sexta-feira, 18 de junho de 2010

pedras que rolam e outras temáticas banais


Qual é a ideia de uma banda que tem o nome de um dos membros?
Não compreendo o objectivo. Não vale mais ter uma carreira a solo?
Por exemplo - Van Halen. Não compreendo esta escolha de nome. Porque é que o Van Halen não se decidiu por uma carreira a solo? Era porque não sabia cantar e precisava de um indivíduo para ir saltar, cantar e fazer figura de parvo, ao passo que ele, Van Halen, se limitava a deixar que a sua franja fizesse a figura de parvo por ele, ficando caladinho, a tocar a guitarrinha e pronto? É uma incógnita.
Outro exemplo - Fleetwood Mac. Percebo que o Mick Fleetwood tenha sido o fundador. Mas então porque é que não escolheu ser artista a solo? Se precisava de uma gira loura e maluca, com a mania que é bruxa pagã (é o que me consta da Stevie Nicks), para vender discos, então que tivesse respeitado os outros e tivesse dado um nome mais democrático à banda - Fleetwood Mac & Stevie, por exemplo, sei lá.
Estas bandas deveriam pôr os olhos num exemplo de classe, bom gosto e democracia - Crosby, Stills & Nash, que por vezes, como bem se compreende, eram os Crosby, Stills, Nash & Young. Pois é. Ao menos, está o nome de toda a gente muito bem discriminadinho.
Analisando agora uma outra problemática, também acho foleiro que certas bandas decidam incorporar o próprio nome nas canções. Os Porno for Pyros tinham uma música que se chamava: Porno for Pyros. O refrão era: Porno for Pyros. Para o caso de ninguém ter percebido bem a designação da banda, sentiram esta necessidade de enfatizar. Também não compreendo tal necessidade. Deriva, provavelmente, de certas inseguranças e desejo de afirmação. Considero desagradável. O meu irmão dava sempre o exemplo do ridículo que seria se os Smashing Pumpkins decidissem escrever uma canção cujo refrão fosse o nome da banda. Pois é. Muito inconveniente, e até feio. Nem os Beatles se safam - uma canção chamada Beatles seria terrível. Neste aspecto, os Rolling Stones têm mais sorte porque foram buscar o nome a uma música irrepreensível do Muddy Waters, e portanto aqui nada a dizer.
Mas voltando às bandas cuja designação corresponde ao nome de um dos membros - é muito pouco democrático. Eu não gostaria de estar numa banda chamada "Sousa", ou "Santos", ou "Ferreira". Mais vale pertencer a um conjunto musical tipo Jorge Santos e Seus Muchachos. Sempre seria mais honesto.
E agora, parar com toda a parvoíce e abrir coração e ouvidos ao momento musical que se segue. Impecável. Soberbo. Este Muddy Waters era rei. Os Rolling Stones tinham muito bom gosto, de facto.



Well, I wish I was a catfish,
swimmin in a oh, deep, blue sea
I would have all you good lookin women,
fishin, fishin after me
Sure 'nough, a-after me
Sure 'nough, a-after me
Oh 'nough, oh 'nough, sure 'nough

I went to my baby's house,
and I sit down oh, on her steps.
She said, "Now, come on in now, Muddy
You know, my husband just now left
Sure 'nough, he just now left
Sure 'nough, he just now left"
Sure 'nough, oh well, oh well

Well, my mother told my father,
just before hmmm, I was born,
"I got a boy child's comin,
He's gonna be, he's gonna be a rollin stone,
Sure 'nough, he's a rollin stone
Sure 'nough, he's a rollin stone"
Oh well he's a, oh well he's a, oh well he's a

Well, I feel, yes I feel,
feel that a low down time ain't long
I'm gonna catch the first thing smokin,
back, back down the road I'm goin
Back down the road I'm goin
Back down the road I'm goin
Sure 'nough back, sure 'nough back

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Há mais coisas entre o Céu e a Internet do que sonha a nossa vã filosofia


Muitas vezes, envio emails a mim própria. É um método eficaz e seguro para guardarmos documentos e material necessário, escusando de dependermos de pens e computadores e outras coisas que se podem avariar (comigo, avariam-se sempre).
E porém. Isto de me enviar emails é fenómeno que não cessa de me espantar e confundir. Os filósofos do século XIX e da escola romântica, soubessem eles desta invenção magnificente que é a Internet, e ficariam com certeza com a cabeça descontrolada, de tanto que teriam para dizer. Estou mesmo a ver o desespero acerca da perda da individualidade, a fragmentação da identidade. Tenta lá ser a flauta divina que Deus toca ao escreveres poemas num blog, ó Shelley. Fazeres uns copy paste deste e daquele, aqui e ali. E depois reencaminhares para ti próprio. Não há grande divindade nisso, pois não?
Mas, por exemplo, Schopenhauer. Considero que a internet e a possibilidade de enviarmos emails a nós próprios é coisa capaz de dar cabo da cabeça ao pobre Schopen. Hã? Então mas... que vontade é esta e ... solipsismo? Então como, se eu não sei onde está o meu Eu? Está no facebook? Está nos 10 endereços electrónicos diferentes? Está nos vários blogues que escrevo? Pois, agora assim de repente não consigo muito bem perceber onde é que está o meu Eu, e sendo assim isto do solipsismo ... se calhar convinha primeiro ver onde é que está a consciência de si e tal... talvez no facebook? O facebook parece-me bem, vou começar por lá e...
Pobre Schopen. Ainda bem que não nasceu nesta altura, se não andava para aí a bater com a cabeça nas paredes, desgovernado.
Os Gregos é que estariam muitíssimo bem preparados para a internet. O quê, mandar emails a nós próprios? Pffff, faço isso todos os dias ao pequeno-almoço. Quero lá saber disso, este mundo para mim nada tem de novo. Eu só sei que nada sei, de modo que não é uma porcaria de um email que me vai afectar. Assim como assim, isto é tudo uma ilusão. Esta gente pensa que descobriu o mundo virtual agora - pobres coitados, eu rio-me da sua ignorância. Eles sempre viveram no mundo virtual. Não passamos de sombras. A Ideia está lá no alto, a rir-se de nós. O Arquétipo não é para toda a gente. E andam estes todos contentes, a pensar no facebook, a analisar o facebook, como se isso fosse alguma coisa de novo. Pobres ignorantes.
Os Gregos é que davam bem a volta à internet, de facto. Numa luta entre a internet e os filósofos gregos, ganhavam os gregos à vontade.

Contra o tu

Hoje passaram-se várias coisas durante o meu almoço. De vário tipo e de vária ordem.
Eu e a minha amiga L. discutimos a tal questão do Código Da Vinci vs. Pêndulo de Foucault, mas antes disso, tivemos de ficar à espera de mesa. Era um daqueles restaurantezinhos (ou restaurantezecos?) pequenos, de hora de almoço, que tem sempre movimento e também a vantagem de ser baratinho (ou barateco?).
Bom. Eu perguntei ao senhor - "desculpe, podemos sentar-nos naquela mesa?", ao que ele respondeu "deixa-me limpar primeiro".
Deixa-me. E disse mais qualquer coisa recorrendo a este fenómeno desagradável que é a segunda pessoa do singular.
Eu tenho a ligeira convicção de que o tu e a segunda do singular deviam mais ou menos ser omitidos das gramáticas que se dão a pessoas que têm estabelecimentos públicos. Estas pessoas deviam aprender uma gramática especial, só para elas, em que não figurasse o "tu". É discriminação? Pois sim.
Se esta medida é discriminação, paciência. A verdade é que nem crianças de uma certa idade (mais crescidinhas) deveriam ser sujeitas ao tu quando vão às lojas (relativamente ao tratamento de crianças em lojas, nem me aventuro a dissertar - o pessoal das lojas tem de se decidir, porque ou enlouquecem à vista de uma criança, ou ignoram-na completamente, e lá fica ela de moedinha ao balcão, como eu já vi, a tentar pagar o café do pai).
Eu sei bem que há muitos falantes de língua portuguesa que acham que devíamos ser mais como os espanhóis, mais informais, muito tu para aqui e para acolá - eu respeito esta posição porque, se de facto fosse próprio da língua portuguesa usar naturalmente o tu, nada teria contra. Mas a verdade é que não é. A verdade é que, socialmente, é mais neutro (nem vou dizer mais bem-educado; digo só mais neutro) preferir a terceira pessoa do singular ao "tu". Não vale a pena dizer, "ah, vamos usar todos o tu", quando ninguém usa. É forçado. Fere o ouvidinho. Se estiver em Espanha e me tratarem por tu, não me passa pela cabela começar a "mandar vir" (bela expressão); a norma é assim e pronto. Mas o que é certo é que eu vivo em Portugal, onde o tu não é muito aceitável, a não ser que se trate da nossa família ou dos nossos amigos.
Pronto, ok, admito, retracto-me, faço todos os mea culpa e mais alguns - posso ser conservadorazeca, reaccionariazeca, tudo muito -eco, mas a verdade é que o tu me aborrece verdadeiramente. Aborrece. É foleiro. Foleireco.

Postezeco

Acho graça aos diminutivos portugueses. Podem ser de vário tipo e de vária ordem, desde a junção dos sufixos -inho e -eco até à pronúncia engraçada de certas expressões (por exemplo, há quem diga "sim sinhora" em vez de "sim senhora", para ser mais simpático. É fofinho).
Fascina-me, em particular, o sufixo -eco. Não há formas mais ostensiva e eficaz de denotar desprezo do que este cómico, sonante sufixo. Por acaso, o meu irmão tem a mania de me chamar Riteca, mas neste caso é só a brincar. Espera-se.
Vejamos o efeito deste sufixo nalguns nomes que não o meu (o meu é impenetrável a este tipo de achincalhos) - Hélder, Helderzeco; Filipa, Filipazeca; Lúcia, Luciazeca; Pedro, Pedreco; Isabel, Isabeleca, etc. Podia continuar, mas penso que já se compreendeu o efeito.
De facto, o português é uma língua crudelíssima. É uma língua que se dá ao trabalho de codificar morfologicamente esse sentimento de achincalho que é o desprezo. Se queremos demonstrar o nosso desagrado por alguém, basta recorrermos ao -eco.
Considero interessantíssimo que uma língua de morfologia tão forte como a nossa utilize, precisamente, um dos seus pontos fortes para atacar os próprios falantes, colocando à disposição este -eco tão embaraçoso. Dizer de alguém, por exemplo, "é uma mulherzeca", ou "é um homenzeco", é inferiorizante.
A língua portuguesa não é apenas traiçoeira, é também cruel. Que tristezazeca.

Umberto Eco vs Dan Brown

Não sei porque não se refere mais vezes que o Código Da Vinci copia descaradamente o Pêndulo de Foucault de Umberto Eco. Basta comparar as cenas iniciais destes dois livros - iguais. O resto, enfim, não é igual-igual porque o Pêndulo é uma coisa mais esforçada, mais bem argumentada, com mais referências. Enfim, é um Código da Vinci mais inteligente e labiríntico, uma coisa assim com mais nível.
O Código da Vinci, por seu lado, é o Pêndulo de Foucault versão Praça de Espanha. Mas não deixa de ser largamente inspirado (arriscaria quase plágio, mas enfim) do Pêndulo.
Acho sinceramente estranho que, dado o mediatismo do livro de Dan Brown, não se tenha falado mais disto.
Lembrei-me disto ao almoço. Eu e a minha amiga L. estávamos a falar sobre isto. Nós achámos interessante.
É assim.

terça-feira, 15 de junho de 2010

miscelânia trivial, inútil, fortuita, quejandos e etc.

Olha, estou a ver aquele programa que é o Cinco Para a Meia Noite.
Às segundas é apresentado por aquela rapariga gira de olhos azuis muito grandes e cabelo preto. Gosto imenso de cabelo escuro e olhos claros, é de facto giro.
A rapariga é um bocado nervosa, não é? Esfrega muito as mãos.
Tive pena dela uma vez que a vi a "entrevistar" a Felícia Cabrita. Não me consigo lembrar de pior situação do que estar na presença da Felícia Cabrita.
Coitada.
Não é bom ter pena das pessoas. Quando se tem pena, é porque não gostamos das pessoas, achamos que somos superiores e não conseguimos impedir um certo paternalismo desagradável. Mas, se eu nem conheço a rapariga, posso ter a pena dela à vontade, e tenho.
Embora deva é ter pena de mim, se calhar. Não, que ideia, o que mais me faltava agora era isso.
Olha, o entrevistado é o Jorge Gabriel.
Eh pá. Assim não dá. Mas quem é que tem estas ideias peregrinas, entrevistar o Jorge Gabriel? Estão à espera que ele fale de quê?
Supostamente, este programa devia ser giro. Pois, não é. Ver o Jorge Gabriel é quase tão mau como ver a Felícia Cabrita. Vou mudar isto. Parece que sou parva, se tenho comando é para mudar de canal.
Não são os Gato Fedorento que dizem que o comando é Meo? Foleirada.Têm a vida feita à custa da porcaria do Meo, esses gajos. E gosto tanto deles à mesma, têm tanta piada. Fico chateado, é claro que fico chateado... ah, ah. Tinha mesmo graça, esse sketch. Um fartote.
Deixa lá mudar esta coisa. Este Gabriel, sempre que abre a boca, só fala é de bola e concursos. Gostava de conseguir imaginar esta cena, uma pessoa que acorda de manhã e pensa, "quem é que eu vou entrevistar hoje? Olha, o Jorge Gabriel" - hã? É que não se imagina.
Vou dormir.
Não tenho sono nenhum. Vou acabar de ler os Contos de S. Petersburgo. Tenho de deixar de ler aquela enciclopédia do crime ao mesmo tempo, depois acho estranho andar com tantos pesadelos.
Realmente, há cada coisa.
Estou de tal forma que nem consigo pensar. Agora, por exemplo, se quiser escrever sobre o que estou a pensar, não conseguirei. Não estou a pensar em nada. É impressionante. Ainda bem que não quero escrever sobre isso.
Era como o Seinfeld. O Seinfeld também era sobre nada. Uma vez, a Elaine escolhe outros amigos porque diz ao Jerry que não consegue passar a vida a entrar no apartamento dele e a esmiuçar com todo o pormenor cada minuto do dia-a-dia. Chama-se Bizarro Jerry, esse episódio, acho eu, qualquer coisa bizarro. O que é certo é que a Elaine continua a discutir os mais pequenos pormenores do dia-a-dia até ao fim da série, e ainda bem. O Seinfeld só prova que a vida normal tem muito humor e muito para dizer. Adorava esta série por causa disso, porque demonstrava a riqueza da vida normal.
O Jorge Gabriel agora está a dizer que gosta de ler a Anita. E que quer fazer um talk-show. Que vai buscar ideias ao Letterman, ao Jay Leno, ao Conan O'Brien.
Já começo a perceber porque é que o convidaram. Jorge Gabriel vai buscar ideias ao Conan. É para rir, de facto.
Eu também vou buscar ideias às irmãs Bronte e à Virginia Woolf. Só assim umas ideias, que estas escritoras também não dão para muito mais.
Há tanto para dizer acerca da trivialidade.
Realmente.
Pois é.

Mundial


Para mim, o Mundial é.
Para mim, o mundial é o México 86, o mundo unido num balón.
E beber Milo de manhã. Ainda se vende Milo no Chipre (talvez se venda noutros países, mas vi à venda no Chipre e comprei 300 latas. Não sabia ao mesmo. Foi uma desilusão).
E o Micha dos Jogos Olímpicos.
E, ao jantar, engolir uma colherada de um líquido verde e amargo, que era para abrir o apetite. Abriu de tal forma que o apetite dura até hoje.
E ir andar de bicicleta no passeio à frente de casa, pedalar, pedalar, pedalar até conseguir deixar de andar com rodinhas.
E ler o General Dourakine da Condessa de Ségur e ficar muito impressionada com o feudalismo russo e com tanta chicotada. Tudo corrido à chicotada. Já escrevi antes que a Condessa de Ségur era uma sádica. Maluca.
Ver o Sítio do Picapau Amarelo e adorar a Emília e o Sassi Pê-rê-rê (não sei se é assim que se escreve) e sentir pavor, terror até, daquele óbvio boneco que para mim era um verdadeiro crocodilo de cabeleira, dentes arreganhados e garras ameaçadoras, chamado Cuca.
E ver as Irmãs Bronte, as minhas irmãs Bronte, do Techiné e achar que a Isabelle Adjani era linda (e é). Ainda hoje, a Emily Bronte tem, para mim, a cara de Adjani. No filme, veste-se de homem e apanha tuberculose quando experimenta um casaco do falecido irmão Branwell. Começa a tossir, a tossir, a tossir e tem de se sentar na cama vazia e desconsolada, os cabelos pretos e longos a cobrirem-lhe a cara afogueada. Ao ver esta cena, o meu sonho passou a ser ter ataques de tosse assim, que me obrigassem a sentar-me na cama daquela forma derreada, dramática, romântica. Ainda não aconteceu, o que, hoje em dia, me parece claramente vantajoso.
Ir brincar à apanhada depois do jantar, se não estivesse a chover, ou andar de bicicleta, ou ir ao poço dar à manivela para de lá sair água.
Fugir dos cães. Havia sempre tanto cão, quando eu era pequena, e eu sempre convencida que eles me queriam morder.
Ver o Amor de Perdição e a cara pálida, sugada, da Teresa, que repete o nome de Simão. De arrasar, especialmente aos olhos de uma criança.
Ouvir a Balada da Rita do Sérgio Godinho e ficar aflita - mas isto é para mim? Sempre agradeci os conselhos. Deve ser por isso que, ainda hoje, gosto tanto do Sérgio.
Uma vez, estar a brincar com amigos, olhar para o céu e ver umas luzes. Ficámos a pensar que eram ovnis. Fomos a correr dizer aos respectivos pais. Ninguém acreditou em nós. Disseram-nos "agora vamos para casa, vamos tomar banho e beber leite quentinho. Não viram nada ovnis". Foi mesmo isto que nos disseram - beber leite quentinho, tomar banhinho, inho, inho. Não há ovnis. Mas que nós vimos, vimos.
O que é certo é que nunca por nunca voltei a ver ovnis. Já não há luzes nos céu, como cantava o outro (ou seriam estrelas. Sei lá. O que é que interessa).
Pois, e tudo isto era a propósito do Mundial. Para mim, o Mundial é.

domingo, 13 de junho de 2010

Mas porque é que eu havia de querer...?

A prova de que não cresci é que, a primeira vez que vi Trainspotting, e apesar de ter adorado o filme, não me identifiquei muito com o discurso inicial de Renton, que entretanto se tornou de antologia ('choose life, choose a job, choose a career', etc).
A prova de que não cresci é que hoje, ao rever o mesmo discurso, identifico-me com quase tudo, excepto a parte da heroína, porque felizmente eu não sou nenhuma heroína nem preciso de me sentir heróica.
A prova de que não cresci é que um discurso que me deveria parecer uma imaturidade, um lugar-comum escrito para vender livros e seduzir gente influenciável com a mania que é esperta e que não leu tantos livros quanto os que julga que leu, a mim que vou nos alvores da provecta idade balzaquiana, parece-me muito certo e razoável. Todas aquelas dúvidas são legítimas. Toda aquela incerteza e recusa são justificadas. Justificadas porquê? Não sei, mas são.
E é engraçado, porque toda esta inquietação, esta incerteza, esta recusa, tudo isto podia ter uma aura muito filosófica. Mas não tem. É mesmo só chatice, sem desculpa nenhuma.

Choose a life. Choose a job. Choose a career. Choose a family. Choose a fucking big television. Choose washing machines, cars, compact disc players and electrical tin openers... Choose DSY and wondering who the fuck you are on a Sunday morning. Choose sitting on that couch watching mind-numbing, spirit crushing game shows, stucking junk food into your mouth. Choose rotting away in the end of it all, pishing your last in a miserable home, nothing more than an embarrassment to the selfish, fucked up brats you spawned to replace yourself, choose your future. Choose life... But why would I want to do a thing like that?



Marchas populares


Eh pá, adoro marchas populares.
A qualidade musical é tão excelsa que tenho muita pena de ninguém se ter lembrado de gravar o repertório em CDs, para eu poder comprar e ouvir todos os dias. Será que a recolha de Giacometti e Lopes Graça contempla as marchas populares? Se não contempla, devia.
O guarda-roupa é cuidado e interessantíssimo, de grande fiabilidade histórica e extremamente revelador dos diferentes bairros de Lisboa e da pluraridade cultural dos mesmos bairros.
As coreografias são complexas e estruturadas, de grande expressividade, o complemento perfeito da riqueza musical a que já aludi.
No seu todo, as marchas populares são um evento pleno de significado cultural onde a sociedade portuguesa revela a sua índole popular tão gira, sendo que são as marchas, igualmente, o melhor sítio para se ir ver o povo. De vez em quando, é bom ir ver o povo, ver como vivem, como falam, aquilo que os move, comove e demove.
Eu acho o máximo. Adoro marchas populares, logo seguidas de teatro de revista, essa outra marca indelével do povo. Ainda bem que vivemos num país onde há tanto povo por todo o lado.

sábado, 12 de junho de 2010

Longe da vista, longe do coração

Por acaso, não sei a quem cabe a tarefa de escrever provérbios, mas gostava de conhecer a pessoa que se lembrou desta frase - longe da vista, longe do coração.
É que não me consigo lembrar de provérbio com o qual concorde menos. Talvez seja este mundo cheio de angústias de jovens Werthers e produtos derivados de uma cultura que gosta de exarcebar sofrimentos e devaneios amorosos, mas a verdade é que este provérbio não resulta.
Longe da vista, longe do coração? Era bom, era.
Ainda hei-de descobrir quem foi o chico-esperto que se lembrou disto.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Se quisermos no mundo ser tamanhos (conselhos do 10 de Junho)

Mas a Fama, trombeta de obras tais,
Lhe deu no mundo nomes tão estranhos
De Deuses, Semideuses imortais,
Indígetes, Heróicos e de Magnos.
Por isso, ó vós que as famas estimais,
Se quiserdes no mundo ser tamanhos,
Despertai já do sono do ócio ignavo,
Que o ânimo, de livre, faz escravo.

E ponde na cobiça um freio duro,
E na ambição também, que indignamente
Tomais mil vezes, e no torpe e escuro
Vício da tirania infame e urgente;
Porque essas honras vãs, esse ouro puro,
Verdadeiro valor não dão à gente.
Milhor é merecê-los sem os ter,
Que possuí-los sem os merecer.

Quem tem medo do feminismo

Pode ler-se aqui, na revista on-line Slate, herdeira da New Republic, um artiguinho interessante sobre o feminismo dos dias de hoje, mais especificamente sobre um certo feminismo anti-feminista que, sendo talvez uma contradição nos termos, vê em Sarah Palin o seu representante maior.
Antes de continuar, sinto-me na obrigação de deixar bem claro que, acreditasse eu em Lúcifer e Legião, acreditaria também que Sarah Palin seria a sua personificação terrena. Mas adiante.
Custa-me ouvir imensas mulheres que conheço na sua urgência em declarar que não são feministas - porque ser feminista é não fazer depilação, não ir ao cabeleireiro, ser feia, queimar soutiens e odiar os homens. Também me custa ouvir mulheres vilipendiar outras mulheres que escolheram ficar em casa a tratar dos filhos.
Parece-me que uma importante vitória do feminismo, pelo menos no Ocidente, foi dar às mulheres um direito de escolha equiparado ao dos homens. Não penso que o feminismo sirva para odiar quem quer que seja, homens ou mulheres que escolhem ser domésticas, ou até que são domésticas porque não têm outra opção, e também não me parece que o feminismo sirva para afirmar a superioridade das mulheres face aos homens. Serve para ajudar uma certa emancipação que ainda é necessária.
Esta emancipação é tanto mais urgente quanto são certas as sevícias a que as mulheres estão sujeitas em países como o Sudão, por exemplo. E nem é preciso dizer mais nada nem dar outros exemplos inaceitáveis (que os há, infelizmente). E, mesmo que não queiramos sair do nosso próprio país, pensemos nas razões que temos para que, em Portugal, o feminismo faça sentido - que tal as constantes vítimas de violência doméstica? E não me venham dizer, como eu já ouvi, que hoje em dia só é vítima de violência doméstica quem quer, e que hoje em dia qualquer mulher pode pegar nas malinhas e sair de casa, e etc., porque isso não passa de um chorrilho de pensamentos mal direccionados.
Não vou entrar sequer em determinados preconceitos culturais que me parecem muitíssimo enraizados e que ainda postulam um acervo de valores patriarcais que não me parecem benéficos, mas antes reaccionários. Vou apenas dizer que, tanto para homens como para mulheres, aquele feminismo que se bate pela participação e igualdade equiparadas da mulher em sociedade é vantajoso e benéfico.
E termino apenas com um último pensamento sobre estas feministas anti-feministas e que se relaciona com o conforto material e a sociedade de abundância em que vivem e que, obviamente, lhes dá tempo a mais para pensar. Os filósofos gregos talvez lhes pudessem dar uma liçãozinha - também eles tinham tempo de sobra, mas sabiam o que fazer com ele. Porque não pensam, estas feministas anti-feministas, em andar 10 km para ir buscar água e mais 10 km para voltar para casa e alimentar os filhos, e fugir de milícias a meio da noite para evitar violações e abusos, ou ir para a um campo de trabalho escravo? É só uma sugestão. É que, se pensassem nisso, talvez tivessem menos tempo para escrever os livros que escrevem, dar as entrevistas que dão, fazer as campanhas que fazem, ocupando-se, desta forma, de outras coisas bem mais importantes e de mulheres que, verdadeiramente, precisam da ajuda de feministas a sério.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Deixai que as criancinhas ouçam música

Um amigo deixou-me um chamado "share" muito querido no mural do facebook. Era aquela cantiga do Chico Buarque chamada Agora Eu era Herói, que costumávamos ouvir em pequenos.
Além desta, ouvíamos também o Barata Moura, o Jardim Jaleco, cantigas tradicionais, um disco brasileiro giríssimo que tinha uma capa à Monty Python e uma cantiga que rezava "era uma casa muito engraçada, não tinha tecto, não tinha nada...", o Sítio do Picapau Amarelo, a Cinderela e o Pó de Arroz do Carlos Paião e o Tony Silva ("Tóniiiii.... meu nome é Tóni Silva, sou grande criador de toda a música rock" - durante anos, pensei que o verdadeiro nome do Herman José era Tony Silva), e mais tarde o Serafim Saudade. Tudo coisas com piada. Algumas delas, não sendo de elevadíssima qualidade musical, eram perfeitamente giras e aceitáveis e não feriam os ouvidos de ninguém.
Ora. Não sendo eu daquelas pessoas que enlouquece à vista de crianças, considero-me porém como pessoa que gosta de crianças (o que há para não gostar, exceptuando quando são chatas?). E é por isso que vejo com algum pesar o lixo musical a que elas estão sujeitas. Há esta mania insuportável de considerar que as crianças, por serem pequenas, são parvas, de modo que qualquer coisa que se lhes dá será, com certeza, bem vinda. E é ver os pequenitos expostos a cantiguinhas da índole do "fantasminha porcalhão, não venhas para aqui não", de um renovado e digitalizado Avô Cantigas, e as músicas da carochinha em DVD, de animação miserável e som mutilado por computadores ranhosos. E as criancinhas a ver e a dançar, porque não conhecem melhor.
Atenção. Eu também ouvia muita porcaria quando era pequena. Mas porcaria daquela que, revelando eu tais embaraços em público, daria com certeza direito a enxovalhos públicos, e merecidos, ainda por cima. De modo que não vou revelar. O que acontece é que, entre essa porcaria, também ouvia muita coisa boa, além de ter tido a sorte de ter nascido num tempo em que, se se queria que os miúdos ouvissem Mozart ou Prokofiev, por exemplo, punha-se a tocar um disco de Mozart ou Prokofiev e pronto, ao invés de recorrer a mariquices inúteis como "Mozart para bebés" ou "Prokofiev para bebés". Este tipo de produtos só existem porque se assume, de facto, que as crianças são parvas e que não têm idade para ouvir música clássica a sério, que ainda as traumatiza. Então, será melhor ouvir música de qualidade inferior, uma mistela de sons de plástico, para lhes acalmar (e treinar) os ouvidinhos. Ainda gostava de encontrar, por exemplo, a versão "Pedro e o Lobo" para bebés. Ou, melhor ainda, o Carnaval dos Animais para bebés. É que estas obras, como é sabido, são perigosíssimas, destinadas somente aos ouvidos calejados de um adulto e será melhor mantê-las bem longe dos pequenotes.
Por isso é que eu gosto do facto de Jesus ter dito "deixai vir a mim as criancinhas". Ele não estava com paternalismos e coisas. A sensação que tenho é que respeitava as crianças. Se fosse hoje, Jesus dava-lhes a ouvir música a sério e pronto. Por acaso, sempre simpatizei com Jesus neste aspecto.



segunda-feira, 7 de junho de 2010

Monogamia

Tenho dormido muito com os contos de S. Petersburgo, que é como quem diz, tenho dormido muito com Gogol.
Mas a magia não está a acontecer.
Vou ter de ir seduzir os Maias outra vez. Ora que cousa.

Para Jagger e Richards

Milton Nascimento escreveu uma canção chamada Para Lennon e McCartney. Penso sempre num certo imperialismo anglófono quando a ouço, e penso também que sou, inevitavelmente, vítima desse imperialismo.
Como muitos outros países, somos colonizados. Não quer dizer que não haja vantagens neste estado de quase aculturação em que nos encontramos. Eu, por exemplo, gosto muito de cinema americano, de literatura anglófona, não viveria sem a música dos Beatles, e tenho com o Reino Unido uma relação fortíssima há muitos anos, ainda que se tenha tornado cada vez mais desiludida. Mas é um laço que, quer queira, quer não, é sólido e tão cedo não se romperá.
Porém, o estado de colonização em que me encontro é também óbvio. E, apesar de eu embarcar nele, há que dizer que acarreta uma certa saloiada muito indesejável. Esta adoração reverente e quase ridícula pelo inglês (língua que eu própria adoro, mas pronto). Terminar as frases com "whatever" é uma aberração que me atinge de forma retumbante. Levo muitos dias para me recompor. Os empacotados que passam todos os dias na televisão, alguns de grande qualidade, há que dizê-lo (Sopranos "forever" - sim, já admiti que eu própria sou colonizada), outros de qualidade mais dúbia, como a saga de lamechiche em catadupa dos Irmãos e Irmãs, assépticos wasps (mais outra) que enjooa. Entusiasmo injustificado por coisas que não ultrapassam a mais comum das vulgaridades, como por exemplo cupcakes - e não me venham dizer que é por ser novidade. Eu adoro cupcakes, acho uma graça, são muito queridinhos. Mas são queques com um molho cheio de corante por cima. Num país em que há bolas de Berlim à disposição, pastéis de nata a estalar, vê-se gente a fazer fila para a barraca do Campo Pequeno que vende cupcakes. Pá. Não se percebe. Tal como não se percebe bem que o Expresso publique uma receita do Jamie Oliver em cada edição, como se não houvesse tradição de boa comida neste país. Há duas semanas, ou na semana passada, a receita do Jamie, publicada num jornal português, neste país onde, como se sabe, ninguém sabe cozinhar peixe, era precisamente peixe grelhado. Pausa para absorver a bizarria disto.
São estes pequenos sinais de aculturação que eu absorvo, aceito, apoio, e acerca dos quais perco a autoridade para falar. Mas escrevo este post porque quero demonstrar a mim mesma de que estou ciente do que me está a acontecer. Uma espécie de desculpa. Para me fazer sentir melhor. Embora não faça.
Gostava muito que o Milton Nascimento tivesse escrito algo para Jagger e Richards, por exemplo, e deixasse o Lennon e o McCartney em paz, que era para eu descontrair. Deixa-os lá trabalhar, ó Milton.

domingo, 6 de junho de 2010

Nota mental: com o Camões resultava


- Cami, acorda. São horas de mudarmos a pala.
- Hã?
- Acorda, vá. Se não mudamos a pala, ficas com essa toda suja e depois é muito chato.
- Ah, tens razão. Realmente, se não fosses tu...
- Pronto. Vais escrever, hoje?
- Vou, pá. Decidi que tenho de enxertar para lá uma cena de sexo. Que é para vender. Sabes que sem sexo, nada se vende.
- Ai, sim? Ah... mas tu tem cuidado, Cami. Está a ficar um poema tão bonito, tão profundo... não estragues tudo com brejeirices.
- Eu, brejeiro? Claro que não, até parece que não me conheces. Já sei como é que vou dar a volta à coisa. Os marinheiros vão ter a uma ilha cheia de ninfas doidas. Só rega-bofe, mas rega-bofe com classe.
- Estou a perceber. Uma ínsula divina, cheia de aquáticas donzelas, glória dos olhos, dor dos corações, não é?
- É tal e qual! O que é que foi isso que tu disseste? Espera lá, fofinha, espera lá para eu apontar.
- Aponta, aponta.
- Olha, e estou a pensar incluir romãs. São o símbolo da fertilidade, não é?
- Pois é. Romãs, mostrando a rubicunda cor, com que o rubi seu preço perde...
- Tu hoje estás demais! Deixa-me mas é apontar isso tudo. Tens mais ideias?
- Não, acho que não. E já pensaste em como vão ser as ninfas? Vão ter um mover de olhos brando e piedoso?
- Não, isso não dá para o rega-bofe. As ninfas vão ser umas doidas, já te disse. Vai ser mais do estilo de esperar um corpo de quem levam a alma.
- Cami, isso está excelente! Espera um corpo de quem levas a alma...
- Por acaso está, não está? Vês, não és só tu que tens ideias boas.
- Eu nunca disse que era só eu. Aliás, quando eu ganhei o Nobel a gente falou sobre isso. Tu disseste que estavas muito orgulhoso de mim e não tinhas inveja nenhuma.
- Ó fofinha, e não tenho. Fiquei muito orgulhoso. Só que agora tenho de me concentrar muito a sério no meu poema para ver se para a próxima sou eu a ganhar o Nobel.
- E bem mereces, Cami. Tu és o maior poeta de sempre. Se este país não estivesse numa apagada e vil tristeza, já tinhas ganhado tudo o que há para ganhar e vivias em deleitosas honras que a vida fazem sublimada. Os triunfos, a fronte coroada de palma e ouro, a glória e maravilha - estes são os deleites que tu sempre mereceste.
- Obrigada pelo teu apoio, fofinha. Mas em vez disso, vê lá o que tenho de fazer... ir ao paço receber a tença pacientemente. Às vezes, sinto que este país me mata lentamente.
- Não, Cami, não penses assim. Tu és o maior de todos os poetas. Este país vai dar-te todo o reconhecimento que mereces, mais tarde ou mais cedo.
- Eu espero bem que sim. Só de pensar que morro e ainda me enterram numa vala comum... já viste a tristeza que era?
- Cala-te, Cami, credo! Lagarto, lagarto, lagarto. Pára já de pensar em parvoíces e vai mais é despachar o poema. Já tens título?
- Não, ainda não. Só dou no fim.
- És o maior, Cami.
- Obrigada, fofinha.

sábado, 5 de junho de 2010

Fogueteiro

Portugal está repleto de sítios pavorosos. O que me faz impressão são aquelas terras de descampado, por onde pululam vivendas feias, de cor desbotada ou com azulejos de casa-de-banho por fora, e onde não há cafés nenhuns ou, se há, é um barracão com um anúncio a dizer "Café Camelo". Que é uma zurrapa.
Curiosamente, Portugal é um país bonito. O que acontece é que a costa estremenha, e até um pouco da nortenha, desconhece o significado de planeamento urbano e está devastada por subúrbios selvagens. É desconfortável.
Não estranho que os países onde vi das aldeias mais feias de sempre tenham sido Portugal e a Grécia. É claro que também têm aldeias bonitas, mas sofrem deste mal de muita fealdade urbana concentrada numa pequena área.
Se soubesse mais de arquitectura (não sei nada), estaria com certeza em condições de perceber o impacto da supra-mencionada fealdade na vida das pessoas. Não é, mais uma vez, de estranhar que o presidente da Câmara de Tirana (ou equivalente ao presidente), quando confrontado com a falta de verba para fazer obras numa cidade que precisa desesperadamente delas, tenha decidido gastar o dinheiro em pintar os edifícios de várias cores, para, pelo menos, alegrar o olhar de quem fazia o esforço de viver na capital da Albânia. Não resultou - a cidade tornou-se ainda mais feia, porque agora não era apenas feia, era também garridamente bizarra. Feria o olhar.
É fundamental gostarmos do sítio onde vivemos. Podemos viver num local objectivamente feio, mas para nós, nem que seja pela força do hábito, que tem, de facto, muita força, tem de nos parecer aprazível, relva, amigos à porta, cafés, passarinhos e abelhas, sei lá.
Quem o feio ama, bonito lhe parece. Uma vida feliz aplica isto não apenas às pessoas, mas também aos locais. E será, talvez, a única forma de vencer o feio.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Graciosidades

Há pormenores da vida normal que têm tanta graça.
Hoje, por exemplo, vi duas coisas que nunca tinha visto antes. Fui tomar café e pedi um frugal café, que é coisa corriqueira e que não espanta ninguém, tanto que comecei a frase por dizer que fui, precisamente, tomar café. Bom. Acontece que, depois de mim, estava uma senhora que se aviou de uma forma inaudita - pediu uma bola de Berlim com creme, coisa que me pareceu bem, acompanhada de uma SuperBock. Nunca me teria ocorrido semelhante combinação, tanto que cerveja a meio da tarde, ainda por cima regada pelo creme da bola de Berlim, seria com certeza coisa para me trazer de volta incómodos relacionados com a tal "matéria" sobre a qual escrevi há pouco tempo e que gostaria de evitar. De modo que achei uma graça - mistura arrevezada, esta, da bolinha de Berlim e da jola a acompanhar (nota para dizer que eu sou daquelas pessoas que não considera necessário grafar entre aspas palavras e expressões engraçadas da língua, mesmo que sejam calão ou demasiado informais - daí o jola e não "jola").
Continuando. Tomei o meu café e a senhora foi com certeza à sua vida, acompanhada da SuperBock e da bola de Berlim. Eu continuei para casa, e durante o meu percurso, a certa altura, vi uma senhora de idade à janela de um primeiro andar, de cabelo branco alegrado por uns leves tons violeta, que com certeza pareceram à senhora uma boa ideia, acompanhada de um gato preto, com ar meigo, que de certeza se chamava Farrusco. Não teria reparado nela se não estivesse a cantar. Cantava, a meia voz, embora de forma audível, uma canção do estilo music-hall português dos anos 40, como aquela canção que é assim, "adeeeeeeus! Não afastes os teus olhos dos meeeeeeuus....". Não sei o resto da letra nem da canção, mas era mais ou menos isto que a senhora cantava. E cantava bem, afinadinho. Olhei para ela e tive de sorrir, reconhecendo que tinha ouvido a canção. Espero que ela não pense que eu estava a gozar com ela, porque não estava.
Da mesma forma que aposto que o gato se chama Farrusco, também aposto que a senhora vive na casa da filha e acha que tem de ser a mulher-a-dias para pagar o favor. Já teria, com certeza, adiantado o jantar, aspirado a casa, mudado os lençóis, e estava ali, naquele momento calmo, a apreciar o sol que enfraquecia, a anunciar o fim de tarde. Antes de chegar a filha, o genro e os filhos e de o sossego se acabar, faz umas festas ao gato, sente o calor na cara, canta um bocadinho.
Por mim, tudo bem. Há coisas na vida comum que têm tanta graça - por são assim, graciosas.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Dormindo com livros


Gosto de livros velhos que cheiram mal.
Os livros novos, para mim, só servem para eu adormecer com eles e acordar com páginas dobradas e vincos na capa, para os pôr e tirar da mala até de lá saírem sovados, gastos, abertos muitas vezes.
Gosto muito de dormir com livros. O livro com que eu dormi mais vezes foi Os Maias. Ontem até deu um programa sobre este livro e tudo, e estava ansiosa por ver, mas infelizmente o cansaço foi mais forte e adormeci. Quando acordei, era de madrugada. Os Maias já se tinham ido embora e não deu para dormir com eles.
Mas como, por alturas do Verão, gosto sempre de reler este livro, porque acho que as férias correm melhor repletas de novas perspectiva e ideias sobre Carlos e Maria Eduarda, ainda devo ter tempo para dormir com Os Maias. O Verão todinho.
É tão bom dormir com livros, usar e abusar deles, até ficarem todos sovados, dobrados, cansados, gastos. É para isso que eles servem.

Performance

Chegados a um ponto em que é difícil destrinçar a máscara do nosso verdadeiro Eu, começamos a interrogar-nos se o tal Eu alguma vez existiu.
Gosto de máscaras porque nunca são verdadeiramente máscaras - o facto de as escolhermos para nós indica que são a identidade, o nosso verdadeiro rosto. Há muito pouco que se esconde debaixo do véu. O que parece, é.
É por isso que eu sei que aquele filme, o Avatar, é todo mentira.

terça-feira, 1 de junho de 2010

Come bolos, pequena, come bolos


O meu sonho é ter uma pastelaria.
Vou largar tudo, tirar um curso de pasteleira e fazer bolos para o resto da vida.
O meu estabelecimento vai ser todo azul e vai cheirar a Earl Grey e a montanhas de bolos fresquinhos. Vai ter: muitas bolas de Berlim exclusivamente com creme, parras, sortido húngaro, S. Marcos, profiteroles com chantilly verdadeiro, palmiers cobertos e simples, babás, rins (de chocolate), pastéis de nata, eclairs, salame de chocolate, bolo de bolacha, charlotte de chocolate, fios de ovos, trouxas de ovos, lampreias de ovos, queijadas de Sintra, travesseiros de Sintra, croissants com doce de ovo.
Pode parecer que não, mas a verdade é que muito raramente me delicio com uma maravilha das que acabei de enunciar. Por isso, só por ter escrito este post, já me sinto muito, muito, muito mais contente.
Posso não gostar do pecado da vaidade, mas adoro, adoro, e inclusivamente apoio, o pecado da gula.
Sempre que escrevo aqui sobre um livro ou um autor e digo, "ah, é dos meus livros preferidos", estou a mentir. Os meus livros preferidos são dois e ambos publicados pela Vaqueiro - Bolos e Bolinhos e Sobremesas.
Cada vez me convenço mais que, caso fosse pasteleira, seria bem mais feliz. Nunca é tarde. A metafísica que me deixe em paz. Uma bola de Berlim resolve tantos problemas.

Vãs filosofias para cabeças que pensam muito e mal

O meu problema é que vejo o mundo todo distorcido, a começar por mim.
Quando me olho ao espelho em casa, vejo-me muito bem equilibrada e em geral posso dizer que é algo que me satisfaz.
Depois, vou a andar na rua, vejo um reflexo na montra das lojas e penso "olha aquela senhora gorducha, com umas ancas que parecem aqueles vestidos à século XVII, que engraçado ". E vou ver e sou eu.
O Kant falava do fenómeno e do númeno. Eu, com a grande autoridade filosófica que detenho, considero que, de facto, este simpático filósofo tinha razão. Eu encanto-me com o fenómeno, com a ilusão, com o artifício. A essência das coisas, a sua verdade, é que já custa muito a aceitar.
Ou talvez esteja antes a pensar em Platão. Eu sou daquelas pessoas que gosta de estar na caverna a olhar para as sombras, que projectam uma versão apurada da minha própria pessoa. Sempre fui muito de estar em casa, os ares lá de fora dão-me a chamada asma alérgica, de modo que conviver com arquétipos não é muito a minha onda.
Gosto da imagem que vejo reflectida na caverna, e para mim está bem assim, porque a realidade, como dizia o Hegel, esse outro grande espertalhão, é como é e pior para ela. Prefiro não ter nada a ver com isso.
Pronto.


segunda-feira, 31 de maio de 2010

Lágrimas


Eu sou completamente a favor da felicidade, da alegria e até do optimismo, embora possa parecer que não. Mas a verdade é que sou.
No entanto, considero que há momentos na vida em que a tristeza é inevitável e assumi-la também. Por exemplo, tenho notado que, nos últimos tempos, têm-se sucedido notícias sobre pessoas que conheço vagamente e que se separaram ou divorciaram. Como as rupturas, quaisquer que sejam, mas principalmente as amorosas, são coisas que verdadeiramente me deixam aterrada, fico sempre cheia de pena, e indago acerca do estado de espírito da pessoa ("ah, mas ele/ela está bem? anda a trabalhar muito, ao menos, para conseguir esquecer?", sei lá, coisas parvas desta índole). Fico sempre abismada com as respostas que recebo. Uma semana depois do desgosto e já toda a gente mudou de emprego para se encontrar agora a ganhar €300000 por mês, ou já se casaram novamente, ou já apresentaram namorado novo aos pais, ou vão ter um bebé com o namorado/a novo/a, ou foram convidados para ir viver para a Califórnia como estrelas de cinema, etc., etc.
Admiro quem tem esta elasticidade para deixar que os azares da vida embatam neles para fazerem ricochete, superando rapidamente obstáculos e voltando a repor a ordem natural das coisas, que deve ser feliz. E porém, a rapidez com que as pessoas escamoteiam a tristeza é algo que me surpreende sempre. Não ouço falar de ninguém que fique em casa a chorar, que tenha dificuldade em manter uma vida normal, que admita que está infeliz. É evidente que muitos preferem esconder estados de espírito e adoptar uma fachada de alegria e força para o mundo exterior, o que é legítimo. Mas, mesmo em conversas pessoais que vou tendo, constato que a infelicidade e a tristeza são cada vez mais palavras proibidas no léxico de toda a gente.
Se eliminar os vocábulos "infelicidade" e "tristeza" equivalesse a erradicá-los definitivamente da vida das pessoas, estaríamos todos de acordo. Mas não nomear uma coisa não quer dizer que ela não exista. É impossível viver sem que, com grande pena minha e de toda a gente, sejamos atingidos por ondas negras de tristeza. É mesmo assim. Um bom método talvez seja chorar tudo o que há para chorar, resolver todos os lutos antes que eles se avolumem ainda mais. E isto não sou eu que digo - já há muito que se sabe do poder das lágrimas. Leia-se, interessantemente, o que diz José Tolentino Mendonça na sua introdução a O Dom das Lágrimas. Orações da antiga liturgia cristã, Assírio e Alvim, p.12:
Temos muitas maneiras de chorar, e o modo como o fazemos revela não só a temperatura dos sentimentos, mas a natureza da própria sensibilidade. Ao chorar, mesmo na solidão mais estrita, dirigimo-nos a alguém: esforçamo-nos para que ninguém veja que choramos, mas choramos sempre para um outro ver. As lágrimas emprestam um realismo único, irresistível à dramática expressão de nós próprios. São um traço tão pessoal como o olhar ou o mover-se ou o amar.

Choramos pouco, não é? A não ser as velhotas- "eu-sou-uma-pessoa-doente" que de vez em quando aparecem na televisão (e não dão vontade nenhuma de rir, apesar de eu estar a falar disto descontraidamente), as pessoas não choram muito. E, se choram em privado, nunca dizem que choram. Isso é com elas, de facto, não me cabe a mim especular o porquê.
Mas pronto. Isto sou só eu a falar. Eu nem nunca chorei na vida e detesto, verdadeiramente, que chorem ao pé de mim, de modo que não sou pessoa para estar aqui a pregar sermões.

domingo, 30 de maio de 2010

Oh Denis doo-be-do


Por outro lado, e complementando o post anterior, gostaria muito de ter visto o Easy Rider no cinema, ao invés de em DVD, que é sempre uma coisa inferior. É a recordação que deixo aqui de Dennis Hopper, de quem gostei muito no próprio Easy Rider (o final é inesquecível; este filme vale muitíssimo a pena), tal como em Apocalypse Now, em que estava bastante cómico. A entrevista de Dennis Hopper nos extras do DVD do Easy Rider (ligeira vantagem do DVD) também é engraçada - Dennis Hopper diz que queria sempre tudo à maneira dele, mesmo quando isso era, claramente, a pior das opções possíveis. Uma vez, os outros produtores do filme fizeram tudo às escondidas, ele só descobriu no fim e, em vez de partir tudo (como parece que era sua característica), riu-se e disse "eles tinham razão, ficou muito melhor assim".
Era um gajo fixe, ao que parece. E que bonito que ele estava no Gigante, a fazer de filho da Lizzie.

sábado, 29 de maio de 2010

Ainda esta semana tentei ir ao cinema e não encontrei nada que me apetecesse, verdadeiramente, ver. Tudo deslavado. Uma dor de alma. A crise está por todo lado.
Como diz um amigo meu, a solução é passar a ir única e exclusivamente à Cinemateca e esquecer o resto.

Conversa de café


Um amigo meu dizia, há imensos anos (tudo o que me aconteceu, pelos vistos, foi sempre há imensos anos), que gostava de namorar com raparigas feias. É que, explicava ele, como são feias, são mais interessantes, porque não podem contar com a carinha laroca para atrair a atenção. Ele arranjava, inclusivamente, metáforas muito engraçadas dignas, sei lá, de elevações de espírito como um episódio do Sexo e a Cidade, mas naquela altura tinham, de facto, graça - é como mergulhar no mar, chegares lá ao fundo e veres tudo com toda a clareza, o azul da água que não é o mesmo à superfície, enfim, coisas assim.
Lembro-me de ter protestado contra esta conversa. O que ele dizia é que as feias dão menos trabalho a engatar. Mas não era isso. Ele tinha, convictamente, mais interesse em pessoas feias do que em pessoas bonitas.
Eu também, curiosamente. Já escrevi que gosto de imperfeições e etc. e tal. Mas também acho mais graça a pessoas feias que depois, com o tempo, se vão tornando bonitas. A beleza perfeita é aterradora - é como ir a um museu ver um quadro e ficar ali estarrecido a olhar. E o quadro, se calhar, até ficava muito bem na nossa sala. Mas, passado algum tempo, tornava-se um objecto de decoração como outro qualquer. Perdia a novidade, alguma piada, até. E, por isso, as pessoas muito bonitas sofrem um processo inverso aos feios - também devido a alguma inveja, que é, de facto, algo de muito desagradável e vil, quanto mais observamos as pessoas muito bonitas, mais defeitos descobrimos, e estes defeitos avolumam-se de forma a tornarem-se insuportáveis. "Ah, que lindo que ele é, mas tem umas mãos esquisitas" - e, dia após dias, só vemos aquelas mãos horríveis, de gestos deselegantes, que estragam tudo. "Ah, que elegante que ele é, mas tem a boca torta" - e, de dia para dia, a boca vai-se tornando tão torta que chega à bochecha e, qualquer dia, vai parar à orelha, o que pode causar algum desconforto. É por isso que o meu problema com um certo cinema dos dias de hoje é não haver actores nem actrizes feios na quantidade necessária. Têm todos aquele ar higienizado da nata de Hollywood, que me incomoda um tanto ou quanto. Eu gosto mais de ir ver filmes com pessoas feias, que tenham alguma coisa para onde eu possa olhar sem ser dentes ofuscantes.
Não quero com isto dizer que a beleza não é importante. É, e quem diz que não é, sinceramente, está a mentir e pronto. Acontece é que a beleza, curiosamente, é algo de muito mais complexo do que se possa pensar. A beleza não envolve só, ou talvez nem sequer envolva fundamentalmente, perfeição física - envolve aquela entidade diáfana e inefável designada por "pinta". E a pinta ou se tem, ou não se tem, mas quando existe, traz consigo a verdadeira beleza.
É evidente que há uns seres estranhos que conseguem ter as duas coisas, excelsa perfeição física e pinta, mas nesses não vale a pena pensar, que só servem para a gente se sentir mal. Eu, a esses, punha-os a todos num museu e não os deixava sair de lá, para o mundo real. Era bem feita.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

É tão pouco provável ser Milton ou ser Virgílio

O que é "escrever bem" ou "ter jeito" para a escrita?
Quando as pessoas dizem que têm muito jeito para a escrita, isso normalmente nunca corresponde à verdade. Apenas quer dizer que não dão erros ortográficos e que conseguem escrever a metro, isto é, mais de dez linhas, sem lhes faltar ideias. Não me posso esquecer do mafarrico que se sentou ao pé de mim na cantina da escola e que disse que tinha "muito jeito" para escrever poemas, tanto jeito que as pessoas até lhe diziam que ele dava ares de Fernando Pessoa. Escrevia bem, achava ele.
Eu não sei o que é escrever bem. Sei dizer se considero que alguém escreve bem ou mal, mas não consigo exactamente definir porquê - quer dizer, quando a escrita é má, consigo, porque se torna bastante fácil. Quando se escrevem diálogos do calibre "então compraste mais sapatos?", "É. Comprei", está tudo dito. Qualquer pessoa que, com ou sem licença poética, admita "é" como resposta a uma pergunta que não contém o verbo "ser" tem, claramente, problemas que eu duvido que não ultrapassem a própria (má) escrita. Mas, lá está, como qualquer pessoa de nacionalidade portuguesa, tenho muito mais facilidade em apontar e justificar o que está mal do que justificar o que está bem.
Sei que aprecio cada vez mais a escrita que é apenas formalmente má, ou propositadamente má. Há quem escreva propositadamente mal de forma admirável. Agora só me consigo lembrar de Charles Bukowski e Lobo Antunes em certas crónicas e momentos de alguns romances, mas há outros. Escrita com asneiras, com frases entrecortadas ou mesmo interrompidas, que começam a meio e terminam no início, mas uma escrita fluida, escorreita, viva. Penso que era isto que Truman Capote designava, muito interessantemente, por "underwriting". Curiosamente, o primeiro romance de Truman, Other Voices, Other Rooms, sobre o qual já escrevi aqui no blog, é tudo menos "underwritten". Mas é uma escrita simples, ao mesmo tempo. Não é excessiva, apenas admite momentos de alguma extravagância, o que é inteiramente diferente.
Bom. A minha intenção era escrever um post que se dedicasse com algum afinco ao problema do calor e de as pessoas insistirem em mostrar ao mundo a sua flacidez, usando tops de licra que se colam de tal forma às protuberâncias que ficam a parecer da família do bonequinho da Michelin, e como isso não é bonito nem correcto, sendo que a minha sugestão ia no sentido de se começar a usar umas coisas mais folgadas a bem da estética comum, assim como sapatinhos fechados para quem não tem paciência para limpar as unhas dos pés, já que certas visões de dedões descuidados assustam ligeiramente, mas enfim; acabei por escrever algo completamente diferente.
Ainda não sei como se vai chamar este post. Falta-me o "títalo". Este é um exemplo de escrita propositadamente má. O resto também pode ser, mas este foi mesmo de propósito.

terça-feira, 25 de maio de 2010

Ligeira inveja

Este blog anda muito mole, muito pouco dinâmico. Quer dizer, "dinâmico" é coisa que nunca foi e ainda bem - eu própria não sou dinâmica. Canso-me ao pé de pessoas dinâmicas. Não tenho muita paciência para pessoas dinâmicas. Se calhar, tenho inveja.
Deve ser isso. É a inveja. Gosto de pensar que sou uma pessoa que não sente inveja nenhuma, mas não é verdade. Há vezes em que acontecem coisas excelentes aos outros, e nós ficamos felizes por eles, a sério que ficamos, mas mesmo assim não conseguimos impedir aquela ligeira, ligeiríssima, sensação de que há uma agulha que nos espicaça ao de leve, algures no corpo, na barriga, no pescoço, talvez. "Porque não eu? Eu mereço mais" - temos este pensamento baixo e vil.
Eu, pelo menos, tenho.
Tudo para dizer que o blog está muito mole. Esfarela, como diria Ramalho Ortigão nas Farpas.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Dialéctica - parte II

A dialéctica senhor/escravo tem muitas ramificações e relevância na sociedade dos nossos tempos. É, no fundo, uma explicação da dependência. As pessoas desprezam os "drógados", porque não contribuem para o bem da comunidade e arrumam carros quando ninguém lhes pede, mas elas próprias (eu incluída) são dependentes.
Exemplificando. O meu computador é ancião. Não direi que é pré-histórico, mas é, vamos lá, da Antiguidade. Nem sequer chega à Idade Média. Mas funciona, portanto vou-me aguentando, alegremente, com ele. A desvantagem, porém, de estar em posse de um computador pré-medieval é que, com alguma frequência, ele é acometido de certas maleitas. Desta vez, foi o carregador que se estragou, o que me obrigou a ficar dois dias sem pc, até encontrar forma de resolver a questão, que felizmente foi resolvida.
Constatei, nesse par de dias, que não ter computador é debilitante. Não pude trabalhar. Tudo o que precisava para trabalhar, processador de texto incluído, estava no pc. Não pude escrever. Já não consigo escrever à mão. Sei isto porque me perguntaram - mas não podes escrever à mão? E aí, fui forçada a admitir que não. O máximo que ainda escrevo à mão são cartas, postais, mas normalmente envio emails. Se pegar numa caneta e olhar para uma folha branca, a gritar por palavras, nada me sai.
De modo que o trabalho atrasou todo e passei dois dias entupida. Ainda por cima, o livro que estou a ler não me agrada sumamente, o que toldou ainda mais a minha mente habituada a estímulos fáceis.
E assim se conclui que Hegel tinha toda a absoluta razão - o computador é o senhor, eu sou verdadeiramente a escrava. E o mesmo se passa com toda a gente que tem o trabalho todo no computador, de tal forma que este se torna quase um pedaço da vida das pessoas. Se o perdemos, é uma chatice.
Porém, ontem, nas notícias, ao ver as pessoas fascinadas, algumas até dispostas a fazer sacrifícios à carteira, com os novos écrãs 3D, para poderem ir para casa e lá ficarem, de óculos escuros, a olhar para a televisão, senti uma súbita alegria reconfortante. Sim, eu posso ser um exemplo de alienação, que é coisa que terei de resolver. Mas há gente muito, muitíssimo, pior do que eu.

sábado, 22 de maio de 2010

Todos os livros são compostos de mudança

Tal como as pessoas, os livros mudam. E mudam de uma forma muito clara.
Li o Dracula de Bram Stoker na adolescência. Adorava os arrepios na espinha, o medo que me provocava. Os capítulos em que Jonathan Harker está fechado no castelo, à mercê de vampiros e restantes criaturas igualmente malévolas, pareciam-me claustrofóbicos, medonhos, magistrais.
Voltei a ler Dracula já adulta. Uma leitura fácil, de arrepio fácil, um sobrenatural quase sensacionalista. Um livrinho com piada.
Também li O País das Últimas Coisas, de Paul Auster, há uma série de anos. Adorei. Também achei "claustrofóbico" que, pelos vistos, era a principal qualidade que procurava na escrita enquanto atravessava a adolescência. Voltei a lê-lo há dois anos. Ao contrário do que ouço dizer, gente até de grande iluminação, eu não acho o Paul Auster nada mau. Também não achei o País das Últimas Coisas mau. Está é muito longe de ser o grande, imenso livro que eu pensava que era.
Há certos livros que são como, por exemplo, os namoradinhos da escola primária. Já não os vimos há centenas de anos, e as memórias que temos deles são fofinhas e queridas e boas. Se calha vê-los na vida real, a desilusão é profunda - ninguém consegue corresponder a expectativas tão ternurentas. Os livros do passado são, na maior parte dos casos, exactamente a mesma coisa.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Dialéctica


Eu acho que, mais ou menos, percebi aquela questão da dialéctica senhor/escravo do Hegel e tal. O trabalho liberta. Se o senhor vive do trabalho do escravo, então quem é livre é o escravo, porque, sem o trabalho deste, o senhor não vai a lado nenhum e portanto quem é dependente é o senhor, e não o escravo.
Pois. Isto é tudo muito bonito e verdadeiro. E nem sequer vou falar da adendazinha que o Marx juntou aqui a esta dialéctica. Vou dizer, sim, que se eu pudesse ser livre sem ter de andar a trabalhar, desculpa lá, ó Hegel, mas preferia muito mais.
Não me venham com as histórias do trabalho que é edificante. Onde é que está a edificação em ter de andar a trabalhar para ganhar dinheiro ao fim do mês? Trabalho assim não é edificante. Nós é que nos enganamos a nós próprios porque é a única forma de suportar o jugo, e então inventámos este conceito de "realização profissional" para taparmos os olhos. E é exactamente aquilo que eu faço, porque, se os meus olhos se abrem, e eu vejo o Carmo e a Trindade finalmente a cair, nunca mais Lisboa se recompõe. E depois é uma maçada.
Ai.
Se o Hegel fosse vivo, conversava um bocadinho com ele no sentido de o fazer alterar, ligeiramente, a dialéctica - não dá para ser "toda a gente é senhor porque ninguém precisa de trabalhar?".

O inferno são os outros

Acho graça, surpreendo-me e, na maior parte das vezes, irrito-me, com a vaidade das pessoas.
Não percebo a vontade desesperada de se evidenciarem. Falam por cima dos outros e falam de coisas óbvias e banais. Coisas em que outros pensaram já há muito, coisas que muitos fizeram antes deles. Que não são nada de especial.
Acham-se na posição justa para criticar, julgar, aconselhar os outros. São paternalistas. Escrevem e falam em inglês demasiadas vezes, vendo nisso um sinal do seu cosmopolitismo pobre, da sua educação tristemente pouco esmerada. Gosto muito de inglês, mas nunca confio em quem recorre a ele demasiadas vezes, quase em detrimento do português. É um tanto ou quanto aquilo que poderíamos designar por "provinciano".
Também já percebi que há algo que as pessoas excessivamente vaidosas gostam muito de fazer, e que é comprazer-se na sua arrogância. Consideram que a arrogância lhes confere superioridade, interesse, um certo snobismo aristocrático. Vêem nela força de carácter e não a tomam por aquilo que realmente é - a fraqueza cobarde de quem vive do artifício. E uma fraqueza bastante irritante e desagradável, por sinal. E, no entanto, dizem "às vezes acham-me muito arrogante", "às vezes acham-me muito agressivo", "às vezes acham que eu não dou confiança", como se tudo isto fosse louvável.
E depois esforçam-se tanto - valha-me Deus, o quanto se esforçam. Sempre em constantes manobras para atrair atenção, para perceber de que forma conseguem ultrapassar os outros, aquilo que podem exibir. É patético. É triste.
Passou-me a maleita do corpo, mas hoje ficou-me a do espírito. A vaidade é insuportável, é repugnante. E conheço gente demais assim. De modo que me entristece. De modo que a maior parte das pessoas vale pouco a pena.
E eu própria tenho pena.

terça-feira, 18 de maio de 2010

Maleita

O problema das maleitas que demoram a passar e persistem em afligir-nos por muitos dias é que se começa a ter muito afincadamente a noção do "mal-estar". Quase que se materializa à nossa frente.
Os sonhos de febre são os piores, os mais disformes. Vozes que nos gritam ao ouvido e que depois se esbatem, para mais tarde voltarem novamente, em ondas, e aquelas cores estranhas, amorfas, que percorrem a mente em grande rapidez. É, na verdade, uma experiência muito surreal.
Como não consigo escrever mais, que o "mal-estar" assola, queria porém deixar um poema que ilustra tudo isto e muito mais. Só me lembro dele (do poema) quando estou doente, e penso que se percebe porquê - foi escrito por Samuel Taylor Coleridge, esse romântico levemente alucinado que, como muitos outros românticos, gostava de comer comida estragada para ter pesadelos e depois escrever sobre eles. Manias.
Não admira, portanto, que o talento de S. T. Coleridge, combinado com as grandes perturbações intestinais que com certeza o acometiam, e que, como todos sabemos, seriam com certeza grande inspiração, tenha resultado neste clarividente poema sobre o incómodo, a alteração, da "doença" - aqui vão, sem mais delongas, alguns versos de "The Pains of Sleep":
Ere on my bed my limbs I lay,
It hath not been my use to pray
With moving lips or bended knees;
But silently, by slow degrees,

My spirit I to Love compose,

In humble trust mine eyelids close,

With reverential resignation,

No wish conceived, no thought expressed,

Only a sense of supplication;

A sense o'er all my soul impressed
That I am weak, yet not unblessed,

Since in me, round me, every where

Eternal strength and wisdom are.


But yester-night I prayed aloud

In anguish and in agony,
Up-starting from the fiendish crowd

Of shapes and thoughts that tortured me:

A lurid light, a trampling throng,

Sense of intolerable wrong,

And whom I scorned, those only strong!

Thirst of revenge, the powerless will

Still baffled, and yet burning still!

Desire with loathing strangely mixed
On wild or hateful objects fixed.

Fantastic passions! maddening brawl!
And shame and terror over all!


É um pouco isto que se passa quando estamos doentes e não dá para fechar os olhos e dormir o sono dos justos, não é?

domingo, 16 de maio de 2010

Matéria

Bom, uma intoxicação alimentar é do pior que pode acontecer ao Homem. Para mim, equivale ao que Kafka dizia sobre acordar cedo - é degradante. A pessoa confronta-se, verdadeiramente, com o facto de ser um animal, talvez o único animal racional sobre a Terra, mas ainda assim um animal, que nada mais tem do que "matéria". Matéria, matéria, matéria por todo o lado. Nestas alturas, não servem de nada as elevações do espírito, nem a arte, nem os bons livros, nem nada, mas apenas o confronto com o facto de sermos apenas "pó". É, até, um exercício de humildade - quer sejas a Rainha de Inglaterra, ou o Obama, ou apenas uma rapariga normal, o que tens para mostrar ao mundo, a tal matéria, é igual para todos e comum à raça humana, que é, na verdade, uma raça animalesca como as outras.
Até é quase filosófico, uma intoxicação alimentar. Dá para a gente pensar.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Pois que tudo são coisinhas

E, mais uma vez, venho aqui dar conta não das pessoas que são assim e assado e que me irritam, mas antes daquilo que em Portugal é assim e assado e que me enternece (embora talvez me devesse irritar).
Há uma certa ternurinha em Portugal, uma certa disposição mansa, a que acho muita graça, embora esta mansidão seja, provavelmente, só fachada, mas enfim. Por exemplo, n'O Mistério da Estrada de Sintra, Eça faz pela primeira vez menção à personagem de Fradique Mendes, esse exótico espécime estrangeirado, que, numa festa, decide falar extravangantemente da relação amorosa e fatal que manteve com uma mulher canibal. E diz-se assim:

Carlos Fradique contava as situações monstruosas de uma paixão mística que tivera por uma negra antropófaga:
- Um dia, exaltado de amor, aproximei-me dela,arregacei a manga e apresentei-lhe o braço nu. Queria fazer-lhe aquele mimo! Ela cheirou, deu uma dentada, levou um pedaço longo de carne,mastigou, lambeu os beiços ...e pediu mais.
-Oh! sr. Fradique! - gritaram todos, escandalizados.

Este "oh! sr. Fradique!" deslumbra-me e faz-me sempre rir. Este escândalozinho que as pessoas deste país gostam de sentir, dissociando-se dele, fazendo questão de afirmar que são muito morais, muito decentes, muito queridas. É bonito. E não esquecer que vem tudo acompanhado de uma impecável, mais uma vez também muito decente, boa-educação, patrocinada pelas requintadas (e intrincadas) formas de tratamento da língua portuguesa - o "sr. Fradique", honorífico + apelido, não há cá primeiros nomes para ninguém.
As pessoas gostam de se enternecer, em Portugal. Gostam de pensar que são boas pessoas. E isso é bonito. Acho mesmo que sim.

terça-feira, 11 de maio de 2010

Ah! E ainda a respeito do que se passa no youtube, o pessoal que se dá ao trabalho de ir lá retirar material devia pôr os olhos nos grandes Monty Python, que criaram um canal onde disponibilizam todo o seu material, porque sabem, e provavelmente apreciam, que as pessoas gostam deles e da obra que criaram.
Só gente medíocre é que tem medo da pirataria, é o que eu acho. Os DVDs dos Monty Python deixam de se vender? Eles perdem dinheiro? Não me consta que isso aconteça (posso estar errada, mas penso que não).


(E também me esqueci de juntar à lista dos descontrolados raivosos aquele horrível do Manual de Instruções para Crimes Banais, filme do qual penso que falarei em breve. Foi dos filmes mais terríveis que vi, e o criminoso do filme foi dos que mais detestei. Explicarei porquê.
Mas agora não.)

Desejo sinceramente que o youtube se

Bom, mas é que fico mesmo a espumar de raiva, com vagas incontroláveis de instintos absolutamente assassinos, qual cão danado, qual Vincent Vega e Jules a descarregar a arma depois daquele "Ezequiel 25:17", qual Robert DeNiro no GoodFellas a despachar os tipos todos que sabiam dos negócios escuros dele ao som do Leyla do Eric Clapton, qual Kaiser Soze a matar inimigos e pessoas que conheciam os inimigos e até pessoas que deviam dinheiro aos inimigos, qual Vitto no Padrinho, que volta à terrinha na Sicília para despachar o gordo mafioso que lhe tinha matado o pai, fico assim como esta gente toda, quando vou ao youtube e constato que uma data de links que pus no facebook ou nos favoritos não está lá, e também (atenção) não está disponível em mais nenhum lado. OK?
É que não está.
Estamos a falar de Mário Viegas a recitar poesia, por exemplo.
Estamos a falar de excertos mínimos de filmes (não são o filme inteiro, nem de perto nem de longe).
Estamos a falar de clips do South Park, que eu, por acaso, até acho que ainda não saíram sequer em DVD.
Estamos a falar de entrevistas antigas com escritores, músicos.
Estamos a falar de videoclips que, por amor de Deus, mais não servem do que promover bandas e que, estando disponíveis no yoube, apenas estimulariam o apreço e o gosto pelas mesmas, resultando, talvez quem sabe, na efectiva compra do CD.
A sério. Terem retirado o Mário Viegas, então, deixa-me fora de mim, absolutamente fora de mim, com instintos assassinos, qual os sapatos da enfermeira no Vestida para Matar, qual Hanibal Lecter (sim, sim!, é este o meu estado), qual Kaiser Soze, qual Robert DeNiro em Goodfellas, em Padrinho, qual Vincent Vega, cães danados e outros que me estão agora a faltar.
Oh pá, a sério. Que estupidez. Lembram-se daquilo que o Miguel Esteves Cardoso disse da Leya há bem pouco tempo? Pois bem, eu digo exactamente o mesmo à gentinha que vai ao youtube retirar conteúdos inofensivos, interessantes e que, além de não infringirem direitos de autor, apenas promovem e publicitam os ditos autores.
E agora despeço-me, que a fel destila em golfadas, toda eu sou fel, bleagh, que porcaria, tenho de ir tomar um duche para adocicar.

(nota para dizer que estou a ponderar seriamente criar uma etiqueta "fel" neste blog. É que, infelizmente, a minha natureza resvala sempre para o mal).

domingo, 9 de maio de 2010

Bola


Gosto de futebol por causa da festa. Não percebo a fundo todas as regras do jogo, e nem sequer conheço todo o plantel do Benfica. Mas gosto de futebol e sou do Benfica.
Acima de tudo, gosto de bola, que pode ser uma rodilha de trapos ou uma esfera mais pesada e profissional, e que permite que os miúdos joguem na rua e que os adultos disputem campeonatos. A bola dá oportunidade tanto ao pobre como ao aristocrata - há inúmeros casos de jogadores que vieram do nada, de vidas pobres ou quase miseráveis, mas que chutavam a bola desde pequenos e que assim descobriram um talento imenso (o que não desculpa de forma nenhuma a pobreza, mas mostra como o futebol chega a tantas vidas diferentes). A bola fascina crianças, que de repente se esquecem da sofisticação dos brinquedos com pós modernos para exercitar o pé em chutos animados, e no entanto é uma coisa tão simples, que não custa nada. Uma bola.
E, por isso, ver o Benfica campeão é, como dizem os benfiquistas mais empedernidos, "uma alegria muito grande" e "uma coisa muito bonita". Primeiro, porque, por herança familiar, que mais tarde se tornou do coração também, sou do Benfica. Segundo, porque é inesquecível ir à Luz e ver tantas pessoas felizes. Respira-se felicidade, que transborda de tanta gente tão diferente, velhos, novos, famílias inteiras, adolescentes, mulheres, homens.
Aceito quem não gosta de futebol, quem não tem paciência, quem é indiferente a derrotas e vitórias (nem sequer é uma questão de aceitar; não tenho nada a ver com isso). Aceito, porém, com muita dificuldade que me digam que ter um clube do coração "é uma estupidez", como às vezes ouço, e que o futebol só serve para negócios escuros por causa de uma data de homens a correr atrás da bola. Os negócios escuros do futebol só entristecem quem verdadeiramente gosta de um clube, assim como o mau perder e as cenas de batatada que às vezes acontecem também mancham, vergonhosamente, aquilo que devia ser uma festa alegre. E porém, estes episódios tristes não afectam a felicidade de uma vitória, ou a plenitude de cantar a plenos pulmões na Luz (onde não consegui estar hoje, com uma pena imensa), de cachecol ao pescoço.
É uma coisa muito bonita. Uma alegria muito grande. E gosto que as pessoas partilhem isto por causa de uma simples bola. Não me parece menor, não me parece pouco inteligente. Parece-me bem, e isto independentemente de sermos do Benfica, do Sporting, do Porto.
Viva a bola e, hoje, com toda a força, viva o Benfica.

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Um possível problema de tradução


Em Birthday Letters/Cartas de Aniversário, de Ted Hughes, edição Relógio d´Água e tradução de Manuel Dias, há um poema de que gosto muito, muito, muito que se chama Blue Flannel Suit e que, antes de terminar, diz assim:

You waited,
Knowing yourself helpless in the tweezers
Of the life that judged you, and I saw
The flayed nerve, the unheable face-wound
Which was all you had for courage

A tradução é a seguinte:

Esperaste,
sabendo-te indefesa nas tenazes
da vida que te julgava, e eu vi
no teu nervo esfolado e na ferida incurável do teu rosto,
toda a tua coragem

Não sou tradutora, nem conto atrever-me sequer a tentar traduzir poesia, e talvez o meu problema com esta tradução seja apenas hiper-sensibilidade minha em relação ao poema de que gosto tanto. No entanto, julgo que, efectivamente, o último verso traduzido não faz jus à fragilidade bonita do original. O "nervo esfolado" e a "ferida incurável" é tudo o que resta, e é tudo com que se pode contar para ir arranjar coragem não se sabe bem onde; "which is all you had for courage" é muito diferente de "eu vi [no nervo esfolado, na ferida incurável] toda a tua coragem". A tradução portuguesa dá uma força quase dominadora a esta coragem que, no original inglês, não me parece existir. Há coragem, sim, mas esfarrapada, frágil, de modo que o "flayed nerve" e "unhealable face-wound" se tornam, curiosamente, ainda mais poderosos - são sinais de ferida e desgosto que, apesar de tudo, continuam a ser coragem.
Mas pronto. De resto, nada a dizer. A minha mensagem ao tradutor é, fazendo minhas as palavras de Herman a Manoel de Oliveira, "que não desista" e "que continue".

Ardente e violentamente

Estou a sempre a começar posts pelo desagradável intróito (tão desagradável como a própria palavra "intróito" e a pessoa que o escreve) "não gosto de pessoas que...".
E este post não vai variar. Não gosto de pessoas que não gostam muito de uma coisa. Aquelas pessoas que gostam de tudo e não gostam verdadeiramente de nada.
Ah, Pearl Jam? Gosto, pois, já os vi ao vivo.
Ah, Kraftwerk? Gosto, pois, já os vi ao vivo.
Ah, Quim Barreiros? Gosto, pois, já o vi ao vivo.
Ah, George Orwell? Gosto, pois, já o li ao vivo.
Ah, A Aparição? Gosto, pois, já li e pensei sobre o livro ao vivo! (pois claro...)
Ah, Lídia Jorge? Gosto, pois, já a li e vi o filme ao vivo.
Ah, Murakami? Gosto, pois, etc.
Não é possível. Há gente que gosta destas coisas todas que eu enunciei, tudo ao mesmo tempo, sem critério nenhum, e sem se manifestar ardente e violentamente por nada. Não acredito em quem não se manifesta ardente e violentamente por nada, e prefiro não acreditar, porque é gente que me irrita.
Uma vez, ao ler uns pensamentos de Vergílio Ferreira, de que, por acaso, gostei muito, deparei-me com o seguinte: Morrerás em breve. É incontestável. E quanta verdade morrerá contigo sem saberes que a sabias. Só por não teres tido a sorte de num simples encontro ou encontrão ta fazerem vir ao de cima.
Portanto, como é que há pessoas que passam a vida a evitar as verdades que devem sentir com toda a força, a encolher os ombros, a gostar de tudo por igual, por atacado? Essas pessoas são as mesmas de quem fala Vergílio Ferreira. Fazem-me impressão.
Sou uma pessoa muito impressionável.

Umas notinhas sobre uns documentários que tenho visto


Há pouco tempo, vi na televisão o filme, presumo que mais ou menos ficcionado, sobre Grey Gardens, uma casa decadente nos Hamptons onde viviam Big Edie e Little Edie, mãe e filha, dementes, doces e completamente afastadas do mundo. Conheci-as ao ver o documentário dos irmãos Maysles, que me impressionou muito, e sobre o qual escrevi aqui; vi também, há relativamente pouco tempo, um outro documentário destes realizadores sobre os Beatles (The Beatles - The First US Visit) que, incrível e supreendentemente, me desapontou.
Estes documentários, tal como o recente Fantasia Lusitana de João Canijo, recusam muito claramente a voz off e vão mais longe - recusam entrevistas com possíveis "especialistas" a opinar sobre o assunto, deste modo evitando quaisquer cortes entre o espectador e o objecto a documentar. É o objecto que tem a única voz do filme, inteira e ininterrupta. Quando este objecto consiste em duas senhoras divertidas e com uma vida tão estranha e inimaginável como as Edies, corre tudo bem. Quando o objecto consiste num país que sofre do tal irrealismo prodigioso, também corre tudo bem. Então, porque é que não resulta com os Beatles?
Porque a única coisa que decorre de um documentário filmado nos anos 60 e que se limita a filmar os Beatles em todas as ocasiões possíveis é o facto de se tornar penosamente óbvio que nenhum dos quatro elementos da banda estava alguma vez sozinho, ou tinha tempo para reflectir, ou para pura e simplesmente ficar calado. Tinham sempre gente à volta, e o que o documentário regista é que os quatro Beatles passavam a vida a mandar bocas inconsequentes e a "entrar no personagem", correspondendo à performance que deles era constantemente esperada. A autenticidade, que enternece e seduz em Grey Gardens, é evitada e nunca transparece no documentário sobre os Beatles.
Talvez a conclusão a retirar seja isto mesmo, a de que os Beatles, coitadinhos, tinham sempre gente à volta, ou então eram pura e simplesmente ocos e não tinham nada para dizer. Eu, porém, acho que tinham porque já li entrevistas bem mais interessantes com a banda. De modo que este estilo documental de dar voz, directa e ininterrupta, àquilo que se retrata nem sempre é boa ideia. Às vezes, não faz mal haver voz off, os tais especialistas a explicar tudo bem explicadinho como se o espectador fosse parvo e tal. Dá mais substância.
Bom. Não tenho mais nada a dizer. Parece que, depois de tanta frase, teria assim uma conclusão mais retumbante, não é? Mas não, fico mesmo por aqui. Não era a minha intenção escrever um post enganoso, e portanto desde já aqui deixo as minhas desculpas.

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Desculpas que se arranjam para não ir limpar a casa

1 - estar a ler um texto com a expressão "queda livre", em vez disso ler "queca livre" e ficar a pensar em possíveis ilações que se poderão retirar de algo que Freud, com certeza, designaria por acto falhado

2- pôr-me a ver o Henrique Sá Pessoa a cozinhar ao ar livre (sim, cozinhar ao ar livre, não em queda livre e nem sequer a tal outra hipótese), tipo Jamie Oliver, e pensar que há pessoas que têm uma maneira lenta de falar que é muito engraçada. É o Henrique Sá Pessoa e o Nicholas Cage. São lentos a falar. Acho piada a esta idiossioncrasia porque eu sou o contrário, falo muito depressa e ninguém percebe o que eu digo, o que complica a minha vida.

3 - reparar que o Henrique Sá Pessoa está a cozinhar com a música pirosa dos Journey no background (aquela que é "don't stop believing, just a small town girl", blá blá) e ficar a pensar que isso quer dizer alguma coisa que eu não estou a atingir. É que eu, por acaso, até acho piada à música

4 - estar sentada no sofá e olhar para o chão e pensar, "ah, afinal também não está assim tão sujo"

5 - estar sentada no sofá e pensar que afinal não almocei bem e tenho de ir comer mais qualquer coisa, se não começo a limpar e depois fico sem forças, e depois como é que é?!

6 - escrever este post

7 - ir ao youtube procurar o vídeo que aqui vai figurar

8 -pensar que, realmente, o Henrique Sá Pessoa e o Nicholas Cage têm mesmo uma maneira engraçada de falar, são assim lentos.

terça-feira, 4 de maio de 2010

O trauma Branwell Brontë


Branwell Brontë nasceu numa família de mulheres, com três irmãs que ficaram para a história ao contrário do seu próprio nome, tão rapidamente esquecido como a sua vida vã. Os recursos da família eram dispendidos no único filho varão, em quem o pai insistia em ver rasgos de brilhantismo que mais ninguém via e, se bem que encorajasse também as historietas e as fantasias que as filhas gostavam de escrever, era Branwell que era resguardado para Oxford e Cambridge, onde nunca entrou, era Branwell que viajava, era Branwell que ficava em casa, protegido pela família, ao passo que as irmãs eram enviadas para escolas onde se morria de tuberculose e má nutrição.
Era também Branwell que se embebedava, que se tornava toxicodependente, que morria de amores proibidos pela senhora da casa onde trabalhava como professor dos filhos do casal e que, assim, trazia verdadeiramente o temido "opróbrio" à família.
A História tornou claro que Charlotte, Emily e Anne eram brilhantes, e Branwell não; que Charlotte, Emily e Anne escreviam bem, e Branwell não; que Charlotte, Emily e Anne haviam sido injustamente menosprezadas, e Branwell injustamente sobrevalorizado.
E, no entanto, a figura de Branwell Brontë é estranhamente interessante. O seu percurso auto-destrutivo, sem limites (adultério, droga, doença, excesso, morte prematura com tuberculose), mostra bem que, antes da História, era já para ele claro que seriam as suas irmãs as dignas herdeiras da chama literária que, nele, se apagava - no quadro que pinta de si próprio e das suas irmãs (este aqui ao lado), Branwell apaga a sua própria figura, preferindo que a sua identidade merecidamente se apague. No fundo, é uma personagem condenada desde o início, curvada sob o peso de expectativas familiares irrealistas que nele insistiam em ver génio, verve, imortalidade, e ele sem conseguir corresponder por pouco que fosse. Nem génio, nem verve, nem nada - apenas um tipo normal, acalentado por uma família para quem ele, que não tinha nada, era tudo.
Viver para corresponder às expectativas dos outros deve ser muito complicado.

domingo, 2 de maio de 2010

A propósito de louras



Agora fala-se muito da Grace Kelly; é capa da Vanity Fair, é exposição do guarda-roupa no Victoria & Albert, que eu hei-de ir ver, se a tanto me ajudar o engenho e a arte, é reminiscência saudosa do incomparável estilo, eterna elegância, inimitável porte principesco, tanto que até casou com um príncipe e tudo (e que caro o pagou). Aliás, a reportagem da Vanity Fair chega aos píncaros do risível, sendo um bom exemplo do que acontece quando certos e determinados desejos e anseios humanos são canalizados para estrelas de Hollywood e se desenvolvem fixações pouco saudáveis que levam a que se escrevam coisas como isto:

As for color, Grace was given her own, Apollonian palette. Wheat-field and buttercup yellows, azure and cerulean blues, seashell pink and angel-skin coral, Sun King gold and Olympus white—no one wore white like Grace Kelly. To those with a feeling for history, beauty, and style, Grace Kelly’s late-career wardrobe—the huntress Artemis during the day and Aphrodite at night—is unforgettable if not positively Delphic.

Bom. Eu, por acaso, gosto da Grace Kelly. Primeiro, o louro americano sempre me deslumbrou, em particular o louro gélido da Grace Kelly, que resultava tão bem nos filmes do Hitchcock. Aliás, nos filmes deste, as louras são sempre heroínas corajosas, e as morenas não necessariamente más, mas sempre umas pobres tristes (exemplo paradigmático, as duas meninas dos Pássaros - a loura sobrevive e fica com o namorado, a morena morre depois de ter sido sempre desprezada pelo seu amor). Mas continuando.
A propósito de louras, de quem eu sempre gostei foi da Marilyn. Comparada com a Grace, a Marilyn parece a desleixada com um palmo de cara que se enganou e, em vez de entrar na tasca onde habitualmente cantava o vaudeville de collant rasgado, entrou no restaurante fino onde se toca piano e come lagosta. E, no entanto, há um encanto mais autêntico na Marilyn, uma certa espontaneidade que eu acho enternecedora. A Grace não enternece. É uma estátua de gelo que ali está para deslumbrar, para ser admirada. A Marilyn, de busto emproado, cabelo platinado, cara de falsa ingénua, parece mais perdida, mais tonta, menos séria, menos perfeita. Tem uma sensibilidade que a Grace não consegue, ou, pelo menos, nunca conseguiu nos filmes que vi dela.
E por isso gosto mais da Marilyn, porque na vida real também me interessam mais as pessoas que revelam as fragilidades que têm, que não se envergonham disso. Os que as tentam esconder, muitas vezes mal disfarçadamente, irritam-me um bocadinho.

Fantasia Lusitana


Ao ver "Fantasia Lusitana", de João Canijo (sou fã absoluta deste homem), confirma-se plenamente o que Eduardo Lourenço, com toda a sabedoria e pelos vistos presciência, escreveu no Labirinto da Saudade: o irrealismo prodigioso com que Portugal se vê ao espelho.
O documentário de Canijo revela como toda a propaganda do Estado Novo, alguma dela até, devo confessar, tristemente divertida ("os nossos mercados são tão bonitos, as belas cebolas, as batatas, suas irmãs, que só esperam pelo seu melhor amigo, o bacalhau", coisas assim), dizia, toda esta propaganda disseminava a imagem do pobrezinho mas honrado Portugal, reduto intocável de paz, felicidade, alegre modéstia, mimosa fé, alheio à guerra, ao holocausto, aos próprios refugiados que invadiam Lisboa - "pois que tudo são coisinhas", como escreveu Garcia de Resende (quer dizer, escreveu mais ou menos isto, não posso garantir que saiba de cor) a propósito da corte portuguesa renascentista. Era o que se passava em Lisboa - tudo eram coisinhas, alegres, frescas, fadistas. Interessantíssimos os relatos de Saint-Exupery e Alfred Doblin, que eu não fazia ideia que tinham passado por Lisboa, mas que estiveram de facto cá em 1940 - ambos falam de como a luz da nossa belíssima cidade (aqui, sem sombra de ironia - Lisboa é efectivamente uma beleza, e ainda bem) acaba por ter um efeito muito mais desconcertante do que apaziguador. Um falso paraíso, uma paz prestes a desmoronar-se, todo um povo que quer com toda a força acreditar, prodigiosa e irrealisticamente, que a guerra está lá longe, que não o afecta.
Algumas imagens do documentário são aterradoras, e isto porque ainda se reconhece tanto do país da altura naquilo que o país é agora (sim, isto é um lugar-comum mais do que comum, bem sei; já quando se lê o Eça se percebe que ainda há tanta coisa igual, blá, blá... mas os lugares-comuns têm uma vantagem, é que normalmente são verdadeiros).
Mas quem sou eu para me queixar. Vamos ter feriado porque o Papa nos vem visitar, e isso para mim é sinal dos tempos, que a liberdade está a passar por aqui. Há que rejubilar.

Henry Chinaski

Quando aparecia a feira na cidade, toda a gente lá ia. Era um acontecimento.
Eu gostava da feira porque era a única altura do ano em que se podia comprar pão doce, fresquinho e com uma camada de açúcar por cima. No resto do ano, nenhuma padaria o vendia.
A juventude gostava de se concentrar na pista de carrinhos de choque. Os rapazes vinham do frango assado ao jantar, fim de tarde na feira, e exibiam ali a destreza automobilística, já que ninguém os deixava tirar a carta. As raparigas usavam gel no cabelo, vestiam fatos de sair e agrupavam-se ao pé da pista, a lançar olhares ansiosos aos condutores, na esperança de que eles as convidassem para encontrões e solavancos de encontro a outros carrinhos. Às vezes, funcionava, e a noite acabava por detrás de um qualquer pavilhão, já com os carrinhos bem esquecidos e com a mente concentrada noutros choques bem diferentes; outras vezes, não funcionava, e lá voltavam as raparigas para casa, em bando, o gel no cabelo que afinal não fizera diferença nenhuma, mais valia nem terem posto nada. Se era Carnaval, ainda levavam com um balão de água em cima, ouviam os rapazes que o tinham lançado a fugir e a rir, e chegavam a casa como verdadeiras gatas pingadas.
Para mim, a noite acabava sempre a vomitar, que pão doce e rodopios de carrinhos de choque me davam mais que voltas ao pobre estômago. O gel no cabelo não adianta nada quando se sofre do estômago, e portanto nunca me incomodei com isso. A feira também costumava vender calendários com fotografias de pessoas famosas, a Marilyn, o Elvis, o James Dean. Uma vez, encontrei um conjunto de calendários com os Beatles e comprei logo, muito satisfeita com o meu achado. Nessa noite, senti que o vomitanço tinha compensado.
Nas outras noites, nem por isso. Não me querendo comparar, percebo perfeitamente Henry Chinaski. Além disso, não gosto de feiras, nem nunca gostei.