Li este livro de enfiada, porque é curtinho e porque se lê maravilhosamente bem, e lê-se maravilhosamente bem porque é maravilhoso, bem entendido. Já o devia ter lido há mais tempo - parece-me um bom livro de adolescência, mas em idade adulta é um daqueles livros fundamentais.
É espúrio tentar descrever o que me impressionou neste livro, porque todo o livro me impressionou e me ensinou coisas, mas certos conselhos houve que me pareceram particularmente relevantes:
Ninguém o pode aconselhar, ninguém o pode ajudar, ninguém. Há uma única via. Entre dentro de si (...) pergunte se morreria caso fosse impedido de escrever. Acima de tudo, na hora mais silenciosa da noite, pergunte a si próprio: tenho de escrever? Escave dentro de si até encontrar uma resposta profunda. E se esta resposta for afirmativa, se puder enfrentar esta séria pergunta com um "tenho" simples e forte, então construa a sua vida de acordo com esta necessidade...
É complicado responder a isto, mesmo para quem não é obviamente escritor; deve ser ainda mais complicado responder se se é, de facto, escritor; quantos escritores morreriam se não pudessem escrever, ou quantos continuariam a escrever se, como também discute Rilke, "o seu dia-a-dia lhes parecer pobre?". Diz o poeta que, se isto acontecer, não há que culpar o dia-a-dia, há que culpar o escritor - quem não vive sem escrever arranja sempre sobre o que escrever, não precisa de aventuras nos EUA ou Patagónia. Encontra em si o que precisa. E isto não é para todos.
Lembra-me o que disse a minha mãe, numa das vezes em que vimos Lobo Antunes na Feira do Livro - "vê-se que é um homem que precisa de escrever".
E é mesmo assim. Há pessoas que escreverão sempre, que são escritores sempre, independentemente de publicarem livros, independentemente da crítica, independentemente de os leitores gostarem ou não deles. Precisam de escrever, e escrevem bem. O Marquês de Sade escrevia com cocó, quando estava preso. O Oscar Wilde escrevia até as luzes se apagarem no cárcere, aproveitando todos os minutos. O Kafka escrevia marimbando-se para o emprego da treta que tinha, que lhe podia tolher qualquer impulso criativo, mas não tolhia - como diz Rilke, as profissões são todas assim, cheias de imposições, cheias de hostilidade contra o indivíduo, embebidas de ódio, por assim dizer, daqueles que cumprem mudos e a contragosto os seus insípidos deveres. Não há nenhuma profissão que seja larga e espaçosa o bastante, que esteja em relação com as coisas maiores que fazem a vida genuína.
E portanto, não é este fardo que tolhe o escritor, nem deverá tolher o ser humano em geral. Todos nós temos direito às coisas maiores que fazem a vida genuína. Temos de procurar, continuar a procurar, acho eu. Como dizia Variações, continuar a procurar o nosso mundo, o nosso lugar.
Rilke e António Variações - olha que bela combinação.
A vida consegue ser bem boa, às vezes, quando a gente se lembra de coisas assim e lê livros assim. Tão bonito.















