Ultimamente, tenho andado frouxa, e isso não se deve ao tempo, deve-se antes ao facto de não andar a ler nada de jeito. Até faz impressão. Costumo ter um certo método na leitura, e consiste este método em começar a pensar no próximo livro para ler antes de terminar o que estou a ler. Ora acontece que acabei um livro há pouco tempo, gostei relativamente, e não acautelei esta situação de ficar sem nada para ler. Pensei que tinha em casa um livro que ainda não tivesse lido, mas realmente não tenho, isto é, tenho talvez um ou dois que não li, mas que agora também não me apetece nada, nada ler. E ando nesta perdição estultificante.
Para me entreter, e para ajudar a dormir, pus-me a ler um livreco que já tinha tentado ler antes e que é uma espécie de biografia do Marlon Brando mas que, além de estar ridiculamente mal traduzido, acaba por ser muito entediante, de tal modo que nem sequer me ajuda a adormecer. A verdade é que a vida sexual de Marlon Brando, que é efectivamente o tema do livro, não tem assim muito que dizer - consistia em dormir com quem lhe aparecia à frente. Mal o livro faz menção a uma personagem nova que Brando conhece, já eu sei onde é que aquilo vai acabar. Peca por ser previsível, portanto.
De modo que ontem decidi voltar a ler um livro de Lobo Antunes, o primeiro de todos os seus romances que li, e que é o Auto dos Danados. Já há algum tempo que queria relê-lo, porque me lembrava de ter adorado. Mas, afinal, não sei se é assim tão boa ideia. Não estou a gostar tanto como da primeira leitura. Uma coisa que nunca tinha sentido em Lobo era exagero linguístico - neste livro, tenho sentido um bocadinho. Por exemplo, há uma personagem, Nuno, que se levanta da cama e diz qualquer coisa como "levantei-me pingando noite". É um imagem bonita, uma descrição eficaz, mas há aqui qualquer coisa de escrita que se esforça demasiado. Nunca tinha sentido isto nos romances do Lobo, e não me ocorreu, com toda a certeza, da primeira vez que li os Danados. Porém, é a escrita em si que me tem causado mais estranheza, e não a história. Como sempre em Lobo Antunes, o enredo é de uma intensidade e dureza evidentes, de modo que o Auto dos Danados continua a ser, obviamente, um belíssimo livro.
E porém, entristece-me sempre reler livros que, afinal, não correspondem ao impacto soberbo da primeira leitura. É como encontrar alguém de quem gostámos muito uns anos depois, e a pessoa mudou para pior, está mais parva, verificamos que afinal não é assim tão inteligente, e a vida dela é muito mais desinteressante do que pensávamos.
É evidente que vou continuar a ler o Auto dos Danados, esperando mudar de opinião e reencontrar o livro que, dantes, eu adorava. Mas começo a pensar que re-leituras, reencontros, confrontos com o passado, nunca são grande ideia. Aquilo que correu bem no passado deve permanecer assim, uma memória agradável. Não deve voltar a fazer parte da realidade.



























