domingo, 19 de setembro de 2010

Um Eléctrico Chamado Desejo - a peça no D. Maria (SPOILERS)


A primeira coisa que gostava de dizer é que, indubitavelmente, gostei do espectáculo - dos actores, do cenário, do guarda-roupa, da encenação. Gostei também de ver a Alexandra Lencastre num palco, e não nos dejectos da TVI por onde andou a perder tempo, e ainda por cima num papel tão exigente como é o de Blanche Dubois. Não é apenas a Alexandra Lencastre que está bem - todos os outros elementos do elenco são sólidos, e Pedro Laginha no papel de Mitch surpreendeu-me particularmente. Stanley Kowalski interpretado por Albano Jerónimo também não desilude nada. É evidente que Stanley tem de ser corporizado não apenas por um bom actor, mas também por um actor bonito, e a mim parece-me que Albano Jerónimo reúne muito bem estes dois predicadozinhos.
No entanto, e isto é problema meu e não da peça, eu penso que tinha demasiadamente presente tanto o filme como o texto da peça, uma vez que a li há pouco tempo e conheço muito bem o filme, de o ter visto tantas vezes. Quem vai ver a peça na mesma situação do que eu não se consegue esquecer de Vivien Leigh nem do impossivelmente magnífico Brando, passando o tempo a pensar, "ah, no filme o Brando também faz este gesto", "ah, no filme a Vivien também se debruça assim", "ah, no filme o Brando também diz isto assim e assim", e por aí fora. É irritante, mas não é defeito da peça, é defeito meu. Daí que eu ache que quem já viu o filme há muito tempo ou pura e simplesmente não está familiarizado com a peça tem muito mais condições para se deleitar verdadeiramente com o espectáculo, ao evitar uma postura demasiadamente analítica, que, acho eu, foi o que me aconteceu e não teve piada.
No entanto, a peça no D. Maria chamou-me a atenção para outras leituras possíveis da peça que nunca me tinham ocorrido. Há um certo elemento cómico em Stanley Kowalski, na sua brutalidade, na sua masculinidade tirânica, que no filme não é revelado e que, nesta interpretação de Albano Jerónimo, é saliente. Nunca me tinha passado pela cabeça que o Streetcar desse para rir, mas a verdade é que há elementos na interacção entre Stanley e Blanche, um tão exageradamente bruto, e a outra tão exageradamente coquette, que de facto fazem rir, ou por outra - podem fazer rir, dependendo da leitura do texto. Eu nunca o lera sob esta perspectiva, e portanto Stanley e Blanche sempre me haviam parecido intensos, desgraçados, soturnos, perdidos num jogo de poder cruel e trágico. Sem obliterar esta evidência, a encenação de Diogo Infante consegue ressalvar a potencialidade cómica do texto de Tenessee Williams, que a mim nunca tinha ocorrido. E constatar que a riqueza expressiva do mesmo texto é ainda superior àquilo que inicialmente pensei foi bastante bom, ou por outra, foi "profícuo", para dar nível aqui ao postezeco.
Pus-me a pensar no que seria se fosse a Cornucópia, por exemplo, a levar à cena o Streetcar. Seria, com certeza, bastante diferente, e o meu palpite é que, precisamente, a interpretação aqui recairia mais na intensidade trágica de Blanche e Stanley do que no potencial cómico destes dois. Por acaso, ao lembrar-me disto, fiquei com vontade de ver a mesma peça encenada pela Cornucópia, que sempre que fazem qualquer coisa, fazem-no epicamente. Seria interessantíssimo comparar, depois, as duas produções e verificar como o mesmo texto poderia sofrer alterações expressivas muitíssimo diferentes. Mas isto sou só eu a especular.
Alguns excertos do diálogo foram, não percebi bem porquê, eliminados. Não me pareceu que a sua falta afectasse o impacto da peça em geral, mas de qualquer forma tinha muita curiosidade para ver traduzida e representada a seguinta fala de Stanley Kowalski:

Listen, baby, when we first met — you and me — you thought I was common. Well, how right you was. I was common as dirt. You showed me a snapshot of the place with them columns, and I pulled you down off them columns, and you loved it, having them colored lights goin.' And wasn't we happy together? Wasn't it all okay till she showed here? And wasn't we happy together? Wasn't it all okay till she showed here, hoity-toity, describin' me like a ape?

Na peça em cena no D. Maria, Stanley interrompe a fala, se bem me lembro, na parte do "how right you was". A tal questão das colunas não fica resolvida. Na famosa cena da varanda - de que por acaso receei não conseguir gostar por apenas me conseguir lembrar de Brando, e que, afinal, está muito bem representada e ainda bem - a súplica de Stanley a Stella (don't ever leave me, sweetheart, baby) é igualmente eliminada. Também estava à espera desta fala, de modo que continuei mesmo sentada à espera. Mas, como disse, o impacto geral permanece.
Em resumo, e para acabar a composição, gostei muito do espectáculo, dos actores e de tudo, e vale muito a pena ir ver. É preciso é despachar com os bilhetes, que até Outubro só há lugares de visualização reduzida, e a partir de Outubro sabe-se lá. É peça blockbuster sem dúvida, e quanto a isto nada a fazer. Mas a ir, com muita veemência, que é uma grande peça.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

E lembrei-me agora de outra coisa que, possivelmente, acrescentaria à mesma lista do "á" e que ouvi hoje no café. Passo a transcrever, de memória, o diálogo:

- Olá! Então, estás bom?
- Oh! Desculpa lá, agora não tava-te a conhecer, oh!

Devo dizer que isto me dá muita vontade de rir. "Não tava-te a conhecer", "não tou-te a ouvir", em vez de "não te estava, não te estou" é com certeza feioe medonho, mas tem o seu cariz cómico.
A culpa não é das pessoas, a culpa é da língua portuguesa, que tem exigências que não fazem sentido. Quer dizer, se a frase for afirmativa, as pessoas põem o clítico num certo sítio (tou-te a conhecer), mas basta a frase passar a negativa que já tem de se mudar tudo (não te tou a conhecer). Nesta problemática, a minha simpatia pende para o lado das pessoas e não para o lado da língua portuguesa que, sinceramente, parece daquelas cabeleireiras amantes de senhores com Mercedes de aliança no dedo que só sabem pedinchar coisas caras e depois levam os homens à falência. A culpa é toda delas, pois é. Delas e desta língua portuguesa, que nunca está satisfeita, aliás - a gente nunca consegue-la satisfazer.

"á" que nojo

As pessoas de bom gosto apreciam dizer que unhas de gel é coisa pirosa, assim como malas de plástico (para mim, é pirosíssimo dizer carteira em vez de mala, de modo que é só para avisar) e indivíduos que dizem "esposa" e "esposo". Acho que estas tais pessoas de bom gosto se estão a esquecer de uma problemática séria e que deveria figurar nesta lista da pirosice, e que é a problemática dos dentes.
Agora, há uma certa mania de exibir uma dentição artificialmente branca, ofuscante, esfregada em profundidade no consultório do dentista, mais limpa do que a pérola. Acho horrível. Dá-me logo vontade de dizer às pessoas para irem comer umas Oreo, para ver se ficam com um ar mais humano e menos extra-terrestre. Às vezes, os dentes são tão brancos que nem sequer se vê distinção entre uns e outros, e aquilo mais parece uma placa branca pendurada na gengiva. Bleaagh.
Não é que eu considere agradável uma dentição amarelada, com verdete e outras coisas, digamos que, repulsivas. Não se trata disso. Apenas uma dentição normal e humana, esfregada com dentífrico, chega.
Outra coisa que acrescentaria à lista da pirosice e, já agora, do nojo, é ver a contracção "à" escrita como "á". Tenebroso. Faz impressão. Percebo que, de vez em quando, as pessoas se atrapalhem nos teclados, mas ver isto assim escrito por sistema aterroriza. É que é caso para perguntar se estas pessoas foram "á" escola e/ou se os professores delas também foram.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Colégios internos


Há uns mesitos, vi um documentário sobre Enid Blyton num canal qualquer. Os livros da sua autoria de que eu gostava mais eram o Colégio das Quatro Torres, em que a personagem principal era a Diana, que tinha muito mau génio, e as Gémeas no Colégio de Santa Clara. Tudo o que se passasse em colégios internos ingleses, porém com professoras de francês que eram as Mademoiselles, piqueniques à meia-noite e refeições que incluíssem rosbife com pickles, eu adorava. Isto já para não falar de aulas de natação em piscinas naturais, desportos que eu ignorava por completo como se jogavam, como o lacrosse, e o maravilhoso sistema hierárquico e quase militar em que as meninas mais novas, caloiras reles, tinham de ir às salas de estar que as alunas mais velhas partilhavam com as suas melhores amigas à frente da lareira, e limpavam tudo e engraxavam sapatos. Nunca tendo eu gozado do direito de ter alguém para me engraxar os sapatos, queria muito ir para um destes colégios internos, esquecendo-me convenientemente de que entraria como caloira e estaria, literalmente falando, feita ao bife.
A mania dos colégios internos passou-me, e passou-me definitivamente depois de ver o If, que narra precisamente a história de um rapaz (o mesmo da Laranja Mecânica, o impecável Malcolm McDowell) que, tendo passado a vida num colégio sofrendo violências físicas por parte de alunos mais velhos e professores, decide reunir um grupo de revoltados como ele e matar toda a gente à metralhadora. Sei que não parece, mas há alguma beleza nisto.
De modo que a mania de colégios internos, efectivamente, já não tenho, e além disso esta minha mania antiga não se relaciona de modo algum com os propósitos deste post, que têm antes a ver com aquilo que concluí depois do tal documentário sobre a Enid Blyton e ao esforçar a memória para me lembrar das historietas das Quatro Torres e de Sta Clara - todas as meninas tinham uma melhor amiga, já se sabendo que a menina y era a "pertença" da menina x, envolvendo normalmente um elemento dominador, que falava mais e tomava mais decisões (a menina y, por exemplo) e um elementos mais passivo (a menina x). Nada mais óbvio do que a relação entre Diana e Celeste, na série das Quatro Torres, amiguinhas, amiguinhas, sendo a Diana um vendaval de mau génio e a Celeste uma certinha querida. Complementam-se, portanto.
Não era só de amizade que estes livros falavam. A conclusão que eu retirei disto tudo era que se estava na presença de verdadeiros casais. Depois fui ler coisas à Wikipedia e vi que tinha razão, e portanto contra os factos da Wikipedia não há argumentos.
É só isto, peço desculpa se estavam à espera de outra coisa.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Stella!


Outro livro, por acaso também drama, que li este Verão foi, finalmente, o Streetcar Named Desire.

Como já falei muito sobre o filme, que segue a peça, não tenho muito a dizer, para além do óbvio, que é o facto de a Stella, na versão cinematográfica, ser mais decidida e politicamente correcta, aparentando livrar-se do marido abusador, ao passo que no livro já não é bem assim. A pobre Stella prefere acreditar que o seu Stanley é incapaz de abusar de uma alma desprotegida como a Blanche e permanece, mais ou menos alegremente, casada com ele.

No fundo, pode pensar-se que Stella é fraca e alienada, mas ela talvez seja uma sobrevivente. Acredita no que tem de acreditar para se sustentar, a si e ao filho. E, na falta de outros meios, um marido violento e abusador, que ela quer acreditar ser gentil e forte, é o seu único sustento.

Quando vemos nas notícias casos imperdoáveis e incompreensíveis de violência doméstica, é fácil pensar "que tipo de mulher fica com um homem destes, se fosse eu pegava nas malas e era divórcio e polícia na hora, etc, etc.". Não me passa pela cabeça vir para aqui adiantar qualquer tipo de explicação para estes casos, que não compreendo e espero nunca vir a compreender. Mas, por vezes, as pessoas fazem aquilo que consideram ser a única alternativa possível.

E portanto, talvez a Stella do Eléctrico Chamado Desejo, no final da peça, corresponda mais à figura de sobrevivente do que de fracalhota. A sobrevivência nunca é assim muito bonita, e a decisão da Stella também não.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Miss Julie e um muito necessário Tampax


Um dos livros que li este Verão foi Miss Julie.

O Strindberg diz, no seu prefácio, que a Miss Julie é meia maluca devido à má educação que recebeu, ao seu cérebro fraco, e também devido à menstruação, que a faz andar no enxovalho com criados de menos nível.

Eu devo dizer que concordo com Strindberg, porque realmente, uma mulher com menstruação é como se diz no South Park, bleeds for five days and doesn't die, o que quer obviamente dizer que, em aberrações destas, não se pode confiar.

Mas, fora isto, ou também por causa disto, vale a pena ler Miss Julie, ou possivelmente ir ver a peça, que eu penso ter estado há relativamente pouco tempo no D. Maria. Não fui ver, mas a leitura do livro deu-me que pensar.

Essencialmente, estamos a falar de um romance estéril entre uma menina nobre (uma maluca, mas para o caso não interessa) e um criado de classe baixa (um oportunista deslumbrado com a superioridade que ele próprio atribui às classes altas). Para Strindberg, este tipo de relação está condenado e é, mais uma vez, estéril. Poderemos argumentar, com pertinência, que hoje em dia este tipo de distinção social já não existe ou que já não tem tanta importância. Não tenho tanta certeza. Se há coisa que estes naturalistas, Strindberg e quejandos, gostavam de demonstrar é que as forças da História e da sociedade são maiores que o indivíduo e que normalmente destroem quem se lhes opõe. Pode não ser verdade. E porém, não vivemos numa sociedade tão livre de estratificações como seria desejável. Pelo contrário, a estratificação existe, e é só pensar no feudalismo que a nossa pequena Lisboa pode encerrar para percebermos isto.

Mas pronto, vamos admitir que isto é só converseta e que, nos nossos dias, a Miss Julie casava com o criado Jean e compravam o tal hotel e pronto. Ou um café na Damaia, um talho em Alcobaça, uma mercearia nos Sapadores, qualquer coisa assim que dê felicidade terrena. E, uma vez que o século XXI já tem à disposição Tampax, Evax, Ausónias e quejandos, talvez a menstruação se acalme e deixe a Miss Julie em paz.

Figuras tristes


Ora bem, quando eu era adolescente (tardia, mas para os propósitos deste post vamos fazer de conta que estava nos alvores, e não no término, da adolescência), havia uma banda que me galvanizava quase tanto como os Beatles e que eram os Smashing Pumpkins. Gostava tanto deles que até tinha uma T'shirt com a feia cara do Billy Corgan estampada, Tshirt essa que eu própria tinha mandado imprimir, sendo por isso completamente única. Estalava de orgulho sempre que a usava, mas, para meu desgosto, o sentimento não era mútuo nem compreendido. Chegava até a gerar grande embaraço por parte das pessoas que eram obrigadas a andar comigo na rua. Talvez fosse porque eu gostava de usar a tal Tshirt com umas calças muito justas e umas botas militares, que mais ninguém adorava sem ser eu. Aliás, eu achava que ficava absolutamente o máximo vestida daquela maneira, e não percebia porque é que os outros não eram da mesma opinião. Que a minha avó me pedisse encarecidamente para usar um casaquinho para compor, sob pena de ter vergonha de ir na minha companhia ao supermercado, preferindo não sair de casa comigo naquela figura, ainda vá que não vá. Agora que o meu irmão mais velho, que é a pessoa mais tolerante e descontraída que eu conheço, olhasse para mim com grande pesar e, agastado, me perguntasse, "mas vais sair assim?", ou "não podes usar outra coisa?", era fenómeno que me surpreendia grandemente.

Mesmo assim, eu só deixei de usar esta roupa quando comecei a entrar na idade adulta e, enfim, deixei de ser, digamos que, magra, para passar a ter de lidar com certas protuberâncias que tornavam o uso de calças justas um bocadinho para o ridículo.

A verdade é que não me arrependo nada de ter vestido o que quis quando quis, até um chapéu amarelo com estampado de tigre (!) que, segundo um amigo meu, me fazia parecer uma "louca desvairada". É que, infelizmente, e nos dias que correm, eu bem tento usar o que me apetece, mas é difícil. Já conseguir dar bom uso às minhas queridas DocMartens é uma sorte. All Stars escavacados, que são a coisa mais confortável que conheço e de que gosto tanto, só nas férias, e é com sorte. Tshirts com nomes de bandas ou caras de artista do "roque", nem vê-las. Chapéus amarelos, ou qualquer tipo de chapéus, interdito. Eu própria deixei de gostar, porque me acachapa (lindíssimo verbo) o cabelo, o que é péssimo; a idade adulta fez-me compreender a importância de um cabelo apresentável. Uma tristeza.

Não me posso queixar. A verdade é que não tenho de andar de saltos altos todos os dias; apreciando imenso saltos altos, morria se os tivesse de usar frequentemente. Também me vou safando com calças de ganga, mas acaba aí. Mas é assim, a sociedade é um furacão tremendo, a gente pensa que se escapa mas não, acabamos todos enrolados no mesmo turbilhão e a aceder aos mesmos compromissos, às mesmas responsabilidades, aos mesmos desejos. E está tudo bem, porque apesar de tudo ainda há livros e cinema para voltarmos a reencontrar aquela parte de nós que está escondida e que é a que verdadeiramente interessa. Valha-nos isso.

E a que propósito escrevo este post lamecha? Porque hoje o ipod brindou-me com a canção que deixo abaixo e que me fez mesmo acreditar que sim, que era o melhor dia da minha vida e que ainda bem que usei e abusei da Tshirt feia, das calças ridículas e das botas militares de que mais ninguém gostava sem ser eu.

(tem de ficar o vídeo pirata porque o original está "disabled by request". Que coisa tão estúpida)



quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Livros que engatam

Este artigo da Slate é engraçado - o autor interroga-se de como serão as suas futuras possibilidades do chamado engate quando toda a gente se converter aos livros electrónicos, em grande detrimento do livro em papel; como se diz no título do artigo, deixamos de poder julgar as pessoas pela capa, o que causa problemas consideráveis quando estamos naqueles momentos de indecisão, "avanço ou não avanço", "digo ou não digo", e etc. Momentos, aliás, que já na sua essência se revestem de stress insuportável, stress esse que um bom livro, como tema de conversa, ajudaria a dissipar. Se nem sequer isso existe, o engate está condenado.
Devo dizer que me entristece. Entristece-me porque o meu sonho foi sempre ser alvo de uma interpelação daquelas super-intelectuais e com imenso nível no autocarro ou no metro. Acho que há uma certa magia em entrar na carruagem, sentarmo-nos no banco, e haver ali um tipo que, só por acaso, pode parecer-se com este outro indivíduo:

e, dizia, esse tal indíviduo dar-se ao trabalho de reparar no que estamos a ler, só depois olhar para o resto, e pensar, "bem, que criatura magnificente, a única no mundo que lê aquele livro, o livro que eu sempre quis ler e nunca consegui mas que agora vou com certeza acabar, que ser glorioso é este que adoça os meus olhos e que nunca mais vou esquecer, vou já entabular conversa e falar de coisas terrivelmente interessantes, exposições, arte, música, poesia".
E depois o indivíduo, que se parecer com este também está optimamente:
e, continuando, o indíviduo que a gente conhece no metro é culto, culto, giro, giro, já leu tudo o que havia para ler excepto, é claro, o livro que nós próprias estamos a ler, conhece os restaurantes todos, cozinha muito bem e não se importa nada de ser ele a cozinhar todos os dias sem excepção e lavar ele a louça. E que pena, pensamos nós, dada a sorte inacreditável de termos conhecido um elemento do sexo masculino deste calibre, já termos encontrado o nosso "tal", mas pronto, a vida é assim e há que fazer escolhas. Sorte macaca, se ao menos tivéssemos começado a ler o livro uns anitos mais cedo, mas pronto, vivendo e aprendendo.
E assim se vê como um livro pode perfeitamente transformar a nossa vida, radicalmente.
Vem este encadeado de parvoíces acompanhado de uma pergunta que levanto à minha própria consideração, e que é: quais são, então, os melhores livros para causar "a" impressão? Por exemplo, tenho para mim que o Guerra e Paz não é um desses livros. Não é, há que ter paciência. Se eu visse este indivíduo:


a ler o Guerra e Paz, talvez eventualmente desferisse uns olhares de soslaio, mas sinceramente, rapidamente me desinterassaria, porque ler o Guerra e Paz publicamente dá a ideia que, ou a pessoa o lê por obrigação para um qualquer curso, ou se está a esforçar demasiado. Preconceito? Será, mas a vida é assim, uma cruz muito grande a carregar. Já o Crime e Castigo - excelente opção. Livro fundamental, repleto de temas de conversa, personagem principal impressiva, nervosa, com um grande nome (Raskolnikov é de facto inesquecível), de modo que sim senhora. Crime e Castigo no metro está muito bem. No caso das raparigas, estou igualmente convencida que Sylvia Plath é sempre uma escolha muito segura e com margem de erro mínima ao nível de impressionar o outro. Melhor ainda - deixar o Ariel "esquecido" na mesinha de café, quando alguém lá vai a casa. Não me estou a lembrar de um efeito melhor do que este, embora alguns, de carácter mais implicante, possam considerar que não passa de um cliché. Eu acho que está óptimo, talvez apenas ultrapassado pelas Birthday Letters do Ted Hughes, que eu acho que é um livro com muita classe, acho, pronto. Metro, mesa de café, autocarro, vai bem em todo o lado e adapta-se a qualquer tipo de situação, devido à sua temática agridoce.

Para os rapazes, tenho mais dificuldade em falar em geral, porque apenas posso dizer o que me impressiona a mim. Normalmente, um Lorcazinho cai sempre bem, seja poesia, seja peça, seja ensaios sobre. Tudo o que meta Lorca, no caso dos homens, é usar e abusar, que é coisa de estilo, de leitor exigente. Ultimamente, a tendência concentra-se em Jorge de Sena, portanto não deve haver aqui medo de usar profusamente, e autores portugueses vão sempre bem. O Bukowski, o Kerouac, o Hunter S. Thompson, o ubíquo Philip Roth, para rapaz, sinceramente, é como o rissol e o croquete, começa a estar um bocadinho estafado, começa a cansar um bocadinho. Coisas novas, coisas frescas, é o que se quer - uma Carson McCullers; uma irmã Bronte (escolher uma de três); uma Daphne du Maurier; um Great Gatsby; um Trumanzinho Capote; eis aqui algumas tendências, que de velhas se fazem novas, que eu acho que os rapazes, para impressionar as indígenas, poderiam começar a prestar atenção.
Isto sou só eu a pensar. Quem tiver opções de bons livros para engate, é favor dizer, que esta temática apraz-me. Sem outro assunto, despeço-me atentamente.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Sinais de Fogo

Acabei de ler Sinais de Fogo, de Jorge de Sena, e tenho uma coisa a dizer - Jorge de Sena é O homem. Obrigada à minha querida S., que me ofereceu, pelo meu aniversário e num gesto de grande generosidade, a sua própria edição, numa altura em que, ainda por cima, Sinais de Fogo estava esgotado (que vergonha - agora já não está, sabias, S.? Queres que te ofereça pelos anos? Eh eh).
Bom. Como ultimamente a minha vida anda em período de, digamos que, entre a revolução e a modorra, que parece impossível mas é verdade, não tenho tido inspiração para escrever grande coisa, mas queria aqui dizer que Sinais de Fogo tem absolutamente de ser lido. Tem de.
E um livro assim, que chega até nós pela amizade e ainda por cima é glorioso, sabe mesmo bem. E quando o acabamos de ler à mesa do café, quando lá fora chovisca (ah, pois, que o calor de Portugal de que toda a gente se queixa não me tem chegado, e eu bem precisada dele estou), é mesmo perfeitinho.
O George Orwell escreveu sobre livros e cigarros. Eu gostaria de escrever sobre livros, cigarros e amigos, tudo à mesa dessa invenção indispensável que é "o café". Sim, porque, se formos a ver bem, o que é que eu tenho a menos que o George Orwell, não é? Nada, não é? Não precisam de responder, eu sei que todos concordam. [insert ironical emoticon]
Uma justificação mais profunda do poder de Sinais de Fogo vai ter de ficar para a próxima.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

O Ilusionista (ligeiro spoiler)


Gostei muito deste filminho, como já tinha gostado das Triplettes. Quer dizer, não gostei exactamente da mesma forma. Adorei as Triplettes de Belleville, e do Ilusionista apenas gostei, porque é um filme muito terno, cheio de sensibilidade. Não vi o original de Tati, e devo dizer que também não me apetece muito ver. O Ilusionista é tão engraçado, tão bonito, tão doce que me encheu as medidas - e apenas pelo lindo poster podemos constatar que o que digo é verdade.

Só para dizer isto. Podia estar aqui a dissertar sobre a condição do artista e de uma coisa que se diz no filme ("os mágicos não existem"), mas não me apetece. Quem quiser que vá ver o filme em vez de andar a perder tempo a ver televisão, que faz muito bem.
Num brever percurso pelos jornais e revistas online, blogs e afins, fico convencidíssima de que o que as pessoas precisam é de ler mais e de baixar a sua pretensiosa e medíocre bola. E, já agora, de ver menos televisão.
Isto digo eu. Agora vou ali ver os últimos episódios do True Blood, que calhou perder.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Cantar a gente surda e endurecida

Vejo semelhanças n'Os Maias e n'O Ano da Morte de Ricardo Reis. Quanto mais penso neles, mais semelhanças vejo. Até chego a pensar no Ano da Morte como Os Maias em prosa poética. O contraste está precisamente aqui, na poesia que é a prosa do Ano da Morte e na narrativa realista, propositadamente viva e absolutamente novelística, dos Maias.
Ambos são livros, histórias, sobre Portugal. Ambos têm como conclusão fundamental uma posição muito clara sobre a chamada "portugalidade". Ambos representam uma possível mudança nesta entidade estranha que é a "portugalidade"por via de duas personagens masculinas estrangeiradas, distintas da massa de Lisboa, iniciadoras da história - Ricardo Reis, recém chegado do Brasil, Carlos da Maia, recém-chegado das suas muitas viagens por países civilizados e cosmopolitas. Por ambas as obras perpassa um cinismo quase existencial. A diferença é que, no Ano da Morte, o cinismo está em Ricardo Reis, a personagem, e nos Maias o cinismo provém do narrador, interveniente nos comentários impiedosos, duros, entristecidos, que lança sobre os enredos e as personagens. Chega-se a ter pena das personagens e quase do pobre país, levado ao extremo do ridículo naquele delirante, medíocre, cruelmente engraçado sarau da Trindade. N'Os Maias, o narrador nunca cede, ou por outra, cede apenas no final - sei que o final dos Maias é visto com grande pessimismo, o país perdido, e a sua única esperança, o superior Carlos da Maia, reduzido ao dandy rico e inútil, mas eu penso que há, no término desta obra, um folgo vivaz de esperança, de algo melhor que ainda pode acontecer. "Ainda o apanhamos, ainda o apanhamos" - João da Ega e Carlos ainda poderão fazer alguma coisa pela sombria estátua de Camões, outra esperança perdida que eles talvez possam resgatar da apagada e vil tristeza.
O final do Ano da Morte é, quanto a mim, parecidíssimo, com a importante diferença, porém, de não deixar grande espaço para o optimismo. Ricardo Reis falha do princípio ao fim, deixando tudo perdido na inconsequência. Versos, poesias, o amor de uma boa mulher, como Adrian Mole definia a sua Pandora (referência despropositada, esta, mas lembrei-me dela), possíveis contestações políticas anti-fascistas, anti-pidescas, tudo cai em derrocada.
No fundo, talvez Os Maias o O Ano da Morte me pareçam semelhantes porque há neles uma relação íntima com Portugal que se estabelece através de personagens que parecem tão vencedoras e que, em última instância, perdem. E, como padroeiro de toda esta reflexão literária e quase interventiva sobre o país, como grande impulsionador do pensamento sobre o mal-estar português, estarão muitas pessoas de que eu não faço ideia, mas está com toda a certeza Camões e a desilusão que cristaliza nos Lusíadas e nos seus lamentos profundos sobre o desconcerto do mundo. Ouvi uma vez alguém dizer que Camões representava o lado solar da literatura portuguesa, ao passo que Pessoa materializava o lado lunar. Não concordo nada (humildemente, acrescento, que fica sempre bem). O lado negro, pessimista, de Camões, e que é inultrapassável e sublime, é fundador deste tal mal-estar, que depois resulta nos Maias, resulta no Ano da Morte, resulta no pensamento de Eduardo Lourenço e o irrealismo prodigioso com que nos define, resulta até em Sinais de Fogo, esta glória do romance português, de Jorge de Sena, que estou agora a ler, e que teria de bom grado introduzido neste post se já o tivesse terminado.
Bom. Quer dizer, isto é só a minha opinião.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Cartões

Na minha desorganização, que ainda não me permitiu despachar pequenas pontas soltas de trabalho e gozar de férias como deve ser, tive de pedir à minha mãe, que felizmente tem paciência para as minhas parvoíces, para me enviar um cartão de que precisava e que me tinha esquecido a quilómetros de distância de onde agora me encontro. A minha mãe lá conseguiu encontrar a porcaria do cartão, enterrado que estava no meio de tantos outros cartões que nunca uso.
Tenho a carteira cheia destes bocados de plástico e, interessantemente, penso sempre que sou daquelas pessoas que se recusa a ter cartões. Não tenho nem um cartão de supermercado, por exemplo, e isto por mais que os supermercados me tenham tentado quebrar com veladas ameaças melífluas ("olhe que sem cartão fica sem desconto nos brinquedos... olhe que sem cartão fica sem pontos para as tupperwares e tachos e panelas e quejandos... olhe que sem cartão ainda lhe damos um pontapé... olhe que sem cartão coisas terríveis podem acontecer...", e etc.).
Também evito ter cartões de lojas, mas tenho. Esqueço-me que os tenho, nunca os uso e perco os descontos todos.
Acho que esta mania de ter cartões, na ilusão estúpida de que se vai poupar dinheiro, quando na verdade apenas engordamos os bolsos do dono do estabelecimento que nos quer "fidelizar", é a mesma coisa que roubar coisas dos quartos de hotel, no falso convencimento de que um dia nos vão ser úteis. Qual é a utilidade de trazer os sabonetinhos, escovinhas de dentes, chinelinhos, há até quem surripie roupões, se depois aquilo só vai atafulhar a casa, nunca é usado e acabamos por deitar tudo fora. E não poupámos dinheiro nenhum nem a nossa vida melhorou por causa disso.
Esta coisa de acumular cartões a bem da economiazinha doméstica, do amealhar, do poupar dinheirinho é tão inútil. Uma vez conheci um casal que tinha uma mercearia. Nunca saíam dali, estavam sempre ali, Domingos e tudo, e o Audi brutal e preto que tinham a reluzir à porta estava sempre estacionado no mesmo sítio. A bem do dinheirinho. Que gente tão patética.
Os cartões também são assim, patéticos. É impossível gastar dinheiro e poupá-lo ao mesmo tempo. Se vivemos numa rede de infindos estabeleciimentos comerciais e empresas cujo o único objectivo é ficar com o nosso dinheiro, é bom que, pelo menos, tenhamos a consciência disso.
Ainda hoje não posso com Audis.

Copycats

Na Radar, estão neste momento a fazer uma pergunta que visa saber qual a canção-versão que é infinitamente superior à canção original.

Há muitas covers que são superiores, quanto a mim. Porém, a maior parte delas será, provavelmente, inferior, nada acrescentando a um original que ou é tão bom que já não admite mais nada, ou é tão indiferente que nada o salva. Por exemplo, qual é a piada de fazer uma versão de qualquer uma das músicas dos Colplay? Já toda a gente é dada à dormência quando os ouve. Uma versão destas cançõezinhas só servirá, com certeza, para aprofundar o tédio, que já não é pouco.

Porém, aquilo em que eu vislumbro alguma piada é quando o original é ostensivamente mau, mas depois alguém se lembra de fazer uma versão que acaba por ser boa ou, pelo menos, admissível. É o que me parece acontecer com a versão dos Travis da Britney Spears, Hit Me Baby One More Time. A canção sai tão bem disfarçada que quase parece boa. Acho este exemplo muito engraçado.

É também interessante pensar na cópia que ultrapassa o original. Acontece às vezes, tal como a velha questão do discípulo que ultrapassa o mestre, sendo isso um elogio à qualidade do mestre. É claro que a versão dos Travis está longe destas conversas de café, mas enfim. Estava só a pensar, coisa que ultimamente tenho feito pouco.



Descubra as diferenças


As diferenças são simples e escassas: a primeira figura na lista dos Mais Bem Vestidos da Vanity Fair de 2010, e a segunda, a ter existido de todo, e nada indica que não terá existido, foi retratada no século XVI, podendo hoje contemplar-se todo o seu esplendor na National Gallery. Tem tudo isto muita graça e muito pouco interesse, é um facto.
A Vanity Fair deveria, quem sabe, poupar-se mais ao ridículo e estudar a sua historiazinha da pintura.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Calor

Há dias e dias.
E há dias em que, sinceramente, nada do que normalmente valorizamos importa o mínimo que seja. Dias em que compreendemos que, verdadeiramente, e como Lobo Antunes uma vez escreveu numa crónica, todos os livros do mundo não valem uma noite de amor. Que a vida não se vive em museus, nos poemas do Cesário Verde, nos quadros do Ucello, em discussões sobre didácticas, pedagogias, reformas, filosofias, metafísicas, músicas e musiquinhas, concertos e bares e restaurantes de sushi que não interessam a ninguém, muito menos ao menino Jesus ou ao Camões, que, coitados, já têm tanto com que se preocupar.
Dias em que, com o calor que está, o que salta à vista é que estar de rabo sentado com um copo de água fresca é tão importante como qualquer livro do mundo, ou até mais. Que nada do que alimenta a mente faz qualquer falta - a mente alimenta-se do corpo e isso basta-lhe. Que nada mais há para além do não pensar, e que isso chega.
Tudo o resto são pormenores, infelizmente.
Acrescento timidamente Os Maias ao copo de água fresca, mas fico-me por aí. Há mais em que não pensar, há mais em que viver.

terça-feira, 27 de julho de 2010

Ainda há quem veja televisão?, ou: singela homenagem à telenovela brasileira

Eu acho graça a ter em casa um sistema que me permite ter não sei quantos canais televisivos que não vejo. E não vejo, não por não ter tempo, mas sim porque, pura e simplesmente, não encontro nada para ver. Nada, nada. Não se trata aqui de não existirem bons programas de TV - eu acho que existem, mas ou não passam nos inúteis canais dos meos e zons e quejandos, ou passam atrasados, ou tarde e a más horas, ou são interrompidos, ou etc. De modo que, neste momento, a minha pessoa encontra-se a pagar um daqueles fabulosos pacotes de telefone + TV + internet apenas devido ao telefone grátis e à internet rápida, complementada por downloads ainda mais rápidos. A televisão, de que eu tanto gostava em pequena, vistese-a? Era o viste-la.
Ok. Sei que a RTP2 ainda tem umas quantas coisas que valem a pena. Os canais de informação vão tendo. Mas são coisas tão esporádicas. Não há nada ali que faça verdadeiramente falta, nem qualquer programa inovador que valha muito a pena ver. Isto para não falar das tentativas de canais novos, aquele interactivo em que se escolhe o programa, Q ou o que é. Nunca lá vi nada de jeito. É tão moderno, tão urbano, tão em cima do acontecimento, tão criativozinho que me dá vontade de lhes varrer as teias de aranha. Que enjoo.
A internet é que safa a coisa. Todos os bons programas de TV que se possam querer ver estão na net, e é bem mais simples e barato arranjá-los lá do que ficar à espera que os canais em Portugal se lembrem de os passar.
O que me surpreende é que os senhores da televisão não tenham ainda "realizado" este estado de coisas. Não percebo o tipo de público a que se dirigem. A quem não tem internet? A quem for parvo? Uma combinação de ambos, ou não sabe/não responde?
No entanto, devo dizer que sinto uma certa saudade de ser pequena e ter menos complicações na cabecinha, já que tal me permitia vibrar com cada novo episódio da telenovela, brasileira e da Globo com se quer, as únicas verdadeiras telenovelas do mundo. A telenovela. O que eu me lembro das discussões sobre a Kananga do Japão, em que a Dora ia para a rua no Rio de Janeiro dançar com o namorado malandro e de má vida, todo vestido de branco, da Tieta, com aquele genérico da senhora desnuda que pôs o país todo em choque (oh, sr Fradique!, diria Eça), a Betty Faria que volta em glória à aldeiazeca que a desprezara, o inesquecível Roque Santeiro, a viúva Porcina, o Sinhozinho Malta, tou certo ou tou errado, e no último episódio mostraram o cientista estranho, acho que era o Professor Astromar, a transformar-se em lobisomem e tudo... ai, o que eu gostava destas animações todas, das cenas de escandaleira e gritos, cafageste!, de choradeiras e paixões, e ainda por cima com bons actores, Lima Duarte, Regina Duarte, Marília Pêra, Glória Pires.
Tenho saudades de me entusiasmar assim. Agora, já não tenho paciência para telenovelas, mesmo que brasileiras. Embora se haja produto que me tenha ensinado a apreciar um bom drama, uma boa faca e alguidar, esse produto foi sem dúvida a telenovela brasileira, e aqui deixo o meu obrigado. Só não aprendi mais porque a minha mãe impunha limites severos na visualização e não me deixava ver os episódios todos à minha vontade.
E para terminar - há par romântico mais espectacular do que Glória Pires e Fábio Jr? Qual Kate e Leo, qual o quê, se é para ser piroso, que se assuma a piroseira e se vá à fonte, ao original. Glória e Fábio forever, é o que digo.
Bom. Isto para dizer que hoje em dia não vejo muita televisão.


Má memória


Estive a ver se encontrava, na Crónica Geral de Espanha, a narrativa da Batalha do Salado, em que o herói é o mestre da Ordem dos Hospitalários, que por acaso calha ser também D. Álvaro Pereira, o pai do Santo Condestável. Giro.

Neste episódio, em que está tudo ocupado a lutar contra os mouros, D. Álvaro está à procura de qualquer coisa de que eu agora não me lembro mas que é essencial para ganhar a batalha, e dizem-lhe algo que eu agora também não me lembro, mas que resulta no Mestre não conseguir encontrar o que procurava, que, como disse, não me lembro o que era. O que me lembro é que há uma frase magnífica em que se descreve o pesar de D. Álvaro pela aparente derrota, e que reza mais ou menos assim: "...e D. Álvaro foi d'esta muy coitado".

Tão lindo. Tão lindo, tão lindo.

Outra coisa de que me lembro é de ter gostado muito de todos os excertos da Crónica Geral de Espanha e dos Livros de Linhagens de D. Pedro que li. Não foram muitos, mas chegaram para compreender que a prosa narrativa medieval é encantadora, porque é ali que nasce tudo.

Este excerto do D. Álvaro muy coitado foi sublinhado por mim e tudo. E agora não o encontro de forma nenhuma. Deve estar enterrado algures, nas resmas e resmas infindáveis de papéis que por aqui pululam. É exasperante.

E deste me vou mui coitada. A Crónica está disponível online, edição crítica de Lindley Cintra, o Grande, de modo que se alguém souber novas do tal excertozinho, alvíssaras, ai Deus e u é.

domingo, 25 de julho de 2010

Materialismo vs eremitismo


Estive a ver uns palacetes em Sintra para comprar (pausa para rir, evidentemente). Na internet, encontram-se uns jeitosos a partir de um milhão de euros. Estamos a falar de um T16 com possibilidade de garagem. Não está mal, embora quanto a mim tudo o que não seja T18 não tenha aquela classe.
A primeira coisa que eu fazia se me saísse o Euromilhões, que eu por acaso nunca jogo, era comprar a Quinta da Regaleira. Comprava aquilo tudo e nunca mais ninguém lá punha os pés sem ser eu. Não mudava nada, porém. Quanto muito, arranjava lá um cantinho para construir uma piscinita, para nem sequer ter de sair de férias para a praia. Passaria, de bom grado, o resto dos meus dias prisioneira na Quinta. Encomendava DVDs e livros da internet. Lia jornais on-line e mandava os supermercados entregarem-me comida à porta. Não é preciso mais nada.
É por isso que penso que, por exemplo, eu sou aquele tipo de pessoa que estava bem como eremita. Qual era o problema de ficar numa propriedade ajardinada, a apanhar laranjas quando está calor para fazer sumo, fazer compras na Amazon e não ter ninguém a chatear? Não há problema nenhum.
Há certas pessoas que não têm feitio para viver uma vida de isolamento. Eu não sou dessas pessoas. Os meus gostos são simples. As minhas exigências são mínimas. Dêem-me a Quinta da Regaleira e nunca mais ouvem falar de mim.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Sintaxes

Cheguei a uma conclusão no que respeita à sintaxe da língua portuguesa.
Não gosto de frases pequenas, e não gosto das chamadas não-frases. Acho que entrecortam os textos de uma maneira feia.
Quando se escreve, por exemplo:
Tenho saudades tuas. Muitas.
Em geral, não gosto disto. Prefiro apenas "tenho muitas saudades tuas", com o sujeito e o predicado em seu devido sítio, organizadinho, escorreitinho. De outra forma, parece que estamos a repartir ideias, o que torna a leitura um bocado desagradável.
Talvez as pessoas usem esta técnica para enfatizar, por exemplo: "concordo. Tanto.", mas quanto a mim isto cria um certo efeito sentimental que me parece meio escusado. Em geral, sentimentalismos ostensivos incomodam-me um tanto ou quanto, especialmente na escrita. Mas talvez eu também não lhes consiga fugir e estou para aqui a criticar.
Era. Só. Para. Dizer. Isto.
Hoje. Não. Tenho. Muito. Que. Contar.
Ultimamente. Não. Tenho. Tido. Muitas. Ideias. De. Modo. Que. Também. Não. Há. Necessidade. De. As. Enfatizar. Com. Ou. Sem. Frases. Pequenas.

Redenção


Menu do almoço deste Domingo que, como se compreenderá, foi igualmente a única refeição do dia:

Entrada - gaspacho fresquinho e apurado, com guarnições (cebola picadinha, tomates e pepinos picadinhos, generosos pedaços de pão frito, ovo cozido picadinho)

Prato principal - sardinhas na brasa, carapaus na brasa e seu acompanhamento, por outras palavras, batata cozida, pimentos assados, salada mista (ou mística, como se prefere em certos estabelecimentos) - nem o suculento rabanete lhe faltava - pão de milho em abundância, ainda morno, azeite, aquele molho que tem um nome que eu não sei e que é azeite, cebola picada, salsa ou coentros e imensa paprica, como diria o grande Herman.

Sobremesa - salada de fruta, mousse de chocolate, pão-de- ló.

Espectacular.
Não tão espectaccular é o efeito a posteriori que a conjugação de sardinha e pimento produz e do qual ainda sinto resquícios, mas enfim, os grandes prazeres encerram eles próprios a sua dose de sofrimento. A vida é assim.
E aqui se encerra esta série de posts sobre comida porque pronto, sinceramente, também já aborrece.
Achei tanta piadola a isto.
Muito bem visto.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

These are a few of my favourite things

Bacalhau com natas.
Bacalhau assado.
Bacalhau cozido com grão.
Sardinhas assadas com pimentos.
Robalo grelhado.
Dourada grelhada.
Cherne no forno.
Arroz de marisco.
Gambas grelhadas.
Peixe frito com arroz de tomate malandrinho.
Petingas e jaquinzinhos, que ainda por cima não dão trabalho a comer.
Peixe no forno (aquele que é gordo e grande, não sei se se chama cardeal ou imperador, só sei que é muito bom), com muita cebola e molhenga do próprio peixe.
Arroz de tamboril.
Caldeirada.
Vinho branco ou tinto.
É só isto.

Peixe!


Por razões geográficas, tenho comido muito pouco peixe, que é como quem diz, há semana e meia que não como peixe. E compreendo agora como tal prejudica o estado de espírito.
A carne embrutece um bocado. Sanguinolenta, animal, pesada, acompanhada por molho ou batatas ou arroz, tudo ali se conjuga para nos cair no estômago como uma bola mal amanhada de massa pastosa, avermelhada, que se espalha pelo sangue e nos torna moles, indolentes, pusilânimes, dormentes.
Nada como um peixinho grelhado para animar. Neste momento, sinto que se comesse peixe, o sangue correria nas veias com outra força, o coração bateria com mais aprumo, o cérebro, que sinto perro, enferrujado, estulto, sacudiria todas as teias de aranha e entraria rapidamente no seu funcionamento mais perfeito, bem oleado e eficaz, pronto a decifrar todas as complexidades do mundo exterior que, neste momento, me parece uma amálgama meio amorfa de cores, sons desarticulados, movimentos vagos.
De modo que, neste momento, os meus sonhos estão repletos de suculentos robalos bojudos, que chegam até mim com a pele a estalar, dourada e saborosa, e com o garfo, cuidadosamente, afasto a cobertura estaladiça em que brilham os grãos de sal e vejo as postas brancas a fumegar, a esperar que o garfo as desfie com cuidado em gordos pedaços que irão acalmar o meu sistema digestivo, que deles bem está necessitado. Ou, em alternativa, um bacalhauzinho na grelha, a cheirar a alho e azeite, adornado por batatinhas bem esmurradas, a saltar da pele castanha. Ai.
Que bem que se come em Portugal.
Que bem que o peixe faz ao espírito.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Nada em que pensar

Eh pá, está a dar o Titanic na televisão e lá está a cena da porta.
Isto intriga-me, a sério que me intriga. A rapariga em cima da porta e o rapaz a congelar na água. Mas porque é que não se revezaram? E agora lá está ela a chorar, muito espantada e triste por ele ter congelado.
Um bocadinho mais de realismo. Se for só com o barco a partir-se ao meio e a afundar, não vamos lá. Um bocadinho mais de realismo.

Escritas


Quando escrevi este post, não tinha encontrado muitos exemplos de mulheres detentoras de uma escrita masculina. Agora, acho que já encontrei:

I'm member and preacher to that church where the blind don't see and the lame don't walk and what's dead stays that way.

Não sei definir o que é uma escrita masculina ou feminina, como disse antes, nem quero dizer que uma escrita dita "masculina" é superior à feminina (as irmãs Bronte, por exemplo, que eu adoro e admiro desde sempre, têm uma escrita feminina, quanto a mim; até o Monte dos Vendavais, tão violento e intenso e tal e coisa, me parece muito feminino). E, no entanto, Flannery O'Connor, neste Wise Blood, tem uma dureza, uma circunspecção, uma sobriedade que, não soubesse eu ser este um livro escrito por uma mulher, diria vindo do Cormac McCarthy ou assim. Hazel Motes, personagem principal, é de uma brutalidade e antipatia tais que fazem lembrar aquele sociopata do Haverá Sangue.
É assim tudo a mesma coisa, tudo do sul.

vã glória de aconselhar

Se há coisa de que eu gosto, é daquelas pessoas que sabem sempre tudo, inclusivamente o que é melhor para nós. É uma idiossincrasia minha, gosto, pronto. E aprecio aquele instinto quase maternal, ou paternal, que elas têm, dizendo, "se queres um conselho, não te candidates ao emprego tal, que não vais a lado nenhum", ou "se comprares casa no sítio x, estás a comprar mal, vais arrepender-te", e assim e assado.
Têm opinião sobre tudo. É outra coisa de que eu realmente gosto, pessoas com opinião sobre tudo. Desde sapatos a vestidos e verniz para as unhas e cabeleireiros, passando pelo preenchimento do IRS, ginásios onde compensa ir e em que horário, coisas que se devem ou não comprar no Pingo Doce,até chegar a tarifários de telemóvel, há gente que sabe sempre tudo e, por consequência, partilham connosco a sua dota opinião, em particular - e isto é importante - se a gente nunca a pediu. Penso que o facto de não pedirmos opinião é, aqui,um factor de grande importância - estas pessoas sabedouras dão a sua opinião na razão inversa às solicitações que recebem, isto é, quando menos pedimos, mais opiniões recebemos. Isto é de uma caridade exemplar.
Por acaso lembrei-me disto porque me estava a lembrar de uma das universidades que frequentei. Antes de ir para lá, disseram-me, "Rita, aproveita bem. Essa universidade é das melhores".
Eu mal conhecia esta pessoa. Esta pessoa, que me disse isto, mal conhecia a universidade para onde eu ia. E, no entanto, sentiu esta necessidade gira de me aconselhar a "aproveitar" bem. Que faria eu se ela não me tivesse dito para aproveitar bem porque a universidade era das melhores? Certamente chumbava tudo, andava para aí perdida e drogada, ao invés de ter a vida que tenho agora que, realmente, sim senhora, também deve ser "das melhores", especialmente a atentar no meu saldo bancário, sempre tão saudável. Nem a crise o abala.
Isto tudo para dizer que as pessoas que sabem sempre tudo nunca sabem nada, são normalmente parvas e deviam perceber que o mundo não quer nem precisa da sua vã glória de mandar.
E com isto me calo.

Love affair #4



Às vezes, há certas coisas que não elevam a mente mas que descontraem o corpinho.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Coisas de que são feitos os sonhos

Nesta exposição muitíssimo interessante da National Gallery explicam-se algumas, digamos que, falcatruas do mundo da arte - obras falsamente atribuídas a mestres apenas para se tornarem sucesso de vendas, obras modificadas por aprendizes tão argutos e proficientes que a diferença entre o seu traço e, por exemplo, o de Rembrandt se torna quase indiscernível, ou pura e simplesmente quadros que se pensaram, durante muitos anos, falsos e que afinal eram verdadeiros. Como por exemplo, este:


Esta obra de Ucello não cessa de me maravilhar. Parece-me quase inacreditável que tenha sido produzida no século XV, quando me parece tão moderna, vinda de uma banda desenhada do século XX. Repare-se no magnífico dragão, na estética da princesa, nas nuvens de fumo em segundo plano. E porém, Ucello pintou esta maravilha por volta de 1450. Durante séculos, pensou-se que era uma fraude - pintada em tela, coisa rara para a altura por ser tão frágil, e com cobertura a óleo, ao invés de "tempera" de ovo, não poderia com certeza ser obra quatrocentista. E, afinal, era.
E porém. Imaginemos que nunca se conseguira provar que Ucello pintara este dragão inesquecível em 1450, e que a modernidade do quadro anunciava com certeza um século mais recente. Pertenceria o quadro, efectivamente, ao século XV? Como, se todos acreditariam que não?
Sabemos com grande grau de certeza que Van Gogh pintou girassóis, que Caravaggio pintou Baco e cestos de fruta e martírios claros e obscuros, que Guardi pintou Veneza. Mas, no fundo, acreditamos - acreditamos que os girassóis são de Van Gogh e que Veneza é de Guardi. Se houver a possibilidade, remota, é certo, de os quadros que conhecemos terem saído da mão de um desconhecido qualquer, isso não faz, com certeza, diferença.
Temos situação semelhante com as Cartas da querida Soror Mariana. Alguns dizem que quem as escreveu foi um padre francês, que a pobre Soror lá viveu enterrada no seu convento sem nunca ter conhecido rega-bofes menos próprios com tropas. Outros, como eu, pura e simplesmente acreditam que a querida Marianinha Alcoforado escreveu as cartas - principalmente depois de as ter lido. E, portanto, se eu acredito nisto, o facto de as cartas terem sido, eventualmente, escritas por outra pessoa qualquer não me faz qualquer diferença.
A Gloria Swanson também acreditou até ao fim que o Sr DeMille aguardava o seu famoso close-up. A diferença, no caso dela, é que era a única. Mais ninguém a acompanhava na crença. No entanto, quando o mundo inteiro acredita numa mentira, e se não há ninguém que saiba a verdade, onde está a fronteira entre a verdade e a mentira?
Como dizia o velho e sábio Shakespeare, tudo é ilusão.
Para acabar, a belíssima exposição na National Gallery é, mais uma vez, de graça.
E para os queridos leitores que tiveram a paciência de ler este longo post até ao fim, o meu sentido obrigado, boa noite, até uma próxima e muita saúde.

quarta-feira, 7 de julho de 2010


Mas, neste edifício, há, em compensação, muitas pessoas inteligentes, que lêem livros e falam de coisas super-científicas quando vão tomar café. Não sei é dizer se jogam Sims3 ou não, porque muitas deles têm computadores e podem muito bem jogar às escondidas.
Agora a sério - a Biblioteca Britânica tem um painel bem visível à porta, lindíssimo, que diz: "Come in. Knowledge freely available".
É mesmo de graça. Com ou sem Sims3.

Eu posso gostar de Sims3 mas ainda sou pessoa

Pode ler-se, no Y da semana passada, uma entrevista com Alberto Manguel em que este diz que dantes as pessoas tinham vergonha de dizer que eram estúpidas, que só se interessavam por moda ou por jogos de computador, e que hoje em dia já não; hoje em dia, destrói-se "o valor do acto intelectual" e já ninguém tem vergonha de ser estúpido - pelo contrário, é, às vezes, motivo de vanglória.
E a razão para, em geral, haver mais gente estúpida é porque há muito dinheiro a ganhar com gente estúpida e pouco dinheiro a ganhar com gente inteligente. Pois é.
Nota para dizer que, depois de ler esta entrevista, senti-me muitíssimo mal por ter escrito aqui que gosto de jogar Sims3. Se tivesse lido isto antes, nunca teria admitido tal coisa em público. Agora é tarde demais.
Continuando, que isto foi só uma espécie de declaração de interesse, muito honesta, e isso é de louvar. Dizia-se, então, que há mais dinheiro a ganhar com a estupidez do que com a inteligência. Sim. Mas também há um argumento falso de que os media e o consumo promovem a estupidez porque "é isso que as pessoas querem".
Os media e a sociedade de consumo promovem a estupidez porque é mais fácil ser estúpido do que ser inteligente. Não acredito muito que sejam as pessoas que procuram a estupidez. Ah, mas as pessoas vêem o Big Brother, e lêem o 24 Horas (agora já não - faz falta aqui o Nelson, dos Simpsons. Favor confirmar http://www.youtube.com/watch?v=AzSnk3Rbkgk) e gostam das telenovelas da TVI. Pois é. Mas também gostam de outras coisas. Ou poderiam gostar. A gente habitua-se a tudo.
De modo que a estupidez parte, de facto, dos media e deste apelo desenfreado ao consumo (cada vez tenho menos respeito pelos meios de comunicação social, especialmente porque reconheço a sua importância fundamental; vê-los insistir em trilhar um caminho de estupidez fácil e de pouco rigor é que é inaceitável). Sim, quem vai na conversa tem a sua parte de estupidez. E talvez haja gente mesmo estúpida. De facto, há. Mas eu tenho uma inefável, estranhamente optimista sensação de que são uma minoria.
Wishful thinking.

Cotovia voa voa


Comemoram-se os 50 anos de To Kill a Mockingbird (nota para dizer que a tradução do título em português, Não Matem a Cotovia, não faz justiça à grandeza do livro; o título português parece uma coisa Paulo Coelho - hippie - ecologista chato. Há que pensar noutras opções).
Harper Lee, que escreveu o livro, ainda vive, é uma reclusa e não fala com ninguém, apenas ocasionalmente permitindo que os seus amigos e familiares dêem entrevistas por ela. O seu grande amigo de infância, Truman Capote, gostou sempre de espalhafato até morrer, mas não escapou a um certo anti-climax à hora da morte. Talvez Lee queira evitar esse sentimento de perda e, antecipando-o, refugia-se do mundo, evitando que este a deite fora no fim, qual Greta Garbo.
Sempre me interroguei porque é que Harper Lee nunca voltou a escrever um romance, considerando que o único que produziu é tão bom. E talvez a razão se encontre aqui, na qualidade imensa do primeiro romance.
Talvez haja um limite, um racionamento, da inspiração. Talvez certas pessoas sejam brilhantes, mas apenas consigam usar o seu brilhantismo uma vez na vida. Escrevem aquilo e pronto. Harper Lee escreveu a cotovia. Orson Wells fez o Citizen Kane. Emily Bronte escreveu Wuthering Heights.
Outras pessoas há que conseguem racionar com mais equilíbrio o seu talento. Picasso não pintou só a Guernica; Saramago não escreveu só o Memorial; Truman Capote não escreveu só o In Cold Blood; Beethoven não compôs apenas a 9ª Sinfonia, e por aí fora.
Porém, o que parece certo é que há sempre um momento maior, uma chama mais intensa, que depois se apaga necessariamente. Há pessoas que escrevem melhor quando começam, e para o fim da vida já não se aturam. Há outras que estão apenas a praticar com os primeiros livros, e os últimos que publicam são verdadeiramente os monumentos. Seja qual for o caso, o momento de glória parece ser escasso, reduzido, único.
Não faço ideia porque é que Harper Lee não fala com ninguém, não publica romances, prefere que se esqueçam dela. Talvez saiba que nunca conseguirá escrever outra cotovia. Talvez prefira não escrever. Talvez tenha escrito mas não queira publicar. Talvez tenha medo do olhar crítico daqueles que esperam dela um outro rasgo de brilhantismo.
As pessoas brilhantes têm, de facto, um caminho duro a percorrer. Têm a responsabilidade de cumprir sempre com as exigências do seu brilhantismo, e o que fazer naqueles dias em que a cabeça só dá para pizza e cerveja? O mundo à espera, necessitado, de um monumento, do romance, filme, quadro fundamental, ou da revolução do século XXII, e a pessoa capaz de fazer tudo acontecer está ali, a beber cerveja e a comer pizza.
Talvez Harper Lee tenha decidido que a sua contribuição para o mundo estava feita, concretizada e acabada com um único romance. Humildemente, a minha opinião é que deveria ter continuado a publicar romances, mesmo que tudo o que escrevesse não passasse de algodão doce que enjoa e dá dores de estômago.
Mas talvez seja um peso demasiadamente grande, aquele que Harper Lee escolheu não carregar. E, considerando o livro que nos deixou, a gente perdoa.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

A merda acontece


Ao que parece, o escritor Martin Amis recusa-se a aceitar, e consegue até bloquear, uma sua biografia escrita por um professor da Universidade de Ulster, Richard Bradford. Amis não gosta de certos aspectos e eventos mencionados, não concorda com o retrato que é pintado, é amigo de quem se diz que é inimigo, inimigo de quem se diz que é amigo, e quer manter a ex-mulher bem resguardada de atenções bisbilhoteiras.
A vida retratada é, de facto, de Martin Amis. Parece natural e legítimo que tenha uma palavra a dizer. Mas, como igualmente se compreende, a palavra que Amis tem a dizer não é apenas uma palavra ou um esclarecimento de factos - é, verdadeiramente, uma errata. O que ele quer, como qualquer ser humano, é, muito naturalmente, fazer uma errata à sua vida - elimina o que ficou mal escrito, apura o que está bem escrito.
Eu adorava, também, poder fazer tal coisa. Já escrevi antes que me dava um jeitão fazer uma errata à vida - onde fui burra, deve ler-se "fui extremamente inteligente"; onde fiz figura de parva e sofri rejeições, embaraços, parvoíceis, desentendidos, equívocos e quejandos, deve ler-se "fui presciente, consciente, ciente, inteligente". E assim por diante. Se, para além disto, eu pudesse publicar esta errata, sabendo que os olhos do mundo pousavam, interessados, em mim, tanto melhor. Qual seria a diferença entre aquilo que realmente sou e aquilo que o mundo acredita que eu sou? Além de mim, não haveria ninguém que pudesse contradizer a errata e afiançar a verdade - a verdade, era eu que a construía. E o meu novo Eu, corrigido e emendado, permaneceria irrepreensível, à imagem e semelhança da perfeição que eu quisesse.
Ou seja - com uma errata, seria a minha hagiografia, e não a minha biografia, que eu poderia construir, e fá-lo-ia com todo o prazer. Martin Amis está na posição de o conseguir.
Mas, como Bardford aponta e bem, uma biografia não é uma hagiografia. Como se diz em estrangeiro, a merda acontece e faz parte da vida. É uma chatice, mas também uma evidência a que ninguém escapa - a vida, no fundo, é como um cadastro que nunca se apaga. A gente faz uma parvoíce qualquer e aquilo fica lá sempre, no passado, a pulsar, a lembrar-nos daquela vez em que fomos tão imperdoavelmente parvos, e agora o precedente está criado e não há perdão.
Kierkegaard sabia disto muito bem e Martin Amis devia lê-lo.
É o meu conselho para ti, ó Martin.

sábado, 3 de julho de 2010

Normal

Conheço uma pessoa que tem muito jeito para descrever gente normal, como se constata pelo seguinte excerto:

...e, finalmente, aquela categoria de pessoas que é possível caracterizar com uma só palavra: cinzentas. São pessoas que, por força da roupa, da cara, do cabelo e dos olhos, têm uma aparência turva, cinzenta, como um dia em que não há tempestade no céu mas também não há sol, nem isto nem aquilo: paira uma neblina que tira toda a nitidez aos objectos. (...) Tais pessoas são completamente impassíveis, caminham sem olharem para nada, calam-se sem pensarem em nada.

É a mesma pessoa que, no seu Almas Mortas, descreveu certa personagem como "daquelas pessoas que não é carne nem peixe", o que está bem visto.
A normalidade parece muito simples, sem nada que se lhe diga, mas na verdade não é. Carne é carne; peixe é peixe; ambos são possíveis de definir. O que é não ser carne nem peixe, nem um nem outro? Não se consegue explicar.
Toda a gente pensa que não é normal porque toda a gente quer ser especial. Mas, na verdade, toda a gente é normal. A normalidade também tem destas coisas - quanto mais lhe queremos fugir, mais normal nos tornamos, porque é normal querer ser especial e não conseguir.
Gosto de ler sobre a normalidade. Aprecio muitíssimo quem a identifica e cristaliza exemplarmente. Não é fácil. O extra-ordinário chama mais a atenção do que o ordinário. É mais fácil escrever sobre ele.

quarta-feira, 30 de junho de 2010

Diz que Deus, diz que dá...


Diz que Deus
Diz que dá
Diz que Deus dará
Não vou duvidar, ó nega
E se Deus negar
Eu vou me indignar e chega


Carinhas larocas como esta, cabelinho comprido e romântico como este, devia ser como a Maria Rueff uma vez disse dos homens bonitos, usa e passa à outra.
Vê lá isso, Poderoso. Se faz favor.

Sinais de pontuação


Não gosto quando as pessoas dão o dito por não dito.
Eu sei que o faço amiúde, mas não aprecio quando os outros o fazem. E o que é certo é que as pessoas estão sempre a dar o dito por não dito "no que concerne" (oh, expressão bonita) à minha pessoa.
Há pessoas que têm uma certa mania de fazer tudo pela calada, evitando o compromisso pesado da frase declarativa afirmativa e do ponto final. Em vez disso, preferem a ambiguidade cobardolas das reticências e da frase interrogativa.
Em vez de "Passo por tua casa.", dizem "passo por tua casa... passo por tua casa? sim, passo por tua casa...", e depois não passam. Se lhes for pedir satisfações, respondem-me "eu dei-te a certeza de que ia a tua casa? Não, eu disse talvez". E assim se vão safando, graças à sua sábia manipulação gramatical.
Pois. Para mim, a gramática serve para as pessoas comunicarem racional e eficazmente, como dizia esse filósofo interessante que é Paul Grice, cujos ensinamentos fazem falta a certos indivíduos. O ponto final serve para ser utilizado. A frase declarativa afirmativa serve para comunicar algo de forma directa, clara, sem abiguidade - seja perspícuo, lá dizia Grice. Não é para nos refugiarmos na comodidade das reticências, cuja diplomacia é equivalente àquela que deu o Prémio Nobel ao Kissinger. Não tenho, de facto, as reticências em grande consideração.
Não percebo porque é que as pessoas insistem em violar de forma tão aberta e abusiva estes princípios fundamentais das regras de conversação e das normas gramaticais, que servem para a gente se entender. Eu defendo o ponto final. Não aprecio quem não o sabe utilizar. A vida tem uma gramática, e portanto era bom que todos soubéssemos utilizar as regras de pontuação.

Carina Alexandra

Eu dantes tinha um dicionário que era da Carina Alexandra. Lá estava, em letras grossas, muito carregadas a tinta azul, o nome dela, Carina Alexandra. Sentávamo-nos sempre os dois nos dias de teste de Inglês e usávamos o mesmo dicionário. Era uma coisa nossa, era como se fosse dos dois.
Até costumava ir a casa da Carina estudar e tudo. Ia de camioneta e depois ela e o pai iam à paragem buscar-me. O pai olhava para mim sempre desconfiado, com uma careta mal disposta. Não gostava de mim porque o cão se enervava todo quando eu ia lá a casa. Bastava-me entrar pelo portão e lá vinha o cão todo esganiçado, todo nervoso, a ladrar e a espumar. Uma vez o cãozeco ficou tão nervoso que eu pensei que me ia morder e dei-lhe um pontapé. Resultou, porque era um caniche, que são cães pequenos, mas a partir desse dia foi um problema para entrar na casa da Carina, porque o cão ora rosnava, ora gania mal me punha a vista em cima, e era um desatino. O pai da Carina adorava o cão e detestava-me a mim, e quando eu lá ia, o pai passava a tarde a consolar o cão.
A Carina e eu tínhamos sempre a mesma nota a Inglês, que era por causa do dicionário que a gente usava sempre. Eu gostava da Carina. Tinha cabelo comprido e usava uns óculos esquisitos. Eu gostava dos óculos, mas ela não. Também tinha um feitio esquisito, resmungava quando não diziam bem o nome dela, que é "Cárina", e resmungava quando alguém tinha notas melhores que as dela. Isso acontecia muito, porque a Carina Alexandra só tinha 3 e quase nunca chegava ao 4, portanto passava a vida a resmungar. Eu gostava, dava-lhe personalidade. Ela era gira.
Houve um dia em que não se quis sentar ao pé de mim nem me deixou usar o dicionário. Nunca mais usei aquele dicionário com as letras grossas a anunciar "Carina Alexandra". A Carina passou a partilhá-lo com um estúpido qualquer da nossa turma que era muito magrinho e passava a vida sozinho, sem amigos nenhuns. Para mim foi muito difícil, sem dicionário quase chumbei a Inglês e ainda hoje é uma língua que eu não sei falar bem. Mas no meu trabalho não faz diferença, qual é o empreiteiro que precisa de falar Inglês? Eu é que não sou, e além disso daqui a uns meses vou viver para o Brasil por motivos que me dão jeito não dizer, e lá fala-se português, portanto as línguas não me vão fazer falta nenhuma.
Noutro dia, via-a e voltei a pensar nela. Tinham-me dito que não tinha conseguido entrar na universidade em Lisboa para o curso que ela queria, que era Jornalismo, e que por isso tinha ficado cá na privada, a tirar acho que era Contabilidade. Mas não deve ter acabado, ou se calhar faltam-lhe cadeiras, porque a encontrei na bomba de gasolina. Estava muito mais gorda, a princípio nem a reconheci. Agora usa o cabelo puxado num rabo de cavalo muito apertadinho, assim com gel ou isso. Tem umas borbulhas na testa que dantes não tinha e já não usa óculos. Os olhos dela parecem muito mais pequeninos sem óculos, muito pequenos mesmo. Parece ainda mais esquisita.
Fiquei ao pé da bomba o dia todo, para a ver sair. Chegou um tipo num carro de dois lugares e foi ter com ela. A Carina deu-lhe a mão, pareceu contente. Os olhos encolheram-se todos quando se riu. O indivíduo que a foi buscar era muito magro, muito escanzelado. Também tinha um ar encolhido e não se riu para a Carina Alexandra, até a empurrou e tudo para ela entrar no carro.
Passei pela casa dos pais dela, para ver se ela ainda vivia lá, e acho que deve viver, porque vi o carro de dois lugares estacionado. Mas o raio do cão é que ainda não morreu e deve ter-me cheirado, que mal me aproximei desatou a ladrar que nem um desalmado. Fugi dali, não quero que a Carina Alexandra saiba que eu a vi.
Acho que amanhã passo outra vez pela bomba de gasolina. Quero saber se ela já foi ao Brasil.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

O Bernardim Ribeiro parece-se com quem?



Imagino sempre o Cesário Verde com a cara do B. Fachada, ou por outra - quando o B. Fachada apareceu no cenário musical deste país, eu reparei que a cara que eu normalmente associava ao Cesário Verde era a dele. Olha que coincidência.
É, porém, uma coincidência que não surpreende - ambos são louros, de olhos claros, muito bonitinhos, magrinhos (imagino que o Cesário fosse magro), com um ar frio e frágil. Ambos são poetas, embora aqui, como se compreende, a precedência caiba ao grande Cesário.
Serve este post para dizer que gostaria que isto acontecesse mais vezes - olhar para alguém e dizer, "olha, lá vai a cara do Antero de Quental" - por acaso, o B. Fachada também é parecido com o Antero; "olha, lá vai a cara do Bernardim Ribeiro"; "olha, lá vai a cara do Alexandre Herculano", mas menos sisuda, e etc.
As coisas são muito diferentes quando conhecemos a cara de alguém. É como ver uma coisa a cores na TV - parece sempre muito mais real do que em preto e branco (daí ser até bem mais interessante ver a preto e branco).
É exactamente o mesmo com a cara das pessoas. Há muita gente que vive a preto e branco na minha cabeça, e eu vou lá de vez em quando colorir, pinto os olhos de uma cor um dia, o cabelo de outra noutro dia qualquer. Mas gostava de conhecer, detalhadamente, a cara de algumas pessoas de que gosto, mesmo sem nunca as ter conhecido - como o meu querido Cesário e o seu absurdo desejo de sofrer.

terça-feira, 22 de junho de 2010

Streetcar


Embora saiba que Viven Leigh protagonizou Um Eléctrico Chamado Desejo (doravante designado por Streetcar, porque eu sou uma pessoa que é asim), e que tal consumou uma injustiça para a também grande Jessica Tandy, que fazia de Blanche na peça da Broadway, dizia, embora estando ciente desta injustiça, não posso deixar de me deliciar com a Vivien enquanto Blanche Dubois.
Primeiro, sou fã da Vivien Leigh desde pequena. Teria talvez uns 10 ou 11 anos da primeira vez que vi o Gone With the Wind e me apaixonei por Rhett Butler e Scarlett O'Hara. Que fogosos, que bonitos, que imperiosos, os dois. É impossível não gostar de os ver a trabalhar, ainda que o filme dure quatro horas e que eu hoje em dia esteja em condições de admitir que, enfim, talvez seja um tanto ou quanto pastelão.
Bom. Isto para dizer que tudo em Vivien Leigh como Blanche é frágil e adocicado e perigosamente instável na medida certa. O tom é irrepreensível, e a forma como Blanche balança na corda bamba, entre a sanidade mental e a loucura, é admirável. Os olhos ligeiramente desvairados, por exemplo - como é que se conseguem uns olhos apenas ligeiramente desvairados? Não sei, mas a Vivien consegue-o.
Talvez tenha sido ajudada pela força incontida de Brando, que, sendo tão impossivelmente lindo, dá ao seu Stanley uma única vantagem, que não chega para o redimir - o facto de ser bonito e uma força da natureza. Tudo o resto, nele, é bruto e primário. A mulher, Stella, tem-lhe afecto devido essencialmente a questões de ordem física, ao tal desejo que às vezes complica a vida de uma pessoa. Quanto a Blanche, o seu problema é, exactamente, não saber bem o que fazer às tais questões de ordem física e descontrolar-se com isso. Depois faz figura de desavergonhada e é escorraçada da cidade onde vive. Stanley, por seu lado, sabe exactamente o que faz quando se trata de matéria carnal - domina. E a sua única superioridade assenta nisso. De modo que a pobre Blanche, que com a força mental não pode contar, e dada como é a atracções físicas desorientadas, não tem qualquer hipótese.
É um problema grave quando o corpo pede coisas que a cabeça não quer dar. Criam-se discrepâncias de grande impacto social.
Vale a pena ver e rever o Streetcar. Só me falta ler a peça. Ainda não resolvi este problema.

Não quero Paris para nada


Não gosto muito do Casablanca.
Não quer dizer que não considere um grande filme. Com ou sem a minha consideração, é evidente que Casablanca é um grande filme.
E porém não gosto.
O meu desagrado prende-se com aquela tristemente famosa história do "we'll always have Paris". É tão inútil. De que é que serve a alguém estar para sempre ligado a um romance acabado, de lágrimas, que já não traz felicidade e que, por acordo de ambas as partes, foi terminado? Não compreendo.
A questão é que para mim foi sempre óbvio e terrivelmente claro que Ingrid Bergman deveria ter ficado com o Rick. O facto de ter apanhado o tal avião para Lisboa é incompreensível. Pode ter sido o mais nobre, o mais sensato, o mais fácil - mas não foi o mais acertado. Escolher a infelicidade para o resto da vida não pode ser o mais acertado. O marido da Ingrid arranjava-se sem ela, com certeza. Continuaria a liderar a Resistência e conhecia a sua "Jeanne Moulin" ou algo parecido.
Também não gosto muito da versão do As Time Goes By que aparece no filme, ao pianinho, mas isso já é outra questão. Em vez do Sam, lamento muito mas devia ser a Billie Holiday ali a cantar. Assim, sim.
Mas voltando à questão dessa problemática terrível do "we'll always have Paris" - hã? Mas isto é para servir de consolo? Não me parece consolo de qualquer espécie. Parece-me uma triste, inaceitável despedida. É isso que me transtorna em Casablanca - a separação de Rick e da Ingrid é inaceitável. A ordem natural das coisas diz que devem ficar juntos. Mas eles insistem em viver apenas de memórias - porque se enganam e insistem no erro de que a memória é algo que se tem.
O meu conselho a Rick e a Ingrid (não me lembro do nome dela no filme, não quero saber) - vejam Another Woman, do Woody Allen. Aí, vão perceber que uma memória é algo que se perde. Não é algo que se tem. E talvez aí decidam ter, e não perder.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Ideias?

Gostava de saber de onde vêm as ideias.
Sei, porém, de onde é que não vêm e talvez saiba o que preciso de fazer para ter mais ideias.
Mais do que desligar a televisão, que deixou de me distrair, tenho de desligar a internet. É tão fácil perder tempo com a internet, e uma perda de tempo ainda mais improdutiva do que a televisão.
Dividimo-nos em pequenos pedaços, cada um a prestar atenção a coisas diferentes - ler artigos na wikipedia, ler as notícias, ver uma coisa no youtube, descobrir um site absolutamente inútil mas que nos parece interessantíssimo, escrever parvoíces no facebook ou olhar para as parvoíces dos outros, etc.
Na maior parte das vezes, sinto-me tão mal quando desligo a internet como quando acabo de jogar Sims3, que a minha infantilidade não consegue deixar de gostar - absolutamente oca. Não há nada na minha cabeça, nestes momentos. A internet é, na maior parte das vezes, a fast food do cérebro. É claro que apresenta vantagens inegáveis mas é, fundamentalmente, a glorificação globalizada e virtual da inutilidade. Eu sempre fui a favor da inutilidade, mas agora começo a achar um tanto ou quanto demais. É que, antes da internet e dos computadores, eu não sabia o que era a sensação de completo esvaziamento mental. Agora sei. E considero desagradável. Não gosto.
Por isso, gostava, sim, de saber de onde vêm as ideias. Gostava de conseguir passar uma semana sem televisão nem internet, a ler, a ler, a ler compulsivamente e a ter ideias. Mas basta-me ligar o pc para não resistir ao impulso demoníaco do império on-line. Além de que, obviamente, tenho o blog, e gosto do blog. É bom ter algo que obrigue a escrever regularmente, mesmo que nem sempre saia bem. Mas vir ao blog implica entupir-me com as boçalidades que navegam por aí, neste espaço etéreo onde nos encontramos. E é chato. Gostando de inutilidade, sempre me insurgi ligeiramente contra a boçalidade, que incomoda.
Bom.
Isto para dizer que há semanas que não tenho uma única ideia de jeito. Uma única. Ando a trabalhar demasiado, talvez, e eu nunca me dei bem com o trabalho. Eu e o trabalho, é uma magia que não se dá.
Enfim.

O médico da Pérola

Quando li a Pérola, de Steinbeck, na escola secundária, o professor disse-nos para prestarmos atenção à personagem do médico ganancioso e viscoso e como o facto de ele se referir aos doentes como "clientes" definia, por si só, tal personagem.
Lembro-me muitas vezes deste médico da Pérola. No outro dia fui à clínica e tinham lá uma mensagem a avisar os "clientes" de uma seguradora de que iriam perder uma qualquer cobertura (ambulância ou o que era). Vi há pouco uma série americana com uns médicos que chamam à clínica onde eles próprios trabalham "a place of business".
Incomoda-me.
É isto.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Estou em choque.
Descobri agora que Saramago morreu.
O Ano da Morte de Ricardo Reis ficará para sempre comigo.
A única consolação que tenho (e não é bem consolação) é que me faltam ainda muitos livros de Saramago para ler. Duvido que me apaixone por algum como pelo Ano da Morte, mas pode ser que aconteça. É Saramago, afinal. E a sua escrita, aquele domínio da língua que ele tinha, uma coisa impressiva, uma simplicidade que aterrava, as verdades tão simples, chãs, que ele conseguia dizer.

Dentro de nós há uma coisa que não tem nome e essa coisa é o que nós somos.

A solidão não é viver só, a solidão é não sermos capazes de fazer companhia a alguém ou alguma coisa dentro de nós.

Era uma escrita sentenciosa. Mas nunca doutrinal. Era bonita, apenas. Era bom ler pelo prazer de ver ali a língua portuguesa num expoente de criatividade, de significação, de matéria que é trabalhada e esfregada e tecida até resultar naquelas frases assombrosas.

Gostava dele. Considero-o um enorme escritor. Não me apete dizer mais nada. Apetece-me ler isto:

Thou wast not born for death, immortal Bird
No hungry generations tread thee down;
The voice I hear this passing night was heard
In ancient days by emperor and clown:
Perhaps the self-same song that found a path
Through the sad heart of Ruth, when, sick for home,
She stood in tears amid the alien corn;
The same that ofttimes hath
Charm'd magic casements, opening on the foam
Of perilous seas, in faery lands forlorn.

pedras que rolam e outras temáticas banais


Qual é a ideia de uma banda que tem o nome de um dos membros?
Não compreendo o objectivo. Não vale mais ter uma carreira a solo?
Por exemplo - Van Halen. Não compreendo esta escolha de nome. Porque é que o Van Halen não se decidiu por uma carreira a solo? Era porque não sabia cantar e precisava de um indivíduo para ir saltar, cantar e fazer figura de parvo, ao passo que ele, Van Halen, se limitava a deixar que a sua franja fizesse a figura de parvo por ele, ficando caladinho, a tocar a guitarrinha e pronto? É uma incógnita.
Outro exemplo - Fleetwood Mac. Percebo que o Mick Fleetwood tenha sido o fundador. Mas então porque é que não escolheu ser artista a solo? Se precisava de uma gira loura e maluca, com a mania que é bruxa pagã (é o que me consta da Stevie Nicks), para vender discos, então que tivesse respeitado os outros e tivesse dado um nome mais democrático à banda - Fleetwood Mac & Stevie, por exemplo, sei lá.
Estas bandas deveriam pôr os olhos num exemplo de classe, bom gosto e democracia - Crosby, Stills & Nash, que por vezes, como bem se compreende, eram os Crosby, Stills, Nash & Young. Pois é. Ao menos, está o nome de toda a gente muito bem discriminadinho.
Analisando agora uma outra problemática, também acho foleiro que certas bandas decidam incorporar o próprio nome nas canções. Os Porno for Pyros tinham uma música que se chamava: Porno for Pyros. O refrão era: Porno for Pyros. Para o caso de ninguém ter percebido bem a designação da banda, sentiram esta necessidade de enfatizar. Também não compreendo tal necessidade. Deriva, provavelmente, de certas inseguranças e desejo de afirmação. Considero desagradável. O meu irmão dava sempre o exemplo do ridículo que seria se os Smashing Pumpkins decidissem escrever uma canção cujo refrão fosse o nome da banda. Pois é. Muito inconveniente, e até feio. Nem os Beatles se safam - uma canção chamada Beatles seria terrível. Neste aspecto, os Rolling Stones têm mais sorte porque foram buscar o nome a uma música irrepreensível do Muddy Waters, e portanto aqui nada a dizer.
Mas voltando às bandas cuja designação corresponde ao nome de um dos membros - é muito pouco democrático. Eu não gostaria de estar numa banda chamada "Sousa", ou "Santos", ou "Ferreira". Mais vale pertencer a um conjunto musical tipo Jorge Santos e Seus Muchachos. Sempre seria mais honesto.
E agora, parar com toda a parvoíce e abrir coração e ouvidos ao momento musical que se segue. Impecável. Soberbo. Este Muddy Waters era rei. Os Rolling Stones tinham muito bom gosto, de facto.



Well, I wish I was a catfish,
swimmin in a oh, deep, blue sea
I would have all you good lookin women,
fishin, fishin after me
Sure 'nough, a-after me
Sure 'nough, a-after me
Oh 'nough, oh 'nough, sure 'nough

I went to my baby's house,
and I sit down oh, on her steps.
She said, "Now, come on in now, Muddy
You know, my husband just now left
Sure 'nough, he just now left
Sure 'nough, he just now left"
Sure 'nough, oh well, oh well

Well, my mother told my father,
just before hmmm, I was born,
"I got a boy child's comin,
He's gonna be, he's gonna be a rollin stone,
Sure 'nough, he's a rollin stone
Sure 'nough, he's a rollin stone"
Oh well he's a, oh well he's a, oh well he's a

Well, I feel, yes I feel,
feel that a low down time ain't long
I'm gonna catch the first thing smokin,
back, back down the road I'm goin
Back down the road I'm goin
Back down the road I'm goin
Sure 'nough back, sure 'nough back

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Há mais coisas entre o Céu e a Internet do que sonha a nossa vã filosofia


Muitas vezes, envio emails a mim própria. É um método eficaz e seguro para guardarmos documentos e material necessário, escusando de dependermos de pens e computadores e outras coisas que se podem avariar (comigo, avariam-se sempre).
E porém. Isto de me enviar emails é fenómeno que não cessa de me espantar e confundir. Os filósofos do século XIX e da escola romântica, soubessem eles desta invenção magnificente que é a Internet, e ficariam com certeza com a cabeça descontrolada, de tanto que teriam para dizer. Estou mesmo a ver o desespero acerca da perda da individualidade, a fragmentação da identidade. Tenta lá ser a flauta divina que Deus toca ao escreveres poemas num blog, ó Shelley. Fazeres uns copy paste deste e daquele, aqui e ali. E depois reencaminhares para ti próprio. Não há grande divindade nisso, pois não?
Mas, por exemplo, Schopenhauer. Considero que a internet e a possibilidade de enviarmos emails a nós próprios é coisa capaz de dar cabo da cabeça ao pobre Schopen. Hã? Então mas... que vontade é esta e ... solipsismo? Então como, se eu não sei onde está o meu Eu? Está no facebook? Está nos 10 endereços electrónicos diferentes? Está nos vários blogues que escrevo? Pois, agora assim de repente não consigo muito bem perceber onde é que está o meu Eu, e sendo assim isto do solipsismo ... se calhar convinha primeiro ver onde é que está a consciência de si e tal... talvez no facebook? O facebook parece-me bem, vou começar por lá e...
Pobre Schopen. Ainda bem que não nasceu nesta altura, se não andava para aí a bater com a cabeça nas paredes, desgovernado.
Os Gregos é que estariam muitíssimo bem preparados para a internet. O quê, mandar emails a nós próprios? Pffff, faço isso todos os dias ao pequeno-almoço. Quero lá saber disso, este mundo para mim nada tem de novo. Eu só sei que nada sei, de modo que não é uma porcaria de um email que me vai afectar. Assim como assim, isto é tudo uma ilusão. Esta gente pensa que descobriu o mundo virtual agora - pobres coitados, eu rio-me da sua ignorância. Eles sempre viveram no mundo virtual. Não passamos de sombras. A Ideia está lá no alto, a rir-se de nós. O Arquétipo não é para toda a gente. E andam estes todos contentes, a pensar no facebook, a analisar o facebook, como se isso fosse alguma coisa de novo. Pobres ignorantes.
Os Gregos é que davam bem a volta à internet, de facto. Numa luta entre a internet e os filósofos gregos, ganhavam os gregos à vontade.