quarta-feira, 25 de maio de 2011

O tempo é uma bi-atch!

Só para dizer que houve um membro do júri do Man Booker que se despediu porque o prémio foi para o Philip Roth.
Este membro do júri era uma senhora e explica a decisão dela aqui. 
Resta saber se a tal senhora terá razão ou não, isto é, se Roth resistirá ao tempo, tornando-se imortal, como a maior parte dos homens que eu conheço acha, ou se é efémero, como a Carmen Callil pensa que ele é.
O Roth irrita um bocado as pessoas. Há escritores e artistas assim, que atraem atenções a torto e a direito, tem graça. Entre eles, há aqueles que são irritantes, exibicionistas, e mesmo assim imensamente talentosos, de modo que permanecem no tempo (ie Truman Capote - só um exemplozito, porque todos sabemos que o Truman gostava do espalhafato, e ainda bem); e há os irritantes, exibicionistas e absolutamente medíocres, que atraem as atenções dos media durante 15 minutos e depois desvanecem-se no esquecimento. É o caso de artistas como Damien Hirst, por exemplo (isto na minha opinião, claro) ou de escritores como Michael Cunningham (quem? Já nem me lembro quem é este). E talvez seja, até, o caso de Jonathan Franzen, de quem eu gosto muitíssimo e que tem, indubitavelmente, talento - mas, não sei porquê, não sei se Franzen é material para o cânone. Não sei, tenho uma incómoda sensação sobre ele, às vezes.
Bom. Era só isto. Uma boa noite e boa sorte.

terça-feira, 24 de maio de 2011

Combinação que não compreendo: chocolate com laranja

Devo começar por esclarecer imediatamente que, para mim, a vida sem chocolate não faz sentido nem nunca fez. Desde que me lembro de ser gente, como se costuma dizer, que a importância do chocolate na minha vida foi sempre fundamental - o leitinho com chocolate pela manhã alegrava-me o pequeno almoço; o caramelo do Mars dava todo um renovado entusiasmo aos fins-de-semana, em que ainda por cima o Duarte e Companhia passava na televisão. Mais tarde, fui crescendo e descobrindo as maravilhas sedosas de um Guylian ou Côte d'Or, embora não Godiva, não acho muita piada a este último; porém, considero que, por exemplo, a opção Milka é perfeitamente aceitável e sai muito em conta. E o que dizer de um quadrado negro 84% cacau a derreter na boca, a acompanhar o café ou o chá? Não é preciso mais nada na vida.
Bom. Como o chocolate é parte integrante do meu ser, é natural que eu seja uma pessoa aberta às várias combinações que o chocolate permite, mormente chocolate com chantilly, chocolate com frutos secos, chocolate com fruta. Com fruta? Com certa  fruta. Sim, porque estou em crer que quem aprecia verdadeiramente chocolate sabe que esta ambrósia quase divina não se presta a qualquer tipo de fruta, aliás, não se presta a quase nenhuma fruta. O chocolate, como muitas pessoas que por aí andam, é esquisito e comichoso (belo vocábulo). Sendo comichoso, gosta de uma fambroesa ou de uma bananinha, por exemplo, e até admito que goste de um morango, agora - de laranja? Duvido muito. 
Não sei quem é que se lembrou desta combinação, mas, para minha grande surpresa, o que não falta por aí é chocolate com laranja. Até as marcas "gourmet" fazem alarde do excelente chocolate com a excelente laranja, e eu fico pasma, perplexa, sem compreender. Quando eu era pequena, não me deixavam comer laranja com chocolate em cima porque fazia mal, e eu desde cedo comecei a desconfiar dos perigos do chocolate com fruta, suspeita que se agravou depois de, à sucapa, ter comido uma tablete de chocolate branco depois do kiwi à sobremesa. Escusado será dizer, para não entrar em pormenores desagradáveis, que graças a esta fatal combinação descobri todas as potencialidades do sistema digestivo do corpo humano. 
De modo que chocolate e laranja, quanto a mim, não combinam. À partida, até pode ser uma boa ideia, mas à chegada não é, de todo. O chocolate pede amêndoa, caramelo, avelã (hmmmm, maravilha...), baunilha, ou coisas mais exóticas como especiarias, chás orientais. Agora fruta, é ter muito cuidado. Laranja, não me convence. É uma manobra só para vender e que não respeita a essência do chocolate.
Há combinações que são assim, em teoria parecem bem, mas na realidade são um desastre. E, se a pessoa não é esperta e não as topa à distância (às combinações, quero eu dizer), fica com a vida e com o intestino estragado, e depois as coisas muito dificilmente voltam ao que eram antes. Ah, pois. 

Quem anda à chuva molha-se, mesmo se usar chapéu

Em Inglaterra, o equivalente ao Ministro da Justiça disse, de forma eminente e sábia, que o crime de violação pode variar em grau, sendo que há violações "menos sérias" do que outras e que, como tal, podem beneficiar de um descontozito se, por exemplo, o criminoso se der como culpado desde início. Sábio, de facto. Para esclarecer ainda mais, caso tal fosse necessário, este adorável raciocínio, especialmente provindo do Ministério de Justiça do UK, um deputado do Partido Conservador veio dizer que sim senhora, há diferença pois claro, já que se uma mulher for para a cama com o namorado e, depois do fogo atiçado, quiser deitar água na fogueira, a culpa não é bem, bem do namorado em pólvora se o tal fogo não se apagar assim sem mais nem menos. Tudo dito aqui. 
Eu concordo com esta posição. É evidente que há diferença, é evidente que sim, como qualquer vítima de violação poderá facilmente atestar. Aliás, de certeza que, se perguntarmos a estas vítimas, que contam com conhecimento por experiência própria, o que será preferível - ser violada no meio de um parque a meio da noite ou na cama com o namorado? - de certeza que elas nos dirão que, sem sombra de dúvida, a última opção é sempre a melhor, aliás, nem se tratará exactamente de um crime. É um azar, pronto, daquelas coisas que acontecem. Quem anda à chuva molha-se, não é o que se costuma dizer?
É terrível e triste e ofensivo constatar que este tipo de afirmações é ainda proferido de forma descarada, sem vergonha na cara - são afirmações terríveis, tristes e ofensivas porque claramente lhes subjaz aquele pensamento insidioso a que poucos de nós escapamos e que, no fundo, no fundo, considera que, em "certas" violações, a vítima estava a pedi-las. Que este pensamento esteja ainda tão entranhado na sociedade ocidental ao ponto de transparecer naqueles que foram eleitos para se encarregarem da justiça de um país é verdadeiramente assustador.
E não acredito que a mentalidade seja muito diferente em Portugal. Cada dia que passa em que uma mulher ouve um piropo nojento de um homem e sente que tem de se calar, porque não vale a pena dizer nada, confirma-o. Infelizmente. 
Ainda há muito caminho a percorrer para as mulheres e para os homens. Mas, pelo menos, que este triste caso em Inglaterra sirva para nos indignarmos.

terça-feira, 17 de maio de 2011

Começos, parte II

Ainda a propósito de começos de livros, e concordando com todos os começos bonitos deixados na caixa de comentários (especialmente o começo dos Lusíadas, claro!), falhou-me, porém, dois começos fundamentais:
o imprescindível Ano da Morte de Ricardo Reis, também ele extraído dos Lusíadas -  Aqui o mar acaba e a terra principia.
Aqui o mar acaba e a terra principia.
E o outro começo, lindo, cantado - "Menina e moça me levaram da casa de meus pais. Que causa foi essa da minha levada, era ainda muito nova, não o soube". Só o Bernardim aos molhos para escrever isto, com esta música toda.

"Não vi o livro mas li o filme"`*

Há coisas que só funcionam de determinada maneira e ninguém sabe bem porquê. Hoje, por exemplo, estava a lavar a louça e a pensar, "este detergente é bom, não seca a pele e não descasca o verniz", e deste pensamento espúrio passei, também muito espuriamente, para livros e filmes e bons livros que dão bons filmes e vice-versa (isto é, livros maus que dão bons filmes. Era o que eu queria dizer).
Há livros magníficos que só funcionam mesmo como prosa e que, por qualquer razão que eu não consigo inteiramente compreender, falham redondamente quando transformados em filme. Lembrei-me disto ao pensar no Freedom, do Jonathan Franzen, que me agradou muitíssimo e que, quando saiu, foi bombardeado por uma onda imensa do chamado "hype", Obama et.al. embrenhados na leitura do livrinho. Eu estava precisamente a pensar que um best-seller que agradou a tanta gente tem tudo para dar um bom filme. Mas, curiosamente, acho que Freedom resultaria num péssimo filme, independentemente dos actores, do realizador e do argumentista. Acho que não seria melhor do que um dramalhão pretensioso, falsamente inteligente e com aspirações a profundidade intelectual e psicológica à semelhança do Closer, aquele filme com a Julia Roberts e o Jude Law, que é dos piores filmes que já vi. Não sei porque é que tenho esta ideia do Freedom como um completo fiasco no cinema, mas tenho.
Costuma dizer-se que raramente há filmes tão bons como os livros que lhes dão origem. Eu tendo a concordar. Lembro-me apenas de um único exemplo em que, para mim, o filme é tão bom como o livro, e mesmo assim tenho a certeza de que muitas vozes discordarão - Lolita versão Kubrick. Mas é um caso único.
Também há casos em que um mau livro dá origem a um filme bom ou, pelo menos, um filme razoavelzito - não sou grande fã das Horas, por exemplo, mas acho convictamente de que o filmito é superior à bodega do livro. 
É interessante pensar em como certos "media" não se transferem facilmente para outros "suportes" (brrr, esta converseta com estes termos modernos não é agradável) - um bom livro não dá necessariamente um bom filme, uma peça de teatro não dá necessariamente um bom filme (raramente dá, a julgar pelos exemplos de que me consigo lembrar), e os livros cinematográficos que normalmente vendem às catadupas, já formatados para resultar em filme (ie Código Da Vinci) são normalmente perdas de tempo, paupérrimos, paupérrimos. 
De modo que, em geral, acho que se deve tomar cada coisa como cada qual - o livro é o livro e o filme é o filme, um absolutamente independente do outro. 
E isto para dizer o quê? Não sei bem, a minha ideia inicial, quando estava a lavar a loiça, era um bocadinho mais interessante. 

* não fui eu que inventei esta frase, li não sei onde. Acho que é o título de um livro que vi não sei onde, não sei quando.

sábado, 7 de maio de 2011

Começos

A casa que os Maias vieram habitar em Lisboa, no Outono de 1875, era conhecida na vizinhança da Rua de S. Francisco de Paula, e em todo o bairro das Janelas Verdes, pela casa do Ramalhete, ou simplesmente, o Ramalhete. 

Ouvi tantas vezes que "o começo dos Maias é uma seca, e por isso é que eu nunca consegui ler o livro. Não passo das primeiras páginas". Isto é a maior treta que eu alguma vez ouvi. O começo dos Maias é o mais elegante que conheço, e o que se segue é mestria absoluta - Apesar deste fresco nome de vivenda campestre, o Ramalhete, sombrio casarão de paredes severas, com um renque de estreitas varandas de ferro no primeiro andar, e por cima uma tímida fila de janelinhas abrigadas à beira do telhado, tinha o aspecto tristonho de residência eclesiástica que competia a uma edificação do reinado da senhora D. Maria I: com uma sineta e com uma cruz no topo, assemelhar-se-ia a um colégio de Jesuítas.

E pronto. Esta longa e irrepreensível sintaxe é uma pincelada autêntica. Um quadro. Este Eça era o maior. 
Mas eu sou parcial. Os Maias é o meu livro de sempre, o meu livro absolutamente essencial e preferido. Talvez alguém conheça começos de romance melhor do que este dos Maias - excepto o começo do Pride and Prejudice, que toda a gente gosta de citar e que é uma grande seca, uma coisa do estilo "it is a truth universally acknowledged that a single man is in need of a wife", uma coisa assim. Não vou ver ao google, não quero saber. Não acho o Pride and Prejudice assim tão bom, apenas bonzinho.
Um outro grande, imbatível começo é o do The Go-Between, de tal modo que se tornou já um lugar-comum: The past is a foreign country. They do things differently there. Tem de se fazer uma pausa para absorver a verdade destas frases. Pensar bem nelas.
Também gosto muito do começo calmo, pausado, de Heart of Darkness, que prepara para a tensão contida do enredo que se seguirá. É uma prosa bonita, as palavras soam bem, mais do que o seu significado - The Nellie, a cruising yawl, swung to her anchor without a flutter of the sails, and was at rest. Acho isto bonito, não sei. Flutter of the sails.Faz-me lembrar aquela letra do Chico Buarque - "a saudade é como um barco que aos poucos descreve um arco e evitar atracar no cais". As palavras do Chico são ainda mais bonitas.
O começo de In Cold Blood é outro dos meus preferidos, perfeito como quase tudo o que li de Capote - the village of Holcomb stands on the high wheat plains of Western Kansas, a lonesome area that other Kansans call 'out there'. Assustador, este "out there".
Começos melhores do que estes? Como todos os começos, serão difíceis de encontrar. Mas força.

terça-feira, 26 de abril de 2011

Gin

Escreveu Dorothy Parker: "I like to have a Martini, two at the very most; three, I'm under the table, four I'm under my host."
Beber é bom, como a Dorothy com certeza que sabia. A pessoa fica tonta, vomita se for preciso, mas de repente o mundo torna-se colorido, ambíguo, ondulante, cócegas no estômago, uma imensa vontade de rir, uma sensação ardente e quentinha por onde passa o álcool, um verdadeiro conforto, e tudo é tão maravilhosamente insignificante. O melhor da bebida é mesmo isso, a redução de tudo o que nos rodeia a uma esplêndida insignificância em que nada interessa, o que nós somos, o que os outros são, o que o mundo é ou deixou de ser. É o maravilhoso mundo novo do olvido em que se faz tudo o que se quer e onde não há consequências, porque o dia seguinte não existe. 
Há muito tempo que isto não me acontece. Mas a última vez em que me aconteceu foi magnífica. As maravilhas que faz o gin tónico a bater leve, levemente. Há quanto tempo o não vejo. E que saudades, Deus meu.

domingo, 24 de abril de 2011

Dylan gone electric

Uma vez, Bob Dylan decidiu esquecer as suas raízes folk, à Woody Guthrie, a máquina que mata fascistas e tal, e decidiu enveredar por um caminho mais "eléctrico", mais pesadote, eventualmente menos poético. Nos primeiros tempos, foi um desassossego. O pobre Dylan entrava em palco e era imediatamente vaiado e apelidado de Judas, naquela que ficou muito compreensivelmente conhecida pela Judas tour. Não que Dylan se importasse muito. Continuava a levantar ondas, como se costuma dizer. E continuava poeta.
Em inglês, há aquele ditado que diz "beauty is in the eye of the beholder". É interessante como isto se aplica, assustadoramente, à chamada integridade. Então Dylan deixou de ser íntegro porque passou ao eléctrico? Para quem foi aos seus concertos insultá-lo, com certeza que sim. Mas o Bob Dylan em si, ele propriamente dito (bela expressão), continuou o mesmo. 
De modo que, por exemplo, quando nos desapontamos muito com os políticos e com o país e com o FMI, não há grandes explicações a dar. Os políticos e o país e o FMI não mudaram, foram sempre manchados pela falta de integridade. São os nossos olhos que mudam e que vêem o que dantes não viam, ou vice-versa - escolhem não ver o que dantes viam. 
Voltando ao Bob Dylan, este último foi sempre eléctrico. Quem pensava que não era é que se enganou e depois teve de encontrar meios para se esvaziar de toda a fel. Mas a culpa não era do Dylan. 
Eu gosto do Bob Dylan, atenção.

Poderzinho

Pois é, ao contrário do que possa parecer, isto (refiro-me ao blogue) ainda não acabou. Pode parecer que sim, mas não, que o engenho e arte serão poucos, mas eu escreverei até que a voz me doa, assim tenha tempo para isso. Ultimamente, e pela primeira vez na vida, o meu problema tem sido mesmo a falta de tempo. É impressionante. Nunca acreditava quando as pessoas me diziam, "ah, quero fazer x e y, mas não tenho tempo". Soava-me a desculpa mal amanhada. Agora percebo, porque eu própria me vejo a braços com tempo a menos e não tenho de amanhar nenhum peixe nem nenhuma desculpa.
Pois é. Mas, em tempo de Páscoa, o que me intriga é aquela história do Abraão a quem Deus ordena que mate o filho, apenas para lhe dizer no fim, "mas tu está quieto, então tu achas que eu te mandava fazer isso? Ó pá, francamente". Ah, mas era para testar a fé, dirão alguns. Estranho teste, este, porque facilmente se pode subverter e desvirtuar. Então e se Deus se virasse para Abraão e dissesse "ah, com que então andas a ignorar os fundamentos que eu tento disseminar e estás pronto a matar o teu filho levianamente, por dá cá aquela palha, sem pensar, sem discutir nada. E seu te mandasse atirar de um poço, também atiravas?! Então e o valor da vida, o valor mais importante para o teu Deus, não significa nada para ti? Estou a ver que não. És um mau seguidor, Abraão, mau seguidor, ai, ai, que tau-tau que vais receber". Imaginemos isto. Podia muito bem ter acontecido. 
É que a lógica da autoridade é frágil, se formos a ver bem. É como as estatísticas e as sondagens, tanto dizem uma coisa como facilmente podem querer dizer outra. De modo que a conclusão que eu retiro desta história de Abraão é que o melhor é a gente pensar pela nossa cabeça e desconfiar sempre do que nos mandam fazer, mesmo que seja Deus a mandar. O poder corrompe e todos nós o sabemos. Até Deus. 
Uma feliz Páscoa.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Longe da vista, perto do coração

As pessoas são sempre contra namoros à distância - ah, não resulta. Ah, as pessoas fartam-se, ah, as pessoas arranjam outro, ah, longe da vista, longe do coração.
Eu discordo disto tudo. É evidente que uma relação à distância que implique que as pessoas só se vejam de três em três meses durante anos talvez não resulte. Agora um namoro à distância que permita alguma regularidade só tem vantagens:
- as pessoas não têm tempo para discussões ou, se as têm, esquecem-se delas porque têm muitas saudades
- devido às saudades, cada vez que se vêem aproveitam ao máximo e passam os minutos num enleio apaixonado de lua-de-mel permanente
- quando o outro está longe, só se lembram das qualidades dele ou dela e esquecem-se dos defeitos
- há tempo para fazer tudo o que se tem de fazer sozinho, sem ter de coordenar horários com o outro, coisa que normalmente só dá chatice
- quando estão juntos, tudo sabe ainda a novidade e há tempo para actividades interessantes, ao invés de se deixarem abater pela rotina trabalho - casa - rabo no sofá - trabalho - casa - rabo no sofá.
Em geral, sou a favor de relações à distância porque as pessoas não se habituam muito ao outro e vêem-no sempre como "especial". No dia em que tiverem de conviver com ele/ela todos os dias, a magia desfaz-se necessariamente e as pessoas são cilindradas pela rotinazinha que são obrigadas a viver, começam a engordar, a ver muita televisão, a ir para o trabalho tipo zombies e a voltar ainda pior, e de repente o Corto Maltese já não é o Corto Maltese, é apenas um tipo qualquer gordo e mal vestido que está sempre cansado, deixou de ter tempo para ler o que quer que seja, nunca quer fazer nada e só sai de casa se for para ir à Worten olhar para televisores novos. Subitamente, a linha que separa o amor do hábito esbate-se e a pessoa já não consegue distinguir um do outro. Talvez porque o primeiro tenha sucumbido, dando lugar apenas ao hábito - não sei. 
Acredito que o amor seja como o direito consuetudinário, que está lá embora não precise de estar escrito, mas também acredito que o "costume" vença todos os obstáculos, inclusive o amor, sendo por isso capaz de sujeitar tudo o resto à rotina que impõe. Por isso é que é importante que o Corto Maltese permaneça o Corto Maltese - volta a casa, vai-se embora, volta a casa. Não há tempo para costumes ou hábitos. E longe da vista, sempre perto do coração.
Também podia dar aqui o exemplo do Woody Allen e da Mia Farrow, que viveram sempre em casas separadas, mantendo a sua vida independente e estando juntos ao mesmo tempo. Mas, por qualquer razão estranha, sinto que isto não será um bom exemplo. É só uma sensação que tenho.

A idade que se tem

A minha avó diz: "não adianta não parecer a idade que se tem, porque os anos estão lá à mesma". 
Acho que a minha avó tem toda a razão. Quando eu era mais nova, julgava que este dito se aplicava só às aparências, e desgostava-me parecer menos idade do que realmente tinha. Hoje em dia, isto parece-me excelente ideia e fico sempre contente quando me tiram três ou quatro anos à idade que realmente tenho. Tenho pena que ninguém se lembre de me dar menos dez anos, mas enfim, não se pode ter tudo.
Curiosamente, o que a minha avó diz também se aplica ao comportamento das pessoas em geral, àquilo que escrevem e à forma como decidem conduzir a sua vida. Não adianta, efectivamente, querermos agir como se tivéssemos menos idade, porque não temos e acabamos por fazer figuras tristes. Detesto quando as pessoas dizem "tenho 35 anos, mas sinto-me como se tivesse 25!". Isto configura um caso de grande tristeza. A ideia é viver e aprender. Qual é a vantagem de ficarmos encravados 10 anos atrás? Nenhuma.
Uma vez disseram-me que, quando me conheciam apenas pelo blogue, pensavam que eu era, ipsis verbis, "uma pitazeca". Isto assustou-me um tanto ou quanto, não pelo sufixo "-eca", já de si enxovalho, mas fundamentalmente por me terem dado muito menos idade do que aquela que tenho apenas por lerem o que escrevo. Não que eu tenha pretensões de escrever coisas de grande maturidade e grandeza, mas também não me agrada saber que o que escrevo poderia provir de uma qualquer miúda com idade para ser designada por "pitazeca". Embora isto não interesse verdadeiramente, porque as pessoas pensam o que quiserem, e se umas pensam o melhor, outras pensarão sempre o pior. É a tal história dos Gregos e dos Troianos, se a gente agrada a um, não agrada a outro. Para compensar, também me disseram uma vez que, através do blogue, se notava que eu era "pessoa de uma certa idade". Respeitável.
E era mais ou menos isto que eu tinha a dizer. Depois de tanto tempo sem posts, a sensação que fica é que a montanha pariu um rato, como se costuma dizer. É a idade, que me tira o viço de antigamente. Há que viver com isso.
E vou tentar fazer posts mais curtos.

sábado, 26 de março de 2011

Quanto piores as coisas são, mais vontade tenho de escrever sobre assuntos absolutamente irrelevantes. A realidade é demais para mim. Pior para ela (a realidade), como dizia o Hegel.
Os posts que se seguem ficam, assim, justificados. Obrigada pela atenção.

quinta-feira, 24 de março de 2011

Eu sou linda, não importa o que eles dizem, as palavras não me deitam abaixo, eu sou linda sob todos os aspectos, ai sou, sou, portanto não me deitem abaixo hoje, ó faxavôr

Há uns tempos, uma amiga daquelas antigas, do peito, ofereceu-me uma fotografia tirada há sei lá eu quanto tempo, há pelo menos 15 anos, tendo a mesma fotografia a ternurenta e comovente peculiaridade de contar comigo e com as minhas amigas da altura (que continuam minhas amigas hoje em dia, felizmente) nos tempos da escola. 
Gostaria de chamar a vossa estimada atenção para esta expressão, que encerra mais perversidade do que se possa pensar: "nos tempos da escola". É que eu não percebo bem, bem as saudades que possamos eventualmente sentir por tal época. Para dar um exemplo, esta fotografia que me foi oferecida é uma delícia, sim, foi um querido regresso ao passado, chorei de riso e comoção ao vê-la, mas, e como dizia o outro, há que dizê-lo com honestidade, a fotografia tem umas quantas raparigas que não são assim, como direi, muito, muito bonitas. Também não são feias, mas enfim, ainda tinham muito a aprender "no que concerne" ao visual. "Nos tempos da escola", eu (e vou falar apenas por mim, que as minhas amigas não estão aqui para se defenderem) era uma pessoa com um cabelo mediano e sempre igual todos os dias, umas roupas que não lembram ao Diabo (talvez naquela altura lembrassem a algum mafarrico, mas ao Lúcifer em si não lembravam de certeza, nem hoje nem naquela altura) e em geral eu era assim, digamos que, não muito gira. Alguém mal intencionado poderá sempre argumentar "até parece que agora és gira, ah, ah!", ao que eu respondo, "pelo menos sou mais gira". Pois é.
E este episódio passou-se comigo, mas eu não sou caso único. Em geral, quando as pessoas me mostram fotos de quando eram mais novas, penso sempre que estão bem melhor com alguns anos em cima. Não sei, talvez seja porque a minha geração, quando adolescente, não tinha a sabedoria quase maléfica da malta nova de hoje em dia, que domina maquilhagens e saltos altos como se viessem direitinhas do Sexo e a Cidade ou coisa parecida. Não, a minha geração era singela e simples, contentava-se com umas calças de ganga justas e os imbatíveis Converse All Star. Isto bastava para nos fazer felizes, assim como calças com estampados de flores berrantes (eu tinha umas, elásticas e tudo, e adorava), cortes de cabelo à cogumelo, poupas com gel (esta última moda juro que nunca usei e sempre achei pirosa, valha-me isso), má música (estávamos convencidos de que ouvir Neil Diamond era, sei lá, "vintage". Apesar de eu até gostar de algumas coisas do Neil Diamond, olha aquela canção que a Tracy Chapman até gravou, tão bonita, "sorry is all that you can't say, la, la, la...").
Isto tudo para dizer que a maior parte das pessoas que conheço que nasceram no mesmo ano do que eu  são exactamente aquelee lugar-comum do vinho, já que melhoraram bastante com a idade. Aprenderam a ir ao cabeleireiro e a passar algum tempo em actividades estéticas que, ainda que deixem o interior exactamente na mesma, melhoram o exterior e são pelo menos um começo. E, em geral, vejo que têm um ar mais interessante, que eu acho que vem com a idade, e que na juventude não se tem. Mas isso talvez seja eu, que tenho mais a tendência para o velho e vejo a juventude como uma coisa muito, mas mesmo muito, passageira. Somos velhos a maior parte da vida, se pensarmos bem, e portanto é a velhice que temos de aproveitar.
E portanto a velha fotografia que me foi oferecida mostra-me a mim num outro tempo, bem enterrado no passado. E porém, não consigo deixar de contemplar esta foto por longos minutos sem sentir sempre estranhas saudades. Saudades do cabelo, das calças de ganga, dos ténis, da T-shirt enfiada nas calças (!). Saudades "dos tempos da escola", enfim, quando ir ao cabeleireiro era uma vez por ano e não tinha interesse nem importância nenhuma. Havia coisas mais importantes para fazer e para pensar.
Mas isto passa depressa, porque afinal, gosto mais dos sapatos que tenho agora.
Já tentei ler os Irmãos Karamazov em russo mas só conseguia contar o número de ocorrências da palavra Карамазовы (102). E esta é do João Tordo, um autor que a nível estilístico tem tantos recursos como o John Galliano na prisão.

Este Tolan, como se diz em estrangeiro, gotta love him. No primeiro dia de país desgovernado, ao menos isto faz rir muito. 

Hecatombe

Estou a tentar adaptar-me à ideia de viver num país sem governo nem Governo.

terça-feira, 22 de março de 2011

Da filosofia barata que pode existir no acto de levantar cedo

Como dizia o Kafka, levantar cedo é a coisa mais degradante que existe - levantar cedo deixa a pessoa estúpida, como constata o sr Samsa ao acordar transformado em barata (conclusão espectacular). A pessoa a querer enterrar a cabeça na almofada fofinha, nos lençóis quentinhos, e a porcaria do despertador a tocar, a tocar, a tocar, a lembrar que há um mundo lá fora.
O que mais custa quando a gente se levanta cedo é precisamente isto - a constatação de que o mundo continua, com todas as suas obrigações e tarefas e fretes, independentemente do nosso sono descansado. E depois esta exigência permanente todas as manhãs é uma coisa irritante - levanta-te, vai produzir, vai trabalhar, vai fazer coisas. E se não houver coisas para fazer? Vamos imaginar isto, vamos imaginar que nos levantamos e pura e simplesmente não temos nada para fazer. É assim tão terrível? Qual é o problema? Mas não, não pode ser, o mundo não deixa que não se tenha nada para fazer, porque lança um tal estigma sobre o chamado "ócio" que toda a gente se sente mal se não estiver a fazer alguma coisa. Nem que seja limpar a casa.
No entanto, a verdade é que, dia após dia, raramente se faz alguma coisa de jeito. Temos a mania de que, se cumprirmos a rotina, levantar, ir trabalhar, almoçar, voltar a casa, deitar, etc., dizia, se cumprirmos isto, temos uma vida a sério e somos "úteis". Não estou a ver como. Úteis a quem, para quem? A não ser que trabalhemos numa missão humanitária, passamos a vida a fazer coisas que não interessam a ninguém na ilusão conveniente de que, desta forma, "produzimos". Pois, mas não. 
E portanto eu não penso que se deva reconhecer autoridade ao mundo para nos arrancar da cama todos os dias de manhã. Ainda se fosse para alguma emergência, um caso de vida ou morte, tudo bem. Mas raramente é esse o caso. E, no entanto, voltamos ao mesmo todos os dias, como a minha vizinha, que às oito da manhã já está a percorrer a casa toda, toc, toc, toc, os saltos altos a martelarem o chão, a afinar a garganta para berrar com os filhos, tão alto que eu já sei que ela tem pelo menos um Daniel e um André, depois põe a máquina da roupa a centrifugar, faz uma barulheira, sai de casa, para voltar ao fim do dia e repetir a azáfama toda. O marido de vez em quando também berra, e parece-me que só são felizes quando o Benfica ganha. Aí, gritam, mas pelo menos é de felicidade (digo eu). 
E sim, são todos muito úteis, somos todos muito úteis, fazemos todos coisas importantíssimas. O Kafka tinha razão, assim como Mário de Sá Carneiro, que volto a citar - "Noite sempre plo meu quarto. As cortinas corridas,e eu aninhado a dormir, bem quentinho - que amor...". Como dizia outro grande poeta, não há mais metafísica que isto, pois não?
Ai, ai. Bom. A pequena vai comer chocolates.

sábado, 19 de março de 2011

Palavra da semana que não compreendo: "bichinho"

Bom, e depois de uma longa ausência por motivos de força maior, e com tanta coisa grave que se passa pelo mundo, o que me traz aqui hoje é esta curiosa expressão - ficar com o "bichinho". Está sempre a ser utilizada nas entrevistas das revistas cor-de-rosa com a desgraçada da semana a gozar dos 15 minutos de fama - "foi nessa altura que ficou com o bichinho da representação, Vânia?", "não, o bichinho sempre cá esteve, mas só nessa altura é que tive oportunidade de o demonstrar".
Este "bichinho" faz-me muita espécie, uma terrível espécie. Quando alguém me diz "e fiquei com o bichinho, percebes?", imagino sempre a pessoa a andar na rua com uma enorme ténia nas entranhas, pronta a sair rabo fora, se preciso for. É esta a dimensão da minha estranheza, e até repulsa, por semelhante expressão. Que coisa tão desagradável. Pior que isto, só se for a expressão "mexe comigo" - "ah, este quadro mexe mesmo comigo", e imagino logo o meu interlocutor a ser abanado e cuspido por uma caterpillar ou lá como se chamam aquelas máquinas das obras. Tenho uma imaginação um bocado problemática, o que é capaz de agravar a sensibilidade que tenho a estas expressões.
E depois, ainda por cima, há "bichinhos" responsáveis por tudo, rrac, rrac, rrac, a corroer as vísceras para a pessoa ficar com o gosto pela representação, o gosto pelo cinema, o gosto pela escrita ("eu andava nas novelas da TVI, agora escrevi um romance e posso dizer que fiquei com o "bichinho" da escrita", por exemplo), a apetência para sei lá o quê. 
Que nojo.Queria só manifestar o meu desagrado profundo, é tudo. Eu, em termos de bichos, só acho mesmo graça ao bicho-de-conta, e fico-me por aqui.

quarta-feira, 2 de março de 2011

Banda da semana que não compreendo: os Coldplay

Devo desde já fazer uma declaração de interesse e dizer que: ponto um, gostei da primeira música que ouvi de Coldplay, Yellow, que pertencia ao primeiro álbum, e gostei até bastante; ponto dois, gostei de uma música que ouvi do segundo álbum, que era o In My Place, e com óbvia falta de discernimento, comprei o segundo CD desta banda. Em absoluta verdade, e chegamos ao ponto três, ouvi este CD duas vezes na vida, o que confirma a minha obtusidade.
A partir daqui, confessados que estão os embaraçosos pecadilhos, estou absolutamente à vontade para tecer e elaborar todas as críticas que eu quiser a esta banda, e são muitas; são muitas porque os Coldplay são a coisa mais entediante que eu alguma vez ouvi. É que são seca, seca, seca, seca, ainda por cima má seca - e o que é que me leva a não compreender esta banda? Não é o facto de serem uma seca, é o facto de conseguirem vender tanto. É que eu esperava que as pessoas tivessem um limite para o tédio que conseguem suportar, mas pelos vistos não, não têm limite nenhum.
Há bandas que se podem designar por "seca". Bandas que aborrecem, dão vontade de bocejar e  amolecer que nem lesma indolente. Eu não quero saber - digo já que, para mim, Dire Straits é essa banda. É que não consigo ouvir um acorde que seja que fico logo prontinha para  adormecer, e não me venham com o Brothers in Arms, ai que linda canção que é!, e o Romeo and Juliet, ai que bonito!, e o I want my MTV ou sei lá, não achas a canção engraçada?, e o Mark Knopfler na guitarra (bem, este homem a solo, então, meu Deus, sem comentários). Esta banda e estas canções são velhas, bem sei, portanto se calhar não contam. Mas vamos a mais exemplos - Norah Jones, outro tédio. Clássicos da guitarra, tipo Joe Satriani ou assim, outra seca. E, evidentemente, há outros exemplos que alguém mais douto do que eu conseguiria enumerar e bandas muito mais recentes e com muito hype à volta que também são um grande tédio, mas são bandas mais ou menos insignificantes. 
Porém, estes exemplos que eu acabei de enumerar têm uma diferença relativamente aos Coldplay, e essa diferença é qualitativa. É que, dentro da categoria de bandas-seca, há a má seca e a boa seca. Eu acho que a Norah Jones é seca, mas consigo compreender perfeitamente que a Norah Jones é melhor do que os Coldplay. É que estes últimos não têm nada que os salve, nada, nada - são feiosos (pelo menos, têm mau gosto para se vestir); não têm talento como músicos; têm a mania que são bonzinhos e queridinhos, o que, não diria "enfurece", mas irrita um bocadinho; não escrevem letras de jeito ("for some reason I can't explain/I know Saint Peter won't call my name" -  ? Tanto mais que alguém que sabe  de antemão que o S. Pedro não o vai chamar, terá com certeza uma ligeira ideiazinha do porquê, mas enfim, isto já é filosofia a mais; em termos de letras, a minha preferida é para aí o "lights will guide you home and ignite your bones". Pausa para rir. Não vale a pena ir mais longe, é só fazer uma busca no google de letras dos Coldplay e, basicamente, preparar uns minutinhos para aquele misto de riso e desprezo que só o que é verdadeiramente medíocre consegue provocar).  Tudo nos Coldplay serve um propósito, que é: irritar numa primeira fase, e entediar numa segunda fase. Prefiro uma banda que me irrite, apenas, porque ao menos distraio-me. 
De modo que, com tanta banda sem talento que há por aí, mas um bocadinho mais animada, não percebo bem porque é que as pessoas escolhem ouvir Coldplay e muito menos pagar bilhete para os ver ao vivo. Às vezes, há bandas que são muito medianazitas em estúdio, mas que depois ao vivo são um estrondo. Duvido que seja o caso de Coldplay, e não faço tenções de ir confirmar com os meus próprios olhos - mais facilmente ia ver isto:

O Yanni na Acrópole deve ter sido, no seu tempo, um espectáculo ao vivo muito composto, e sempre é na Acrópole, além de que, como facilmente se pode constatar, tem um veio trágico-cómico bem aceso, que é coisa que os Coldplay, no seu esforço (louvável, porque não) do politicamente correcto, não apresentam. Quer dizer, um veio trágico até apresentam, por acaso.
Enfim, são uma seca. Mas serviram para eu me entreter a escrever isto, portanto presumo que lhes deva dirigir o meu bem-haja. No entanto, agora não me está a apetecer, fica para a próxima.

terça-feira, 1 de março de 2011

Comment is free, but facts are sacred

Não compreendo muito bem a eficiência da moderação de comentários no Público (e antes que me esqueça, peço desculpa por mais um piroso título em inglês que nem sequer tem muito, muito a ver com o post, mas é o mote do Guardian e, enfim, eu achei que dava um certo élan, um certo nível, à coisa).
Estava a ler esta notícia, sobre o protesto da "geração à rasca" (bolas, a minha geração nunca foi capaz de atrair nomes bonitos, é cada um pior que o outro, só dichotes e enxovalho; alguém devia tomar uma atitude em relação a esta miséria linguística, que, em conjunção com o recibo verde, levanta sérios problemas de auto-estima e confiança), dizia, estava então a ler a notícia, e decidi ler os comentários também, num acto claramente sado-maso, porque a gente já sabe de antemão que, por qualquer razão misteriosa, os comentários do Público, salvo algumas excepções, conseguem ser dejectos tão grandes como os do Correio da Manhã ou coisa parecida. Mas pronto, sem salvação possível, fui ler os comentários. As pérolas que lá aparecem, já sem sequer atentar na cuidada ortografia que apresentam, são sinais da grande inteligência, presciência e argúcia com que este país pode contar: desde meninos mimados que não levantam o c* para ir votar, passando pelo lugar-comum de a tropa e a Guiné é que era, até acabar em elucidações como a culpa é toda dos licenciados porque escolhem cursos sem saída, a culpa é dos licenciados que não procuram como deve ser, eu por exemplo procurei e num mês tive logo duas ofertas, a culpa é dos jovens, mais uma vez mimados, que dão o corpo ao manifesto no facebook, mas quero ver quantos lá aparecem prontos a partir tudo no dia da manifestação em si, preguiçosos, indolentes, isto e aquilo.
Não são só os mais velhos que destilam fel sobre uma geração que, pelos vistos, não respeitam muito por motivos que nada têm a ver com a própria geração (o Ultramar, a falta de possibilidades para estudar quando se calhar até queriam, e de facto deve ser difícil assistir a hordas de pessoas que se vêm queixar depois de terem conseguido efectivamente tirar um curso, coisa que há uns anos atrás era, injustamente, só para alguns); mas, dizia, não são só os mais velhos, ressequidos e ressabiados, que se indignam contra esta geração que apelidam de "meninos mimados" - são, muitas vezes, os membros desta designada "geração à rasca" que se acham, por qualquer razão, moralmente superiores aos que se queixam, como se fosse sinal de fraqueza, torpeza ou cobardia alguém queixar-se de coisas que são notoriamente inaceitáveis. E, contra esta geração, insurgem-se também pessoas notoriamente privilegiadas, sem autoridade para dizer o que quer que seja pelo conforto que sempre detiveram, e que com nada contribuem sem ser com a imensa arrogância dos instalados na vida (vide esta outra pérola). 
E de modo que o problema está precisamente aqui - na pouca inteligência que este debate sobre a geração à rasca tem revelado. Os problemas com que a minha geração se debate não são só problemas geracionais, são problemas infelizmente estruturais, endémicos, permanentes, que afectam não apenas os licenciados, mas todos os jovens e trabalhadores em geral. Fragmentar uma possível discussão e resolução do problema como se se tratasse de uma questão que afecta apenas uma geração é algo absolutamente estúpido, sem outra palavra que o possa descrever. Alguém pode encarar a precariedade dos licenciados, e/ou das pessoas que trabalham, como outra coisa senão como um atraso profundo que demorará anos a ser ultrapassado, se for ultrapassado de todo? De onde é que vai vir o dinheiro das reformas? O dinheiro para o sistema nacional de saúde? O dinheiro para a educação? O dinheiro para, em geral, gerir um país inteiro? De pessoas que fazem descontos de salários de 500 euros por mês ou menos? Vai lá, vai, como dizem, lá está, os jovens rascas. E, uma vez que falamos disto, que tipo de pessoas serão estas? A que tipo de escolas e educação tiveram acesso? Quantas línguas falam e onde as aprenderam? O que sabem, de facto, fazer? O que lhes ensinou a universidade, e que recursos tinha esta universidade? Que tipo de trabalho estão aptas a cumprir, e que tipo de trabalho conseguirão arranjar? Como é que um país que não investe em gente forte, qualificada, inteligente, se vai safar para conseguir ter gente forte, qualificada, inteligente para tomar decisões? A não ser, claro está, que achemos bem que aqueles que vêm de certos ambientes familiares, resguardados e privilegiados, façam a sua vida lá fora ou cá dentro, tanto faz, porque a eles tudo lhes correrá sempre bem, e os outros, os que apenas podem contar com os recursos públicos para fazer pela vida, se afundem no mundo de mediocridade e mediania a que certamente pertencerão, porque não vão conseguir acesso a mais - se a escola lhes passar a ensinar horários de comboio em vez dos Lusíadas, a cabeça não vai dar para mais. E é isto que, cada vez mais, se promove em Portugal, e é contra isto que, evidentemente, algo tem de ser feito - o protesto da Geração à Rasca é  um começo. Não o vejo como um movimento de meninos mimados (é preciso muita lata para chamar a esta gente que se desunha meninos mimados, mas pronto), mas sim como um começo para uma solução que se espera inteligente.
E pronto, isto vinha tudo a propósito da pobreza dos comentários no Público e de como devia haver uma moderação muito mais eficiente. Mais uma vez, destilei-me eu de toda a fel, mas assim como assim, isto é um bloguezinho pessoal, portanto posso vir para aqui escrever o que me apetecer em vez de abreviar tudo num comentário foleiro online. A quem leu até ao fim, o meu sincero obrigado e votos de uma boa continuação.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Different Class

Olha, afinal vou escrever mais qualquer coisa sobre Oscars e filmes, sim.
Sou uma pessoa que vive numa cidade onde se tem pouco contacto com multiplicidade étnica, pelo menos se compararmos com um sítio como Londres, por exemplo. Isso faz de mim alguém que, por mais que tente, é sempre um bocado entupida no que diz respeito a questões de variedade étnica e assim. No entanto, até eu noto certos exageros que irritam um tanto ou quanto, e entre esses exageros contam-se certos filmes que não pecam necessariamente por pouco multiculturalismo - pecam fundamentalmente por uma hegemonia notória ao nível de estilos de vida ou classe social. Não estamos apenas a falar de filmes exclusivamente compostos por actores brancos, destinados provavelmente a um público branco; estamos a falar de filmes compostos por actores não só brancos, como também lourinhos, de olhos claros, anglo-protestantes, os típicos "wasps" de alta burguesia. Consigo lembrar-me de dois exemplos flagrantes - aquela comédia com a Meryl Streep e o Alec Baldwin do ano passado, It's Complicated, em que toda a gente é tão flagrantemente branquinha e endinheirada que nos entra olhos adentro; curiosamente, a única morenaça deste filme, com um ar mais exótico e mais "estrangeiro", é a boazona que roubou o marido à Meryl Streep. Super-giro, este pormenor.
O outro exemplo de que me lembro é o recente The Kids Are All Right, que entretém, mas que também é tão polidinho, tão burguesinho, que é impossível não reparar nisto. Pode ser um filme sobre lésbicas, mas não faz dele um filme especialmente interessante ou original. Talvez a ideia seja mesmo essa - demonstrar como um casal gay pode ser tão desinteressante, convencional e instalado como  qualquer outro casal heterossexual, branco, classe média alta. É o único substracto sociológico que eu estou mais ou menos a identificar, porque de outra forma o filme não tem grande graça. Há alguns pormenores neste filme que são tão indelevelmente marcados pelo factor "classe" que, mais uma vez, somos obrigados a reparar neles - o facto de Julianne Moore , a certa altura, despedir um pobre jardineiro mexicano, velhote e simpático, sem motivo nenhum, e isto ser apresentado como uma coisa normal; a mesma Julianne Moore, a certa altura, usa uma Tshirt que diz "Licée Français Los Angeles". Uma pessoa só se pode rir com isto - no caso de haver dúvidas, o cliché ficou esclarecidíssimo. Mas, como digo, é possível que isto tenha sido tudo feito de propósito, e que o filme seja precisamente uma inteira paródia a um certo estilo de vida que, à partida, é considerado "alternativo", mas que na verdade não é. Não sei, a minha vã filosofia não alcança.
Num artigo muito interessante que se lê aqui, discute-se o facto de, no cinema americano, as questões de classe serem hoje em dia o que antigamente eram as questões de raça. Muito possivelmente, isto faz sentido. Estranhamente, a sensação que às vezes tenho é que podemos progredir muitíssimo ao nível de  liberdade, igualdade, fraternidade para que, como se diz num outro grande filme, tudo fique na mesma. É pena, mas eu devo estar errada, e espero bem que sim.