Julho de 1660
Mas que cousa... juro que não me é dado perceber esta decisão tão injusta do meu pai. Disse que eu tinha de vir para o convento por causa dos espanhóis, que aí vêm pelejar. A culpa não é minha! Porque é que eu tenho de vir para aqui! Nunca ninguém me compreende, sou tão incompreendida. Já estou como a outra, "menina e moça me levaram de casa dos meus pais, que motivo foi esse da minha levada era ainda muito nova, não o soube..." Ai como eu te percebo, Menina! Também eu estou aqui nesta lonjura, neste vazio, menina e moça. flor da idade...
Julho de 1662
Estou tão deprimida que esmorece em mim qualquer desejo de fazer o que quer que seja. Passo o dia na cela, a ouvir Jorge Palma. Acho que ele é o único que me compreende. As outras irmãs preferem GNR. Eu não, acho que eles se estragaram todos. Oh, que incompreendida sou. Já nem escrevia nada há dois anos, eu que gostava tanto de ler e escrever...
Julho de 1663
Ai! Ai, que meu coração bate descompassadamente e quero crer que me sai a galope do peito! Hoje conheci um cavaleiro tão nobre e belo, estrangeiro ainda por cima, de farda, lindo, lindo de morrer, francês, tão requintado, chama-se Chamilly, que nome belíssimo, eu vi-o da janela, ele olhou para mim com aqueles olhos, aqueles olhos enormes, parecia o actor daquele filme, e o meu coração descompassado, e agora?, será que ele me vem visitar!
Julho de 1663
Veio visitar-me! As outras irmãs deixaram-no entrar! Nós aqui somos umas para as outras, LOL! (tenho de me desabituar de escrever assim à balda, sempre escrevi tão bem, mas a verdade é que tenho bem melhor em que pensar)
Julho de 1663
Hoje também me veio visitar!
Agosto de 1663
Hoje também... :)
Setembro de 1663
Hoje também... : D
Outubro de 1663
E hoje... XD
Novembro de 1663
E hoje... XDDDDDDDD
Tenho mesmo de fumar um cigarrinho às escondidas, ai...
Janeiro de 1664
Ooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooh, a minha vida acabou, que desgraçada sou, que cruel apartamento de almas é este a que me vejo sujeita, que vale de lágrimas vejo assomar a meus olhos, eu... eu morro. Ele não me escreve, já lá vão cinco cartas e... quero agora crer que nunca mais o ver.
"Só conheci bem o excesso do meu amor quando quis empregar todos os esforços para curar-me dele" - olha, que bem que isto me saiu. Que lindo que está, não está? Pensando bem. Quando se tem a Internet, quem é que precisa de franceses.
segunda-feira, 8 de novembro de 2010
quinta-feira, 4 de novembro de 2010
Necessidade de apimentar
Uma vez, fui passear com um amigo e fomos dar a uns penhascos, por acaso bem giros, de onde se via o mar. Acontece que eu estava de botas de salto alto, mas a culpa não era minha, porque a verdade é que, com a minha infinda esperteza, me tinha esquecido de trazer uns ténis ou isso. E lá andava ele a saltitar por todo o lado, e eu especada feita parva, no meio da pedra e da rocha, a tentar calcular onde poderia encaixar o salto sem cair e sem me desgraçar toda. Não dava. Fiquei parada a olhar para o mar.
O meu amigo, que era mesmo só meu amigo e felizmente ainda é, ficou a olhar para mim com um ar tão agastado que eu nunca o poderei esquecer, e ainda rematou "ainda bem que não és minha namorada!".
Tudo bem - sim, eu estava numa situação parva por não ter sabido usar calçado decente, sim, eu estava numa figura parva completamente desnecessária, sim, eu parecia daquelas pessoas sebosas que só sabem ir de carro para todo o lado e nunca se mexem, sim, provavelmente não seria a mulher dos sonhos de ninguém numa situação daquelas. Mas, sinceramente, há certas verdades que custam a ouvir, mesmo que venham da boca de um amigo, que tem o direito, e até o dever de nos dizer a verdade sem rodeios nem contemplações.
Por alguma razão, este tipo de verdades custa sempre a ouvir, mas custa ainda mais se vem da parte de amigos do sexo oposto. Não sei bem se partilho da teoria do filme When Harry Met Sally, filme de que por acaso gosto muito e que advoga que um homem e uma mulher não nunca poderão ser amigos sem acabarem enrolados; mas, mesmo não partilhando inteiramente desta teoria, há um certo apreço que gostamos de notar por parte dos amigos de sexo oposto. Não tem de ser nada de concreto, nem sequer significativo, mas é bom que lá esteja. Assim qualquer coisinha para apimentar, é só. Uma pimentinha inocente.
Pimentinha essa que, como se vê, está bem ausente quando um amigo se vira para nós e, com toda a sinceridade e até, estranhamente, com amizade, nos diz que para namorada, nem pensar. Pronto. A verdade, como a vida, é uma cruz. O que vale é que as verdades são também como as opiniões, dependem muito de pessoa para pessoa e de homem para homem. A verdade de um é a mentira de outro, e é assim que a gente se vai safando.
Não faz sentido
Eu noto que estou a ficar velha, velha, velha, mas mesmo velha rezinga (e gaiteira para os momentos mais alegres, que é uma expressão que eu gosto) quando começo a perder a dita pachorra para certas coisas que as pessoas dizem. É que, quando era mais nova, perdia a paciência mas passado cinco minutos já não me lembrava; hoje em dia, perco a paciência e fico a bufar tipo panela de pressão que a todo o momento rebenta, faz estardalhaço por todo o lado e fica tipo Michael Douglas naquele filme que se chama Falling Down, e que por acaso está bem traduzido em português - Um Dia de Raiva. Nota para dizer que gosto imenso deste filme, acho que é muito subvalorizado. Digo isto porque não conheço muita gente que goste do filme, mas enfim,a verdade é que eu também não conheço muita gente - deve ser por não ter, lá está, paciência. Só devo conhecer para aí umas dez pessoas. Até gostava de conhecer mais gente, mas a questão da paciência é um deficit que, como tantos outros deficits, terei de resolver com urgência.
Continuando. Aquilo que me deixa em estado de ebulição é a mania que as pessoas têm de dizer que x ou y "não faz sentido". Pelo que percebo, a não ser que as coisas se confinem ao que elas acham que faz sentido, nada no resto do mundo bate certo. Não percebem as regras da voz passiva, por exemplo, porque "não faz sentido". Não percebem sequer que haja voz passiva porque "não faz sentido". Países onde nunca foram "não fazem sentido". Bandas de que não gostam também "não fazem sentido". Bacalhau com natas "não faz sentido". Iscas ainda devem fazer menos sentido, digo eu. Apanhar o metro na Cidade Universitária para sair no Colégio Militar também "não faz sentido", porque quase mais valia ir a pé. Então força. E assim por diante.
Eh pá, que cansaço. Mas esta mania não é de agora, não. Lembro-me de que há uns anos, quando passou a primeira Operação Triunfo, houve um concorrente que teve de cantar Com Um Brilhozinho nos Olhos, do Sérgio (perdão - Sérgio Godinho, porque só "Sérgio" não faz sentido). Acontece que o dito concorrente, a quem toda a gente elogiava a vozinha de canário a perder o pio, não queria cantar a canção porque "não fazia sentido nenhum". Vá lá que a Catarina Furtado, e digam o que quiserem dela, teve a presença de espírito de lhe dizer que aquilo era um descaramento.
Também me lembro de as pessoas dizerem, quando o Pulp Fiction saiu, que não gostavam porque o filme "não fazia sentido", e que além disso ainda andava para trás e para a frente e pronto, não havia ali o tal sentido que as pessoas gostam de discernir nas coisas. É como a pontuação do Saramago, também "não faz sentido", dizem alguns.
Arrisco dizer que, de facto, há aqui muita coisa que não faz efectivamente sentido, mas não me parece que se possa imputar essa falha ao mundo exterior. A falta de sentido está mais nas limitações intelectuais da nossa própria cabecinha, que não alcança tudo nem tem de alcançar. Mas enfim, isto também não deve fazer sentido nenhum.
quarta-feira, 3 de novembro de 2010
Todos somos super dotados
Quando as pessoas me começam a falar dos filhos, eu começo na contagem decrescente até ouvir "até me chegaram a dizer que o meu filho era sobredotado" ou, numa versão assim mais moderna, "até me chegaram a dizer que o meu filho era super-dotado".
Eu fico feliz com estas novas gerações que prenunciam um futuro tão brilhante para o país, com hordas de crianças que, não lhes basta a sobredotação, têm até uma super-dotação espectacular. Têm quatro anos e já sabem falar ao telemóvel, jogar computador e debitar o nome das personagens do Noddy de cor, sinais deslumbrantes de inteligência, sinais esses que também se revelam quando as criancinhas vão aos Sequins de Ouro e Toma Lá Uma Canção Para Ti e sei lá o quê, em que, sob o olhar atento e indesculpável dos paizinhos, se desfazem a serem queridinhos e a cantar música para adultos da maior qualidade. Eu adoro ver estas evidências conspícuas destas crianças super-dotadas, é uma coisa que consola e que faz perceber que estamos mais que preparados para enfrentar a crise e evitar o FMI.
Bom. Isto para dizer que, na infância e na adolescência, é fácil ser-se "super-dotado", aliás - é fácil ser super em tudo. Normalmente, numa escola normal, é muito fácil ter aquele olho que os outros, ao que parece, não têm, e ser-se rei. Basta dizer umas coisas engraçadas e chegou-se lá. Mas, a não ser que sejamos Mozarts, a escrever Requiems aos seis anos ou qualquer coisa equivalente, o que eu duvido que seja possível até para o próprio Mozart, a nossa esperteza e sobredotação rapidamente se revelam naquilo que realmente é: a normalidade. Quando se chega ao mundo real, há muita gente que é efectivamente pior do que nós, mas há indubitavelmente mais gente que é muito melhor e ao pé de quem não somos nada de especial. A não ser, lá está, que sejamos o Mozart, e, à partida, não somos.
"Don't try", dizia, ao que parece, Bukowski. Por outro lado, se formos ler antes Kavafis e a sua bela Ítaca, aprendemos que o que verdadeiramente conta não é o destino, é a viagem. Podemos encetar a nossa viagem para chegarmos ao patamar do Mozart, mas não faz mal se nunca lá chegarmos, como provavelmente nunca chegaremos. É um esforço honesto, pronto, uma forma de dar dignidade à nossa condição humana.
Uma vez, uns amigos meus foram ver um concerto com um daqueles pianistas adorados pelo mundo inteiro, não me lembro quem era. No fim, diz uma, sonhadora, "ah, será que algum dia eu conseguirei tocar piano como ele?!", ao que um outro amigo, realista e pouco dado a confortos, replica, "não sejas parva. É claro que não".Não sejamos, nós, parvos. É claro que não. Mas enfim, podemos sempre pensar que sim. O sonho é uma constante da vida, para terminar o post com esse outro enorme poeta António Gedeão. É muito bonito pensar assim.
terça-feira, 2 de novembro de 2010
A língua portuguesa rula
A minha querida amiga L. deixou-me uma coisa maravilhosa no mural do facebook - este texto de Stephen Fry, que segue, numa animação gira, no vídeo abaixo:
Aquilo que verdadeiramente me deslumbra nas palavras de Fry é a sua premissa inicial - a língua é algo que serve para nos entreter, para nos divertir, para nos dar prazer, tal como a música ou a pintura, por exemplo. E, no entanto, quase nunca pensamos na língua que falamos desta forma quase lúdica. Como também diz Fry, o que algumas pessoas fazem é achar que são os cães de guarda da língua, inamomíveis e baluartes de sabedoria, que se queixam, em inglês, da apóstrofe, da pronúncia dos hs, das nominalizações; em português, queixam-se se calhar dos particípios passados (e, ainda por cima, mal - "não é 'ter ganhado', é 'ter ganho'!", dizem eles - vão à gramática, pessoal, vão à gramática), queixam-se dos clíticos (mea culpa, que ainda há pouco tempo escrevi um texto a gozar com um "não tava-te a conhecer"), queixam-se sei lá mais de quê. Estes instintos de hiper-correcção face à língua não revelam nenhum gosto especial pelo uso da mesma língua - como afirma brilhantemente Stephen Fry, a língua certinha, correctazinha, serve para a escola, para exames, para entrevistas de emprego - como ele diz, vestimo-nos de fato escuro para a entrevista, e vestimos a língua de fato escuro também. Isto não tem nada a ver com o prazer que a nossa língua nos pode dar - palavras como "estrapicalhar", expressões como "fazer espécie", "obrigadinha", "adeusinho", "até à próxima e continuação", "saúdinha é que é preciso", "o que tem de ser tem muita força, né", "a gente temos de ser uns para os outros", "ó filhinha", etc., outras pérolas que agora não me vêm à cabeça (não me lembra, como se diz), tudo isto não tem nada a ver com a correcçãozinha da língua. Tem a ver com apreciar a língua, em tudo o que ela contém - desde os versos mais retumbantes de Camões às frases mais desenxabidas (outra linda expressão) ou descabidas.
segunda-feira, 1 de novembro de 2010
O Corto Maltese ganha ao Seinfeld
Gosto muito de ver o Seinfeld. Adoro, adoro. É um programa cheio de verdades sobre a vida, entre elas esta, sobre o casamento e a família, que, nas palavras de Kramer, são:
They're prisons. Man made prisons. You're doing time. You get up in the morning. She's there. You go to sleep at night. She's there. It's like you gotta ask permission to use the bathroom. Is it all right if I use the bathroom now? (...)... and you can forget about watching TV while you're eating. You know why? Because it's dinner time. And you know what you do at dinner? You talk about your day. How was your day today? Did you have a good day today or a bad day today? Well, what kind of day was it? Well, I don't know. How about you? How was your day? It's sad , Jerry. It's a sad state of affairs..
Eu sei que isto é verdade, ou por outra, acredito que seja. Não é que eu goste muito de ver televisão quando estou a jantar - por acaso, até nem gosto. Mas também não gosto de pedir autorização para ir à casa de banho. No entanto, gosto de falar sobre o dia. Contudo, não gosto de o dissecar até à exaustão. Todavia, também não chego ao ponto de considerar que o casamento seja um estado de coisas muito triste. E porém, também não considero que seja o Céu na Terra, se é que isso é possível.
Agora que me faltam conjunções adversativas para continuar o raciocínio, a conclusão a que chego é que o casamento é aquilo que se diz da democracia - o pior de todos os sistemas, à excepção de todos os outros. Quando falha a democracia, passa-se à acção unilateral, como os EUA fazem muitas vezes, e como as pessoas também fazem, quando o casamento falha e se percebe que mais vale só do que mal acompanhado.
Eu acho que qualquer estado civil tem 50% de espectacularidade e 50% de miséria, sendo que o estado civil do casamento em geral, e até do chamado "junto", como as pessoas às vezes gostam de dizer, tem a particularidade de dar ainda mais trabalho do que todos os outros estados civis, e ter trabalho é uma maçada.
Ora acontece que esta conversa é toda muito bonita e muito verdadeira, mas há um pormenor com o qual não se conta, e esse pormenor é que o Corto Maltese pode aparecer assim de repente, e se de facto aparece e pergunta "para sempre?", não estou bem a ver que haja alguém com filosofia que resista. Quer dizer, talvez haja, mas esse alguém não sou eu.
Ora acontece que esta conversa é toda muito bonita e muito verdadeira, mas há um pormenor com o qual não se conta, e esse pormenor é que o Corto Maltese pode aparecer assim de repente, e se de facto aparece e pergunta "para sempre?", não estou bem a ver que haja alguém com filosofia que resista. Quer dizer, talvez haja, mas esse alguém não sou eu.
É que, como dizia o velho Shakespeare, há mais coisas entre o Céu e a Terra do que sonha a nossa vã filosofia. E essas coisas entre o Céu e a Terra, às vezes, justificam loucuras. De modo que o Shakespeare ganha um ponto e o Seinfeld, neste caso específico, perde. Não estava a contar com o Corto Maltese, era o problema dele.
quinta-feira, 28 de outubro de 2010
Pecado original
A ideia de pecado original sempre me pareceu muito cruel. Uma injustiça. Quer dizer, uma pessoa está muito bem sem fazer nada e quando dá por ela, zás, já tem um pecado em cima. Assim, só por ter nascido. Hã?
Quando eu era pequena, diziam-me, a mim e aos outros todos da catequese, que quem não é baptizado carrega o pecado original como uma marca flamejante para sempre. Por acaso, esta da marca flamejante acrescentei eu, mas o resto é verdade. O que me angustiava é que, mesmo que a questão do baptismo estivesse resolvida e o pecado original expurgado e arrumado, a pessoa ainda tinha de se preocupar com os pecados todos que cometia diariamente, alguns deles que nem sabia se eram pecados ou não, e esses só passavam com a confissão e a absolvição e a comunhão; no entanto, a tal confissão e restantes métodos eram só para pessoas de uma certa idade, não eram para crianças. De modo que, de certa forma, eu invejava os adultos, porque esses tinham uma maneira de, regularmente, seguir procedimentos claros para, em tempo útil e sede própria, se livrarem do Mal, fazendo uma espécie de tábua rasa para começar de novo, ao passo que as crianças estavam bem arranjadas, pecado original (ou não) e ainda por cima mais os outros pecados todos. Também me angustiava não saber exactamente que pecados eram esses, não haver assim uma espécie de grelha que me dissesse, isto igual a pecado, aquilo igual a pecado mas pequenino, aqueloutro pecado enorme, e assim por diante.
Isto para dizer que bem cedo me apercebi da natureza pecaminosa do ser humano, e ainda hoje acho terrível que não nos seja concedida uma margem de dúvida, do estilo - olha, a partir do momento em que vens ao mundo, tens cadastro limpíssimo; a partir daí, começas a asneirar e começa a contagem decrescente; se chegar ao menos zero, vais para o inferno, mas pelo menos tens, logo à partida, uma oportunidade decente. Estando as coisas como estão, e já nascendo a pessoa em estado pecaminoso, que hipótese é que se tem?
Por acaso, lembrei-me disto há pouco tempo, quando estava a conduzir com o ipod aos berros, que calhou parar no It's a Sin, dos Pet Shop Boys. Era uma manhã horrível em Lisboa, cedíssimo, o trânsito que se movia lento como uma jibóia gorda que acabou de engolir um elefante do dobro do tamanho, e eu ali encafuada a olhar para as pessoas nos outros carros, sonolentas, feiosas, umas fumavam, outras, no lugar do pendura, abandonavam-se ao sono de tal forma que metiam pena, outras ainda olhavam em frente, tristonhas, e à minha volta e à volta delas prédios pingões, cinzentões, sujos. Seria claro para qualquer pessoa que ainda tivesse ilusões que, àquela hora, naquele sítio, se estava face à evidência de que a raça humana é tudo menos perfeita. E, sabendo nós isto, sabendo nós que somos tão feios, porcos e maus, que ninguém escapa, ainda temos de aguentar o pecado original? Não está correcto.
sábado, 23 de outubro de 2010
Muralhas, rochas, ilhas, coisas assim
Há anos que não ouvia Simon & Garfunkel. Sempre gostei muito deles, mas calhou deixá-los escapar da minha vida por muitos anos até ao dia de ontem, em que comprei daqueles CDs que são uma espécie de best of, retrospectiva e assim. Pensei que não ia gostar tanto das músicas como gostava há 10 anos, e de uma certa forma de facto não gostei, mas algumas canções houve que recordei com quase tanto entusiasmo como quando era adolescente e as sabia de cor e salteado. Sem dúvida que uma das minhas preferidas sempre foi (continua a ser) I am a Rock - o adolescente fechado no quarto, a olhar a neve da janela, a sentir-se reconfortado por não precisar de ninguém e ninguém precisar dele. "I have my books and my poetry to protect me". De facto, esta ideia é muito reconfortante. Os livros são seguros, abrigadinhos. As pessoas não, só dão chatices.
Hemingway encontrou o título do seu livro "For Whom the Bells Toll", John Donne, que também escreveu, no mesmo texto ou ensaio ou poema, não sei, "no man is an island". E daí os sinos tocarem por todos nós. E daí um certo texto de Brecht* bastante conhecido, aquele que diz "vieram buscar os comunistas, e eu não era comunista, e depois vieram buscar os católicos e eu não era católico, e depois os judeus e eu não era judeu, e depois vieram-me buscar a mim. Não havia mais ninguém." (o texto não é assim ipsis verbis; estou a inventar porque não me lembro, mas sei que a ideia é exactamente esta).
Bom. Isto para dizer que agora, como cidadã e como ser humano que tento ser, estou consciente de que nenhum homem é uma ilha nem uma rocha e que precisa de bem mais do que livros para viver. E, no entanto, também me parece verdade que conseguimos, se quisermos, viver bem separados de todos os outros. No último filme de Woody Allen que vi, Whatever Works, Larry David diz, a certa altura, que lê o jornal, vê todas aquelas desgraças inimagináveis e o que é que faz? Não faz nada, ignora, e isto porque é demasiadamente insuportável viver sabendo que aquelas catástrofes acontecem. "What can you do? It's overwhelming", diz ele, e tem razão.
E quanto ao resto, sinceramente, todos sabemos o quão fácil é não deixar que os outros não nos chateiem, se não quisermos de facto sermos incomodados. Eu raramente quero, se me puser a pensar com alguma honestidade.
Portanto, de uma certa forma, sim, cada homem é uma ilha, com os seus livros, a sua poesia, os seus filminhos, coisas que, controladamente, propositadamente, escolhemos a dedo para nos serem próximas. Por outro lado, não, não somos ilhas, porque como diz o Brecht,* quando nos invadirem a ilha e nos vierem buscar a nós (e eu acho que mais tarde ou mais cedo vêm, porque tendo a ser pessimista, mas também realista), como é que é? Nem que seja para, mais uma vez, velar pelos nossos próprios interesses, temos mesmo de, olha, como se costuma dizer, ser uns para os outros.
O meu problema com isto é que dá um trabalhão e raramente apetece. Estou a tentar resolver este dilema.
Realmente, Simon & Garfunkel têm canções muito interessantes.
O meu problema com isto é que dá um trabalhão e raramente apetece. Estou a tentar resolver este dilema.
Realmente, Simon & Garfunkel têm canções muito interessantes.
* Um leitor atencioso fez o favor de me informar que a frase não é de Brecht, como eu pensava, mas sim do pastor Martin Niemoller, tal como pode ser confirmado na Wikipedia. Aqui fica a correcção.
quinta-feira, 21 de outubro de 2010
Uma coisa é ser mulher, outra coisa é ser senhora
Estava aqui a ler este lindo blog e deparei-me com a citação do dia, que calhou ser de Margaret Thatcher (espero que a Lenor não se importe que eu cite aqui algo que encontrei citado no blog dela):
Being powerful is like being a lady. If you have to tell people you are, you aren't.
Isto não se aplica apenas às pessoas poderosa e/ou às senhoras. Aplica-se a toda a gente que quer ser vista de uma determinada forma e não é: quem é bonito não precisa de dizer que é bonito; quem é inteligente não precisa de dizer que o é; quem é rico não precisa de dizer que é; quem é, em geral, bom, isto é, pessoa de qualidade, não precisa de dizer que é, e de facto não diz, e etc.
De modo que hoje já tive a surpresa do dia, que é concordar com algo que a Margaret Thatcher tenha dito, e encontro-me agora a indagar o que é isto de ser "uma senhora". Parece-me uma questão algo premente. Durante muito tempo, pensei que era não ter ouvidos, aquilo que tantas vezes me foi ensinado como única resposta digna aos comentários libidinosos que qualquer mulher, senhora, rapariga, menina, o que se quiser, tem necessariamente de ouvir, com maior ou menor frequência, só por se limitar a andar na rua. As senhoras, mulheres, raparigas, o que seja, têm de aprender cedo, neste país.
Dizia Simone de Beauvoir que não nascemos mulheres, tornamo-nos mulheres. E senhoras? Da mesma forma que se aprende culturalmente a ser mulher e homem, também se aprenderá culturalmente a ser senhor e senhora, e usar garfo e faca e flute de champanhe e etc, ou ser senhora quer apenas dizer não ser prostituta, ou quer apenas dizer que se pode ser o que se quiser, prostituta e tudo, desde que seja honesta, ou é o quê? A minha vã filosofia não alcança.
A afirmação de Margaret Thatcher, que eu por acaso acredito que seja mulher e além disso senhora, talvez queira dizer que ser "senhora" é uma qualidade intrínseca, da mesma forma que certos homens são "gentis homens", e que isso ou é inato ou não é. Não se pode aprender, não se pode fazer esforço para o ser e andar por aí a dizer às pessoas, como aquele indivíduo do Little Britain, "I'm a lady, I'm a lady".
Pois é. A questão é que esta ideia do inatismo, sobre a qual se escreveram imensos livros, nomeadamente um manual de boas maneiras interessantíssimo e tremendamente popular no Renascimento, chamado Il Cortegiano, tem muito que se lhe diga. Neste manual cortês, por exemplo, Castiglione (o autor) defendia que ser cortesão é uma qualidade inata, que no entanto pode e deve ser trabalhada, e porque não refinada, por quem nasceu com ela - mas claro, há que nascer com ela.
De modo que a conclusão que eu retiro disto tudo é que, como dizia a Susaninha, amiga da Mafalda (a banda desenhada), "uma coisa é ser mulher, outra coisa é ser senhora". Eu, realmente, concordo. Não vamos agora estar a confundir as coisas e a comprometer valores e princípios, os mesmos que rezam que cada macaco tem de estar devidamente no seu galho, e é mesmo assim.
Pronto.
A causa que se perdeu
terça-feira, 19 de outubro de 2010
Sôbolos rios que vão
Descobri hoje que o novo romance de Lobo Antunes tem como título este verso do Camões. Não sei se vou ler, se não (o mais recente que li de Lobo foi "Não Entres Tão Depressa...". Não gostei, houve ali qualquer magia que não se deu). De qualquer forma, fiquei com um certo apetite, porque o título é espectacular. E é espectacular porque o poema também o é. A minha parte favorita (do poema) é:
Bem são rios estas águas,
com que banho este papel;
bem parece ser cruel
variedade de mágoas
e confusão de Babel.
Como homem que, por exemplo
dos transes em que se achou,
despois que a guerra deixou,
pelas paredes do templo
suas armas pendurou:
- Assi, despois que assentei
- que tudo o tempo gastava,
- da tristeza que tomei
- nos salgueiros pendurei
- os órgãos com que cantava.
deixei da vida passada,
dizendo: - Música amada,
deixo-vos neste arvoredo
à memória consagrada.
Se calhar, foi por isto que Lobo deu ao livro o título de Camões - é o guerreiro que se retira, que pendura as armas, que já não tem força para a guerra. Não sei, pode ser. Talvez.
Parasitas
No fim de semana que passou, ouvi na Antena3 uma parte de um programa interessante sobre o DocLisboa, em que Fernando Alvim entrevistava a senhora que escreveu o livro que saiu há pouco tempo sobre António Feio, e o realizador do documentário Os Lisboetas, o Sérgio Trefaut. A certa altura, Fernando Alvim diz qualquer coisa como "os documentários não precisam de subsídio", sendo que isso era uma vantagem que tinham relativamente à ficção. Sérgio Trefaut ficou bastante agastado com isto - disse que aquilo que na verdade subjazia a este tipo de comentários é a velha, triste mentalidade de que tudo o que seja artista é parasita e tem de viver de apoios estatais em vez de andar a trabalhar a sério; que só havia, no mundo, quatro países que conseguiam uma indústria cinematográfica independente dos tais subsídios públicos (EUA, Índia, Egipto e outro de que não me consigo mesmo lembrar); que na Europa, e em geral, não há documentários sem subsídios (ou pensava ele, Fernando Alvim, que o documentarista que seguiu Saramago por 15 países andava a ser sustentado pelo pai e pela mãe, perguntava Sérgio); lá pelo meio, ouvi nitidamente a expressão "atrasado mental", mas não consigo precisar nem garantir se Sérgio Trefaut chamou mesmo isto ao entrevistador, embora perceba inteiramente que tivesse vontade.
Já se sabe que, em tempos de crise, a chamada "cultura" é a primeira a sofrer profundamente, porque em geral as pessoas acham que é supérflua. Também se sabe, curiosamente, que a qualidade de vida das pessoas tem a ver, entre outras coisas, com o acesso que têm a teatro, música, dança, exposições, coisas que sejam aprazíveis, que façam pensar, descontrair, enfim, que nos dêem uma emoção. Se não há meios privados que garantam isto, mecenas ou patrocinadores ou o que seja, então tem de ser o Estado. Não estou a ver outra possibilidade. Percebo que seja contra subsídios para a cultura quem igualmente também acha que as pessoas não precisam verdadeiramente da mesma cultura para viver, e que esta não passa de um luxo que deve estar à disposição apenas daqueles que a podem ou querem pagar. Quem, porém, eventualmente partilhe da opinião de que a vida de qualquer cidadão não pode ser só reduções de salários, aumentos de IRS, orçamentos de estado aprovados ou chumbados, partidos políticos em espectáculos miseráveis, um parlamento com os pés para a cova e em geral um esfacelamento apagado e vil da democracia em geral, de tal forma que ouvir as notícias se torna algo quase abjecto, enfim, as pessoas que ainda querem alguma qualidade de vida para si e para os outros perceberão, penso eu, que os subsídios estatais serão, talvez, e por enquanto, a única forma de se conseguir que ainda haja filmes para ver, e peças de teatro, e bailados, e coisas assim bonitas em geral.
De modo que gostei bastante de ouvir Sérgio Trefaut e estou com ele e com todos os outros artistas. Não me consigo lembrar de nenhum artista que seja parasita, mas consigo lembrar-me de muitos parasitas que não são artistas, por exemplo. E contra esses ninguém resmunga. Portanto, o Estado deve pagar e calar, quanto a mim, que pago impostos e blá blá blá.
Fim.
segunda-feira, 18 de outubro de 2010
Razões pelas quais estou contente de ler as BDs do Corto Maltese (para além das óbvias razões estéticas, o brinco na orelha, o cabelo escuro, moreno, alto, lindo, ai, ai, pronto, vou parar)
Na aventura na Sibéria, Rasputine, que é um doido, tenta matar Corto com um punhal, mas falha a facada. Corto pergunta-lhe o que se passa com ele, Rasputine, que costumava ser exímio matador. Rasputine diz que era só uma partida, e continua:
Hoje, escondi-me enquanto falavas e feri-me ligeiramente para te fazer crer que me tinha acontecido alguma coisa. Quis dar-te uma emoção, Corto, porque gosto de ti...
É mesmo das coisas mais bonitas que nos podem dar, uma emoção. Com ou sem punhalada, é uma coisa bonita. Concordo com Rasputine. Ainda melhor é conseguirmos ser nós a dar a emoção.
Pode ser uma lamechiche, mas tudo isto é verdade.
Razões pelas quais estou contente por persistir na releitura do Auto dos Danados
Como tudo na vida, há vantagens e desvantagens. Comecemos pelas desvantagens, que são:
1) "Como os corpos na morgue, a Ana embrulhava-se naa colcha na extremidade da cama, e o piaçaba dos cabelos emaranhados despontava da roupa. O pingo triste de cera de um calcanhar defunto tombava no chão"2) "Edward G. Robinson observou de esguelha o pechisbeque enquanto contornava o capot. A pistola debruçava-se do sovaco como uma lágrima de um olho"
3) aquela sensação mais ou menos desconfortável, ou pouco original, de que estamos face a uma versão portuguesa do Som e a Fúria, mas no mau sentido, porque cada livro deve ser único; ainda que um livro faça lembrar outro, uma proximidade tão grande, ou uma inspiração tão pronunciada noutra obra, não é muito agradável para o leitor. Isto, a meu ver, claro.
Passemos às vantagens, que superam as desvantagens, como penso que este excerto demonstra amplamente:
"... e eu calei-me por prudência, absorvido no caminho, em lugar de dizer que se tratava de uma família nojenta de cabras e bois mansos a devorarem-se mutuamente no casarão do Guadiana, a sonegarem-se as heranças, a odiarem-se, a roubarem-se, a esmagarem-se, a destruírem-se, e tudo isto debaixo da boquilha e da pálpebra cáustica do avô, derramado na cadeira de baloiço da sala, a assistir numa alegria formidável à agonia da sua matriz, como se não suportasse que nada de seu sobrevivesse no fim..."
Safa. Nos Danados, há este efeito quase de espiral destruidora, que eu acho que Lobo Antunes consegue muito bem em certos livros, e em que se descobre mais e mais das personagens e da história, e é tudo cada vez mais estéril, horrível, desesperado. A estrutura da narrativa, fragmentada em várias vozes, vem de facto do Som e a Fúria, mas acaba, de uma certa forma, por compensar o leitor, porque o deixa em sofrimento absoluto ao ir descobrindo cada vez mais da força avassaladora de uma família em derrocada.
E depois há esta ideia central nos Danados, que explica o título do livro e também o verdadeiro sofrimento que provoca (pelo menos em mim, provoca): a destruição total que a família, como unidade primordial da sociedade (as sociologias e as economias dizem que sim) pode representar. Se há força que consegue dar tanta felicidade como também esterilidade total, por mais paradoxal que seja, é a família.
Agora estou a sentir-me um bocado mal. Vou ter de ficar por aqui. A ler o Auto dos Danados, que vale a pena, pá.
sexta-feira, 15 de outubro de 2010
One night stands
As noites passam-se como se quer, que cada um é como cada qual. Para mim, esta canção sempre disse tudo.
Os Pulp eram uma banda muito sensível e eloquente, quanto a mim.
quarta-feira, 13 de outubro de 2010
Com Deus não se brinca, Zé Rafael!
To criticise a person for their race is a manifestly irrational and ridiculous. But to criticise their religion - that is a right. That is a freedom. And a law that attempts to say you can criticise or ridicule ideas, as long as they are not religious ideas, is a very peculiar law indeed. It all points to the promotion of the idea there should be a right not to be offended... In my view, the right to offend is far more important than any right not to be offended.
Quem diz isto é o Rowan Atkinson, que costumava ter muita piada a fazer de Mr Bean e de Blackadder. O artigo, publicado no Guardian, é antigo, de 2004, mas tem muita relevância, acho eu.
Este argumento de se dizer que " não se brinca com aquilo em que as pessoas acreditam" é um tanto ou quanto, não sei, diria que parvo. Brinca-se, goza-se, troça-se, e paciência. É assim. A lei apenas pode prevenir e proibir a discriminação efectiva, não pode nunca proteger ninguém que sente que foi ofendido porque as suas crenças religiosas foram insultadas, troçadas, alvo de crítica ou graça.
Se me perguntarem, "ah, mas gostavas que gozassem contigo por causa da tua religião?", é evidente que não, não gostava. Não considero que se deva incitar as pessoas a troçarem umas das outras por causa da religião ou valores pessoais. No entanto, não podemos perspectivar as coisas neste plano. Por exemplo, eu sou contra a pena de morte e tenho dificuldade em aceitar que haja gente que seja a favor. As pessoas a favor costumam perguntar-me, "mas se te acontecesse isto ou aquilo a ti, não querias que o criminoso morresse, não achas que o deviam condenar à morte?". É evidente que sim, que o desejaria, que o matassem, esfolassem, etc. - eu, em particular. Eu não sou o Estado (com alguma pena minha). Daí a considerar que o Estado deve poder andar por aí a matar gente, vai uma grande distância.
Quando a notícia linkada ali em cima saiu no Guardian, andava tudo em alvoroço devido àquele jornal dinamarquês que tinha publicado uns cartoons com imagens de Maomé, que algumas comunidades muçulmanas consideraram muito ofensivas. É uma pena que tal tenha acontecido, e é pena que as pessoas se tenham sentido ofendidas. Sabemos, também, que nenhum direito é ilimitado, muito menos o direito à liberdade de expressão. Mas não me parece que isto se possa controlar - há que aceitar que a religião pode estar sujeita a ofensas, que quem ofende tem o direito de ofender e que quem é ofendido tem o direito de se sentir ofendido. Pode fazer-se alguma coisa relativamente a isto? Não.
Como diz Rowan Atkinson, e a meu ver bem, há uma diferença fundamental entre ofender alguém com base na sua etnia, nacionalidade, etc., e ofender alguém quanto à religião que escolhe seguir.
Não chora, colabora (prometo que vou para de usar esta frase num destes dias).
É que Deus, com certeza, também precisa de se rir e brincar de vez em quando, como se ilustra no vídeo aqui em baixo.
terça-feira, 12 de outubro de 2010
Vira-casacas
Até quando é que uma pessoa se deve esforçar?
O que pergunto é se há uma idade aceitável a partir da qual a pessoa não tem de pensar no que diz e a quem diz, como se deve vestir, quem deve conhecer e quem deve ignorar, o que deve ou não comprar, como se deve comportar, que trabalho deve ter, que emprego não deve aceitar, quantos livros ler e que livros, quantos filmes ver e que filmes, etc.
John Cusack diz, em Alta Fidelidade, e com uma certa razão: "what matters is what you like, not what you are like". Até que ponto é que aquilo de que gostamos é diferente daquilo que somos? Se eu gostasse da Britney Spears, era menos pessoa por causa disso? Se calhar, era. Não, não era nada, que disparate.
Quem diz que não se deixa influenciar por estas coisas, que não quer saber, está a mentir. Nunca conheci ninguém que não quisesse saber, mas já conheci muita gente que pensa não querer saber. Não estamos só a falar de aparências - estamos a falar de um esforço constante que vamos adaptando à situação, ora aqui deixa-me esconder que sou de esquerda, ora aqui convém disfarçar que sou mais neoliberal de direita, e aqui não vou dizer que não gostei do Guerra e Paz, vou só dizer que tenho de ler outra vez, quando for mais velha, e aqui vou dizer que sim senhora, até ouço Sigur Ros, e mais tarde já digo que não, realmente Sigur Ros são uma seca (por acaso, acho que são mesmo, já escrevi sobre isso, blá blá blá).
Sei muito bem o que me vão dizer - ah, realmente, que vira-casacas. Nada disso, ou por outra - acho que o sou na exacta medida em que os outros também são. Adapto-me. É uma questão de sobrevivência, de uma diplomacia inata que nos permite ir manobrando a vida até esta se tornar suportável na dimensão de chatices que comporta.
Mas requer algum esforço. Uma coisa é vir para um blog, escrever o que apetece de forma quase anónima, outra bem diferente é todos os dias lidar com colegas, chefes, superiores ou inferiores, o que seja, e ter não necessariamente de agradar a toda a gente, mas manter uma máscara de civilização. Se alguém no trabalho me diz que acha muita graça a ir a concertos da Anastasia, a ouvir as anedotas do Fernando Rocha e ir à Madeira no Ano Novo porque o fogo-de-artifício é tãããããão giro, faço o quê, dou-lhes um estalo na cara?, ou opto por um meio sorriso, sim senhora, a Madeira e tal, por acaso nunca fui, gostava de ir, se calhar no Ano Novo é bom, disseram-me que a Anastasia é muito profisisonal ao vivo, dá grandes concertos, quanto a Fernando Rocha calo-me, e assim por diante.
E pronto, sinceramente, é tanto esforço que uma pessoa se cansa amiúde. Dizem-me que só quando eu for reformada é que isto passa, mas pelo andar da carruagem e pelas previsões dessa instituição que é, digamos que, espectacular, o FMI, nem sequer vou ter reforma nenhuma, portanto estou sem saída.
Como dizia o outro, e como já escrevi antes, não chora, colabora.
segunda-feira, 11 de outubro de 2010
Bicicleta
Hoje tinha tanta, tanta, tanta vontade de andar de bicicleta, pedalar e pedalar, e ver os prédios a passar muito depressa, e tocar à campainha com força para as pessoas saírem do caminho, e continuar a pedalar, e aquele lugar-comum de sentir o vento na cara e sermos saudáveis e sentirmos que o mundo é todo nosso é mesmo verdade, e mesmo quem anda mal de bicicleta, como eu, e tem de parar nas rampas e empurrar aquilo por ali acima até ficar ofegante que é uma vergonha, ou então descer rampas quase a travar até se arriscar a cair da bicicleta abaixo, dizia eu, até quem é assim gosta de andar de bicicleta, e depois chega-se a casa e as pernas doem tanto, e lá fora estava frio mas nós estamos encalorados e é tão bom.
Já há muitos anos que não tenho uma bicicleta minha, e a última vez que andei estava em Londres, o tempo estava curiosamente lindo, fui para o meio do campo no meio de Londres, o que, também curiosamente, pode acontecer, e pedalei até me fartar, e toda a gente se desviou do caminho, e o sol brilhava no rio, e tudo parecia tão perfeito que nem parecia um dia normal, mas era, e havia um silêncio tão grande, nem os cães que passeavam com os donos faziam barulho, era mesmo campo, e isto no meio de uma grande cidade, mas depois tive de voltar para casa por ruas mais agitadas, já era de noite e apareceu-me um daqueles autocarros de dois andares por trás e tive de subir para o passeio, e isso assustou-me um bocadinho, mas não aconteceu nada, cheguei a casa sã e salva e orgulhosa de mim própria, e tinha um cachecol de lã muito quente que a minha mãe me fez, muito bonito, e um kispo muito feio, à homem, por cima, que tive mesmo de usar por causa da temperatura, e tinha as calças arregaçadas para não se prenderem nas correntes e as pernas ficaram todas arranhadas e sujas de óleo e eu não me importei nada, e as minhas mãos, sem luvas porque não tinha luvas, estavam rígidas e quase congeladas de agarrarem no guiador com tanta força, e eu senti-me tão bem, melhor do que nunca.
Hoje tenho saudades de uma bicicletazinha. Pronto. O Almada Negreiros dizia que a salvação não está nos livros, mas se calhar está numa bicicleta a toda a velocidade. A salvação e a liberdade.
O post é mesmo só isto.
domingo, 10 de outubro de 2010
Nozes, dentes, chicotes
Em Melinda e Melinda, de Woody Allen, há uma personagem, Lee, que está com a sua jovem amante e fala da mulher com desprezo. Diz que a mulher não faz mais do que almoçar e ir às compras, e quando a amante lhe pergunta se ela não faz mesmo mais nada, Lee responde que ela de vez em quando dá aulas de música numa escola (a mulher de Lee, interpretada por Chloe Sevingy, tinha grande talento para o piano). Lee termina a sua tirada desagradável sobre a mulher dizendo algo como it's funny, but life has a malicious way of dealing with great talent.
Deixando de parte o comentário óbvio, que é o facto de os filmes de Woody Allen, por mais repetitivos que sejam, tenham sempre, sempre, sempre algo que vale a pena, a verdade é que esta tirada de Lee é assustadoramente verdadeira. A História está repleta de exemplos de grandes génios, talentos imensos, para quem a vida foi muito mais difícil precisamente por causa do seu talento (olha o Mozart, olha o Camões, olha o Antero de Quental, olha o Edgar Allan Poe, olha o Van Gogh e etc.). Para toda esta gente, a vida devia ter sido mais fácil, o mundo devia imediatamente ter-se rendido ao talento extraordinário. Mas a vida foi, para eles e para outros com talento, muito mais complicada do que deveria ter sido. Tenho pensado, por exemplo, em Billie Holiday, sobre quem vi um documentário há pouco tempo. A Billie estava a cantar com uma banda de swing de músicos brancos e, num dos hóteis em que actuaram, foi-lhe exigido que usasse o elevador de serviço, dos empregados, para não incomodar os clientes. Em qualquer sítio em que cantasse, o mínimo que a Billie Holiday mereceria era um silêncio reverente de admiração. Mas não, em vez disso, elevador de serviço, para aprenderes que o teu talento não serve para nada e não é nada comparado com outros valores que, na altura, e infelizmente, se levantavam.
Parece que as coisas são sempre mais fáceis para os vaidosos, medíocres, talvez porque estes, como dizem os brasileiros numa expressão de que eu gosto bastante, "não se enxergam". Quem se enxerga e tem talento talvez tenha um poder de auto-crítica que será, eventualmente, quase destruidor.
Truman Capote escreveu um belíssimo texto sobre mais ou menos isto. Na introdução ao "Music for Chameleons", Truman diz que Deus, ao conceder-lhe talento para escrita, lhe tinha dado também um permanente chicote que o feria constantemente. O seu talento era também a sua tortura.
Mas pelo menos quem tem um chicote é obrigado a fazer algo com o seu talento. Há gente que tem talento, não tem chicote e depois não sabe o que fazer com o talento que tem, o que quase equivale a não ter talento nenhum. É a tal história das nozes a quem não tem dentes. Portanto, Deus, além das nozes e dos dentes, nunca se deveria esquecer de dar também um chicote bem estaladiço às pessoas, tal como deu ao Truman.
O que é bom quando nasce é para todos
No Facebook, há um grupo que pede "o regresso da exibição regular de cinema na RTP2". Já apoiei, sugeri a amigos e assinei a petição. Concordo com o que se diz na mesma - se há um canal público, este não deve ser irresponsável e optar por programação generalista e descuidada só porque todos os outros canais privados o fazem.
Não queria, porém, dar aqui razão àqueles que se insurgem contra o facto de a RTP2 passar programas que só 0,00002% da população vê, e que assim não pode ser, porque é um canal "elitista". Em primeiro lugar, não vejo problema nenhum com o elitismo, e seria até bom que o país em geral fosse menos generalista e menos elitista. Sobre isso já escrevi, não vou repetir. Em segundo lugar, esta mania de que certos programas são para ser vistos por uma percentagem mínima de gente é um bocado ridícula. Qualquer pessoa prefere um programa bom, independentemente de todas as telenovelas e concursos que a TVI se lembre de passar. Não acredito que uma pessoa que comece a ver um filme do Hitchcock, por exemplo, passando depois para uma telenovela, não acabe por se aborrecer e mudar outra vez para o canal que está a dar Hitchcock. É só uma questão de ter ambos os programas igualmente acessíveis, em horário equivalente, com publicidade equivalente.
A ideia de que certas coisas são "difíceis" e não são para todos é perniciosa e mentirosa. Tudo aquilo que é bom é para todos - faz parte do facto de ser bom. O que é mau, pelo contrário, é que não é para todos. É apenas e só para os medíocres. A maior parte das pessoas pode não ser um génio, mas bolas, todos nós somos pelo menos normais. Eu sei bem o que dizem as sondagens, e as sondagens dizem que as pessoas vêem o telejornal da TVI, concursos e telenovelas. Ora, eu não acredito que esta gente toda seja medíocre. É um bocado absurdo pensar-se isso. As pessoas escolhem a televisão que vêem pelo que é mais fácil. Se se tornar o Hitchcock mais fácil (horário nobre, logo a seguir às notícias, por exemplo), as pessoas vêem, porque se divertem mais. Entre os Pássaros e as Tardes de Cocó ou da Júlia ou lá o que é, o que é que qualquer pessoa minimamente inteligente prefere? Os Pássaros, claro.
Ainda que a RTP2 passasse cinema só para os tais 0,00002% da população, eu continuaria a apoiar, porque qualquer canal do Estado tem de ter programas para todo o tipo de cidadãos, minorias ou não, elites ou não. Mas não me parece ser este o caso. Penso que se trata mais de dar às pessoas uma hipótese de escolha mais honesta - ora aqui têm as Tardes de Cocó e a telenovela Xixi na Cara, ou então um Hitchcockzinho, um Woody Allenzito, e assim por diante. Entre dejectos e Woody Allen, eu acho que as pessoas com algum grau de sanidade mental vão mais para o Woody Allen. E não penso que esteja a ser demasiadamente optimista, acho que é mesmo assim.
Portanto, sejamos realistas, exijamos (? que forma verbal esquisita) o impossível, tornemo-lo possível e toca a ter todo o Portugal a ver bom cinema, a horas decentes.
Eu tenho um sonho.
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