sábado, 19 de fevereiro de 2011

Uma aventura na Segurança Social

Noutro dia, tive de me dirigir à chamada "Segurança Social". Cheguei lá e disse-me a Segurança Social, "olhe, agora sente-se ali numa cadeira e espere. Ainda tem 90 pessoas à frente" - eu fiquei chocada durante uma hora, em estado catatónico, quase sem me conseguir mexer ou falar. Quando voltei a mim, ainda só tinham passado três senhas. Estavam 87 pessoas à frente.
Ao pé de mim estavam dois ucranianos. Não percebi o que eles diziam. Na fila à frente, estava um senhor brasileiro com a filha ao colo a gritar pela avó. A Segurança Social  (doravante SS) disse-lhe para estar calada, porque o barulho daquela sala encafuada e saturada de calor desconfortavelmente humano começava a ser muito. A criança começou a chorar, mas desta vez baixinho.
Entretanto, entrou um senhor novo e tirou senha. Perguntou quanto tempo demoraria a ser atendido. A SS disse-lhe que não fazia ideia nenhuma. O senhor novo começou a falar com uma outra senhora que ele conhecia e que já lá estava há 4 horas. Ela disse-lhe que estava ali porque recebia 370 euros por mês e que ia perder um subsídio qualquer que também recebia da SS - esta última virou-se para a mulher e sorriu-lhe malevolamente.
Depois, assim sem mais nem menos, a SS começou a chamar pessoas para dentro de uma sala. Iam aos grupos de dez. As pessoas entravam para as salas e ninguém as via sair. De meia em meia hora, a Segurança Social chamava novos grupos de dez pessoas para salas recônditas. Abria porta apenas o suficiente para as pessoas entrarem e não se conseguia ver nada lá para dentro, apenas escuridão. Ninguém pedia livro de reclamações, toda a gente se limitava a entrar, e quase todos pareciam aliviados por estar a acontecer qualquer coisa, como se aquilo lhes justificasse a longa espera. 
Quando chegou a minha vez, fiquei com muito medo, mas afinal aquilo não era nada de especial,: entrava-se na sala, estava tão escuro que nem víamos por onde íamos, e de vez em quando sentia-se alguém escorregar por um vácuo fundo e húmido. Quando os meus olhos se habituaram à negritude, vi um grande poço no chão, uma enorme boca fumegante, que era por onde as pessoas que não tinham tacteado juntinho à parede haviam escorregado. Olhando para o tecto, vi um ameaçador pêndulo cortante, que balouçava de um lado ao outro da estreita sala e que ia descendo lentamente. Houve pessoas que se atiraram logo poço abaixo, porque se calhar se enervaram, mas isso foi estúpido, porque saíram dali sem informação nem subsídio, e para isso mais valia nem terem ido à SS. Alguns, antes de se atirarem, ainda perguntavam aos outros se queriam ficar com a senha deles, para o caso de terem um número mais adiantado. À conta disso, fiquei com uma senha dez números à frente da minha o que, contando com os que tinham desistido e atirado poço abaixo, já me oferecia uma vantagenzita simpática.
Irrita-me um tanto ou quanto ficar à espera, mas não havia nada a fazer, porque já se sabe que, quando se vai às repartições públicas, é mesmo assim. O único problema que via ali era o pêndulo, que continuava a descer, e tinha muito ar de aleijar. As outras pessoas também começavam a recear o mesmo, e eu dei por mim a desejar que considerassem a opção do poço, porque era menos gente à frente e eu estava mesmo a precisar de me despachar para ir almoçar. Mas aquilo não atava nem desatava, e a SS não estava a chamar nenhuma senha nova.
E foi aí que eu me lembrei de uma coisa brilhante. Comecei aos gritos, "olhe, se faz favor, eu quero mas é o livro de reclamações!". A SS entrou na sala, muito séria. Trazia um livro amarelo debaixo do braço. Tentou sorrir, amareladamente. Perguntou-me, "mas quer o livro de reclamações só por causa disto?", e eu respondi que sim. A SS deu-me tudo o que eu quis e deixou-me sair da sala. Fui atendida à frente dos outros todos, que ficaram ali a olhar para o pêndulo, mas a culpa não foi minha.
É que as pessoas deste país não reclamam e depois é isto.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

As palavras do profeta estão nos muros?

Exit Through the Gift Shop é um documentário de Banksy sobre o grafitti e a arte de rua. Não sei se é bom, se é mau, mas sei que está nomeado para Óscar. O que parece quase uma contradição nos termos - Banksy, absolutamente zeloso e protector da sua identidade, e a exuberância do fenómeno global que são os Óscares. Resta saber se o artista vai mesmo aparecer na cerimónia, mas parece que não.
Aqui pode ler-se uma reportagem, quanto a mim interessante, da validade que a arte de rua ainda tem - ou não. Mais do que isso, questiona-se se a arte de rua (que deveria ser, na sua essência, marginal) ainda é efectivamente marginal, considerando que artistas como Banksy são agora conhecidíssimos, vendidos em galerias, reproduzidos, enfim, absorvidos pelo mainstream. Por exemplo, uma pessoa como eu, que não sabe quase nada de graffiti, conhece o trabalho do Banksy desde há muito, e gosta, e isto porque há livros, reproduções, museus, que exibem o mesmo trabalho. Ou seja, não é efectivamente necessário contactar com arte de rua no elemento a que esta primordialmente pertence - na rua. Quanto mais notoriedade, menos rua. Até que ponto, então, é a arte de rua ainda da rua e cada vez mais de museu, de galeria, domesticada?
Não faço intenções nenhumas de responder a esta pergunta, porque infelizmente não sei nada sobre este assunto. O que me parece, porém, é que além da criatividade óbvia que esta arte ainda tem (exemplo:
vi isto em Londres, e infelizmente já está tapado por outras coisas, pelo menos no sítio onde o vi, mas fiquei muito contente por ter conseguido apanhar uma foto na internet), também me parece que o grafitti continua a cumprir um papel importante de protesto, de contestação, de voz anti-sistema que é necessária. Lembro-me de um dito enorme escrito numa rua ali na zona de Campolide (não me lembro do nome da rua, acho que é aquela que a gente apanha para ir para a Praça de Espanha, mas se calhar é uma qualquer que vai para as Amoreiras, enfim, é por aí) que reza: "Precários nos querem, rebeldes nos terão". Se calhar é propaganda a algum partido -  também não me lembro. Lembro-me é desta frase e de gostar de a ler cada vez que a vejo, independentemente do possível partido que a patrocina. Estou a marimbar-me para o partido, o que me interessa é que, como cantavam Simon & Garfunkel, "the words of the prophet are written on the subway walls". Eu espero bem que ainda seja assim.
A canção dos Deolinda precisa de vozes nas paredes, para dar uma ajudinha. Eu, se tivesse mais jeitinho para o desenho, era o que fazia.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Palavra da semana que me intriga: "mica"

"Pede-se aos utentes para deixarem os boletins de vacinas nas micas numeradas"
"Preciso de pôr estes documentos numa mica, que é para não os perder"
"Porque é que não pões as folhas naqueles dossiers com micas, que é para não se dobrarem?"
De todas as bizarrias exuberantes da língua portuguesa, esta é com certeza das mais feias e das mais cómicas. Mica. Mica. Mas quem é que se lembrou disto? Qual era o problema de dizer "folha plastificada", por exemplo, que sempre tem alguma dignidade, por pouca que seja? Agora "mica" é coisa sem dignidade nenhuma, sem ponta por onde se lhe pegue, parece sinónimo de palavras ao nível de "caganita" que, como sabemos e bem, são de enxovalho. Mica. Alguém percebe isto? Eu não, e duvido que um dicionário etimológico me vá ajudar nesta problemática - é uma sensação que eu tenho, que não vai ajudar.
Ai, agora vou ali que preciso de comprar umas micas. Umas micas. Não percebo isto. 
Mica. Quase tão estranho como "cunhado". Acho "cunhado" uma palavra estranhíssima, parece que se está a falar de um mafioso - "ah, eu e o meu cunhado arranjámos um negóciozito, comprámos umas casitas", sei lá, parece que se está envolvido numa associação manhosa em que "cunhado" é um título hierárquico. "Eh pá, agora vou ali de férias com a minha mulher e o meu cunhado e a mulher dele" - soa tão manhoso. A culpa não é de quem tem cunhados e tem de usar o duvidoso vocábulo, evidentemente. Mas é palavra a evitar. 
Realmente, a língua portuguesa é um esplendor, mas não é feliz no que respeita a designações de parentesco - genro, nora, sogro, "cunhado", etc. Raramente se ouvem palavras mais feias.
À excepção de "mica". Mica.

As varandas dos outros

Sou uma pessoa que nunca lava as varandas. Os meus vizinhos, no seu aprumo burguês que não posso senão respeitar e, de certo modo, até invejar, têm sempre as varandas impecáveis. Sempre que vou à janela, aproveito para dar uma espreitadela e lá estão elas, as varandas dos outros, reluzentes, brancas, com uma plantinha bem regada, ou uma roupinha bem lavada a secar, ou uma cadeirinha que nunca é usada, evidentemente - mas está lá, e isso é que importa.
As minhas varandas, não. Estão sempre sujas. O pó acumula-se e deixa manchas negras que se misturam com o verdete da humidade e sim, de certo modo aceito que apelidem isto de "nojento", mas para mim não é, para mim costumava ser um sinal da minha individualidade, da mesma forma que o Nicholas Cage tinha aquele casaco pele de cobra no Wild at Heart e andava sempre com ele, porque dizia que o blusão era o símbolo da sua liberdade e individualidade. As minhas varandas sujas eram assim, era eu a dizer aos meus vizinhos e consequentemente ao mundo - "vocês não pensem que eu tenho as vossas vidinhas simples, vidas em que há tempo e espaço mental para andarem a pensar em limpar varandas; eu não, eu sou uma pessoa diferente, uma pessoa que pensa noutras coisas, como diz o Lobo Antunes, tenho lá tempo para me preocupar com varandas", e este raciocínio adensava-se numa espiral louca que chegou a um ponto em que as varandas quanto mais sujas melhor, até tudo culminar num outro ponto em que eu olhei para as mesmas varandas e me vi impossibilitada de pôr o pé lá fora. Chegada a este estado, eu, que me considero uma pessoa higiénica, uma pessoa com certas exigências, fui obrigada a reconhecer que seria bom dar uma limpezazita às varandas, limpeza essa que se concretizou com engenho e arte. 
E agora vem esta chuva parva, intolerável, gélida, este vento das profundezas do Inverno, e tem uma pessoa de ver todo o seu esforço deitado por terra, as varandas todas as sujas outras vez. Até tenho vontade de chorar - porque fui eu comprometer, ofender os meus valores e individualidade, a minha luta contra o conforto burguês domingueiro da varanda lavadinha com a plantinha bem regada, a alcatifa bem aspirada, o bibelot, o naperon, o Volkswagen bem esfregado com matrícula "2010", que só não é 2011 porque o imposto subiu e toda a gente se pôs a comprar em 2010 e assim se vê os problemas que atravessamos com a crise, dizia, o serviço de cozinha, o faqueiro, roupa interior passada a ferro? Para que fui eu lavar varandas para me aproximar deste estilo de vida, inconscientemente, é certo, mas de qualquer modo foi o que fiz? Para vir a chuva e gozar com a minha cara?
É um castigo da Natureza. É o mundo a dizer-me: "bem feita, não és coerente, dizes mal dos burgueses e depois queres ser igual, e agora é isto que te acontece, vem a chuva e estraga-te as varandinhas todas, as mesmas que tu não tiveste coragem para deixar sujas. Devias ter vergonha. Porque é que não vais para o Colombo ao fim-de-semana? Não te ponhas com coisas, que o que tu queres ser eu, ir para a Fnac a rebentar de gente, ir para o Continente, se fores com crianças vais àqueles PlayCentres ou sei lá - ou achas que és melhor do que isso, minha pretensiosa?"
Eu respondo - sim, acho que sou. Mas sei que não sou. São as terríveis contradições do ser humano, a espinhosa escolha entre aquilo que nos torna melhores mas nos faz sentir pior e aquilo que nos torna piores mas nos faz sentir melhor. 
Eh pá, conclusão: quando esta chuva acabar, nunca mais volto a limpar varanda nenhuma. Os vizinhos que se esfalfem nas deles. Eu penso noutras coisas.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Não consigo evitar, estas coisas irritam-me

Uma extensa crítica, quando tudo se resume a uma afirmação inicial, que até tem piada, por um escritor que até tem piada: 


Da mesma forma, poderia eu dizer que escrever isto sobre os Coen não só é crítica já batida e lugar-comum (repete-se sempre que os Coen lançam um filme novo, à excepção de No Country...), como é a ideia que uma pessoa apenas moderamente esperta tem do que deve ser uma crítica muitíssimo inteligente a estes irmãos. 
Não sei porquê, lembro-me de ser adolescente e de ter constatado que, de repente, os Stone Temple Pilots tinham deixado de ser muitíssimo bons para passarem a ser apenas "medianos" ou até, pura e simplesmente, "medíocres". Nunca percebi bem como se deu a mudança. Há coisas que a crítica às vezes convenciona e que depois se disseminam incendiariamente, e vai a carneirada toda atrás. Tudo bem, um dos meus ditos preferidos da língua portuguesa é "cada um é como cada qual", seguido daquilo que a mãe do Diácono Remédios costumava dizer sobre as opiniões, e portanto todos nós temos direito a gostar, ou deixar de gostar, das coisas.
Mas esta crítica permanente aos Coen agasta-me, porque me parece injusta. É verdade que fazem filmitos que não interessam muito - lembro-me, por exemplo, de LadyKillers, que nem sequer consegui ver. The Hudsucker Proxy foi outro que também não consegui acabar de ver, porque me aborreceu. Intolerable Cruelty também não entusiasma ninguém. Mas, inversamente, a (relativa) frieza com que Oh Brother Where Art Thou é acolhido, ou ainda mais flagrantemente, The Man Who Wasn't There, é algo que me deixa atónita. Este último, parece-me, é de uma beleza inegável sob todos os aspectos. Mas enfim.
Quanto a mim, espero ansiosamente pela estreia de True Grit (só o trailer, com aquela música do Johnny Cash, já me deixa aos pulos na cadeira). Se não gostar, não gosto, paciência, mas não será isso que me vai impedir de continuar a apreciar, muitíssimo e sempre, coisas como Blood Simple, Barton Fink, Fargo, Raising Arizona, Oh Brother..., The Man Who Wasn't There, o fundamental Big Lebowski. De modo que sim, eu, uma pessoa moderamente esperta, tem efectivamente a convicção de que os Coen não são apenas aquilo que "auteurs" americanos devem ser, como tem igualmente a convicção de que os Coen são aquilo que autores de cinema devem ser, americanos ou não. Fim. 

Revolução no Egipto

Ontem, nos blocos noticiários sobre o que se passa no Egipto, a RTPN falava de "revolta" no Egipto; uma outra estação, penso que a SicNotícias (não posso assegurar) apresentava as imagens com a legenda "revolução" no Egipto.
Há diferenças, e diferentes pesos e medidas, nestas escolhas linguísticas - não é um dicionário que nos vai indicar em que medida uma revolta é diferente de uma revolução. São as nossas escolhas, e as perspectivas que queremos ter, que o vão fazer.
A língua portuguesa nunca cessa de me fascinar.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

A que cabeleireiro é que tenho de ir...

... para ficar com um cabelo assim?
Ou assim:
Ou assim:
Ou até assim:





O resto já não peço, é mesmo só o cabelo. Ai, os problemas desta vida...

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

O facebook não gosta de mim

Eu, em termos de facebook, sou a pessoa mais falhada que existe. E é muito simples constatar este triste facto - enquanto todas as outra pessoas que eu conheço coleccionam "amigos" e "amigos" e mais "amigos", eu estou sempre a perder. Quase todos os dias perco amigos. Tenho um número de contactos absolutamente flutuante e estranho no facebook - há dias em que tenho um x número, outros em que tenho outro. Pode diminuir, pode aumentar. Ninguém percebe isto. Ultimamente, tem diminuido. Disseram-me, "as pessoas bloqueiam-te", ou "as pessoas já não querem ser tuas amigas". Sinceramente, nem no jardim-escola isto me acontecia de forma tão ostensiva e quando acontecia, eu sabia sempre porquê - ou não tinha emprestado a boneca às outras meninas, ou não as tinha deixado serem elas as princesas ou elas é que não me tinham deixado a mim. Normalmente, o assunto resolvia-se com um "assim já não gosto de ti" e, ao menos, eu ficava logo a saber. Depois, puxavam-se uns cabelos ou isso para consumar a vendetta, e voltava-se ao normal. Mas agora, a forma como as coisas se passam no facebook ultrapassa-me. Sou assim tão má pessoa para os outros andarem por aí em hordas a decidir que não querem ser meus amigos? É que se é assim estamos muito mal, porque uma pessoa não anda por aí a resolver a adolescência tão bem quanto é possível para depois chegar ao facebook e ter de se andar a preocupar outra vez em auto-estima e se os outros gostam de nós ou não, e ai se sou popular, e ai se falam mal de mim e ai se sou má pessoa e sei lá mais o quê.
Realmente, qual a razão dos meus esforços para ser uma adulta responsável e madura quando afinal as questiúnculas que nos assombravam na escola secundária acabam por ser as mesmas? E tudo por causa do facebook, essa "plataforma" tão parva e perniciosa. 
Oh pá. Se o número de amigos não subir amanhã, acho que vou desistir do facebook. Dou-me muito melhor com a vida real, o que pode não contar muito nos dias que correm, mas para mim continua a ser bem mais importante.

Ensaio sobre a cegueira

Não vai ser ensaio nenhum, o título é só para chamar a atenção. Houve uma senhora que morreu e deixou um cadáver, e esse cadáver ficou 9 anos fechado num apartamento. Houve também um familiar que tentou 13 vezes que o Tribunal desse ordem para arrombar a porta mas parece que não deu. Também se contactaram uns sobrinhos e a polícia, mas mais uma vez não deve ter dado. A senhora que deixou cadáver tinha uns animais que morreram na varanda, com certeza de fome. Isto digo eu. Se calhar, também adoeceram. 
A situação descobriu-se porque as Finanças começaram a considerar no mínimo estranho que existisse sujeito passivo tão inerte, tão mau pagador, ou havia uma penhora qualquer, ou uma coisa assim burocrática parecida. A senhora que deixou cadáver foi identificada, a sua existência, ou falta dela, foi notada porque havia um número, num qualquer sistema estatal hierárquico e burocrático, que tinha o registo dela. Quer dizer, mais ninguém tinha - mas na hierarquia de poderes bem definidinha que o Estado impõe, havia um número (provavelmente de contribuinte), e esse número apontava para o cadáver. Como diz Foucault na sua Vida dos Homens Infames (S., o livro é teu, tenho de te devolver!) - todas aquelas vidas, que estavam destinadas a passar ao lado de todo o discurso e a desaparecer sem nunca terem sido ditas, não puderam deixar traços senão em virtude do seu contacto momentâneo com o poder.
Pois é. Quem não tem número de contribuinte e pensa que tem identidade, desengane-se. A nossa existência, como diz Foucault apenas dos "homens infames", mas como pode ser alargado a quem quer que viva sob a alçada do Estado, Providência ou mínimo, dizia, a nossa existência e identidade dependem de uma coisinha apenas, o tal "confronto com o poder", o momento em que o Estado nos regista e reconhece.
A não ser que sejamos o Corto Maltese. Obviamente, o Corto Maltese não precisa de número de contribuinte. Podia é ter número de telefone, que isso é que me dava jeito. É mesmo assim, sem registo e sem números a nossa vida não vai a lado nenhum. 
Que converseta tão deprimente.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Para conhecimento

Venho por este meio dar conhecimento aos chamados fãs "die hard" da série televisiva Os Sopranos, The Sopranos no original, se há ainda por aí alguns, nomeadamente aos sujeitos passivos que, em tempo útil e em sede própria, se recusaram a dispender 200 e remanescentes euros no sentido de adquirir a referida série em disco DVD, temporadas um a seis, por considerarem, em tal momento, que teriam mais do que fazer ao dinheiro, de que a mesma série, temporadas um a seis, em disco DVD, se encontra de momento, e até à data de 9 de Fevereiro do ano de 2011, em promoção no sítio de internet amazon.co.uk, ostentando o preço de 51.24 libras, vulgo 60 euros, IVA e portes de envio incluídos, deste modo representando significativa redução face ao preço inicial. A gerência deste sítio da internet toma a liberdade de aconselhar a aquisição destes discos aos supra-mencionados sujeitos passivos, sem prejuízo de possível e eventual fruição do visionamento de episódios da referida série na internet, por meios cuja legitmidade não nos é dada apreciar, por não se encontrar sob o escopo do presente post (nem sequer do presente blogue).
Mais se informa de que a escassez de posts neste sítio da internet é profundamente lamentada pela responsável, que se tem encontrado em situação que a impede de actualizar de forma regular um blogue que se deseja abundante em escrita, por ser seu objectivo primordial e fundador a já referida escrita e consequente leitura. A lacuna aludida será colmatada assim que possível, com a maior brevidade, e pela ausência e falha deseja a responsável apresentar as suas sinceras desculpas.

Gratos pela atenção dispensada, subscrevemo-nos atenciosamente,

A Girência

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos

E, já que estamos (ou estou eu) numa de crueldade, vou aqui citar isto:

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.


Quando se fala do peso da idade, deve ser disto que se fala. A perda do amor. Já não haver ninguém que goste de nós como quando éramos pequenos. O amor que tomamos como dado adquirido, por não poder ser de outra forma, dos pais, dos tios, dos avós. De toda a gente, no fundo. É como se todo o mundo estivesse orientado só para gostar de nós.
E, como explica Fernando Pessoa, desta forma tão cruelmente bonita, quando a casa se esvazia e ficamos nós ali como fósforo frio a olhar para a humidade nas paredes... eh pá, fazemos o quê? De repente, fazem-nos falta. Os tios, os avós, toda a gente. Os cuidados com a festa de aniversário. Fazerem bolos na cozinha. Imagine-se - fazer bolos e rissóis e tudo em casa porque nós fazemos anos. E depois ficarmos sem isso.
Não se faz.

Abril é o mês mais cruel

Aquele primeiro verso de The Wasteland merece todas as conversas mais ou menos intelectuais, inteligentes, pretensiosas ou simples, que se travaram sobre ele: April is the cruellest month.
E depois continua: ... breeding lilacs out of the dead.
Lembro-me de ter lido isto e de o impacto sonoro ter ficado a ecoar - April is the cruellest month, April is the cruellest month, e depois imaginar o roxo dos lilases, lilases misturados com cadáveres, a despontar de cadáveres, que coisa tão impressionante - breeding lilacs out of the dead.
Era o que eu imaginava, e imagino, quando leio Wasteland. E é verdade que Abril é um mês cruel. O confronto com a renovação, o renascimento, saber que o mundo continua independentemente de nós - e se formos nós os cadáveres? É que, se fizermos parte do renascer da esperança, está tudo muito bem. Mas, de facto, se os lilases crescem por cima de nós, indiferentes à nossa presença, enfim - se formos nós os mortos, o que fazer?
É que os cadáveres, podemos ser nós. Podemos mesmo. E a Primavera enterra-nos sob o esplendor que traz consigo, aquela exibição exuberante da vitalidade de tudo. E nós mortos, a olhar para aquilo, a ver os lilases que nos rebentam das mãos e dos pés e por todo o lado.
Eu sei que este post parece uma tentativa muito fraquinha de arremessar à chamada "prosa poética", mas não é nada disso. Eu estou mesmo a tentar ser muito realista. Só porque agora Abril não é cruel para mim, não quer dizer que não tenha sido, que não possa ser, que não seja. Quando se diz "em Abril, águas mil", estas águas podem ser muitas coisas, podem ser os sôbolos rios que vão e podem ser as águas que às vezes a gente tem de chorar.
A vida é assim porque, como canta a grande Amália e o grande Camões talvez tenha escrito, "triste quero viver pois se mudou em tristeza a alegria do passado". A gente nunca sabe com o que pode contar. É ir aguentando. Aproveitar a felicidadezinha que se tem, quando ela chega.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Amuse bouche (disclaimer: apesar do título à francesa, este post não é sofisticado)

Bem, há tanta coisa de que eu gosto, ou aprecio muitíssimo, na língua portuguesa que às vezes até fico desorientada.
Dizer "desgracei-me", por exemplo, em vez de dizer "o dia correu-me mal".
Dizer "estou desgovernada" ao invés de "desnorteada". Embora "desnorteada" também tenha a sua graça.
No entanto, há duas coisas que, ultimamente, e puramente a nível pessoal, têm estado no topo "no que concerne" (expressão espectacular) ao potencial expressivo-cómico do português: o sufixo -ex e a expressão "mal qual é o mal?".
Dois breves exemplos para ilustrar cada uma destes encantadores recursos linguísticos:
"P'ra frentex". Uma pessoa ser pra frentex é, de facto, enfim, ser muito à frente. Mas a beleza do -ex (ex sufixo, que se for prefixo o caso muda mesmo de figura e deixa de ter tanta piada - arre, que o português consegue ser tramado com estas bizantinices todas. Olha, outra: bizantinice. Mas continuando, senão nunca mais saio daqui), dizia, a beleza do -ex é que pode ser aplicada a situações de vário tipo e de vária ordem. Ainda noutro dia perguntei ao meu pai, "então mas isso foi dito assim à vontade?", ao que o meu pai respondeu "assim, à vontadex, à frente de toda a gente!". Ri-me imenso com isto. É a beleza da nossa língua - quanto menos se espera, o português tem sempre qualquer pormenorzinho reservado para nos fazer rir. É uma espécie daquilo a que agora os restaurantes chamam "amuse bouche".
Quanto ao "qual é o mal" - há um filme de Woody Allen, "Deconstructing Harry", do qual gosto muito. O fime é sobre Harry, um escritor, e é entrecortado por histórias que ele escreveu. Numa dessas histórias, há uma senhora já idosa que, numa festa, e por via de uma amiga que ouviu de outra amiga que conhece não sei quem, descobre que o seu marido, com quem vive há décadas, teve outro casamento antes de se casar com ela, matou a primeira mulher e os filhos e comeu-os para não deixar provas. A senhora vai para casa muito agastada, irrita-se com o marido, serve-lhe o jantar com maus modos e quando o marido lhe pergunta o que se passa, ela grita-lhe que ele foi casado antes e que matou a mulher e  os filhos e ainda os devorou e tudo. E chateia-o e chateia-o até que ele, que tem uma dor de cabeça e quer é jantar em paz, se vira para ela e exclama: "comi-os, pois foi! E qual é o mal?"
Não me lembro bem, mas acho que a senhora não tem resposta para isso. A beleza desta expressão é que não admite grande resposta. Uma pessoa encolhe os ombros e pergunta "qual é o mal?", genuinamente à espera que lhe expliquem, mas quem a acusa não lhe consegue bem explicar, porque está à espera que o tal "mal" seja óbvio e que a outra pessoa já perceba de antemão.
E pronto. Eu própria também não consigo explicar mais do que isto, e portanto vou parar, que sinto que o post está a descambar. Não ficou muito bem - mas qual é o mal?

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Cabelos

De vez em quando, escrevo e penso sobre cabelos. É uma idiossincrasia um bocado inútil, mas enfim. As inutilidades também fazem parte da vida.
A minha amiga L., por exemplo, que de vez em quando também pensa sobre cabelos, tem muito a mania de se indagar sobre o que leva uma pessoa a manter um corte de cabelo nos moldes em que, por exemplo, o Luís Represas o faz. É que aquilo nunca, nunca, nunca muda. Por consequência, eu própria também me indago sobre esta problemática, porque é de uma verdadeira problemática que se trata - um cabelo que há anos e anos é sempre do mesmo comprimento, sempre com as mesmas pontas espetadas na nuca, sempre com a mesma franja, mais ou menos penteada. Ainda há uns dias levantei esta questão no facebook - será que, no seu esforço de manutenção da modesta gaforina, Luís Represas se dirige ao cabeleireiro ou ao barbeiro?, mas ninguém me soube responder, talvez porque esta questão encerra uma filosofia retorcida muito difícil de destrinçar. Houve quem aventurasse que era quiçá peruca, o que eu espero que não seja, porque senão desfaz-se a magia.
Mas bom. Continuando, esta problemática do cabelo do Luís Represas é muito mais rica do que à partida se possa pensar, e explico porquê - há pessoas que nunca mudam o cabelo de forma alguma, nem à chamada "lei da bala", como aqui o Luís; há outras que estão sempre a mudar corte, cor, caracóis e quejandos. E isto diz muito da nossa personalidade. Por exemplo, uma pessoa que desde a adolescência possua o mesmo cabelo, o que diz isto dela? Diz que é pouco aventureira,não gosta de arriscar. Uma pessoa que desde a adolescência cortou, deixou crescer, fez madeixas, pintou, frisou, "desfrisou", o que diz isto dela? Diz que é uma maria-vai-com-as-outras que quer ser igual às Christinas Aguileras do seu tempo. E que dizer de uma pessoa que apenas moderadamente modificou o seu cabelo? Diz que é uma pessoa íntegra, por exemplo. É como um homem que sempre se agarrou orgulhosamente ao seu bigode, ao invés do Torres Couto ou Mega Ferreira que, não conseguindo manter a coerência, decidiram cortá-lo (e até aposto que morrem de vergonhaça sempre que têm de se confrontar com fotos dos anos 80 ou isso, com a bigodaça tuga que hoje em dia é muito, vamos lá, "demodé", "passé", "feia"). 
É que o cabelo, tal como o bigode ou barba nos homens, encerra esta tal questão da coerência, mas também da capacidade de adaptação - ninguém quer um cabelo que não se adapta ao ar dos tempos, como o cabelo do Luís Represas; mas também ninguém quer pilosidades ou cabelos que mudam por dá cá aquela palha, como se a pessoa fosse uma oferecida que não pensa por si.
De modo que com pilosidades e penteados, assim como com personalidades, todo o cuidado é pouco. Sempre muita cautela.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

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Porque "você" merece (e com um bocadinho de sorte, eu também).

PS: Prestar atenção ao facto de eu escrever "você", mas só entre aspas.
Eh pá, fui agora ali ao site do Cinecartaz consultar uma coisa, e aquilo está que é uma beleza. Impecável, parece o site de trailers da Apple, todo bem organizado, com tops e tal. Agora dá gosto, porque dantes era um site feio.
Sim senhora.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Nesquick

Já escrevi em tempos sobre Ovomaltine. É a minha bebida achocolatada preferida de sempre, a seguir ao Milo, mas como já não há Milo, é Ovomaltine.
Lamentavelmente, deixei de adquirir e consumir Ovomaltine porque, em minha casa, aquilo desaparecia a uma tal velocidade que me assustava. Era como se eu estivesse possuída por um instinto malévolo e incontrolável que me punha a beber leite com colheradas e colheradas de Ovomaltine até rapar copo e tudo.
De modo que mudei para o Nesquick. Sabe bem, mas não tão bem como Ovomaltine, e portanto consigo moderar mais. Assim, a pergunta que aqui me traz esta noite é: serei a única pessoa em idade balzaquiana, provecta, idosa ou de meia-idade, como queiram chamar, que consegue passar sem café de manhã, mas não consegue passar sem leite com Nesquick, docinho e a saber a chocolate? O café, para mim, é só a seguir, e pequeno-almoço que não inclua leite achocolatado não tem graça nenhuma.
Isto faz-me lembrar aquelas coisas que eu pensava que se iam transformar radicalmente na idade adulta, mas não transformaram - gosto muito de café, mas não o prefiro magicamente ao Nesquick; bebo vinho, mas não o prefiro imperativamente à Coca-Cola (sacrilégio, eu sei); consigo dormir no escuro, mas se houver uma luzinha de presença, durmo mais descansada. As coisas não mudam assim sem mais nem menos só porque se passou a ter uma certa idade.
Se houver outros como eu, identifiquem-se. Gostava de experimentar o chamado "sense of belonging", agora não estou para tentar traduzir e deixo assim, piroso.
Pronto.

O Dexter

O Dexter é uma série interessante. Gosto. E tem aquele actor espectacular, o Michael C. Hall; quem o viu nos Sete Palmos de Terra nem acredita, o homem é mesmo profissional.
Dexter conta com o aspecto engraçado de a personagem principal ser um assassino em série, mas com a particularidade de ter sido educado para dirigir o mal a quem o merece, por assim dizer. Também trabalha para a polícia, o que é outro aspecto original, além de desencadear o efeito Tony Soprano, que é a pessoa saber que a personagem principal faz parte do grupo dos "maus", mas não deixar de simpatizar com ela, gostar dela e querer que ela ganhe, deste modo reflectindo sobre a relatividade da vida, os valores do Bem e do Mal, e que nem sempre as coisas são o que parecem e assim e assado. No fundo, ver séries de televisão dá-nos muita filosofia.
Também há uma outra perspectiva sobre Dexter que discuti noutro dia com um amigo, que não gosta da série e já a deixou de ver. Disse-me ele que a acha reaccionária, demasiadamente impregnada de uma certa ideologia de direita americana com a qual ele não pode. Achei isto muito estranho - como, se o principal é um assassino, criminoso, completamente fora dos padrões da chamada decência? E diz-me o meu amigo que o problema da série é aquela ideia de que não faz mal matar alguém, e talvez possa ser até desejável, desde que essa pessoa o mereça. Quando apoiamos o Dexter e as suas decisões, apesar de ele andar por aí a matar outros assassinos, ou talvez por causa disso, apoiamos igualmente este poder individual, fora dos tribunais e da lei, sobre a vida e a morte. É uma outra forma de se concordar com a pena de morte, é como dizer "ah, eu não acho que deva existir pena de morte, mas acho que há gente que merece morrer e portanto não vejo problema nenhum se houver um Dexter por aí a matar escumalha".
Pois é. Não deixa de ser verdade. No entanto, é também verdade que a série não mostra a personagem principal como inocente, inteiramente justa e íntegra. Mostra um assassino que calha matar outros assassinos, mas que sabe que não é muito diferente deles - e também não é muito diferente de qualquer outra pessoa dita normal (foi casado, agora é viúvo, tem um bebé, um emprego estável, etc), residindo aqui o busílis da questão. Afinal, este Dexter é criminoso, é bonzinho, ou é os dois?
Conclusãozinha? Não há, para variar. Parece-me ser certo que concordar que há quem mereça morrer é a mesma coisa do que apoiar qualquer pena de morte, imposta ou não pelo Estado. Sempre fui contra a pena de morte e é das poucas coisas sobre as quais não quero mudar de ideias. Também não me parece que o Bem e o Mal sejam assim tão relativos como querem fazer crer - há coisas que estão bem e outras que estão mal. E porém - há muitas partes da vida mal iluminadas. Delas, não sabemos o que esperar porque, como já advertia Camões, esse deus terreno, "muda-se o ser, muda-se a confiança. Todo o Mundo é composto de mudança, tomando sempre novas qualidades".
E essas qualidades podem ser boas ou más, sabemos lá nós. É ir andando.

domingo, 23 de janeiro de 2011

Queijo

De toda a parafernália de documentos que um cidadão deste país tem de ter e obter, o meu preferido é sem dúvida o "cartão de eleitor" - verdadeiramente, o mais pobrezinho e o mais honrado de todos os documentos infindos de que precisamos para ter qualquer espécie de identidade neste país. A avaliar pelas filas de pessoas ao frio e à seca para saberem o número de eleitor antes de votarem, já que o cartãozinho de cidadão é todo xpto mas número de eleitor é que não tem, o que se verifica é que o cartão de eleitor da velha guarda, em cartão fraquinho, com um modesto carimbo com a freguesia e a parecer um qualquer folheto de restaurante de frango assado com promoções (cinco carimbos e leva um frango grátis), esse mesmo modesto cartão, vale mais do que todos os pós modernos que se possam inventar e que, como o dia de hoje perfeitamente ilustrou, não funcionam. 
Primeiro, o cartão de eleitor é simpático porque não tem fotografia. Agora já não se tem de ir ao fotógrafo antes de ir obter documentação necessária, mas mesmo assim é muito incomodativo ter de olhar para aquela câmara minúscula que eles têm para o cartão de cidadão ou passaporte, e a foto ficar toda mal, uma pessoa com ar de Dr Spock rechonchudo mas igualmente preocupado (aconteceu-me isto quando fui tirar o passaporte, porque a senhora insistiu para que eu pusesse o cabelo por trás das orelhas - "as orelhas têm de se ver!", disse-me ela - e isto apesar de eu na altura ter o cabelo curto, mas enfim), dizia, tirar fotografias em contexto instituicional é uma seca, a pessoa fica sempre tão feia que é um desgosto e dá vontade de chorar, e eu não estou para aturar que o Estado me trate mal desta maneira, se pago impostos não é para me chamarem feia, de modo que uma vantagem óbvia do cartão de eleitor é, logo à partida, não ter fotografia em lado nenhum.
Em segundo lugar, o cabeçalho do cartão de eleitor é uma coisa bonita. Diz assim: "República Portuguesa", e eu gosto que me lembrem de que eu não vivo apenas em Portugal, vivo na "República Portuguesa". Como normalmente passo a vida a carpir aquele sentimento, já muito batido que enjoa, do "ai que não pertenço a lugar nenhum", quando olho para o cartão de eleitor sei que, pelo menos, pertenço ao grupo de pessoas que é eleitor da república portuguesa. Podia ser bem pior.
Em terceiro lugar, o cartão de eleitor é um meio rápido, simples e prático de se saber uma coisa tão elementar como o nosso número de eleitor - em vez das sms ou internets, há um  outro método super-simples, que é: olhar para o número que está no cartão. Assim, vota-se em dez minutos. Rápido e barato, embora não dê milhões. O que dá exactamente ainda não se sabe.
O único problema que eu vejo com o voto, possibilitado pelo cartão de eleitor, é o sentimento que se tem a seguir - fiz bem ou fiz mal? Devo dizer que o acto de votar em si é coisa que me apraz, talvez porque desde pequena todos os adultos à minha volta tiveram a preocupação de deixar bem claro que um cidadão tem de votar. Lembro-me de que a minha professora da primária, por exemplo, trouxe uma vez um boletim de voto (em branco, bem entendido) para a aula, depois de umas eleições, para nós vermos como era. Toda a gente começou aos berros a gritar em quem gostariam de votar, revelando deste modo, muito claramente, as opções políticas dos paizinhos que tinham doutrinado os filhos em casa, mas era assim mesmo, naquela altura até as crianças da primária percebiam a importância de algo tão elementar como o voto.
Mas, dizia eu, o problema com o voto é aquilo que se sente depois. Eu, por exemplo, sinto-me um rato daqueles da gaiola, tipo hamster, mas um hamster suis generis que não gosta de queijo (é verdade, não posso com queijo). Estou ali na gaiola, a olhar, sem alternativa nenhuma, e vão-me dando vários queijos para comer, mas a verdade é que é sempre queijo, e a mim não me interessa que tipo de queijo é que é, já que qualquer tipo de queijo, por ser queijo, me enjoa só de cheirar. E depois dizem-me "ah, tu não comes porque não queres, que a gente alimenta-te", e eu digo "alimentam-me, mas é sempre a mesma coisa, e eu disso não  consigo comer", "então fica para aí e não comas", dizem-me, "então não como", digo eu. E fico assim neste estado - alternativa há, o problema é que é sempre queijo. Tenho de ficar à espera do presunto, por exemplo, que pode nunca aparecer.
E qual é a solução para este problema do queijo? Alguns decidem que é não ir votar, o que eu não compreendia no passado, mas agora até compreendo, dado o estado do queijo que nos oferecem. No entanto, para mim, e digo isto como pessoa que nunca toca num pedaço de queijo, nem o fresco que não sabe a nada me convence, dizia, quanto a mim, não ir votar não é solução. Ah, mas votar em branco também não, respondem-me, porque o branco conta como os nulos. É verdade, e aqui está uma grave falha do sistema eleitoral português que devia ser corrigida mas que, suspeito, nunca será - o voto em branco devia ser alvo de uma contagem a par dos outros votos válidos, tal como em alguns países (não sei quais são, mas sei que existem).
Não tenho solução para o queijo. Não sou o tipo de pessoa que comece a fazer campanha ao presunto, não sou o chamado estilo "dinâmico". Vou votar, pronto. Tenho o cartão de eleitor. 
Aquela história do D. Sebastião que regressa na manhã de nevoeiro começa a parecer-me menos parva. Começo a gostar. De vez em quando, penso nisso.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Gajo que faz mesmo o meu estilo: Anthony Bourdain

Comecei a ver o programa deste senhor, "No Reservations," na SicRadical, e a princípio achava aquilo um bocado parvo, porque este Tony tem a mania de que é um rebelde mal comportado, drogas e tal, ex-portador de brinco na orelha e cigarro ao canto da boca, e tudo se conjugava para que eu o considerasse um bocado falso, ou com a adolescência mal ultrapassada. Depois percebi que ele é mesmo assim - é o chamado "cool". E , ainda que de facto insista demasiadamente na sua veia de rebelde com pouca causa, este homem é mesmo um fixe. Viaja e come com um prazer que me parece sincero, e interessa-se genuinamente pelos sítios que visita, pela comida que prova. Aprecia tudo, mesmo comida rápida, desde que seja boa. Uma vez, vi-o a provar uma sanduíche gigante, com meio quilo de bife, queijo derretido, salsichas, ketchup, salada, tudo lá para dentro, e, enquanto a degustava, dizia: "Este é o antídoto para a Alice Waters". Lindo.
Portanto, tudo o que seja delicodoce, levezinho, e chato como tudo, o Tony não gosta. A comida é para a gente gostar. Sempre que me vêm falar de comida assim e assado, ah, porque é mais saudável assim, ah, porque é mais "bio", ah, porque tem muito sal, eu respeito, sim; respeito, e levo a sério, porque, por exemplo, há determinados assuntos, como o tratamento que se dá aos animais que depois consumimos, que devem ser também levados a sério. No entanto, a onda da comida asséptica e queridinha tipo Jamie Oliver (e eu gosto do Jamie Oliver, a sério que gosto) irrita-me. Acho que só pensa em comida como se fosse uma mercadoria qualquer da moda quem nunca comeu verdadeiramente bem - e isto facilmente explica a proliferação de programas culinários fofinhos na televisão inglesa (atenção ao adjectivo gentílico), ele é Jamies, ele é Nigellas, ele é Gordon Ramsays, uns que cozinham na natureza com produtos biológiocos, outros que vão à caça, outros que fazem desafios culinários a ver quem cozinha mais depressa e melhor, tudo como se a comida, ou o acto de comer, fosse uma espécie de cristais Swarovski, não propriamente diamantes, mas algo que convém usar, ou ter em acessórios ou "bibelot" porque dá aquele toque de classe, um certo je ne sais quoi - em vez de vinagre Cristal, um balsâmico; em vez de mozarella, que também já cansa, um queijinho burrata, nome deslumbrante; em vez da tasca da esquina com bebida+prato+café a cinco euritos, porque não um gourmet low cost, onde se come alheira à mesma, mas assim como assim é mais caro, ainda que low cost - é a beleza da coisa. E é bom, em podendo, uma pessoa marcar bem o seu lugar na sociedade - a comida serve também para isso, e por mim está tudo bem, afinal, se passámos por uma ditadura, depois por uma revolução, e por tantas amarguras, já ganhámos o direito a ser finalmente burgueses, toca a aproveitar.
No entanto, tenho para mim que quem gosta de comer bem  identifica-se com certeza com o Tony, que gosta de qualquer prato desde que seja bom. Se é ou não vegetariano, se é ou não saudável, ou gourmet, disso ele já não quer saber, e pelos vistos tem-se dado bem, porque basta olhar para ele e ver que é um indivíduo todo jeitoso. Além disso, o Tony vai aos sítios, a países diferentes, e tem um olhar bem mais interessante, e bem mais profundo, do que o dito Jamie Oliver, que de vez em quando também viaja e acaba sempre por cozinhar a mesma coisa, sem grande esperteza para aprofundar costumes ou peculiaridades da região. Por exemplo, uma vez foi à Grécia e cozinhou bife de atum (!) na praia. É que me deu logo vontade de ir ali à Madeira, por exemplo, onde têm uma coisa mais ou menos parecida (só mais ou menos) e parecendo que não, sempre sai mais em conta do que ir agora apanhar avião para ir experimentar essa iguaria rara e super-grega, aliás, tipicamente grega, que é o bife de atum.
Mas não vou bater mais no ceguinho, ou como quem diz, no sopinha-de-massa, que o Jamie Oliver tem muito mérito, não é pretensioso e preocupa-se com aquilo que os miúdos comem nas cantinhas e tal. No fundo, o meu propósito era apenas e só dizer isto: gosto muito do Tony Bourdain porque, tendo sido chef profissional, tem autoridade na matéria e gosta de qualquer comida pelo prazer que a comida dá (além disso, escreve bem; estou agora a ler um dos seus livros, Kitchen Confidential, e estou a gostar bastante). 
Não me parece que a comida deva ser mais ou menos do que isto - um prazer da vida.