sábado, 23 de outubro de 2010

Muralhas, rochas, ilhas, coisas assim

Há anos que não ouvia Simon & Garfunkel. Sempre gostei muito deles, mas calhou deixá-los escapar da minha vida por muitos anos até ao dia de ontem, em que comprei daqueles CDs que são uma espécie de best of, retrospectiva e assim. Pensei que não ia gostar tanto das músicas como gostava há 10 anos, e de uma certa forma de facto não gostei, mas algumas canções houve que recordei com quase tanto entusiasmo como quando era adolescente e as sabia de cor e salteado. Sem dúvida que uma das minhas preferidas sempre foi (continua a ser) I am a Rock - o adolescente fechado no quarto, a olhar a neve da janela, a sentir-se reconfortado por não precisar de ninguém e ninguém precisar dele. "I have my books and my poetry to protect me". De facto, esta ideia é muito reconfortante. Os livros são seguros, abrigadinhos. As pessoas não, só dão chatices. 
Hemingway encontrou o título do seu livro "For Whom the Bells Toll", John Donne, que também escreveu, no mesmo texto ou ensaio ou poema, não sei, "no man is an island". E daí os sinos tocarem por todos nós. E daí um certo texto de Brecht* bastante conhecido, aquele que diz "vieram buscar os comunistas, e eu não era comunista, e depois vieram buscar os católicos e eu não era católico, e depois os judeus e eu não era judeu, e depois vieram-me buscar a mim. Não havia mais ninguém." (o texto não é assim ipsis verbis; estou a inventar porque não me lembro, mas sei que a ideia é exactamente esta).
Bom. Isto para dizer que agora, como cidadã e como ser humano que tento ser, estou consciente de que nenhum homem é uma ilha nem uma rocha e que precisa de bem mais do que livros para viver. E, no entanto, também me parece verdade que conseguimos, se quisermos, viver bem separados de todos os outros. No último filme de Woody Allen que vi, Whatever Works, Larry David diz, a certa altura, que lê o jornal, vê todas aquelas desgraças inimagináveis e o que é que faz? Não faz nada,  ignora, e isto porque é demasiadamente insuportável viver sabendo que aquelas catástrofes acontecem. "What can you do? It's overwhelming", diz ele, e tem razão.
E quanto ao resto, sinceramente, todos sabemos o quão fácil é não deixar que os outros não nos chateiem, se não quisermos de facto sermos incomodados. Eu raramente quero, se me puser a pensar com alguma honestidade.
Portanto, de uma certa forma, sim, cada homem é uma ilha, com os seus livros, a sua poesia, os seus filminhos, coisas que, controladamente, propositadamente, escolhemos a dedo para nos serem próximas. Por outro lado, não, não somos ilhas, porque como diz o Brecht,* quando nos invadirem a ilha e nos vierem buscar a nós (e eu acho que mais tarde ou mais cedo vêm, porque tendo a ser pessimista, mas também realista), como é que é? Nem que seja para, mais uma vez, velar pelos nossos próprios interesses, temos mesmo de, olha, como se costuma dizer, ser uns para os outros.
O meu problema com isto é que dá um trabalhão e raramente apetece. Estou a tentar resolver este dilema.
Realmente, Simon & Garfunkel têm canções muito interessantes.



* Um leitor atencioso fez o favor de me informar que a frase não é de Brecht, como eu pensava, mas sim do pastor Martin Niemoller, tal como pode ser confirmado na Wikipedia. Aqui fica a correcção.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Uma coisa é ser mulher, outra coisa é ser senhora

Estava aqui a ler este lindo blog e deparei-me com a citação do dia, que calhou ser de Margaret Thatcher  (espero que a Lenor não se importe que eu cite aqui algo que encontrei citado no blog dela):

Being powerful is like being a lady. If you have to tell people you are, you aren't.

Isto não se aplica apenas às pessoas poderosa e/ou às senhoras. Aplica-se a toda a gente que quer ser vista de uma determinada forma e não é: quem é bonito não precisa de dizer que é bonito; quem é inteligente não precisa de dizer que o é; quem é rico não precisa de dizer que é; quem é, em geral, bom, isto é, pessoa de qualidade, não precisa de dizer que é, e de facto não diz, e etc. 
De modo que hoje já tive a surpresa do dia, que é concordar com algo que a Margaret Thatcher tenha dito, e encontro-me agora a indagar o que é isto de ser "uma senhora". Parece-me uma questão algo premente. Durante muito tempo, pensei que era não ter ouvidos, aquilo que tantas vezes me foi ensinado como única resposta digna aos comentários libidinosos que qualquer mulher, senhora, rapariga, menina, o que se quiser, tem necessariamente de ouvir, com maior ou menor frequência, só por se limitar a andar na rua. As senhoras, mulheres, raparigas, o que seja, têm de aprender cedo, neste país.
Dizia Simone de Beauvoir que não nascemos mulheres, tornamo-nos mulheres. E senhoras? Da mesma forma que se aprende culturalmente a ser mulher e homem, também se aprenderá culturalmente a ser senhor e senhora, e usar garfo e faca e flute de champanhe e etc, ou ser senhora quer apenas dizer não ser prostituta, ou quer apenas dizer que se pode ser o que se quiser, prostituta e tudo, desde que seja honesta, ou é o quê? A minha vã filosofia não alcança. 
A afirmação de Margaret Thatcher, que eu por acaso acredito que seja mulher  e além disso senhora, talvez queira dizer que ser "senhora" é uma qualidade intrínseca, da mesma forma que certos homens são "gentis homens", e que isso ou é inato ou não é. Não se pode aprender, não se pode fazer esforço para  o ser e andar por aí a dizer às pessoas, como aquele indivíduo do Little Britain, "I'm a lady, I'm a lady". 
Pois é. A questão é que esta ideia do inatismo, sobre a qual se escreveram imensos livros, nomeadamente um manual de boas maneiras interessantíssimo e tremendamente popular no Renascimento, chamado Il Cortegiano, tem muito que se lhe diga. Neste manual cortês, por exemplo, Castiglione (o autor) defendia que ser cortesão é uma qualidade inata, que no entanto pode e deve ser trabalhada, e porque não refinada, por quem nasceu com ela - mas claro, há que nascer com ela. 
De modo que a conclusão que eu retiro disto tudo é que, como dizia a Susaninha, amiga da Mafalda (a banda desenhada), "uma coisa é ser mulher, outra coisa é ser senhora".  Eu, realmente, concordo. Não vamos agora estar a confundir as coisas e a comprometer valores e princípios, os mesmos que rezam que  cada macaco tem de estar devidamente no seu galho, e é mesmo assim.
Pronto.

A causa que se perdeu

Não consigo evitar, e nem sequer quero. Quando penso em pessoas deste estilo:





o que ouço é isto:



Nas palavras de Mago, o gato d'Os Bichos: misérias desta vida.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Sôbolos rios que vão

Descobri hoje que o novo romance de Lobo Antunes tem como título este verso do Camões. Não sei se vou ler, se não (o mais recente que li de Lobo foi "Não Entres Tão Depressa...". Não gostei, houve ali qualquer magia que não se deu). De qualquer forma, fiquei com um certo apetite, porque o título é espectacular. E é espectacular porque o poema também o é. A minha parte favorita (do poema) é:


Bem são rios estas águas,
com que banho este papel;
bem parece ser cruel
variedade de mágoas
e confusão de Babel.

Como homem que, por exemplo
dos transes em que se achou,
despois que a guerra deixou,
pelas paredes do templo
suas armas pendurou:

Assi, despois que assentei
que tudo o tempo gastava,
da tristeza que tomei
nos salgueiros pendurei
os órgãos com que cantava.
Aquele instrumento ledo
deixei da vida passada,
dizendo: - Música amada,
deixo-vos neste arvoredo
à memória consagrada.

Se calhar, foi por isto que Lobo deu ao livro o título de Camões - é o guerreiro que se retira, que pendura as armas, que já não tem força para a guerra. Não sei, pode ser. Talvez. 

Parasitas

No fim de semana que passou, ouvi na Antena3 uma parte de um programa interessante sobre o DocLisboa, em que Fernando Alvim entrevistava a senhora que escreveu o livro que saiu há pouco tempo sobre António Feio, e o realizador do documentário Os Lisboetas, o Sérgio Trefaut. A certa altura, Fernando Alvim diz qualquer coisa como "os documentários não precisam de subsídio", sendo que isso era uma vantagem que tinham relativamente à ficção. Sérgio Trefaut ficou bastante agastado com isto - disse que aquilo que na verdade subjazia a este tipo de comentários é a velha, triste mentalidade de que tudo o que seja artista é parasita e tem de viver de apoios estatais em vez de andar a trabalhar a sério; que só havia, no mundo, quatro países que conseguiam uma indústria cinematográfica independente dos tais subsídios públicos (EUA, Índia, Egipto e outro de que não me consigo mesmo lembrar); que na Europa, e em geral, não há documentários sem subsídios (ou pensava ele, Fernando Alvim, que o documentarista que seguiu Saramago por 15 países andava a ser sustentado pelo pai e pela mãe, perguntava Sérgio); lá pelo meio, ouvi nitidamente a expressão "atrasado mental", mas não consigo precisar nem garantir se Sérgio Trefaut chamou mesmo isto ao entrevistador, embora perceba inteiramente que tivesse vontade.
Já se sabe que, em tempos de crise, a chamada "cultura" é a primeira a sofrer profundamente, porque em geral as pessoas acham que é supérflua. Também se sabe, curiosamente, que a qualidade de vida das pessoas tem a ver, entre outras coisas, com o acesso que têm a teatro, música, dança, exposições, coisas que sejam aprazíveis, que façam pensar, descontrair, enfim, que nos dêem uma emoção. Se não há meios privados que garantam isto, mecenas ou patrocinadores ou o que seja, então tem de ser o Estado. Não estou a ver outra possibilidade. Percebo que seja contra subsídios para a cultura quem igualmente também acha que as pessoas não precisam verdadeiramente da mesma cultura para viver, e que esta não passa de um luxo que deve estar à disposição apenas daqueles que a podem ou querem pagar. Quem, porém, eventualmente partilhe da opinião de que a vida de qualquer cidadão não pode ser só reduções de salários, aumentos de IRS, orçamentos de estado aprovados ou chumbados, partidos políticos em espectáculos miseráveis, um parlamento com os pés para a cova e em geral um esfacelamento apagado e vil da democracia em geral, de tal forma que ouvir as notícias se torna algo quase abjecto, enfim, as pessoas que ainda querem alguma qualidade de vida para si e para os outros perceberão, penso eu, que os subsídios estatais serão, talvez, e por enquanto, a única forma de se conseguir que ainda haja filmes para ver, e peças de teatro, e bailados, e coisas assim bonitas em geral.
De modo que gostei bastante de ouvir Sérgio Trefaut e estou com ele e com todos os outros artistas. Não me consigo lembrar de nenhum artista que seja parasita, mas consigo lembrar-me de muitos parasitas que não são artistas, por exemplo. E contra esses ninguém resmunga. Portanto, o Estado deve pagar e calar, quanto a mim, que pago impostos e blá blá blá. 
Fim. 


segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Razões pelas quais estou contente de ler as BDs do Corto Maltese (para além das óbvias razões estéticas, o brinco na orelha, o cabelo escuro, moreno, alto, lindo, ai, ai, pronto, vou parar)

 
Na aventura na Sibéria, Rasputine, que é um doido, tenta matar Corto com um punhal, mas falha a facada. Corto pergunta-lhe o que se passa com ele, Rasputine, que costumava ser exímio matador. Rasputine diz que era só uma partida, e continua:

Hoje, escondi-me enquanto falavas e feri-me ligeiramente para te fazer crer que me tinha acontecido alguma coisa. Quis dar-te uma emoção, Corto, porque gosto de ti...

É mesmo das coisas mais bonitas que nos podem dar, uma emoção. Com ou sem punhalada, é uma coisa bonita. Concordo com Rasputine. Ainda melhor é conseguirmos ser nós a dar a emoção.
Pode ser uma lamechiche, mas tudo isto é verdade.

Razões pelas quais estou contente por persistir na releitura do Auto dos Danados

Como tudo na vida, há vantagens e desvantagens. Comecemos pelas desvantagens, que são:

1) "Como os corpos na morgue, a Ana embrulhava-se naa colcha na extremidade da cama, e o piaçaba dos cabelos emaranhados despontava da roupa. O pingo triste de cera de um calcanhar defunto tombava no chão"

2) "Edward G. Robinson observou de esguelha o pechisbeque enquanto contornava o capot. A pistola debruçava-se do sovaco como uma lágrima de um olho"

3) aquela sensação mais ou menos desconfortável, ou pouco original, de que estamos face a uma versão portuguesa do Som e a Fúria, mas no mau sentido, porque cada livro deve ser único; ainda que um livro faça lembrar outro, uma proximidade tão grande, ou uma inspiração tão pronunciada noutra obra, não é muito agradável para o leitor. Isto, a meu ver, claro.

Passemos às vantagens, que superam as desvantagens, como penso que este excerto demonstra amplamente:

"... e eu calei-me por prudência, absorvido no caminho, em lugar de dizer que se tratava de uma família nojenta de cabras e bois mansos a devorarem-se mutuamente no casarão do Guadiana, a sonegarem-se as heranças, a odiarem-se, a roubarem-se, a esmagarem-se, a destruírem-se, e tudo isto debaixo da boquilha e da pálpebra cáustica do avô, derramado na cadeira de baloiço da sala, a assistir numa alegria formidável à agonia da sua matriz, como se não suportasse que nada de seu sobrevivesse no fim..."

Safa. Nos Danados, há este efeito quase de espiral destruidora, que eu acho que Lobo Antunes consegue muito bem em certos livros, e em que se descobre mais e mais das personagens e da história, e é tudo cada vez mais estéril, horrível, desesperado. A estrutura da narrativa, fragmentada em várias vozes, vem de facto do Som e a Fúria, mas acaba, de uma certa forma, por compensar o leitor, porque o deixa em sofrimento absoluto ao ir descobrindo cada vez mais da força avassaladora de uma família em derrocada.
E depois há esta ideia central nos Danados, que explica o título do livro e também o verdadeiro sofrimento que provoca (pelo menos em mim, provoca): a destruição total que a família, como unidade primordial da sociedade (as sociologias e as economias dizem que sim) pode representar. Se há força que consegue dar tanta felicidade como também esterilidade total, por mais paradoxal que seja, é a família.
Agora estou a sentir-me um bocado mal. Vou ter de ficar por aqui. A ler o Auto dos Danados, que vale a pena, pá.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

One night stands



As noites passam-se como se quer, que cada um é como cada qual. Para mim, esta canção sempre disse tudo.
Os Pulp eram uma banda muito sensível e eloquente, quanto a mim.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Com Deus não se brinca, Zé Rafael!

To criticise a person for their race is a manifestly irrational and ridiculous. But to criticise their religion - that is a right. That is a freedom. And a law that attempts to say you can criticise or ridicule ideas, as long as they are not religious ideas, is a very peculiar law indeed. It all points to the promotion of the idea there should be a right not to be offended... In my view, the right to offend is far more important than any right not to be offended.

Quem diz isto é o Rowan Atkinson, que costumava ter muita piada a fazer de Mr Bean e de Blackadder. O artigo, publicado no Guardian, é antigo, de 2004, mas tem muita relevância, acho eu.
Este argumento de se dizer que " não se brinca com aquilo em que as pessoas acreditam" é um tanto ou quanto, não sei, diria que parvo. Brinca-se, goza-se, troça-se, e paciência. É assim. A lei apenas pode prevenir e proibir a discriminação efectiva, não pode nunca proteger ninguém que sente que foi ofendido porque as suas crenças religiosas foram insultadas, troçadas, alvo de crítica ou graça.
Se me perguntarem, "ah, mas gostavas que gozassem contigo por causa da tua religião?", é evidente que não, não gostava. Não considero que se deva incitar as pessoas a troçarem umas das outras por causa da religião ou valores pessoais. No entanto, não podemos perspectivar as coisas neste plano. Por exemplo, eu sou contra a pena de morte e tenho dificuldade em aceitar que haja gente que seja a favor. As pessoas a favor costumam perguntar-me, "mas se te acontecesse isto ou aquilo a ti, não querias que o criminoso morresse, não achas que o deviam condenar à morte?". É evidente que sim, que o desejaria, que o matassem, esfolassem, etc. - eu, em particular. Eu não sou o Estado (com alguma pena minha). Daí a considerar que o Estado deve poder andar por aí a matar gente, vai uma grande distância.
Quando a notícia linkada ali em cima saiu no Guardian, andava tudo em alvoroço devido àquele jornal dinamarquês que tinha publicado uns cartoons com imagens de Maomé, que algumas comunidades muçulmanas consideraram muito ofensivas. É uma pena que tal tenha acontecido, e é pena que as pessoas se tenham sentido ofendidas. Sabemos, também, que nenhum direito é ilimitado, muito menos o direito à liberdade de expressão. Mas não me parece que isto se possa controlar - há que aceitar que a religião pode estar sujeita a ofensas, que quem ofende tem o direito de ofender e que quem é ofendido tem o direito de se sentir ofendido. Pode fazer-se alguma coisa relativamente a isto? Não.
Como diz Rowan Atkinson, e a meu ver bem, há uma diferença fundamental entre ofender alguém com base na sua etnia, nacionalidade, etc., e ofender alguém quanto à religião que escolhe seguir.
Não chora, colabora (prometo que vou para de usar esta frase num destes dias).
É que Deus, com certeza, também precisa de se rir e brincar de vez em quando, como se ilustra no vídeo aqui em baixo.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Vira-casacas

Até quando é que uma pessoa se deve esforçar?
O que pergunto é se há uma idade aceitável a partir da qual a pessoa não tem de pensar no que diz e a quem diz, como se deve vestir, quem deve conhecer e quem deve ignorar, o que deve ou não comprar, como se deve comportar, que trabalho deve ter, que emprego não deve aceitar, quantos livros ler e que livros, quantos filmes ver e que filmes, etc.
John Cusack diz, em Alta Fidelidade, e com uma certa razão: "what matters is what you like, not what you are like". Até que ponto é que aquilo de que gostamos é diferente daquilo que somos? Se eu gostasse da Britney Spears, era menos pessoa por causa disso? Se calhar, era. Não, não era nada, que disparate.
Quem diz que não se deixa influenciar por estas coisas, que não quer saber, está a mentir. Nunca conheci ninguém que não quisesse saber, mas já conheci muita gente que pensa não querer saber. Não estamos só a falar de aparências - estamos a falar de um esforço constante que vamos adaptando à situação, ora aqui deixa-me esconder que sou de esquerda, ora aqui convém disfarçar que sou mais neoliberal de direita, e aqui não vou dizer que não gostei do Guerra e Paz, vou só dizer que tenho de ler outra vez, quando for mais velha, e aqui vou dizer que sim senhora, até ouço Sigur Ros, e mais tarde já digo que não, realmente Sigur Ros são uma seca (por acaso, acho que são mesmo, já escrevi sobre isso, blá blá blá).
Sei muito bem o que me vão dizer - ah, realmente, que vira-casacas. Nada disso, ou por outra - acho que o sou na exacta medida em que os outros também são. Adapto-me. É uma questão de sobrevivência, de uma diplomacia inata que nos permite ir manobrando a vida até esta se tornar suportável na dimensão de chatices que comporta.
Mas requer algum esforço. Uma coisa é vir para um blog, escrever o que apetece de forma quase anónima, outra bem diferente é todos os dias lidar com colegas, chefes, superiores ou inferiores, o que seja, e ter não necessariamente de agradar a toda a gente, mas manter uma máscara de civilização. Se alguém no trabalho me diz que acha muita graça a ir a concertos da Anastasia, a ouvir as anedotas do Fernando Rocha e ir à Madeira no Ano Novo porque o fogo-de-artifício é tãããããão giro, faço o quê, dou-lhes um estalo na cara?, ou opto por um meio sorriso, sim senhora, a Madeira e tal, por acaso nunca fui, gostava de ir, se calhar no Ano Novo é bom, disseram-me que a Anastasia é muito profisisonal ao vivo, dá grandes concertos, quanto a Fernando Rocha calo-me, e assim por diante.
E pronto, sinceramente, é tanto esforço que uma pessoa se cansa amiúde. Dizem-me que só quando eu for reformada é que isto passa, mas pelo andar da carruagem e pelas previsões dessa instituição que é, digamos que, espectacular, o FMI, nem sequer vou ter reforma nenhuma, portanto estou sem saída.
Como dizia o outro, e como já escrevi antes, não chora, colabora.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Bicicleta

Hoje tinha tanta, tanta, tanta vontade de andar de bicicleta, pedalar e pedalar, e ver os prédios a passar muito depressa, e tocar à campainha com força para as pessoas saírem do caminho, e continuar a pedalar, e aquele lugar-comum de sentir o vento na cara e sermos saudáveis e sentirmos que o mundo é todo nosso é mesmo verdade, e mesmo quem anda mal de bicicleta, como eu, e tem de parar nas rampas e empurrar aquilo por ali acima até ficar ofegante que é uma vergonha, ou então descer rampas quase a travar até se arriscar a cair da bicicleta abaixo, dizia eu, até quem é assim gosta de andar de bicicleta, e depois chega-se a casa e as pernas doem tanto, e lá fora estava frio mas nós estamos encalorados e é tão bom.
Já há muitos anos que não tenho uma bicicleta minha, e a última vez que andei estava em Londres, o tempo estava curiosamente lindo, fui para o meio do campo no meio de Londres, o que, também curiosamente, pode acontecer, e pedalei até me fartar, e toda a gente se desviou do caminho, e o sol brilhava no rio, e tudo parecia tão perfeito que nem parecia um dia normal, mas era, e havia um silêncio tão grande, nem os cães que passeavam com os donos faziam barulho, era mesmo campo, e isto no meio de uma grande cidade, mas depois tive de voltar para casa por ruas mais agitadas, já era de noite e apareceu-me um daqueles autocarros de dois andares por trás e tive de subir para o passeio, e isso assustou-me um bocadinho, mas não aconteceu nada, cheguei a casa sã e salva e orgulhosa de mim própria, e tinha um cachecol de lã muito quente que a minha mãe me fez, muito bonito, e um kispo muito feio, à homem, por cima, que tive mesmo de usar por causa da temperatura, e tinha as calças arregaçadas para não se prenderem nas correntes e as pernas ficaram todas arranhadas e sujas de óleo e eu não me importei nada, e as minhas mãos, sem luvas porque não tinha luvas, estavam rígidas e quase congeladas de agarrarem no guiador com tanta força, e eu senti-me tão bem, melhor do que nunca.
Hoje tenho saudades de uma bicicletazinha. Pronto. O Almada Negreiros dizia que a salvação não está nos livros, mas se calhar está numa bicicleta a toda a velocidade. A salvação e a liberdade.
O post é mesmo só isto.

domingo, 10 de outubro de 2010

Nozes, dentes, chicotes

Em Melinda e Melinda, de Woody Allen, há uma personagem, Lee, que está com a sua jovem amante e fala da mulher com desprezo. Diz que a mulher não faz mais do que almoçar e ir às compras, e quando a amante lhe pergunta se ela não faz mesmo mais nada, Lee responde que ela de vez em quando dá aulas de música numa escola (a mulher de Lee, interpretada por Chloe Sevingy, tinha grande talento para o piano). Lee termina a sua tirada desagradável sobre a mulher dizendo algo como it's funny, but life has a malicious way of dealing with great talent.
Deixando de parte o comentário óbvio, que é o facto de os filmes de Woody Allen, por mais repetitivos que sejam, tenham sempre, sempre, sempre algo que vale a pena, a verdade é que esta tirada de Lee é assustadoramente verdadeira. A História está repleta de exemplos de grandes génios, talentos imensos, para quem a vida foi muito mais difícil precisamente por causa do seu talento (olha o Mozart, olha o Camões, olha o Antero de Quental, olha o Edgar Allan Poe, olha o Van Gogh e etc.). Para toda esta gente, a vida devia ter sido mais fácil, o mundo devia imediatamente ter-se rendido ao talento extraordinário. Mas a vida foi, para eles e para outros com talento, muito mais complicada do que deveria ter sido. Tenho pensado, por exemplo, em Billie Holiday, sobre quem vi um documentário há pouco tempo. A Billie estava a cantar com uma banda de swing de músicos brancos e, num dos hóteis em que actuaram, foi-lhe exigido que usasse o elevador de serviço, dos empregados, para não incomodar os clientes. Em qualquer sítio em que cantasse, o mínimo que a Billie Holiday mereceria era um silêncio reverente de admiração. Mas não, em vez disso, elevador de serviço, para aprenderes que o teu talento não serve para nada e não é nada comparado com outros valores que, na altura, e infelizmente, se levantavam.
Parece que as coisas são sempre mais fáceis para os vaidosos, medíocres, talvez porque estes, como dizem os brasileiros numa expressão de que eu gosto bastante, "não se enxergam". Quem se enxerga e tem talento talvez tenha um poder de auto-crítica que será, eventualmente, quase destruidor.
Truman Capote escreveu um belíssimo texto sobre mais ou menos isto. Na introdução ao "Music for Chameleons", Truman diz que Deus, ao conceder-lhe talento para escrita, lhe tinha dado também um permanente chicote que o feria constantemente. O seu talento era também a sua tortura.
Mas pelo menos quem tem um chicote é obrigado a fazer algo com o seu talento. Há gente que tem talento, não tem chicote e depois não sabe o que fazer com o talento que tem, o que quase equivale a não ter talento nenhum. É a tal história das nozes a quem não tem dentes. Portanto, Deus, além das nozes e dos dentes, nunca se deveria esquecer de dar também um chicote bem estaladiço às pessoas, tal como deu ao Truman.

O que é bom quando nasce é para todos

No Facebook, há um grupo que pede "o regresso da exibição regular de cinema na RTP2". Já apoiei, sugeri a amigos e assinei a petição. Concordo com o que se diz na mesma - se há um canal público, este não deve ser irresponsável e optar por programação generalista  e descuidada só porque todos os outros canais privados o fazem.
Não queria, porém, dar aqui razão àqueles que se insurgem contra o facto de a RTP2 passar programas que só 0,00002% da população vê, e que assim não pode ser, porque é um canal "elitista". Em primeiro lugar, não vejo problema nenhum com o elitismo, e seria até bom que o país em geral fosse menos generalista e menos elitista. Sobre isso já escrevi, não vou repetir. Em segundo lugar, esta mania de que certos programas são para ser vistos por uma percentagem mínima de gente é um bocado ridícula. Qualquer pessoa prefere um programa bom, independentemente de todas as telenovelas e concursos que a TVI se lembre de passar. Não acredito que uma pessoa que comece a ver um filme do Hitchcock, por exemplo, passando depois para uma telenovela, não acabe por se aborrecer e mudar outra vez para o canal que está a dar Hitchcock. É só uma questão de ter ambos os programas igualmente acessíveis, em horário equivalente, com publicidade equivalente.
A ideia de que certas coisas são "difíceis" e não são para todos é perniciosa e mentirosa. Tudo aquilo que é bom é para todos - faz parte do facto de ser bom. O que é mau, pelo contrário, é que não é para todos. É apenas e só para os medíocres. A maior parte das pessoas pode não ser um génio, mas bolas, todos nós somos pelo menos normais.  Eu sei bem o que dizem as sondagens, e as sondagens dizem que as pessoas vêem o telejornal da TVI, concursos e telenovelas. Ora, eu não acredito que esta gente toda seja medíocre. É um bocado absurdo pensar-se isso. As pessoas escolhem a televisão que vêem pelo que é mais fácil. Se se tornar o Hitchcock mais fácil (horário nobre, logo a seguir às notícias, por exemplo), as pessoas vêem, porque se divertem mais. Entre os Pássaros e as Tardes de Cocó ou da Júlia ou lá o que é, o que é que qualquer pessoa minimamente inteligente prefere? Os Pássaros, claro.
Ainda que a RTP2 passasse cinema só para os tais 0,00002% da população, eu continuaria a apoiar, porque qualquer canal do Estado tem de ter programas para todo o tipo de cidadãos, minorias ou não, elites ou não. Mas não me parece ser este o caso. Penso que se trata mais de dar às pessoas uma hipótese de escolha mais honesta - ora aqui têm as Tardes de Cocó e a telenovela Xixi na Cara, ou então um Hitchcockzinho, um Woody Allenzito, e assim por diante. Entre dejectos e Woody Allen, eu acho que as pessoas com algum grau de sanidade mental vão mais para o Woody Allen. E não penso que esteja a ser demasiadamente optimista, acho que é mesmo assim.
Portanto, sejamos realistas, exijamos (? que forma verbal esquisita) o impossível, tornemo-lo possível e toca a ter todo o Portugal a ver bom cinema, a horas decentes.
Eu tenho um sonho.

sábado, 9 de outubro de 2010

Príncipe Encantado vs Pobrezinho mas Honrado

Uma das minhas canções de sempre, com um texto de sempre, é a Canção do Engate, de António Variações, o Grande. E sim, levem-me em auto de fé e vilipendiem-me em público qual Maria Antonieta, ainda por cima eu, que posso não ter tantos vestidos como ela mas que bem aprecio bolinhos, mas gosto muito também da versão dos Delfins, essa banda que tão rapidamente, e por culpa dos próprios, se tornou em motivo de chacota por parte de quem ouve música.
Mas continuando. Desde adolescente que me interrogo se será verdade que "o amor é um momento em que me dou e tu te dás" e, ainda mais fundamentalmente, se será verdade que é possível ficar-se à espera "do melhor que já não vem, e a esperança foi encontrada antes de ti por alguém. E eu sou melhor que nada".
Eu queria que isto não fosse verdade. Mas assim em geral, acho que é. Acho que é fácil as pessoas, e eu também, contentarem-se não com o "melhor", seja isso o que for, mas com o possível. Pronto, não é o Príncipe Encantado, mas é Pobrezinho mas Honrado, e é isso que interessa, não é?
Não, não é. O Príncipe Encantado nunca serviu para nada, mas Pobrezinho mas Honrado, ou seja, contentarmo-nos com aquilo que, na vida, nos parece apenas "o possível" também não chega, muito menos se se está a pensar naquelas coisas que maior parte das pessoas quer fazer, ou sente que tem de fazer - casar, ter filhos, comprar casa, carro, ter um cão, gostar de ensopado de borrego, etc.
Nunca se deve fazer nada, ou deixar de fazer alguma coisa, porque se tem medo - foi esta uma das lições mais importantes que a minha mãe sempre me ensinou. Consequentemente, não se deve escolher ninguém, por um momento ou para o resto da vida, porque se tem medo de ficar à espera, de ficar sozinho ou sozinha, porque depois chego aos 40 anos e como é que é. Concordo com António Variações, o amor é um momento, sim, mas ou é daqueles momentos que nos abalam a vida ou não é. Se não for assim, não vale a pena. Mandem o Pobrezinho mas Honrado ir passear.
De modo que, e concluindo, concordo em absoluto com António Variações. É uma canção triste, mas é realista. Em geral, o que vejo é as pessoas decidirem as coisas pelo "isto é melhor que nada". Não deveria ser assim, digo eu, mas é o que acontece. Também já me aconteceu a mim. Depois percebi, e felizmente a tempo, que o Príncipe Encantado podia não existir (e ainda bem, porque aquilo do cavalo branco nunca me conveceu muito), mas que o Pobrezinho mas Honrado também não enche as medidas de ninguém. Mais vale irmos à nossa vida porque há muito mais para conhecer, muito mundo para explorar e, felizmente, gente muito mais interessante para nos entreter. Não há assim tanta gente - mas vai-se arranjando.
E portanto, o meu obrigado a António Variações por me ter aberto os olhos e não me ter poupado. A esperança foi encontrada antes de ti por alguém, mas qualquer alguém consegue encontrar a sua esperança.
E por aqui termino, que este post, além de não fazer a justiça que eu queria à grande canção de Variações, está digno daqueles conselhos da revista Maria que, pensando bem, talvez seja uma opção profissional que eu não deveria negligenciar. Se alguém trabalhar na Maria e tiver um email para onde eu possa enviar o currículo, é só dizer (4000 euros por mês a trabalhar de casa e todas as despesas pagas é o mínimo que me podem oferecer, estou já a avisar. Bem haja).

Lágrima ao canto do olho

Este link é a minha forma de retribuir, porque realmente a amizade, bolas, é uma coisa tão importante e bonita que até dá vontade de chorar.
Concordo e retribuo em tudo, Tolan, como espero que bem saibas.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Reencontros

Ultimamente, tenho andado frouxa, e isso não se deve ao tempo, deve-se antes ao facto de não andar a ler nada de jeito. Até faz impressão.
Costumo ter um certo método na leitura, e consiste este método em começar a pensar no próximo livro para ler antes de terminar o que estou a ler. Ora acontece que acabei um livro há pouco tempo, gostei relativamente, e não acautelei esta situação de ficar sem nada para ler. Pensei que tinha em casa um livro que ainda não tivesse lido, mas realmente não tenho, isto é, tenho talvez um ou dois que não li, mas que agora também não me apetece nada, nada ler. E ando nesta perdição estultificante.
Para me entreter, e para ajudar a dormir, pus-me a ler um livreco que já tinha tentado ler antes e que é uma espécie de biografia do Marlon Brando mas que, além de estar ridiculamente mal traduzido, acaba por ser muito entediante, de tal modo que nem sequer me ajuda a adormecer. A verdade é que a vida sexual de Marlon Brando, que é efectivamente o tema do livro, não tem assim muito que dizer - consistia em dormir com quem lhe aparecia à frente. Mal o livro faz menção a uma personagem nova que Brando conhece, já eu sei onde é que aquilo vai acabar. Peca por ser previsível, portanto.
De modo que ontem decidi voltar a ler um livro de Lobo Antunes, o primeiro de todos os seus romances que li, e que é o Auto dos Danados. Já há algum tempo que queria relê-lo, porque me lembrava de ter adorado. Mas, afinal, não sei se é assim tão boa ideia. Não estou a gostar tanto como da primeira leitura. Uma coisa que nunca tinha sentido em Lobo era exagero linguístico - neste livro, tenho sentido um bocadinho. Por exemplo, há uma personagem, Nuno, que se levanta da cama e diz qualquer coisa como "levantei-me pingando noite". É um imagem bonita, uma descrição eficaz, mas há aqui qualquer coisa de escrita que se esforça demasiado. Nunca tinha sentido isto nos romances do Lobo, e não me ocorreu, com toda a certeza, da primeira vez que li os Danados. Porém, é a escrita em si que me tem causado mais estranheza, e não a história. Como sempre em Lobo Antunes, o enredo é de uma intensidade e dureza evidentes, de modo que o Auto dos Danados continua a ser, obviamente, um belíssimo livro.
E porém, entristece-me sempre reler livros que, afinal, não correspondem ao impacto soberbo da primeira leitura. É como encontrar alguém de quem gostámos muito uns anos depois, e a pessoa mudou para pior, está mais parva, verificamos que afinal não é assim tão inteligente, e a vida dela é muito mais desinteressante do que pensávamos.
É evidente que vou continuar a ler o Auto dos Danados, esperando mudar de opinião e reencontrar o livro que, dantes, eu adorava. Mas começo a pensar que re-leituras, reencontros, confrontos com o passado, nunca são grande ideia. Aquilo que correu bem no passado deve permanecer assim, uma memória agradável. Não deve voltar a fazer parte da realidade.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

A basezinha

O feriado desorientou-me. Ontem, passei o dia todo a pensar que era Domingo. Hoje, ando a pensar que é segunda-feira, apesar de ser quarta. Levantei-me como se fosse segunda-feira e fui trabalhar como se fosse segunda-feira, e só depois reparei que afinal era quarta, de modo que fiz tudo mal, tudo ao modo de segunda-feira, quando na verdade devia ter feito as coisas como pede a quarta-feira.
Por mais que eu não queira, a minha cabeça acha que hoje é segunda e que amanhã é terça. De certeza que amanhã cometerei o mesmo erro, e passo a semana nisto, chegando a sexta-feira a pensar que é quarta, e a sábado a pensar que é quinta. De certeza que o despertador toca de madrugado no sábado e eu faço-me à estrada, a achar estranho não haver trânsito e a rádio desejar-me constantemente um bom fim-de-semana, quando ainda é só quinta-feira. Depois chego a Domingo e aí já penso que é sábado, estando portanto tudo bem, mas o problema é que se vai chegar à próxima segunda-feira e eu, convencida que é Domingo, fico em casa a dormir, não compareço ao local de trabalho e só lá vou na terça-feira, a pensar que é segunda, fazendo tudo como se fosse segunda-feira ao invés de fazer as coisas de terça-feira, e assim sucessivamente, até faltar a tantas segundas-feiras e fazer tanta coisa ao contrário que sou despedida, e desta tragédia não haverá saída, perco morada permanente, perco carro, deixo de pagar impostos e restantes taxas públicas e privadas e o Estado e a banca, papões vingadores e traiçoeiros, perseguem-me imediatamente com o único intuito de me despedaçar, sei lá se a droga não me começa a seduzir, e depois o que é o que eu faço.
O meu problema é que vivo de rotinas, e se me falha a rotinazinha, falha-me o resto. Sou assim, sou como o Kafka era mas sem o talento, pacatamente a fazer as minhas coisinhas, na minha mesinha, na vidinha e tal, e se vem a loucura do feriado, desoriento-me por completo. Como se diz n'Os Maias, embora acerca do latim, a rotina, a rotinazinha, é a base. É a basezinha.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Gaja que faz o meu estilo: Julia Margaret Cameron

Vivesse eu no século XIX e enviaria o currículo, passado a computador para impressionar, para a Julia, na esperança de trabalhar com ela, com os daguerreótipos ou lá como se chamava na altura.
Era tia-avó de Virgina Woolf, isto é, tia da mãe da Virginia, e nota-se bem o distinto veio artístico da família nos retratos de Julia. Todos eles uma poesia, diria eu.
Esta é a também Julia, mas Jackson, mãe de Virginia Woolf (que pescoço invejável, há que dizê-lo):


Esta é uma rapariga com um cabelo espectacular (designada por The Angel at the Tomb, fotografada em 1869):


E esta beleza é a Ophelia de Shakespeare (embora possa ser a Ofélia que se quiser, quem sabe a das cartas de amor e de Fernando Pessoa; figuras trágicas, enfim):


Lindo, lindo, lindo.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Algo está podre nessa maçã

Tinha uma amiga que dizia que não gostava de namorar com nenhum homem que se risse muito. Não gostava de ver elementos do sexo masculino sempre a sorrir e a mostrar a dentuça, fosse esta última bonita ou feia - era uma idiossincrasia que ela tinha.
Dizia esta minha amiga que rir muito era piroso, ainda por cima num homem. Um homem tinha de ser sério e armar-se em difícil, o chamado "strong silent type", quase à Clint Eastwood nos westerns do Sergio Leone. Escusado será dizer que a mesma amiga se queixava muito - e porque é que não resultava, e porque é que ele era tão difícil, e porque é que nunca tinha a certeza, e porque é que nunca se resolvia a nada, e etc. e etc.
Há esta ilusão de que temos de nos "fazer difíceis" para conquistar os outros, porque nada na vida é fácil, as melhores coisas dão sempre mais trabalho, e argumentos semelhantes. É uma ilusão, acho eu. Uma pessoa que se faz difícil está apenas a demonstrar que é uma pessoa difícil que talvez deva ir viver com os pais, os únicos que terão alguma obrigação de aturar as suas birras. A não ser que se seja adepto daquilo que o meu pai às vezes diz, e que é "se as coisas podem ser complicadas, porque é que a gente as há-de fazer simples", não percebo porque é que as pessoas têm esta atracção por tudo o que seja homens ou mulheres "difíceis". Ah, é porque o fruto proibido é o mais apetecido - sim? Pois, não me parece. O fruto proibido é sempre o que dá mais trabalho e mais chatice - não é, de todo, o que sabe melhor, de modo que não deverá ser o mais apetecido. Mas enfim, cada um é como cada qual, e se o nosso desejo é a maçã que não se pode comer, então que se vá à luta, mesmo que a maçã tenha bicho (e tem de certeza).
Não há seres humanos perfeitos, do mesmo modo que não há maçãs perfeitas. Se o ser humano ainda se arma em difícil, para além de todos os defeitos que com certeza tem, não estou a ver grandes augúrios de felicidade. A minha querida amiga, hoje em dia, aprendeu que é muito bom viver com um homem que sabe rir, que é bem-disposto e que tem mais que fazer do que ser estratega e não decidir o que quer. E está muito mais feliz do que há dez anos atrás, em que ainda pensava que a maçã perfeita não admitia sorrisos.
Eu, como sempre gostei de quem se ri muito, nunca tive o mesmo problema. Terei outros, mas para os descrever não há engenho e arte, de modo que acabo aqui, nesta nota optimista, que às vezes faz falta. Mais um bocadinho e ponho aqui um smile.

A juventude enjoa

Os chamados "telethons", maratonas de televisão, são, para mim, e acho que para os restantes mortais, quase tão impossíveis como o Sequim de Ouro ou Jogos sem Fronteiras ou isso. São programas longos, chatíssimos, parvos. E o de ontem à tarde, que a RTP estava a transmitir e que era sobre a República, não foi excepção. Só vi um bocadinho, mas posso afiançar que foi mau. E porquê? Não por causa dos convidados, mas sim devido aos apresentadores. Se há coisa que me faça alergia, para além do Natal dos Hospitais e de concursos para crianças, é apresentadores larocas. Com um sorriso sempre muito largo, sem saber o que dizer, com a voz muito bem colocada, a fingir que são muito experientes e tal. Eu acho que ficam esteticamente mal num programa que se queria com algum nível, ainda por cima sobre os 100 anos da República. Fossem buscar um apresentador mais velho, mais dinossauro, que desse nível à coisa. É preciso ver que a juventude não dá para tudo, e há coisas que se querem velhas.
Desliguei efectivamente a televisão quando apareceu uma loura de cabelo escorrido e com decote que andava a entrevistar as pessoas que visitavam o Palácio de Belém. Estava a falar com um jovem (estudante universitário, provavelmente), tratou-o por tu e terminou a entrevista dizendo "vai! Vai conhecer o Palácio!". Uma exortação, portanto, para dignificar o evento, evento esse que ficou ainda mais dignificado quando corta para intervalo e aparece o seguinte slogan, a vermelho e a verde: Vivá República.
Vivá por mais cem anos, acrescentaria eu, e vivá sempre às terças-feiras, que o feriadinho calha que é uma beleza.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Não quero pertencer a nenhum clube que me aceite como membro

No secundário havia o grupo dos que usavam calças de ganga de marca e dos que não usavam, mais espertos; dos que eram populares e dos que não eram, mais infelizes; dos que estudavam e dos que não estudavam; dos que faziam surf e dos que não faziam; dos que comiam na cantina e dos que não comiam; dos que eram bons a Matemática e dos que não eram (eu); dos que eram bons a línguas (eu) e dos que não eram; dos que eram indies, dos que eram indies-wannabes (eu) e dos que não eram nada; e assim por diante.
Disse uma vez a um amigo, já há anos, que tinha pena de não pertencer a nenhum grupo. Gostava de ter um grupo, pessoas com quem me identificasse. Nunca aconteceu, embora o meu amigo me tenha respondido que eu tinha um grupo, sim - era o grupo das pessoas que pensavam que não tinham nenhum grupo. Na altura, não vi grande sensatez nisto, mas reconheço agora que ele tinha toda a razão.
Esta coisa dos clubes aos quais pertencemos, e que não se limitam ao Benfica ou ao Sporting, permanecem na idade adulta. Acho até que já escrevi sobre isto muitas vezes. Por exemplo, agora, na minha idade avançada, há o clube dos casados e o clube dos solteiros e, de forma ainda mais proeminente, o clube dos que têm filhos e dos que não têm. Estes últimos ainda se subdividem em categorias diferentes, como por exemplo: clube dos que têm filhos, opção A: falar do Natal, dos próprios filhos e de tupperwares; opção B: manter os amigos que ainda têm, não falar sobre os filhos e tentar manter conversas interessantes; passemos ao clube dos que não têm filhos, opção A: falar de coisas interessantes que têm tempo para fazer (ler, ir ao cinema, passear, etc.); opção B: esquecer que os outros existem, pensar apenas no umbigo e viver numa ilusão egocêntrica que durante uns tempos tem piada mas que depois se torna, digamos que, ligeiramente insuportável.
Nenhum destes clubes é assim muito aprazível, ou por outra, ambos têm aspectos tremendamente positivos, mas acarretam também desvantagens muitíssimo negativas. O mais sensato é, de facto, escolher a opção do Groucho Marx (acho que era ele), que dizia que não queria pertencer a nenhum clube que o aceitasse como membro.
É precisamente este o clube que estou a considerar - aquele que não me quer aceitar como membro. O problema é que todos os clubes estão organizados para que, mais tarde ou mais cedo, com maior ou menor esforço, a gente acabe por lá ir parar. A sociedade vive disso.
Como dizia o sábio Kierkegaard, que explicou tudo o que havia a explicar, ou a pessoa sabe escolher bem, ou está tramada, e mesmo escolhendo bem ainda tem que prestar contas ao Grande, que nunca facilita as coisas. Tenho um certo interesse em saber que clube é que o velho Soren acabou por escolher, mas considerando que teve uma noiva toda gira e que a deixou sem mais nem menos, preferindo uma vida de tormento intelectual, e ai o meu pai, herege e blasfemo, e ai Deus, que é meu inimigo e assim e assado, não me parece que ele seja um grande exemplo da sua própria filosofia. Acabou por escolher mal, também.
Já estou como o outro do Trainspotting - escolho não escolher.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Não chora, colabora.

Mais tarde ou mais cedo, a sociedade apanha-nos. 
Por mais que a pessoa cultive um certo estilo de vida à bicho-do-mato, livrando-se de certas chatices, há um momento na vida em que as coisas acontecem e, de facto, a força da ordem social faz aquilo que a Máfia fez ao Al Pacino no Padrinho III, just when I thought I was out, they pull me back in! O Al Pacino, por acaso, estava mesmo agastado com esta evidência incontestável. A inevitabilidade da comunidade.
Com as devidas distâncias, eu sinto o mesmo. Penso que toda a gente deve passar por algo semelhante, mais tarde ou mais cedo. A declaração de IRS sempre foi, para mim, um indicador de que a sociedade, o sistema, se tinha instalado na minha vida para ficar. E depois outros indicadores se juntaram.
E agora olha, o que é que eu hei-de fazer, eu que não tenho ensejo nem desejo de me tornar marginal nem deliquente mas, ao mesmo tempo, também não acalento o desiderato de ceder a festinhas de anos, reuniões, cumprimentar na rua e isso assim? Posso continuar a fazer um esforço por escrever coisas como "desiderato", palavra que sempre me agradou desde que a descobri. E "agastado" também me apraz.
A língua portuguesa consola-me. E se a sociedade e a instituição forem o preço a pagar por alguma felicidade e bem-estar, eu digo sim. Não chora, colabora.Tal como o Al Pacino. Que, por acaso, no fim do Padrinho III até chorou, mas também, ele era um mariquinhas, não é.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Carros novos não são para velhos

Há combinações que não resultam e são nojentas.
Duas delas são: velhos/homens de meia idade em Mercedes novos; velhos/homens de meia idade em BMWs.
Conduzem tão atabalhoadamente, tão ansiosos por demonstrar que a estrada é deles, que parecem adolescentes parvos a tentar exibições parvas em pistas de discotecas parvas. Sei que devia ignorar, mas como esta gente é psicopata perigosa que me afecta, porque eu também ando na estrada, fico alterada e a espumar de raiva, assim com vontade de fazer a este tipo de combinações (velho + carro) o que aqueles rednecks fizeram ao Dennis Hopper e ao Peter Fonda no fim do Easy Rider. Uma caçadeirazinha no lugar do pendura, às vezes, fazia alguma falta, e por acaso tenho andado a pensar em colmatar esta falha.
No entanto, gostaria de deixar aqui bem claro que eu nunca por nunca estou do lado de nenhum redneck e que, no fim do Easy Rider, fiquei com um grande sentimento de revolta devido ao destino injusto e estéril do Peter e do Dennis. Mas pronto.
Partilho da teoria que Kierkegaard, certamente, formularia se aqui estivesse e que é: o carro deve acompanhar a idade da pessoa. Se a pessoa é velha, o carro deve ser velho. Se a pessoa é nova, o carro pode ser novo, embora se for velho também não tenha importância nenhuma. Assim como assim, carros novos são muito pirosos, todos a rebrilhar, com o cheirete a novo do stand, a chamar a atenção. É de mau gosto. É coisa de classe média endividada. Fica mal.
De modo que o que eu defendo é carros velhos para gente velha, aliás, e pensando bem, carros velhos para toda a gente.
LEIAM E DIVULGUEM E PASSEM ESTA MENSAGEM A 10 AMIGOS, SENÃO TERÃO 10 ANOS DE AZAR, especialmente se comprarem um carro novo.
Obrigada pela atenção.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Oxford é quando um homem quiser


Tenho para mim que há poucas coisas tão deprimentes como ver o comum dos ingleses de férias.
Há pouco tempo, tive de me dirigir a uma coisa que é o Aeroporto de Stansted, num baldio qualquer ao pé de Londres, para apanhar um voo. Acontece que este aeroporto é uma espelunca pior do que qualquer aeroporto dito "normal", muito mais se for no Verão, como era o caso. As filas eram intermináveis, e ainda por cima cheias de ingleses muito louros a gritar com os filhos. Há um nome que, quer se goste quer não, se dá a este tipo de gente e que é o "chav" - uma espécie de white trash britânico. É terrível, tudo isto é triste, tudo isto existe e nem sequer é fado.
Continuando. Há um certo tipo de ingleses que, quando grita com os filhos, não poupa nem a garganta, nem os recursos linguísticos apuradíssimos de que dispõe. Aquela ideia muito pré-concebida de que os ingleses são educados, muito reservados, muito comedidos, não passa disso, de um preconceito instituído por uma certa ideologia de classe e que raríssimas vezes corresponde à verdade. Ora tentemos viajar num qualquer autocarro em Londres que calha ter de fazer um desvio, ou não poder parar numa certa paragem por obras na estrada, e é ouvir o que têm as pessoas para dizer. Bate qualquer senhor de Alfama, e se for preciso ainda vão ter com o motorista e massacrá-lo com ternuras linguísticas de tal modo que o homem, normalmente, acaba por se encolher e calar-se. Até senhoras, normalmente já obesas do fish and chips ou das comidas de microondas (ou adolescentes, na maior parte dos casos), e com carrinhos de bebé, gritam ao disparate, a dizerem que o motorista é um "cock" porque não sabe parar o autocarro, innit.
Vejo, portanto, na tal espelunca que é o Aeroporto de Stansted, umas quantas pessoas à minha frente, e depois um inglês muito ursino, cheio de tatuagens e com uma corrente ao pescoço e, obviamente, de fato de treino. Ao pé dele estava a mulher, também ursina, mas mais loura, e atrás três miúdos, os filhos. Só se podia ter pena daqueles miudinhos. O mais velho ouvia do pai, descontrolado e aos gritos, que ou se calava ou levava um murro na merda da boca. Quando o pai se virou finalmente para a frente e decidiu deixar o rapaz em paz, vi o mesmo rapaz desafiá-lo com um movimento rápido de cabeça, que com certeza evitaria se o pai estivesse a olhar para ele. Tive pena - quem com certeza merecia um murro na merda da boca era evidentemente o pai, e o miúdo, que revelava alguma inteligência, tinha decidido calar-se ao invés de o provocar ainda mais.
Isto na fila de segurança. Chegado ao chamado "lounge", repleto de gente sentada no chão irritada porque o voo para Ibiza ou Tenerife ou qualquer outro local assim interessante estava atrasado, o espectáculo era ainda mais deprimente. Abundavam jornais excelsos como o Sun ou o Daily Mail pelo chão,Coca-Colas, os melhores fritos do McDonalds, unhas descascadas, miúdos descalços aos berros, sem saber se queriam dormir ou brincar, os pais normalmente a ignorá-los, adolescentes em grupo a carregar na maquilhagem já a sonhar com certeza com possíveis engates nas tais Ibizas e Tenerifes para onde com certeza iam, para depois poderem engrossar as já de si grossas e famosíssimas estatísticas de gravidez adolescente no Reino Unido.
Como em todo o lado e como em qualquer país, a chamada "civilização" não é para todos. É para quem, de uma forma ou de outra, conseguiu acesso. E este acesso não se faz no aeroporto de Stansted, faz-se ao transpor um certo fosso que existe e está bem escavado entre o mesmo aeroporto de Stansted e Oxford e Cambridge, por exemplo. E isto aplica-se não só a Inglaterra, mas também a Portugal, que tem muitos Stansteds e poucos Oxfords. Um Oxford para cada português, é aquilo que eu defendo.

Tshirt da Barbie


Hoje fiz uma coisa fundamental - inscrevi-me novamente num ginásio e fiquei lá para a primeira aula e tudo. Era de Pilates. Eu ouvi dizer que o Pilates faz diz que super-bem, bom para as costas, para a postura e tudo. Espero que seja verdade. Saí de lá rebentada, foi uma maçada. Agora estou a desfalecer, cheia de sono e muito cansada, tudo porque me mexi para aí durante uma hora.
Como já escrevi antes, aquilo que me aborrece nos ginásios, além das luzes artificiais, é a roupa foleira que se tem de usar, complementada por sapatos de ténis ainda mais foleiros. Portanto, e para combater este malefício, decidi que vou levar uns ténis giros e umas Tshirts que compensam o facto de serem tshirts por terem bonecos. A de hoje tinha a Barbie, a de amanhã há de ter talvez o Tom e Jerry. Sempre me sinto mais normal, se for vestida de uma forma que considero aceitável. Agora, andar de calça larga com Tshirt branca tipo lençol, eh pá, não dá, nem no ginásio nem em lado nenhum. Desilude, uma pessoa olha para o espelho e tem logo vontade de se ir embora, ainda para mais com o cabelo preso num rabo-de-cavalo todo parvalhão, com rosetas tipo habitante de Aldeia da Roupa Branca, Maria Papoila ou isso. Eu não sou adepta do ar saudável, muito menos de rabos-de-cavalo. Para mim, a palidez é o que se quer, de modo que o ginásio levanta entraves estéticos que contrariam o meu estilo de vida e que vou ter de aceitar com alguma dificuldade.
Acontece também que este ginásio em que me inscrevi é só de mulheres e, não é por nada, mas as mulheres são subtilmente lixadas. As instrutoras, daquelas despachadas que tratam toda a gente por tu, apresentaram-me às outras que lá andavam aos saltos. As mais sorridentes e mais simpáticas eram as mais velhotas, e mesmo assim. Um ar desconfiado, um meio sorriso por entre a Tshirt branca e a toalha desbotada, e pronto. É pena. Pus-me a pensar se não seria por causa da Tshirt da Barbie, que se calhar irrita as pessoas, mas não me parece que isso seja justificação. O mulherio tem tendência para se desfazer perante um qualquer homem, desde que seja simpático, e enrijecer-se para a batalha diante de uma qualquer mulher. Gostava de poder chegar a uma conclusão diferente, mas a verdade é que me é impossível.
A Germaine Greer (acho que era ela) escreveu uma vez que o problema das mulheres era a falta da consciência de classe. Qual proletariado, devíamos andar por aí unidas, solidárias, e não a esgatanhar no chão ou na cara umas das outras devido a ginásios ou pior, devido a homens, como uma vez vi acontecer no café (entra no café uma mulher perdida, vai ter com outra que lá estava a comer o seu lanche, e diz-lhe, "eu é que sou a mulher do não sei quantos! Já fui ao centro de saúde para ver se a encontrava e disseram-me que estava aqui", e insiste naquela conversa do estado civil até que a outra, assustada, paga a correr e vai-se embora, e a tal que era mulher do não sei quantos sempre atrás dela, já a puxar-lhe pelo braço e tudo. Desapareceram rua acima naquele espectáculo, portanto não sei que mais aconteceu).
Que cousa.

domingo, 19 de setembro de 2010

Um Eléctrico Chamado Desejo - a peça no D. Maria (SPOILERS)


A primeira coisa que gostava de dizer é que, indubitavelmente, gostei do espectáculo - dos actores, do cenário, do guarda-roupa, da encenação. Gostei também de ver a Alexandra Lencastre num palco, e não nos dejectos da TVI por onde andou a perder tempo, e ainda por cima num papel tão exigente como é o de Blanche Dubois. Não é apenas a Alexandra Lencastre que está bem - todos os outros elementos do elenco são sólidos, e Pedro Laginha no papel de Mitch surpreendeu-me particularmente. Stanley Kowalski interpretado por Albano Jerónimo também não desilude nada. É evidente que Stanley tem de ser corporizado não apenas por um bom actor, mas também por um actor bonito, e a mim parece-me que Albano Jerónimo reúne muito bem estes dois predicadozinhos.
No entanto, e isto é problema meu e não da peça, eu penso que tinha demasiadamente presente tanto o filme como o texto da peça, uma vez que a li há pouco tempo e conheço muito bem o filme, de o ter visto tantas vezes. Quem vai ver a peça na mesma situação do que eu não se consegue esquecer de Vivien Leigh nem do impossivelmente magnífico Brando, passando o tempo a pensar, "ah, no filme o Brando também faz este gesto", "ah, no filme a Vivien também se debruça assim", "ah, no filme o Brando também diz isto assim e assim", e por aí fora. É irritante, mas não é defeito da peça, é defeito meu. Daí que eu ache que quem já viu o filme há muito tempo ou pura e simplesmente não está familiarizado com a peça tem muito mais condições para se deleitar verdadeiramente com o espectáculo, ao evitar uma postura demasiadamente analítica, que, acho eu, foi o que me aconteceu e não teve piada.
No entanto, a peça no D. Maria chamou-me a atenção para outras leituras possíveis da peça que nunca me tinham ocorrido. Há um certo elemento cómico em Stanley Kowalski, na sua brutalidade, na sua masculinidade tirânica, que no filme não é revelado e que, nesta interpretação de Albano Jerónimo, é saliente. Nunca me tinha passado pela cabeça que o Streetcar desse para rir, mas a verdade é que há elementos na interacção entre Stanley e Blanche, um tão exageradamente bruto, e a outra tão exageradamente coquette, que de facto fazem rir, ou por outra - podem fazer rir, dependendo da leitura do texto. Eu nunca o lera sob esta perspectiva, e portanto Stanley e Blanche sempre me haviam parecido intensos, desgraçados, soturnos, perdidos num jogo de poder cruel e trágico. Sem obliterar esta evidência, a encenação de Diogo Infante consegue ressalvar a potencialidade cómica do texto de Tenessee Williams, que a mim nunca tinha ocorrido. E constatar que a riqueza expressiva do mesmo texto é ainda superior àquilo que inicialmente pensei foi bastante bom, ou por outra, foi "profícuo", para dar nível aqui ao postezeco.
Pus-me a pensar no que seria se fosse a Cornucópia, por exemplo, a levar à cena o Streetcar. Seria, com certeza, bastante diferente, e o meu palpite é que, precisamente, a interpretação aqui recairia mais na intensidade trágica de Blanche e Stanley do que no potencial cómico destes dois. Por acaso, ao lembrar-me disto, fiquei com vontade de ver a mesma peça encenada pela Cornucópia, que sempre que fazem qualquer coisa, fazem-no epicamente. Seria interessantíssimo comparar, depois, as duas produções e verificar como o mesmo texto poderia sofrer alterações expressivas muitíssimo diferentes. Mas isto sou só eu a especular.
Alguns excertos do diálogo foram, não percebi bem porquê, eliminados. Não me pareceu que a sua falta afectasse o impacto da peça em geral, mas de qualquer forma tinha muita curiosidade para ver traduzida e representada a seguinta fala de Stanley Kowalski:

Listen, baby, when we first met — you and me — you thought I was common. Well, how right you was. I was common as dirt. You showed me a snapshot of the place with them columns, and I pulled you down off them columns, and you loved it, having them colored lights goin.' And wasn't we happy together? Wasn't it all okay till she showed here? And wasn't we happy together? Wasn't it all okay till she showed here, hoity-toity, describin' me like a ape?

Na peça em cena no D. Maria, Stanley interrompe a fala, se bem me lembro, na parte do "how right you was". A tal questão das colunas não fica resolvida. Na famosa cena da varanda - de que por acaso receei não conseguir gostar por apenas me conseguir lembrar de Brando, e que, afinal, está muito bem representada e ainda bem - a súplica de Stanley a Stella (don't ever leave me, sweetheart, baby) é igualmente eliminada. Também estava à espera desta fala, de modo que continuei mesmo sentada à espera. Mas, como disse, o impacto geral permanece.
Em resumo, e para acabar a composição, gostei muito do espectáculo, dos actores e de tudo, e vale muito a pena ir ver. É preciso é despachar com os bilhetes, que até Outubro só há lugares de visualização reduzida, e a partir de Outubro sabe-se lá. É peça blockbuster sem dúvida, e quanto a isto nada a fazer. Mas a ir, com muita veemência, que é uma grande peça.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

E lembrei-me agora de outra coisa que, possivelmente, acrescentaria à mesma lista do "á" e que ouvi hoje no café. Passo a transcrever, de memória, o diálogo:

- Olá! Então, estás bom?
- Oh! Desculpa lá, agora não tava-te a conhecer, oh!

Devo dizer que isto me dá muita vontade de rir. "Não tava-te a conhecer", "não tou-te a ouvir", em vez de "não te estava, não te estou" é com certeza feioe medonho, mas tem o seu cariz cómico.
A culpa não é das pessoas, a culpa é da língua portuguesa, que tem exigências que não fazem sentido. Quer dizer, se a frase for afirmativa, as pessoas põem o clítico num certo sítio (tou-te a conhecer), mas basta a frase passar a negativa que já tem de se mudar tudo (não te tou a conhecer). Nesta problemática, a minha simpatia pende para o lado das pessoas e não para o lado da língua portuguesa que, sinceramente, parece daquelas cabeleireiras amantes de senhores com Mercedes de aliança no dedo que só sabem pedinchar coisas caras e depois levam os homens à falência. A culpa é toda delas, pois é. Delas e desta língua portuguesa, que nunca está satisfeita, aliás - a gente nunca consegue-la satisfazer.

"á" que nojo

As pessoas de bom gosto apreciam dizer que unhas de gel é coisa pirosa, assim como malas de plástico (para mim, é pirosíssimo dizer carteira em vez de mala, de modo que é só para avisar) e indivíduos que dizem "esposa" e "esposo". Acho que estas tais pessoas de bom gosto se estão a esquecer de uma problemática séria e que deveria figurar nesta lista da pirosice, e que é a problemática dos dentes.
Agora, há uma certa mania de exibir uma dentição artificialmente branca, ofuscante, esfregada em profundidade no consultório do dentista, mais limpa do que a pérola. Acho horrível. Dá-me logo vontade de dizer às pessoas para irem comer umas Oreo, para ver se ficam com um ar mais humano e menos extra-terrestre. Às vezes, os dentes são tão brancos que nem sequer se vê distinção entre uns e outros, e aquilo mais parece uma placa branca pendurada na gengiva. Bleaagh.
Não é que eu considere agradável uma dentição amarelada, com verdete e outras coisas, digamos que, repulsivas. Não se trata disso. Apenas uma dentição normal e humana, esfregada com dentífrico, chega.
Outra coisa que acrescentaria à lista da pirosice e, já agora, do nojo, é ver a contracção "à" escrita como "á". Tenebroso. Faz impressão. Percebo que, de vez em quando, as pessoas se atrapalhem nos teclados, mas ver isto assim escrito por sistema aterroriza. É que é caso para perguntar se estas pessoas foram "á" escola e/ou se os professores delas também foram.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Colégios internos


Há uns mesitos, vi um documentário sobre Enid Blyton num canal qualquer. Os livros da sua autoria de que eu gostava mais eram o Colégio das Quatro Torres, em que a personagem principal era a Diana, que tinha muito mau génio, e as Gémeas no Colégio de Santa Clara. Tudo o que se passasse em colégios internos ingleses, porém com professoras de francês que eram as Mademoiselles, piqueniques à meia-noite e refeições que incluíssem rosbife com pickles, eu adorava. Isto já para não falar de aulas de natação em piscinas naturais, desportos que eu ignorava por completo como se jogavam, como o lacrosse, e o maravilhoso sistema hierárquico e quase militar em que as meninas mais novas, caloiras reles, tinham de ir às salas de estar que as alunas mais velhas partilhavam com as suas melhores amigas à frente da lareira, e limpavam tudo e engraxavam sapatos. Nunca tendo eu gozado do direito de ter alguém para me engraxar os sapatos, queria muito ir para um destes colégios internos, esquecendo-me convenientemente de que entraria como caloira e estaria, literalmente falando, feita ao bife.
A mania dos colégios internos passou-me, e passou-me definitivamente depois de ver o If, que narra precisamente a história de um rapaz (o mesmo da Laranja Mecânica, o impecável Malcolm McDowell) que, tendo passado a vida num colégio sofrendo violências físicas por parte de alunos mais velhos e professores, decide reunir um grupo de revoltados como ele e matar toda a gente à metralhadora. Sei que não parece, mas há alguma beleza nisto.
De modo que a mania de colégios internos, efectivamente, já não tenho, e além disso esta minha mania antiga não se relaciona de modo algum com os propósitos deste post, que têm antes a ver com aquilo que concluí depois do tal documentário sobre a Enid Blyton e ao esforçar a memória para me lembrar das historietas das Quatro Torres e de Sta Clara - todas as meninas tinham uma melhor amiga, já se sabendo que a menina y era a "pertença" da menina x, envolvendo normalmente um elemento dominador, que falava mais e tomava mais decisões (a menina y, por exemplo) e um elementos mais passivo (a menina x). Nada mais óbvio do que a relação entre Diana e Celeste, na série das Quatro Torres, amiguinhas, amiguinhas, sendo a Diana um vendaval de mau génio e a Celeste uma certinha querida. Complementam-se, portanto.
Não era só de amizade que estes livros falavam. A conclusão que eu retirei disto tudo era que se estava na presença de verdadeiros casais. Depois fui ler coisas à Wikipedia e vi que tinha razão, e portanto contra os factos da Wikipedia não há argumentos.
É só isto, peço desculpa se estavam à espera de outra coisa.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Stella!


Outro livro, por acaso também drama, que li este Verão foi, finalmente, o Streetcar Named Desire.

Como já falei muito sobre o filme, que segue a peça, não tenho muito a dizer, para além do óbvio, que é o facto de a Stella, na versão cinematográfica, ser mais decidida e politicamente correcta, aparentando livrar-se do marido abusador, ao passo que no livro já não é bem assim. A pobre Stella prefere acreditar que o seu Stanley é incapaz de abusar de uma alma desprotegida como a Blanche e permanece, mais ou menos alegremente, casada com ele.

No fundo, pode pensar-se que Stella é fraca e alienada, mas ela talvez seja uma sobrevivente. Acredita no que tem de acreditar para se sustentar, a si e ao filho. E, na falta de outros meios, um marido violento e abusador, que ela quer acreditar ser gentil e forte, é o seu único sustento.

Quando vemos nas notícias casos imperdoáveis e incompreensíveis de violência doméstica, é fácil pensar "que tipo de mulher fica com um homem destes, se fosse eu pegava nas malas e era divórcio e polícia na hora, etc, etc.". Não me passa pela cabeça vir para aqui adiantar qualquer tipo de explicação para estes casos, que não compreendo e espero nunca vir a compreender. Mas, por vezes, as pessoas fazem aquilo que consideram ser a única alternativa possível.

E portanto, talvez a Stella do Eléctrico Chamado Desejo, no final da peça, corresponda mais à figura de sobrevivente do que de fracalhota. A sobrevivência nunca é assim muito bonita, e a decisão da Stella também não.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Miss Julie e um muito necessário Tampax


Um dos livros que li este Verão foi Miss Julie.

O Strindberg diz, no seu prefácio, que a Miss Julie é meia maluca devido à má educação que recebeu, ao seu cérebro fraco, e também devido à menstruação, que a faz andar no enxovalho com criados de menos nível.

Eu devo dizer que concordo com Strindberg, porque realmente, uma mulher com menstruação é como se diz no South Park, bleeds for five days and doesn't die, o que quer obviamente dizer que, em aberrações destas, não se pode confiar.

Mas, fora isto, ou também por causa disto, vale a pena ler Miss Julie, ou possivelmente ir ver a peça, que eu penso ter estado há relativamente pouco tempo no D. Maria. Não fui ver, mas a leitura do livro deu-me que pensar.

Essencialmente, estamos a falar de um romance estéril entre uma menina nobre (uma maluca, mas para o caso não interessa) e um criado de classe baixa (um oportunista deslumbrado com a superioridade que ele próprio atribui às classes altas). Para Strindberg, este tipo de relação está condenado e é, mais uma vez, estéril. Poderemos argumentar, com pertinência, que hoje em dia este tipo de distinção social já não existe ou que já não tem tanta importância. Não tenho tanta certeza. Se há coisa que estes naturalistas, Strindberg e quejandos, gostavam de demonstrar é que as forças da História e da sociedade são maiores que o indivíduo e que normalmente destroem quem se lhes opõe. Pode não ser verdade. E porém, não vivemos numa sociedade tão livre de estratificações como seria desejável. Pelo contrário, a estratificação existe, e é só pensar no feudalismo que a nossa pequena Lisboa pode encerrar para percebermos isto.

Mas pronto, vamos admitir que isto é só converseta e que, nos nossos dias, a Miss Julie casava com o criado Jean e compravam o tal hotel e pronto. Ou um café na Damaia, um talho em Alcobaça, uma mercearia nos Sapadores, qualquer coisa assim que dê felicidade terrena. E, uma vez que o século XXI já tem à disposição Tampax, Evax, Ausónias e quejandos, talvez a menstruação se acalme e deixe a Miss Julie em paz.

Figuras tristes


Ora bem, quando eu era adolescente (tardia, mas para os propósitos deste post vamos fazer de conta que estava nos alvores, e não no término, da adolescência), havia uma banda que me galvanizava quase tanto como os Beatles e que eram os Smashing Pumpkins. Gostava tanto deles que até tinha uma T'shirt com a feia cara do Billy Corgan estampada, Tshirt essa que eu própria tinha mandado imprimir, sendo por isso completamente única. Estalava de orgulho sempre que a usava, mas, para meu desgosto, o sentimento não era mútuo nem compreendido. Chegava até a gerar grande embaraço por parte das pessoas que eram obrigadas a andar comigo na rua. Talvez fosse porque eu gostava de usar a tal Tshirt com umas calças muito justas e umas botas militares, que mais ninguém adorava sem ser eu. Aliás, eu achava que ficava absolutamente o máximo vestida daquela maneira, e não percebia porque é que os outros não eram da mesma opinião. Que a minha avó me pedisse encarecidamente para usar um casaquinho para compor, sob pena de ter vergonha de ir na minha companhia ao supermercado, preferindo não sair de casa comigo naquela figura, ainda vá que não vá. Agora que o meu irmão mais velho, que é a pessoa mais tolerante e descontraída que eu conheço, olhasse para mim com grande pesar e, agastado, me perguntasse, "mas vais sair assim?", ou "não podes usar outra coisa?", era fenómeno que me surpreendia grandemente.

Mesmo assim, eu só deixei de usar esta roupa quando comecei a entrar na idade adulta e, enfim, deixei de ser, digamos que, magra, para passar a ter de lidar com certas protuberâncias que tornavam o uso de calças justas um bocadinho para o ridículo.

A verdade é que não me arrependo nada de ter vestido o que quis quando quis, até um chapéu amarelo com estampado de tigre (!) que, segundo um amigo meu, me fazia parecer uma "louca desvairada". É que, infelizmente, e nos dias que correm, eu bem tento usar o que me apetece, mas é difícil. Já conseguir dar bom uso às minhas queridas DocMartens é uma sorte. All Stars escavacados, que são a coisa mais confortável que conheço e de que gosto tanto, só nas férias, e é com sorte. Tshirts com nomes de bandas ou caras de artista do "roque", nem vê-las. Chapéus amarelos, ou qualquer tipo de chapéus, interdito. Eu própria deixei de gostar, porque me acachapa (lindíssimo verbo) o cabelo, o que é péssimo; a idade adulta fez-me compreender a importância de um cabelo apresentável. Uma tristeza.

Não me posso queixar. A verdade é que não tenho de andar de saltos altos todos os dias; apreciando imenso saltos altos, morria se os tivesse de usar frequentemente. Também me vou safando com calças de ganga, mas acaba aí. Mas é assim, a sociedade é um furacão tremendo, a gente pensa que se escapa mas não, acabamos todos enrolados no mesmo turbilhão e a aceder aos mesmos compromissos, às mesmas responsabilidades, aos mesmos desejos. E está tudo bem, porque apesar de tudo ainda há livros e cinema para voltarmos a reencontrar aquela parte de nós que está escondida e que é a que verdadeiramente interessa. Valha-nos isso.

E a que propósito escrevo este post lamecha? Porque hoje o ipod brindou-me com a canção que deixo abaixo e que me fez mesmo acreditar que sim, que era o melhor dia da minha vida e que ainda bem que usei e abusei da Tshirt feia, das calças ridículas e das botas militares de que mais ninguém gostava sem ser eu.

(tem de ficar o vídeo pirata porque o original está "disabled by request". Que coisa tão estúpida)



quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Livros que engatam

Este artigo da Slate é engraçado - o autor interroga-se de como serão as suas futuras possibilidades do chamado engate quando toda a gente se converter aos livros electrónicos, em grande detrimento do livro em papel; como se diz no título do artigo, deixamos de poder julgar as pessoas pela capa, o que causa problemas consideráveis quando estamos naqueles momentos de indecisão, "avanço ou não avanço", "digo ou não digo", e etc. Momentos, aliás, que já na sua essência se revestem de stress insuportável, stress esse que um bom livro, como tema de conversa, ajudaria a dissipar. Se nem sequer isso existe, o engate está condenado.
Devo dizer que me entristece. Entristece-me porque o meu sonho foi sempre ser alvo de uma interpelação daquelas super-intelectuais e com imenso nível no autocarro ou no metro. Acho que há uma certa magia em entrar na carruagem, sentarmo-nos no banco, e haver ali um tipo que, só por acaso, pode parecer-se com este outro indivíduo:

e, dizia, esse tal indíviduo dar-se ao trabalho de reparar no que estamos a ler, só depois olhar para o resto, e pensar, "bem, que criatura magnificente, a única no mundo que lê aquele livro, o livro que eu sempre quis ler e nunca consegui mas que agora vou com certeza acabar, que ser glorioso é este que adoça os meus olhos e que nunca mais vou esquecer, vou já entabular conversa e falar de coisas terrivelmente interessantes, exposições, arte, música, poesia".
E depois o indivíduo, que se parecer com este também está optimamente:
e, continuando, o indíviduo que a gente conhece no metro é culto, culto, giro, giro, já leu tudo o que havia para ler excepto, é claro, o livro que nós próprias estamos a ler, conhece os restaurantes todos, cozinha muito bem e não se importa nada de ser ele a cozinhar todos os dias sem excepção e lavar ele a louça. E que pena, pensamos nós, dada a sorte inacreditável de termos conhecido um elemento do sexo masculino deste calibre, já termos encontrado o nosso "tal", mas pronto, a vida é assim e há que fazer escolhas. Sorte macaca, se ao menos tivéssemos começado a ler o livro uns anitos mais cedo, mas pronto, vivendo e aprendendo.
E assim se vê como um livro pode perfeitamente transformar a nossa vida, radicalmente.
Vem este encadeado de parvoíces acompanhado de uma pergunta que levanto à minha própria consideração, e que é: quais são, então, os melhores livros para causar "a" impressão? Por exemplo, tenho para mim que o Guerra e Paz não é um desses livros. Não é, há que ter paciência. Se eu visse este indivíduo:


a ler o Guerra e Paz, talvez eventualmente desferisse uns olhares de soslaio, mas sinceramente, rapidamente me desinterassaria, porque ler o Guerra e Paz publicamente dá a ideia que, ou a pessoa o lê por obrigação para um qualquer curso, ou se está a esforçar demasiado. Preconceito? Será, mas a vida é assim, uma cruz muito grande a carregar. Já o Crime e Castigo - excelente opção. Livro fundamental, repleto de temas de conversa, personagem principal impressiva, nervosa, com um grande nome (Raskolnikov é de facto inesquecível), de modo que sim senhora. Crime e Castigo no metro está muito bem. No caso das raparigas, estou igualmente convencida que Sylvia Plath é sempre uma escolha muito segura e com margem de erro mínima ao nível de impressionar o outro. Melhor ainda - deixar o Ariel "esquecido" na mesinha de café, quando alguém lá vai a casa. Não me estou a lembrar de um efeito melhor do que este, embora alguns, de carácter mais implicante, possam considerar que não passa de um cliché. Eu acho que está óptimo, talvez apenas ultrapassado pelas Birthday Letters do Ted Hughes, que eu acho que é um livro com muita classe, acho, pronto. Metro, mesa de café, autocarro, vai bem em todo o lado e adapta-se a qualquer tipo de situação, devido à sua temática agridoce.

Para os rapazes, tenho mais dificuldade em falar em geral, porque apenas posso dizer o que me impressiona a mim. Normalmente, um Lorcazinho cai sempre bem, seja poesia, seja peça, seja ensaios sobre. Tudo o que meta Lorca, no caso dos homens, é usar e abusar, que é coisa de estilo, de leitor exigente. Ultimamente, a tendência concentra-se em Jorge de Sena, portanto não deve haver aqui medo de usar profusamente, e autores portugueses vão sempre bem. O Bukowski, o Kerouac, o Hunter S. Thompson, o ubíquo Philip Roth, para rapaz, sinceramente, é como o rissol e o croquete, começa a estar um bocadinho estafado, começa a cansar um bocadinho. Coisas novas, coisas frescas, é o que se quer - uma Carson McCullers; uma irmã Bronte (escolher uma de três); uma Daphne du Maurier; um Great Gatsby; um Trumanzinho Capote; eis aqui algumas tendências, que de velhas se fazem novas, que eu acho que os rapazes, para impressionar as indígenas, poderiam começar a prestar atenção.
Isto sou só eu a pensar. Quem tiver opções de bons livros para engate, é favor dizer, que esta temática apraz-me. Sem outro assunto, despeço-me atentamente.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Sinais de Fogo

Acabei de ler Sinais de Fogo, de Jorge de Sena, e tenho uma coisa a dizer - Jorge de Sena é O homem. Obrigada à minha querida S., que me ofereceu, pelo meu aniversário e num gesto de grande generosidade, a sua própria edição, numa altura em que, ainda por cima, Sinais de Fogo estava esgotado (que vergonha - agora já não está, sabias, S.? Queres que te ofereça pelos anos? Eh eh).
Bom. Como ultimamente a minha vida anda em período de, digamos que, entre a revolução e a modorra, que parece impossível mas é verdade, não tenho tido inspiração para escrever grande coisa, mas queria aqui dizer que Sinais de Fogo tem absolutamente de ser lido. Tem de.
E um livro assim, que chega até nós pela amizade e ainda por cima é glorioso, sabe mesmo bem. E quando o acabamos de ler à mesa do café, quando lá fora chovisca (ah, pois, que o calor de Portugal de que toda a gente se queixa não me tem chegado, e eu bem precisada dele estou), é mesmo perfeitinho.
O George Orwell escreveu sobre livros e cigarros. Eu gostaria de escrever sobre livros, cigarros e amigos, tudo à mesa dessa invenção indispensável que é "o café". Sim, porque, se formos a ver bem, o que é que eu tenho a menos que o George Orwell, não é? Nada, não é? Não precisam de responder, eu sei que todos concordam. [insert ironical emoticon]
Uma justificação mais profunda do poder de Sinais de Fogo vai ter de ficar para a próxima.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

O Ilusionista (ligeiro spoiler)


Gostei muito deste filminho, como já tinha gostado das Triplettes. Quer dizer, não gostei exactamente da mesma forma. Adorei as Triplettes de Belleville, e do Ilusionista apenas gostei, porque é um filme muito terno, cheio de sensibilidade. Não vi o original de Tati, e devo dizer que também não me apetece muito ver. O Ilusionista é tão engraçado, tão bonito, tão doce que me encheu as medidas - e apenas pelo lindo poster podemos constatar que o que digo é verdade.

Só para dizer isto. Podia estar aqui a dissertar sobre a condição do artista e de uma coisa que se diz no filme ("os mágicos não existem"), mas não me apetece. Quem quiser que vá ver o filme em vez de andar a perder tempo a ver televisão, que faz muito bem.
Num brever percurso pelos jornais e revistas online, blogs e afins, fico convencidíssima de que o que as pessoas precisam é de ler mais e de baixar a sua pretensiosa e medíocre bola. E, já agora, de ver menos televisão.
Isto digo eu. Agora vou ali ver os últimos episódios do True Blood, que calhou perder.