domingo, 24 de abril de 2011

Poderzinho

Pois é, ao contrário do que possa parecer, isto (refiro-me ao blogue) ainda não acabou. Pode parecer que sim, mas não, que o engenho e arte serão poucos, mas eu escreverei até que a voz me doa, assim tenha tempo para isso. Ultimamente, e pela primeira vez na vida, o meu problema tem sido mesmo a falta de tempo. É impressionante. Nunca acreditava quando as pessoas me diziam, "ah, quero fazer x e y, mas não tenho tempo". Soava-me a desculpa mal amanhada. Agora percebo, porque eu própria me vejo a braços com tempo a menos e não tenho de amanhar nenhum peixe nem nenhuma desculpa.
Pois é. Mas, em tempo de Páscoa, o que me intriga é aquela história do Abraão a quem Deus ordena que mate o filho, apenas para lhe dizer no fim, "mas tu está quieto, então tu achas que eu te mandava fazer isso? Ó pá, francamente". Ah, mas era para testar a fé, dirão alguns. Estranho teste, este, porque facilmente se pode subverter e desvirtuar. Então e se Deus se virasse para Abraão e dissesse "ah, com que então andas a ignorar os fundamentos que eu tento disseminar e estás pronto a matar o teu filho levianamente, por dá cá aquela palha, sem pensar, sem discutir nada. E seu te mandasse atirar de um poço, também atiravas?! Então e o valor da vida, o valor mais importante para o teu Deus, não significa nada para ti? Estou a ver que não. És um mau seguidor, Abraão, mau seguidor, ai, ai, que tau-tau que vais receber". Imaginemos isto. Podia muito bem ter acontecido. 
É que a lógica da autoridade é frágil, se formos a ver bem. É como as estatísticas e as sondagens, tanto dizem uma coisa como facilmente podem querer dizer outra. De modo que a conclusão que eu retiro desta história de Abraão é que o melhor é a gente pensar pela nossa cabeça e desconfiar sempre do que nos mandam fazer, mesmo que seja Deus a mandar. O poder corrompe e todos nós o sabemos. Até Deus. 
Uma feliz Páscoa.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Longe da vista, perto do coração

As pessoas são sempre contra namoros à distância - ah, não resulta. Ah, as pessoas fartam-se, ah, as pessoas arranjam outro, ah, longe da vista, longe do coração.
Eu discordo disto tudo. É evidente que uma relação à distância que implique que as pessoas só se vejam de três em três meses durante anos talvez não resulte. Agora um namoro à distância que permita alguma regularidade só tem vantagens:
- as pessoas não têm tempo para discussões ou, se as têm, esquecem-se delas porque têm muitas saudades
- devido às saudades, cada vez que se vêem aproveitam ao máximo e passam os minutos num enleio apaixonado de lua-de-mel permanente
- quando o outro está longe, só se lembram das qualidades dele ou dela e esquecem-se dos defeitos
- há tempo para fazer tudo o que se tem de fazer sozinho, sem ter de coordenar horários com o outro, coisa que normalmente só dá chatice
- quando estão juntos, tudo sabe ainda a novidade e há tempo para actividades interessantes, ao invés de se deixarem abater pela rotina trabalho - casa - rabo no sofá - trabalho - casa - rabo no sofá.
Em geral, sou a favor de relações à distância porque as pessoas não se habituam muito ao outro e vêem-no sempre como "especial". No dia em que tiverem de conviver com ele/ela todos os dias, a magia desfaz-se necessariamente e as pessoas são cilindradas pela rotinazinha que são obrigadas a viver, começam a engordar, a ver muita televisão, a ir para o trabalho tipo zombies e a voltar ainda pior, e de repente o Corto Maltese já não é o Corto Maltese, é apenas um tipo qualquer gordo e mal vestido que está sempre cansado, deixou de ter tempo para ler o que quer que seja, nunca quer fazer nada e só sai de casa se for para ir à Worten olhar para televisores novos. Subitamente, a linha que separa o amor do hábito esbate-se e a pessoa já não consegue distinguir um do outro. Talvez porque o primeiro tenha sucumbido, dando lugar apenas ao hábito - não sei. 
Acredito que o amor seja como o direito consuetudinário, que está lá embora não precise de estar escrito, mas também acredito que o "costume" vença todos os obstáculos, inclusive o amor, sendo por isso capaz de sujeitar tudo o resto à rotina que impõe. Por isso é que é importante que o Corto Maltese permaneça o Corto Maltese - volta a casa, vai-se embora, volta a casa. Não há tempo para costumes ou hábitos. E longe da vista, sempre perto do coração.
Também podia dar aqui o exemplo do Woody Allen e da Mia Farrow, que viveram sempre em casas separadas, mantendo a sua vida independente e estando juntos ao mesmo tempo. Mas, por qualquer razão estranha, sinto que isto não será um bom exemplo. É só uma sensação que tenho.

A idade que se tem

A minha avó diz: "não adianta não parecer a idade que se tem, porque os anos estão lá à mesma". 
Acho que a minha avó tem toda a razão. Quando eu era mais nova, julgava que este dito se aplicava só às aparências, e desgostava-me parecer menos idade do que realmente tinha. Hoje em dia, isto parece-me excelente ideia e fico sempre contente quando me tiram três ou quatro anos à idade que realmente tenho. Tenho pena que ninguém se lembre de me dar menos dez anos, mas enfim, não se pode ter tudo.
Curiosamente, o que a minha avó diz também se aplica ao comportamento das pessoas em geral, àquilo que escrevem e à forma como decidem conduzir a sua vida. Não adianta, efectivamente, querermos agir como se tivéssemos menos idade, porque não temos e acabamos por fazer figuras tristes. Detesto quando as pessoas dizem "tenho 35 anos, mas sinto-me como se tivesse 25!". Isto configura um caso de grande tristeza. A ideia é viver e aprender. Qual é a vantagem de ficarmos encravados 10 anos atrás? Nenhuma.
Uma vez disseram-me que, quando me conheciam apenas pelo blogue, pensavam que eu era, ipsis verbis, "uma pitazeca". Isto assustou-me um tanto ou quanto, não pelo sufixo "-eca", já de si enxovalho, mas fundamentalmente por me terem dado muito menos idade do que aquela que tenho apenas por lerem o que escrevo. Não que eu tenha pretensões de escrever coisas de grande maturidade e grandeza, mas também não me agrada saber que o que escrevo poderia provir de uma qualquer miúda com idade para ser designada por "pitazeca". Embora isto não interesse verdadeiramente, porque as pessoas pensam o que quiserem, e se umas pensam o melhor, outras pensarão sempre o pior. É a tal história dos Gregos e dos Troianos, se a gente agrada a um, não agrada a outro. Para compensar, também me disseram uma vez que, através do blogue, se notava que eu era "pessoa de uma certa idade". Respeitável.
E era mais ou menos isto que eu tinha a dizer. Depois de tanto tempo sem posts, a sensação que fica é que a montanha pariu um rato, como se costuma dizer. É a idade, que me tira o viço de antigamente. Há que viver com isso.
E vou tentar fazer posts mais curtos.

sábado, 26 de março de 2011

Quanto piores as coisas são, mais vontade tenho de escrever sobre assuntos absolutamente irrelevantes. A realidade é demais para mim. Pior para ela (a realidade), como dizia o Hegel.
Os posts que se seguem ficam, assim, justificados. Obrigada pela atenção.

quinta-feira, 24 de março de 2011

Eu sou linda, não importa o que eles dizem, as palavras não me deitam abaixo, eu sou linda sob todos os aspectos, ai sou, sou, portanto não me deitem abaixo hoje, ó faxavôr

Há uns tempos, uma amiga daquelas antigas, do peito, ofereceu-me uma fotografia tirada há sei lá eu quanto tempo, há pelo menos 15 anos, tendo a mesma fotografia a ternurenta e comovente peculiaridade de contar comigo e com as minhas amigas da altura (que continuam minhas amigas hoje em dia, felizmente) nos tempos da escola. 
Gostaria de chamar a vossa estimada atenção para esta expressão, que encerra mais perversidade do que se possa pensar: "nos tempos da escola". É que eu não percebo bem, bem as saudades que possamos eventualmente sentir por tal época. Para dar um exemplo, esta fotografia que me foi oferecida é uma delícia, sim, foi um querido regresso ao passado, chorei de riso e comoção ao vê-la, mas, e como dizia o outro, há que dizê-lo com honestidade, a fotografia tem umas quantas raparigas que não são assim, como direi, muito, muito bonitas. Também não são feias, mas enfim, ainda tinham muito a aprender "no que concerne" ao visual. "Nos tempos da escola", eu (e vou falar apenas por mim, que as minhas amigas não estão aqui para se defenderem) era uma pessoa com um cabelo mediano e sempre igual todos os dias, umas roupas que não lembram ao Diabo (talvez naquela altura lembrassem a algum mafarrico, mas ao Lúcifer em si não lembravam de certeza, nem hoje nem naquela altura) e em geral eu era assim, digamos que, não muito gira. Alguém mal intencionado poderá sempre argumentar "até parece que agora és gira, ah, ah!", ao que eu respondo, "pelo menos sou mais gira". Pois é.
E este episódio passou-se comigo, mas eu não sou caso único. Em geral, quando as pessoas me mostram fotos de quando eram mais novas, penso sempre que estão bem melhor com alguns anos em cima. Não sei, talvez seja porque a minha geração, quando adolescente, não tinha a sabedoria quase maléfica da malta nova de hoje em dia, que domina maquilhagens e saltos altos como se viessem direitinhas do Sexo e a Cidade ou coisa parecida. Não, a minha geração era singela e simples, contentava-se com umas calças de ganga justas e os imbatíveis Converse All Star. Isto bastava para nos fazer felizes, assim como calças com estampados de flores berrantes (eu tinha umas, elásticas e tudo, e adorava), cortes de cabelo à cogumelo, poupas com gel (esta última moda juro que nunca usei e sempre achei pirosa, valha-me isso), má música (estávamos convencidos de que ouvir Neil Diamond era, sei lá, "vintage". Apesar de eu até gostar de algumas coisas do Neil Diamond, olha aquela canção que a Tracy Chapman até gravou, tão bonita, "sorry is all that you can't say, la, la, la...").
Isto tudo para dizer que a maior parte das pessoas que conheço que nasceram no mesmo ano do que eu  são exactamente aquelee lugar-comum do vinho, já que melhoraram bastante com a idade. Aprenderam a ir ao cabeleireiro e a passar algum tempo em actividades estéticas que, ainda que deixem o interior exactamente na mesma, melhoram o exterior e são pelo menos um começo. E, em geral, vejo que têm um ar mais interessante, que eu acho que vem com a idade, e que na juventude não se tem. Mas isso talvez seja eu, que tenho mais a tendência para o velho e vejo a juventude como uma coisa muito, mas mesmo muito, passageira. Somos velhos a maior parte da vida, se pensarmos bem, e portanto é a velhice que temos de aproveitar.
E portanto a velha fotografia que me foi oferecida mostra-me a mim num outro tempo, bem enterrado no passado. E porém, não consigo deixar de contemplar esta foto por longos minutos sem sentir sempre estranhas saudades. Saudades do cabelo, das calças de ganga, dos ténis, da T-shirt enfiada nas calças (!). Saudades "dos tempos da escola", enfim, quando ir ao cabeleireiro era uma vez por ano e não tinha interesse nem importância nenhuma. Havia coisas mais importantes para fazer e para pensar.
Mas isto passa depressa, porque afinal, gosto mais dos sapatos que tenho agora.
Já tentei ler os Irmãos Karamazov em russo mas só conseguia contar o número de ocorrências da palavra Карамазовы (102). E esta é do João Tordo, um autor que a nível estilístico tem tantos recursos como o John Galliano na prisão.

Este Tolan, como se diz em estrangeiro, gotta love him. No primeiro dia de país desgovernado, ao menos isto faz rir muito. 

Hecatombe

Estou a tentar adaptar-me à ideia de viver num país sem governo nem Governo.

terça-feira, 22 de março de 2011

Da filosofia barata que pode existir no acto de levantar cedo

Como dizia o Kafka, levantar cedo é a coisa mais degradante que existe - levantar cedo deixa a pessoa estúpida, como constata o sr Samsa ao acordar transformado em barata (conclusão espectacular). A pessoa a querer enterrar a cabeça na almofada fofinha, nos lençóis quentinhos, e a porcaria do despertador a tocar, a tocar, a tocar, a lembrar que há um mundo lá fora.
O que mais custa quando a gente se levanta cedo é precisamente isto - a constatação de que o mundo continua, com todas as suas obrigações e tarefas e fretes, independentemente do nosso sono descansado. E depois esta exigência permanente todas as manhãs é uma coisa irritante - levanta-te, vai produzir, vai trabalhar, vai fazer coisas. E se não houver coisas para fazer? Vamos imaginar isto, vamos imaginar que nos levantamos e pura e simplesmente não temos nada para fazer. É assim tão terrível? Qual é o problema? Mas não, não pode ser, o mundo não deixa que não se tenha nada para fazer, porque lança um tal estigma sobre o chamado "ócio" que toda a gente se sente mal se não estiver a fazer alguma coisa. Nem que seja limpar a casa.
No entanto, a verdade é que, dia após dia, raramente se faz alguma coisa de jeito. Temos a mania de que, se cumprirmos a rotina, levantar, ir trabalhar, almoçar, voltar a casa, deitar, etc., dizia, se cumprirmos isto, temos uma vida a sério e somos "úteis". Não estou a ver como. Úteis a quem, para quem? A não ser que trabalhemos numa missão humanitária, passamos a vida a fazer coisas que não interessam a ninguém na ilusão conveniente de que, desta forma, "produzimos". Pois, mas não. 
E portanto eu não penso que se deva reconhecer autoridade ao mundo para nos arrancar da cama todos os dias de manhã. Ainda se fosse para alguma emergência, um caso de vida ou morte, tudo bem. Mas raramente é esse o caso. E, no entanto, voltamos ao mesmo todos os dias, como a minha vizinha, que às oito da manhã já está a percorrer a casa toda, toc, toc, toc, os saltos altos a martelarem o chão, a afinar a garganta para berrar com os filhos, tão alto que eu já sei que ela tem pelo menos um Daniel e um André, depois põe a máquina da roupa a centrifugar, faz uma barulheira, sai de casa, para voltar ao fim do dia e repetir a azáfama toda. O marido de vez em quando também berra, e parece-me que só são felizes quando o Benfica ganha. Aí, gritam, mas pelo menos é de felicidade (digo eu). 
E sim, são todos muito úteis, somos todos muito úteis, fazemos todos coisas importantíssimas. O Kafka tinha razão, assim como Mário de Sá Carneiro, que volto a citar - "Noite sempre plo meu quarto. As cortinas corridas,e eu aninhado a dormir, bem quentinho - que amor...". Como dizia outro grande poeta, não há mais metafísica que isto, pois não?
Ai, ai. Bom. A pequena vai comer chocolates.

sábado, 19 de março de 2011

Palavra da semana que não compreendo: "bichinho"

Bom, e depois de uma longa ausência por motivos de força maior, e com tanta coisa grave que se passa pelo mundo, o que me traz aqui hoje é esta curiosa expressão - ficar com o "bichinho". Está sempre a ser utilizada nas entrevistas das revistas cor-de-rosa com a desgraçada da semana a gozar dos 15 minutos de fama - "foi nessa altura que ficou com o bichinho da representação, Vânia?", "não, o bichinho sempre cá esteve, mas só nessa altura é que tive oportunidade de o demonstrar".
Este "bichinho" faz-me muita espécie, uma terrível espécie. Quando alguém me diz "e fiquei com o bichinho, percebes?", imagino sempre a pessoa a andar na rua com uma enorme ténia nas entranhas, pronta a sair rabo fora, se preciso for. É esta a dimensão da minha estranheza, e até repulsa, por semelhante expressão. Que coisa tão desagradável. Pior que isto, só se for a expressão "mexe comigo" - "ah, este quadro mexe mesmo comigo", e imagino logo o meu interlocutor a ser abanado e cuspido por uma caterpillar ou lá como se chamam aquelas máquinas das obras. Tenho uma imaginação um bocado problemática, o que é capaz de agravar a sensibilidade que tenho a estas expressões.
E depois, ainda por cima, há "bichinhos" responsáveis por tudo, rrac, rrac, rrac, a corroer as vísceras para a pessoa ficar com o gosto pela representação, o gosto pelo cinema, o gosto pela escrita ("eu andava nas novelas da TVI, agora escrevi um romance e posso dizer que fiquei com o "bichinho" da escrita", por exemplo), a apetência para sei lá o quê. 
Que nojo.Queria só manifestar o meu desagrado profundo, é tudo. Eu, em termos de bichos, só acho mesmo graça ao bicho-de-conta, e fico-me por aqui.

quarta-feira, 2 de março de 2011

Banda da semana que não compreendo: os Coldplay

Devo desde já fazer uma declaração de interesse e dizer que: ponto um, gostei da primeira música que ouvi de Coldplay, Yellow, que pertencia ao primeiro álbum, e gostei até bastante; ponto dois, gostei de uma música que ouvi do segundo álbum, que era o In My Place, e com óbvia falta de discernimento, comprei o segundo CD desta banda. Em absoluta verdade, e chegamos ao ponto três, ouvi este CD duas vezes na vida, o que confirma a minha obtusidade.
A partir daqui, confessados que estão os embaraçosos pecadilhos, estou absolutamente à vontade para tecer e elaborar todas as críticas que eu quiser a esta banda, e são muitas; são muitas porque os Coldplay são a coisa mais entediante que eu alguma vez ouvi. É que são seca, seca, seca, seca, ainda por cima má seca - e o que é que me leva a não compreender esta banda? Não é o facto de serem uma seca, é o facto de conseguirem vender tanto. É que eu esperava que as pessoas tivessem um limite para o tédio que conseguem suportar, mas pelos vistos não, não têm limite nenhum.
Há bandas que se podem designar por "seca". Bandas que aborrecem, dão vontade de bocejar e  amolecer que nem lesma indolente. Eu não quero saber - digo já que, para mim, Dire Straits é essa banda. É que não consigo ouvir um acorde que seja que fico logo prontinha para  adormecer, e não me venham com o Brothers in Arms, ai que linda canção que é!, e o Romeo and Juliet, ai que bonito!, e o I want my MTV ou sei lá, não achas a canção engraçada?, e o Mark Knopfler na guitarra (bem, este homem a solo, então, meu Deus, sem comentários). Esta banda e estas canções são velhas, bem sei, portanto se calhar não contam. Mas vamos a mais exemplos - Norah Jones, outro tédio. Clássicos da guitarra, tipo Joe Satriani ou assim, outra seca. E, evidentemente, há outros exemplos que alguém mais douto do que eu conseguiria enumerar e bandas muito mais recentes e com muito hype à volta que também são um grande tédio, mas são bandas mais ou menos insignificantes. 
Porém, estes exemplos que eu acabei de enumerar têm uma diferença relativamente aos Coldplay, e essa diferença é qualitativa. É que, dentro da categoria de bandas-seca, há a má seca e a boa seca. Eu acho que a Norah Jones é seca, mas consigo compreender perfeitamente que a Norah Jones é melhor do que os Coldplay. É que estes últimos não têm nada que os salve, nada, nada - são feiosos (pelo menos, têm mau gosto para se vestir); não têm talento como músicos; têm a mania que são bonzinhos e queridinhos, o que, não diria "enfurece", mas irrita um bocadinho; não escrevem letras de jeito ("for some reason I can't explain/I know Saint Peter won't call my name" -  ? Tanto mais que alguém que sabe  de antemão que o S. Pedro não o vai chamar, terá com certeza uma ligeira ideiazinha do porquê, mas enfim, isto já é filosofia a mais; em termos de letras, a minha preferida é para aí o "lights will guide you home and ignite your bones". Pausa para rir. Não vale a pena ir mais longe, é só fazer uma busca no google de letras dos Coldplay e, basicamente, preparar uns minutinhos para aquele misto de riso e desprezo que só o que é verdadeiramente medíocre consegue provocar).  Tudo nos Coldplay serve um propósito, que é: irritar numa primeira fase, e entediar numa segunda fase. Prefiro uma banda que me irrite, apenas, porque ao menos distraio-me. 
De modo que, com tanta banda sem talento que há por aí, mas um bocadinho mais animada, não percebo bem porque é que as pessoas escolhem ouvir Coldplay e muito menos pagar bilhete para os ver ao vivo. Às vezes, há bandas que são muito medianazitas em estúdio, mas que depois ao vivo são um estrondo. Duvido que seja o caso de Coldplay, e não faço tenções de ir confirmar com os meus próprios olhos - mais facilmente ia ver isto:

O Yanni na Acrópole deve ter sido, no seu tempo, um espectáculo ao vivo muito composto, e sempre é na Acrópole, além de que, como facilmente se pode constatar, tem um veio trágico-cómico bem aceso, que é coisa que os Coldplay, no seu esforço (louvável, porque não) do politicamente correcto, não apresentam. Quer dizer, um veio trágico até apresentam, por acaso.
Enfim, são uma seca. Mas serviram para eu me entreter a escrever isto, portanto presumo que lhes deva dirigir o meu bem-haja. No entanto, agora não me está a apetecer, fica para a próxima.

terça-feira, 1 de março de 2011

Comment is free, but facts are sacred

Não compreendo muito bem a eficiência da moderação de comentários no Público (e antes que me esqueça, peço desculpa por mais um piroso título em inglês que nem sequer tem muito, muito a ver com o post, mas é o mote do Guardian e, enfim, eu achei que dava um certo élan, um certo nível, à coisa).
Estava a ler esta notícia, sobre o protesto da "geração à rasca" (bolas, a minha geração nunca foi capaz de atrair nomes bonitos, é cada um pior que o outro, só dichotes e enxovalho; alguém devia tomar uma atitude em relação a esta miséria linguística, que, em conjunção com o recibo verde, levanta sérios problemas de auto-estima e confiança), dizia, estava então a ler a notícia, e decidi ler os comentários também, num acto claramente sado-maso, porque a gente já sabe de antemão que, por qualquer razão misteriosa, os comentários do Público, salvo algumas excepções, conseguem ser dejectos tão grandes como os do Correio da Manhã ou coisa parecida. Mas pronto, sem salvação possível, fui ler os comentários. As pérolas que lá aparecem, já sem sequer atentar na cuidada ortografia que apresentam, são sinais da grande inteligência, presciência e argúcia com que este país pode contar: desde meninos mimados que não levantam o c* para ir votar, passando pelo lugar-comum de a tropa e a Guiné é que era, até acabar em elucidações como a culpa é toda dos licenciados porque escolhem cursos sem saída, a culpa é dos licenciados que não procuram como deve ser, eu por exemplo procurei e num mês tive logo duas ofertas, a culpa é dos jovens, mais uma vez mimados, que dão o corpo ao manifesto no facebook, mas quero ver quantos lá aparecem prontos a partir tudo no dia da manifestação em si, preguiçosos, indolentes, isto e aquilo.
Não são só os mais velhos que destilam fel sobre uma geração que, pelos vistos, não respeitam muito por motivos que nada têm a ver com a própria geração (o Ultramar, a falta de possibilidades para estudar quando se calhar até queriam, e de facto deve ser difícil assistir a hordas de pessoas que se vêm queixar depois de terem conseguido efectivamente tirar um curso, coisa que há uns anos atrás era, injustamente, só para alguns); mas, dizia, não são só os mais velhos, ressequidos e ressabiados, que se indignam contra esta geração que apelidam de "meninos mimados" - são, muitas vezes, os membros desta designada "geração à rasca" que se acham, por qualquer razão, moralmente superiores aos que se queixam, como se fosse sinal de fraqueza, torpeza ou cobardia alguém queixar-se de coisas que são notoriamente inaceitáveis. E, contra esta geração, insurgem-se também pessoas notoriamente privilegiadas, sem autoridade para dizer o que quer que seja pelo conforto que sempre detiveram, e que com nada contribuem sem ser com a imensa arrogância dos instalados na vida (vide esta outra pérola). 
E de modo que o problema está precisamente aqui - na pouca inteligência que este debate sobre a geração à rasca tem revelado. Os problemas com que a minha geração se debate não são só problemas geracionais, são problemas infelizmente estruturais, endémicos, permanentes, que afectam não apenas os licenciados, mas todos os jovens e trabalhadores em geral. Fragmentar uma possível discussão e resolução do problema como se se tratasse de uma questão que afecta apenas uma geração é algo absolutamente estúpido, sem outra palavra que o possa descrever. Alguém pode encarar a precariedade dos licenciados, e/ou das pessoas que trabalham, como outra coisa senão como um atraso profundo que demorará anos a ser ultrapassado, se for ultrapassado de todo? De onde é que vai vir o dinheiro das reformas? O dinheiro para o sistema nacional de saúde? O dinheiro para a educação? O dinheiro para, em geral, gerir um país inteiro? De pessoas que fazem descontos de salários de 500 euros por mês ou menos? Vai lá, vai, como dizem, lá está, os jovens rascas. E, uma vez que falamos disto, que tipo de pessoas serão estas? A que tipo de escolas e educação tiveram acesso? Quantas línguas falam e onde as aprenderam? O que sabem, de facto, fazer? O que lhes ensinou a universidade, e que recursos tinha esta universidade? Que tipo de trabalho estão aptas a cumprir, e que tipo de trabalho conseguirão arranjar? Como é que um país que não investe em gente forte, qualificada, inteligente, se vai safar para conseguir ter gente forte, qualificada, inteligente para tomar decisões? A não ser, claro está, que achemos bem que aqueles que vêm de certos ambientes familiares, resguardados e privilegiados, façam a sua vida lá fora ou cá dentro, tanto faz, porque a eles tudo lhes correrá sempre bem, e os outros, os que apenas podem contar com os recursos públicos para fazer pela vida, se afundem no mundo de mediocridade e mediania a que certamente pertencerão, porque não vão conseguir acesso a mais - se a escola lhes passar a ensinar horários de comboio em vez dos Lusíadas, a cabeça não vai dar para mais. E é isto que, cada vez mais, se promove em Portugal, e é contra isto que, evidentemente, algo tem de ser feito - o protesto da Geração à Rasca é  um começo. Não o vejo como um movimento de meninos mimados (é preciso muita lata para chamar a esta gente que se desunha meninos mimados, mas pronto), mas sim como um começo para uma solução que se espera inteligente.
E pronto, isto vinha tudo a propósito da pobreza dos comentários no Público e de como devia haver uma moderação muito mais eficiente. Mais uma vez, destilei-me eu de toda a fel, mas assim como assim, isto é um bloguezinho pessoal, portanto posso vir para aqui escrever o que me apetecer em vez de abreviar tudo num comentário foleiro online. A quem leu até ao fim, o meu sincero obrigado e votos de uma boa continuação.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Different Class

Olha, afinal vou escrever mais qualquer coisa sobre Oscars e filmes, sim.
Sou uma pessoa que vive numa cidade onde se tem pouco contacto com multiplicidade étnica, pelo menos se compararmos com um sítio como Londres, por exemplo. Isso faz de mim alguém que, por mais que tente, é sempre um bocado entupida no que diz respeito a questões de variedade étnica e assim. No entanto, até eu noto certos exageros que irritam um tanto ou quanto, e entre esses exageros contam-se certos filmes que não pecam necessariamente por pouco multiculturalismo - pecam fundamentalmente por uma hegemonia notória ao nível de estilos de vida ou classe social. Não estamos apenas a falar de filmes exclusivamente compostos por actores brancos, destinados provavelmente a um público branco; estamos a falar de filmes compostos por actores não só brancos, como também lourinhos, de olhos claros, anglo-protestantes, os típicos "wasps" de alta burguesia. Consigo lembrar-me de dois exemplos flagrantes - aquela comédia com a Meryl Streep e o Alec Baldwin do ano passado, It's Complicated, em que toda a gente é tão flagrantemente branquinha e endinheirada que nos entra olhos adentro; curiosamente, a única morenaça deste filme, com um ar mais exótico e mais "estrangeiro", é a boazona que roubou o marido à Meryl Streep. Super-giro, este pormenor.
O outro exemplo de que me lembro é o recente The Kids Are All Right, que entretém, mas que também é tão polidinho, tão burguesinho, que é impossível não reparar nisto. Pode ser um filme sobre lésbicas, mas não faz dele um filme especialmente interessante ou original. Talvez a ideia seja mesmo essa - demonstrar como um casal gay pode ser tão desinteressante, convencional e instalado como  qualquer outro casal heterossexual, branco, classe média alta. É o único substracto sociológico que eu estou mais ou menos a identificar, porque de outra forma o filme não tem grande graça. Há alguns pormenores neste filme que são tão indelevelmente marcados pelo factor "classe" que, mais uma vez, somos obrigados a reparar neles - o facto de Julianne Moore , a certa altura, despedir um pobre jardineiro mexicano, velhote e simpático, sem motivo nenhum, e isto ser apresentado como uma coisa normal; a mesma Julianne Moore, a certa altura, usa uma Tshirt que diz "Licée Français Los Angeles". Uma pessoa só se pode rir com isto - no caso de haver dúvidas, o cliché ficou esclarecidíssimo. Mas, como digo, é possível que isto tenha sido tudo feito de propósito, e que o filme seja precisamente uma inteira paródia a um certo estilo de vida que, à partida, é considerado "alternativo", mas que na verdade não é. Não sei, a minha vã filosofia não alcança.
Num artigo muito interessante que se lê aqui, discute-se o facto de, no cinema americano, as questões de classe serem hoje em dia o que antigamente eram as questões de raça. Muito possivelmente, isto faz sentido. Estranhamente, a sensação que às vezes tenho é que podemos progredir muitíssimo ao nível de  liberdade, igualdade, fraternidade para que, como se diz num outro grande filme, tudo fique na mesma. É pena, mas eu devo estar errada, e espero bem que sim.

O que não tenho a dizer sobre os Oscars

Não vou falar sobre os Oscars porque não tenho paciência para comentar os filmes nomeados, quase todos uma seca.
Queria que os Coen ganhassem tudo e não ganharam nada. Eu, se fosse a eles, nunca mais punha lá os pés, como o Woody Allen, que tem mais que fazer.
Houve nomeações que não percebi de forma nenhuma, como por exemplo nomear o que quer que se relacionasse com um filmeco estilo "The Kids are All Right" ou o Inception por qualquer outra coisa que não se relacionasse com prémios técnicos. Também não percebo bem como é que a cinematografia de um filme com tanto efeito especial pode bem, bem ser avaliada e acabar por ganhar Oscar (refiro-me novamente a Inception).
Não vi o King's Speech; acredito que seja bonzinho. 
Não tenho nada a dizer dos vestidos e da moda, quase tudo feio. 
E enfim, em geral foi uma desilusãozita, uma coisa fraquinha, tal como no ano passado, mas desta vez foi pior porque o James Franco pode ser muito giro e muito bom actor, e eu até acho que é, mas não lhe custava nada ter feito uma forcinha e ter tirado o ar de enjoado que fez enquanto apresentou a cerimónia. Até tive pena da outra, a gritar e a destilar sorrisos por todo lado, para tentar compensar a tromba anódina do James. 
Que seca.
E pronto, isto é o que eu não tenho a dizer sobre os Oscars, porque o que tenho a dizer não é nada.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

15 minutos de arte na parede

Pronto, já vi o filme do Banksy, Exit Through the Gift Shop. É giro, mas não aquilo de que eu estava à espera: ao invés de um comentário mais ou menos profundo sobre arte de rua, é um comentário mais ou menos profundo sobre a arte como um negócio. O homenzinho que teve a ideia de fazer o filme é um indivíduo francês, emigrado nos EUA, que se começou a interessar pelo grafitti, sem no entanto ter conseguido a inteligência suficiente para editar o material que recolhia e transformá-lo num verdadeiro documentário - isso só aconteceu porque Banksy decidiu intervir. No entanto, o que o tal homenzinho francês (cujo nome artístico é Mr Brainwash) conseguiu fazer foi produzir uma série de peças "de arte", assim muito pop culture e influenciadas pela arte de rua e tal, organizar uma enorme exposição e, porque conhecia o Banksy e foi ganhando alguma notoriedade à custa disso, atrair a atenção dos media. Resultado: no dia em que abriu a exposição, o tal Mr Brainwash tinha umas 2000 pessoas a fazer fila à porta, não pela qualidade da arte que se exibia, mas sim porque os jornais e a TV o tinham entrevistado e criado uma espécie de "hype" à volta de um homenzinho que era amigo do Banksy.
O que é quase triste é constatar os comentários das pessoas que foram ver a tal exposição - ah, que interessante, ah, que giro, ah, eu só cá vim porque vi no LA Times e estou a adorar, acho que este artista tem algo a dizer sobre a cultura dos nossos dias, e etc. e tal. É dolorosamente óbvio que a última coisa que o homenzinho francês tem a dizer é "algo sobre a cultura dos nossos dias", aliás, é dolorosamente óbvio que ele tem muito pouco a dizer sobre o que quer que seja - é um tipo pouco esperto, que gosta de filmar umas coisas, é tudo.
De modo que a conclusão que eu retirei deste interessante documentário é que é muito fácil enganar o povo - umas notícias no jornal, umas reportagens acertadas no programa de TV alternativo e da moda, ou no blogue certo, e qualquer zé-ninguém se põe a vender "arte" como se não houvesse amanhã. De facto, o Andy Warhol tinha toda a razão - como qualquer outro negócio, o que a arte precisa é da promoção certa e da cultura da celebridade. E se é ou não arte, não interessa assim tanto. Como qualquer outra coisa, é "vendável", como se diz agora. 
E, na verdade, esta questão não é nova, como o velho exemplo de Camilo Castelo Branco demonstra - porque tinha de ganhar dinheiro, escrevia noveletas. Isto diminui a grandeza de Camilo? Será que o Amor de Perdição ou o Calisto Elói são menos arte porque o seu autor teve de passar algum tempo a comprometer o seu talento para ganhar dinheiro? Não me parece. Toda a gente tem renda para pagar e é mesmo assim. Convém é que, em algum momento, o artista que é o verdadeiro artista consiga fazer alguma coisa de jeito, fora dos limites do dinheiro e do tempo, como o Serafim Saudade, por exemplo. Isso é só para alguns, mas vai acontecendo. Felizmente para todos nós.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Acabo de assistir a um magnífico exemplo de excelsa opinião por parte de dois comentadores na SicNotícias, Maria de Belém de um lado, e um indivíduo do PSD que agora não me lembro do nome, mas é que não me lembro mesmo; o que interessa é que este indivíduo, que comenta as escutas do Face Oculta, diz que "estranha esta ânsia de matar uma Inês que não está em Alcobaça, está viva, porque as escutas existem e continuam a existir" , ao que Maria Belém replica "mas olhe que a Inês quando morreu não estava em Alcobaça, estava na Quinta das Lágrimas", respondendo logo o outro, "mas foi para Alcobaça depois, como sabe", "jazente", retorte a outra, "jacente, sim", diz-lhe ele, e ficam ali a discutir a problemática da jazente e/ou jacente Inês de Castro em Alcobaça e/ou Coimbra. O do PSD remata que gosta "de os ver os dois juntos em Alcobaça". 
A Inês, diz que é as escutas. D. Pedro não sei o que é. Alcobaça e a Quinta das Lágrimas também não, mas começo a calcular.
Que comédia de enganos tão gira. Gosto muito de ver televisão e as notícias, é sempre tão divertido.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Nada temos a declarar senão o nosso génio

O ser humano é uma máquina de linguagem impecável. Passamos a nossa vida toda a fazer uma coisa sofisticadíssima, complicadíssima e extraordinária e nem sequer nos apercebemos disso - produzimos frases novas, originais, coerentes, a cada segundo, e dizêmo-las ou pensamo-las (que forma verbal esquisita) automaticamente, sem esforço, como se fosse parte integral de nós. E é mesmo. A partir do momento em que adquirimos uma língua, ou várias línguas (nas quais se incluem as línguas gestuais, obviamente), o nosso cérebro programa-se para um conjunto de sons, regras morfológicas, lexicais e sintácticas e combina todas estas regras complicadas, dificílimas, como se fosse a coisa mais fácil do mundo, e é isso que nos permite falar uma língua. É um processo complexo, sofisticado (quem estuda sintaxe, e quem como eu foi obrigada a estudar sintaxe e a levar com o Chomsky sem nunca perceber bem daquilo, tem uma perfeita ideia da imensa complexidade que esta faculdade mental da linguagem, que esta máquina de formar frases, representa:



 Isto é uma descrição (uma suposição teórica, vá) sobre o que se passa na nossa cabecinha de cada vez que nos dá para produzir uma frase com aquelas coisas que a gente designa por sujeito e predicado e assim. A coisa vai muito mais longe do que isso, como ilustra este excerto mínimo do Programa Minimalista do Chomsky. Ah, pois, o pessoal de línguas é muito burro e vai para Letras para fugir à Matemática. Seja). E, dizia eu, sem me aventurar por descrições científicas que não consigo explicar nem sequer compreender devidamente, que a sintaxe é só para o pessoal esperto e não para mim, este tal processo de produção linguística é mesmo tecnologia de ponta, chamemos-lhe assim, e no entanto todos nós passamos por ele a cada minuto das nossas vidas, sem percebermos que somos todos uns génios absolutos. É que somos mesmo.
No vídeo abaixo, explica-se como os bebés, desde tenra idade, começam imediatamente a identificar os sons da língua a que têm acesso, passando a, estatisticamente, distinguir os sons da língua que será a sua de sons de outras línguas, que passarão a ser indecifráveis à medida que forem crescendo. Numa fase inicial, no chamado "período crítico", os bebés ainda se encontram a fazer a selecção dos sons que irão reconhecer como seus - assim, como se diz no vídeo, nascemos todos como "cidadãos do mundo" e acabamos como produto da nossa cultura, isto é, como falantes apenas  da língua, ou das línguas, que a nossa cultura nos dita. A capacidade inata e livre de aprender qualquer língua do mundo, e que detemos enquanto bebés, é necessariamente perdida quando crescemos e acabamos por limitar a nossa capacidade mental e física apenas às línguas que efectivamente aprendemos. É mesmo assim, a sociedade domina-nos e não dá para aprender as línguas todas do mundo, por mais desejável que isso seja. O nosso cérebro é um génio, mas com calma.
No entanto, devo dizer que neste momento, em que estou a pensar nisto, sinto-me como o Descartes no século XVII, no esplendor do Racionalismo, deslumbrado pela máquina perfeita, complexa, que é o Homem. E um dos melhores exemplos disto é o facto de falarmos uma língua - uma coisa tão complicada e que, no entanto, tornamos tão simples todos os dias. De modo que há que aproveitar a liberdade de poder falar uma língua, e de aprender várias línguas. Alarga-nos o mundo. Dá-nos pensamento.
Eh pá. De facto, "no que concerne" à problemática da língua, fico sempre fascinada, não há volta a dar.

"Isso dos nazis, eu não tenho nada contra..."

A estação dos Correios onde eu costumo ir é muito pequena e só tem duas pessoas a atender. É patusca e nunca me desilude - é fonte constante de entretenimento. Por detrás do balcão estao um rapaz novo e uma senhora aí de uns 50 anos, que se tratam por tu e inventam conversas para afugentar o tédio. Estão tão habituados a falar um com o outro que até se esquecem dos clientes que ali estão a ouvir tudo o que eles dizem, de modo que é possível chegar lá e, por exemplo, ouvir a senhora de 50 anos a tentar ser espirituosa e fazer jogos de palavras com o número "três", que é um número que ela ainda detém e bem, ao que o rapaz lhe responde "olha, só se for nos ouvidos", e há que dizer que este pequeno diálogo dá logo muita vontade de rir, assim revisteiro.
Bom. No outro dia, tive de ir outra vez à pequena estação de Correios e lá estava o rapaz de um lado, a senhora do outro, embrenhados em conversa e mal olhando para mim, mas eu também estava ocupada a preencher a papelada toda que se tem de preencher quando se envia essa entidade sofisticadíssima que é a chamada "carta registada com aviso de recepção". O que preocupava o rapaz nesse dia era uma senhora que tinha passado por lá e que tinha dado ao filho o nome de Adolfo. O rapaz comentava, "ah, é que isso dos nazis, quer dizer, eu não tenho nada contra, mas... dar ao filho o nome de Adolfo, quer dizer... pronto, eu não tenho nada contra, mas..." e reticências e discurso entrecortado, até finalmente rematar com a magnífica expressão "cada um é como cada qual".
Devo dizer que adoro esta moderaçãozinha, esta contençãozinha, que as pessoas às vezes acham que devem adoptar. "Isso dos nazis, não tenho nada contra" - ah, sim? Olhem que posição tão respeitável. Que boa educação exemplar. Somos todos iguais, "cada um é como cada qual", pois claro, portanto não há que discriminar ninguém com base nessa coisa muitíssimo respeitável que é a "opinião",  qualquer que ela seja. Qual é o problema se a minha opinião for a favor dos nazis? Nenhum, claro. Não há que ter nada contra.
As reticências são dos sinais de pontuação que mais me irritam. A insinuação vaga que deixam no ar, a falta de incisão, o refúgio que permitem, a falta de compromisso - "eu não tenho nada contra, mas...", este "mas" deixado assim no ar sem concretizar o argumento.
Quanto a mim, tenho tudo contra. Se cada um é como cada qual, o problema é deles. Não os torna respeitáveis, ou por outra - podem ser respeitáveis, a opinião deles é que não é. O rapazinho dos Correios devia pensar menos em reticências e mais em pontos finais. É a minha opinião.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Vou falar imenso de "peças" porque às vezes me falta inspiração e pá, apetece-me agora perder tempo com futilidades.

A peça básica que eu recomendaria para qualquer mulher, mas mesmo daquelas peças básicas sem as quais não se pode de forma nenhuma sair à rua, é esta:
Freaky jacket, de Vivienne Westwood, à venda por muitíssimas libras na loja on-line da designer. Uma peça básica. É que eu não passo sem longos casacos pretos, tenho uma espécie de fetiche. É assim. E não há que ter medo de usar preto - o que interessa é que o corte seja impecável. Uma peça preta de bom corte é insuperável. Que isto fique bem claro antes de prosseguirmos.
A nível de sapatos, deixem cá ver o que é que me apraz em termos de calçado, assim um item sem o qual não me sinto gente... penso que terá de ser este itenzito:
Não percebo como é que se pode ter um guarda-roupa sem um par destas belezas. É que é inacreditável como é que há gente que não tem, não é? Ah, ah, ah.
Bom, e como todas sabemos, com um casaco básico e um par de sapatos básicos, estamos vestidas. Mas tentemos ir um pouco mais longe e pensemos em acessórios. Os acessórios são tão importantes como a roupa em si, são aquelas peças que dão verdadeiramente o toque especial e a identidade a qualquer mulher. Daí ser muito importante saber escolher bem a "mala", por exemplo. Aqui, não queremos uma coisa muito ostensiva, que facilmente resvala para o bimbo, como por exemplo:



Desculpem, uma Birkin? Não, não, não, não, meninas, há que desmistificar a Birkin. A Victoria Beckham tem várias - ok? Sem comentários. A Birkin pode ser duradoura, sim, mas destila dinheiro de uma forma muito nova-rica, por ter sido açambarcada por tudo o que é americana loura com 15 minutos de fama. Muito má escolha. Porém, há uma fácil solução, uma solução em que nunca ninguém parece pensar e que resolve este imenso, enorme problema:

 A mala Kelly, igualmente da nossa amiga e indispensável Hermès! Tão mais subtil, com tão mais bom-gosto, mais refinada, clássica, aquilo que em inglês a gente designa por "understated" - mas mais do que suficiente para fazer toda uma toilette. Passem pelo Chiado, pequenas, passem pelo Chiado e logo vêem a diferença.
Ai, e outra coisa, é muitíssimo importante não ceder à tentação de: combinar mala com sapatos, é super demodé, é coisa de Rainha de Inglaterra no mau sentido, já não cabe na cabeça de ninguém; usar óculos escuros muito grandes; usar muitas pulseiras a chocalhar num só pulso, é de pobre (optem por uma coisa simples de prata ou ouro antigo, e se não tiverem aproveitem os saldos até ao fim desta semana); usar a mala pendurada no braço, à Paris Hilton - ou penduram no ombro, ou seguram numa mão; pendurada no bracinho é bimbo.
Estes são os meus conselhos de moda, pequenas coisas que todos os dias tento fazer para me sentir melhor, mais mulher, mais feliz, e por isso pensei que as queridas leitoras iriam gostar também. Gosto muito de me sentir útil.

Olhem, a culpa não é minha de andar sem inspiração nenhuma, já disse muitas vezes que não sei escrever bem exactamente por causa disso, porque dependo exclusivamente da inspiração que não consigo controlar, e portanto este post é o que é e acabou. Ao menos escrevi qualquer coisa, e sinceramente, nem tudo foi assim tão parvo. Pronto. Já não tenho mais desculpas, se não quiserem não leiam, que eu compreendo e até apoio. Um grande bem-haja e continuação de uma boa noite para todos, com muita paz, e amanhã um bom dia de trabalho.
Sem outro assunto, subscrevo-me atenciosamente.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Uma aventura na Segurança Social

Noutro dia, tive de me dirigir à chamada "Segurança Social". Cheguei lá e disse-me a Segurança Social, "olhe, agora sente-se ali numa cadeira e espere. Ainda tem 90 pessoas à frente" - eu fiquei chocada durante uma hora, em estado catatónico, quase sem me conseguir mexer ou falar. Quando voltei a mim, ainda só tinham passado três senhas. Estavam 87 pessoas à frente.
Ao pé de mim estavam dois ucranianos. Não percebi o que eles diziam. Na fila à frente, estava um senhor brasileiro com a filha ao colo a gritar pela avó. A Segurança Social  (doravante SS) disse-lhe para estar calada, porque o barulho daquela sala encafuada e saturada de calor desconfortavelmente humano começava a ser muito. A criança começou a chorar, mas desta vez baixinho.
Entretanto, entrou um senhor novo e tirou senha. Perguntou quanto tempo demoraria a ser atendido. A SS disse-lhe que não fazia ideia nenhuma. O senhor novo começou a falar com uma outra senhora que ele conhecia e que já lá estava há 4 horas. Ela disse-lhe que estava ali porque recebia 370 euros por mês e que ia perder um subsídio qualquer que também recebia da SS - esta última virou-se para a mulher e sorriu-lhe malevolamente.
Depois, assim sem mais nem menos, a SS começou a chamar pessoas para dentro de uma sala. Iam aos grupos de dez. As pessoas entravam para as salas e ninguém as via sair. De meia em meia hora, a Segurança Social chamava novos grupos de dez pessoas para salas recônditas. Abria porta apenas o suficiente para as pessoas entrarem e não se conseguia ver nada lá para dentro, apenas escuridão. Ninguém pedia livro de reclamações, toda a gente se limitava a entrar, e quase todos pareciam aliviados por estar a acontecer qualquer coisa, como se aquilo lhes justificasse a longa espera. 
Quando chegou a minha vez, fiquei com muito medo, mas afinal aquilo não era nada de especial,: entrava-se na sala, estava tão escuro que nem víamos por onde íamos, e de vez em quando sentia-se alguém escorregar por um vácuo fundo e húmido. Quando os meus olhos se habituaram à negritude, vi um grande poço no chão, uma enorme boca fumegante, que era por onde as pessoas que não tinham tacteado juntinho à parede haviam escorregado. Olhando para o tecto, vi um ameaçador pêndulo cortante, que balouçava de um lado ao outro da estreita sala e que ia descendo lentamente. Houve pessoas que se atiraram logo poço abaixo, porque se calhar se enervaram, mas isso foi estúpido, porque saíram dali sem informação nem subsídio, e para isso mais valia nem terem ido à SS. Alguns, antes de se atirarem, ainda perguntavam aos outros se queriam ficar com a senha deles, para o caso de terem um número mais adiantado. À conta disso, fiquei com uma senha dez números à frente da minha o que, contando com os que tinham desistido e atirado poço abaixo, já me oferecia uma vantagenzita simpática.
Irrita-me um tanto ou quanto ficar à espera, mas não havia nada a fazer, porque já se sabe que, quando se vai às repartições públicas, é mesmo assim. O único problema que via ali era o pêndulo, que continuava a descer, e tinha muito ar de aleijar. As outras pessoas também começavam a recear o mesmo, e eu dei por mim a desejar que considerassem a opção do poço, porque era menos gente à frente e eu estava mesmo a precisar de me despachar para ir almoçar. Mas aquilo não atava nem desatava, e a SS não estava a chamar nenhuma senha nova.
E foi aí que eu me lembrei de uma coisa brilhante. Comecei aos gritos, "olhe, se faz favor, eu quero mas é o livro de reclamações!". A SS entrou na sala, muito séria. Trazia um livro amarelo debaixo do braço. Tentou sorrir, amareladamente. Perguntou-me, "mas quer o livro de reclamações só por causa disto?", e eu respondi que sim. A SS deu-me tudo o que eu quis e deixou-me sair da sala. Fui atendida à frente dos outros todos, que ficaram ali a olhar para o pêndulo, mas a culpa não foi minha.
É que as pessoas deste país não reclamam e depois é isto.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

As palavras do profeta estão nos muros?

Exit Through the Gift Shop é um documentário de Banksy sobre o grafitti e a arte de rua. Não sei se é bom, se é mau, mas sei que está nomeado para Óscar. O que parece quase uma contradição nos termos - Banksy, absolutamente zeloso e protector da sua identidade, e a exuberância do fenómeno global que são os Óscares. Resta saber se o artista vai mesmo aparecer na cerimónia, mas parece que não.
Aqui pode ler-se uma reportagem, quanto a mim interessante, da validade que a arte de rua ainda tem - ou não. Mais do que isso, questiona-se se a arte de rua (que deveria ser, na sua essência, marginal) ainda é efectivamente marginal, considerando que artistas como Banksy são agora conhecidíssimos, vendidos em galerias, reproduzidos, enfim, absorvidos pelo mainstream. Por exemplo, uma pessoa como eu, que não sabe quase nada de graffiti, conhece o trabalho do Banksy desde há muito, e gosta, e isto porque há livros, reproduções, museus, que exibem o mesmo trabalho. Ou seja, não é efectivamente necessário contactar com arte de rua no elemento a que esta primordialmente pertence - na rua. Quanto mais notoriedade, menos rua. Até que ponto, então, é a arte de rua ainda da rua e cada vez mais de museu, de galeria, domesticada?
Não faço intenções nenhumas de responder a esta pergunta, porque infelizmente não sei nada sobre este assunto. O que me parece, porém, é que além da criatividade óbvia que esta arte ainda tem (exemplo:
vi isto em Londres, e infelizmente já está tapado por outras coisas, pelo menos no sítio onde o vi, mas fiquei muito contente por ter conseguido apanhar uma foto na internet), também me parece que o grafitti continua a cumprir um papel importante de protesto, de contestação, de voz anti-sistema que é necessária. Lembro-me de um dito enorme escrito numa rua ali na zona de Campolide (não me lembro do nome da rua, acho que é aquela que a gente apanha para ir para a Praça de Espanha, mas se calhar é uma qualquer que vai para as Amoreiras, enfim, é por aí) que reza: "Precários nos querem, rebeldes nos terão". Se calhar é propaganda a algum partido -  também não me lembro. Lembro-me é desta frase e de gostar de a ler cada vez que a vejo, independentemente do possível partido que a patrocina. Estou a marimbar-me para o partido, o que me interessa é que, como cantavam Simon & Garfunkel, "the words of the prophet are written on the subway walls". Eu espero bem que ainda seja assim.
A canção dos Deolinda precisa de vozes nas paredes, para dar uma ajudinha. Eu, se tivesse mais jeitinho para o desenho, era o que fazia.