como a língua portuguesa alegremente permite, para a gente todos.
quarta-feira, 24 de agosto de 2011
Atracção do abismo: Glee
A série Glee é daquelas que eu tenho vergonha de dizer que gosto. Na verdade, e na maior parte das vezes, é um programa que me irrita ligeiramente devido às interpretações péssimas que os miúdos fazem de canções de que eu até gosto. Esganiçam a garganta impossivelmente, são excessivamente formatados, fazem os movimentos todos certos, e o pior é quando olham uns para os outros a rir, muito horrivelmente, como hienas a estudar o ataque. Quem me irrita tanto que se torna impossível para mim não ver a série, porque o abismo me atrai sem possibilidade de resistência, é a rapariga principal, a Rachel, toda certinha, toda com voz à Celine Dion, que quase chora enquanto grita, bate com as mãozinhas no peito ou no ar e em geral tem todos os tiques exasperantes das más cantoras com boa voz. Entretenho-me a pensar no que faria a esta miúda se a conhecesse na vida real, e penso que puxar-lhe os cabelos com toda a força e dizer que ela é feia estaria no topo da lista. Sou tipo sádica.
E porém. Gosto da filosofia subjacente à série, a de que os miúdos totós, impopulares, conseguem alcançar o que querem porque têm moral e são boas pessoas. Gosto do conceito de série musical, apesar de me contorcer um bocado no sofá sempre que os miúdos começam com coreografias impossivelmente pirosas - fico sempre com aquela sensação arrepiante de vergonha alheia, às vezes nem consigo olhar. Mas depois aparece a má, a Sue, que me faz rir sempre, e continuo a ver, além de que os miúdos são pirosos mas são bonzinho e triunfam sempre, e eu gosto de ver os bonzinhos a ganhar.
Mas irrito-me bastante. Para comprovar isto, deixo abaixo um vídeo que eu penso que demonstra bem a vontade que se gera dentro de uma pessoa de fazer a estes miúdos saltitantes aquilo que se faz no Lucky Luke, e que é atirá-los todos para dentro de uma tina de alcatrão, cobri-los de penas e aplicar-lhes uma medida punitiva corporal, vulgo "pontapé no cu". Peço desculpa pelo vernáculo. Estou quase a dar o salto final para o abismo.
sexta-feira, 19 de agosto de 2011
True Blood, 4ª série - SPOILERS
Pronto, avancei na visualização dos episódios todos do True Blood disponíveis até agora, e a Sookie foi finalmente despedida, embora não propriamente pelo patrão - mas foi despedida. O mais engraçado é que ninguém deu por nada, nem o patrão, nem os colegas, nem os clientes nem nada. Penso que nem a própria Sookie deu pelo facto de ter sido despedida. Onde é que ela arranja dinheiro para sobreviver, são os vampiros que lhe dão? Esta é uma questão que eu gostaria de ver discutida.
Acrescento também que, embora lamentando a separação da Sookie e do Vampire Bill, estou a apreciar muitíssimo o romance entre a primeira e o Vampire Eric, que se tem pavoneado largamente em tronco nu, coisa sempre bonita de se ver. O actor que faz de Eric é muito profissional, de facto, e só por isso vale a pena visionar esta série.
E aquele genérico tão giro, é que é mesmo giro e lúgubre, o genérico.
Bom. Não tenho mais nada a dizer. Bem-haja.
quinta-feira, 18 de agosto de 2011
A livraria
A livraria da minha infância está em risco de fechar. Como é óbvio, é algo que me entristece muitíssimo. Apesar de ser já um lugar-comum, é verdade que a concorrência das grandes superfícies (não só supermercados - FNACs e afins também) torna, penso eu, a vida um tanto ou quanto impossível às pequenas livrarias.
Sei que pode soar petulante (estou-me marimbando, como se costuma dizer), mas não compro livros em supermercados, e por uma série extensa de razões, encabeçada, obviamente, pela pobre selecção que se encontra nestes locais. Normalmente, a mesma selecção apenas pode ser categorizada como "merda", e nunca pensei dizer isto acerca de qualquer livro, mas a verdade é que é um bocadinho impossível a pessoa não se exasperar com mais um volume de um "psicólogo", certamente auto-designado, que promete resolver o problema a pais e filhos, e mais uma biografia de vinte páginas com letra tamanho 20 sobre a Duquesa de Cascos de Rolha e Rallé, e a aventura estrondosa do médico que se tornou alcoólico, perdeu tudo e tudo voltou a reconquistar, e o novo romance da Gonçala Pitéu sobre uma fazendeira argentina que conhece um importante nova-iorquino cujo avião privado se despenhou na sua imensa propriedade, ele tem amnésia, apaixonam-se, ele recupera a memória e descobre que é riquíssimo e casam, não sem antes o nova-iorquino acabar com a bruxa da noiva que entretanto descobriu que tinha, e que faz tudo para o separar da argentina.
Continuando. A outra razão pela qual evito comprar livros em supermercados é porque, para mim, escolher um livro requer ambiente, atmosfera, calma. Num supermercado, "calma" é coisa que não existe. Em terceiro lugar, não penso que um livro seja um objecto que se faça equivaler a iogurtes e fiambre, e portanto não consigo evitar um certo sentimento de bizarria ao associar livros a supermercados.
Mas isto sou eu. Se os livros são consideravelmente mais baratos em supermercados, é evidente que é lá que as pessoas os vão comprar, e não podem ser criticadas por isso. E também é evidente que as livrarias, à excepção da Fnac, não conseguem concorrer com Continentes.
Por falar em Fnac. Na Fnac, compro de facto livros e tenho cartão Fnac e tudo. E é preciso dizer que, pelo menos no meu caso, o cartão Fnac tem valido a pena. Além de que a selecção da Fnac não é perfeita, e é até lacunar em muita coisa, mas sempre é uma selecção que ultrapassa em muito a Gonçala Pitéu e a Condessa de Cascos de Rolha e Rallé, o que é uma vantagem. Mas é também verdade que a Fnac arrasou com a concorrência toda e reina agora inabalável - o que faz com que uma visita à doce Assírio&Alvim no Chiado, resistente ainda e sempre ao invasor, valha ainda mais a pena.
E, perante isto, às vezes parece-me que a pura existência de uma verdadeira livraria, ie, um estabelecimento comercial que vende apenas e só livros, ao qual as pessoas se dirigem porque querem ler e comprar livros, dizia, a existência destes sítios parece-me quase milagrosa. E quando se ouvem estas histórias tristes de pequenas livrarias, em pequenas cidades, que fecham, é quase inevitável pensar que, daqui a poucos anos, as livrarias serão coisa do passado.
Eu não só espero que não sejam, como acho que de facto não são. Penso que as livrarias podem existir e prosperar, e eu espero que o façam. Como? Por mim, deixava de haver livros em supermercados, mas sabemos que isso não vai acontecer, e que as pessoas não vão passar subitamente a deixar de ir a supermercados quando querem livros, movidas por instintos de caridade ou solidariedade para com as pequenas livrarias. Mas estas últimas podem oferecer aquilo que supermercados e Fnacs não oferecem - actividades culturais, a tal "atmosfera", gente que sabe do que fala e que pode aconselhar, conversar sobre livros, uma oferta mais alternativa, a par da oferta mais comercial dos supermercados (porque, como se compreende, uma livraria tem de ter os best-sellers que vendem). Uma das recordações mais fortes que tenho da livraria da minha infância, a mesma em risco de fechar, é de ouvir a dona da mesma livraria conversar com as pessoas que procuravam este ou aquele livro, falando-lhes de livros parecidos, autores similares, enfim, sustentando uma conversa informada sobre livros, que é aquilo que falta a supermercados e (neste caso, de forma imperdoável) à Fnac.
O que acontece é que, muitas vezes, ir à livraria ou à Fnac é exactamente a mesma coisa, ou infelizmente pior, porque ninguém nos consegue responder a uma qualquer pergunta, limitando-se a ir ver ao malfadado computador ("como é que disse, 'Presbítero'? Como é que se escreve?!" - para isto, vou à Fnac) e também porque a selecção das livrarias é muitas vezes pouco interessante e a Fnac, nem que seja por ter mais espaço, consegue oferta mais atraente. E porém, também acontece haver livrarias interessantíssimas, dinâmicas, que por qualquer motivo, tristemente, fecham.
A infeliz conclusão que retiro é que os livros, em geral, não vendem, ou vendem apenas quando uma qualquer operação de marketing os torna tão anódinos e banais com as batatas fritas do McDonald's. Eu, por acaso, tendo a preferir as do Burguer King. E o que fazer?
Ir a livrarias, para que aquelas a que nós vamos, pelo menos, não fechem.
quinta-feira, 11 de agosto de 2011
quarta-feira, 10 de agosto de 2011
Medo
Estou em Londres.
Ontem tentei ir ao supermercado - um tinha sido pilhado, o outro estava fechado, assim como a maior parte das lojas e cafés nas ruas por onde passei. Hoje, já se respirava de outra forma - mais cafés abertos, mais pessoas na rua. Tudo ordeiro, mas ainda nuvens pesadas na atmosfera, uma tensão claramente presente.
Porque a minha mãe mo disse desde pequena, sempre tentei que o medo nunca definisse as minhas decisões, e até agora tenho sido bem sucedida, julgo. É também verdade que tenho tido sorte, muito mais do que coragem - as razões para ter medo nunca foram, até agora, significativas, e não consigo imaginar as vidas das pessoas que vivem em partes do mundo que incompreensivelmente não lhes permitem dignidade, liberdade, ar para respirar. Assim, eu sempre pude voar para onde queria sem medo de bombas ou terrorismo, ainda que o 11 de Setembro tivesse ocorrido há cinco dias, e não me assustei no dia em que estava no metro em Londres e a estação teve de ser evacuada, com a ameaça de uma réplica do ataque de 7 de Julho, também ele ocorrido há apenas dias. Nunca fui especialmente corajosa - apenas recusei que o medo tomasse as minhas decisões por mim ou definisse a minha vida.
E porém, há duas noites atrás, não pude evitar este sentimento opressivo, que nos tolhe horrivelmente, e que penso ser medo. Medo de sair à rua ou até de espreitar pela janela. Ouvir uma voz lá em baixo, que felizmente se afastou com rapidez, e apagar a luz imediatamente, para não gerar atenções indesejáveis. Um receio irracional de ouvir os passos e as desordens de uma horda apocalíptica a pedir sangue e a entrar-me casa adentro. E, penso eu, o grande problema do cenário indescritível em Londres, alastrado agora a outras cidades inglesas, é o medo. O medo que nós temos deles e que eles têm de nós, o medo que leva a esta divisão maniqueísta entre as "boas" pessoas assustadas dentro de casa e os "maus", lá fora, que querem destruir os "bons". O medo das pessoas que foram para a rua partir tudo, como se isso fosse solução para a vida perdida que têm ou que alguém lhes deu. O que aprendi há duas noites é que o medo é perigoso porque não deixa pensar - é fácil passar do medo ao ódio, odiamos aquilo de que temos medo, e nenhum argumento ponderado ou inteligente parece contrariar esta sucessão irracional. E o Homem, aprendemos nós na escola, é o único animal racional do planeta.
Esta massa irracional, que nem sequer protesta contra nada, sem critério, acrítica, que já matou gente e destruiu tudo o que encontrou à frente, é estúpida, e por isso perigosíssima, como normalmente a multidão é, mas os actos que perpretaram não poderão ser inconsequentes. Pelo contrário, as consequências (e as causas) daquilo que se passou têm de ser levadas muito a sério, e não com operações necessárias, mas epidérmicas, de mais policiamento, mais robustez e rapidez por parte das autoridades, mais discursos fáceis de David Cameron, que ainda há pouco anunciou que há "pockets of British society who are not just broken, but frankly sick". Pois é, mas isto não é nada de novo. Gente nova, desempregada, que quase nunca vai à escola porque não se levanta de manhã e ninguém quer saber, que mal sabe ler, filhos de gerações de desempregados, e que sempre aproveitou qualquer oportunidade para exibir um comportamento anti-social não é nada de novo em Inglaterra, pelo contrário - é um problema de décadas. Mas, como quase sempre se passa em Inglaterra, toda a gente é tolerada, mas pouca gente é integrada. Se este país tem uma história admirável de tolerância, a integracão já é outra história, de modo que há comunidades inteiras, emigrantes ou não, minorias ou não, desempregados ou não, pobres ou não, que vivem lado a lado e nunca se vêem, quase nunca interagem, porque as divisões culturais e/ou económicas que os dividem são enormes, abissais - até ao momento em que tudo explode. A classe, seja ela qual for, e as divisões que traz consigo, continuam bem presentes em Inglaterra, e tudo é pretexto para novas destrinças, para marcar a contradição - novos contra velhos, polícia contra civis, estrangeiros contra nacionais, ricos contra pobres, inteligentes contra estúpidos. E infelizmente os estúpidos demonstraram o seu poder espúrio quando saíram à rua na onda de destruição irracional em que embarcaram. Nem todos eram desempregados, jovens, sem futuro - muitas das pessoas que foram presas eram adultas, com empregos razoáveis, ou estudantes universitários. Que desculpa é a deles?
A BBC dedicou as notícias de hoje à procura de razões para a violência que assola o país. Falou-se de tudo - desemprego, famílias sem estrutura, materialismo, a procura de gratificação rápida e fácil, ganância, falta de acesso a educação e emprego, desresponsabilização (?) de pais e jovens, que acham que a culpa nunca é deles e que o mundo lhes deve tudo, sentimento de revolta e discriminação, etc. Não duvido que todas estas razões sejam válidas, embora nada justifiquem, e é evidente que será fundamental reflectir a fundo sobre as causas dos motins e desta violência extrema.
Mas nada vai mudar enquanto a divisão entre "nós" e "eles" continuar, aquela que o medo recíproco promove, aquela que o alimenta. E a luta fundamental será sempre, penso eu, contra a estupidez, a mesma que permite que uma multidão inteira se vanglorie de violência e pilhagem, a mesma que permite discursos fáceis em que se ameaça a ralé de mão pesada. É claro que agora é preciso mão pesada, mas o que é que se fez antes, quando os mesmos problemas já existiam?
Não tenho solução nem explicação para o que se passou, obviamente. Mas sei que as fracturas que agora nos chocam tanto foram abertas há muito e continuam expostas. E que rapidamente, de um dia para o outro, nos batem à porta, a nós, os bonzinhos, os que pagam impostos, os que estão em casa. E se tudo mudar para tudo ficar na mesma, vai chegar o dia em que a nossa porta é arrombada. E o que fazemos nesse dia? Sair de casa "with your finger on your gun", como cantavam os Clash? É esta a solução?
Só sei que nada sei, pá. Mas não gostei de ter medo.
(desculpem o texto tããããõ longo, e obrigada a quem leu).
sexta-feira, 5 de agosto de 2011
Grandes inconsequências

Ultimamente, só consigo escrever coisas inconsequentes, de modo que hoje vou escrever sobre os saldos (ah, que original). As pessoas queixam-se de que, em fins de Julho, as coisas já estão muito escolhidas, mas eu acho que não. Por regra, só vou aos saldos nos últimos dias e, também por regra, compro a maior parte das coisas de que preciso em saldos. Encontro sempre objectos de gratificação pessoal muito giros, de modo que não tenho qualquer razão de queixa. Além disso, aproveitar o fim de Julho para as compras é óptimo, porque o pessoal está de férias ou ainda a trabalhar, mas o importante é que não está nas lojas porque pensa que já não vale a pena. Isto beneficia indivíduos como eu (do sexo feminino), que podem deslocar-se calmamente ao Corte Inglês sem grande confusão.
Este ano, consegui arranjar tudo o queria, menos um fato-de-banho giro. Isso é que não encontrei em lado nenhum e...
Já não consigo mais. É parvoíce a mais, inconsequência a mais. Pensei que me podia distrair com um apontamento de humor, como diria o Herman a imitar o Carlos do Carmo, mas não dá. Devia estar a escrever sobre a Noruega ou qualquer outra coisa horrível e infelizmente importante, mas isso também não dá. Quando nos confrontamos com o mundo, o peso é tão grande que pensamos que a única solução é fingir que não existe. O que pensará o Atlas, a carregar todo o fardo da Terra sobre os ombros? Se calhar, é um homem que pensa noutras coisas, se não fica de tal modo nervoso que o planeta, redondo ainda por cima, difícil de agarrar, lhe começa a escorregar dos ombros suados, e depois o que será de nós, a resvalar por aí abaixo. Tem mesmo que encontrar com que se entreter, o Atlas, encontrar a metafísica que se encerra em não pensar, já dizia Alberto Caeiro. Mas, ao mesmo tempo, ignorar o mundo é, em si mesmo, um fardo terrível, impossível de ignorar. O que é o Atlas faz, põe-se a ver televisão?
Oh, pá. Ainda nem uma da tarde, e eu já a afogar-me em filosofia tão barata que nem de café é, e duvido mesmo que seja filosofia. Há dias que mais vale nem sair da cama. Vou mas é voltar para lá. Espero que o Atlas esteja distraído, como convém.
quinta-feira, 4 de agosto de 2011
Um Corto Maltese para casa mulher, era o que Marx queria dizer
O Marx falava da mulher duas vezes escrava, duas vezes proletária; fundamentalmente, uma das consequências (nefastas, neste caso) da mulher que é obrigada a entrar no mundo do trabalho (sim, porque muitas mulheres o fizeram, desde sempre, por necessidade e não por emancipação), dizia, uma das consequências é, então, a mulher ter de ganhar um salário e acumular com todo o trabalho doméstico, limpar a casa e tratar dos filhos, sem ajuda nenhuma, sendo o homem o grande ausente.
As pessoas dizem, "ah, hoje em dia é diferente. Hoje em dia o homem já 'ajuda'". A escolha lexical em si diz muito - o homem "ajuda". Se hoje em dia fosse assim tão diferente, o homem não ajudava, o homem fazia tanto como a mulher, e não se trataria de uma ajuda, mas sim de fazer o que precisa de ser feito.
Continuo a constatar que a grande responsabilidade das tarefas domésticas, aquelas mesmo pesadas, aquelas em que a casa precisa até de paredes esfregadas, colchão mudado, o quarto dos miúdos tem de ter uma cama nova, os jantares da semana precisam de ser pensados e as compras feitas, a roupa tem de ser lavada, estendida, a de Inverno vai para o armário e a de Verão salta cá para fora, este tipo de coisas aborrecidíssimas, todas elas, continuam na sua maior parte incluídas na esfera de jurisdição da mulher. O homem, quanto muito, "ajuda".
Há várias teorias para isto (pelo menos, eu tenho várias) - uma cultura que ainda promove o varão como o bem precioso da família (quando eu era pequena, ainda se falava de agregados familiares - adoro esta expressão - em que a irmã fazia a cama do irmão, bdeeeach. Felizmente, há anos que não ouço falar disto); o facto de, pelo menos em Portugal, ainda haver muito o hábito de só sair de casa para casar, talvez porque viver sozinho requer dinheiro que as pessoas não têm, e o resultado é que se começa uma vida de casal com os vícios todos da casa dos pais, o jantar na mesa, a casa limpa quase magicamente. Já para não falar do perigo extremo de começar uma vida de casal cedo demais, em que ninguém alcança qualquer independência. Mas isso é outra conversa.
Sei que, de facto, as coisas estão a mudar, e ainda bem. Conheço muitos homens que vivem ou viveram sozinhos, que naturalmente tratam da casa tanto quanto as companheiras, porque é a ordem natural das coisas. Mas também vejo imensos casais em que é a mulher que tem de pensar no jantar todos os dias, e na roupa que os filhos vão levar para a escola (por essas e por outras é que um uniforme nas escolas públicas dava imenso jeito; não sei do que estão à espera), e ajudar nos trabalhos de casa, e na pilha de roupa para lavar, de tal forma que o som do tambor da máquina a rodar já lhes deve dar vontade de desatar aos berros.
O que acho é que cada mulher devia ter um Corto Maltese que cozinhasse, limpasse, fosse às compras tanto quanto elas, porque o Corto Maltese é naturalmente assim e porque é assim que deve ser - naturalmente, reitero. Infelizmente, é também uma raridade.
Por isso, quando as pessoas se riem dos filósofos antigos, em particular do Marx, que confundem com o mau aproveitamento que se fez das suas ideias, e dizem que é obsoleto, e que nada de relevante tem a dizer, eu não poderia concordar menos. Tem muito de relevante a dizer, e em particular isto - duas vezes escrava, duas vezes proletária. Quem pensar que isto é obsoleto terá, penso eu, de avaliar bem em que mundo pensa viver e em que medida o conhece.
quarta-feira, 3 de agosto de 2011
Lata de sopa na parede

Há uma coisa que me irrita um bocadinho, e que é quando as pessoas falam de arte como se estivessem a falar de artigos de supermercado ou de roupa ou de sapatos.
É claro que há um valor social e comercial, muito relevante até, ligado a qualquer objecto de arte, dos quadros aos livros, passando pela fotografia, cinema, sei lá que mais. Mas chateia-me ver as pessoas aproveitarem isto e usarem um livro impoluto, por exemplo, para inflacionarem o seu "status" social. Já presenciei conversas de tal forma irritantes que os interlocutores brandiam nomes de livros e autores como se estivessem num duelo, eu na semana passada li isto, e eu li aquilo, e o Engles diz isto, e o Marx diz aquilo, e o Kant diz assim que ainda ontem o li antes de me ir deitar, e etc. e etc. e etc. Parece-me falta de respeito, e no entanto há pessoas que gostam de apregoar "ah, eu leio imenso Roth" (gostam de usar apelidos) da mesma forma que fazem questão de anunciar que o vestido que vestem é Dolce&Gabbana ou coisa que o valha.
Ninguém escapa a este fenómeno, e eu sei que não sou excepção nenhuma. Há sempre um desiderato notório de um certo exibicionismo quando nos passeamos com um livro super intelectual pelo braço, para toda a gente ficar a saber que nós próprios somos intelectuais, que o nosso gosto é imbatível. Também há uma certa arrogância, um certo excesso de confiança, quando anunciamos "quem, o Picasso? Ah, não gosto muito. É tão banal..." (só um exemplo para fazer caricatura, mas penso que a ideia se percebe).
Tudo isto poderá ser perfeitamente inofensivo. Mas também pode não passar de, pura e simplesmente, exbicionismo. Da mesma forma que exibimos, parvamente, sapatos, botas, malas, exibimos também livros, pintores, tratamos tu cá tu lá a Diane Arbus, porque somos tão cultos. E, quando a coisa se dá desta forma, a arte não nos torna pessoas melhores, ou por outra - torna-nos melhores na exacta medida em que um par de sapatos o faz, isto é: ficamos na mesma, ou até piores.
E isto é que irrita um bocadinho. Era só mesmo para dizer isto.
terça-feira, 2 de agosto de 2011
Não sabe, não responde
1.Existe um livro que relerias várias vezes?
Há um livro que releio sempre, Os Maias. Em geral, gosto de reler, mas Os Maias é o livro a que volto com mais assiduidade. Também regresso às Cartas do Meu Moinho muitas vezes. A querida Jane Eyre é um livro que também reli muitas vezes ao longo da vida. Adoro a Jane. Também volto muitas vezes à poesia do Lorca e ao Adrian Mole, que me continua a parecer muitíssimo subestimado. Releio muitas vezes partes dos Lusíadas (não sei se conta).
As releituras podem ser uma desilusão, mas algumas, aquelas que sobrevivem ao tempo e ao envelhecer dos olhos que lêem, são sempre redescobertas - isto é pirosíssimo, mas é verdade.
2. Existe algum livro que começaste a ler, paraste, recomeçaste, tentaste e tentaste e nunca conseguiste ler até ao fim?
Sim, o Tender is the Night, do Fitzgerald. Adoro o Gatsby, mas o Tender is the Night nunca consegui terminar, e tentei e tentei. Não sei, quando o Fitzgerald entra na onda do psicológico, fica ali a enredar, a enredar e eu tendo a ser pouco paciente. Também faz isso nos contos e eu também leio com dificuldade. Mas tenho pena de mim própria, porque gostava de ler o Tender até ao fim. Pode ser que um dia aconteça.
4. Que livro gostarias de ter lido mas que, por algum motivo, nunca leste?
Imensos, imensos, e espero ainda ir a tempo de os ler a todos. Fico particularmente angustiada quando penso nos clássicos gregos - há imensos que ainda não li e quero ler. Também ainda não li o Mau Tempo no Canal, do Vitorino Nemésio, por exemplo, e quero absolutamente ler. Assim como a Bíblia, que gostava mesmo de conhecer melhor. Sei que o que se segue é absolutamente despropositado, mas também gostava de ler "Os 120 Dias de Sodoma", porque gosto muito do Marquês, mas sei que este é um livro que nunca lerei. Sou uma pessoa de estômago fraco, digamos assim.
5. Que livro leste cuja cena final jamais conseguiste esquecer?
As Vinhas da Ira. As Vinhas da Ira, sem dúvida.
E também, por alguma razão, o final do Amante de Lady Chatterley - "a little droopingly, but with a hopeful heart". Não adorei o livro, mas adorei o final e nem consigo explicar porquê.
E também o final de Rebecca, com o vermelho da Manderley a arder.
Mas, acima de tudo, as Vinhas da Ira.
6. Tinhas o hábito de ler quando eras criança? Se lias, qual era o tipo de leitura?
Lia muito, sim - Uma Aventura, Os Sete, Os Cinco, As Gémeas no Colégio de Santa Clara, o Colégio das Quatro Torres, a Patrícia, e livros mais lamechas e antigos, como "O Romance de Isabel", um pastelão que eu adorei. Também lia a Agatha Christie, que a minha tia, perita em literatura policial, me emprestava, e as queridas irmãzinhas Bronte. E tenho memórias muito felizes da minha infância que se devem a todos estes livros, e, acima de tudo, tenho uma gratidão imensa aos meus pais, à minha tia, à minha avó, que sempre me deixaram ler tudo o que eu queria sem nunca impor limites ou proibições e que me fizeram compreender que, se existem objectos mágicos, o livro é um deles. É até, diria eu, o único objecto mágico que existe - e que deve ser tratado como um objecto que vai connosco para todo o lado, não como uma daquelas bonecas feias que as pessoas não tiram da caixa e põem na prateleira, em exposição, a fingir que é um bibelot. Bleeeagh.
7. Qual o livro que achaste chato mas ainda assim leste até ao fim? Porquê?
Há livros com os quais não nos damos bem, tal e qual como as pessoas. Custou-me imenso ler o Guerra e Paz, fiz um esforço enorme para o terminar. A Insustentável Leveza do Ser também me custou. Li até ao fim porque tinha que provar a mim mesma que era capaz de os ler, e, claramente, isto deveu-se à minha idade, porque eu era novita e queria ser uma leitora toda profissional. Penso muitas vezes que devia reler estes livros, agora que a idade avançada, mais sábia e calma, está do meu lado, mas, por outro lado, há tanta coisa boa para ler...
8. Indica alguns dos teus livros preferidos.
Ai... pergunta difícil. Vou indicar alguns, sim: Os Maias, Crime e Castigo, Cartas do Meu Moinho, Jane Eyre, Wuthering Heights, Lucky Jim, Alice in Wonderland, Adrian Mole, Auto dos Danados, O Ano da Morte de Ricardo Reis, Medeia (Eurípides, não Séneca, que nunca li), Measure for Measure, Heart of Darkness, In Cold Blood, Other Voices, Other Rooms...
E estou a esquecer-me dos outros amores da minha vida. Ah, que traição.
9. Que livro estás a ler?
Hell's Angels, Hunter S. Thompson, intercalado com espreitadelas a um livrinho engraçadinho que encontrei noutro dia, Curiosities of Literature, do John Sutherland. É mesmo engraçadinho, este livrinho.
10. Indica 10 amigos para responderem a este inquérito.
Eu não tenho 10 amigos. A minha amiga é a língua portuguesa!
Era a brincar. Mais ou menos.
Quem quiser responder, pode fazê-lo. Se o Tolan, a Senhora Sócrates, a Bandeira ao Vento, o Zé, o Rui Almeida, o Moço do Café Central, o manuel a. domingos, o Luís Filipe Cristóvão et. al. quiserem avançar, por mim tudo bem. Não vou pôr aqui os links, porque depois eles não respondem e eu apanho uma grande vergonhaça. Mas pronto, quem não arrisca, não petisca, lá diz a sábia língua portuguesa.
Ora boa noite e bem haja, sim?
Há um livro que releio sempre, Os Maias. Em geral, gosto de reler, mas Os Maias é o livro a que volto com mais assiduidade. Também regresso às Cartas do Meu Moinho muitas vezes. A querida Jane Eyre é um livro que também reli muitas vezes ao longo da vida. Adoro a Jane. Também volto muitas vezes à poesia do Lorca e ao Adrian Mole, que me continua a parecer muitíssimo subestimado. Releio muitas vezes partes dos Lusíadas (não sei se conta).
As releituras podem ser uma desilusão, mas algumas, aquelas que sobrevivem ao tempo e ao envelhecer dos olhos que lêem, são sempre redescobertas - isto é pirosíssimo, mas é verdade.
2. Existe algum livro que começaste a ler, paraste, recomeçaste, tentaste e tentaste e nunca conseguiste ler até ao fim?
Sim, o Tender is the Night, do Fitzgerald. Adoro o Gatsby, mas o Tender is the Night nunca consegui terminar, e tentei e tentei. Não sei, quando o Fitzgerald entra na onda do psicológico, fica ali a enredar, a enredar e eu tendo a ser pouco paciente. Também faz isso nos contos e eu também leio com dificuldade. Mas tenho pena de mim própria, porque gostava de ler o Tender até ao fim. Pode ser que um dia aconteça.
4. Que livro gostarias de ter lido mas que, por algum motivo, nunca leste?
Imensos, imensos, e espero ainda ir a tempo de os ler a todos. Fico particularmente angustiada quando penso nos clássicos gregos - há imensos que ainda não li e quero ler. Também ainda não li o Mau Tempo no Canal, do Vitorino Nemésio, por exemplo, e quero absolutamente ler. Assim como a Bíblia, que gostava mesmo de conhecer melhor. Sei que o que se segue é absolutamente despropositado, mas também gostava de ler "Os 120 Dias de Sodoma", porque gosto muito do Marquês, mas sei que este é um livro que nunca lerei. Sou uma pessoa de estômago fraco, digamos assim.
5. Que livro leste cuja cena final jamais conseguiste esquecer?
As Vinhas da Ira. As Vinhas da Ira, sem dúvida.
E também, por alguma razão, o final do Amante de Lady Chatterley - "a little droopingly, but with a hopeful heart". Não adorei o livro, mas adorei o final e nem consigo explicar porquê.
E também o final de Rebecca, com o vermelho da Manderley a arder.
Mas, acima de tudo, as Vinhas da Ira.
6. Tinhas o hábito de ler quando eras criança? Se lias, qual era o tipo de leitura?
Lia muito, sim - Uma Aventura, Os Sete, Os Cinco, As Gémeas no Colégio de Santa Clara, o Colégio das Quatro Torres, a Patrícia, e livros mais lamechas e antigos, como "O Romance de Isabel", um pastelão que eu adorei. Também lia a Agatha Christie, que a minha tia, perita em literatura policial, me emprestava, e as queridas irmãzinhas Bronte. E tenho memórias muito felizes da minha infância que se devem a todos estes livros, e, acima de tudo, tenho uma gratidão imensa aos meus pais, à minha tia, à minha avó, que sempre me deixaram ler tudo o que eu queria sem nunca impor limites ou proibições e que me fizeram compreender que, se existem objectos mágicos, o livro é um deles. É até, diria eu, o único objecto mágico que existe - e que deve ser tratado como um objecto que vai connosco para todo o lado, não como uma daquelas bonecas feias que as pessoas não tiram da caixa e põem na prateleira, em exposição, a fingir que é um bibelot. Bleeeagh.
7. Qual o livro que achaste chato mas ainda assim leste até ao fim? Porquê?
Há livros com os quais não nos damos bem, tal e qual como as pessoas. Custou-me imenso ler o Guerra e Paz, fiz um esforço enorme para o terminar. A Insustentável Leveza do Ser também me custou. Li até ao fim porque tinha que provar a mim mesma que era capaz de os ler, e, claramente, isto deveu-se à minha idade, porque eu era novita e queria ser uma leitora toda profissional. Penso muitas vezes que devia reler estes livros, agora que a idade avançada, mais sábia e calma, está do meu lado, mas, por outro lado, há tanta coisa boa para ler...
8. Indica alguns dos teus livros preferidos.
Ai... pergunta difícil. Vou indicar alguns, sim: Os Maias, Crime e Castigo, Cartas do Meu Moinho, Jane Eyre, Wuthering Heights, Lucky Jim, Alice in Wonderland, Adrian Mole, Auto dos Danados, O Ano da Morte de Ricardo Reis, Medeia (Eurípides, não Séneca, que nunca li), Measure for Measure, Heart of Darkness, In Cold Blood, Other Voices, Other Rooms...
E estou a esquecer-me dos outros amores da minha vida. Ah, que traição.
9. Que livro estás a ler?
Hell's Angels, Hunter S. Thompson, intercalado com espreitadelas a um livrinho engraçadinho que encontrei noutro dia, Curiosities of Literature, do John Sutherland. É mesmo engraçadinho, este livrinho.
10. Indica 10 amigos para responderem a este inquérito.
Eu não tenho 10 amigos. A minha amiga é a língua portuguesa!
Era a brincar. Mais ou menos.
Quem quiser responder, pode fazê-lo. Se o Tolan, a Senhora Sócrates, a Bandeira ao Vento, o Zé, o Rui Almeida, o Moço do Café Central, o manuel a. domingos, o Luís Filipe Cristóvão et. al. quiserem avançar, por mim tudo bem. Não vou pôr aqui os links, porque depois eles não respondem e eu apanho uma grande vergonhaça. Mas pronto, quem não arrisca, não petisca, lá diz a sábia língua portuguesa.
Ora boa noite e bem haja, sim?
segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Então a 4ª série do True Blood já começou e eu andava aqui feita parva, sem saber?
Agora ando a tentar apanhar os episódios todos, mas ainda só consegui ver metade do primeiro, que me pareceu prenunciar uma temporada ainda mais delirante do que a anterior, que já foi bastante delirante.
Gosto muito de delírios.
E por favor, quem segue a série que me explique, por obséquio: como é que a Sookie continua a trabalhar no bar do Sam e não é despedida? Eu sou tolerante "no que concerne" a relações laborais, mas isto ultrapassa tudo o que eu, se fosse entidade patronal, estaria disposta a aceitar, porque a rapariga tanto vai trabalhar um dia, como no outro vai não sei para onde fugir dos lobisomens, como no outro vai salvar o namorado vampiro, como volta na semana a seguir para trabalhar só à noite, e depois é só de dia, e depois tem de se ir embora outra vez porque descobre que é fada, e etc. e tal. Não deve ter grande subsídio de férias, esta Sookie. Digo eu.
Mas, pensando bem, nós também não temos grande subsídio de Natal e ninguém nos dá folga para tratar de assuntos pessoais, seja fugir de lobisomens ou de vampiros. Hmmm. Acho mal.
quinta-feira, 14 de julho de 2011
Dietrich responde
Li uma vez, na Vanity Fair, um artigo sobre a Marlene Dietrich, em que ela dizia uma coisa magnífica:
Ora aqui está. Milhares de livros, artigos, blogs, séries de televisão e filmes que discutem até à exaustão, esmiúçam, qual Gato Fedorento, toda a intrincada dinâmica entre homem e mulher - a mulher é atraída pelo homem porque, e o homem é atraído pela mulher porque - e vem a grande Dietrich e resolve tudo com uma simples frase - "they asked".
Simplesmente. Cessem do Grego e do Troiano, que o peito ilustre da Dietrich resolveu um grande problema que tantos atormentou. Fabuloso.
Estou muito contente, porque o blog bonito do Pedro Jordão enviou-me uma corrente espectacular, para responder a um quiz sobre livros. Que bom, que bom.
Vou demorar imenso tempo a responder. Fico sempre absorta em pensamento, em impossíveis decisões, quando confrontada com a simples pergunta "quais são os teus livros preferidos?"
Mas hei-de responder, sim, sim.
E porque é que a pergunta que enunciei tem uma resposta tão difícil? Há coisas assim, apenas aparentemente fáceis.
Coisa que não compreendo: usar a faca da refeição para descascar fruta
Eu vou confessar que gosto de regras pequeninas. Regras de grande dimensão, aquelas que a sociedade nos obriga a cumprir, como por exemplo ter de fazer declarações de IRS, ter de fingir que trabalhar é saudável e isso assim, não gosto nada e desprezo. Mas de regras pequeninas, aquelas que servem para dar uma organizaçãozinha a uma vida individual, gosto.
Por exemplo: na excelsa máquina Nespresso, que me ofereceram, há dois botões. Um é para o café normal, outro é para o chamado "lungo", que leva mais água. Estes últimos não me atraem muito, mas o Corto Maltese, por exemplo, adora lungos, de tal modo que põe uma cápsula à toa na máquina e carrega no botão lungo e eu, quando o vejo nestes propósitos, digo-lhe, "Corto, enganaste-te, essa cápsula não é de lungo, pára já a máquina!", apenas para receber um olhar empedernido e indiferente que me diz "mas o que foi, tens medo que venha a polícia?", e lá continua ele a escolher uma cápsula à toa e a carregar no botão do lungo. O que, quanto a mim, não está bem.
É como não pôr o garfo do lado esquerdo e a faca do lado direito. Há pessoas que põem estas duas peças no guardanapo, porque acham que não vale a pena pôr um de cada lado, assim como assim temos de pegar neles de qualquer maneira e "aqui ninguém faz cerimónia" - é o que dizem sempre. Não é uma questão de fazer ou não fazer cerimónia, é a regrinha. A regrinha que é a base - é a basezinha, como o latim.
É como ter um copo à mesa e beber vinho ou sumo e depois beber água sem lavar o copo, sujeitando-se a pessoa a beber água deslavada, com sabor a restos, só porque tem preguiça de pôr o devido número de copos na mesa, ou de os lavar entre as bebidas. É desagradável, e sempre a mesma desculpa - "mas aqui ninguém faz cerimónia!"
O desvio da regra que mais espécie me faz é descascar fruta com a faca que se utilizou na refeição. Conspurcar o fresco doce da frutinha apenas porque, mais uma vez, se tem preguiça de utilizar outra faca. Porquê desrespeitar a regrinha e comprometer o agradável final de uma refeição? Não compreendo. E depois, visualmente, é algo desagradável - as pessoas pegam na faca, limpam-na ao guardanapo sujo, ou esfregam a lâmina na bordinha do prato, e é só restos de comida mastigada por todo lado sem limpeza nenhuma, porque a faca continua suja e, por seu turno, suja também a casca da pêra ou da maçã que se vai descascar. Depois, a própria fruta fica a saber a segundo prato, a arroz frio, a salada fria, e isto amolece a maçã, atenua o sabor da pêra, estraga a sobremesa. Uma maçada. Mas qual é o problema de usar outra faca?! Ah, não é preciso, escusamos de estar a sujar loiça. Ah, não é preciso, aqui ninguém faz cerimónia.
Pois. E, devido a estes argumentos, lá fico eu com a minha fruta a saber a ranço.
As regras pequeninas foram feitas para a pessoa poder gozar de algum conforto na vida. E eu gosto do meu conforto. De modo que, normalmente, e uma vez que ninguém faz cerimónia aqui, eu solicito sempre uma faca limpinha para a minha fruta, se calha não estar em casa para poder decidir a minha própria dinâmica alimentar. A regra é a base.
Sem a basezinha, não se vai a lado nenhum.
domingo, 10 de julho de 2011
Composição
Dia dez de Julho de dois mil e onze
Rita
Dia dez de Julho de dois mil e onze
Rita
De que é que eu gosto mais na Volta à França
Eu, da Volta à França, gosto da equipa que se chama "Rabobank", porque há um banco que se chama "Rabo" que paga as bicicletas aos ciclistas para eles poderem dar a volta à França com Tshirts que dizem "Rabo" nas costas, e sempre que eu vejo o pelotão, muitos e muitos senhores com "Rabo" escrito nas costas, ponho-me sempre a rir, e rio e rio e rio e não consigo parar, mas isto não é correcto porque é muito infantil, mas sempre que vejo os ciclistas com "Rabo" nas Tshirts da parte de trás não consigo evitar rir à gargalhada, porque realmente na Tshirt só falta uma setinha a apontar para baixo.
Isto é o que eu gosto mais na Volta à França.
Ah, que infantilidade. Agora a sério, a Volta à França é muito saudável, e os ciclistas são atletas espectaculares, apesar do bife do Contador, e aquelas bicicletas que os espectadores fazem nos campos são o máximo, e as paisagens são lindas, e portanto é algo que vale a pena visionar.
Fim.
sexta-feira, 8 de julho de 2011
Arte pela arte?
Esta foi das exposições mais bonitas que já vi. Linda, linda. Tinha fotografias da minha Julia Margaret Cameron e este quadro magnífico do Dante Gabriel Rossetti que nunca tinha visto ao vivo, estes cabelos, estes braços e pescoço tão compridos e esguios, o cabelo, não sei, adoro:



A exposição era sobre o Esteticismo do século XIX. A arte pela arte. Curiosamente, o que isto me faz sempre lembrar é um excerto da Rosa, Minha Irmã Rosa, de Alice Vieira, em que Mariana, a personagem principal, descreve um dia em que a mãe trouxe para casa um frasquinho de vidro cheio de coisinhas coloridas lá dentro (mais ou menos assim, estou a puxar pela memória de uma leitura de décadas atrás). A Mariana pergunta à mãe para que serve o frasquinho, e a mãe pergunta-lhe: "não achas bonito?". "Acho", responde Mariana. "Então serve para isso - para ser bonito", responde a mãe.
Acho que nunca me esqueci deste excerto por, provavelmente, considerar que fazia absoluto sentido. Há coisas que servem apenas para serem bonitas. Tendemos a menosprezar isto, mas não deve ser menosprezado, pelo contrário - deve ser prezado e até exarcerbado. O sucesso das peças "design" que todos os arrivistas (e pessoas normais, claro, não vale a pena ser tão amarga, que desagradável) gostam de ter em casa é exactamente isto - é bom ter coisas em casa que não só cumprem uma função, como são, pura e simplesmente, bonitas. Daí o sucesso do papel de parede de William Morris, querido pré-Rafaelita e, como dizem alguns, o "inventor" do design:

E podemos agora entrar na velha discussão, na qual também penso muitas vezes - mas a arte não deve ter um propósito social? Não deve ter uma utilidade, modificar activamente a vida das pessoas? Deve. A vida das pessoas não tem qualidade se não for rodeada de coisas bonitas, que sirvam para ser olhadas muitas vezes, sem nunca chegar ao ponto de exaustão. Coisas e pessoas. Pessoas com cabelos enormes, à sereia. Por exemplo:

Estes cabelos pré-rafaelitas, a sério, são imbatíveis. Eu não tenho um cabelo assim, portanto, para ter qualidade de vida, tenho de poder apreciá-lo em alguém, mesmo que seja apenas uma sereia num quadro.
Então e a arte socialmente comprometida e tal? Sim, concordo. Desde que seja bonita, por mim tudo bem.
E se te mandassem atirar para um poço, atiravas-te?
Ainda a tentar superar a indignação da nota "lixo" que a excelsa Moody's nos ofereceu, constato que ler as notícias só traz misérias e infelicidade. O fecho do pasquim News of the World, por exemplo, que já há muito deveria ter acontecido, não é uma boa notícia porque é o resultado de uma série de tristes eventos em que o jornal se viu envolvido, subornando polícias e acedendo a escutas ilegais (inclusivamente a famílias das vítimas dos ataques de 7 de Julho de 2005) e gozando de impunidade durante anos. Já se falava disto há uns tempos, o Governo assobiava para o lado, ah, escutas a celebridades, que maçada, mas agora que toda a gente se indignou com o abuso e a abjecta falta de respeito que subjazem a fazer escutas a vítimas, David Cameron lá se decidiu a instaurar um inquérito público.
Tudo isto numa imensa operação cosmética a bem da moral e bons costumes, todos eles bem cerzidos, ainda que bolorentos por dentro - Rupert Murdoch, uma espécie de Berlusconi ligeiramente menos bimbo, que detém o quase extinto News of the World, assim como o Sun, o Times e o Sunday Times (por incrível que pareça, todos estes jornais, do tabloid à imprensa séria, pertencem ao mesmo homem - e talvez não seja assim tão incrível, já que todas estas publicações são de um conservadorismo um bocadinho insuportável), dizia, o que Rupert Murdoch quer é comprar o grupo British Sky Broadcasting, reinando, desta forma insuperável e incontestável, sobre todos os media britânicos. De modo que agora o mesmo Rupert Murdoch queixa-se, ah, que maçada, que aborrecimentozinho, perdemos publicidade no News of the World e está toda a gente chateada connosco, mais vale fechar, para mostrar que ainda temos alguma decência, e deixemos o Cameron instaurar o tal inquérito público, assim como assim o Rupert Murdoch é como o Hitler que também não sabia dos campos de concentração, e como tal está nesta história toda como inocente menino, até que os tempos conturbados acalmem, o Governo faça o seu papel, fingindo-se de muito admirado e revoltado, e tal e coisa, até chegar a altura de Murdoch conseguir adquirir, como quer, o grupo BSkyB, e publicar as notícias que quiser, quando quiser, como quiser.
Dependemos dos meios de comunicação social para formarmos uma imagem do mundo.
Dependemos de agênciazecas de rating americanas para termos um país.
E quando estas autoridades não têm vergonha na cara, por consequência, perdemos também nós a vergonha? Era o que eu gostava de saber.
Nunca confiar nas vozes que vêm de cima, para não acabarmos como a canção dos Rage Against the Machine - they say jump, you say how high.
Que miséria, pá.
terça-feira, 5 de julho de 2011
Os absurdos da boa-educação
Há uma história deliciosamente absurda que tem entusiasmado a imprensa inglesa nas últimas semanas, de tal modo que é notícia e artigo e colunas de opinião em todos os jornais, desde os tabloids mais manhosos até aos respeitáveis Guardian e Observer - e a história é a de um rapaz que leva a noiva a passar um fim-de-semana em casa dos pais, sendo que a noiva recebe depois um email da futura sogra a desancar, desagradavelmente, as suas limitações naquilo a que habitualmente chamamos "boa educação". Segundo a sogra, a sua futura nora não devia ficar na cama até tarde quanto todas as outras pessoas que habitam na mesma casa se levantam cedo; não devia começar a comer antes das outras pessoas à mesa, nem avisar os outros relativamente às suas exigências alimentares; após o fim-de-semana, deveria ter escrito um bilhete, à mão, a agradecer a hospitalidade; e, fundamentalmente, não deveria ter nenhuma intenção de casar num castelo, como parece que é o caso. Diz a sogra que, uma vez que os pais da noiva não estão em condições de pagar a cerimónia, a noiva que se aguente à bronca e escolha uma festinha mais modesta. Tudo explicado aqui.
Os protestos desta sogra até terão alguma razão, mas tê-los escrito num abrupto email, que a noiva se encarregou de reenviar aos amigos todos até o mesmo email se tornar notícia, é que foi de facto estúpido, e encerra mais "má-educação" do que aquela que inicialmente originou o protesto.
E isto para dizer que esta sogra deve ser a encarnação de todas aquelas pessoas absolutamente confiantes nos impecáveis modos que (não) têm - lembra-me a senhora que gostava de anunciar ao mundo que jantava imensas vezes fora nos melhores restaurantes, porque tinha um estilo de vida assim, mas que comia como um passarinho, e quando o empregado lhe perguntava se queria sobremesa, ela respondia, irrepreensivelmente, "não, obrigada, estou cheia". Pensar neste exemplo de recomendáveis boas maneiras.
A chamada "boa educação" é uma faca de dois gumes, que tanto dá para o torto como cumpre exemplarmente a sua função, com a agravante de que toda a gente tem sempre muita opinião díspar sobre isto. Nem sequer vou mencionar o malfadado "você", por exemplo, que alguns consideram formal, e outros abominam (eu tendo a abominar); mas há inúmeros casos em que se tenta ser bem-educado e os planos não resultam, como a senhora dos restaurantes que anuncia que está "cheia". Penso que é a Ana Luísa Amaral que tem um poema em que se queixa do senhor do café em Londres que a trata por "love" - é desagradável, porque ela não é o "love" dele. No entanto, o senhor do café, garantidamente, estava apenas a demonstrar a sua concepção de delicadeza. Quando ontem fui comprar o jornal, o senhor do quiosque saudou-me com "darling", eu pedi desculpa por não ter troco e ele disse "it's ok, honey" e disse-me adeus com "bye, bye, sweetheart". Não me incomodou nada, o homem estava só a tentar ser afável, e todos os termos carinhosos que utilizou são completamente desprovidos de qualquer significado que não seja este mesmo, o de comunicar afabilidade, delicadeza.
E a cortesia, a delicadeza, a boa-educação, tudo coisas que foram feitas para gostarmos mais uns dos outros, para a sociedade se aguentar (alguns linguistas até chamam a isto "lubrificantes sociais", expressão de absoluto sucesso que só poderia sair da cabeça de um académico), acabam, por vezes, por ter o efeito contrário e gerar batatada. Ou barracada. Ou o contrário de "lubrificante social", que eu nem quero saber o que é.
O que é preciso, o que seria necessário, era que toda a gente fosse um bocadinho mais natural, mais descontraída. Baldassare Castiglione (escrevi sobre ele antes), que escreveu um manual de boas-maneiras que se tornou best-seller na Europa seiscentista, falava precisamente disto - o cortesão é tanto mais gentil-homem quanto mais natural consegue ser. Sem esforço, descontraído.
Era bom que a sogra que escreveu o email absurdo soubesse disto, assim como a nora que o reenviou aos amiguinhos, assim como as pessoas que se ofendem quando são tratadas por "love", e etc. e etc. Se nos insultarem, que nos ofendamos, mas fora isso, ir com calma.
De vez em quando, penso nestas coisas. Acho que são importantes. Quase mais ninguém acha. Mas é assim, cada pessoa é uma ilha, como cantava o outro. Não, são os outros, são o Simon e o Garfunkel. Vou acabar por aqui.
sábado, 2 de julho de 2011
Em 1954, Margaret Thatcher escreveu um artigo para uma revista chamado "Mother Knows Best". Falava dos tempos em que ela, M. Thatcher, tinha ficado em casa a cuidar dos seus gémeos, enquanto o marido ia trabalhar. Foi, ao que parece, uma experiência desagradável - embrenhada que ficava no trabalho doméstico, a srª Thatcher dava por si sem ter nada que dizer ao marido quando ele chegava a casa. Sentia-se muito vazia e aguardava ansiosamente pela data em que voltaria ao trabalho, momento glorioso (isto acrescento eu) em que a vida, finalmente, voltaria a fazer sentido.
Escreveram os Beatles: "the further one travels, the less one knows", querendo dizer, acho eu, que não é preciso palmilhar meio mundo para alargar o nosso próprio mundo. Quer dizer, se o pudermos fazer, óptimo, mas há imensa gente que nunca saiu do mesmo sítio e que é mil vezes mais interessante do que outros que, por mais que viajem, terão sempre os horizontes do tamanho de um amendoim.
Portanto, se a srª Thatcher se sentia vazia porque tinha de ficar muito tempo em casa, ao invés de se sentir grata pela oportunidade, retiremos as nossas conclusões, e isto aplica-se a todos aqueles (e, infelizmente, por vezes também "aquelas") que maldizem, ou são reticentes, face a licenças de maternidade e outros progressos civilizacionais. Espero eu não termos chegado a um ponto em que uma mulher (ou homem, claro) é olhada de lado porque entende, ou pode, ficar em casa e dedicar-se aos filhos e à vida doméstica.
Embora todos saibamos que licenças de maternidade e outras mariquices semelhantes não passam de estratagemas foleiros para impedir as mulheres de progredirem na carreira, dar desculpa aos patrões para só contratarem homens e cortar nos salários femininos e outras coisas assim. O melhor é nem sequer ter filhos, que é para não ter de ficar em casa e não dar desculpa a ninguém.
Um emprego já é tão difícil de arranjar.
quinta-feira, 30 de junho de 2011
Post seriíssimo sobre um problema de guarda-roupa
Vamos lá começar a animar, que se uma pessoa passa a vida a pensar em FMis e subsídios de Natal esventrados apanha uma depressão e não vale a pena.
De modo que o que vale a pena, sim, é pensar no Verão que aí vem e que já começou. Aquilo que me faz, como se costuma dizer, "empreender" no Verão não é a dieta, que faço o sacríficio de não fazer, nem biquinis (até porque este ano vou optar pelo fato-de-banho - quem souber onde posso adquirir um giro, giro, caixa de comentários se faz favor, obrigada), continuando, o que me faz empreender no Verão é a questão da roupa, e isto porque, como já escrevi há uns anos neste blogue, não gosto de roupa de Verão, nunca sei o que vestir e perco tempo a pensar nisto.
Calças de ganga são muito quentes.
Saltos altos fazem os pés inchar.
DocMartens são um forno.
Tshirts são abomináveis.
Vestidos são, normalmente, sem forma, são trapos que se enrolam à volta do corpo e nem sequer têm a piada das túnicas dos Romanos.
Túnicas - vide "vestidos".
Blusas - vide "vestidos".
Birkenstock são o máximo, mas já cansam.
Sandálias em geral são uma seca.
Roupa preta faz calor.
As cores da roupa de Verão são um susto, olho para as montras e sinto-me como aquelas pessoas que "padecem" de sinestesia, já que todas as peças que vejo parecem berrar-me aos ouvidos, de garridas que são, à Feira Popular.
E assim me vejo nesta confrangedora situação - não invisto em roupa de Verão há que tempos, e este ano estou sem nada para vestir. Só tenho coisas meia-estação, encantadora expressão que rima e tudo. Olho para as pessoas em geral e não sei onde foram elas buscar ideias para o guarda-roupa estival, porque eu não tenho nenhuma. Além disso, as lojas baratuchas onde normalmente gosto de ir comprar coisas, assim Zara e H&M, são um desastre no Verão. No Inverno, a coisa disfarça-se bem, e com um bom casaco não é preciso mais nada, mas no Verão está tudo à vista, os tecidos lustrosos e manhositos, o ruço da primeira lavagem, o borboto de ter sido usado cinco minutos, o corte esquisito. Oh, pá.
É muito incorrecto a pessoa ter de se sujeitar a não gostar da sua imagem, até porque como se diz no anúncio, "se eu não gostar de mim, quem gostará?"
Pessoas em geral, simpáticos leitores deste blogue, padecerão vocês da mesma condição? Angustiam-se vocês com a lacuna profunda no guarda-roupa veraniço? Provavelmente não, porque têm mais em que pensar. Mas quem não tiver, diga lá, por favor, onde arranja roupita de Verão interessante e em conta, que é coisa que me intriga.
terça-feira, 28 de junho de 2011
Expressão que não compreendo: "eu sou uma pessoa doente"
Apesar de não compreender, acho uma certa graça quando as pessoas dizem isto, porque normalmente não é verdade ou, se é, nunca é tão grave como querem fazer crer, felizmente para elas. Normalmente, esta expressão vem acompanhada de outras igualmente cómicas, mormente "é que eu sofro muito de isto e de aquilo"; "sabes, eu no Verão sofro de calor", "eu no Outono sofro da vista e de 'alérgias'", "eu quando vou trabalhar padeço de cansaço", e coisas assim. O verbo "padecer", já amplamente satirizado, é verdadeiramente esplêndido.
Há muitos anos, o Herman fez um sketch de uma senhora velhota que entrava no táxi e começava a queixar-se, "ah, eu sou uma pessoa doente, eu sou uma pessoa muito doente...", de tal modo que ninguém conseguia sequer ter pena dela. Vivemos num país em que a maior parte das pessoas padece efectivamente de uma maleita, e essa maleita é a hipocondria. Eu não fujo à regra, e mal denoto a mais leve mudança corporal, seja comichão no olho, seja no polegar, penso logo que apanhei uma bactéria qualquer que nunca mais vai passar. E estes vários sofrimentos de que somos acometidos explicam, talvez, a necessidade que algumas pessoas têm de se caracterizarem como "doentes".
Nunca conheci ninguém verdadeiramente doente que anunciasse ao mundo a sua condição, e algumas delas eram, infelizmente, bem graves. Esta coisa da queixa perpétua de que estou muito doente, e como tal tratem-me com muito cuidadinho, por favor, é algo inquietante, porque caricato. Dá vontade de gozar com a pessoa, em vez de demonstrar solidariedade e compreensão. E o que dizer dos indivíduos que começam a descrever a sua pobre condição física, e entusiasmam-se de tal modo com a dor que os aflige que ficam horas empolgados numa narração médica que mais parece um filme de acção ou coisa parecida? Isto é que é impagável - "ah, doía-me a garganta, fui ao médico, o médico disse que era uma infecção nas cordas vocais, quis ir ao especialista, o especialista disse que era um nódulo e uma infecção, receitou-me comprimidos mas não passou, já viste, e eu a pagar balúrdios, fui a outro especialista que disse que era nódulo, infecção e super-bactérias, disse que eu até podia perder a voz e tudo!, já viste, ou então que a minha voz ia ficar muito fininha à desenho animado, já viste, como é que eu posso trabalhar assim", "mas não há cura?", arrisco eu, e responde logo o meu interlocutor, com tal satisfação que parece que acabou de comer uma pratada de chouriço assado com broa, "não! Não há nada que se possa fazer, ou fico afónica, ou com voz de desenho animado!" Sorriso de comprazimento no fim.
Eu penso que algumas pessoas consideram que a doença as torna especiais. Ser objecto de pena, ou atenção, ou interesse dos outros devido "à doença" é algo que os satisfaz.
Pronto. Cada um é como cada qual. E agora tenho de ir ali almoçar, porque eu sou uma pessoa que sofre de uma doença, que é: quando não almoço, padeço de uma certa larica.
Admirável mundo "aplicado"
Há um novo "app", muito revolucionário e isso, que é a Waste Land ( não Wasteland) com tudo o que se possa imaginar: notas, comentários, três pessoas diferentes a lerem o poema, até as notas originais de Ezra Pound, "il miglior fabbro". A imprensa anglo'saxónica toda comentou isto, procurem se assim o entenderem, mas não vale a pena estar eu aqui a pôr os links. Continuando. Discute-se a maravilha deste "app", ah, ajuda tanto a compreender o texto, ah, ajuda o leitor a mergulhar nas profundezas do poema, que as tem; eu diria até, no caso de Waste Land, mais do que profundezas são entranhas, e assim e assado. E discute-se também (a minha fonte é o Times, mas o Guardian diz a mesma coisa; mais uma vez, por favor procurem se tiverem paciência e interesse) o futuro do "pbook", que eu aprendi ser "physical book", versus "ebook", tão mais avançado e cheio de potencialidades. Resta dizer que este app também inclui um pequeno pormenor, que é o poema Waste Land propriamente dito. Uma coisinha de nada.
O livro físico e as editoras poderão ver o seu futuro dificultado - menos gente a comprar "pbooks", mais leitores interessados nas potencialidades dos apps e hiperligações e quejandos, fundamentalmente mais autores que se auto-publicam e põem o texto à venda nos kindles ou coisa que o valha, tornando as velhas editoras e os livros físicos absolutamente redundantes. Diz o Times que o que poderá safar as editoras é apenas e só o peso da autoridade, porque na net eu não tenho o selo de qualidade que vem incluído no preço de um Faber&Faber, Penguin, Pergaminho Editora, Oficina do Livro (estes dois últimos são a brincar).
Não tendo iphone nem ipad nem outra qualquer "tablete", nem kindle nem blackberry, limitando-me ao velhinho telemóvel normalíssimo que faz e recebe chamadas, não posso avaliar a maravilha que é este app da Waste Land; acredito que trabalhe muito bem e seja fascinante, oferecendo efectivamente hipóteses de explorar o texto a quem estiver interessado nisso. E quem estiver interessado nisso tem de, primeiro, ler o texto. Ler. Essa actividade tão primordial e imemorial e da idade da pedra. Não partilhei do entusiasmo com que o Times falava deste "app" não porque não tenho tabletes ou iphones ou quejandos, mas sim porque estes impulsos galvanizados com que abraçamos as novas tecnologias tendem, por vezes, a esquecer que a base, a basezinha, é anciã, imutável, pouco avançada quando comparada com o admirável mundo novo dos "apps". A basezinha é saber ler, e isto é já dizer muito '- saber ler a Waste Land é dificílimo, e a quem não souber ler este poema pouco servirá, direi eu, as notas do "miglior fabbro". Não que a aplicação não seja fascinante - com certeza que é, e tem uma coisa importante, que é a possibilidade de ouvir Waste Land. Acho que resultará em cheio, porque é um poema que se percebe melhor dito (pelo menos, determinados excertos funcionam bem melhor recitados, com diferentes vozes e sotaques). Mas, em última instância, quem explorará este "app", ou "apps" similares, será quem já estará motivado para isso - quem já "leu" o texto. E, para quem já leu o texto, este app da Waste Land será com certeza um enorme divertimento, mas não traz nada de novo. Quem não leu, também não vai querer saber. Digo eu, sem ter tido acesso nenhum à aplicação.
Termino com o que estou a tentar dizer desde o início deste post, que raio, nunca consigo ser sucinta: o que traz algo de novo é ler. Nenhuma aplicação do mundo ensina a ler, e duvido que consiga, até, mudar radicalmente o acto de ler. Poderá acentuar o entretenimento da leitura, mas de resto duvido que transforme as coisas de forma fundamental. Ler, algo que a humanidade faz há alguns milhares de anos, isso sim. Isso transforma. O resto são apenas pormenores.
(Pronto, segue um videozito abaixo a explicar a maravilha. Seduz, lá isso é verdade).
sexta-feira, 24 de junho de 2011
Vergonha envergonhada
A nossa atitude face à pobreza e às divisões sociais dependem muito do sítio onde vivemos. Em Portugal, toda a gente tem vergonha de ser pobre, insiste-se nesta ideia de que não há classe social porque somos todos classe média, e passamos a vida a tentar esconder alegremente (nos dias que correm, não tão alegremente) a falta de opulência na conta bancária.
Em Inglaterra, a vergonha face à pobreza não grassa como em Portugal. Não quer dizer que não haja, claro, mas enfim, quem é pobre, é pobre, pronto. Basta ver televisão no Reino Unido para nos apercerbermos disto. As telenovelas são sempre acerca de pessoas, se não pobres, pelo menos da chamada "working class"; há até uma série muito popular e gira, Shameless, em que as personagens são todas pobretanas, e não se faz disso nenhuma tragédia. Curiosamente, a mesma série foi recentemente adaptada aos Estados Unidos, com o William H. Macy no papel principal, e as diferenças são óbvias - tudo muito mais polido, mais limpinho, mais decente. Nada da pobreza esquálida da série inglesa, que mesmo assim dá para transformar em comédia. A crítica no Guardian até se queixava de que os dentes dos actores da série americana são bons demais, e que logo aí a série falha, acrescentando-se:
Não se está aqui a falar apenas de dinheiro, de ter muito ou pouco do dito. Há diferenças culturais e de estilos de vida muito marcadas. Até mais ou menos aos anos 80, no Reino Unido, ser working class era motivo de orgulho, era uma vida que presumia determinados valores culturais diferentes da "middle class" e, obviamente, da "upper class". Agora, com o fenómeno do crédito e do centro comercial como catedral, penso que as coisas mudaram, mas de qualquer modo, não há em Inglaterra (falo neste país porque é o exemplo que eu conheço melhor) o desejo desesperado que em Portugal temos de esconder dificuldades, de embarcar em carros, férias no estrangeiro, roupa, sapatos, malas, ski, nordeste brasileiro, acima de tudo carros, acho eu. Não que eu tenha algo contra gastar dinheiro. Mas gastar dinheiro apenas para se provar alguma coisa, desesperadamente, faz alguma impressão.
Tristemente, estes tempos de crise vieram desmascarar todas as nossas ilusões. E tenho pena, a sério que tenho.
terça-feira, 21 de junho de 2011
Expressão que compreendo: o não-sei-quantos "é assim"
Adoro quando as pessoas dizem isto. Adoro. Usam esta expressão como se fosse um argumento válido, lógico e absolutamente racional - "mas tu já sabes que sou assim"; "não vale a pena mandar vir com ela - ela é assim!"; "eu já te disse que tens de ser mais pontual, mas tu és assim", com ar contrafeito. Dá-me logo uma imensa vontade de rir (não confundir, por favor, com a expressão "é assim", que não tem graça e enfurece).
Quando as pessoas aplicam a expressão à sua própria pessoa, e reforçam a frase com a partícula "cá", o caso agudiza-se ainda mais. Torna-se mais cómico. "Para mim, quem fuma ao pé de crianças devia ir preso. Eu cá sou assim!", por exemplo. E este "eu sou assim" justifica tudo o que nos passa pela cabeça dizer. Absolutamente tudo.
Ponho-me a pensar no que diria a polícia ao Jack the Ripper se efectivamente o tivesse apanhado. Ó Jack, que grande chatice, o Jack podia ter evitado isto tudo, mas o Jack é assim! (insisto no ponto de exclamação. Sem ele, a expressão não tem tanta graça).
Já não tenho mais nada para dizer. Às vezes, sou assim.
Perfeitinha, perfeitinha
Há uma pessoa com a qual embirro, apesar de não a conhecer de lado nenhum, e que é a Gwyneth Paltrow. Em primeiro lugar, é bonita, mas deslavada - há pessoas assim, estranhamente; esteticamente, são agradáveis ao olhar, mas há algo ali a que falta sal. Sem sal, não se vai a lado nenhum, e eu, ainda por cima, sou salgadiça, preciso de sal no pão, no tomate, na saladinha e etc.
Em segundo lugar, não é grande actriz. Quer dizer, também não é má, mas pronto, não é carne nem peixe, como diz o Gogol daquele homem que desata a comprar almas mortas. Isto de não ser nem carne nem peixe convém a certas profissões, como por exemplo contabilista, empregado das finanças, vendedor de loja de artigos de desporto, empregado de agência de viagens, entre outras actividades. Mas a actividade de actriz não se conta entra estas respeitáveis profissões que precisam de gente anódina, pelo contrário - um actor tem de ser para a frentex, como se diz. A Gwyneth, lamentavelmente, não é.
Em terceiro lugar, a mesma Gwyneth tem aquele ar de menina perfeitinha, sempre bem penteadinha, sempre bem vestidinha, sempre sorridentezinha, sempre com ar de quem nunca partiu, ou partirá, um prato. As pessoas perfeitas são terrivelmente esquisitas, tenebrosas - o sorriso que muda com as estações do ano, tal como a roupa que vestem, o cabelo sempre cuidadosamente no lugar, e o pior de tudo, sempre a palavra certa para a pessoa certa, sem nunca falhar. O tipo de meninas que nunca sujava as mãos na escola, nem no recreio nem a pintar com marcadores. Brrrr.
Para confirmar a sua perfeição, a Gwyneth tem um blogue espectacular, que pode ser consultado aqui. É uma beleza imperdível, a lojinha de queijos em Londres, porque nada na vida é melhor do que um bom queijo e um bom vinho, claro, os melhores petiscos para fazer piqueniques no dia do casamento real, livros que ensinam a ser o melhor pai ou mãe possível (ao que parece, este livro conseguiu que uma das amigas da Gwyneth "voltasse a gostar dos filhos"), as melhores escolas para os meninos, os melhores produtos para a pele, super biológicos, claro, tudo coisas assim com estilo. Coisas perfeitas, com a singularidade de serem coisas que se podem comprar. Quem diria que a felicidade, que o estilo de vida perfeito, era afinal tão fácil, tão simples, tão arrumadinho, à distância de um simples cartão de crédito, como a Gwyneth explica no seu blogue?
Aaah... sinto-me tão bem comigo mesma depois de saber que há gente assim no mundo. É que me sinto bem.
domingo, 12 de junho de 2011
O dilema dos Habsburgo
Em Language and Solitude, o pensador Ernest Gellner descreve o "dilema dos Habsburgo" como o princípio que estabelece que qualquer cultura ou civilização é tanto mais defendida pelas pessoas quanto mais perdida está no tempo. Peço desculpa pela frase enxovalhada - não me estou a fazer entender. Por exemplo, olhamos com reverência para as pirâmides do Egipto porque o esplendor da civilização egípcia já morreu. Os excessos fashionistas da Maria Antonieta (não aquela frase do "então que comam bolinhos", porque parece que nunca a proferiu) são encarados com doçura e graça porque a desgraçada também já morreu, e o mesmo se aplicará aos Romanov ou aos Habsburgo - daí o dilema dos Habsburgo.
Tudo o que já não conseguimos recuperar, tendemos a querer mais e mais e mais, ou pelo menos a catapultar imediatamente para um imponente pedestal. Há pessoas que dizem que não vivem no passado, que só pensam é no futuro, mas isso é um tanto ou quanto impossível. Vivemos todos no passado, e daí o sorriso melado que nos assoma aos lábios quando ouvimos falar do Dartacão, da música do Pó de Arroz, do Milo, das bolas de berlim com creme na praia, e em geral tudo o que o Nuno Markl inclui naquele livro tão giro da Caderneta de Cromos. Gosto muito deste livro, mas nunca ninguém me ofereceu e eu também nunca comprei. Que pena.
D. Duarte, nos belíssimos textos que escreveu, compilados no Leal Conselheiro, fala das "saudades do que não se cumpriu" - aqueles momentos do passado em que quase que poderia ser, quase conseguimos, e que de repente se avolumam e passam a significar tanto na nossa vida, como os Habsburgo que nunca mais voltarão (por acaso, nunca simpatizei muito com os Habsburgo, mas agora não interessa). E diz ele, o querido D. Duarte:
E porque sobresta lembrança, que traz suydade, muitos encorrem em pecado, e desordenança da voontade, lembrandolhes por vista dhomees e molheres casadas, cantygas, cheiros, algumas pessoas com que ouveram algumas folganças quaaes não devyam, e por ello lhes vem o desejo de voltar a tal estado e conversaçom, nom havendo arrependimento do mal que fezerom, mas ham desprazer do que nom compryram.
Desprazer do que não cumprimos. Custa carregar este fardo, caraças.
A dieta
Há pessoas que fazem o sacrifício da dieta, coisa respeitável, e há outras, como eu, que fazem o sacrifício de não fazer dieta, o que ainda é mais respeitável; isto porque as primeiras olham para as natas, o chocolate, o croissant, e pensam "ah, não posso comer", e as segundas olham para as mesmas natas, chocolate, croissant, e dizem "ah, não posso comer, mas vou comer". É terrível e angustiante - sabemos estar face à possibilidade do mal, numa encruzilhada em que verdadeiramente podemos escolher entre o bom caminho e o mau caminho, e fazemos o terrível e consciente sacrifício de escolher o mau caminho. É muito kierkegaardiano e filosófico, este sacrifício de que falo - o ser humano é confrontado com a possibilidade de escolher o mal, e vai e escolhe mesmo o mal, quando podia perfeitamente escolher o bem.
E porque é que se escolhe o mal? Porque se sofre, encetando-se assim um processo de catarse ou redenção, que eu ainda não descobri muito bem como se alcança, mas que com certeza se alcança ao fazer o sacrifício, sublinho sacrifício, de comer croissants, pão de ló, bacalhau com natas, chocolate, pão, batata frita. É este tipo de calvário purificante que quem faz dieta não compreende. As pessoas que fazem o sacrifício de não fazer dieta são, portanto, moralmente mais maduras. Estão noutro plano.
O meu bem-haja a todas estas pessoas. De modo que o meu conselho para o Verão é: não façam dieta, que os biquinis reflectirão o vosso recomendável sacrifício.Fim.
segunda-feira, 6 de junho de 2011
A Sophie
A Sophie Calle é uma artista de quem eu gosto. Descobri-a através de uma exposição sua, mais tarde um livro, intitulado Douleur Exquise. É uma retrospectiva de fotografia e texto sobre uma relação amorosa falhada, em contagem decrescente até o momento da ruptura - 50 dias para a dor, 49 dias para a dor, etc.
Pode parecer masoquista, e talvez seja, de facto. No entanto, o que subjaz ao trabalho de Calle é aquela vontade terrível que temos de fazer o tempo andar para trás quando a infelicidade embate contra nós - há uma semana eu não sabia, há uma semana eu estava bem, se eu ao menos tivesse aproveitado melhor, se tivesse feito isto ou aquilo, se pelo menos conseguisse andar para trás uma semana e ficar lá para sempre. Quanto mais pensamos nisto, pior é, porque evidentemente massacramo-nos com a única solução que será para sempre impossível, e que é evitar uma coisa que já aconteceu. E a realidade da nossa impotência face à tragédia é destruidora, difícil, ou impossível, de aceitar - não interessa se a nossa tragédia é banal, ou se acontece a toda a gente. Basta ser uma tragédia para nós para se tornar inquantificável.
De modo que Calle consegue essa sensação triste, destruidora, sufocante e claustrofóbica até, com esta contagem decrescente até ao momento de tristeza inevitável, que já sabemos à partida ser imparável e destruidor. Mas é um trabalho bonito.
Este é o resumo da Sophie sobre Douleur Exquise:
Je suis partie au Japon le 25 octobre 1984 sans savoir que cette date marquait le début d'un compte à rebours de quatre-vingt-douze jours qui allait aboutir à une rupture, banale, mais que j'ai vécue alors comme le moment le plus douloureux de ma vie. J'en ai tenu ce voyage pour responsable. De retour en France, le 28 janvier 1985, j'ai choisi, par conjuration, de raconter ma souffrance plutôt que mon périple. En contrepartie, j'ai demandé à mes interlocuteurs, amis ou rencontres de fortune : "Quand avez-vous le plus souffert ?" Cet échange cesserait quand j'aurais épuisé ma propre histoire à force de la raconter, ou bien relativisé ma peine face à celle des autres.
Caçoada

Se alguém se der ao trabalho de ler a mini-entrevista que acompanha a foto, descobrirá qual era a profissão do sr Sparks antes de se tornar "escritor" e ver os seus "livros" adaptados ao cinema e enriquecer (nada contra; eu própria acalento o sonho de ver este blogue adaptado ao cinema, por exemplo). Para ajudar, dou três hipóteses, e quem não quiser ler a entrevista pode arriscar - mas atenção, expliquem o porquê da escolha. As hipóteses são:
a) contabilista
b) delegado de propaganda médica
d) dono de uma loja de artigos de desporto
d) empregado das Finanças (do IRS, como eles lá dizem)
E pronto. Em minha opinião, modesta é certa, o Sr Sparks devia investir nuns óculos de massa e um casaquinho de malha, ao menos.
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