sábado, 18 de dezembro de 2010

Iniciativa: Palavra e/ou Expressão de Sempre da Língua Portuguesa (ou pelo menos dos últimos 10 anos, isto é, de 2000 a 2010 - da década, vá)

A meu ver, o Natal pede iniciativas. Muitas iniciativas. Além disso, um blogue em geral pede passatempos e este ainda não teve nenhum. Da conjunção destes factores, nasce a ideia que aqui venho propor e que se assemelha à votação para Palavra do Ano de 2010 que a Porto Editora está a organizar (ir ao site da infopedia se quiserem votar, faxavôr). 
A minha proposta, ainda que de natureza similar, como já referi, é porém de índole diferente. E porquê? Porque o que eu proponho é votar na Palavra e/ou Expressão de Sempre da Língua Portuguesa (ou pelo menos dos últimos 10 anos, isto é, de 2000 a 2010 - da década, vá). Tem mais graça. Porém, e antes de procedermos à votação, teremos primeiro de encetar esforços para seleccionar as 10 palavras  ou expressões que devem figurar na lista. Aceitam-se propostas. Vou deixar aqui algumas, e se houver por aí gente que não tenha mais nada do que fazer nem em que pensar, como eu, ficam a saber que são o meu estilo de pessoa e pumba, é deixar sugestão na caixa de comentários. Eu, se conseguir esperteza para isso, depois ponho uma daquelas votações numa coluna à direita,como às vezes se vê em certos blogues (mas primeiro tenho de aprender como isso se faz).
As minhas sugestões são, assim de cabeça e sujeitas a alteração:
desenxabido
fazer espécie
deus-dará
compilação
Não me lembro de mais, mas daqui a bocado talvez me lembre de mais qualquer coisa. Quem quiser ajudar, já sabe o que tem de fazer.

Amo-te, amorê!

Tenho de fazer qualquer coisa para combater o frio, e dedilhar o teclado com força e vigor ajuda. Pelo menos, evita que ande de luvas em casa.
Agora, para continuar o exercício de aquecimento, vou escrever mais qualquer coisa. Não tenho pensado em nada de muito relevante, mas tenho-me rido muito com um vídeo que descobri no Youtube em que Yanick Jaló ou lá como se chama o senhor faz uma declaração de amor a Luciana Abreu e grita: amo-te, amorê! 
Antes de prosseguir, vejo-me obrigada a encetar esforços para de alguma forma proteger a minha reputação insegura e explicar que a razão pela qual encontrei o tal vídeo foi porque apareceu relacionado com um outro que eu estava a ver em que os Contemporâneos gozam com a "Luce" e lhe perguntam se ela quer amêndoas. É muito lindo e natalício. Enfim, foi assim que descobri o Yanick a gritar "amo-te amorê".
Não vou troçar disto. Há alvos fáceis, de quem é terrivelmente fácil e conveniente dizer mal. Aliás, se não fosse o meu lado burguês tristemente forte, eu arranjava tomates e punha aqui ao lado uma coluna intitulada "Odiozinhos", encabeçada, como é por demais evidente, por Eduardo de Sá, , mas o que é certo é que, em primeiro lugar, não tenho tomates (sou menina) e em segundo lugar o tal lado burguês escandaliza-se com isto e exclama "ai, mas que desagradável, deixe lá os senhores em paz". De modo que podia escrever de forma virulenta, acérrima, mas não, é tudo ordenadinho. Misérias.
Voltando novamente à temática primordial do post - ora, Yanick diz aquilo à Luciana, ela diz que ele é um gatinho, um príncipe e mais isto e mais aquilo e é uma choradeira pirosa frente às câmaras de televisão. Melhor do que isto, só quando o Telmo e a Célia do Big Brother se dedicaram aos regabofes carnais, perguntando-lhe ele quando terminaram, para o país inteiro compreender o ser sensível que ali estava - "gostastes, filha?". "Gostei", respondeu ela, melosa. Que remédio, diríamos nós. O amor é uma coisa muito bonita, como se vê.
E no entanto. A gente goza com isto tudo, ri-se disto, porque não são exemplos de amor, são exemplos de parvoíce. O amor é para viver com dignidade, com classe, a portas fechadas. É que é uma coisa tão pirosa que ninguém com alguma inteligência pode suportar vivê-lo à frente do mundo inteiro. De modo que aqueles casos inexplicáveis em que nos dá uma vontade imensa de viver momentos à filme, em que nos atiramos para os braços do Corto Maltese e fica tudo a olhar, ou o Corto Maltese se ajoelha e, enquanto nos mostra um cachucho a rebrilhar, diz assim, "amo-te, amor", este tipo de coisas, pirosas, indesejáveis, que ninguém quer, enfim, às vezes se calhar até queremos.
Embora "amo-te, amor" seja diferente de "amo-te, amorê". O Corto Maltese tem classe até ao fim.
E pronto, eu disse que isto era uma desculpa para aquecer os dedinhos e assim foi, não havia que esperar nada de melhorzinho. Umas boas festas se até lá não nos virmos.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Risota da semana: chamar à roupa "coordenados"

Foi a minha amiga L. que me alertou para esta importante marca linguística. Os conjuntos de roupa não são conjuntos, são "coordenados". Quando vestimos uma camisola castanha com umas botas castanhas e uma mala castanha, faz um "coordenado". É muito importante ter vários "coordenados", e muitos destes "coordenados" têm certos elementos que são os "básicos". É igualmente importante ter vários "básicos", mormente preto e branco, porque são, lá está, os tons base.
Passei a semana toda a rir disto. Quando me lembro disto, ponho-me a rir sozinha e tudo. Ainda tem mais graça escrever "coordenado" e usar as aspas.
Agora tenho de me ir embora porque tenho de ir completar o meu "coordenado", que lhe falta um casaco preto a condizer com o meu vestido "básico" preto. É que vou sair e não posso ir lá para fora com este frio sem casaco preto no "coordenado".

Dançar até ao fim do amor

Leonard Cohen tem uma canção cujo título me parece particularmente incisivo - Dance Me To The End of Love. E porquê incisivo? Inicisivo porque verdadeiro. Sim, porque é verdadeiro que movimentos mais desastrados ou desajeitados na pista de dança podem conduzir não apenas à vergonha alheia, mas igualmente ao fim do amor. Como gostar de alguém que é tão terrível ao nível da coordenação corporal que nos obriga a afastar o olhar, encarnadiços de vergonha, e esperar ardentemente que ninguém repare na má figura, sendo certo que está toda a gente a apontar o dedo e a rir? Parece-me provação a mais, mesmo para o amor mais enlevado.
Infelizmente, não sou daquelas pessoas que arrasa na pista de dança. Um dos meus sonhos não cumpridos e sem qualquer hipótese de concretização é ir para uma discoteca e as pessoas fazerem um círculo à minha volta, a aplaudir. Isto nunca me vai acontecer. Aliás, o meu mecanismo de legítima defesa também não o permite, porque, e isto é uma dica que poderá ser útil no futuro, quem sabe, quem tiver ideias de me torturar é obrigar-me a ser daquelas pessoas que vão para uma pista de dança dolorosamente vazia e começam para lá a mexer-se por todo o lado, sem se importar de não estar mais ninguém a dançar e perfeitamente à vontade até virem os outros todos em hordas começar também a dançar. Isto tudo para dizer que não sou nenhum John Travolta feminino, mas, acho eu, penso eu, quero acreditar, também não envergonho ninguém. Reitero - acho eu. Ainda ninguém se queixou.
Uma das coisas que me parece mais dificultosa quando nos relacionamos com os outros é, prineiro, ter de os ver na praia, em que estão tão vulneráveis que faz impressão, e depois aquela roupa de praia esquisita que não favorece quase ninguém é também penosa; segundo, ter de os ver a dançar quando dançam efectivamente mal. Não estou a falar daquelas pessoas que dançam de uma forma discreta, apagadinha, sem incomodar ninguém. Gosto destas pessoas, parece-me comportamento correcto. Estou a falar daquelas pessoas que, sendo boas pessoas, dançam mal, tão mal que sentimos aquela vergonha pelo outro inevitável e de terríveis consequências - a vergonha alheia é do pior que pode acontecer a alguém. E o outro, então, coitado, fica logo arrumado, mesmo que não o saiba.
Daí que o verdadeiro teste para sabermos se os nossos relacionamentos estão a correr bem ou não é, parece-me a mim, ir sair à noite e dançar um tanto ou quanto, basta um poucochinho,diminutivo agradável. Fica-se logo a saber. É que se for algo parecido com aquilo que este génio faz:

dizia, se for como faz este génio, é exactamente como diz o Leonard Cohen, anuncia-se a passos largos o fim do amor. Pode ser o princípio da comédia, mas é o fim do amor. As pessoas não têm culpa das suas descoordenações corporais, mas a questão da vergonha alheia é um bocadinho insuperável, pensou eu. Uma grande infelicidade. O amor verdadeiro deve ser quando a gente sente que nada do que o outro faça nos pode envergonhar, ainda que mastigue de boca aberta ou dance como este David Brent. Mas enfim, nada de sonhos impossíveis, não é, mesmo sendo Natal.
E pronto, para terminar e como não poderia deixar de ser, ainda para mais permitindo a temática do post, aqui fica a lindíssima canção desse trovador que nunca na vida envergonharia ninguém, L. Cohen:

Quem não está bem, muda-se.

O António Variações escreveu uma canção a dizer para mudar de vida. Mudar faz bem.
O meu problema em mudar de vida é que não sei exactamente para que vida mudar. 
Por exemplo, às vezes o que eu queria era ter escrito uma coisa qualquer magnífica, daquelas que as pessoas todas sem excepção lêem e dizem "eh pá!", porque não há mais nada que se possa dizer, é de ficar de boca aberta, e depois andar por aí vestida de preto e de óculos escuros para o estilo, e ir sentar-me a um café qualquer no Chiado a fumar, coisa que me faz mal à asma e que portanto tenho de evitar mas continuando, e escrever de enfiada três ou quatro contos ou crónicas retumbantes, mais ou menos em cinco minutos (o Capote escrevia aquelas entrevistas dele em 15 minutos), beber um café, usar boina preta, ficar com ar sonhador a olhar lá para fora, depois vir alguém dizer "ai gosto tanto do que escreve, ai nem sabe, ai que me mudou a vida", lá está, mudar é importante, e eu dizer "obrigada, obrigada", numa voz super maviosa e calma, sem pressa, e depois rematar "peço desculpa, não dou autógrafos em momentos de inspiração", passar a noite a pé no Bairro Alto a beber sem cair para o lado, coisa que também não acho bem na minha vida normal mas na imaginária sim, e apanhar um táxi para o sítio muitíssimo misterioso e recôndito onde vivo, ninguém sabe com quem nem onde.
Se calhar, podia mudar para esta vida. É uma possibilidade - basta comprar ainda mais roupa preta, uns óculos mais estilizados, ir tomar mais café ao Chiado, e, claro, há o pequeno pormenor de ter escrever a tal coisa retumbante, mas isso ainda é o menos. 
E daqui se depreende que mudar de vida é relativo. Em princípio sim, todos temos a capacidade mudar de vida. Mas primeiro temos de ter uma outra vida alternativa para a qual mudar, o que  é o busílis da questão, porque a verdade é que mais vale uma vida na mão do que duas a voar.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Embirração da semana, deste ano, de anos passados e de anos vindouros: Anatomia de Grey

Há por aí alguém que goste de ver a Anatomia de Grey? E, se tal for o caso, talvez não se importe de elaborar porque é que gosta de ver esta coisa?
Eu já escrevi aqui que não gosto nada da série, e ainda hoje falava disso com uma amiga - parece uma coisa com diálogos lamechas e falsamente profundos a despachar, em que todas as personagens são absolutamente iguais, falam da mesma forma e têm os mesmos problemas. Mas também não sei, não consigo ver por mais de 5 minutos porque me aborrece. O problema principal aqui é o problema principal de qualquer outra série, filme ou livro que seja mau - às vezes, não estão mal escritos nem nada, mas são um tédio tão banal que é de uma pessoa se exasperar.
É que continuo a não perceber porque é que esta série tem tanto sucesso, e gostava de perceber porque normalmente costumo gostar de ver séries. Ultimamente, porém, e sem ser o True Blood cuja temporada também já acabou, não arranjo nada de jeito para visionar. Talvez a Anatomia de Grey atraia porque tem um tom de sentimentalidade (que, como disse, a mim me parece falsamente profundo) que faça as pessoas pensar que estão a ver qualquer coisa com algum tipo de significado. Como quando se escolhe ler a Profecia Celestina ou assim. Nesta altura de crise, deve saber bem ver umas quantas pessoas médicas que salvam vidas e ao mesmo tempo têm a mania que a própria vida é uma coisa intensa, na qual convém pensar muito e mais isto e mais aquilo. Talvez isto explique a audiência da série, não sei, e talvez também explique porque é que as personagens falam todas de forma semelhante, com os mesmos diálogos e as mesmas expressões. Mas onde estão os Sete Palmos de Terra, Os Sopranos, dos nossos tempos? Ai que saudade.
Ou talvez seja porque o médico de barba e olhos azuis é um actor que, enfim, digamos que trabalha muito bem. Dá gosto vê-lo a trabalhar. Deve ser mais por aí.

domingo, 12 de dezembro de 2010

Eu sou eu, não sou o outro e também não me agrada o intermédio

Não me importo muito com isto do individualismo. Até gosto bastante. As pessoas queixam-se, ah, vivemos numa sociedade tão individualista, mas na verdade o que devem querer dizer é egoísta, que é uma coisa diferente; o individualismo não é nada mau, até é bastante positivo, foi aquilo que nos deu os Direitos do Homem, os direitos humanos em geral, talvez até os controversos direitos naturais, foi aquilo que os Românticos advogaram, o Eu em todo o lado, reflectido por todo o lado, isto para não falar do querido Kierkegaard e da verdade que está no indivíduo, e enfim, uma série de name-droppings giros que a pessoa podia estar para aqui a enumerar para reforçar, e até dignificar, a questão do individualismo, mas penso que isto chega.
 Lembrei-me disto devido ao Zelig, filme do Woody Allen que vi há pouco tempo (atenção: SPOILERS), em que a personagem Leonard Zelig quer de tal modo agradar aos outros que se transforma naquilo que eles são - se fala com um médico, comporta-se como um médico, se fala com um chinês, transforma-se lentamente em chinês, se fala com uma pessoa gorda, ganha peso, e assim por diante. Passa a vida nisto, até que uma psiquiatra empenhada o consegue curar tão eficazmente que a emenda é pior que o soneto, como se diz, e Zelig passa a não admitir que discordem dele nem por um minuto, chegando até a agredir quem lhe diz que está bom tempo quando ele, Zelig, considera que não está.
E mais uma vez se verifica que Woody Allen tem muita razão - o que é isto de se ser "um indivíduo", quando é inevitável vivermos rodeados por pessoas e termos de lhes agradar? E não vale a pena pensar que somos independentes, que fazemos o que queremos, que quem não gosta paciência, porque a verdade é que é impossível viver sem ceder, sem fazer com que gostem de nós - não se trata apenas de evitar conflitos; há alturas em que queremos, ou precisamos absolutamente, de agradar aos outros. É uma imposição, uma terrível exigência, da chamada "sociedade".
Acho que o Kant explicava isto (pois é, eu disse que este post era só name-dropping pretensioso, portanto) com aquela metáfora das árvores, que para crescer têm de crescer direitinhas, no seu pequeno espaço, mas ao mesmo tempo têm de respeitar o espaço uma das outras, porque se quiserem interferir no espaço  alheio crescem todas tortas, com os ramos todos entrelaçados e é uma confusão. Sinceramente, não sei se é bem isto que o Kant diz, mas é assim que me lembro. No fundo, é tudo uma questão de encontrar equilíbrio, equilíbrio esse que se aplica tanto ao Zelig, como às árvores, como a mim, que é o que interessa aqui, já que é este um post individualista, e em geral um blog individualista também. E isto do equilibrio entre o chamado individualismo, que me apraz, e a sociedade, que já não me apraz assim tanto no sentido que implica a gente andar a pensar noutras coisas que aborrecem, é muito mais complicado do que se possa pensar. Zelig, por exemplo, deixou de ser um réptil subserviente para se tornar uma pessoa, pensava ele, de grande personalidade, de tal modo que não conseguia, a certa altura, estar ao pé de ninguém.
Não tenho conclusão nenhuma para isto. É a tal questão de o inferno serem os outros, com a qual concordo em geral, e também a outra questão de não podermos viver com os outros nem sem eles. E pronto, à luz desta problemática andamos nós todos os dias a tentar acertar nas manobras como num tabuleiro de xadrez, tentando, a todo o momento, não meter a pata na poça e ser, sei lá, e porque é Natal, um bocadinho mais felizes.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Mais ou menos, tipo, assim e tal, eu não... acho que não

Não resisto a "roubar" este vídeo aqui do Da Literatura. A Oprah dá uma entrevista e diz "I'm not a lesbian, I'm not even kind of lesbian".
Pronto, há pessoas que têm necessidade de afirmar coisas. Coisas assim em geral. A Oprah é uma destas pessoas. Aquilo que eu gostava de ver esclarecido é: qual é a diferença entre ser lésbica e "kind of lesbian", que eu presumo que se possa traduzir em português por "mais ou menos lésbica" ou "tipo lésbica"? É que eu estou aqui a esforçar-me e devo confessar que já me encontro num certo estado nervoso, porque realmente eu tinha ideia de saber o que é uma pessoa heterossexual e uma pessoa lésbica, mas agora mais ou menos lésbica é que nunca me tinha ocorrido, de modo que fico assim desorientada. Este novo conceito obriga-me a repensar uma série de coisas, coisas profundas, que têm a ver com a identidade de uma pessoa - olha agora se eu de repente descubro que afinal sou mais ou menos lésbica? O que é que eu vou dizer ao "tal"? Para se ir embora? E como é que eu posso descobrir, se nem sei o que é? E será que há pessoas que são "kind of straight", não o sendo completamente, e são totalmente lésbicas, e, inversamente, pessoas "kind of lesbians" mas completamente heterossexuais? Quantas combinações é que este vasto leque para o qual a Oprah veio chamar a minha atenção permite, afinal?
Estou apreensiva. Gostava que a Oprah me explicasse o que quis dizer, a sério que gostava. É que as ramificações disto são imensas, e se formos a pensar nas ramificações legais, que agora se levantam, como casamentos e isso, meu Deus. Todo um admirável mundo novo a legislar, a precisar de direitos novinhos em folha, provavelmente até constitucionais e tudo e ui, a trabalheira que vai ser agora o parlamento a embrulhar-se numa revisão constitucional, até o FMI há-de ficar com os cabelos em pé, e eles que já devem ter visto de tudo. 
Esta Oprah só sabe é criar confusão. E depois põe-se a chorar sem explicar nada. Oprah, flor, vai ao médico e trata-te. Resolve lá essa cabecinha.

"I tell you all my secrets but I lie about my past"

Estou a ler uma biografia do Tom Waits. Gosto de biografias e gosto do Tom Waits, portanto até aqui tudo bem. No prólogo, o autor diz que teve alguma dificuldade em investigar certas coisas relativas ao artista, porque o artista é um bom artista, mas muito reservado, não gosta que falem dele, não gosta de dar entrevistas, etc. Menciona-se, até, uma citação do próprio Waits (convém que uma biografia consiga citar o objecto que estuda, de facto) em que este afirma: I don´t know if honesty is an issue in showbusiness. People don't care whether you're telling the truth or not, they just want to be told something they don't already know. If you're watching a really bad movie and somebody turns to you amd says 'You know, this is a true story', does it improve the film in any way? Not really. It's still a bad movie.
Não sei se Tom Waits tem inteira razão naquilo que diz. Não é que aquelas perspectivas historicistas ou biográficas sobre a arte e quem a produz sejam assim muito interessantes  ou verdadeiras - parece-me, de facto, que os livros que se escrevem ganham uma força independente da vidinha pessoal de quem os escreveu. E porém, também não é certo que o texto, ou a música, ou qualquer forma artística, seja assim tão independente da persona de quem as cria. Por mais que o TS Eliot tenha insistido naquela ideia que ganhou tanta popularidade do texto sozinho, do texto absolutamente desenraizado do seu autor, por mais que o Bloom venha dizer que a angústia da influência tem a ver com o conflito entre as obras literárias em si, e não com qualquer complexo freudiano do artista enquanto indivíduo ou ser humano, porque é que as canções da Beyoncé são sobre o amor e anéis de noivado e as músicas do Tom Waits não? Por um lado, porque provavelmente a Beyoncé é uma máquina de fazer dinheiro que se treinou para isso, e o Tom Waits escolheu propositadamente um caminho mais reservado, mas por outro lado também é porque o Tom Waits tem com certeza autoridade para criar uma persona boémia, alcoólica, sensível, angustiada, agressiva, doce, e a Beyoncé não, porque a cabeça não lhe permite lá chegar.
Também se cita PJ Harvey neste prólogo à biografia de Tom Waits, afirmando esta que tem muita dificuldade em fazer com que as pessoas compreendam que ela é uma escritora, uma criativa, que aquilo que canta é ficção e não necessariamente realidade. Mas a própria PJ Harvey, quando lhe deu jeito, tinha ela vinte e pico anitos, deu entrevistas a dizer que sim senhora, realmente as canções dela falam muito de rejeição, de sombras e agressividade, porque ela própria passou muitos anos a ser a pessoa errada, a pessoa rejeitada. Lembro-me muito bem disto, ó PJ, portanto queres enganar quem. 
É evidente que vir dizer que "as minhas canções falam de bebedeiras porque eu próprio sou um bêbedo", por exemplo, é também criar uma persona, uma ficção. Em última instância, não tem de facto qualquer interesse saber o que é verdade ou mentira. Mas as personae que se criam e as ficções vêm de algum lado, não surgem do nada. Ainda que o Tom Waits passe todas as noites à lareira a beber leite quente com Nesquick e a ver concursos na televisão, levantando-se apenas para ir comprar alface e iogurtes ao supermercado, isso não quer dizer que as canções todas que escreveu sobre exaltações bem mais intensas, e vidas bem mais dilaceradas, não tenham vindo dele. Ele que compre iogurtes à vontade, que toda a gente vai pensar que ele vai comprar whisky e tabaco e depois vai dar uma volta ali ao Intendente. E isso tem de vir de qualquer lado; se em parte vem de quem o ouve, porque são interpretações construídas pelos ouvintes, em grande parte vem inevitavelmente dele,Tom Waits, porque foi criado por ele, e para isto não há saída nem desculpas.
Fim.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Umas coisas em que pensei por ter ido visitar o Museu Nacional de Arte Antiga

Há uns dias, devido ao tempo sombrio de invernia, fui revisitar o Museu Nacional de Arte Antiga (doravante MNAA, porque se o MoMA é MoMA, não estou a ver porque é que o Museu Nacional de Arte Antiga há de ficar atrás e não ser MNAA). Mas enfim. É bom ir a museus e ao cinema quando está a chover e faz frio. Consola muito. De modo que fui ao MNAA. 
Já não ia há uns anitos, e soube-me bem ver a Custódia de Belém e as outras custódias todas, muito giras, muito resplandecentes, e os biombos japoneses com os portugueses de nariz grande, e as reliquiazinhas de anjinhos gordos de olhinhos fechados, com ar muito beatífico, tão patusquinhos e queridos. E depois chega-se à parte da pintura portuguesa que, não contanto com os omnipresentes Painéis de S. Vincente, e independentemente da mestria toda das técnicas pictóricas, e das grandes influências flamengas, mas que bem, entre estes quadros portugueses e um pintor da Flandres daqueles a sério a gente nem vê diferença e etc. e tal, dizia, respeitando e apreciando tudo isto, a verdade é que uma pessoa sai das salas de pintura portuguesa com nada na cabeça sem ser Anunciações, Visitações, Calvários, Descidas da Cruz, Ascenções, e na sala a seguir Anunciações, Visitações, Calvários, Descidas da Cruz, Ascenções, e assim sucessivamente até se chegar à secção da pintura europeia e encontrar alguma variedade, pronto, uma naturezazinhas mortas, uns retratozitos, umas quantas coisitas do quotidiano, até aquele quadro de autor anónimo (português, por sinal) com um Lucifer animalesco e emplumado a cozer toda a gente viva, uma visão do Inferno do mais tenebroso que há, até este quadro, pela sua bizarria, serve para desenjoar porque marca a diferença, como se costuma dizer:


Não venho para aqui desdenhar da pintura portuguesa ao longo dos séculos, era o que faltava, e quero deixar bem claro que o acervo do MNAA é para ser respeitado e apreciado; muito menos  rejeito pintura de temática religiosa, pelo contrário - costumo gostar muitíssimo. Até há quadros que arrasam uma pessoa, extraordinários como este Ecce Homo que deixo aqui  à esquerda, ou coisas como uma obra que veio do Convento de Cristo e está agora no MNAA, não me lembro do nome do pintor, mas que representa, lá está, a Ascenção, e só se vêem os pezinhos de Cristo. O resto do corpo, como exemplarmente se compreende, ascendeu.
No entanto, o que resulta deste visionamento todo de tanto Jesus Cristo  atarefado, para cima e para baixo, na Cruz, a descer da Cruz, a subir aos Céus, enfim, o que resulta de tanta obsessão com a representação de Jesus Cristo, é que o espectador tem alguma vontade, a certa altura, de ver um quadro diferente, de conhecer um mestre português que se tenha preocupado com outras coisas, sei lá, uns amigos a jogar às cartas com um auto-retrato enxertado, um brinco de pérola, um rapaz mordido por um lagarto, uma maja desnuda, uma Afrodite numa concha, uma Ariadne abandonada, uma parede iluminada pela luz da manhã que entra por uma janela, retratos com olhos intensos, um Perseuzito, uma Andrómedazita, umas temáticas assim mais gregas, uma águia a comer um fígado que se regenera durante a noite, uns arrebatamentos mais renascentistas, ou simplesmente coisas da vida normal, do quotidiano, comida, bebida, olha o José Malhoa que pintou aquele quadro dos bêbedos, uma coisa assim para a pessoa se ir entretendo. 
No entanto, do século XIV ao século XVII, o que parece ter preocupado os pintores portugueses é a tal questão do rogai por nós pecadores, agora e na hora da nossa morte. Isto até é compreensivel, pois não me parece que haja ser humano imune a este rogo. Até acho que isto está presente na vida de toda a gente e que nem o Nietzsche nem o Marx se livraram. Não deixa, porém, de ser revelador tanta preocupação ensismemada com Jesus Cristo em toda a forma e feitio - um país que, pelos vistos, não teve mais nada que pintar durante séculos e séculos e séculos e séculos. Até para o próprio JC deve ser, digo eu, uma trabalheira tal que cansa.
Enfim. Como perguntava António Nobre, onde estão os pintores do meu país estranho, que não vêm pintar? Cadê?

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Ornatos!



Eu nem acredito que passei tanto tempo sem ouvir Ornatos Violeta. O Monstro Precisa de Amigos, quanto a mim, é dos melhores álbuns de sempre. Bom, bom, bom. É evidente que adoro este Ouvi Dizer, principalmente porque quando o Manel Cruz canta "não vais achar nada bem que eu pague a conta em raiva - e pudesse eu pagar de outra forma", penso sempre que ele tem toda, toda, toda a razão.
Há um filme que os cinéfilos têm injustamente ignorado e que se chama Cocktail, com esse actor também desvalorizado que é o Tom Cruise. E, neste filme, diz Tom Cruise "tudo acaba mal, porque se não fosse assim não acabava". É isso mesmo. Portanto, com grande pena minha, com grande pena penso eu de toda a gente, a conta só se pode pagar em raiva. Nada a fazer.
E aqui fica o meu apelo para que se preste atenção ao Cocktail, esse épico da história do cinema.

Tralha

Há pessoas de interiores. Não é que passem o dia todo em casa, mas vivem em interiores, em espaços privados. Não quer dizer que seja difícil entrar nestes espaços - às vezes, é muito mais difícil sermos próximos de pessoas extravagantes do que destas pessoas que procuram a intimidade e o intimismo. Está em tudo o que fazem, nos escritores que escolhem para ler, nos filmes que gostam de ver, na forma como se relacionam, ou preferem não se relacionar, com o mundo. Têm a desvantagem de carregar sempre consigo um fardo que faz impressão, parece que tudo lhes cai nos ombros, pensam demais, martirizam-se. 
No fundo, toda a gente é assim. Mesmo aqueles que vivem para fora, exuberantes, vivem, na verdade, em casa. Nunca conseguimos sair de casa. Podemos é pensar mais, ou menos, nesse fechamento que é a vida.
Não sou grande leitora de Vergílio Ferreira, porque, como a Aparição nunca me seduziu de forma alguma, acabei por ler pouco do que escreveu. Mas li o Pensar, e neste livro ele diz qualquer coisa como "quando morreres, há uma data de tralha que morre contigo, e imagina o que seria se alguém te tivesse dado um encontrão para te obrigar a deitar essa tralha toda fora". É esta a ideia, e disto nunca me esqueci.
É que nem conseguimos imaginar a tralha que os outros carregam. Imaginamos a nossa, porque dela não nos escapamos. Mas toda a gente tem uma tralha que nunca mais acaba. Alguns são espertos, vão deitando alguma tralha fora, mas outros acumulam, acumulam, acumulam, e quando isso acontece só há duas hipóteses, a meu ver, ou se enlouquece, ou se torna poeta. O problema é que a maior de nós não é poeta.
Mas enfim. Fora isso, como diz o Sérgio, cá vamos andando com a cabeça entre as orelhas. Há coisas em que não vale a pena pensar.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

O duche

Devido a certos filmes e a uma certa cultura pop, tornou-se assim giro dividir as pessoas entre pessoas-cão e pessoas-gato, pessoas-Beatles e pessoas-Elvis, pessoas-manhã e pessoas-noite. Por mais redutoras que estas destrinças sejam, a verdade é que têm uma certa piada. No entanto, há aqui uma lacuna que me parece urgente colmatar e que se relaciona com a hora a que se toma duche. É que isto é absolutamente fundamental para definirmos o tipo de pessoa que temos à frente.
Ora, eu devo dizer que já me debrucei sobre este assunto no sentido de tentar compreender o que leva uma pessoa a ser uma pessoa-que-toma-duche-de-manhã ou pessoa-que-toma-duche-à-noite. E ainda não consegui chegar a nenhuma conclusão em especial, o que apenas espicaça o meu interesse por esta entusiasmante temática.
Vejamos. As pessoas com quem falei que gostam de tomar duche de manhã dizem que o fazem porque consideram pegajoso sair de casa e passar o dia fora a saber que, naquele dia, ainda não tomaram banho. Além disso, precisam de uma chuveirada para acordar, para dar energia, para cheirarem bem e começarem o dia de uma forma agradável e quentinha. Sem duche, amolecem, ficam sebáceos. Tudo isto é respeitável.
As pessoas que tomam duche à noite dizem que vestir o pijama e ir para cama a carregar, em camadas impossíveis de ignorar, a sujidade de um dia inteiro, é absolutamente inconcebível. Além disso, precisam de um duche quentinho para quebrar, precisam do sentimento de limpeza fresquinha para deixarem o corpo descontrair, amolecer, até pedir cama. Tudo se resume, de uma forma ou de outra, à moleza. O ser humano passa a vida ou a combater a moleza, ou a ser mole. É um drama que esta problemática do duche ilustra, daí que me parece ser absolutamente essencial conseguir definir as pessoas como duche-à-noite ou duche-de-manhã. Estas últimas serão provavelmente mais enérgicas e dinâmicas, tanto que se conseguem levantar mais cedo para terem tempo para a higiene; as primeiras privilegiam com certeza o conforto, a descontracção, os pequeninos e insignificantes prazeres da vida e querem lá saber do duche de manhã, preferindo mais uns minutinhos na sorna matinal e uma águinha quente à noite.
Todas as verdades que precisamos de saber sobre as pessoas estão nestas minúcias parvas da vida normal.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Embirração da semana: "é"

Não é que eu tenha o que quer que seja contra o verbo "ser", no infinitivo ou devidamente conjugado. Mas provoca-me uma ligeiríssima irritação, assim uma ponta de antipatia sei lá contra quê, ouvir "é" como resposta a perguntas que não contêm forma nenhuma do verbo "ser". Vê-se isto por todo lado, em textos escritos e não só; ainda há uns dias ouvi na Antena 1 qualquer coisa como:
- Então, nãoseiquantos, o trânsito hoje está complicado, com muitas notas a vermelho!
- É. Já há muitos acidentes.
Mas o que é isto? Eu até gostava do senhor do trânsito da Antena 1, porque, sempre que chove ou faz nevoeiro e as pessoas se despistam todas, ele fica muito agastado, muito incomodado, e uma vez até desabafou, disfarçando um suspiro e dizendo "respeite, se quer ser respeitado!". E eu gostei disto, gostei de saber que há alguém que tem o desiderato de pôr ordem no trânsito em Lisboa. Mas a escolha linguística do senhor do trânsito desapontou-me muito. Agora ponho sempre na TSF, mas sem garantias nenhumas que o "é" não suceda.
Ai compraste um vestido novo? É. 
E gostas? É. 
Espectacular, por acaso. É. 
E já tens sapatos para o vestido? É.
Mas isto tem algum sentido? E se se quiser responder na negativa, como é que se faz?
Tens de acordar cedo amanhã? Não é.
É porque entras mais tarde? Não é.
Ah, é porque é feriado. É. (aqui, já dá).
Não gosto. É.

O meu pai não deixa

Às vezes, conheço ou ouço falar de pessoas que são progenitoras de outras. Normalmente, estas pessoas progenitoras são mais velhas do que eu (não que eu não tenha idade para ter amigos com filhos, que tenho), e os filhos delas são adolescentes ou jovens adultos.
É evidente que, para quem não tem filhos, é facílimo desfiar um rol interminável de coisas que vamos e não vamos fazer quando efectivamente passarmos à procriação, actividade nobre e útil e que portanto deve ser encorajada. É também evidente que, quando de facto se tem filhos, deve ser árduo, se não impossível, mantermo-nos fiéis a este elegante acervo de regras que devem orientar a educação, e se dantes nem pensar em entreter a criança à frente da TV enquanto come, quando a criança está cá fora e começa a medrar, a berraria se calhar é tanta que não só come à frente da televisão, como se calhar até lhe põem os DVDs preferidos para ver se ela come e cala e dá algum sossego. Não critico nada disto; sei lá eu o que faço no dia em que tiver um rebento desfeito em berreiro e a cheirar mal da fralda.
Mas dizia. Por mais que tenhamos que ceder a coisas que dantes julgávamos inaceitáveis, o que me custa sempre a aceitar em alguns pais é a forma absolutamente ditatorial, castradora mesmo, com que se imiscuem na vida dos filhos. Este erro é que me parece mesmo imperdoável. E estes filhos não são criancinhas - estamos a falar de gente que passou o desmame há muito, que está a começar a vida adulta e que já devia e podia mas era ir trabalhar. Mas os pais encorajam que fiquem em casa, mesmo quando vão para a universidade, e nem todos o fazem por motivos financeiros, porque é mais barato; encorajam que desistam de Erasmus e de tunas e outras actividades para não entrarem em maluqueiras e poderem ser controlados mais facilmente; escolhem eles o curso dos filhos, alegando que não lhes dão um tostão se não ingressarem no curso, e até na universidade, que eles, pais, escolheram; agora que Bolonha reina e os mestrados e as pós-graduações se tornaram lugar-comum (havendo bolsa que pague, obviamente), escolhem até os estudos pós-graduados dos meninos, encaminhando-os depois para um qualquer profissão que eles, pais, consideram digna. Ah, queres ser educadora de infância porque adoras crianças e até tens jeito? Pois, mas vais é para Direito que é um curso que dá para tudo, assim como assim não há crianças neste país por causa da crise demográfica; ah, queres ser actriz? Então vai morrer de fome, que nesta casa ficas se for para tirar um curso a sério. Ah, queres ser jornalista? Mas vais é tirar gestão, que tens de fazer dinheiro, e assim por diante.
Os filhos destes pais ou conseguem orientar a vida desde cedo e começam a ganhar o próprio dinheiro, o que é muito difícil, se bem que possível, ou submetem-se. O problema aqui é que esta submissão não pára quando se acaba o dito curso universitário; muitas vezes, o apoio dos pais torna-se tão imprescindível, ou tão viciante, que se passa toda a vida adulta nisto, a prestar contas aos pais, a fazer o que os pais querem.
Não me parece desejável que os pais não apoiem os filhos e que não lhes financiem os estudos, se o puderem fazer. Mas parece-me mais desejável e mais justo que existam meios alternativos para que esse financiamento não passe maioritariamente pela família (no caso de Inglaterra, que é o caso que eu conheço melhor, os pais fecham a torneira quando se acaba o dito "secundário", a não ser que estejam a nadar em dinheiro. Os estudantes pedem empréstimos bancários ou têm bolsas, o que também causa problemas sociais graves, já que os níveis da dívida dos estudantes aos bancos são astronómicos, e antes de entrar no mercado de trabalho já a pessoa está depenada, isto apesar dos juros serem baixos, de não começarem a pagar logo, etc.). E também seria bom que alguns pais não usassem o dinheiro como forma de chantagear os filhos, que não os usassem como almofada emocional onde descarregam as suas aspirações e/ou frustrações, que não os quisessem manter permanentemente sob a sua asa, como objectos que lhes pertencem, como vidas inteiras que eles acham que podem decidir e controlar. E seria, já agora, engraçado que os filhos percebessem que se chega a um ponto em que tem de se tomar uma atitude, dizer não, perceber que a vida é deles mesmo que o dinheiro não seja. É que não se vai a lado nenhum por escolher o curso x ou y só porque se acha que isso vai agradar aos pais ou nos vai salvar do desemprego e da falta de dinheiro. Se há algo que nos salva destas misérias, não é de todo um curso universitário. É qualquer coisa de muito mais importante do que isso, e que só descobrimos quando passamos a escolher as nossas escolhas, não as dos pais e as do resto do mundo.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Eh pá, estou galvanizada com isto da Amazon entregar de graça para Portugal.
É que é tão... bom.
E depois os filmes do Woody Allen estão a um preço, da chuva não direi, porque basta as coisas terem um preço para custarem a pagar, mas talvez da chamada "uva mijona", isso já aceito. Há que se pagar qualquer coisa por esta uva, ou não?
Digamos que o facto de os filmes do Woody Allen estarem a bom preço, pronto, é também em si mesmo espectacularmente bom.
Ele há dias.

Dâmaso Salcede

Trabalhar com pessoas o dia todo é terrível.
Hoje, fui tomar café. A pastelaria estava calma, os bolos repousavam sem que ninguém os cobiçasse. Quer dizer, eu cobiçava, mas como não podia agir de acordo com a cobiça, deixei-me estar. Uma meia-de-leite cumpre todos os propósitos, não há que aspirar a mais.
Mas portanto. Se os bolos repousavam, as pessoas que trabalhavam na pastelaria não faziam o mesmo. Um rapaz por trás do balcão, de vez em quando, de forma aleatória, dardejava os colegas agressivamente, ainda que os seus modos fossem fracos, a voz sumida, ele todo muito lombriga, muito magro: "o que têm a dizer, dizem-me na cara. O que têm a dizer, dizem-me na cara!"
E a minha meia-de-leite à espera de um momento mais tranquilo para poder ser apreciada com calma.
Depois, o mesmo rapaz deixou de lançar as setas aos colegas e passou a outro que, pelo que percebi, devia ser o patrão. Espetei a orelhinha para ouvir, mas só consegui apanhar "deixe-me acabar de falar, se faz favor", "o que é que você quer que eu faça, tenho de ir a Lisboa e pronto", e outras coisas assim, ditas num tom muito peremptório, muito lombriga, um tom que os fracos às vezes usam quando sabem que aqueles que interpelam não os vão confrontar nem pedir contas nem, de uma forma geral, incomodá-los.
A minha meia-de-leite foi sorvida não no estado de paz desejado, mas no estado possível.
Há pessoas que confundem ter personalidade e saberem impor-se com cobardia e má educação, parece-me a mim. Lembro-me de estar uma vez numa fila para uma coisa burocrática e a pessoa que estava a atender ser nova no serviço, nem há um mês ali estava; enganou-se numa série de coisas que procurou corrigir mas, obviamente, levou mais tempo do que o desejado. As pessoas que ela atendia sabiam que ela era nova, e mesmo assim puseram-se a falar para o lado, desdenhosas, com aquela força que às vezes os cobardes têm quando se vêem em situação que lhes é favorável: "é impressionante", "francamente" e quejandos saíam-lhes da boca com prazer, diria até, como certos professores de Literatura gostam de dizer, com fruição.
Esta coisa do falar para o lado é espantosa.
Acredito e sei que todos temos os nossos momentos de fraqueza. Mas há coisas que, tal como a meia-de-leite, são penosas e custam a digerir.

Cuidado com as companhias

Os GNR têm uma música de que gosto muito (não é novidade, os GNR acompanharam toda a minha adolescência, ou se calhar eu é que os acompanhei a eles, não sei) e que se chama Homens Temporariamente Sós, título este que, julgo eu, diz muito e diz quase tudo.
Lembro-me de ter ficado fascinada com esta canção logo à primeira audição. Aquela letra que, na altura, me soava tão estranha, era também muito atraente, e percebi com alguma rapidez que acharia alguma piada a tornar-me não num homem, mas sim numa mulher temporariamente só; isto porque achava a solidão um privilégio, por um lado, mas por outro também considerava que acarretava um certo tédio, ou por outra, nem é bem tédio, é um certo fastio, vamos lá. De modo que me parecia que um estado apenas temporário de solidão seria o ideal, entrecortado por companhias, se possível, de elevada qualidade. Estas companhias, para serem ideais, saberiam quando aparecer e reaparecer na vida de uma pessoa, tipo aqueles mágicos giros, não o David Copperfield, feio, mas mais estilo David Blaine, giro. Ouro sobre azul.
Isto era o meu objectivo de vida. Depois comecei a compreender que uma vida mesmo, mesmo como deve ser não é aquela que é solitária e de vez em quando tem companhia; é aquela que tem companhia e que de vez em quando é solitária. Assim, tem muito mais piada. Tem-se menos fastio. Menos tédio. De quando em vez, conhece-se alguém mesmo, mesmo "espectacular" e que, curiosamente, não nos chateia. Isto é que é espantoso. E também é espantoso que se pense "ah, que coisa lamecha" e depois, se formos a ver bem, não é.
Como cantam os GNR, há partilhas, regressos, conquistas por fazer, memórias a esquecer. Mas tem graça se fizermos isto tudo, por exemplo, 40% sozinhos e 60% acompanhados. É na diferençazinha na percentagem que se dá a magia. Basta saber escolher as companhias.


sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Fala, fala e não diz nada. Quer, mas não pode. Tenham pena.

Há dias em que as coisas para dizer vêm umas a seguir às outras, há outros em que uma pessoa espreme, espreme e não sai nada... arre.
Já pensei nisto muitas vezes, e repito, porque me parece ser verdadeiro: quem sabe verdadeiramente escrever é quem sabe que a escrita é um trabalho, e consegue fazer da escrita o seu trabalho. Não está à espera da inspiração para escrever qualquer coisa, como eu, que se for preciso fico dias e dias até me surgir qualquer ínfima ideiazinha na cabecinha, vinda da inefável "inspiração". Eu não consigo que a escrita seja o meu trabalho, porque não consigo que a escrita dependa de mim, infelizmente; depende sempre de qualquer ideia, estímulo, dessa irritante "inspiração" que tem de aparecer. É por isso que me parece sempre misterioso, incompreensível, saber que Lobo Antunes escreve dias seguidos sempre à mão, trabalha os seus romances, muda isto, muda aquilo, diz que alguns romances lhe deram mais "trabalho" a escrever do que outros; que Saramago escrevia sempre à tarde (ou sempre de manhã, já não me lembro, mas li isso em qualquer lado), à máquina, da hora y à hora x, e que depois ia fazer outra coisa, ou seja, que encarava a escrita como a sua actividade, o seu emprego, o seu trabalho. É incompreensível, para mim, que não se escreva algo ao sabor de estímulos momentâneos, ao  sabor do dia que se está a viver, dependendo de estarmos bem ou mal dispostos, porque eu não consigo escrever como se a escrita fosse o meu trabalho, porque para mim o trabalho é algo que começa a uma hora, acaba a outra hora, e pelo meio tenho a tarefa x,y e z a fazer para depois me ir embora e pensar noutras coisas. O trabalho é algo que tem de ser feito, não envolve criação, e não quero saber daqueles que falam em "realização profissional" e que o trabalho enobrece e sei lá mais o quê. Quando um trabalho é igual a um emprego, não se pode falar destas coisas, lamento muito.
Mas quando o trabalho de alguém é ser escritor, tudo muda inteiramente de figura. Quando o trabalho de alguém é dominar a língua, a chamada "estilística", personagens, fictícias ou reais, dominar a narrativa, ou a prosa, ou a poesia, estamos face a algo de muitíssimo mais difícil, algo que exige uma precisão, uma clareza de objectivos que, talvez, a inspiração possa ajudar mas que não chega para concretizar. 
É admirável e, como se costuma dizer numa expressão de que gosto bastante, não é para quem quer, é para quem pode. Como é que eles podem, porém, é a pergunta que todos os dias faço a mim própria. Os Românticos recorriam à velha inspiração para o explicar mas, como sabemos, neste ponto em particular não se pode levar os Românticos muito a sério, que eles eram todos uns corações moles, muito trágicos, muito sensíveis. Talentosos, mas coração mole. 
Como é que eles podem, e será que dão explicações a quem quer. Dá-me jeito às segundas e quintas, e estou disposta a pagar o que puder. Obrigada pela atenção.

Mas o melhor do mundo são as crianças

Agora que saiu aquele filme sobre o facebook, vejo muitas pessoas a dizer "ah, o facebook para mim não, nunca lá vou, a gente põe lá coisas e eles ficam a saber tudo", e tal e coisa. Mas depois até estes críticos têm perfil no fb, fotografias, comentários, enfim, um tímido arremesso ao que a sua vida seria se conseguissem ser capa de revista. São assim as contradições humanas.
Mas não é o facebook que me traz hoje aqui. Não seria preciso nada em concreto para me trazer aqui, mas na verdade há uma coisa em particular, e que é este filme que figura aqui ao lado, o Laço Branco, que vi há uns dias em DVD, infelizmente, em vez de o ter apanhado no cinema. Não gostei nada do fim, achei que de alguma forma era bastante preguiçoso e que Michael Haneke se devia ter preocupado mais em finalizar a história com coesão do que seguir uma linha mais solta, do estilo "agora tomem vocês a decisão final que eu não estou para aqui com finais à Hollywood, e isto é um filme sério". Há muito preconceito contra certos formatos de cinema hollywoodesco, e não vejo razão nenhuma de ser nos mesmos preconceitos. Mas enfim, excepto o final, gostei bastante deste Laço Branco, porque me impressionou.
Não há nada pior do que crianças corrompidas, crianças em que cresce já alguma deformação moral, alguma  propensão para o Mal. Em O Laço Branco, são os pais, eles próprios castigadores, reprimidos, violentos e pura e simplesmente más pessoas, que criam as condições para que germinem ervas daninhas, contrárias ao que está certo. Estas ervas daninhas são as crianças. É uma perspectiva terrível, pensar em crianças que, em vez de inocentes, são já culpadas. Mas acontece, ou pode acontecer, quando nascem em comunidades erradas, de pais errados. Também é assustador pensar nisto, no facto de poder haver "pais errados". Mas, mais uma vez, acontece. E as consequências não são mais do que inevitáveis e devastadoras.
Até nos filmes de terror, o que mete mais medo são sempre as crianças, quando há para lá uma que se lembra de ser maluca, ou vingadora, ou de olhos esbugalhados, ou sei lá que mais. Há um filme antigo, "The Village of the Damned", em que as crianças são uns pequenos monstros implacáveis. O que é terrível é que não se pode nunca lutar contra isto. Não se pode nunca lutar contra uma criança porque, se não há inocência nas crianças, não há inocência nem integridade em mais lado nenhum. E foi nisto que pensei quando vi O Laço Branco, e foi por isso que me impressionou.
Fim.