quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Frágil

Às vezes fico tão farta de não saber as coisas. A pessoa esforça-se, esforça-se, esforça-se, e há sempre coisas que não sabe, que nunca vai saber, há sempre coisas incontroláveis que mudam tudo para pior (ou melhor, quem sabe), e entretanto estamos sempre na corda bamba, todos os dias, todas as horas. É tão cansativo, é exasperante, e enquanto se anda nisto há milhares de filmes que não vemos, milhares de livros que não lemos, dezenas pessoas que não conhecemos e que nunca vão cruzar o nosso caminho, dezenas de sítios a que nunca fomos e a que provavelmente nunca iremos, e um mundo inteiro fora do nosso alcance e onde se calhar as coisas são melhores, mais bonitas, enfim, não sabemos, mas também não vamos lá chegar.
E ponho-me a pensar amiúde que há dias em que vejo porcaria na televisão, e perco tempo na net sem fazer nada, sem me tornar melhor, mais sábia ou mais bonita, quanto muito fico mas é pior, e o tempo que perdi é irrecuperável e é terrível, é o preço a pagar por todos os pequenos, ínfimos erros de todos os dias, erros que podiam ser evitados e substituídos por mais livros, mais pessoas, mais sítios, livros que nunca leio, pessoas que nunca conheço, sítios a que nunca vou, e erros meus em minha perdição se conjuram, como cantava o Camões, erros tão pequeninos e que deviam ser insignificantes mas não são. Mas porque é que tudo na vida tem de ter uma consequência qualquer? É pouco justo.
E escrevo frases longas de mais, e cometo o mesmo erro ano após ano após ano. Entre outros. Errar é humano. Mas também é humano errar menos. Somos tão benevolentes para com a nossa própria pessoa, tão pouco exigentes. Ainda estou para conhecer quem não seja, e não digo isto por conhecer pouca gente. O ser humano é frágil, lá cantava o Jorge Palma.
De modo que hoje, o que eu precisava mesmo é que me pusessem o braço no ombro, eu preciso de alguém,  e embarco tanto em conversas banais, e sim, adorava mesmo estar in, mas não passo do out.
Que cousa, pá.

Adjectivo da semana: espectacular

Um dos meus adjectivos preferidos é "espectacular". Gosto muito, porque me faz sempre rir, quando as pessoas dizem "foi espectacular". É tão adolescente. Ainda rio mais quando dizem "é espectáculo", em vez do adjectivo propriamente dito.
É um pormenor, como tantos outros, mas acho tanta graça.

O John é o meu Beatle, mas, mas, mas...



... o Paul McCartney, quando era mais novo, também era espectacular a trabalhar.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

O Coiote

Esta proposta do Facebook de se mudar a fotografia e substituir por um boneco da infância fez-me lembrar o Coiote, aquele que andava sempre atrás do beep-beep e, além de  nunca conseguir cumprir o seu propósito final, que era apanhá-lo, ainda era tão azarado que acabava em tormentos físicos, e certamente psicológicos, que custavam a ver. Custavam, mas não o suficiente para que a pessoa não se risse com aquilo.
No entanto, reparo agora que sempre senti uma pena imensa do Coiote - coitadito, sempre que as coisas lhe corriam mal os olhos pingados escorriam-lhe cara abaixo que metia dó. De certa forma, até me identifico com ele. É que o Coiote, no fundo, não era má pessoa, pelo contrário - sabia o que queria da vida e encetava esforços para o conseguir, mas a questão é que a vida nunca estava do lado dele e, por inépcia da própria personagem, castigava-o cruelmente.
De modo que, analisando a problemática do Coiote, penso que se podem detectar aqui dois factores, que são: por um lado, e como diz o Woody Allen, a gente tem de ter jeito para a vida e, se não o tiver, há que o aprender e desenvolver. O Coiote, claramente, não só não tinha jeito nenhum como nunca conseguiu aprender nada, por mais pedregulhos que lhe aterrassem na cabeça. Por outro, a pessoa até pode ser muito inteligente e sensível, sensata, expedita e avisada, mas também tem de ter alguma sorte. Podem sempre dizer-me que fazemos a nossa própria sorte, e eu até acredito nisto na proporção de, mais ou menos, 90%. Mas há uns restantes, e maliciosos, 10% que ditam que as coisas correm mal porque têm de correr mal ou que correm bem porque têm de correr bem. O Coiote nunca conseguia ultrapassar estes 10%, mesmo quando se queria armar em chico-esperto. Era, até, quando se armava em chico-esperto que as coisas lhe corriam pior, o que em si mesmo é já uma grande lição para este país de chico-espertismo: pode resultar por um tempinho, mas não resulta para sempre e depois acaba-se com o tal pedregulho em cima da cabeça.
Coitado do Coiote. A vida não gostava dele.

domingo, 14 de novembro de 2010

D. Sebastião

Será que as gerações mais novas e de meia idade falharam em todos os países europeus, ou foi só em Portugal? 
A minha geração, por exemplo, sempre foi muito mal vista. Disseram que era rasca. Quem  proferiu esta simpática designação foram aqueles que estavam comodamente sentados em empregos bem pagos, carreiras feitas, reformas garantidas e ADSE em estado de graça, e que mesmo assim se atreviam a desprezar com arremessos paternalistas, de charuto na boca, uma massa de gente que se engalfinhava para entrar na universidade, que se mataria depois para arranjar emprego, que hoje lhes paga as reformas com o suor do corpo e dos recibos verdes, e a quem continuam a dizer que é bem feita porque (e ouvem-se aqui as vozes dos que arranjaram, no seu tempo, um emprego para a vida) ninguém pode hoje esperar o tal emprego para a vida e mesmo que o arranje não deve arranjar, porque isso é coisa de indolente preguiçoso, pouco produtivo, pouco competitivo, à espera da salvação e das garantias do Estado (pecado capital, como se sabe).
Há uma certa geração aqui que falhou porque nunca conseguiu ganhar. Não é muito nova nem muito velha; não viveu em total ditadura mas também não conhece a completa democracia; o país deve ser, para eles, um misto de autarquias onde reinam caciques que se podem comprar e manipular e mandar para o Parlamento se for preciso, e umas empresas que lhes podem pagar uns salários chorudos a troco de, e umas estações de televisão que servem para transmitir discursos e propagandas, e uma União Europeia que, para lá chegar, tem de se atravessar a Espanha toda e a França, mesmo longe, mas que vai mandando uns dinheiros, uns subsídios que se vão gastando e tal, e no meio disto também há umas parcerias que se vão podendo fazer com o Estado, com os privados, depende do que der mais jeito e der mais dinheiro na altura, e a gente mostra assim uns edificios ultra modernos acabados de construir, e umas autoestradas de faixas recentemente alargadas, e uns computadores que toda a gente vai aprender a usar, estão a ver, nem tudo é mau, faz-se o que se pode, se o FMI vem aí a culpa não é desta geração que tentou perceber o que era uma democracia mas não conseguiu decorar o capítulo até ao fim, e tentou prestar contas e cumprir orçamentos sem derrapagens mas não conseguiu, e quis que toda a gente lesse uns livrinhos, mesmo que fosse a Anita Vai à Escola não fazia mal, o que interessa é ler, e também não conseguiu; não, a culpa não é deles, eles bem tentaram, mas era tão difícil, ainda por cima sem ajuda nenhuma, ninguém lhes explicou, ninguém lhes ensinou, veio dinheiro do estrangeiro e aplicou-se, e afinal as pessoas votaram neles, não é, afinal estamos aqui a culpar quem, afinal quem são os verdadeiros culpados, vocês não sabem fazer contas melhor do que nós e ainda se queixam?, oh pá, dantes este país era 80% de analfabetos, calem-se, mas é. Deixem-nos trabalhar.
E isto para dizer o quê. Para dizer que eu agora podia começar com um discurso que por acaso já tinha engatilhado, "ah, a minha geração é rasca mas é sobre ela que cai a responsabilidade de fazer melhor, de salvar este país", e blablabla. Era um discurso que poderia fazer, mas que não vou fazer, porque gostaria de acreditar nele, embora não acredite. E de modo que, depois de tanta conversa, não tenho resposta nenhuma para nada. Apenas sei que a minha geração não é rasca. Tem de fazer pela vida todos os dias e é o que faz. Pode ser que conheça o seu estado de graça e traga Portugal de volta, sei lá. Há uns que acreditam no D. Sebastião numa manhã de nevoeiro e eu, de certa forma, também acredito, embora substitua D. Sebastião pelo D. Dinis ou pelo D. Pedro, que são assim os reis com quem eu mais simpatizo; o D. Sebastião era tão incompetente como os espécimes de hoje, de modo que por ele nunca tive grande simpatia, e ainda por cima não pagou ordenado decente ao Camões, portanto só por aí dá para ver o tipo de governante que ele era.
Pode ser que eu entretanto encontre alguma resposta. Para mim, pelo menos. Já não era mau. Boa sorte para o país e para todos nós enquanto o D. Dinis ou o D. Pedro não chegam, é o que desejo.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Olha, olha, olha, avisou-me aqui um link qualquer que este blog fez dois anos dia 6 deste mês, e eu que me tinha esquecido por completo!
Quando comecei a Rua, achei que se durasse seis meses já era muito. Mas pronto, vai-se continuando, devagarinho e tal, e quando se dá por isso já passaram dois anos. Mesmo que só tivesse durado 6 meses, já ficava contente. Dois anos é já um bónus simpático. Obrigada aos pezinhos dos Beatles.

Era mesmo só para escrever uma coisa qualquer, com a vossa licença, para a próxima é melhor, desculpem qualquer coisinha

Uma vez, uma amiga minha disse-me que não gastava dinheiro em perfumes porque lhe fazia impressão pagar balúrdios por um frasco de água que cheira bem.
Compreendi a posição dela, embora nunca tenha concordado com esta perspectiva lúgubre e pouco romântica de não usar perfume. Primeiro, porque cheirar bem é importante, ainda que não  tenha necessariamente a ver com perfumes. Há pessoas que cheiram bem porque, além de limpinhas, pura e simplesmente cheiram bem. Há outras que cheiram bem porque usam perfume, sendo que (e vem isto em segundo lugar) quando se usa o mesmo perfume durante muito tempo, a pessoa habitua-se a pensar que aquele cheiro que todos os dias se vai entranhando é verdadeiramente o nosso cheiro. De modo que pode ser uma coisa muito pessoal, e de modo que não concordo nada com a posição dessa minha amiga.
Isto para dizer o quê? Isto para dizer que não acho correcto que se usem muitos perfumes ao mesmo tempo. Há pessoas que têm perfumes de Verão, de Inverno, de dias de chuva e de dias mais não sei quê. Depois a roupa fica com uma misturada de cheiros e elas acabam por não cheirar a nada, além de que é extremamente mariquinhas ter mais do que um perfume. Há que ter a presença de espírito de saber escolher um. Quanto muito, muda-se de cinco em cinco anos. E é esta fidelidade ao cheiro que deve orientar as decisões da pessoa, e é esta fidelidade que me agasta quando me acontecem coisas como ontem, em que parti um frasco de perfume que ainda ia a meio. Eh pá. Sentir o meu cheiro espalhado em azulejo de chão de casa-de-banho, sinceramente, é enxovalho. 
A história mais triste que me aconteceu em termos de perfumes não, foi, porém, esta mais recente de ter partido o frasco, mas passou-se antes com um rapaz que uma vez me disse "ah, eu quando era mais novo tinha 18 perfumes, um era para sair à noite, outro para o dia, outro para andar de carro, outro para a praia, outro para isto e outro para aquilo". Ainda hoje me esforço para perceber o que poderá passar pela cabeça de um qualquer homem para dizer uma coisa deste calibre a qualquer mulher, ou até a qualquer pessoa. Escusado será dizer que a coisa ficou logo por ali.
Não vou apagar o post, mas quero que se saiba, assim em geral, que tenho consciência de que está uma bodega. É que tinha mesmo que pensar numa parvoíce qualquer, pelo menos durantes uns minutinhos, e pronto, saiu isto. Fica assim.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Henry Fonda

O Henry Fonda era bonzinho. Não sei se o era na vida real (a mulher suicidou-se e os filhos, ao que parece, culparam-no eternamente), mas no cinema era bonzinho e querido, principalmente nas Vinhas da Ira e no Twelve Angry Men, grandes filmes em que o adoro ver, com aquele sentido de justiça entranhado que lhe sai do olhar. Gosto.
No entanto, onde eu gosto verdadeiramente de ver Henry Fonda é no Era Uma Vez no Oeste, a fazer de malvado Frank. A bondadezinha suave que, normalmente, associo à cara de Henry é absolutamente inquietante no papel de Frank, porque esta personagem é terrível, maldosa ao extremo, e no entanto continua com carinha de bom, com uns olhos azuis muito brilhantes e bonitos. Ou seja, consegue ser ainda mais maléfico, porque a cara de bonzinho acentua um cinismo e uma hipocrisia terríveis.
É estranho como, por vezes, a bondade não traz consigo nada mais do que coisas más. Ou por outra, as coisas más é que ainda são piores quando vêm sob uma máscara de bondade. Apetece-me citar outra vez aquele excerto de Sade sobre a beneficência, mas não o vou fazer porque enfim, já o repeti pelos menos umas quatro vezes. Mas lembro-me disso muitas vezes.
De qualquer forma, no cinema resulta mesmo em cheio, acho eu.   A cena que segue abaixo, com Henry Fonda a aproximar-se, de sorriso à lagarto no rosto e trazendo consigo o Mal, é absolutamente inesquecível. A banda sonora também ajuda, e muito (das mais magníficas de sempre), mas bolas, este Fonda era mesmo bom.
Adoro este filme. (spoilers no vídeo que se segue)

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

O meu obrigado à Luna, que sempre que tem a gentileza e a simpatia de linkar qualquer coisa aqui do blog, aumenta em trezentos por cento os transeuntes desta rua.

Melhor Blogger Hipotético: Soror Mariana Alcoforado

Julho de 1660
 Mas que cousa... juro que não me é dado perceber esta decisão tão injusta do meu pai. Disse que eu tinha de vir para o convento por causa dos espanhóis, que aí vêm pelejar. A culpa não é minha! Porque é que eu tenho de vir para aqui! Nunca ninguém me compreende, sou tão incompreendida.  Já estou como a outra, "menina e moça me levaram de casa dos meus pais, que motivo foi esse da minha levada era ainda muito nova, não o soube..." Ai como eu te percebo, Menina! Também eu estou aqui nesta lonjura, neste vazio, menina e moça. flor da idade...
Julho de 1662
Estou tão deprimida que esmorece em mim qualquer desejo de fazer o que quer que seja. Passo o dia na cela, a ouvir Jorge Palma. Acho que ele é o único que me compreende. As outras irmãs preferem GNR. Eu não, acho que eles se estragaram todos. Oh, que incompreendida sou. Já nem escrevia nada há dois anos, eu que gostava tanto de ler e escrever...
 Julho de 1663
Ai! Ai, que meu coração bate descompassadamente e quero crer que me sai a galope do peito! Hoje conheci um cavaleiro tão nobre e belo, estrangeiro ainda por cima, de farda, lindo, lindo de morrer, francês, tão requintado, chama-se Chamilly, que nome belíssimo, eu vi-o da janela, ele olhou para mim com aqueles olhos, aqueles olhos enormes, parecia o actor daquele filme, e o meu coração descompassado, e agora?, será que ele me vem visitar!
Julho de 1663
Veio visitar-me! As outras irmãs deixaram-no entrar! Nós aqui somos umas para as outras, LOL! (tenho de me desabituar de escrever assim à balda, sempre escrevi tão bem, mas a verdade é que tenho bem melhor em que pensar)
Julho de 1663
Hoje também me veio visitar!
Agosto de 1663
Hoje também...  :)
Setembro de 1663
Hoje também... : D
Outubro de 1663
E hoje... XD
Novembro de 1663
E hoje... XDDDDDDDD
Tenho mesmo de fumar um cigarrinho às escondidas, ai...
Janeiro de 1664
Ooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooh, a minha vida acabou, que desgraçada sou, que cruel apartamento de almas é este a que me vejo sujeita, que vale de lágrimas vejo assomar a meus olhos, eu... eu morro. Ele não me escreve, já lá vão cinco cartas e... quero agora crer que nunca mais o ver.
"Só conheci bem o excesso do meu amor quando quis empregar todos os esforços para curar-me dele" - olha, que bem que isto me saiu. Que lindo que está, não está? Pensando bem. Quando se tem a Internet, quem é que precisa de franceses.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Necessidade de apimentar

Uma vez, fui passear com um amigo e fomos dar a uns penhascos, por acaso bem giros, de onde se via o mar. Acontece que eu estava de botas de salto alto, mas a culpa não era minha, porque a verdade é que, com a minha infinda esperteza, me tinha esquecido de trazer uns ténis ou isso. E lá andava ele a saltitar por todo o lado, e eu especada feita parva, no meio da pedra e da rocha, a tentar calcular onde poderia encaixar o salto sem cair e sem me desgraçar toda. Não dava. Fiquei parada a olhar para o mar.
O meu amigo, que era mesmo só meu amigo e felizmente ainda é, ficou a olhar para mim com um ar tão agastado que eu nunca o poderei esquecer, e ainda rematou "ainda bem que não és minha namorada!".
Tudo bem - sim, eu estava numa situação parva por não ter sabido usar calçado decente, sim, eu estava numa figura parva completamente desnecessária, sim, eu parecia daquelas pessoas sebosas que só sabem ir de carro para todo o lado e nunca se mexem, sim, provavelmente não seria a mulher dos sonhos de ninguém numa situação daquelas. Mas, sinceramente, há certas verdades que custam a ouvir, mesmo que venham da boca de um amigo, que tem o direito, e até o dever de nos dizer a verdade sem rodeios nem contemplações.
Por alguma razão, este tipo de verdades custa sempre a ouvir, mas custa ainda mais se vem da parte de amigos do sexo oposto. Não sei bem se partilho da teoria do filme When Harry Met Sally, filme de que por acaso gosto muito e que advoga que um homem e uma mulher não nunca  poderão ser amigos sem acabarem enrolados; mas, mesmo não partilhando inteiramente desta teoria, há um certo apreço que gostamos de notar por parte dos amigos de sexo oposto. Não tem de ser nada de concreto, nem sequer significativo, mas é bom que lá esteja. Assim qualquer coisinha para apimentar, é só. Uma pimentinha inocente. 
Pimentinha essa que, como se vê, está bem ausente quando um amigo se vira para nós e, com toda a sinceridade e até, estranhamente, com amizade, nos diz que para namorada, nem pensar. Pronto. A verdade, como a vida, é uma cruz. O que vale é que as verdades são também como as opiniões, dependem muito de pessoa para pessoa e de homem para homem. A verdade de um é a mentira de outro, e é assim que a gente se vai safando.

Não faz sentido

Eu noto que estou a ficar velha, velha, velha, mas mesmo velha rezinga (e gaiteira para os momentos mais alegres, que é uma expressão que eu gosto) quando começo a perder a dita pachorra para certas coisas que as pessoas dizem. É que, quando era mais nova, perdia a paciência mas passado cinco minutos já não me lembrava; hoje em dia, perco a paciência e fico a bufar tipo panela de pressão que a todo o momento rebenta, faz estardalhaço por todo o lado e fica tipo Michael Douglas naquele filme que se chama Falling Down, e que por acaso está bem traduzido em português - Um Dia de Raiva. Nota para dizer que gosto imenso deste filme, acho que é muito subvalorizado. Digo isto porque não conheço muita gente que goste do filme, mas enfim,a verdade é que eu também não conheço muita gente - deve ser por não ter, lá está, paciência. Só devo conhecer para aí umas dez pessoas. Até gostava de conhecer mais gente, mas a questão da paciência é um deficit que, como tantos outros deficits, terei de resolver com urgência.
Continuando. Aquilo que me deixa em estado de ebulição é a mania que as pessoas têm de dizer que  x ou y "não faz sentido". Pelo que percebo, a não ser que as coisas se confinem ao que elas acham que faz sentido, nada no resto do mundo bate certo. Não percebem as regras da voz passiva, por exemplo, porque "não faz sentido". Não percebem sequer que haja voz passiva porque "não faz sentido". Países onde nunca  foram "não fazem sentido". Bandas de que não gostam também "não fazem sentido". Bacalhau com natas "não faz sentido". Iscas ainda devem fazer menos sentido, digo eu. Apanhar o metro na Cidade Universitária para sair no Colégio Militar também "não faz sentido", porque quase mais valia ir a pé. Então força. E assim por diante.
Eh pá, que cansaço. Mas esta mania não é de agora, não. Lembro-me de que há uns anos, quando passou a primeira Operação Triunfo, houve um concorrente que teve de cantar Com Um Brilhozinho nos Olhos, do Sérgio (perdão - Sérgio Godinho, porque só "Sérgio" não faz sentido). Acontece que o dito concorrente, a quem toda a gente elogiava a vozinha de canário a perder o pio, não queria cantar a canção porque "não fazia sentido nenhum". Vá lá que a Catarina Furtado, e digam o que  quiserem dela, teve a presença de espírito de lhe dizer que aquilo era um descaramento.
Também me lembro de as pessoas dizerem, quando o Pulp Fiction saiu, que não gostavam porque o filme "não fazia sentido", e que além disso ainda andava para trás e para a frente e pronto, não havia ali o tal sentido que as pessoas gostam de discernir nas coisas. É como a pontuação do Saramago, também "não faz sentido", dizem alguns. 
Arrisco dizer que, de facto, há aqui muita coisa que não faz efectivamente sentido, mas não me parece que se possa imputar essa falha ao mundo exterior. A falta de sentido está mais nas limitações  intelectuais da nossa própria cabecinha, que não alcança tudo nem tem de alcançar. Mas enfim, isto também não deve fazer sentido nenhum.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Todos somos super dotados

Quando as pessoas me começam a falar dos filhos, eu começo na contagem decrescente até ouvir "até me chegaram a dizer que o meu filho era sobredotado" ou, numa versão assim mais moderna, "até me chegaram a dizer que o meu filho era super-dotado". 
Eu fico feliz com estas novas gerações que prenunciam um futuro tão brilhante para o país, com hordas de crianças que, não lhes basta a sobredotação, têm até uma super-dotação espectacular. Têm quatro anos e já sabem falar ao telemóvel, jogar computador e debitar o nome das personagens do Noddy de cor, sinais deslumbrantes de inteligência, sinais esses que também se revelam quando as criancinhas vão aos Sequins de Ouro e Toma Lá Uma Canção Para Ti e sei lá o quê, em que, sob o olhar atento e indesculpável dos paizinhos, se desfazem a serem queridinhos e a cantar música para adultos da maior qualidade. Eu adoro ver estas evidências conspícuas destas crianças super-dotadas, é uma coisa que consola e que faz perceber que estamos mais que preparados para enfrentar a crise e evitar o FMI.
Bom. Isto para dizer que, na infância e na adolescência, é fácil ser-se "super-dotado", aliás - é fácil ser super em tudo. Normalmente, numa escola normal, é muito fácil ter aquele olho que os outros, ao que parece, não têm, e ser-se rei. Basta dizer umas coisas engraçadas e chegou-se lá. Mas, a não ser que sejamos Mozarts, a escrever Requiems aos seis anos ou qualquer coisa equivalente, o que eu duvido que seja possível até para o próprio Mozart, a nossa esperteza e sobredotação rapidamente se revelam naquilo que realmente é: a normalidade. Quando se chega ao mundo real, há muita gente que é efectivamente pior do que nós, mas há indubitavelmente mais gente que é muito melhor e ao pé de quem não somos nada de especial. A não ser, lá está, que sejamos o Mozart, e, à partida, não somos.
"Don't try", dizia, ao que parece, Bukowski. Por outro lado, se formos ler antes  Kavafis e a sua bela Ítaca, aprendemos que o que verdadeiramente conta não é o destino, é a viagem. Podemos encetar a nossa viagem para chegarmos ao patamar do Mozart, mas não faz mal se nunca lá chegarmos, como provavelmente nunca chegaremos. É um esforço honesto, pronto, uma forma de dar dignidade à nossa condição humana.
Uma vez, uns amigos meus foram ver um concerto com um daqueles pianistas adorados pelo mundo inteiro, não me lembro quem era. No fim, diz uma, sonhadora, "ah, será que algum dia eu conseguirei tocar piano como ele?!", ao que um outro amigo, realista e pouco dado a confortos, replica, "não sejas parva. É claro que não".
Não sejamos, nós, parvos. É claro que não. Mas enfim, podemos sempre pensar que sim. O sonho é uma constante da vida, para terminar o post com esse outro enorme poeta António Gedeão. É muito bonito pensar assim.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

A língua portuguesa rula

A minha querida amiga L. deixou-me uma coisa maravilhosa no mural do facebook - este texto de Stephen Fry, que segue, numa animação gira, no vídeo abaixo:

Aquilo que verdadeiramente me deslumbra nas palavras de Fry é a sua premissa inicial - a língua é algo que serve para nos entreter, para nos divertir, para nos dar prazer, tal como a música ou a pintura, por exemplo. E, no entanto, quase nunca pensamos na língua que falamos desta forma quase lúdica. Como também diz Fry, o que algumas pessoas fazem é achar que são os cães de guarda da língua, inamomíveis e baluartes de sabedoria, que se queixam, em inglês, da apóstrofe, da pronúncia dos hs, das nominalizações; em português, queixam-se se calhar dos particípios passados (e, ainda por cima, mal - "não é 'ter ganhado', é 'ter ganho'!", dizem eles - vão à gramática, pessoal, vão à gramática), queixam-se dos clíticos (mea culpa, que ainda há pouco tempo escrevi um texto a gozar com um "não tava-te a conhecer"), queixam-se sei lá mais de quê. Estes instintos de hiper-correcção face à língua não revelam nenhum gosto especial pelo uso da mesma língua - como afirma brilhantemente Stephen Fry, a língua certinha, correctazinha, serve para a escola, para exames, para entrevistas de emprego - como ele diz, vestimo-nos de fato escuro para a entrevista, e vestimos a língua de fato escuro também. Isto não tem nada a ver com o prazer que a nossa língua nos pode dar - palavras como "estrapicalhar", expressões como "fazer espécie", "obrigadinha", "adeusinho", "até à próxima e continuação", "saúdinha é que é preciso", "o que tem de ser tem muita força, né", "a gente temos de ser uns para os outros", "ó filhinha", etc., outras pérolas que agora não me vêm à cabeça (não me lembra, como se diz), tudo isto não tem nada a ver com a correcçãozinha da língua. Tem a ver com apreciar a língua, em tudo o que ela contém - desde os versos mais retumbantes de Camões às frases mais desenxabidas (outra linda expressão) ou descabidas.
De modo que considero que este texto de Stephen Fry é quase a Bíblia, um imenso, enorme obrigadinho à minha L. por me ter mostrado isto, e pronto, a língua portuguesa é a coisa mais espectacular que existe e, sem ela, a nossa vida seria ainda mais miserável, com ou sem orçamento de estado.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

O Corto Maltese ganha ao Seinfeld

Gosto muito de ver o Seinfeld. Adoro, adoro. É um programa cheio de verdades sobre a vida, entre elas esta, sobre o casamento e a família, que, nas palavras de Kramer, são:

 They're prisons. Man made prisons. You're doing time. You get up in the morning. She's there. You go to sleep at night. She's there. It's like you gotta ask permission to use the bathroom. Is it all right if I use the bathroom now? (...)... and you can forget about watching TV while you're eating. You know why? Because it's dinner time. And you know what you do at dinner?  You talk about your day. How was your day today? Did you have a good day today or a bad day today? Well, what kind of day was it? Well, I don't know. How about you? How was your day? It's sad , Jerry. It's a sad state of affairs..

Eu sei que isto é verdade, ou por outra, acredito que seja. Não é que eu goste muito de ver televisão quando estou a jantar - por acaso, até nem gosto. Mas também não gosto de pedir autorização para ir à casa de banho. No entanto, gosto de falar sobre o dia. Contudo, não gosto de o dissecar até à exaustão. Todavia, também não chego ao ponto de considerar que o casamento seja um estado de coisas muito triste. E porém, também não considero que seja o Céu na Terra, se é que isso é possível.
Agora que me faltam conjunções adversativas para continuar o raciocínio, a conclusão a que chego é que o casamento é aquilo que se diz da democracia - o pior de todos os sistemas, à excepção de todos os outros. Quando falha a democracia, passa-se à acção unilateral, como os EUA fazem muitas vezes, e como as pessoas também fazem, quando o casamento falha e se percebe que mais vale só do que mal acompanhado. 
Eu acho que qualquer estado civil tem 50% de espectacularidade e 50% de miséria, sendo que o estado civil do casamento em geral, e até do chamado "junto", como as pessoas às vezes gostam de dizer, tem a particularidade de dar ainda mais trabalho do que todos os outros estados civis, e ter trabalho é uma maçada. 
Ora acontece que esta conversa é toda muito bonita e muito verdadeira, mas há um pormenor com o qual não se conta, e esse pormenor é que o Corto Maltese pode aparecer assim de repente, e se de facto aparece e pergunta "para sempre?", não estou bem a ver que haja alguém com filosofia que resista. Quer dizer, talvez haja, mas esse alguém não sou eu.
É que, como dizia o velho Shakespeare, há mais coisas entre o Céu e a Terra do que sonha a nossa vã filosofia. E essas coisas entre o Céu e a Terra, às vezes, justificam loucuras. De modo que o Shakespeare ganha um ponto e o Seinfeld, neste caso específico, perde. Não estava a contar com o Corto Maltese, era o problema dele.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Pecado original

A ideia de pecado original sempre me pareceu muito cruel. Uma injustiça. Quer dizer, uma pessoa está muito bem sem fazer nada e quando dá por ela, zás, já tem um pecado em cima. Assim, só por ter nascido. Hã?
Quando eu era pequena, diziam-me, a mim e aos outros todos da catequese, que quem não é baptizado carrega o pecado original como uma marca flamejante para sempre. Por acaso, esta da marca flamejante acrescentei eu, mas o resto é verdade. O que me angustiava é que, mesmo que a questão do baptismo estivesse resolvida e o pecado original expurgado e arrumado, a pessoa ainda tinha de se preocupar com os pecados todos que cometia diariamente, alguns deles que nem sabia se eram pecados ou não, e esses só passavam com a confissão e a absolvição e a comunhão; no entanto, a tal confissão e restantes métodos  eram só para pessoas de uma certa idade, não eram para crianças. De modo que, de certa forma, eu invejava os adultos, porque esses tinham uma maneira de, regularmente, seguir procedimentos claros para, em tempo útil e sede própria, se livrarem do Mal, fazendo uma espécie de tábua rasa para começar de novo, ao passo que as crianças estavam bem arranjadas, pecado original (ou não) e ainda por cima mais os outros pecados todos. Também me angustiava não saber exactamente que pecados eram esses, não haver assim uma espécie de grelha que me dissesse, isto igual a pecado, aquilo igual a pecado mas pequenino, aqueloutro pecado enorme, e assim por diante.
Isto para dizer que bem cedo me apercebi da natureza pecaminosa do ser humano, e ainda hoje acho terrível que não nos seja concedida uma margem de dúvida, do estilo - olha, a partir do momento em que vens ao mundo, tens cadastro limpíssimo; a partir daí, começas a asneirar e começa a contagem decrescente; se chegar ao menos zero, vais para o inferno, mas pelo menos tens, logo à partida, uma oportunidade decente. Estando as coisas como estão, e já nascendo a pessoa em estado pecaminoso, que hipótese é que se tem?
Por acaso, lembrei-me disto há pouco tempo, quando estava a conduzir com o ipod aos berros, que calhou parar no It's a Sin, dos Pet Shop Boys. Era uma manhã horrível em Lisboa, cedíssimo, o trânsito que se movia lento como uma jibóia gorda que acabou de engolir um elefante do dobro do tamanho, e eu ali encafuada a olhar para as pessoas nos outros carros, sonolentas, feiosas, umas fumavam, outras, no lugar do pendura, abandonavam-se ao sono de tal forma que metiam pena, outras ainda olhavam em frente, tristonhas, e à minha volta e à volta delas prédios pingões, cinzentões, sujos. Seria claro para qualquer pessoa que ainda tivesse ilusões que, àquela hora, naquele sítio, se estava face à evidência de que a raça humana é tudo menos perfeita. E, sabendo nós isto, sabendo nós que somos tão feios, porcos e maus, que ninguém escapa, ainda temos de aguentar o pecado original? Não está correcto.

sábado, 23 de outubro de 2010

Muralhas, rochas, ilhas, coisas assim

Há anos que não ouvia Simon & Garfunkel. Sempre gostei muito deles, mas calhou deixá-los escapar da minha vida por muitos anos até ao dia de ontem, em que comprei daqueles CDs que são uma espécie de best of, retrospectiva e assim. Pensei que não ia gostar tanto das músicas como gostava há 10 anos, e de uma certa forma de facto não gostei, mas algumas canções houve que recordei com quase tanto entusiasmo como quando era adolescente e as sabia de cor e salteado. Sem dúvida que uma das minhas preferidas sempre foi (continua a ser) I am a Rock - o adolescente fechado no quarto, a olhar a neve da janela, a sentir-se reconfortado por não precisar de ninguém e ninguém precisar dele. "I have my books and my poetry to protect me". De facto, esta ideia é muito reconfortante. Os livros são seguros, abrigadinhos. As pessoas não, só dão chatices. 
Hemingway encontrou o título do seu livro "For Whom the Bells Toll", John Donne, que também escreveu, no mesmo texto ou ensaio ou poema, não sei, "no man is an island". E daí os sinos tocarem por todos nós. E daí um certo texto de Brecht* bastante conhecido, aquele que diz "vieram buscar os comunistas, e eu não era comunista, e depois vieram buscar os católicos e eu não era católico, e depois os judeus e eu não era judeu, e depois vieram-me buscar a mim. Não havia mais ninguém." (o texto não é assim ipsis verbis; estou a inventar porque não me lembro, mas sei que a ideia é exactamente esta).
Bom. Isto para dizer que agora, como cidadã e como ser humano que tento ser, estou consciente de que nenhum homem é uma ilha nem uma rocha e que precisa de bem mais do que livros para viver. E, no entanto, também me parece verdade que conseguimos, se quisermos, viver bem separados de todos os outros. No último filme de Woody Allen que vi, Whatever Works, Larry David diz, a certa altura, que lê o jornal, vê todas aquelas desgraças inimagináveis e o que é que faz? Não faz nada,  ignora, e isto porque é demasiadamente insuportável viver sabendo que aquelas catástrofes acontecem. "What can you do? It's overwhelming", diz ele, e tem razão.
E quanto ao resto, sinceramente, todos sabemos o quão fácil é não deixar que os outros não nos chateiem, se não quisermos de facto sermos incomodados. Eu raramente quero, se me puser a pensar com alguma honestidade.
Portanto, de uma certa forma, sim, cada homem é uma ilha, com os seus livros, a sua poesia, os seus filminhos, coisas que, controladamente, propositadamente, escolhemos a dedo para nos serem próximas. Por outro lado, não, não somos ilhas, porque como diz o Brecht,* quando nos invadirem a ilha e nos vierem buscar a nós (e eu acho que mais tarde ou mais cedo vêm, porque tendo a ser pessimista, mas também realista), como é que é? Nem que seja para, mais uma vez, velar pelos nossos próprios interesses, temos mesmo de, olha, como se costuma dizer, ser uns para os outros.
O meu problema com isto é que dá um trabalhão e raramente apetece. Estou a tentar resolver este dilema.
Realmente, Simon & Garfunkel têm canções muito interessantes.



* Um leitor atencioso fez o favor de me informar que a frase não é de Brecht, como eu pensava, mas sim do pastor Martin Niemoller, tal como pode ser confirmado na Wikipedia. Aqui fica a correcção.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Uma coisa é ser mulher, outra coisa é ser senhora

Estava aqui a ler este lindo blog e deparei-me com a citação do dia, que calhou ser de Margaret Thatcher  (espero que a Lenor não se importe que eu cite aqui algo que encontrei citado no blog dela):

Being powerful is like being a lady. If you have to tell people you are, you aren't.

Isto não se aplica apenas às pessoas poderosa e/ou às senhoras. Aplica-se a toda a gente que quer ser vista de uma determinada forma e não é: quem é bonito não precisa de dizer que é bonito; quem é inteligente não precisa de dizer que o é; quem é rico não precisa de dizer que é; quem é, em geral, bom, isto é, pessoa de qualidade, não precisa de dizer que é, e de facto não diz, e etc. 
De modo que hoje já tive a surpresa do dia, que é concordar com algo que a Margaret Thatcher tenha dito, e encontro-me agora a indagar o que é isto de ser "uma senhora". Parece-me uma questão algo premente. Durante muito tempo, pensei que era não ter ouvidos, aquilo que tantas vezes me foi ensinado como única resposta digna aos comentários libidinosos que qualquer mulher, senhora, rapariga, menina, o que se quiser, tem necessariamente de ouvir, com maior ou menor frequência, só por se limitar a andar na rua. As senhoras, mulheres, raparigas, o que seja, têm de aprender cedo, neste país.
Dizia Simone de Beauvoir que não nascemos mulheres, tornamo-nos mulheres. E senhoras? Da mesma forma que se aprende culturalmente a ser mulher e homem, também se aprenderá culturalmente a ser senhor e senhora, e usar garfo e faca e flute de champanhe e etc, ou ser senhora quer apenas dizer não ser prostituta, ou quer apenas dizer que se pode ser o que se quiser, prostituta e tudo, desde que seja honesta, ou é o quê? A minha vã filosofia não alcança. 
A afirmação de Margaret Thatcher, que eu por acaso acredito que seja mulher  e além disso senhora, talvez queira dizer que ser "senhora" é uma qualidade intrínseca, da mesma forma que certos homens são "gentis homens", e que isso ou é inato ou não é. Não se pode aprender, não se pode fazer esforço para  o ser e andar por aí a dizer às pessoas, como aquele indivíduo do Little Britain, "I'm a lady, I'm a lady". 
Pois é. A questão é que esta ideia do inatismo, sobre a qual se escreveram imensos livros, nomeadamente um manual de boas maneiras interessantíssimo e tremendamente popular no Renascimento, chamado Il Cortegiano, tem muito que se lhe diga. Neste manual cortês, por exemplo, Castiglione (o autor) defendia que ser cortesão é uma qualidade inata, que no entanto pode e deve ser trabalhada, e porque não refinada, por quem nasceu com ela - mas claro, há que nascer com ela. 
De modo que a conclusão que eu retiro disto tudo é que, como dizia a Susaninha, amiga da Mafalda (a banda desenhada), "uma coisa é ser mulher, outra coisa é ser senhora".  Eu, realmente, concordo. Não vamos agora estar a confundir as coisas e a comprometer valores e princípios, os mesmos que rezam que  cada macaco tem de estar devidamente no seu galho, e é mesmo assim.
Pronto.

A causa que se perdeu

Não consigo evitar, e nem sequer quero. Quando penso em pessoas deste estilo:





o que ouço é isto:



Nas palavras de Mago, o gato d'Os Bichos: misérias desta vida.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Sôbolos rios que vão

Descobri hoje que o novo romance de Lobo Antunes tem como título este verso do Camões. Não sei se vou ler, se não (o mais recente que li de Lobo foi "Não Entres Tão Depressa...". Não gostei, houve ali qualquer magia que não se deu). De qualquer forma, fiquei com um certo apetite, porque o título é espectacular. E é espectacular porque o poema também o é. A minha parte favorita (do poema) é:


Bem são rios estas águas,
com que banho este papel;
bem parece ser cruel
variedade de mágoas
e confusão de Babel.

Como homem que, por exemplo
dos transes em que se achou,
despois que a guerra deixou,
pelas paredes do templo
suas armas pendurou:

Assi, despois que assentei
que tudo o tempo gastava,
da tristeza que tomei
nos salgueiros pendurei
os órgãos com que cantava.
Aquele instrumento ledo
deixei da vida passada,
dizendo: - Música amada,
deixo-vos neste arvoredo
à memória consagrada.

Se calhar, foi por isto que Lobo deu ao livro o título de Camões - é o guerreiro que se retira, que pendura as armas, que já não tem força para a guerra. Não sei, pode ser. Talvez.