quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Não é para todos

No Brideshead Revisited, a personagem Sebastian é uma espécie de rei-sol em torno do qual orbitam uma série de súbditos voluntários e fascinados. Nunca lhe acontece (a Sebastian) nada de mal, tudo lhe é perdoado desde os tempos da escola, alunos e professores sorriem-lhe igualmente fascinados. 
Num episódio do 30 Rock que vi há pouco tempo, a Liz arranja um namorado lindo e giro, de tal forma que até os polícias lhe perdoam as multas. Ao falar com o patrão, com quem ela se dá bem, e que é interpretado pelo Alec Baldwin, que está tão engraçado nesta série, dizia, ao falar com o Alec Baldwin, a Liz chega à conclusão de que as pessoas bonitas vivem numa bolha que as protege de quase tudo, porque os outros não conseguem atingi-las e olham para elas em êxtase. Como as pessoas da Idade Média olhavam para a estátua da Virgem Maria, por exemplo. Na altura não havia super-modelos.
O caso de Sebastian e de pessoas como o Sebastian é, porém, diferente. Não é só o ser bonito. É uma espécie de aliança à super-herói de beleza e de uma piroseira qualquer que às vezes é designada por "magnetismo". Eu gosto mais da palavra "pinta".
E sobre isso já escrevi num post muito mais antigo sobre Marlon Brando. Não valerá a pena repetir.
É estranho pensar como isto acontece, este fenómeno da pintarola. Nasce-se com ele? À partida, sou um pouco avessa a inatismos, que serviam, no século XVIII, por exemplo, para justificar a condição de aristocrata e de como alguns homens seriam, pura e simplesmente, melhores do que outros apenas pelo nascimento. Eu gosto mais de acreditar no mérito. Mas esta pinta que algumas pessoas têm atinge-se com o mérito? Este Sebastian, por exemplo, é herdeiro de uma grande família nobre, vive num casarão, estudou nas melhores escolas, etc. Tem pinta por mérito ou porque a sua vida fácil lhe permitiu o tal magnetismo?
Há pessoas que têm uma espécie de poder. É estranho, é só isso.
O Alec Baldwin disse à Liz que, com o passar do tempo, a bolha rebenta e quem lá está dentro cai desamparadamente, e acaba-se a glória. Ah, ah.

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Montejunto

No cimo de Montejunto, há uma eremida em ruínas e um convento com uma arquitectura muito bonita, quase parece uma cisterna abandonada, colunas simétricas, ângulos ordenados, conhecem?, e também há uma capela bonita, pelo menos por fora, e ouve-se o vento de tal forma que começamos a ter uma ideia do que Emily Bronte terá pensado quando escolheu o título para o seu livro, e do cimo de Montejunto só se vê céu e muita terra por ali espraiada, quer dizer, também se vêem as antenas enormes de televisão, agora já percebo quando era pequena e ouvia coisas sobre o sinal ou a emissão que vinha de Montejunto, e enfim, as antenas não são bonitas, mas tudo o resto é tão bonito que as antenas não o conseguem estragar.
E o que se pensa no cimo de Montejunto é que nunca ninguém ali vai acima (sim, "nunca ninguém", porque "duplas negativas", de que eu agora ouço falar muito, só se aplicam ao inglês, e a língua portuguesa pode abusar delas à vontade, ok? Porque é que eu hei-de dizer "nunca alguém"? "Nunca ninguém" é bem mais bonito e sonante, com a aliteraçãozinha do "n").
Continuando. Ponham um telhadinho na eremida em ruínas, já agora água canalizada e electricidade, e eu vivia lá bem.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Expressão que não compreendo: "o português"

Acho sempre muita graça quando as pessoas se referem a esse animal esquivo e exótico que é "o português", como se fosse uma entidade que lhes é absolutamente estranha, com a qual não têm nada a ver e que normalmente acumula todos os defeitos que elas próprias pensam que só os outros, e não elas, é que detêm.
"O português deixa tudo para a última da hora, e depois é isto".
"Já se sabe que com o português não há hipótese - é sempre tudo ao molho e fé em Deus"
"A gente ainda tenta ter algum cuidado, mas o português não está habituado a coisas boas e vai e estraga tudo"
"O português é sempre assim, andou anos a gastar dinheiro em telemóveis e carros e depois queixa-se que anda em crise"
"Anda toda a gente revoltada com os cortes e com a crise, mas o português parece que não percebe que não há dinheiro!"
O caso torna-se ainda mais engraçado quando "o português é substituído pela catita entidade designada por "tuga" - o tuga é assim, sempre a estragar tudo. Quer dizer, nenhum de nós, portugueses, se reconhece neste misterioso "português" - este "português" é uma entidade à parte, é tudo o que está mal no país, mas não é nenhum de nós. É outro qualquer. Não consigo decifrar este interessante mistério, a sério que não consigo.
E tem igualmente graça, quanto a mim, saber que o problema reside precisamente no facto de "o português" não se queixar o suficiente, de "o português" aceitar demasiadamente bem esta conversa de que não há dinheiro, de "o português" não se revoltar ainda mais indignadamente contra o afundar da sua identidade, enfim, no facto de "o tuga" engolir este discurso da crise, aplaudir o FMI e ainda chorar por mais. Tudo bem que nos ensinam a dar a outra face, mas bolas, há limites para tudo.
"O português" fez uma greve geral no dia 24 de Novembro, mas o que observo é que "o português" está, em geral, muito resignado ao discurso miserabilista que nos faz saltar para o abismo. As pessoas parece que aceitam tudo. Porquê? Porque é que não vamos para a rua partir tudo como os Gregos, mandar o governo todo para o c******* como eles merecem, se assim como assim, para os c***** das agências de rating somos lixo e ao lixo voltaremos? É quase como o eterno retorno do Nietzsche, e se é eterno, e se é retorno, ao menos que façamos espalhafato, que o mandemos à merda, que lhe cuspamos na cara, que nos aliviemos. Era só isso que eu queria - um pouquinho de alívio. 
Ah, mas a Grécia é que é bom?, querias estar como os Gregos, tudo sem ordem, tudo no caos? Sim, queria, pois queria, e qual é o mal?, queria ver uma reacção qualquer, queria uma emoção, como o Rasputine diz ao Corto Maltese, queria pessoas verdadeiramente indignadas, porque é a única reacção possível ao que se está a passar. E não, não sou funcionária pública, portanto este post não deriva do corte dos subsídios de Natal e férias.
Pronto. Esvaziei-me de alguma fel, mas não de toda a fel. Como boa portuguesa que sou, arranjo sempre qualquer coisinha para me queixar. O português, pá, realmente, nunca está satisfeito.

domingo, 4 de dezembro de 2011

Pata

Disseram-me uma vez, quando eu era pequena, que ser canhoto dava muito jeito para o andebol. Até hoje não faço ideia nenhuma se isto é verdade, porque até hoje nunca joguei andebol na vida. No entanto, cresci com esta ilusão de que haveria no mundo um desporto em que finalmente conseguiria ser bem sucedida, e tudo graças à minha mão esquerda, aquela que me remete para a categoria de canhota.
A piada está no facto de eu, com a idade avançada que tenho, ainda achar que um destes dias vou jogar andebol e vou ser super-óptima-espectacular e ganhar montes de prémios, tudo à conta da minha condição de canhota, algo que me é tão natural, algo que não me custa nada, e que isso vai redimir os penosos anos de Educação Física da escola (terror), corridas e corridas à volta da porcaria do pavilhão, a ouvir as repetentes a queixarem-se de que "isto não é nada bom para as mamas", anos a correr atrás da bola de basquete como se aquilo interessasse para alguma coisa e a tentar fingir que percebia as regras do jogo, anos a fazer serviço no vólei e a bola saltar para todas as direcções possíveis menos para o campo adversário, anos a ser obviamente a última escolhida para as equipas, anos a ter de aturar todos os meus amigos na praia a quererem jogar ou vólei ou às cartas, e eu sem querer jogar a nada porque tanto um como o outro me aborrecem de morte, e ver até as minhas amigas patas como eu todas contentes, aos pulinhos de satisfação por estarem num círculo com os rapazes giros a estender os braços e a mandar com a bola não sei para onde, e eu sem perceber onde é que estava a piada. Tudo bem, rapazes giros.
E portanto desenvolvi esta fantasia, quiçá um dia realidade, de que podia ser uma pata a todos os desportos, menos no andebol, porque sou canhota, e ser canhota dá muito jeito para o andebol. Eles que esperassem para ver, gargalhada maléfica.
Nunca aconteceu, mas não quer dizer que um dia não venha a acontecer. Como diz o John Lennon, a vida é o que nos acontece quando fazemos outros planos. Nos meus planos não está jogar andebol, nem jogar a nada, portanto pode ser que este grande triunfo desportivo me aconteça por geração espontânea. 
Tudo por causa da minha mão esquerda. Aquela que me faz sentir menos pata. 

Maravilhoso mundo da abundância

Hoje fui ao Continente e estava lá uma alface à venda que era apropriadamente designada por "alface multifolhas". Aaaah... pensei melhor e deixei-a lá ficar. Alface multifolhas. Eu não gosto de alfaces multifolhas, não são bem alfaces, pois não?, tal como não gosto de tomates encarnados, cenouras cor de laranja (é estranho, cenouras que têm a mesma cor de frutos) e batatas para cozer. Só gosto das batatas que são para assar, e mesmo assim.
E depois deambulei pelo corredor dos iogurtes, já que sou fã de iogurtes, e maravilhei-me com os novos Danone sabor a pipoca (perdão - a "popcorn"), sabor Capuccino e cheesecake. Isto sim, isto já eu considero fundamental.
Não reparei a quanto estava o IVA dos iogurtes, mas acho bem que o Danone Capuccino esteja para aí a 2%. Acho um escândalo se não estiver.
Estes tempos de crise irritam-me tanto.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Perder em grande

Cartier-Bresson fala do momento decisivo, aquele que se consegue capturar na fotografia e que depois desaparece para sempre. O que resta é a memória, e a fotografia. Como dizia o robot louro e melancólico naquela cena final do Blade Runner, "all those moments will be lost in time like tears in the rain. Time to die".
Isto é coisa da pesada, realmente, e que bonito que é, ao mesmo tempo.
Não me irrita propriamente, mas há qualquer coisa que sinto amargurar quando penso nisto, nestes momentos perdidos. Porque Cartier-Bresson, ao falar do momento decisivo, sabe também que a fotografia é uma pobre reminiscência desse momento, como sentir um cheiro qualquer que nos é familiar e que teima em afastar-se, e nós a abrir as narinas desesperadamente, a farejar que nem cãezinhos, a tentar reencontrar o odor. 
E nunca conseguimos recuperá-lo totalmente. Daí eu concordar sempre, cada vez mais, com o Woody Allen - não temos memórias, perdemos memórias. Ou por outra, a memória é apenas um farrapo do que perdemos. 
Perdemos sempre tanto. 
A vida é lixada - até os momentos em que pensamos que estamos a ganhar são, no fundo, momentos perdidos.
Olha, time to die, como dizia o outro. Mas que esse dia esteja longe, que até lá ainda há muito a perder, e eu faço questão de perder em grande. 

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Emparedados

Eu gosto de diferenças, e à partida penso que é relativamente fácil reconhecer que as diferenças são saudáveis, engraçadas, fazem-nos aprender, descobrir coisas novas, etc e etc. Continuasse eu a frase e isto ficava um manual da escola, Estudos do Meio e assimetrias regionais.
E, de facto, é um bocadinho de assimetria regional que se fala quando pensamos, por exemplo, no caso de Belfast, cidade que tem gente tão diferente, tão diferente que sente até a necessidade de viver em bairros diferentes, ir a escolas diferentes, apoiar equipas de futebol (e até desportos) inteiramente diferentes, falar inglês de forma diferente, passear-se por zonas da cidade diferentes, brandir bandeiras diferentes, professar religiões diferentes, ter empregos diferentes, cobrir paredes com grafittis diferentes, a parte católica bem mais agradável, aliás, do que a protestante ou "loyalista" - a primeira poemas e arco-íris na parede, a segunda UVFs e homens de balaclava empunhando metralhadoras. Muitíssimo acolhedor. 
No fundo, as pessoas de Belfast embirram um bocado com a diferença, daí preferirem a companhia daqueles que, em sua opinião, são semelhantes. Apesar dos esforços, tanto quanto sei bastante reforçados, de integrar nas forças policiais números equivalentes de católicos e protestantes, o pessoal continua a preferir ir directamente aos paramilitares para resolver os assuntozitos porque, afinal, nada existe que uma bulha não resolva. 
Porém, o impacto mais forte que a recusa da diferença provocou em mim não foi exactamente em Belfast, mas antes em Nicósia, essa remota capital do Chipre de que quase nunca se ouve falar, que ostenta (muito pouco orgulhosamente, como será óbvio) o título da última capital dividida da Europa. A gente vai a andar na rua muito bem, loja aqui, loja ali, pessoas atarefadas, e de repente embate contra um muro, quase do nada. Vê um arame farpado, um soldado a fazer a ronda (o soldado que eu vi até tinha cabelo comprido e brinco na orelha - devia ser para amenizar a coisa), e é assim, para o outro lado já não se passa. Quer dizer, passar até passa, há uns anos que é possível, é preciso é estar na disposição de mostrar passaporte, passar por controlo de segurança e quejandos. Também se pode subir ao último andar de um centro comercial lá por perto, com uma vista soberba para as montanhas do Chipre, e contemplar a grande bandeira turca cravada no topo das montanhas, na parte ocupada da ilha, a reclamar território bem reclamadinho.
Graças ao facebook, descobri este movimento, semelhante, de alguma forma, ao Occupy de Londres e de Wall Street, em que, pacificamente, uma série de gente passa as noites ao pé do muro na esperança de um Chipre unido. Não um Chipre semelhante - um Chipre em que toda a gente é diferente, mas toda a gente deixa os outros em paz. 
Os muros são, efectivamente, coisas muito primárias, se formos a ver bem. Coisas medievais, que não vêm de nenhum lado sem ser do medo. Quem não deve, não teme, e não precisa de muros para nada. 
Bom. Acabemos com os muros, é o que tenho a dizer hoje. 

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

A iluminação da classe média

Há um filme, o Anónimo, recém estreado em Portugal (não vi) que, ao que parece, defende a tese, já muito discutida no passado, de que Shakespeare não foi o verdadeiro autor das peças, mas antes um aristocrata qualquer. Dizem alguns que seria até a Rainha, a Isabel I, a autora das obras (esclarecendo-se assim o controverso homoerotismo dos sonetos - ai, que conveniente). 
Eu percebo a perplexidade. Como é possível que um da arraia miúda, nem sequer exactamente um burguês, uma espécie de povo um bocadinho mais nutrido, educado em escola pública, tenha escrito a grandiosidade literária que é a obra de Shakespeare. É impossível. Um Hamlet, especialmente um Hamlet escrito no século XVII, é coisa de majestade.
E é mesmo. De modo que eu acredito que tenha sido a Rainha a escrever o Hamlet e o Measure for Measure - pelo menos estes dois. As outras peças, enfim, qualquer um podia ter escrito, desde que soubesse Grego ou Latim, que por acaso o Shakespeare aprendeu na escola. Que educação tão precária.
O talento, quando nasce, não é como o sol, porque é só para alguns. E, tal como a justiça, também é ceguinho. Não quer saber se a pessoa tem ou não dinheiro para comprar o que lhe fica bem. 
E isto é uma coisa muito difícil de aceitar. Cada um com a sua cruz, não é.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Das místicas e da falta delas

O filósofo J.L. Austin apontou uma situação muito pertinente (isto quanto a mim) no seu How To Do Things With Words: muitas vezes, mudamos a nossa vida com a linguagem, porque agir com a língua que se fala é tão ou mais importante do que agir fisicamente. 
Isto para dizer que hoje abri a caixa do correio e estava lá uma revista chamada "Mística". Achei estranhíssimo, e que no mínimo o pessoal ensandecido do New Age me andava a perseguir, sabe-se lá porquê. Mas como é que esta gente descobriu a minha morada?!, pensei eu.
Acontece que descobri, após um olhar mais minucioso à revista, que se tratava da Mística, sim, mas do Benfica. Era a revista do Benfica, não o pessoal ensandecido do New Age, crianças índigo e hortelã pimenta e isso. 
Havia ali qualquer coisa naquela situação que pedia mudança, transformação. Senti que, seguindo o pensamento de Austin, eu deveria ter tido qualquer reacção verbal que instituisse um novo estado de coisas - ah, que o meu dia melhorou tanto, ah que vou ler a revista de uma ponta à outra, ah, que a mística da revista vai transferir-se para a minha pessoa, que tão precisada dela (da mística, leia-se) está. 
Mas não. Eu não disse nada porque a minha vida continuou igual. A revista permanceu na caixa do correio, já que eu estava muito carregada e não me apeteceu ter de arranjar um dedinho onde ela se pudesse encaixar.
Os benfiquistas acham que o Benfica muda a vida deles, só por cantarem o hino. Eu não. Talvez não seja benfiquista pura. 
Reservo o poder da linguagem assim para outras situações. É que é muito difícil deixar a mística entrar na nossa vida. 
Mas força, Benfica. 

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Coisa que não compreendo: "pedimos desculpa pelo incómodo"

Normalmente, costumo considerar que pedir desculpa pelo incómodo é muito agradavelzinho, muito composto. Mas tenho reparado que pedir desculpa pelo incómodo não passa de um estratégia amenizadora para justificar algo que não tem justificação nenhuma, tornando-se numa frase críptica que precisa de ser decifrada, querendo significar sabe-se lá que extraordinário inconveniência. E deste modo o "pedimos desculpa pelo incómodo" tem muitas traduções possíveis.
"Multibanco avariado. Pedimos desculpa pelo incómodo" - tradução: não estamos para pagar multibanco, portanto traga dinheiro. 
"Se desejar recibo, por favor dirija-se à loja. Pedimos desculpa pelo incómodo" - tradução: queremos muito que não nos peça recibo para pormos dinheiro ao bolso, portanto vamos complicar-lhe a vida o mais possível. Isto aconteceu-me numa porcaria de uma bomba Galp (a empresa que mais detesto em Portugal nem é a Emel, é mesmo a Galp) - a bomba estava em pré-pagamento, de modo que a pessoa tinha de ir pagar, voltar à bomba e abastecer, e depois voltar à loja para pedir recibo. Tive vontade de partir tudo. Comecei a resmungar, o mais educadamente que consegui, com a senhora que lá estava, mas coitada, o que é que ela tinha a ver com aquilo. 
"Casa de banho avariada. Pedimos desculpa pelo incómodo" - tradução: não estamos para andar sempre a limpar a casa-de-banho e o xixi e cocó dos outros. Vá fazer à esquina ou aguente até chegar a casa.
"A impressora não tem toner. Pedimos desculpa pelo incómodo" - tradução: ficámos sem tinteiro há que tempos e nunca tivemos para o trocar. Mais uma vez, aconteceu-me a mim nos Correios, mais do que uma vez (tinha de autenticar uns documentos, ando sempre imersa em burocracia). Continuando, da segunda vez, tive de dizer ao senhor que tinha de arranjar maneira de pôr a impressora a funcionar. Dois minutos depois e afinal já havia o chamado toner ("ah, está mesmo no fim, a senhora está com sorte!").
É expressão que me irrita sempre. De cada vez que alguém "pede desculpa pelo incómodo", já se sabe que o mesmo incómodo vai ultrapassar em muito qualquer laivo de razoabilidade. Mas lá estão as pessoas a insistir no pedir desculpa pelo incómodo não por boa educação (a boa educaçãozinha é sempre bem-vinda, e nós, queridos portugueses, gostamos muito de rematar a frase com expressões compostinhas como esta), mas sim como uma justificação para a parvoíce irrazoável.
A sério. 
Este post destila fel. Peço desculpa pelo incómodo.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Mas se eles queriam todos ser o Kurt Cobain

A BBC passou, na semana passada, uma série de programas sobre o grunge e os Nirvana. Por coincidência, foi a mesma semana em que vi o excelente documentário de Cameron Crowe sobre os Pearl Jam, 20. 
A primeira vez que ouvi Nirvana foi com o omnipresente Smells Like Teen Spirit, e fiquei abismada com aquilo. Por um lado, achei horrendo e o Kurt Cobain o homem mais feio que já alguma vez vira. Qual era a ideia de não pentear o cabelo, ainda por cima quando se era louro? Não percebi. Por outro lado, acho que tudo aquilo me fascinou.Nunca tinha ouvido nada assim. Ainda hoje gosto de ouvir Nirvana (embora sem pretensões de ser uma grande fã, porque nunca fui), portanto acho efectivamente que a distorção das guitarras e a voz roufenha do Kurt me fascinaram mesmo - e aquele suspiro quando canta Where Did You Sleep Last Night (aqui, minuto 3:58) ainda hoje me mata. Acho que este homem era um grande intérprete, de facto. 
O documentário que vi relatava as últimas 48 horas de Kurt Cobain (há em DVD, capinha aqui ao lado) e discutia aquilo que, segundo sei, já muito se discutiu anteriormente sobre Cobain - que era atormentado pela fama; que, se por um lado queria fazer dinheiro, por outro vivia esmagado sob o peso da fortuna e da opulência com que subitamente fora bafejado; que lidava malíssimo com o facto de se ter tornado uma figura de culto e de ter gente que o adulava, que o "seguia"; que de alguma forma sentia que a fama e o sucesso não eram merecidos (e mostra-se imediatamente uma entrevista em que Cobain diz que havia, na altura, dezenas de bandas muito melhores do que os Nirvana que mereciam ter alcançado o sucesso destes últimos; há igualmente depoimentos de uma série de pessoas da cena musical de Seattle, antes desta se ter tornado mundialmente popular e toda fixe, a dizer que, enquanto os Mother Love Bone, antecessores dos Pearl Jam, haviam sempre gozado de grande popularidade, os Nirvana eram os parentes pobres da altura, perdedores em todos os aspectos; até há alguém que diz algo como "até para Seattle eles eram uns falhados"). 
E porém. A história que se segue é bem conhecida - sucesso e vendas retumbantes, suicídio e miríades de explicações que se seguiram depois da morte de Kurt Cobain, da paranóia (foi assassínio, mas é!), à solidária (coitado, tinha problemas de estômago e era um grande viciado), passando pela idólatra (ah, que sensível, que profeta atormentado, a fama foi demais para ele, as grandes almas são assim, não são para este mundo).
E porém. Kurt Cobain conseguiu fama e dinheiro. Sucesso propriamente dito, talvez não. E conseguiu fama e dinheiro porque merecia, ou porque teve sorte, porque a MTV decidiu passar o Smells Like Teen Spirit vezes sem conta? Uma colega minha da faculdade, daquelas parvas irredutíveis, dizia que não percebia o apelo dos Nirvana, já que o Cobain cantava mal e era muito "imperfeito" a tocar guitarra. Para mim, a falta de técnica de alguém não significa que não tenha talento (a Celine Dion é muito perfeita a cantar e não tem pinga de talento, por exemplo). Eu, por acaso, acho que Kurt Cobain era talentoso. Outros dizem que não, que teve apenas sorte e que, para voltar a Smells Like Teen Spirit, esta canção não passa de um riff do More Than a Feeling dos Boston, apenas mais acelerado e com mais distorção. 
Aquilo que eu queria verdadeiramente dizer, e que por alguma razão anda aqui aos solavancos, é que Kurt Cobain é apenas um exemplo de uma questão maior, mais "abrangente" (que palavra cómica, eh eh)  - o que é, verdadeiramente, o talento? Truman Capote, como sempre soberbamente consciente de que esta qualidade era algo que ele tinha em abundância, descreve o talento como um chicote que fustiga as pessoas talentosas permanentemente, sempre à procura de mais e melhor. Foi este chicote que levou Cobain ao suicídio? É que acredito que, efectivamente, o talento e as suas consequências possam ser tão avassaladoras que acabem por redundar em destruição (e a História mostra-nos uma data de exemplos disto). Por outro lado, é também certo que o "talento" é difícil de identificar, e muitas vezes confundido com campanhas publicitárias audaciosas, marketing manipulador, fogo de vista, espectáculos para encher o olho, atitudes, roupas, cabelos, entrevistas cuidadosamente estudadas e planeadas, etc. - e a atitude blasé, de recusa de qualquer coisa, dos Nirvana e do grunge em geral, que me atraía na altura e continua a atrair, pode talvez não passar disso. Eu sempre vi ali qualquer coisa de genuíno, tal como hordas de outras pessoas, mas talvez tudo isto de que falo seja tão genuíno como a Jennifer Lopez (que, coitada, já avisou as pessoas de que é apenas a Jenny from the block, genuinazinha de morrer). 
Mas enfim, não tenho resposta nem mais nada a dizer, a não ser que, ontem tal como hoje, se eles queriam todos ser o Kurt Cobain, juntar-me ao grunge era a mais lógica solução (frase sábia, esta, que devia vir entre aspas, pois obviamente não é minha. Mas aspas são feias e já usei muitas neste texto). E nunca me arrependi.


quarta-feira, 2 de novembro de 2011

A língua que não é doce como o mel

Is our language a function of our British cynicism, tolerance, resistance to false emotion, humour, and so on, or do those qualities come extrinsically - extrinsically - from the language itself? It's a chicken and egg problem.

Pois é. O grande Stephen Fry tem, como sempre, razão quando fala destas coisas da língua e da linguagem. Uma vez, na Expo92 (pois é... eu  sou uma pessoa assim velha), veio um indivíduo perguntar-nos, a mim e ao grupo de amigos com quem eu estava, de onde éramos. Respondemos de Portugal, ao que ele retorquiu "o vosso idioma é doce como o mel". Lembro-me de na altura ter pensado que, ou ele queria ser extremamente simpático por qualquer motivo, ou devia apenas conhecer o português do Brasil. Não consigo conceber ninguém a ouvir português europeu e considerá-lo "doce". Tem muitas outras qualidades, mas doce, melodioso, fofinho, não é. 
O português é duro, de ângulos agudos daqueles que o Cesário Verde gostava, ríspido, fechado, desconfiado, pouco simpático. A língua é assim porque nós somos assim? 
E, quanto a mim, o português também é carismático, expressivo, forte, gracioso e com piada. E seremos nós assim também? Ou calha a nossa língua ser assim, sem nada a ver connosco?
O signo linguístico é arbitrário, já dizia Saussure. De alguma forma, isto responde à questão. E porém, acaba por não responder. Se a linguagem é uma faculdade mental, então as nossas qualidades estão na língua que falamos. E se existe um imaginário colectivo, um país que partilha uma memória, um território, uma história, etc., então a língua também faz parte dessa partilha.
Conclusão: o português (europeu, reitero) não é doce como o mel porque os portugueses também não são. O português é antipático porque os portugueses também são. Mas o português tem piada e graça porque os portugueses também têm. E a língua é uma coisa que a crise ainda não afectou. É lixado não ter subsídio de Natal, mas a minha língua ainda é o português. Serve para alguma coisa, ou vai servindo. Para consolar.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Bromances

Estou a ler o Brideshead Revisited. Ainda estou no princípio e nunca vi a série de televisão, que passou quando era pequena demais para me lembrar, portanto não me contem nada do enredo, por favor. Só sei mesmo que Brideshead é uma casa espectacular, que há uma família rica, que há um narrador fascinado pela mesma família e por um magnético Sebastian e pronto. E que a grande protagonista do livro é a casa, razão pela qual estou há uns tempos para ler esta obra. E que é tudo muito aristocrático e coiso e que depois vai tudo para a guerra. Fim. 
Mas não é a casa que me traz aqui. Nas primeiras páginas de Brideshead Revisited, estão o narrador e o Sebastian em Oxford, e queixam-se da maçada que é ter a universidade infestada de mulheres, e eventos sociais só para mulheres, e mulheres a tomar chá e a almoçar, e ai que chatice, vamos sair daqui para o meu palácio feudal uns diazitos até elas se irem embora. E assim o fazem, efectivamente.
Há uma certa literatura (tosse - DH Lawrence - tosse) que tem esta mania irritante, esta mania quiçá misógina de que as mulheres só servem de bibelots foleiros que quando saem da caixa são uma praga, e mais vale a gente dar-lhes uma cotovelada, parti-los e fingir que foi sem querer para nos conseguirmos livrar deles. 
Se não estou em erro, no final de Women in Love, a personagem de Rupert apercebe-se de que a sua relação com a namorada, ou mulher, não me lembro, será sempre insatisfeita e imperfeita porque a verdadeira relação perfeita existia na união com o seu amigo do sexo masculino, que morreu (não me lembro do nome dele). Não estamos a falar aqui de dois homens apaixonados, nem de nenhum subtexto gay (quer dizer, se calhar este subtexto existe, mas não é necessariamente o mais relevante) - estamos a falar da tal ideia, quanto a mim irritante, de que as mulheres são engraçadinhas mas em moderação, ao passo que a amizade entre dois homens, a relação entre dois homens, é uma camaradagem tal, uma união tal, que nada se equipara a ela e que qualquer mulher não passa de uma agradável distracção para tirar a barriga de misérias, como se costuma dizer. É a filosofia, igualmente irritante (reitero de propósito), dos bros before hoes. Ou seja, toda a nobreza está nos homens, e essa nobreza de sentimentos é negada às mulheres. 
Tudo bem. 
E porém, penso se não será possível que um homem tenha os seus 'bromances' e que estes o façam feliz; e que, ao mesmo tempo, as mulheres sejam vistas de modo diferente, mas em igual plano. Equiparadas, portanto. 
Não, não, mas não. Um clube de rapazes é sempre um clube de rapazes, e assim eles podem ouvir os Red Hot Chilli Peppers todos juntos e chutar a bola ou seja lá o que for que os rapazes fazem. As raparigas são peganhentas, como dizia o Calvin (do Calvin and Hobbes, bem entendido). 
Que parvoíce. Nem sequer consigo escrever parágrafos coerentes, de tal forma isto me desorienta. E assim se explica o meu apego às irmãs Bronte, todas mulherzinhas, que escreviam sob uma perspectiva feminina sem antagonizar os homens. Elas até queriam casar e tudo, e a Charlotte casou mesmo, não com o homem de quem ela gostava, mas enfim, foi o que se pode arranjar.
O que vou dizer a seguir é uma generalidade grosseira, mas é mais fácil uma rapariga encontrar coisas em comum com outra rapariga, os livros, as princesas, as Barbies, o cor-de-rosa, e o mesmo se passará com os rapazes, os carrinhos, o azul, o Homem Aranha. Culturamente, tendemos a orbitar em volta das similitudes que encontramos nos outros. Mas a piada da vida é conseguirmos entender-nos com a diferença, com o estrangeiro, com a oposição (seja ela masculina ou feminina). Daí eu não acreditar em 'bromances' nem em bros before hoes nem em hoes before bros. Expressões detestáveis, aliás.  Daí o DH, de alguma forma, me agastar. Embora eu adore o DH. Daí eu me ter irritado com o tal episódiozito do Brideshead Revisited.
Pronto, é isto. Boa noitinha.

domingo, 16 de outubro de 2011

O remendinho

Talvez devido a estes tempos de horror que vivemos, tenho lido muita literatura policial, mais especificamente aquela escrita por PD James. Ler sobre crimes e violência ficcionais alivia-me. Pode ser um bocado parvo, mas é verdade.
Voltando a PD James. Gosto muito dela, porque sabe contar e desvendar um bom mistério, sem se esquecer das personagens. Há romances policiais pouco interessantes porque se concentram só na história e nos pormenores do crime, esquecendo as pessoas que fazem parte do mesmo, mas a PD tem o cuidado de nos lembrar que, para haver mistérios e crimes, é preciso primeiro haver pessoas, de modo que humaniza as suas personagens de uma forma doce, toda psicológica e certinha, que acaba por adensar ainda mais o mistério ao conferir-lhe mais realismo.
O Poirot da PD James é o detective comandante super-importante xpto Adam Dalgliesh, cujo pai era vigário, sendo ele, Adam, poeta part-time, condutor de um Jaguar, heterossexual frustrado porque é fundamentalmente casado com a profissão, sendo obrigado a negligenciar as suas gajas, sempre professoras em Cambridge ou coisa que o valha. Mas Dalgliesh é estóico e aceita que um homem na sua condição não pode ter tudo, para poder continuar a ter quase tudo.
Comecei por ler The Black Tower, uma das primeiras aventuras de Adam Dalgliesh. Depois passei para o Murder Room, que é mais recente. São os dois bonitos, mas o primeiro, The Black Tower, é o mais bonito, assim louro de olhos azuis, ao passo que o Murder Room é, digamos que, moreno de sobrancelhass grossas, mas interessante. Em Black Tower, há uma grande sensibilidade relativamente às personagens, algumas delas comoventes, tanto mais que a acção se desenrola num lar para pessoas incapacitadas e sem mais nenhum sítio para ir. Um pormenor que quase faz chorar é quando Dalgliesh examina o cadáver de uma das vítimas, uma senhora mais velha, muito gentil e doce, muito educada, que lamentavelmente é assassinada pelo carrasco cuja identidade não vou revelar, caso alguém vá ler o livro. A senhora estava vestida com a melhor camisa de dormir que tinha e que havia deixado entre os seus pertences, caso precisasse de uma roupinha um bocadinho melhor. É uma camisa de dormir longa, branca, com um grande laçarote no pescoço, feia. Dalgliesh repara que tem um remendo no cotovelo, um remendinho que fora cuidadosamente arranjado e cosido, e fica comovidíssimo sem sequer sabe explicar porquê, a olhar para o remendinho no cotovelo.
Eu acho que percebo o Adam Dalgliesh, e que o remendinho me matava, se o visse. Ando muito sensível a peças de vestuário, ultimamente.
No Murder Room, o mesmo Adam Dalgliesh continua atento e sensível, mas muito mais James Bond, mais homem do mundo, cosmopolita e tecnológico. O James Bond é um herói da treta, quanto a mim, um chato de primeira sem qualquer qualidade que o redima, um homem de meia idade de pança ao volante de um BMW branco a pensar que a estrada é dele. Dalgliesh não chega a este ponto, mas vai endurecendo à medida que o tempo passa.
Moral da história. E agora, tal como este país, vou vestir a minha camisinha de dormir com remendinhos.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

O vestidinho

Estava à espera de um filmito melhor. A Jane tem uma história tão intensa, tão cheia de matéria fílmica, pelo menos eu acho que sim, aquele desolamento, a orfandade, o amor contrariado, a mansão gótica, a louca desvairada, e este filme vai-se a ver (bela expressão) e arruma tudo num segundito, tudo contado à pressa, tudo sem graça nenhuma.
E porém, acertaram nos actores. Gostei muito da menina que faz de Jane, a Mia qualquer coisa, de quem não tinha gostado na Alice no País das Maravilhas, mas que aqui está muito bem, introvertida, sensível, magrinha, pequenina, metida para si, intensazinha. Fez uma bela Jane, achei eu. Gostei particularmente das vezes em que aparecia a passear enfiada em pensamentos, de mãos na cintura. Realçava uma cinturinha fina, uma postura inteligente e decidida como a Jane devia ter, se existisse.
E isto fez-me lembrar o dia em que tive a sorte de ir ver a casa das irmãs Bronte, em Haworth, que é uma vilazinha no Yorkshire. Nada bonita, quanto a mim, nem a vilazinha nem aquela parte do Yorkshire em geral, aquelas charnecas, aquele desolamento, embora reconheça que, objectivamente, nada daquilo é propriamente feio. Enfim. Dizia, houve um dia em que fui visitar a casa das irmãzinhas, e lá estava o sofá verde, acho que era verde, em que a Emily tinha morrido, e no andar de cima estava um vestidinho da Charlotte. Um vestidinho simples, redondo, com uma golinha branca sem muito adorno, uma cintura fina, usado por alguém magrinho, enfezadinho, encabulado.
E fiquei ali a ver aquele vestidinho, que não parecia pertencer a ninguém com mais de dez anos e tinha no entanto pertencido a uma Charlotte Bronte adulta. Eu ali, com o dobro do tamanho daquele vestido, o dobro da cintura, das pernas, recheada de carne por todo o lado, anos de boa nutrição e indulgência bem à vista, de calças de ganga que me serviam, de casaco comprido, de sapatos quentes.  Eu, que nunca perdi nenhum amigo na infância, nem nunca fui mandada para um colégio interno para meninas pobres onde se passava fome e frio e onde se morria  de tuberculose.
Aquele vestidinho, pá. Tenho-me lembrado dele (e pode ser visto aqui onde, julgo, não tem o efeito que tem ao vivo).

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Sinais exteriores de tudo e alguma coisa

Eu sou uma pessoa que gosta de ler coisas, coisas variadas e ecléticas, e portanto no outro dia estava a ler um livro sobre crianças e bebés. Era um livro muito bem organizado, com uma secção dedicada a apaziguar as preocupações dos adultos sobre esses seres misteriosos e indecifráveis que são, de facto, as crianças, e intentava responder-se à pergunta parva "como é que eu sei se o meu bebé de cinco meses é muito inteligente?". O livro começa por dar uma resposta, essa sim, inteligente - ainda é cedo para qualquer pai se preocupar com isso, e todas as crianças são especiais, com talentos que lhes são próprios. Exacto. 
Mas depois continuava - "no entanto, se quer mesmo saber se o seu filho é especial, aqui está uma lista de pequenos sinais que podem indicar uma inteligência fora do normal - apontar para objectos, falar, pôr-se de pé, resolver equações, dar festinhas ao cão, ler Sartre, etc. e tal. 
Eh pá. Isto agastou-me, sinceramente. Se há coisa penosa de ver são pais em ataques epilépticos a quererem que o seu normalíssimo, queridíssimo filho, ocupado com carrinhos e biscoitos cobertos de baba, seja o próximo Einstein, mas já agora com a aparência do Brad Pitt, se for possível. E ainda é mais irritante quando os pais não só acalentam estes desejos, como acreditam neles piamente, de modo que a criancinha cresce convencida de que é loura, de olhos azuis, linda de morrer e absolutamente sagaz, ainda que seja morena, peluda, gorducha, e sem saber sequer como se pronuncia Dartacão. 
Tudo isto é triste. Tudo bem que esta nova geração (esta maltosa nova!) é diferente da minha, acho eu, mais convencida, mais empertigada, com a mania de que tem direito a tudo e de que sabe tudo, não sabendo quase nada, como é próprio da juventude. Mas entre esta arrogância e a certeza absoluta de que o mundo nos deve tudo ainda vai uma distância, distância essa que se encurta quando os paizinhos dão muita atenção a artigos  um tanto ou quanto idiotas como aquele a que me referi no início do post. 
E porém. Hoje estava a ler um artigo que considerei ligeiramente tenebroso, mas começo agora a compreender a razão de ser de certas coisas. Será que, nos dias de hoje, diria ainda Jesus "deixai vir a mim as criancinhas?" Ou diria antes "deixem lá, filhos, que eu agora não tenho vagar e não estou na disposição de ser gozado por uma data de fedelhos só porque não tenho um iphone. E não tenho porque não preciso, estou em todo o lado e vejo tudo, mas vocês não sabem disso, só ligam aos sinais exteriores de riqueza, os mesmos aos quais me oponho, e portanto faltavam-me ao respeito e quer dizer".
Pois é.  

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Não tenho escrito muito.
Que grande constatação, tão verdadeira e acertada.
As razões da minha ausência explicar-se-iam muito facilmente se se prendessem com falta de tempo. E, de certo modo, tenho alguma falta de tempo, mas não é este o factor predominante. Felizmente, sempre fui e continuo a ser uma pessoa com tempo, que não gosta de trabalhar e que tem a sorte de ser suficientemente esperta para despachar o trabalho o mais depressa possível, consumindo o menor tempo e energia possíveis. Não espero muito, não dou muito, e consequentemente não recebo muito, mas sou amplamente recompensada em tempo, o que para mim é o mais importante.
E porém. Não tenho escrito. Estive meses sem perceber exactamente porquê, mas agora já percebi. A minha vida encheu-se de coisas importantes, coisas que preenchem, fazem pensar e trazem muita felicidade, aquele tipo de felicidade que não se consegue transmitir ou explicar sem entrar em pormenores mais pessoais, o tipo de pormenores que queria aqui evitar.
De modo que tem sido difícil pensar em coisas interessantes para escrever. Normalmente, as coisas interessantes, ácidas, sardónicas, vêm com uma certa dose de negrume que, como diz o outro, não me assiste. A felicidade não tem piada porque não precisa de ter - é a felicidade, e por isso nada a ultrapassa. A felicidade pode ser pirosa, entediante para os outros, foleira, mas é imbatível. E traz também com ela uma certa satisfação, uma certa paz de espírito que, para mim, se tem revelado incompatível com a escrita.
Portanto, a não ser que passe a desfiar urbi et orbi os detalhezinhos da minha vidinha, os mesmos pormenores que me deixam tão feliz, coisa que não vou fazer, acho que vou continuar sem escrever. Embora queira voltar a escrever, assim que tiver algo de inteligente para dizer. Não tem acontecido.
Quando descobrir como aliar a felicidade, coisa que eu nunca pensei ser tão avassaladora, com uma escrita que me satisfaça, volto a escrever. Espero que aconteça rapidamente.
Uma outra hipótese é começar a encetar esforços para tornar a minha Rua num blog de moda. Por exemplo, neste momento tenho umas havaianas calçadas. Havaianas é fashion... certo?
Pois. Também não vai dar.

domingo, 18 de setembro de 2011

 We are are currently wealthy, fat, comfortable, and complacent. We have a built in allergy to unpleasant or disturbing information; our mass media reflect this. But unless we get up off our fat surpluses, and recognize that television, in the main, is being used to distract, delude, amuse, and insulate us, then television and those who finance it, those who look at it, and those who work at it, may see a totally different picture, too late. 

Tirei esta citação do excelente filme de George Clooney, Good Night and Good Luck, que revi na TV há uns minutos (a citação em si foi copy paste do IMDB). Aquilo que se diz da televisão aplica-se, penso eu, aos meios de comunicação social em geral (rima, que cacofónico) - distrair, iludir, divertir e isolar. "Informar", pouco, e infelizmente mal. Sempre esta sensação de que estou a perder, como cantava Variações. 
O mundo existe, está lá fora, e a gente nunca o consegue apanhar. Era bom que os media nos ajudassem na tarefa e fossem um exemplo de cidadania. 
Não é o caso. Que pena.
Boa noite, e boa sorte para todos nós. Ou, como a língua portuguesa alegremente permite, para a gente todos. 


quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Atracção do abismo: Glee

A série Glee é daquelas que eu tenho vergonha de dizer que gosto. Na verdade, e na maior parte das vezes, é um programa que me irrita ligeiramente devido às interpretações péssimas que os miúdos fazem de canções de que eu até gosto. Esganiçam a garganta impossivelmente, são excessivamente formatados, fazem os movimentos todos certos, e o pior é quando olham uns para os outros a rir, muito horrivelmente, como hienas a estudar o ataque. Quem me irrita tanto que se torna impossível para mim não ver a série, porque o abismo me atrai sem possibilidade de resistência, é a rapariga principal, a Rachel, toda certinha, toda com voz à Celine Dion, que quase chora enquanto grita, bate com as mãozinhas no peito ou no ar e em geral tem todos os tiques exasperantes das más cantoras com boa voz. Entretenho-me a pensar no que faria a esta miúda se a conhecesse na vida real, e penso que puxar-lhe os cabelos com toda a força e dizer que ela é feia estaria no topo da lista. Sou tipo sádica.
E porém. Gosto da filosofia subjacente à série, a de que os miúdos totós, impopulares, conseguem alcançar o que querem porque têm moral e são boas pessoas. Gosto do conceito de série musical, apesar de me contorcer um bocado no sofá sempre que os miúdos começam com coreografias impossivelmente pirosas - fico sempre com aquela sensação arrepiante de vergonha alheia, às vezes nem consigo olhar. Mas depois aparece a má, a Sue, que me faz rir sempre, e continuo a ver, além de que os miúdos são pirosos mas são bonzinho e triunfam sempre, e eu gosto de ver os bonzinhos a ganhar. 
Mas irrito-me bastante. Para comprovar isto, deixo abaixo um vídeo que eu penso que demonstra bem a vontade que se gera dentro de uma pessoa de fazer a estes miúdos saltitantes aquilo que se faz no Lucky Luke, e que é atirá-los todos para dentro de uma tina de alcatrão, cobri-los de penas e aplicar-lhes uma medida punitiva corporal, vulgo "pontapé no cu". Peço desculpa pelo vernáculo. Estou quase a dar o salto final para o abismo.