sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Mais ou menos, tipo, assim e tal, eu não... acho que não

Não resisto a "roubar" este vídeo aqui do Da Literatura. A Oprah dá uma entrevista e diz "I'm not a lesbian, I'm not even kind of lesbian".
Pronto, há pessoas que têm necessidade de afirmar coisas. Coisas assim em geral. A Oprah é uma destas pessoas. Aquilo que eu gostava de ver esclarecido é: qual é a diferença entre ser lésbica e "kind of lesbian", que eu presumo que se possa traduzir em português por "mais ou menos lésbica" ou "tipo lésbica"? É que eu estou aqui a esforçar-me e devo confessar que já me encontro num certo estado nervoso, porque realmente eu tinha ideia de saber o que é uma pessoa heterossexual e uma pessoa lésbica, mas agora mais ou menos lésbica é que nunca me tinha ocorrido, de modo que fico assim desorientada. Este novo conceito obriga-me a repensar uma série de coisas, coisas profundas, que têm a ver com a identidade de uma pessoa - olha agora se eu de repente descubro que afinal sou mais ou menos lésbica? O que é que eu vou dizer ao "tal"? Para se ir embora? E como é que eu posso descobrir, se nem sei o que é? E será que há pessoas que são "kind of straight", não o sendo completamente, e são totalmente lésbicas, e, inversamente, pessoas "kind of lesbians" mas completamente heterossexuais? Quantas combinações é que este vasto leque para o qual a Oprah veio chamar a minha atenção permite, afinal?
Estou apreensiva. Gostava que a Oprah me explicasse o que quis dizer, a sério que gostava. É que as ramificações disto são imensas, e se formos a pensar nas ramificações legais, que agora se levantam, como casamentos e isso, meu Deus. Todo um admirável mundo novo a legislar, a precisar de direitos novinhos em folha, provavelmente até constitucionais e tudo e ui, a trabalheira que vai ser agora o parlamento a embrulhar-se numa revisão constitucional, até o FMI há-de ficar com os cabelos em pé, e eles que já devem ter visto de tudo. 
Esta Oprah só sabe é criar confusão. E depois põe-se a chorar sem explicar nada. Oprah, flor, vai ao médico e trata-te. Resolve lá essa cabecinha.

"I tell you all my secrets but I lie about my past"

Estou a ler uma biografia do Tom Waits. Gosto de biografias e gosto do Tom Waits, portanto até aqui tudo bem. No prólogo, o autor diz que teve alguma dificuldade em investigar certas coisas relativas ao artista, porque o artista é um bom artista, mas muito reservado, não gosta que falem dele, não gosta de dar entrevistas, etc. Menciona-se, até, uma citação do próprio Waits (convém que uma biografia consiga citar o objecto que estuda, de facto) em que este afirma: I don´t know if honesty is an issue in showbusiness. People don't care whether you're telling the truth or not, they just want to be told something they don't already know. If you're watching a really bad movie and somebody turns to you amd says 'You know, this is a true story', does it improve the film in any way? Not really. It's still a bad movie.
Não sei se Tom Waits tem inteira razão naquilo que diz. Não é que aquelas perspectivas historicistas ou biográficas sobre a arte e quem a produz sejam assim muito interessantes  ou verdadeiras - parece-me, de facto, que os livros que se escrevem ganham uma força independente da vidinha pessoal de quem os escreveu. E porém, também não é certo que o texto, ou a música, ou qualquer forma artística, seja assim tão independente da persona de quem as cria. Por mais que o TS Eliot tenha insistido naquela ideia que ganhou tanta popularidade do texto sozinho, do texto absolutamente desenraizado do seu autor, por mais que o Bloom venha dizer que a angústia da influência tem a ver com o conflito entre as obras literárias em si, e não com qualquer complexo freudiano do artista enquanto indivíduo ou ser humano, porque é que as canções da Beyoncé são sobre o amor e anéis de noivado e as músicas do Tom Waits não? Por um lado, porque provavelmente a Beyoncé é uma máquina de fazer dinheiro que se treinou para isso, e o Tom Waits escolheu propositadamente um caminho mais reservado, mas por outro lado também é porque o Tom Waits tem com certeza autoridade para criar uma persona boémia, alcoólica, sensível, angustiada, agressiva, doce, e a Beyoncé não, porque a cabeça não lhe permite lá chegar.
Também se cita PJ Harvey neste prólogo à biografia de Tom Waits, afirmando esta que tem muita dificuldade em fazer com que as pessoas compreendam que ela é uma escritora, uma criativa, que aquilo que canta é ficção e não necessariamente realidade. Mas a própria PJ Harvey, quando lhe deu jeito, tinha ela vinte e pico anitos, deu entrevistas a dizer que sim senhora, realmente as canções dela falam muito de rejeição, de sombras e agressividade, porque ela própria passou muitos anos a ser a pessoa errada, a pessoa rejeitada. Lembro-me muito bem disto, ó PJ, portanto queres enganar quem. 
É evidente que vir dizer que "as minhas canções falam de bebedeiras porque eu próprio sou um bêbedo", por exemplo, é também criar uma persona, uma ficção. Em última instância, não tem de facto qualquer interesse saber o que é verdade ou mentira. Mas as personae que se criam e as ficções vêm de algum lado, não surgem do nada. Ainda que o Tom Waits passe todas as noites à lareira a beber leite quente com Nesquick e a ver concursos na televisão, levantando-se apenas para ir comprar alface e iogurtes ao supermercado, isso não quer dizer que as canções todas que escreveu sobre exaltações bem mais intensas, e vidas bem mais dilaceradas, não tenham vindo dele. Ele que compre iogurtes à vontade, que toda a gente vai pensar que ele vai comprar whisky e tabaco e depois vai dar uma volta ali ao Intendente. E isso tem de vir de qualquer lado; se em parte vem de quem o ouve, porque são interpretações construídas pelos ouvintes, em grande parte vem inevitavelmente dele,Tom Waits, porque foi criado por ele, e para isto não há saída nem desculpas.
Fim.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Umas coisas em que pensei por ter ido visitar o Museu Nacional de Arte Antiga

Há uns dias, devido ao tempo sombrio de invernia, fui revisitar o Museu Nacional de Arte Antiga (doravante MNAA, porque se o MoMA é MoMA, não estou a ver porque é que o Museu Nacional de Arte Antiga há de ficar atrás e não ser MNAA). Mas enfim. É bom ir a museus e ao cinema quando está a chover e faz frio. Consola muito. De modo que fui ao MNAA. 
Já não ia há uns anitos, e soube-me bem ver a Custódia de Belém e as outras custódias todas, muito giras, muito resplandecentes, e os biombos japoneses com os portugueses de nariz grande, e as reliquiazinhas de anjinhos gordos de olhinhos fechados, com ar muito beatífico, tão patusquinhos e queridos. E depois chega-se à parte da pintura portuguesa que, não contanto com os omnipresentes Painéis de S. Vincente, e independentemente da mestria toda das técnicas pictóricas, e das grandes influências flamengas, mas que bem, entre estes quadros portugueses e um pintor da Flandres daqueles a sério a gente nem vê diferença e etc. e tal, dizia, respeitando e apreciando tudo isto, a verdade é que uma pessoa sai das salas de pintura portuguesa com nada na cabeça sem ser Anunciações, Visitações, Calvários, Descidas da Cruz, Ascenções, e na sala a seguir Anunciações, Visitações, Calvários, Descidas da Cruz, Ascenções, e assim sucessivamente até se chegar à secção da pintura europeia e encontrar alguma variedade, pronto, uma naturezazinhas mortas, uns retratozitos, umas quantas coisitas do quotidiano, até aquele quadro de autor anónimo (português, por sinal) com um Lucifer animalesco e emplumado a cozer toda a gente viva, uma visão do Inferno do mais tenebroso que há, até este quadro, pela sua bizarria, serve para desenjoar porque marca a diferença, como se costuma dizer:


Não venho para aqui desdenhar da pintura portuguesa ao longo dos séculos, era o que faltava, e quero deixar bem claro que o acervo do MNAA é para ser respeitado e apreciado; muito menos  rejeito pintura de temática religiosa, pelo contrário - costumo gostar muitíssimo. Até há quadros que arrasam uma pessoa, extraordinários como este Ecce Homo que deixo aqui  à esquerda, ou coisas como uma obra que veio do Convento de Cristo e está agora no MNAA, não me lembro do nome do pintor, mas que representa, lá está, a Ascenção, e só se vêem os pezinhos de Cristo. O resto do corpo, como exemplarmente se compreende, ascendeu.
No entanto, o que resulta deste visionamento todo de tanto Jesus Cristo  atarefado, para cima e para baixo, na Cruz, a descer da Cruz, a subir aos Céus, enfim, o que resulta de tanta obsessão com a representação de Jesus Cristo, é que o espectador tem alguma vontade, a certa altura, de ver um quadro diferente, de conhecer um mestre português que se tenha preocupado com outras coisas, sei lá, uns amigos a jogar às cartas com um auto-retrato enxertado, um brinco de pérola, um rapaz mordido por um lagarto, uma maja desnuda, uma Afrodite numa concha, uma Ariadne abandonada, uma parede iluminada pela luz da manhã que entra por uma janela, retratos com olhos intensos, um Perseuzito, uma Andrómedazita, umas temáticas assim mais gregas, uma águia a comer um fígado que se regenera durante a noite, uns arrebatamentos mais renascentistas, ou simplesmente coisas da vida normal, do quotidiano, comida, bebida, olha o José Malhoa que pintou aquele quadro dos bêbedos, uma coisa assim para a pessoa se ir entretendo. 
No entanto, do século XIV ao século XVII, o que parece ter preocupado os pintores portugueses é a tal questão do rogai por nós pecadores, agora e na hora da nossa morte. Isto até é compreensivel, pois não me parece que haja ser humano imune a este rogo. Até acho que isto está presente na vida de toda a gente e que nem o Nietzsche nem o Marx se livraram. Não deixa, porém, de ser revelador tanta preocupação ensismemada com Jesus Cristo em toda a forma e feitio - um país que, pelos vistos, não teve mais nada que pintar durante séculos e séculos e séculos e séculos. Até para o próprio JC deve ser, digo eu, uma trabalheira tal que cansa.
Enfim. Como perguntava António Nobre, onde estão os pintores do meu país estranho, que não vêm pintar? Cadê?

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Ornatos!



Eu nem acredito que passei tanto tempo sem ouvir Ornatos Violeta. O Monstro Precisa de Amigos, quanto a mim, é dos melhores álbuns de sempre. Bom, bom, bom. É evidente que adoro este Ouvi Dizer, principalmente porque quando o Manel Cruz canta "não vais achar nada bem que eu pague a conta em raiva - e pudesse eu pagar de outra forma", penso sempre que ele tem toda, toda, toda a razão.
Há um filme que os cinéfilos têm injustamente ignorado e que se chama Cocktail, com esse actor também desvalorizado que é o Tom Cruise. E, neste filme, diz Tom Cruise "tudo acaba mal, porque se não fosse assim não acabava". É isso mesmo. Portanto, com grande pena minha, com grande pena penso eu de toda a gente, a conta só se pode pagar em raiva. Nada a fazer.
E aqui fica o meu apelo para que se preste atenção ao Cocktail, esse épico da história do cinema.

Tralha

Há pessoas de interiores. Não é que passem o dia todo em casa, mas vivem em interiores, em espaços privados. Não quer dizer que seja difícil entrar nestes espaços - às vezes, é muito mais difícil sermos próximos de pessoas extravagantes do que destas pessoas que procuram a intimidade e o intimismo. Está em tudo o que fazem, nos escritores que escolhem para ler, nos filmes que gostam de ver, na forma como se relacionam, ou preferem não se relacionar, com o mundo. Têm a desvantagem de carregar sempre consigo um fardo que faz impressão, parece que tudo lhes cai nos ombros, pensam demais, martirizam-se. 
No fundo, toda a gente é assim. Mesmo aqueles que vivem para fora, exuberantes, vivem, na verdade, em casa. Nunca conseguimos sair de casa. Podemos é pensar mais, ou menos, nesse fechamento que é a vida.
Não sou grande leitora de Vergílio Ferreira, porque, como a Aparição nunca me seduziu de forma alguma, acabei por ler pouco do que escreveu. Mas li o Pensar, e neste livro ele diz qualquer coisa como "quando morreres, há uma data de tralha que morre contigo, e imagina o que seria se alguém te tivesse dado um encontrão para te obrigar a deitar essa tralha toda fora". É esta a ideia, e disto nunca me esqueci.
É que nem conseguimos imaginar a tralha que os outros carregam. Imaginamos a nossa, porque dela não nos escapamos. Mas toda a gente tem uma tralha que nunca mais acaba. Alguns são espertos, vão deitando alguma tralha fora, mas outros acumulam, acumulam, acumulam, e quando isso acontece só há duas hipóteses, a meu ver, ou se enlouquece, ou se torna poeta. O problema é que a maior de nós não é poeta.
Mas enfim. Fora isso, como diz o Sérgio, cá vamos andando com a cabeça entre as orelhas. Há coisas em que não vale a pena pensar.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

O duche

Devido a certos filmes e a uma certa cultura pop, tornou-se assim giro dividir as pessoas entre pessoas-cão e pessoas-gato, pessoas-Beatles e pessoas-Elvis, pessoas-manhã e pessoas-noite. Por mais redutoras que estas destrinças sejam, a verdade é que têm uma certa piada. No entanto, há aqui uma lacuna que me parece urgente colmatar e que se relaciona com a hora a que se toma duche. É que isto é absolutamente fundamental para definirmos o tipo de pessoa que temos à frente.
Ora, eu devo dizer que já me debrucei sobre este assunto no sentido de tentar compreender o que leva uma pessoa a ser uma pessoa-que-toma-duche-de-manhã ou pessoa-que-toma-duche-à-noite. E ainda não consegui chegar a nenhuma conclusão em especial, o que apenas espicaça o meu interesse por esta entusiasmante temática.
Vejamos. As pessoas com quem falei que gostam de tomar duche de manhã dizem que o fazem porque consideram pegajoso sair de casa e passar o dia fora a saber que, naquele dia, ainda não tomaram banho. Além disso, precisam de uma chuveirada para acordar, para dar energia, para cheirarem bem e começarem o dia de uma forma agradável e quentinha. Sem duche, amolecem, ficam sebáceos. Tudo isto é respeitável.
As pessoas que tomam duche à noite dizem que vestir o pijama e ir para cama a carregar, em camadas impossíveis de ignorar, a sujidade de um dia inteiro, é absolutamente inconcebível. Além disso, precisam de um duche quentinho para quebrar, precisam do sentimento de limpeza fresquinha para deixarem o corpo descontrair, amolecer, até pedir cama. Tudo se resume, de uma forma ou de outra, à moleza. O ser humano passa a vida ou a combater a moleza, ou a ser mole. É um drama que esta problemática do duche ilustra, daí que me parece ser absolutamente essencial conseguir definir as pessoas como duche-à-noite ou duche-de-manhã. Estas últimas serão provavelmente mais enérgicas e dinâmicas, tanto que se conseguem levantar mais cedo para terem tempo para a higiene; as primeiras privilegiam com certeza o conforto, a descontracção, os pequeninos e insignificantes prazeres da vida e querem lá saber do duche de manhã, preferindo mais uns minutinhos na sorna matinal e uma águinha quente à noite.
Todas as verdades que precisamos de saber sobre as pessoas estão nestas minúcias parvas da vida normal.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Embirração da semana: "é"

Não é que eu tenha o que quer que seja contra o verbo "ser", no infinitivo ou devidamente conjugado. Mas provoca-me uma ligeiríssima irritação, assim uma ponta de antipatia sei lá contra quê, ouvir "é" como resposta a perguntas que não contêm forma nenhuma do verbo "ser". Vê-se isto por todo lado, em textos escritos e não só; ainda há uns dias ouvi na Antena 1 qualquer coisa como:
- Então, nãoseiquantos, o trânsito hoje está complicado, com muitas notas a vermelho!
- É. Já há muitos acidentes.
Mas o que é isto? Eu até gostava do senhor do trânsito da Antena 1, porque, sempre que chove ou faz nevoeiro e as pessoas se despistam todas, ele fica muito agastado, muito incomodado, e uma vez até desabafou, disfarçando um suspiro e dizendo "respeite, se quer ser respeitado!". E eu gostei disto, gostei de saber que há alguém que tem o desiderato de pôr ordem no trânsito em Lisboa. Mas a escolha linguística do senhor do trânsito desapontou-me muito. Agora ponho sempre na TSF, mas sem garantias nenhumas que o "é" não suceda.
Ai compraste um vestido novo? É. 
E gostas? É. 
Espectacular, por acaso. É. 
E já tens sapatos para o vestido? É.
Mas isto tem algum sentido? E se se quiser responder na negativa, como é que se faz?
Tens de acordar cedo amanhã? Não é.
É porque entras mais tarde? Não é.
Ah, é porque é feriado. É. (aqui, já dá).
Não gosto. É.

O meu pai não deixa

Às vezes, conheço ou ouço falar de pessoas que são progenitoras de outras. Normalmente, estas pessoas progenitoras são mais velhas do que eu (não que eu não tenha idade para ter amigos com filhos, que tenho), e os filhos delas são adolescentes ou jovens adultos.
É evidente que, para quem não tem filhos, é facílimo desfiar um rol interminável de coisas que vamos e não vamos fazer quando efectivamente passarmos à procriação, actividade nobre e útil e que portanto deve ser encorajada. É também evidente que, quando de facto se tem filhos, deve ser árduo, se não impossível, mantermo-nos fiéis a este elegante acervo de regras que devem orientar a educação, e se dantes nem pensar em entreter a criança à frente da TV enquanto come, quando a criança está cá fora e começa a medrar, a berraria se calhar é tanta que não só come à frente da televisão, como se calhar até lhe põem os DVDs preferidos para ver se ela come e cala e dá algum sossego. Não critico nada disto; sei lá eu o que faço no dia em que tiver um rebento desfeito em berreiro e a cheirar mal da fralda.
Mas dizia. Por mais que tenhamos que ceder a coisas que dantes julgávamos inaceitáveis, o que me custa sempre a aceitar em alguns pais é a forma absolutamente ditatorial, castradora mesmo, com que se imiscuem na vida dos filhos. Este erro é que me parece mesmo imperdoável. E estes filhos não são criancinhas - estamos a falar de gente que passou o desmame há muito, que está a começar a vida adulta e que já devia e podia mas era ir trabalhar. Mas os pais encorajam que fiquem em casa, mesmo quando vão para a universidade, e nem todos o fazem por motivos financeiros, porque é mais barato; encorajam que desistam de Erasmus e de tunas e outras actividades para não entrarem em maluqueiras e poderem ser controlados mais facilmente; escolhem eles o curso dos filhos, alegando que não lhes dão um tostão se não ingressarem no curso, e até na universidade, que eles, pais, escolheram; agora que Bolonha reina e os mestrados e as pós-graduações se tornaram lugar-comum (havendo bolsa que pague, obviamente), escolhem até os estudos pós-graduados dos meninos, encaminhando-os depois para um qualquer profissão que eles, pais, consideram digna. Ah, queres ser educadora de infância porque adoras crianças e até tens jeito? Pois, mas vais é para Direito que é um curso que dá para tudo, assim como assim não há crianças neste país por causa da crise demográfica; ah, queres ser actriz? Então vai morrer de fome, que nesta casa ficas se for para tirar um curso a sério. Ah, queres ser jornalista? Mas vais é tirar gestão, que tens de fazer dinheiro, e assim por diante.
Os filhos destes pais ou conseguem orientar a vida desde cedo e começam a ganhar o próprio dinheiro, o que é muito difícil, se bem que possível, ou submetem-se. O problema aqui é que esta submissão não pára quando se acaba o dito curso universitário; muitas vezes, o apoio dos pais torna-se tão imprescindível, ou tão viciante, que se passa toda a vida adulta nisto, a prestar contas aos pais, a fazer o que os pais querem.
Não me parece desejável que os pais não apoiem os filhos e que não lhes financiem os estudos, se o puderem fazer. Mas parece-me mais desejável e mais justo que existam meios alternativos para que esse financiamento não passe maioritariamente pela família (no caso de Inglaterra, que é o caso que eu conheço melhor, os pais fecham a torneira quando se acaba o dito "secundário", a não ser que estejam a nadar em dinheiro. Os estudantes pedem empréstimos bancários ou têm bolsas, o que também causa problemas sociais graves, já que os níveis da dívida dos estudantes aos bancos são astronómicos, e antes de entrar no mercado de trabalho já a pessoa está depenada, isto apesar dos juros serem baixos, de não começarem a pagar logo, etc.). E também seria bom que alguns pais não usassem o dinheiro como forma de chantagear os filhos, que não os usassem como almofada emocional onde descarregam as suas aspirações e/ou frustrações, que não os quisessem manter permanentemente sob a sua asa, como objectos que lhes pertencem, como vidas inteiras que eles acham que podem decidir e controlar. E seria, já agora, engraçado que os filhos percebessem que se chega a um ponto em que tem de se tomar uma atitude, dizer não, perceber que a vida é deles mesmo que o dinheiro não seja. É que não se vai a lado nenhum por escolher o curso x ou y só porque se acha que isso vai agradar aos pais ou nos vai salvar do desemprego e da falta de dinheiro. Se há algo que nos salva destas misérias, não é de todo um curso universitário. É qualquer coisa de muito mais importante do que isso, e que só descobrimos quando passamos a escolher as nossas escolhas, não as dos pais e as do resto do mundo.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Eh pá, estou galvanizada com isto da Amazon entregar de graça para Portugal.
É que é tão... bom.
E depois os filmes do Woody Allen estão a um preço, da chuva não direi, porque basta as coisas terem um preço para custarem a pagar, mas talvez da chamada "uva mijona", isso já aceito. Há que se pagar qualquer coisa por esta uva, ou não?
Digamos que o facto de os filmes do Woody Allen estarem a bom preço, pronto, é também em si mesmo espectacularmente bom.
Ele há dias.

Dâmaso Salcede

Trabalhar com pessoas o dia todo é terrível.
Hoje, fui tomar café. A pastelaria estava calma, os bolos repousavam sem que ninguém os cobiçasse. Quer dizer, eu cobiçava, mas como não podia agir de acordo com a cobiça, deixei-me estar. Uma meia-de-leite cumpre todos os propósitos, não há que aspirar a mais.
Mas portanto. Se os bolos repousavam, as pessoas que trabalhavam na pastelaria não faziam o mesmo. Um rapaz por trás do balcão, de vez em quando, de forma aleatória, dardejava os colegas agressivamente, ainda que os seus modos fossem fracos, a voz sumida, ele todo muito lombriga, muito magro: "o que têm a dizer, dizem-me na cara. O que têm a dizer, dizem-me na cara!"
E a minha meia-de-leite à espera de um momento mais tranquilo para poder ser apreciada com calma.
Depois, o mesmo rapaz deixou de lançar as setas aos colegas e passou a outro que, pelo que percebi, devia ser o patrão. Espetei a orelhinha para ouvir, mas só consegui apanhar "deixe-me acabar de falar, se faz favor", "o que é que você quer que eu faça, tenho de ir a Lisboa e pronto", e outras coisas assim, ditas num tom muito peremptório, muito lombriga, um tom que os fracos às vezes usam quando sabem que aqueles que interpelam não os vão confrontar nem pedir contas nem, de uma forma geral, incomodá-los.
A minha meia-de-leite foi sorvida não no estado de paz desejado, mas no estado possível.
Há pessoas que confundem ter personalidade e saberem impor-se com cobardia e má educação, parece-me a mim. Lembro-me de estar uma vez numa fila para uma coisa burocrática e a pessoa que estava a atender ser nova no serviço, nem há um mês ali estava; enganou-se numa série de coisas que procurou corrigir mas, obviamente, levou mais tempo do que o desejado. As pessoas que ela atendia sabiam que ela era nova, e mesmo assim puseram-se a falar para o lado, desdenhosas, com aquela força que às vezes os cobardes têm quando se vêem em situação que lhes é favorável: "é impressionante", "francamente" e quejandos saíam-lhes da boca com prazer, diria até, como certos professores de Literatura gostam de dizer, com fruição.
Esta coisa do falar para o lado é espantosa.
Acredito e sei que todos temos os nossos momentos de fraqueza. Mas há coisas que, tal como a meia-de-leite, são penosas e custam a digerir.

Cuidado com as companhias

Os GNR têm uma música de que gosto muito (não é novidade, os GNR acompanharam toda a minha adolescência, ou se calhar eu é que os acompanhei a eles, não sei) e que se chama Homens Temporariamente Sós, título este que, julgo eu, diz muito e diz quase tudo.
Lembro-me de ter ficado fascinada com esta canção logo à primeira audição. Aquela letra que, na altura, me soava tão estranha, era também muito atraente, e percebi com alguma rapidez que acharia alguma piada a tornar-me não num homem, mas sim numa mulher temporariamente só; isto porque achava a solidão um privilégio, por um lado, mas por outro também considerava que acarretava um certo tédio, ou por outra, nem é bem tédio, é um certo fastio, vamos lá. De modo que me parecia que um estado apenas temporário de solidão seria o ideal, entrecortado por companhias, se possível, de elevada qualidade. Estas companhias, para serem ideais, saberiam quando aparecer e reaparecer na vida de uma pessoa, tipo aqueles mágicos giros, não o David Copperfield, feio, mas mais estilo David Blaine, giro. Ouro sobre azul.
Isto era o meu objectivo de vida. Depois comecei a compreender que uma vida mesmo, mesmo como deve ser não é aquela que é solitária e de vez em quando tem companhia; é aquela que tem companhia e que de vez em quando é solitária. Assim, tem muito mais piada. Tem-se menos fastio. Menos tédio. De quando em vez, conhece-se alguém mesmo, mesmo "espectacular" e que, curiosamente, não nos chateia. Isto é que é espantoso. E também é espantoso que se pense "ah, que coisa lamecha" e depois, se formos a ver bem, não é.
Como cantam os GNR, há partilhas, regressos, conquistas por fazer, memórias a esquecer. Mas tem graça se fizermos isto tudo, por exemplo, 40% sozinhos e 60% acompanhados. É na diferençazinha na percentagem que se dá a magia. Basta saber escolher as companhias.


sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Fala, fala e não diz nada. Quer, mas não pode. Tenham pena.

Há dias em que as coisas para dizer vêm umas a seguir às outras, há outros em que uma pessoa espreme, espreme e não sai nada... arre.
Já pensei nisto muitas vezes, e repito, porque me parece ser verdadeiro: quem sabe verdadeiramente escrever é quem sabe que a escrita é um trabalho, e consegue fazer da escrita o seu trabalho. Não está à espera da inspiração para escrever qualquer coisa, como eu, que se for preciso fico dias e dias até me surgir qualquer ínfima ideiazinha na cabecinha, vinda da inefável "inspiração". Eu não consigo que a escrita seja o meu trabalho, porque não consigo que a escrita dependa de mim, infelizmente; depende sempre de qualquer ideia, estímulo, dessa irritante "inspiração" que tem de aparecer. É por isso que me parece sempre misterioso, incompreensível, saber que Lobo Antunes escreve dias seguidos sempre à mão, trabalha os seus romances, muda isto, muda aquilo, diz que alguns romances lhe deram mais "trabalho" a escrever do que outros; que Saramago escrevia sempre à tarde (ou sempre de manhã, já não me lembro, mas li isso em qualquer lado), à máquina, da hora y à hora x, e que depois ia fazer outra coisa, ou seja, que encarava a escrita como a sua actividade, o seu emprego, o seu trabalho. É incompreensível, para mim, que não se escreva algo ao sabor de estímulos momentâneos, ao  sabor do dia que se está a viver, dependendo de estarmos bem ou mal dispostos, porque eu não consigo escrever como se a escrita fosse o meu trabalho, porque para mim o trabalho é algo que começa a uma hora, acaba a outra hora, e pelo meio tenho a tarefa x,y e z a fazer para depois me ir embora e pensar noutras coisas. O trabalho é algo que tem de ser feito, não envolve criação, e não quero saber daqueles que falam em "realização profissional" e que o trabalho enobrece e sei lá mais o quê. Quando um trabalho é igual a um emprego, não se pode falar destas coisas, lamento muito.
Mas quando o trabalho de alguém é ser escritor, tudo muda inteiramente de figura. Quando o trabalho de alguém é dominar a língua, a chamada "estilística", personagens, fictícias ou reais, dominar a narrativa, ou a prosa, ou a poesia, estamos face a algo de muitíssimo mais difícil, algo que exige uma precisão, uma clareza de objectivos que, talvez, a inspiração possa ajudar mas que não chega para concretizar. 
É admirável e, como se costuma dizer numa expressão de que gosto bastante, não é para quem quer, é para quem pode. Como é que eles podem, porém, é a pergunta que todos os dias faço a mim própria. Os Românticos recorriam à velha inspiração para o explicar mas, como sabemos, neste ponto em particular não se pode levar os Românticos muito a sério, que eles eram todos uns corações moles, muito trágicos, muito sensíveis. Talentosos, mas coração mole. 
Como é que eles podem, e será que dão explicações a quem quer. Dá-me jeito às segundas e quintas, e estou disposta a pagar o que puder. Obrigada pela atenção.

Mas o melhor do mundo são as crianças

Agora que saiu aquele filme sobre o facebook, vejo muitas pessoas a dizer "ah, o facebook para mim não, nunca lá vou, a gente põe lá coisas e eles ficam a saber tudo", e tal e coisa. Mas depois até estes críticos têm perfil no fb, fotografias, comentários, enfim, um tímido arremesso ao que a sua vida seria se conseguissem ser capa de revista. São assim as contradições humanas.
Mas não é o facebook que me traz hoje aqui. Não seria preciso nada em concreto para me trazer aqui, mas na verdade há uma coisa em particular, e que é este filme que figura aqui ao lado, o Laço Branco, que vi há uns dias em DVD, infelizmente, em vez de o ter apanhado no cinema. Não gostei nada do fim, achei que de alguma forma era bastante preguiçoso e que Michael Haneke se devia ter preocupado mais em finalizar a história com coesão do que seguir uma linha mais solta, do estilo "agora tomem vocês a decisão final que eu não estou para aqui com finais à Hollywood, e isto é um filme sério". Há muito preconceito contra certos formatos de cinema hollywoodesco, e não vejo razão nenhuma de ser nos mesmos preconceitos. Mas enfim, excepto o final, gostei bastante deste Laço Branco, porque me impressionou.
Não há nada pior do que crianças corrompidas, crianças em que cresce já alguma deformação moral, alguma  propensão para o Mal. Em O Laço Branco, são os pais, eles próprios castigadores, reprimidos, violentos e pura e simplesmente más pessoas, que criam as condições para que germinem ervas daninhas, contrárias ao que está certo. Estas ervas daninhas são as crianças. É uma perspectiva terrível, pensar em crianças que, em vez de inocentes, são já culpadas. Mas acontece, ou pode acontecer, quando nascem em comunidades erradas, de pais errados. Também é assustador pensar nisto, no facto de poder haver "pais errados". Mas, mais uma vez, acontece. E as consequências não são mais do que inevitáveis e devastadoras.
Até nos filmes de terror, o que mete mais medo são sempre as crianças, quando há para lá uma que se lembra de ser maluca, ou vingadora, ou de olhos esbugalhados, ou sei lá que mais. Há um filme antigo, "The Village of the Damned", em que as crianças são uns pequenos monstros implacáveis. O que é terrível é que não se pode nunca lutar contra isto. Não se pode nunca lutar contra uma criança porque, se não há inocência nas crianças, não há inocência nem integridade em mais lado nenhum. E foi nisto que pensei quando vi O Laço Branco, e foi por isso que me impressionou.
Fim.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Melhor Blogger Hipotético: Jack-o-Estripador

31 Ag, 1888
Eh pá, que cansass... espera... que cansaço, assim é que é. Estou tão cança... aaaah... ai, engano-me sempre... estou tão cansado, pois. Este trabalho já não é para mim. E eu que adorava a rua, andar por aí em liberdade, de faca na mão, a fazer o que me apeteçia. E que bem que me paga-vam. Ui. Dantes, isso era tudo para mim. Agora já não. 
Oje, mal conssegi... espera, não... oje, mal conssegui, assim sim, acabar o trabalho. Começou-me a meter impressão, aquele sangue todo, aquela nhanha toda. Coitada da mulher. Mas vá, consegui acabar.
Agora tenho de ir meter esta roupa touda na máquina, que se a minha mulher me vê aqui sentado ao compotador no b-log-e com o avental a escorrer sangue a pingar para a carpete desata-me aos gritos e vai na volta tenho de lhe dar com a faca também. Verdade seja dita, ela é um bocado xata, sempre "Tripa, tira já essa roupa toda porca! Tripa, vai tomar banho que não se pode com esse cheiro a sangue podre, Tripa, vai-me amolar a faca, que se não perdes mais tempo a trabalhar e a polissia ainda tapanha!", e outras coisas parecidas a isto. Sempre a xatiar, a mulher. Mas eu até gosto dela.

8 Set, 1888
Tenho dir falar com o meu patrão e dizer a ele que isto assim não dá. Quer dizer, despacho uma no fim de semana passado, e agora esta semana já quer que eu esteja na rua outra vez, altas horas da noite e tal, ali ao frio, à espera de encontrar a mulherzeca, coitada, ainda por cima parecia boa pessoa. É por isso é que eu gosto de ser assim rapido, não les dar muita converça e isso, que é para não me afeiçoar. Coitada.
Estou vélho. Caramba, tou mesmo vélho. Eu dantes queria lá saber. Agora, a única coisa que ainda me diverte são os jurnais. Eh, eh, pensam que eu sou médico, LOL!! E eu que nem nunca acabei o ciclo nem nada, a bem dizer, eu nem nunca fui muito à...á.... aaaah.... escola, pronto. Tar ali fechado numa sala atrofiava-me um bocado. E agora os jurnalistas, pumba, pensam que eu sou médico. Bem, eu posso nunca ter estudado nem nada, mas de facto sou muito profissional, e mesmo cançado e tudo, ai, carassas, cançado, mesmo cançado e tudo, faço sempre o trabalho bem feito que é uma beleza.
Médico... lá geito para anatomia, por acaso tenho, isso é verdade, lol!!!! :) 


30 Set 1888
Bem, o meu patrão é um xato do pior. Qualquer dia, amanda-me mesmo pá prisão, só por que se quer armar. Eu acho que, tando o trabalho bem feito, a gente não precisa de se estar a gabar, né? Mas não, ele a insistir, tu escreve pá polissia, Tripa, tu escreve que é para a gente os lixar, ah ah!, e eu pronto, escrevi. Eu disse le, oussa lá, olhe que eu não tenho muito geito para escrever, eu até gosto muito de escrever, mas não tenho geito, então mas tu não tinhas um b-lo-g-e, perguntou ele, tenho, respondi eu, então qual é o teu problema, perguntou ele, e pronto, eu escrevi. Ficou assim:


Olá Patrão,
Tou sempre a ouvir que a polissia me vai apanhar mas não tou a ver que isso vá acontesser (aqui tive dúvidas) tão depreça. Até dá-me vontade de rir quando começam-se a armar em espertos e a dizer que já estão no caminho certo. Olhe que eu adoro o meu trabalho e não vou parar, que tenho a faca afiadinha que é uma beleza, e a minha mulher nunca deixa que eu me esqueça de a amolar. Se me apetecer, na volta, ainda lhe mando um par de óreilhas, chefe.
Boa sorte,
Jack O Estripador
PS: Esta carta tá escrita a vermelho, viu? Adivinhe lá porquê. Agora dizem que eu sou médico. ha ha.


Até fiquei satisfeito com a carta, tá gira, tem vivacidade. É para terem medo de mim, ouve lá coisas que eu ezagerei, né. Depois de escrever isto e pôr no curreio, ainda tive de ir trabalhar outra vez, e o parvalhão do meu patrão disse-me que hoje afinal eram duas, bem, eu a despachar uma e a correr da polissia, que por acaso desta vez ia-me mesmo apanhando, e tive de ir a correr atrás da outra, nem tive tempo de fazer nada como deve de ser. Ah cada coisa...


9 Nov 1888
Perguntam vocês, pá, Tripa, então nunca mais escreves?, e eu digo, pois é, mas experimentem terem que tar escondidos porque a polissia ainda vos apanha e passam a velhisse na prisão! Não gostavam, né? Mas é que eu esqueci-me que tinha que inventar um nome para pôr na carta pá polissia e não me lembrou e assinei com o meu nome verdadeiro e tive de andar aí uns dias escondidos. 
Mas o mais importante que eu tinha a dizer é que acabei hoje de manhã o meu último trabalho. Fiquei estafado, foi uma coisa que nunca mais acabava e eu já tava a ver a minha vida a andar pa trás, e fui e disse ao meu patrão, pá, não dá, arranje outro, o crime já não é para mim. Acho que cheguei mesmo ao topo da carreira, já fiz o meu pé-de-meia, a partir daqui não tenho para onde ir senão para baixo, e eu sou um individo que gosta de ir mas é para cima. Por mim, fiquamos por aqui. E ele disse tudo bem, ia pensar noutra pessoa. 

31 Dez 1888
Era só pa dizer que tou contente por ter mudado de vida. Conheci uma pessoa espectacular, este ano. É só um bebé, mas já fala e diz coisas muita bonitas, assim que fazem a gente pensar. Chama-se Fernando Peçoa. Não, espera, tou a cofundir co Fernando Peça, lol! Fernando Pessoa, assim é que é. É muita pequenino, ele, mas um míudo tão esperto, bem! A minha mulher é que é amiga da mãe dele, e até já me disse assim, ó Tripa, só pa ter uma criança tão gira comó Fernando, valia a pena a gente tentar ter um filho, e eu disse, por mim tudo bem, e pus-me a pensar e era mesmo isso que eu agora devia fazer, um bebé. Se for comó Fernando e não sair a mim, axo mesmo que o mundo ainda pode ter salvassão.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Tanto pecado, tão pouco tempo

Descobri que a Oprah incluiu o Freedom, de Jonathan Franzen, naquela lista de livros que ela faz lá para o programa dela para depois todas as donas de casa irem comprar.
De modo que eu tenho aqui dois caminhos a seguir:
a) minto e digo que não me importo, quero lá saber, só porque eu gostei do livro, a culpa não é minha que a Oprah também goste e isso não minimiza em nada o meu apreço pelo mesmo livro. 
b) digo a verdade e confesso que, sinceramente, me sinto um tanto ou quanto enxovalhada. A Oprah não é pessoa que me suscite grande entusiasmo, e se por um lado até acho que o clube do livro é uma excelente ideia, eu própria gostava de pertencer a um, por outro fico desnorteada e até desgovernada com a ideia de que um livro de que eu gostei faça parte do Clube do Livro da Oprah. Fico, pronto. 
Para me consolar, fui verificar outros livros, de outros anos, que a Oprah pudesse ter seleccionado lá para o clube dela e que até fossem eventualmente bons. Também pensei, "bem, se a mulher me espetou para lá Nicholas Sparks e a Profecia Celestina ao pé do Franzen, nem sei o que faço à minha vida", mas não, por acaso não, a listinha, ainda que com algumas coisas um bocado desastradas (apenas a meu ver, evidentemente), até tem lá coisas boas. Fez-me inclusivamente lembrar os Oscars, naqueles anos em que a Academia decide dar prémios a todos os actores latinos, ou a todos os actores negros, ou a todos os actores de filmes independentes - em 2005, por exemplo, a Oprah seleccionou três livros do Faulkner, o que eu achei espectacular. Lês estes três e já não tens que te preocupar, que já estás despachado. Eu percebo o raciocínio que subjaz a esta selecção - se a pessoa ler não apenas um Faulkner, mas três, ainda por cima no mesmo ano, expia os pecados e, depois da purga, está de consciência livre para ler outras coisinhas assim mais giras, mais engraçadas, mais modernas, olha por exemplo o Franzen, olha por exemplo o Jeffrey Eugenides. E eu gosto muito destes dois autores - não são é Faulkner, não é?
Mas, de facto, a Oprah tem uma certa razão. Há livros que a gente lê porque começa e porque sabe que é uma vergonha não acabar, mesmo que não esteja a gostar muito. Por exemplo, eu tenho um certo trauma provocado pelo Guerra e Paz, que eu acho que é livro para ler quando se é velho. Certos livros são assim, exigem tempos e idades próprias, e eu li-o numa altura em que manifestamente era nova demais para aquilo, de modo que cheguei a um ponto em que queria lá saber do Príncipe André em Austerlitz a olhar para o céu e a sofrer uma epifania e da Natacha e da Sonja e sei lá que mais, epifania estava eu à espera de ter quando comecei a ler o livro e não aconteceu nada. Mas isso foi porque o li extemporaneamente. Se esperar mais cinco anos e voltar a lê-lo, talvez não goste inteiramente, não sei; sei que vou com certeza gostar mais.
Assim, e assumindo que passamos por experiência semelhante, em que acabamos um livro cuja leitura é tirada a ferros, sentimos de tal forma que vencemos a batalha que, a partir daí, qualquer pecadilho nos é perdoado. Deve ter sido isso que a Oprah tinha em mente quando escolhe três livros de Faulkner por atacado. É relativamente respeitável que o tenha feito, mas a verdade é que não há pecadilho nenhum que possa ser perdoado, e é isso que é terrível em relação ao tempo que passa e que é mal aproveitado em termos de leituras. Tempo perdido a ler Paulho Coelho, para dar um exemplo que é já lugar-comum, é tempo que nunca por nunca recuperaremos, e mais, é tempo que podia ter sido dispendido a ler outra coisa melhor, que nos desse mais felicidade, mais bem-estar, que nos tornasse seres humanos mais bondosos e mais inteligentes. E agora vamos ter de redobrar a corrida, estugar o passo, porque os livros por ler pululam por aí, e há muitos que nos mudam a vida, e não podemos perder tempo a ler aqueles que não mudam. Embora eu perca, infelizmente, mas enfim, cometo os meus erros, pago por eles.
Pecados cometidos são pecados que demoram muito tempo a apagar. Um Paulho Coelho exige o quê para a redenção? Faulkner, Tolstoi, Dostoievski, Hemingway, Homero e mais uma data de Gregos? Provavelmente. Mas é o tipo de castigo que, como dizia a Santa Teresa d´Ávila, que bem sabia do que falava, "é uma divina prisão" da qual a gente não quer sair. É assim.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Um caso da vida

Ao que parece, dizer ao chefe "pó caralho", tal como um cabo da GNR escolheu fazer recentemente, é mera virilidade verbal, e não indisciplina e insubordinação. Por mim tudo bem, gosto de saber que as relações laborais neste país são cordatas e compreensivas relativamente às liberdades e vernáculos da língua portuguesa; é, como se sabe, sinal de civilização e não de atraso, ainda para mais quando tal exemplo emana das forças de autoridade, mormente GNR e juízes da Relação. Muito me apraz tudo isto.
E porém. Há qualquer coisa neste caso que me incomoda um tanto ou quanto, e não é o vernáculo, que com ele posso eu bem. É a expressão "virilidade verbal", que foi o que safou o cabo da GNR de ir a julgamento. Se calha ele ter utilizado uma expressão menos viril e nitidamente menos à homem, como por exemplo "então faça favor, o senhor e a digníssima sua mãe que passa recibos verdes todas as noites num prostíbulo de meu conhecimento, de se dirigirem a um local, ou entidade, desagradabilíssima e mal-cheirosa onde nenhum ser humano deseja encontrar-se, vulgo 'merda'", se o cabo da GNR tivesse dito isto, assim já com certeza mereceria ser julgado e condenado, porque coisas deste calibre não são viris, como se sabe. São um tanto ou quanto efeminadas, mariquinhas, vá, de modo que neste caso lá iria o homem parar à barra do tribunal. E é disso que aqui estamos a falar, é isso que aqui realmente interessa - não é se a linguagem é ou não vernáculo, se é ou não adequada à situação, mas sim se é viril. É isso que interessa a todos nós, especialmente no local de trabalho.
De modo que aquilo que me incomoda, e que não tive ainda oportunidade de explanar, dado o longo e aborrecido intróito com que entretanto me fui distraindo, é que, sendo eu uma falante de português do século XXI, e vivendo em Portugal, não estou exactamente a ver quais as expressões de "feminilidade verbal" que me poderão acudir quando tiver de ir trabalhar e tiver vontade de mandar tudo pó caralho. Sim, porque esta pode ser uma digna expressão linguística de virilidade, mas o sentimento é universal e tão comum a homens como a mulheres. A pergunta que me ocupa é : quais as expressões encantadoras, equivalentes a este "pó c...." (já repeti vezes suficientes), que poderão as mulheres usar? Expressões de feminilidade verbal, por oposição a virilidade verbal - não estou a ver, nem vi que os senhores juízes estivessem preocupados com esta problemática, que claramente institui uma discriminação que eu não estou disposta a aceitar.
Não sei muito de Direito, mas sei alguma coisa, uns conhecimentozinhos mínimos. E sei, por exemplo, que o Estado de Direito assenta na justiça, e que a justiça do Estado de Direito assenta na equidade, que é dar a  cada um, no caso jurídico específico, a parte que lhe é merecida. Ora, neste caso jurídico em concreto, se o homem adquiriu para si expressões de virilidade verbal com que se pode aliviar linguisticamente, parece-me inteiramente justo que à mulher seja igualmente atribuída a devida escapatória linguística, vernácula e retumbante, para usar à vontade no local de trabalho, sem sofrer punição abusiva por parte dos superiores hierárquicos. Pensem nisto, senhores juízes. Pensem em dar a todas as mulheres deste país o justo direito de proferir "pó c....." ou, quem sabe, "pá c...." sem sofrerem represálias laborais e sem serem olhadas de lado socialmente. Insto-os, igualmente, a elaborarem uma pequena listagem, se quiserem, até, poderão "elencar", como alguns de nós gostam de fazer, expressões de feminilidade verbal para uso e alívio de todas as mulheres, duas vezes escrava, duas vezes proletária, já dizia o Marx (os homens são só uma vez), e que bem merecem uma benesse, um sinal de que a justiça portuguesa se preocupa com elas e está atenta à sua situação.
É isto que eu peço. Não é pedir muito. Vejam lá isso.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010





Sempre que termino um livro de que gosto, sinto que estou a acabar com alguém. Vai cada um para seu lado, fico com algumas memórias agradáveis e certos ensinamentos para a vida e, com o tempo, acabo por me esquecer da maior parte.
Sou muito má no que toca a memórias.
Gostava que os livros bons durassem para sempre.

Frágil

Às vezes fico tão farta de não saber as coisas. A pessoa esforça-se, esforça-se, esforça-se, e há sempre coisas que não sabe, que nunca vai saber, há sempre coisas incontroláveis que mudam tudo para pior (ou melhor, quem sabe), e entretanto estamos sempre na corda bamba, todos os dias, todas as horas. É tão cansativo, é exasperante, e enquanto se anda nisto há milhares de filmes que não vemos, milhares de livros que não lemos, dezenas pessoas que não conhecemos e que nunca vão cruzar o nosso caminho, dezenas de sítios a que nunca fomos e a que provavelmente nunca iremos, e um mundo inteiro fora do nosso alcance e onde se calhar as coisas são melhores, mais bonitas, enfim, não sabemos, mas também não vamos lá chegar.
E ponho-me a pensar amiúde que há dias em que vejo porcaria na televisão, e perco tempo na net sem fazer nada, sem me tornar melhor, mais sábia ou mais bonita, quanto muito fico mas é pior, e o tempo que perdi é irrecuperável e é terrível, é o preço a pagar por todos os pequenos, ínfimos erros de todos os dias, erros que podiam ser evitados e substituídos por mais livros, mais pessoas, mais sítios, livros que nunca leio, pessoas que nunca conheço, sítios a que nunca vou, e erros meus em minha perdição se conjuram, como cantava o Camões, erros tão pequeninos e que deviam ser insignificantes mas não são. Mas porque é que tudo na vida tem de ter uma consequência qualquer? É pouco justo.
E escrevo frases longas de mais, e cometo o mesmo erro ano após ano após ano. Entre outros. Errar é humano. Mas também é humano errar menos. Somos tão benevolentes para com a nossa própria pessoa, tão pouco exigentes. Ainda estou para conhecer quem não seja, e não digo isto por conhecer pouca gente. O ser humano é frágil, lá cantava o Jorge Palma.
De modo que hoje, o que eu precisava mesmo é que me pusessem o braço no ombro, eu preciso de alguém,  e embarco tanto em conversas banais, e sim, adorava mesmo estar in, mas não passo do out.
Que cousa, pá.

Adjectivo da semana: espectacular

Um dos meus adjectivos preferidos é "espectacular". Gosto muito, porque me faz sempre rir, quando as pessoas dizem "foi espectacular". É tão adolescente. Ainda rio mais quando dizem "é espectáculo", em vez do adjectivo propriamente dito.
É um pormenor, como tantos outros, mas acho tanta graça.

O John é o meu Beatle, mas, mas, mas...



... o Paul McCartney, quando era mais novo, também era espectacular a trabalhar.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

O Coiote

Esta proposta do Facebook de se mudar a fotografia e substituir por um boneco da infância fez-me lembrar o Coiote, aquele que andava sempre atrás do beep-beep e, além de  nunca conseguir cumprir o seu propósito final, que era apanhá-lo, ainda era tão azarado que acabava em tormentos físicos, e certamente psicológicos, que custavam a ver. Custavam, mas não o suficiente para que a pessoa não se risse com aquilo.
No entanto, reparo agora que sempre senti uma pena imensa do Coiote - coitadito, sempre que as coisas lhe corriam mal os olhos pingados escorriam-lhe cara abaixo que metia dó. De certa forma, até me identifico com ele. É que o Coiote, no fundo, não era má pessoa, pelo contrário - sabia o que queria da vida e encetava esforços para o conseguir, mas a questão é que a vida nunca estava do lado dele e, por inépcia da própria personagem, castigava-o cruelmente.
De modo que, analisando a problemática do Coiote, penso que se podem detectar aqui dois factores, que são: por um lado, e como diz o Woody Allen, a gente tem de ter jeito para a vida e, se não o tiver, há que o aprender e desenvolver. O Coiote, claramente, não só não tinha jeito nenhum como nunca conseguiu aprender nada, por mais pedregulhos que lhe aterrassem na cabeça. Por outro, a pessoa até pode ser muito inteligente e sensível, sensata, expedita e avisada, mas também tem de ter alguma sorte. Podem sempre dizer-me que fazemos a nossa própria sorte, e eu até acredito nisto na proporção de, mais ou menos, 90%. Mas há uns restantes, e maliciosos, 10% que ditam que as coisas correm mal porque têm de correr mal ou que correm bem porque têm de correr bem. O Coiote nunca conseguia ultrapassar estes 10%, mesmo quando se queria armar em chico-esperto. Era, até, quando se armava em chico-esperto que as coisas lhe corriam pior, o que em si mesmo é já uma grande lição para este país de chico-espertismo: pode resultar por um tempinho, mas não resulta para sempre e depois acaba-se com o tal pedregulho em cima da cabeça.
Coitado do Coiote. A vida não gostava dele.

domingo, 14 de novembro de 2010

D. Sebastião

Será que as gerações mais novas e de meia idade falharam em todos os países europeus, ou foi só em Portugal? 
A minha geração, por exemplo, sempre foi muito mal vista. Disseram que era rasca. Quem  proferiu esta simpática designação foram aqueles que estavam comodamente sentados em empregos bem pagos, carreiras feitas, reformas garantidas e ADSE em estado de graça, e que mesmo assim se atreviam a desprezar com arremessos paternalistas, de charuto na boca, uma massa de gente que se engalfinhava para entrar na universidade, que se mataria depois para arranjar emprego, que hoje lhes paga as reformas com o suor do corpo e dos recibos verdes, e a quem continuam a dizer que é bem feita porque (e ouvem-se aqui as vozes dos que arranjaram, no seu tempo, um emprego para a vida) ninguém pode hoje esperar o tal emprego para a vida e mesmo que o arranje não deve arranjar, porque isso é coisa de indolente preguiçoso, pouco produtivo, pouco competitivo, à espera da salvação e das garantias do Estado (pecado capital, como se sabe).
Há uma certa geração aqui que falhou porque nunca conseguiu ganhar. Não é muito nova nem muito velha; não viveu em total ditadura mas também não conhece a completa democracia; o país deve ser, para eles, um misto de autarquias onde reinam caciques que se podem comprar e manipular e mandar para o Parlamento se for preciso, e umas empresas que lhes podem pagar uns salários chorudos a troco de, e umas estações de televisão que servem para transmitir discursos e propagandas, e uma União Europeia que, para lá chegar, tem de se atravessar a Espanha toda e a França, mesmo longe, mas que vai mandando uns dinheiros, uns subsídios que se vão gastando e tal, e no meio disto também há umas parcerias que se vão podendo fazer com o Estado, com os privados, depende do que der mais jeito e der mais dinheiro na altura, e a gente mostra assim uns edificios ultra modernos acabados de construir, e umas autoestradas de faixas recentemente alargadas, e uns computadores que toda a gente vai aprender a usar, estão a ver, nem tudo é mau, faz-se o que se pode, se o FMI vem aí a culpa não é desta geração que tentou perceber o que era uma democracia mas não conseguiu decorar o capítulo até ao fim, e tentou prestar contas e cumprir orçamentos sem derrapagens mas não conseguiu, e quis que toda a gente lesse uns livrinhos, mesmo que fosse a Anita Vai à Escola não fazia mal, o que interessa é ler, e também não conseguiu; não, a culpa não é deles, eles bem tentaram, mas era tão difícil, ainda por cima sem ajuda nenhuma, ninguém lhes explicou, ninguém lhes ensinou, veio dinheiro do estrangeiro e aplicou-se, e afinal as pessoas votaram neles, não é, afinal estamos aqui a culpar quem, afinal quem são os verdadeiros culpados, vocês não sabem fazer contas melhor do que nós e ainda se queixam?, oh pá, dantes este país era 80% de analfabetos, calem-se, mas é. Deixem-nos trabalhar.
E isto para dizer o quê. Para dizer que eu agora podia começar com um discurso que por acaso já tinha engatilhado, "ah, a minha geração é rasca mas é sobre ela que cai a responsabilidade de fazer melhor, de salvar este país", e blablabla. Era um discurso que poderia fazer, mas que não vou fazer, porque gostaria de acreditar nele, embora não acredite. E de modo que, depois de tanta conversa, não tenho resposta nenhuma para nada. Apenas sei que a minha geração não é rasca. Tem de fazer pela vida todos os dias e é o que faz. Pode ser que conheça o seu estado de graça e traga Portugal de volta, sei lá. Há uns que acreditam no D. Sebastião numa manhã de nevoeiro e eu, de certa forma, também acredito, embora substitua D. Sebastião pelo D. Dinis ou pelo D. Pedro, que são assim os reis com quem eu mais simpatizo; o D. Sebastião era tão incompetente como os espécimes de hoje, de modo que por ele nunca tive grande simpatia, e ainda por cima não pagou ordenado decente ao Camões, portanto só por aí dá para ver o tipo de governante que ele era.
Pode ser que eu entretanto encontre alguma resposta. Para mim, pelo menos. Já não era mau. Boa sorte para o país e para todos nós enquanto o D. Dinis ou o D. Pedro não chegam, é o que desejo.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Olha, olha, olha, avisou-me aqui um link qualquer que este blog fez dois anos dia 6 deste mês, e eu que me tinha esquecido por completo!
Quando comecei a Rua, achei que se durasse seis meses já era muito. Mas pronto, vai-se continuando, devagarinho e tal, e quando se dá por isso já passaram dois anos. Mesmo que só tivesse durado 6 meses, já ficava contente. Dois anos é já um bónus simpático. Obrigada aos pezinhos dos Beatles.

Era mesmo só para escrever uma coisa qualquer, com a vossa licença, para a próxima é melhor, desculpem qualquer coisinha

Uma vez, uma amiga minha disse-me que não gastava dinheiro em perfumes porque lhe fazia impressão pagar balúrdios por um frasco de água que cheira bem.
Compreendi a posição dela, embora nunca tenha concordado com esta perspectiva lúgubre e pouco romântica de não usar perfume. Primeiro, porque cheirar bem é importante, ainda que não  tenha necessariamente a ver com perfumes. Há pessoas que cheiram bem porque, além de limpinhas, pura e simplesmente cheiram bem. Há outras que cheiram bem porque usam perfume, sendo que (e vem isto em segundo lugar) quando se usa o mesmo perfume durante muito tempo, a pessoa habitua-se a pensar que aquele cheiro que todos os dias se vai entranhando é verdadeiramente o nosso cheiro. De modo que pode ser uma coisa muito pessoal, e de modo que não concordo nada com a posição dessa minha amiga.
Isto para dizer o quê? Isto para dizer que não acho correcto que se usem muitos perfumes ao mesmo tempo. Há pessoas que têm perfumes de Verão, de Inverno, de dias de chuva e de dias mais não sei quê. Depois a roupa fica com uma misturada de cheiros e elas acabam por não cheirar a nada, além de que é extremamente mariquinhas ter mais do que um perfume. Há que ter a presença de espírito de saber escolher um. Quanto muito, muda-se de cinco em cinco anos. E é esta fidelidade ao cheiro que deve orientar as decisões da pessoa, e é esta fidelidade que me agasta quando me acontecem coisas como ontem, em que parti um frasco de perfume que ainda ia a meio. Eh pá. Sentir o meu cheiro espalhado em azulejo de chão de casa-de-banho, sinceramente, é enxovalho. 
A história mais triste que me aconteceu em termos de perfumes não, foi, porém, esta mais recente de ter partido o frasco, mas passou-se antes com um rapaz que uma vez me disse "ah, eu quando era mais novo tinha 18 perfumes, um era para sair à noite, outro para o dia, outro para andar de carro, outro para a praia, outro para isto e outro para aquilo". Ainda hoje me esforço para perceber o que poderá passar pela cabeça de um qualquer homem para dizer uma coisa deste calibre a qualquer mulher, ou até a qualquer pessoa. Escusado será dizer que a coisa ficou logo por ali.
Não vou apagar o post, mas quero que se saiba, assim em geral, que tenho consciência de que está uma bodega. É que tinha mesmo que pensar numa parvoíce qualquer, pelo menos durantes uns minutinhos, e pronto, saiu isto. Fica assim.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Henry Fonda

O Henry Fonda era bonzinho. Não sei se o era na vida real (a mulher suicidou-se e os filhos, ao que parece, culparam-no eternamente), mas no cinema era bonzinho e querido, principalmente nas Vinhas da Ira e no Twelve Angry Men, grandes filmes em que o adoro ver, com aquele sentido de justiça entranhado que lhe sai do olhar. Gosto.
No entanto, onde eu gosto verdadeiramente de ver Henry Fonda é no Era Uma Vez no Oeste, a fazer de malvado Frank. A bondadezinha suave que, normalmente, associo à cara de Henry é absolutamente inquietante no papel de Frank, porque esta personagem é terrível, maldosa ao extremo, e no entanto continua com carinha de bom, com uns olhos azuis muito brilhantes e bonitos. Ou seja, consegue ser ainda mais maléfico, porque a cara de bonzinho acentua um cinismo e uma hipocrisia terríveis.
É estranho como, por vezes, a bondade não traz consigo nada mais do que coisas más. Ou por outra, as coisas más é que ainda são piores quando vêm sob uma máscara de bondade. Apetece-me citar outra vez aquele excerto de Sade sobre a beneficência, mas não o vou fazer porque enfim, já o repeti pelos menos umas quatro vezes. Mas lembro-me disso muitas vezes.
De qualquer forma, no cinema resulta mesmo em cheio, acho eu.   A cena que segue abaixo, com Henry Fonda a aproximar-se, de sorriso à lagarto no rosto e trazendo consigo o Mal, é absolutamente inesquecível. A banda sonora também ajuda, e muito (das mais magníficas de sempre), mas bolas, este Fonda era mesmo bom.
Adoro este filme. (spoilers no vídeo que se segue)

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

O meu obrigado à Luna, que sempre que tem a gentileza e a simpatia de linkar qualquer coisa aqui do blog, aumenta em trezentos por cento os transeuntes desta rua.

Melhor Blogger Hipotético: Soror Mariana Alcoforado

Julho de 1660
 Mas que cousa... juro que não me é dado perceber esta decisão tão injusta do meu pai. Disse que eu tinha de vir para o convento por causa dos espanhóis, que aí vêm pelejar. A culpa não é minha! Porque é que eu tenho de vir para aqui! Nunca ninguém me compreende, sou tão incompreendida.  Já estou como a outra, "menina e moça me levaram de casa dos meus pais, que motivo foi esse da minha levada era ainda muito nova, não o soube..." Ai como eu te percebo, Menina! Também eu estou aqui nesta lonjura, neste vazio, menina e moça. flor da idade...
Julho de 1662
Estou tão deprimida que esmorece em mim qualquer desejo de fazer o que quer que seja. Passo o dia na cela, a ouvir Jorge Palma. Acho que ele é o único que me compreende. As outras irmãs preferem GNR. Eu não, acho que eles se estragaram todos. Oh, que incompreendida sou. Já nem escrevia nada há dois anos, eu que gostava tanto de ler e escrever...
 Julho de 1663
Ai! Ai, que meu coração bate descompassadamente e quero crer que me sai a galope do peito! Hoje conheci um cavaleiro tão nobre e belo, estrangeiro ainda por cima, de farda, lindo, lindo de morrer, francês, tão requintado, chama-se Chamilly, que nome belíssimo, eu vi-o da janela, ele olhou para mim com aqueles olhos, aqueles olhos enormes, parecia o actor daquele filme, e o meu coração descompassado, e agora?, será que ele me vem visitar!
Julho de 1663
Veio visitar-me! As outras irmãs deixaram-no entrar! Nós aqui somos umas para as outras, LOL! (tenho de me desabituar de escrever assim à balda, sempre escrevi tão bem, mas a verdade é que tenho bem melhor em que pensar)
Julho de 1663
Hoje também me veio visitar!
Agosto de 1663
Hoje também...  :)
Setembro de 1663
Hoje também... : D
Outubro de 1663
E hoje... XD
Novembro de 1663
E hoje... XDDDDDDDD
Tenho mesmo de fumar um cigarrinho às escondidas, ai...
Janeiro de 1664
Ooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooh, a minha vida acabou, que desgraçada sou, que cruel apartamento de almas é este a que me vejo sujeita, que vale de lágrimas vejo assomar a meus olhos, eu... eu morro. Ele não me escreve, já lá vão cinco cartas e... quero agora crer que nunca mais o ver.
"Só conheci bem o excesso do meu amor quando quis empregar todos os esforços para curar-me dele" - olha, que bem que isto me saiu. Que lindo que está, não está? Pensando bem. Quando se tem a Internet, quem é que precisa de franceses.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Necessidade de apimentar

Uma vez, fui passear com um amigo e fomos dar a uns penhascos, por acaso bem giros, de onde se via o mar. Acontece que eu estava de botas de salto alto, mas a culpa não era minha, porque a verdade é que, com a minha infinda esperteza, me tinha esquecido de trazer uns ténis ou isso. E lá andava ele a saltitar por todo o lado, e eu especada feita parva, no meio da pedra e da rocha, a tentar calcular onde poderia encaixar o salto sem cair e sem me desgraçar toda. Não dava. Fiquei parada a olhar para o mar.
O meu amigo, que era mesmo só meu amigo e felizmente ainda é, ficou a olhar para mim com um ar tão agastado que eu nunca o poderei esquecer, e ainda rematou "ainda bem que não és minha namorada!".
Tudo bem - sim, eu estava numa situação parva por não ter sabido usar calçado decente, sim, eu estava numa figura parva completamente desnecessária, sim, eu parecia daquelas pessoas sebosas que só sabem ir de carro para todo o lado e nunca se mexem, sim, provavelmente não seria a mulher dos sonhos de ninguém numa situação daquelas. Mas, sinceramente, há certas verdades que custam a ouvir, mesmo que venham da boca de um amigo, que tem o direito, e até o dever de nos dizer a verdade sem rodeios nem contemplações.
Por alguma razão, este tipo de verdades custa sempre a ouvir, mas custa ainda mais se vem da parte de amigos do sexo oposto. Não sei bem se partilho da teoria do filme When Harry Met Sally, filme de que por acaso gosto muito e que advoga que um homem e uma mulher não nunca  poderão ser amigos sem acabarem enrolados; mas, mesmo não partilhando inteiramente desta teoria, há um certo apreço que gostamos de notar por parte dos amigos de sexo oposto. Não tem de ser nada de concreto, nem sequer significativo, mas é bom que lá esteja. Assim qualquer coisinha para apimentar, é só. Uma pimentinha inocente. 
Pimentinha essa que, como se vê, está bem ausente quando um amigo se vira para nós e, com toda a sinceridade e até, estranhamente, com amizade, nos diz que para namorada, nem pensar. Pronto. A verdade, como a vida, é uma cruz. O que vale é que as verdades são também como as opiniões, dependem muito de pessoa para pessoa e de homem para homem. A verdade de um é a mentira de outro, e é assim que a gente se vai safando.

Não faz sentido

Eu noto que estou a ficar velha, velha, velha, mas mesmo velha rezinga (e gaiteira para os momentos mais alegres, que é uma expressão que eu gosto) quando começo a perder a dita pachorra para certas coisas que as pessoas dizem. É que, quando era mais nova, perdia a paciência mas passado cinco minutos já não me lembrava; hoje em dia, perco a paciência e fico a bufar tipo panela de pressão que a todo o momento rebenta, faz estardalhaço por todo o lado e fica tipo Michael Douglas naquele filme que se chama Falling Down, e que por acaso está bem traduzido em português - Um Dia de Raiva. Nota para dizer que gosto imenso deste filme, acho que é muito subvalorizado. Digo isto porque não conheço muita gente que goste do filme, mas enfim,a verdade é que eu também não conheço muita gente - deve ser por não ter, lá está, paciência. Só devo conhecer para aí umas dez pessoas. Até gostava de conhecer mais gente, mas a questão da paciência é um deficit que, como tantos outros deficits, terei de resolver com urgência.
Continuando. Aquilo que me deixa em estado de ebulição é a mania que as pessoas têm de dizer que  x ou y "não faz sentido". Pelo que percebo, a não ser que as coisas se confinem ao que elas acham que faz sentido, nada no resto do mundo bate certo. Não percebem as regras da voz passiva, por exemplo, porque "não faz sentido". Não percebem sequer que haja voz passiva porque "não faz sentido". Países onde nunca  foram "não fazem sentido". Bandas de que não gostam também "não fazem sentido". Bacalhau com natas "não faz sentido". Iscas ainda devem fazer menos sentido, digo eu. Apanhar o metro na Cidade Universitária para sair no Colégio Militar também "não faz sentido", porque quase mais valia ir a pé. Então força. E assim por diante.
Eh pá, que cansaço. Mas esta mania não é de agora, não. Lembro-me de que há uns anos, quando passou a primeira Operação Triunfo, houve um concorrente que teve de cantar Com Um Brilhozinho nos Olhos, do Sérgio (perdão - Sérgio Godinho, porque só "Sérgio" não faz sentido). Acontece que o dito concorrente, a quem toda a gente elogiava a vozinha de canário a perder o pio, não queria cantar a canção porque "não fazia sentido nenhum". Vá lá que a Catarina Furtado, e digam o que  quiserem dela, teve a presença de espírito de lhe dizer que aquilo era um descaramento.
Também me lembro de as pessoas dizerem, quando o Pulp Fiction saiu, que não gostavam porque o filme "não fazia sentido", e que além disso ainda andava para trás e para a frente e pronto, não havia ali o tal sentido que as pessoas gostam de discernir nas coisas. É como a pontuação do Saramago, também "não faz sentido", dizem alguns. 
Arrisco dizer que, de facto, há aqui muita coisa que não faz efectivamente sentido, mas não me parece que se possa imputar essa falha ao mundo exterior. A falta de sentido está mais nas limitações  intelectuais da nossa própria cabecinha, que não alcança tudo nem tem de alcançar. Mas enfim, isto também não deve fazer sentido nenhum.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Todos somos super dotados

Quando as pessoas me começam a falar dos filhos, eu começo na contagem decrescente até ouvir "até me chegaram a dizer que o meu filho era sobredotado" ou, numa versão assim mais moderna, "até me chegaram a dizer que o meu filho era super-dotado". 
Eu fico feliz com estas novas gerações que prenunciam um futuro tão brilhante para o país, com hordas de crianças que, não lhes basta a sobredotação, têm até uma super-dotação espectacular. Têm quatro anos e já sabem falar ao telemóvel, jogar computador e debitar o nome das personagens do Noddy de cor, sinais deslumbrantes de inteligência, sinais esses que também se revelam quando as criancinhas vão aos Sequins de Ouro e Toma Lá Uma Canção Para Ti e sei lá o quê, em que, sob o olhar atento e indesculpável dos paizinhos, se desfazem a serem queridinhos e a cantar música para adultos da maior qualidade. Eu adoro ver estas evidências conspícuas destas crianças super-dotadas, é uma coisa que consola e que faz perceber que estamos mais que preparados para enfrentar a crise e evitar o FMI.
Bom. Isto para dizer que, na infância e na adolescência, é fácil ser-se "super-dotado", aliás - é fácil ser super em tudo. Normalmente, numa escola normal, é muito fácil ter aquele olho que os outros, ao que parece, não têm, e ser-se rei. Basta dizer umas coisas engraçadas e chegou-se lá. Mas, a não ser que sejamos Mozarts, a escrever Requiems aos seis anos ou qualquer coisa equivalente, o que eu duvido que seja possível até para o próprio Mozart, a nossa esperteza e sobredotação rapidamente se revelam naquilo que realmente é: a normalidade. Quando se chega ao mundo real, há muita gente que é efectivamente pior do que nós, mas há indubitavelmente mais gente que é muito melhor e ao pé de quem não somos nada de especial. A não ser, lá está, que sejamos o Mozart, e, à partida, não somos.
"Don't try", dizia, ao que parece, Bukowski. Por outro lado, se formos ler antes  Kavafis e a sua bela Ítaca, aprendemos que o que verdadeiramente conta não é o destino, é a viagem. Podemos encetar a nossa viagem para chegarmos ao patamar do Mozart, mas não faz mal se nunca lá chegarmos, como provavelmente nunca chegaremos. É um esforço honesto, pronto, uma forma de dar dignidade à nossa condição humana.
Uma vez, uns amigos meus foram ver um concerto com um daqueles pianistas adorados pelo mundo inteiro, não me lembro quem era. No fim, diz uma, sonhadora, "ah, será que algum dia eu conseguirei tocar piano como ele?!", ao que um outro amigo, realista e pouco dado a confortos, replica, "não sejas parva. É claro que não".
Não sejamos, nós, parvos. É claro que não. Mas enfim, podemos sempre pensar que sim. O sonho é uma constante da vida, para terminar o post com esse outro enorme poeta António Gedeão. É muito bonito pensar assim.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

A língua portuguesa rula

A minha querida amiga L. deixou-me uma coisa maravilhosa no mural do facebook - este texto de Stephen Fry, que segue, numa animação gira, no vídeo abaixo:

Aquilo que verdadeiramente me deslumbra nas palavras de Fry é a sua premissa inicial - a língua é algo que serve para nos entreter, para nos divertir, para nos dar prazer, tal como a música ou a pintura, por exemplo. E, no entanto, quase nunca pensamos na língua que falamos desta forma quase lúdica. Como também diz Fry, o que algumas pessoas fazem é achar que são os cães de guarda da língua, inamomíveis e baluartes de sabedoria, que se queixam, em inglês, da apóstrofe, da pronúncia dos hs, das nominalizações; em português, queixam-se se calhar dos particípios passados (e, ainda por cima, mal - "não é 'ter ganhado', é 'ter ganho'!", dizem eles - vão à gramática, pessoal, vão à gramática), queixam-se dos clíticos (mea culpa, que ainda há pouco tempo escrevi um texto a gozar com um "não tava-te a conhecer"), queixam-se sei lá mais de quê. Estes instintos de hiper-correcção face à língua não revelam nenhum gosto especial pelo uso da mesma língua - como afirma brilhantemente Stephen Fry, a língua certinha, correctazinha, serve para a escola, para exames, para entrevistas de emprego - como ele diz, vestimo-nos de fato escuro para a entrevista, e vestimos a língua de fato escuro também. Isto não tem nada a ver com o prazer que a nossa língua nos pode dar - palavras como "estrapicalhar", expressões como "fazer espécie", "obrigadinha", "adeusinho", "até à próxima e continuação", "saúdinha é que é preciso", "o que tem de ser tem muita força, né", "a gente temos de ser uns para os outros", "ó filhinha", etc., outras pérolas que agora não me vêm à cabeça (não me lembra, como se diz), tudo isto não tem nada a ver com a correcçãozinha da língua. Tem a ver com apreciar a língua, em tudo o que ela contém - desde os versos mais retumbantes de Camões às frases mais desenxabidas (outra linda expressão) ou descabidas.
De modo que considero que este texto de Stephen Fry é quase a Bíblia, um imenso, enorme obrigadinho à minha L. por me ter mostrado isto, e pronto, a língua portuguesa é a coisa mais espectacular que existe e, sem ela, a nossa vida seria ainda mais miserável, com ou sem orçamento de estado.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

O Corto Maltese ganha ao Seinfeld

Gosto muito de ver o Seinfeld. Adoro, adoro. É um programa cheio de verdades sobre a vida, entre elas esta, sobre o casamento e a família, que, nas palavras de Kramer, são:

 They're prisons. Man made prisons. You're doing time. You get up in the morning. She's there. You go to sleep at night. She's there. It's like you gotta ask permission to use the bathroom. Is it all right if I use the bathroom now? (...)... and you can forget about watching TV while you're eating. You know why? Because it's dinner time. And you know what you do at dinner?  You talk about your day. How was your day today? Did you have a good day today or a bad day today? Well, what kind of day was it? Well, I don't know. How about you? How was your day? It's sad , Jerry. It's a sad state of affairs..

Eu sei que isto é verdade, ou por outra, acredito que seja. Não é que eu goste muito de ver televisão quando estou a jantar - por acaso, até nem gosto. Mas também não gosto de pedir autorização para ir à casa de banho. No entanto, gosto de falar sobre o dia. Contudo, não gosto de o dissecar até à exaustão. Todavia, também não chego ao ponto de considerar que o casamento seja um estado de coisas muito triste. E porém, também não considero que seja o Céu na Terra, se é que isso é possível.
Agora que me faltam conjunções adversativas para continuar o raciocínio, a conclusão a que chego é que o casamento é aquilo que se diz da democracia - o pior de todos os sistemas, à excepção de todos os outros. Quando falha a democracia, passa-se à acção unilateral, como os EUA fazem muitas vezes, e como as pessoas também fazem, quando o casamento falha e se percebe que mais vale só do que mal acompanhado. 
Eu acho que qualquer estado civil tem 50% de espectacularidade e 50% de miséria, sendo que o estado civil do casamento em geral, e até do chamado "junto", como as pessoas às vezes gostam de dizer, tem a particularidade de dar ainda mais trabalho do que todos os outros estados civis, e ter trabalho é uma maçada. 
Ora acontece que esta conversa é toda muito bonita e muito verdadeira, mas há um pormenor com o qual não se conta, e esse pormenor é que o Corto Maltese pode aparecer assim de repente, e se de facto aparece e pergunta "para sempre?", não estou bem a ver que haja alguém com filosofia que resista. Quer dizer, talvez haja, mas esse alguém não sou eu.
É que, como dizia o velho Shakespeare, há mais coisas entre o Céu e a Terra do que sonha a nossa vã filosofia. E essas coisas entre o Céu e a Terra, às vezes, justificam loucuras. De modo que o Shakespeare ganha um ponto e o Seinfeld, neste caso específico, perde. Não estava a contar com o Corto Maltese, era o problema dele.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Pecado original

A ideia de pecado original sempre me pareceu muito cruel. Uma injustiça. Quer dizer, uma pessoa está muito bem sem fazer nada e quando dá por ela, zás, já tem um pecado em cima. Assim, só por ter nascido. Hã?
Quando eu era pequena, diziam-me, a mim e aos outros todos da catequese, que quem não é baptizado carrega o pecado original como uma marca flamejante para sempre. Por acaso, esta da marca flamejante acrescentei eu, mas o resto é verdade. O que me angustiava é que, mesmo que a questão do baptismo estivesse resolvida e o pecado original expurgado e arrumado, a pessoa ainda tinha de se preocupar com os pecados todos que cometia diariamente, alguns deles que nem sabia se eram pecados ou não, e esses só passavam com a confissão e a absolvição e a comunhão; no entanto, a tal confissão e restantes métodos  eram só para pessoas de uma certa idade, não eram para crianças. De modo que, de certa forma, eu invejava os adultos, porque esses tinham uma maneira de, regularmente, seguir procedimentos claros para, em tempo útil e sede própria, se livrarem do Mal, fazendo uma espécie de tábua rasa para começar de novo, ao passo que as crianças estavam bem arranjadas, pecado original (ou não) e ainda por cima mais os outros pecados todos. Também me angustiava não saber exactamente que pecados eram esses, não haver assim uma espécie de grelha que me dissesse, isto igual a pecado, aquilo igual a pecado mas pequenino, aqueloutro pecado enorme, e assim por diante.
Isto para dizer que bem cedo me apercebi da natureza pecaminosa do ser humano, e ainda hoje acho terrível que não nos seja concedida uma margem de dúvida, do estilo - olha, a partir do momento em que vens ao mundo, tens cadastro limpíssimo; a partir daí, começas a asneirar e começa a contagem decrescente; se chegar ao menos zero, vais para o inferno, mas pelo menos tens, logo à partida, uma oportunidade decente. Estando as coisas como estão, e já nascendo a pessoa em estado pecaminoso, que hipótese é que se tem?
Por acaso, lembrei-me disto há pouco tempo, quando estava a conduzir com o ipod aos berros, que calhou parar no It's a Sin, dos Pet Shop Boys. Era uma manhã horrível em Lisboa, cedíssimo, o trânsito que se movia lento como uma jibóia gorda que acabou de engolir um elefante do dobro do tamanho, e eu ali encafuada a olhar para as pessoas nos outros carros, sonolentas, feiosas, umas fumavam, outras, no lugar do pendura, abandonavam-se ao sono de tal forma que metiam pena, outras ainda olhavam em frente, tristonhas, e à minha volta e à volta delas prédios pingões, cinzentões, sujos. Seria claro para qualquer pessoa que ainda tivesse ilusões que, àquela hora, naquele sítio, se estava face à evidência de que a raça humana é tudo menos perfeita. E, sabendo nós isto, sabendo nós que somos tão feios, porcos e maus, que ninguém escapa, ainda temos de aguentar o pecado original? Não está correcto.

sábado, 23 de outubro de 2010

Muralhas, rochas, ilhas, coisas assim

Há anos que não ouvia Simon & Garfunkel. Sempre gostei muito deles, mas calhou deixá-los escapar da minha vida por muitos anos até ao dia de ontem, em que comprei daqueles CDs que são uma espécie de best of, retrospectiva e assim. Pensei que não ia gostar tanto das músicas como gostava há 10 anos, e de uma certa forma de facto não gostei, mas algumas canções houve que recordei com quase tanto entusiasmo como quando era adolescente e as sabia de cor e salteado. Sem dúvida que uma das minhas preferidas sempre foi (continua a ser) I am a Rock - o adolescente fechado no quarto, a olhar a neve da janela, a sentir-se reconfortado por não precisar de ninguém e ninguém precisar dele. "I have my books and my poetry to protect me". De facto, esta ideia é muito reconfortante. Os livros são seguros, abrigadinhos. As pessoas não, só dão chatices. 
Hemingway encontrou o título do seu livro "For Whom the Bells Toll", John Donne, que também escreveu, no mesmo texto ou ensaio ou poema, não sei, "no man is an island". E daí os sinos tocarem por todos nós. E daí um certo texto de Brecht* bastante conhecido, aquele que diz "vieram buscar os comunistas, e eu não era comunista, e depois vieram buscar os católicos e eu não era católico, e depois os judeus e eu não era judeu, e depois vieram-me buscar a mim. Não havia mais ninguém." (o texto não é assim ipsis verbis; estou a inventar porque não me lembro, mas sei que a ideia é exactamente esta).
Bom. Isto para dizer que agora, como cidadã e como ser humano que tento ser, estou consciente de que nenhum homem é uma ilha nem uma rocha e que precisa de bem mais do que livros para viver. E, no entanto, também me parece verdade que conseguimos, se quisermos, viver bem separados de todos os outros. No último filme de Woody Allen que vi, Whatever Works, Larry David diz, a certa altura, que lê o jornal, vê todas aquelas desgraças inimagináveis e o que é que faz? Não faz nada,  ignora, e isto porque é demasiadamente insuportável viver sabendo que aquelas catástrofes acontecem. "What can you do? It's overwhelming", diz ele, e tem razão.
E quanto ao resto, sinceramente, todos sabemos o quão fácil é não deixar que os outros não nos chateiem, se não quisermos de facto sermos incomodados. Eu raramente quero, se me puser a pensar com alguma honestidade.
Portanto, de uma certa forma, sim, cada homem é uma ilha, com os seus livros, a sua poesia, os seus filminhos, coisas que, controladamente, propositadamente, escolhemos a dedo para nos serem próximas. Por outro lado, não, não somos ilhas, porque como diz o Brecht,* quando nos invadirem a ilha e nos vierem buscar a nós (e eu acho que mais tarde ou mais cedo vêm, porque tendo a ser pessimista, mas também realista), como é que é? Nem que seja para, mais uma vez, velar pelos nossos próprios interesses, temos mesmo de, olha, como se costuma dizer, ser uns para os outros.
O meu problema com isto é que dá um trabalhão e raramente apetece. Estou a tentar resolver este dilema.
Realmente, Simon & Garfunkel têm canções muito interessantes.



* Um leitor atencioso fez o favor de me informar que a frase não é de Brecht, como eu pensava, mas sim do pastor Martin Niemoller, tal como pode ser confirmado na Wikipedia. Aqui fica a correcção.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Uma coisa é ser mulher, outra coisa é ser senhora

Estava aqui a ler este lindo blog e deparei-me com a citação do dia, que calhou ser de Margaret Thatcher  (espero que a Lenor não se importe que eu cite aqui algo que encontrei citado no blog dela):

Being powerful is like being a lady. If you have to tell people you are, you aren't.

Isto não se aplica apenas às pessoas poderosa e/ou às senhoras. Aplica-se a toda a gente que quer ser vista de uma determinada forma e não é: quem é bonito não precisa de dizer que é bonito; quem é inteligente não precisa de dizer que o é; quem é rico não precisa de dizer que é; quem é, em geral, bom, isto é, pessoa de qualidade, não precisa de dizer que é, e de facto não diz, e etc. 
De modo que hoje já tive a surpresa do dia, que é concordar com algo que a Margaret Thatcher tenha dito, e encontro-me agora a indagar o que é isto de ser "uma senhora". Parece-me uma questão algo premente. Durante muito tempo, pensei que era não ter ouvidos, aquilo que tantas vezes me foi ensinado como única resposta digna aos comentários libidinosos que qualquer mulher, senhora, rapariga, menina, o que se quiser, tem necessariamente de ouvir, com maior ou menor frequência, só por se limitar a andar na rua. As senhoras, mulheres, raparigas, o que seja, têm de aprender cedo, neste país.
Dizia Simone de Beauvoir que não nascemos mulheres, tornamo-nos mulheres. E senhoras? Da mesma forma que se aprende culturalmente a ser mulher e homem, também se aprenderá culturalmente a ser senhor e senhora, e usar garfo e faca e flute de champanhe e etc, ou ser senhora quer apenas dizer não ser prostituta, ou quer apenas dizer que se pode ser o que se quiser, prostituta e tudo, desde que seja honesta, ou é o quê? A minha vã filosofia não alcança. 
A afirmação de Margaret Thatcher, que eu por acaso acredito que seja mulher  e além disso senhora, talvez queira dizer que ser "senhora" é uma qualidade intrínseca, da mesma forma que certos homens são "gentis homens", e que isso ou é inato ou não é. Não se pode aprender, não se pode fazer esforço para  o ser e andar por aí a dizer às pessoas, como aquele indivíduo do Little Britain, "I'm a lady, I'm a lady". 
Pois é. A questão é que esta ideia do inatismo, sobre a qual se escreveram imensos livros, nomeadamente um manual de boas maneiras interessantíssimo e tremendamente popular no Renascimento, chamado Il Cortegiano, tem muito que se lhe diga. Neste manual cortês, por exemplo, Castiglione (o autor) defendia que ser cortesão é uma qualidade inata, que no entanto pode e deve ser trabalhada, e porque não refinada, por quem nasceu com ela - mas claro, há que nascer com ela. 
De modo que a conclusão que eu retiro disto tudo é que, como dizia a Susaninha, amiga da Mafalda (a banda desenhada), "uma coisa é ser mulher, outra coisa é ser senhora".  Eu, realmente, concordo. Não vamos agora estar a confundir as coisas e a comprometer valores e princípios, os mesmos que rezam que  cada macaco tem de estar devidamente no seu galho, e é mesmo assim.
Pronto.