Até quando é que uma pessoa se deve esforçar?
O que pergunto é se há uma idade aceitável a partir da qual a pessoa não tem de pensar no que diz e a quem diz, como se deve vestir, quem deve conhecer e quem deve ignorar, o que deve ou não comprar, como se deve comportar, que trabalho deve ter, que emprego não deve aceitar, quantos livros ler e que livros, quantos filmes ver e que filmes, etc.
John Cusack diz, em Alta Fidelidade, e com uma certa razão: "what matters is what you like, not what you are like". Até que ponto é que aquilo de que gostamos é diferente daquilo que somos? Se eu gostasse da Britney Spears, era menos pessoa por causa disso? Se calhar, era. Não, não era nada, que disparate.
Quem diz que não se deixa influenciar por estas coisas, que não quer saber, está a mentir. Nunca conheci ninguém que não quisesse saber, mas já conheci muita gente que pensa não querer saber. Não estamos só a falar de aparências - estamos a falar de um esforço constante que vamos adaptando à situação, ora aqui deixa-me esconder que sou de esquerda, ora aqui convém disfarçar que sou mais neoliberal de direita, e aqui não vou dizer que não gostei do Guerra e Paz, vou só dizer que tenho de ler outra vez, quando for mais velha, e aqui vou dizer que sim senhora, até ouço Sigur Ros, e mais tarde já digo que não, realmente Sigur Ros são uma seca (por acaso, acho que são mesmo, já escrevi sobre isso, blá blá blá).
Sei muito bem o que me vão dizer - ah, realmente, que vira-casacas. Nada disso, ou por outra - acho que o sou na exacta medida em que os outros também são. Adapto-me. É uma questão de sobrevivência, de uma diplomacia inata que nos permite ir manobrando a vida até esta se tornar suportável na dimensão de chatices que comporta.
Mas requer algum esforço. Uma coisa é vir para um blog, escrever o que apetece de forma quase anónima, outra bem diferente é todos os dias lidar com colegas, chefes, superiores ou inferiores, o que seja, e ter não necessariamente de agradar a toda a gente, mas manter uma máscara de civilização. Se alguém no trabalho me diz que acha muita graça a ir a concertos da Anastasia, a ouvir as anedotas do Fernando Rocha e ir à Madeira no Ano Novo porque o fogo-de-artifício é tãããããão giro, faço o quê, dou-lhes um estalo na cara?, ou opto por um meio sorriso, sim senhora, a Madeira e tal, por acaso nunca fui, gostava de ir, se calhar no Ano Novo é bom, disseram-me que a Anastasia é muito profisisonal ao vivo, dá grandes concertos, quanto a Fernando Rocha calo-me, e assim por diante.
E pronto, sinceramente, é tanto esforço que uma pessoa se cansa amiúde. Dizem-me que só quando eu for reformada é que isto passa, mas pelo andar da carruagem e pelas previsões dessa instituição que é, digamos que, espectacular, o FMI, nem sequer vou ter reforma nenhuma, portanto estou sem saída.
Como dizia o outro, e como já escrevi antes, não chora, colabora.























