Ao que parece, dizer ao chefe "pó caralho", tal como um cabo da GNR escolheu fazer recentemente, é mera virilidade verbal, e não indisciplina e insubordinação. Por mim tudo bem, gosto de saber que as relações laborais neste país são cordatas e compreensivas relativamente às liberdades e vernáculos da língua portuguesa; é, como se sabe, sinal de civilização e não de atraso, ainda para mais quando tal exemplo emana das forças de autoridade, mormente GNR e juízes da Relação. Muito me apraz tudo isto.
E porém. Há qualquer coisa neste caso que me incomoda um tanto ou quanto, e não é o vernáculo, que com ele posso eu bem. É a expressão "virilidade verbal", que foi o que safou o cabo da GNR de ir a julgamento. Se calha ele ter utilizado uma expressão menos viril e nitidamente menos à homem, como por exemplo "então faça favor, o senhor e a digníssima sua mãe que passa recibos verdes todas as noites num prostíbulo de meu conhecimento, de se dirigirem a um local, ou entidade, desagradabilíssima e mal-cheirosa onde nenhum ser humano deseja encontrar-se, vulgo 'merda'", se o cabo da GNR tivesse dito isto, assim já com certeza mereceria ser julgado e condenado, porque coisas deste calibre não são viris, como se sabe. São um tanto ou quanto efeminadas, mariquinhas, vá, de modo que neste caso lá iria o homem parar à barra do tribunal. E é disso que aqui estamos a falar, é isso que aqui realmente interessa - não é se a linguagem é ou não vernáculo, se é ou não adequada à situação, mas sim se é viril. É isso que interessa a todos nós, especialmente no local de trabalho.
De modo que aquilo que me incomoda, e que não tive ainda oportunidade de explanar, dado o longo e aborrecido intróito com que entretanto me fui distraindo, é que, sendo eu uma falante de português do século XXI, e vivendo em Portugal, não estou exactamente a ver quais as expressões de "feminilidade verbal" que me poderão acudir quando tiver de ir trabalhar e tiver vontade de mandar tudo pó caralho. Sim, porque esta pode ser uma digna expressão linguística de virilidade, mas o sentimento é universal e tão comum a homens como a mulheres. A pergunta que me ocupa é : quais as expressões encantadoras, equivalentes a este "pó c...." (já repeti vezes suficientes), que poderão as mulheres usar? Expressões de feminilidade verbal, por oposição a virilidade verbal - não estou a ver, nem vi que os senhores juízes estivessem preocupados com esta problemática, que claramente institui uma discriminação que eu não estou disposta a aceitar.
Não sei muito de Direito, mas sei alguma coisa, uns conhecimentozinhos mínimos. E sei, por exemplo, que o Estado de Direito assenta na justiça, e que a justiça do Estado de Direito assenta na equidade, que é dar a cada um, no caso jurídico específico, a parte que lhe é merecida. Ora, neste caso jurídico em concreto, se o homem adquiriu para si expressões de virilidade verbal com que se pode aliviar linguisticamente, parece-me inteiramente justo que à mulher seja igualmente atribuída a devida escapatória linguística, vernácula e retumbante, para usar à vontade no local de trabalho, sem sofrer punição abusiva por parte dos superiores hierárquicos. Pensem nisto, senhores juízes. Pensem em dar a todas as mulheres deste país o justo direito de proferir "pó c....." ou, quem sabe, "pá c...." sem sofrerem represálias laborais e sem serem olhadas de lado socialmente. Insto-os, igualmente, a elaborarem uma pequena listagem, se quiserem, até, poderão "elencar", como alguns de nós gostam de fazer, expressões de feminilidade verbal para uso e alívio de todas as mulheres, duas vezes escrava, duas vezes proletária, já dizia o Marx (os homens são só uma vez), e que bem merecem uma benesse, um sinal de que a justiça portuguesa se preocupa com elas e está atenta à sua situação.
É isto que eu peço. Não é pedir muito. Vejam lá isso.















