quarta-feira, 9 de junho de 2010

Deixai que as criancinhas ouçam música

Um amigo deixou-me um chamado "share" muito querido no mural do facebook. Era aquela cantiga do Chico Buarque chamada Agora Eu era Herói, que costumávamos ouvir em pequenos.
Além desta, ouvíamos também o Barata Moura, o Jardim Jaleco, cantigas tradicionais, um disco brasileiro giríssimo que tinha uma capa à Monty Python e uma cantiga que rezava "era uma casa muito engraçada, não tinha tecto, não tinha nada...", o Sítio do Picapau Amarelo, a Cinderela e o Pó de Arroz do Carlos Paião e o Tony Silva ("Tóniiiii.... meu nome é Tóni Silva, sou grande criador de toda a música rock" - durante anos, pensei que o verdadeiro nome do Herman José era Tony Silva), e mais tarde o Serafim Saudade. Tudo coisas com piada. Algumas delas, não sendo de elevadíssima qualidade musical, eram perfeitamente giras e aceitáveis e não feriam os ouvidos de ninguém.
Ora. Não sendo eu daquelas pessoas que enlouquece à vista de crianças, considero-me porém como pessoa que gosta de crianças (o que há para não gostar, exceptuando quando são chatas?). E é por isso que vejo com algum pesar o lixo musical a que elas estão sujeitas. Há esta mania insuportável de considerar que as crianças, por serem pequenas, são parvas, de modo que qualquer coisa que se lhes dá será, com certeza, bem vinda. E é ver os pequenitos expostos a cantiguinhas da índole do "fantasminha porcalhão, não venhas para aqui não", de um renovado e digitalizado Avô Cantigas, e as músicas da carochinha em DVD, de animação miserável e som mutilado por computadores ranhosos. E as criancinhas a ver e a dançar, porque não conhecem melhor.
Atenção. Eu também ouvia muita porcaria quando era pequena. Mas porcaria daquela que, revelando eu tais embaraços em público, daria com certeza direito a enxovalhos públicos, e merecidos, ainda por cima. De modo que não vou revelar. O que acontece é que, entre essa porcaria, também ouvia muita coisa boa, além de ter tido a sorte de ter nascido num tempo em que, se se queria que os miúdos ouvissem Mozart ou Prokofiev, por exemplo, punha-se a tocar um disco de Mozart ou Prokofiev e pronto, ao invés de recorrer a mariquices inúteis como "Mozart para bebés" ou "Prokofiev para bebés". Este tipo de produtos só existem porque se assume, de facto, que as crianças são parvas e que não têm idade para ouvir música clássica a sério, que ainda as traumatiza. Então, será melhor ouvir música de qualidade inferior, uma mistela de sons de plástico, para lhes acalmar (e treinar) os ouvidinhos. Ainda gostava de encontrar, por exemplo, a versão "Pedro e o Lobo" para bebés. Ou, melhor ainda, o Carnaval dos Animais para bebés. É que estas obras, como é sabido, são perigosíssimas, destinadas somente aos ouvidos calejados de um adulto e será melhor mantê-las bem longe dos pequenotes.
Por isso é que eu gosto do facto de Jesus ter dito "deixai vir a mim as criancinhas". Ele não estava com paternalismos e coisas. A sensação que tenho é que respeitava as crianças. Se fosse hoje, Jesus dava-lhes a ouvir música a sério e pronto. Por acaso, sempre simpatizei com Jesus neste aspecto.



segunda-feira, 7 de junho de 2010

Monogamia

Tenho dormido muito com os contos de S. Petersburgo, que é como quem diz, tenho dormido muito com Gogol.
Mas a magia não está a acontecer.
Vou ter de ir seduzir os Maias outra vez. Ora que cousa.

Para Jagger e Richards

Milton Nascimento escreveu uma canção chamada Para Lennon e McCartney. Penso sempre num certo imperialismo anglófono quando a ouço, e penso também que sou, inevitavelmente, vítima desse imperialismo.
Como muitos outros países, somos colonizados. Não quer dizer que não haja vantagens neste estado de quase aculturação em que nos encontramos. Eu, por exemplo, gosto muito de cinema americano, de literatura anglófona, não viveria sem a música dos Beatles, e tenho com o Reino Unido uma relação fortíssima há muitos anos, ainda que se tenha tornado cada vez mais desiludida. Mas é um laço que, quer queira, quer não, é sólido e tão cedo não se romperá.
Porém, o estado de colonização em que me encontro é também óbvio. E, apesar de eu embarcar nele, há que dizer que acarreta uma certa saloiada muito indesejável. Esta adoração reverente e quase ridícula pelo inglês (língua que eu própria adoro, mas pronto). Terminar as frases com "whatever" é uma aberração que me atinge de forma retumbante. Levo muitos dias para me recompor. Os empacotados que passam todos os dias na televisão, alguns de grande qualidade, há que dizê-lo (Sopranos "forever" - sim, já admiti que eu própria sou colonizada), outros de qualidade mais dúbia, como a saga de lamechiche em catadupa dos Irmãos e Irmãs, assépticos wasps (mais outra) que enjooa. Entusiasmo injustificado por coisas que não ultrapassam a mais comum das vulgaridades, como por exemplo cupcakes - e não me venham dizer que é por ser novidade. Eu adoro cupcakes, acho uma graça, são muito queridinhos. Mas são queques com um molho cheio de corante por cima. Num país em que há bolas de Berlim à disposição, pastéis de nata a estalar, vê-se gente a fazer fila para a barraca do Campo Pequeno que vende cupcakes. Pá. Não se percebe. Tal como não se percebe bem que o Expresso publique uma receita do Jamie Oliver em cada edição, como se não houvesse tradição de boa comida neste país. Há duas semanas, ou na semana passada, a receita do Jamie, publicada num jornal português, neste país onde, como se sabe, ninguém sabe cozinhar peixe, era precisamente peixe grelhado. Pausa para absorver a bizarria disto.
São estes pequenos sinais de aculturação que eu absorvo, aceito, apoio, e acerca dos quais perco a autoridade para falar. Mas escrevo este post porque quero demonstrar a mim mesma de que estou ciente do que me está a acontecer. Uma espécie de desculpa. Para me fazer sentir melhor. Embora não faça.
Gostava muito que o Milton Nascimento tivesse escrito algo para Jagger e Richards, por exemplo, e deixasse o Lennon e o McCartney em paz, que era para eu descontrair. Deixa-os lá trabalhar, ó Milton.

domingo, 6 de junho de 2010

Nota mental: com o Camões resultava


- Cami, acorda. São horas de mudarmos a pala.
- Hã?
- Acorda, vá. Se não mudamos a pala, ficas com essa toda suja e depois é muito chato.
- Ah, tens razão. Realmente, se não fosses tu...
- Pronto. Vais escrever, hoje?
- Vou, pá. Decidi que tenho de enxertar para lá uma cena de sexo. Que é para vender. Sabes que sem sexo, nada se vende.
- Ai, sim? Ah... mas tu tem cuidado, Cami. Está a ficar um poema tão bonito, tão profundo... não estragues tudo com brejeirices.
- Eu, brejeiro? Claro que não, até parece que não me conheces. Já sei como é que vou dar a volta à coisa. Os marinheiros vão ter a uma ilha cheia de ninfas doidas. Só rega-bofe, mas rega-bofe com classe.
- Estou a perceber. Uma ínsula divina, cheia de aquáticas donzelas, glória dos olhos, dor dos corações, não é?
- É tal e qual! O que é que foi isso que tu disseste? Espera lá, fofinha, espera lá para eu apontar.
- Aponta, aponta.
- Olha, e estou a pensar incluir romãs. São o símbolo da fertilidade, não é?
- Pois é. Romãs, mostrando a rubicunda cor, com que o rubi seu preço perde...
- Tu hoje estás demais! Deixa-me mas é apontar isso tudo. Tens mais ideias?
- Não, acho que não. E já pensaste em como vão ser as ninfas? Vão ter um mover de olhos brando e piedoso?
- Não, isso não dá para o rega-bofe. As ninfas vão ser umas doidas, já te disse. Vai ser mais do estilo de esperar um corpo de quem levam a alma.
- Cami, isso está excelente! Espera um corpo de quem levas a alma...
- Por acaso está, não está? Vês, não és só tu que tens ideias boas.
- Eu nunca disse que era só eu. Aliás, quando eu ganhei o Nobel a gente falou sobre isso. Tu disseste que estavas muito orgulhoso de mim e não tinhas inveja nenhuma.
- Ó fofinha, e não tenho. Fiquei muito orgulhoso. Só que agora tenho de me concentrar muito a sério no meu poema para ver se para a próxima sou eu a ganhar o Nobel.
- E bem mereces, Cami. Tu és o maior poeta de sempre. Se este país não estivesse numa apagada e vil tristeza, já tinhas ganhado tudo o que há para ganhar e vivias em deleitosas honras que a vida fazem sublimada. Os triunfos, a fronte coroada de palma e ouro, a glória e maravilha - estes são os deleites que tu sempre mereceste.
- Obrigada pelo teu apoio, fofinha. Mas em vez disso, vê lá o que tenho de fazer... ir ao paço receber a tença pacientemente. Às vezes, sinto que este país me mata lentamente.
- Não, Cami, não penses assim. Tu és o maior de todos os poetas. Este país vai dar-te todo o reconhecimento que mereces, mais tarde ou mais cedo.
- Eu espero bem que sim. Só de pensar que morro e ainda me enterram numa vala comum... já viste a tristeza que era?
- Cala-te, Cami, credo! Lagarto, lagarto, lagarto. Pára já de pensar em parvoíces e vai mais é despachar o poema. Já tens título?
- Não, ainda não. Só dou no fim.
- És o maior, Cami.
- Obrigada, fofinha.

sábado, 5 de junho de 2010

Fogueteiro

Portugal está repleto de sítios pavorosos. O que me faz impressão são aquelas terras de descampado, por onde pululam vivendas feias, de cor desbotada ou com azulejos de casa-de-banho por fora, e onde não há cafés nenhuns ou, se há, é um barracão com um anúncio a dizer "Café Camelo". Que é uma zurrapa.
Curiosamente, Portugal é um país bonito. O que acontece é que a costa estremenha, e até um pouco da nortenha, desconhece o significado de planeamento urbano e está devastada por subúrbios selvagens. É desconfortável.
Não estranho que os países onde vi das aldeias mais feias de sempre tenham sido Portugal e a Grécia. É claro que também têm aldeias bonitas, mas sofrem deste mal de muita fealdade urbana concentrada numa pequena área.
Se soubesse mais de arquitectura (não sei nada), estaria com certeza em condições de perceber o impacto da supra-mencionada fealdade na vida das pessoas. Não é, mais uma vez, de estranhar que o presidente da Câmara de Tirana (ou equivalente ao presidente), quando confrontado com a falta de verba para fazer obras numa cidade que precisa desesperadamente delas, tenha decidido gastar o dinheiro em pintar os edifícios de várias cores, para, pelo menos, alegrar o olhar de quem fazia o esforço de viver na capital da Albânia. Não resultou - a cidade tornou-se ainda mais feia, porque agora não era apenas feia, era também garridamente bizarra. Feria o olhar.
É fundamental gostarmos do sítio onde vivemos. Podemos viver num local objectivamente feio, mas para nós, nem que seja pela força do hábito, que tem, de facto, muita força, tem de nos parecer aprazível, relva, amigos à porta, cafés, passarinhos e abelhas, sei lá.
Quem o feio ama, bonito lhe parece. Uma vida feliz aplica isto não apenas às pessoas, mas também aos locais. E será, talvez, a única forma de vencer o feio.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Graciosidades

Há pormenores da vida normal que têm tanta graça.
Hoje, por exemplo, vi duas coisas que nunca tinha visto antes. Fui tomar café e pedi um frugal café, que é coisa corriqueira e que não espanta ninguém, tanto que comecei a frase por dizer que fui, precisamente, tomar café. Bom. Acontece que, depois de mim, estava uma senhora que se aviou de uma forma inaudita - pediu uma bola de Berlim com creme, coisa que me pareceu bem, acompanhada de uma SuperBock. Nunca me teria ocorrido semelhante combinação, tanto que cerveja a meio da tarde, ainda por cima regada pelo creme da bola de Berlim, seria com certeza coisa para me trazer de volta incómodos relacionados com a tal "matéria" sobre a qual escrevi há pouco tempo e que gostaria de evitar. De modo que achei uma graça - mistura arrevezada, esta, da bolinha de Berlim e da jola a acompanhar (nota para dizer que eu sou daquelas pessoas que não considera necessário grafar entre aspas palavras e expressões engraçadas da língua, mesmo que sejam calão ou demasiado informais - daí o jola e não "jola").
Continuando. Tomei o meu café e a senhora foi com certeza à sua vida, acompanhada da SuperBock e da bola de Berlim. Eu continuei para casa, e durante o meu percurso, a certa altura, vi uma senhora de idade à janela de um primeiro andar, de cabelo branco alegrado por uns leves tons violeta, que com certeza pareceram à senhora uma boa ideia, acompanhada de um gato preto, com ar meigo, que de certeza se chamava Farrusco. Não teria reparado nela se não estivesse a cantar. Cantava, a meia voz, embora de forma audível, uma canção do estilo music-hall português dos anos 40, como aquela canção que é assim, "adeeeeeeus! Não afastes os teus olhos dos meeeeeeuus....". Não sei o resto da letra nem da canção, mas era mais ou menos isto que a senhora cantava. E cantava bem, afinadinho. Olhei para ela e tive de sorrir, reconhecendo que tinha ouvido a canção. Espero que ela não pense que eu estava a gozar com ela, porque não estava.
Da mesma forma que aposto que o gato se chama Farrusco, também aposto que a senhora vive na casa da filha e acha que tem de ser a mulher-a-dias para pagar o favor. Já teria, com certeza, adiantado o jantar, aspirado a casa, mudado os lençóis, e estava ali, naquele momento calmo, a apreciar o sol que enfraquecia, a anunciar o fim de tarde. Antes de chegar a filha, o genro e os filhos e de o sossego se acabar, faz umas festas ao gato, sente o calor na cara, canta um bocadinho.
Por mim, tudo bem. Há coisas na vida comum que têm tanta graça - por são assim, graciosas.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Dormindo com livros


Gosto de livros velhos que cheiram mal.
Os livros novos, para mim, só servem para eu adormecer com eles e acordar com páginas dobradas e vincos na capa, para os pôr e tirar da mala até de lá saírem sovados, gastos, abertos muitas vezes.
Gosto muito de dormir com livros. O livro com que eu dormi mais vezes foi Os Maias. Ontem até deu um programa sobre este livro e tudo, e estava ansiosa por ver, mas infelizmente o cansaço foi mais forte e adormeci. Quando acordei, era de madrugada. Os Maias já se tinham ido embora e não deu para dormir com eles.
Mas como, por alturas do Verão, gosto sempre de reler este livro, porque acho que as férias correm melhor repletas de novas perspectiva e ideias sobre Carlos e Maria Eduarda, ainda devo ter tempo para dormir com Os Maias. O Verão todinho.
É tão bom dormir com livros, usar e abusar deles, até ficarem todos sovados, dobrados, cansados, gastos. É para isso que eles servem.

Performance

Chegados a um ponto em que é difícil destrinçar a máscara do nosso verdadeiro Eu, começamos a interrogar-nos se o tal Eu alguma vez existiu.
Gosto de máscaras porque nunca são verdadeiramente máscaras - o facto de as escolhermos para nós indica que são a identidade, o nosso verdadeiro rosto. Há muito pouco que se esconde debaixo do véu. O que parece, é.
É por isso que eu sei que aquele filme, o Avatar, é todo mentira.

terça-feira, 1 de junho de 2010

Come bolos, pequena, come bolos


O meu sonho é ter uma pastelaria.
Vou largar tudo, tirar um curso de pasteleira e fazer bolos para o resto da vida.
O meu estabelecimento vai ser todo azul e vai cheirar a Earl Grey e a montanhas de bolos fresquinhos. Vai ter: muitas bolas de Berlim exclusivamente com creme, parras, sortido húngaro, S. Marcos, profiteroles com chantilly verdadeiro, palmiers cobertos e simples, babás, rins (de chocolate), pastéis de nata, eclairs, salame de chocolate, bolo de bolacha, charlotte de chocolate, fios de ovos, trouxas de ovos, lampreias de ovos, queijadas de Sintra, travesseiros de Sintra, croissants com doce de ovo.
Pode parecer que não, mas a verdade é que muito raramente me delicio com uma maravilha das que acabei de enunciar. Por isso, só por ter escrito este post, já me sinto muito, muito, muito mais contente.
Posso não gostar do pecado da vaidade, mas adoro, adoro, e inclusivamente apoio, o pecado da gula.
Sempre que escrevo aqui sobre um livro ou um autor e digo, "ah, é dos meus livros preferidos", estou a mentir. Os meus livros preferidos são dois e ambos publicados pela Vaqueiro - Bolos e Bolinhos e Sobremesas.
Cada vez me convenço mais que, caso fosse pasteleira, seria bem mais feliz. Nunca é tarde. A metafísica que me deixe em paz. Uma bola de Berlim resolve tantos problemas.

Vãs filosofias para cabeças que pensam muito e mal

O meu problema é que vejo o mundo todo distorcido, a começar por mim.
Quando me olho ao espelho em casa, vejo-me muito bem equilibrada e em geral posso dizer que é algo que me satisfaz.
Depois, vou a andar na rua, vejo um reflexo na montra das lojas e penso "olha aquela senhora gorducha, com umas ancas que parecem aqueles vestidos à século XVII, que engraçado ". E vou ver e sou eu.
O Kant falava do fenómeno e do númeno. Eu, com a grande autoridade filosófica que detenho, considero que, de facto, este simpático filósofo tinha razão. Eu encanto-me com o fenómeno, com a ilusão, com o artifício. A essência das coisas, a sua verdade, é que já custa muito a aceitar.
Ou talvez esteja antes a pensar em Platão. Eu sou daquelas pessoas que gosta de estar na caverna a olhar para as sombras, que projectam uma versão apurada da minha própria pessoa. Sempre fui muito de estar em casa, os ares lá de fora dão-me a chamada asma alérgica, de modo que conviver com arquétipos não é muito a minha onda.
Gosto da imagem que vejo reflectida na caverna, e para mim está bem assim, porque a realidade, como dizia o Hegel, esse outro grande espertalhão, é como é e pior para ela. Prefiro não ter nada a ver com isso.
Pronto.


segunda-feira, 31 de maio de 2010

Lágrimas


Eu sou completamente a favor da felicidade, da alegria e até do optimismo, embora possa parecer que não. Mas a verdade é que sou.
No entanto, considero que há momentos na vida em que a tristeza é inevitável e assumi-la também. Por exemplo, tenho notado que, nos últimos tempos, têm-se sucedido notícias sobre pessoas que conheço vagamente e que se separaram ou divorciaram. Como as rupturas, quaisquer que sejam, mas principalmente as amorosas, são coisas que verdadeiramente me deixam aterrada, fico sempre cheia de pena, e indago acerca do estado de espírito da pessoa ("ah, mas ele/ela está bem? anda a trabalhar muito, ao menos, para conseguir esquecer?", sei lá, coisas parvas desta índole). Fico sempre abismada com as respostas que recebo. Uma semana depois do desgosto e já toda a gente mudou de emprego para se encontrar agora a ganhar €300000 por mês, ou já se casaram novamente, ou já apresentaram namorado novo aos pais, ou vão ter um bebé com o namorado/a novo/a, ou foram convidados para ir viver para a Califórnia como estrelas de cinema, etc., etc.
Admiro quem tem esta elasticidade para deixar que os azares da vida embatam neles para fazerem ricochete, superando rapidamente obstáculos e voltando a repor a ordem natural das coisas, que deve ser feliz. E porém, a rapidez com que as pessoas escamoteiam a tristeza é algo que me surpreende sempre. Não ouço falar de ninguém que fique em casa a chorar, que tenha dificuldade em manter uma vida normal, que admita que está infeliz. É evidente que muitos preferem esconder estados de espírito e adoptar uma fachada de alegria e força para o mundo exterior, o que é legítimo. Mas, mesmo em conversas pessoais que vou tendo, constato que a infelicidade e a tristeza são cada vez mais palavras proibidas no léxico de toda a gente.
Se eliminar os vocábulos "infelicidade" e "tristeza" equivalesse a erradicá-los definitivamente da vida das pessoas, estaríamos todos de acordo. Mas não nomear uma coisa não quer dizer que ela não exista. É impossível viver sem que, com grande pena minha e de toda a gente, sejamos atingidos por ondas negras de tristeza. É mesmo assim. Um bom método talvez seja chorar tudo o que há para chorar, resolver todos os lutos antes que eles se avolumem ainda mais. E isto não sou eu que digo - já há muito que se sabe do poder das lágrimas. Leia-se, interessantemente, o que diz José Tolentino Mendonça na sua introdução a O Dom das Lágrimas. Orações da antiga liturgia cristã, Assírio e Alvim, p.12:
Temos muitas maneiras de chorar, e o modo como o fazemos revela não só a temperatura dos sentimentos, mas a natureza da própria sensibilidade. Ao chorar, mesmo na solidão mais estrita, dirigimo-nos a alguém: esforçamo-nos para que ninguém veja que choramos, mas choramos sempre para um outro ver. As lágrimas emprestam um realismo único, irresistível à dramática expressão de nós próprios. São um traço tão pessoal como o olhar ou o mover-se ou o amar.

Choramos pouco, não é? A não ser as velhotas- "eu-sou-uma-pessoa-doente" que de vez em quando aparecem na televisão (e não dão vontade nenhuma de rir, apesar de eu estar a falar disto descontraidamente), as pessoas não choram muito. E, se choram em privado, nunca dizem que choram. Isso é com elas, de facto, não me cabe a mim especular o porquê.
Mas pronto. Isto sou só eu a falar. Eu nem nunca chorei na vida e detesto, verdadeiramente, que chorem ao pé de mim, de modo que não sou pessoa para estar aqui a pregar sermões.

domingo, 30 de maio de 2010

Oh Denis doo-be-do


Por outro lado, e complementando o post anterior, gostaria muito de ter visto o Easy Rider no cinema, ao invés de em DVD, que é sempre uma coisa inferior. É a recordação que deixo aqui de Dennis Hopper, de quem gostei muito no próprio Easy Rider (o final é inesquecível; este filme vale muitíssimo a pena), tal como em Apocalypse Now, em que estava bastante cómico. A entrevista de Dennis Hopper nos extras do DVD do Easy Rider (ligeira vantagem do DVD) também é engraçada - Dennis Hopper diz que queria sempre tudo à maneira dele, mesmo quando isso era, claramente, a pior das opções possíveis. Uma vez, os outros produtores do filme fizeram tudo às escondidas, ele só descobriu no fim e, em vez de partir tudo (como parece que era sua característica), riu-se e disse "eles tinham razão, ficou muito melhor assim".
Era um gajo fixe, ao que parece. E que bonito que ele estava no Gigante, a fazer de filho da Lizzie.

sábado, 29 de maio de 2010

Ainda esta semana tentei ir ao cinema e não encontrei nada que me apetecesse, verdadeiramente, ver. Tudo deslavado. Uma dor de alma. A crise está por todo lado.
Como diz um amigo meu, a solução é passar a ir única e exclusivamente à Cinemateca e esquecer o resto.

Conversa de café


Um amigo meu dizia, há imensos anos (tudo o que me aconteceu, pelos vistos, foi sempre há imensos anos), que gostava de namorar com raparigas feias. É que, explicava ele, como são feias, são mais interessantes, porque não podem contar com a carinha laroca para atrair a atenção. Ele arranjava, inclusivamente, metáforas muito engraçadas dignas, sei lá, de elevações de espírito como um episódio do Sexo e a Cidade, mas naquela altura tinham, de facto, graça - é como mergulhar no mar, chegares lá ao fundo e veres tudo com toda a clareza, o azul da água que não é o mesmo à superfície, enfim, coisas assim.
Lembro-me de ter protestado contra esta conversa. O que ele dizia é que as feias dão menos trabalho a engatar. Mas não era isso. Ele tinha, convictamente, mais interesse em pessoas feias do que em pessoas bonitas.
Eu também, curiosamente. Já escrevi que gosto de imperfeições e etc. e tal. Mas também acho mais graça a pessoas feias que depois, com o tempo, se vão tornando bonitas. A beleza perfeita é aterradora - é como ir a um museu ver um quadro e ficar ali estarrecido a olhar. E o quadro, se calhar, até ficava muito bem na nossa sala. Mas, passado algum tempo, tornava-se um objecto de decoração como outro qualquer. Perdia a novidade, alguma piada, até. E, por isso, as pessoas muito bonitas sofrem um processo inverso aos feios - também devido a alguma inveja, que é, de facto, algo de muito desagradável e vil, quanto mais observamos as pessoas muito bonitas, mais defeitos descobrimos, e estes defeitos avolumam-se de forma a tornarem-se insuportáveis. "Ah, que lindo que ele é, mas tem umas mãos esquisitas" - e, dia após dias, só vemos aquelas mãos horríveis, de gestos deselegantes, que estragam tudo. "Ah, que elegante que ele é, mas tem a boca torta" - e, de dia para dia, a boca vai-se tornando tão torta que chega à bochecha e, qualquer dia, vai parar à orelha, o que pode causar algum desconforto. É por isso que o meu problema com um certo cinema dos dias de hoje é não haver actores nem actrizes feios na quantidade necessária. Têm todos aquele ar higienizado da nata de Hollywood, que me incomoda um tanto ou quanto. Eu gosto mais de ir ver filmes com pessoas feias, que tenham alguma coisa para onde eu possa olhar sem ser dentes ofuscantes.
Não quero com isto dizer que a beleza não é importante. É, e quem diz que não é, sinceramente, está a mentir e pronto. Acontece é que a beleza, curiosamente, é algo de muito mais complexo do que se possa pensar. A beleza não envolve só, ou talvez nem sequer envolva fundamentalmente, perfeição física - envolve aquela entidade diáfana e inefável designada por "pinta". E a pinta ou se tem, ou não se tem, mas quando existe, traz consigo a verdadeira beleza.
É evidente que há uns seres estranhos que conseguem ter as duas coisas, excelsa perfeição física e pinta, mas nesses não vale a pena pensar, que só servem para a gente se sentir mal. Eu, a esses, punha-os a todos num museu e não os deixava sair de lá, para o mundo real. Era bem feita.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

É tão pouco provável ser Milton ou ser Virgílio

O que é "escrever bem" ou "ter jeito" para a escrita?
Quando as pessoas dizem que têm muito jeito para a escrita, isso normalmente nunca corresponde à verdade. Apenas quer dizer que não dão erros ortográficos e que conseguem escrever a metro, isto é, mais de dez linhas, sem lhes faltar ideias. Não me posso esquecer do mafarrico que se sentou ao pé de mim na cantina da escola e que disse que tinha "muito jeito" para escrever poemas, tanto jeito que as pessoas até lhe diziam que ele dava ares de Fernando Pessoa. Escrevia bem, achava ele.
Eu não sei o que é escrever bem. Sei dizer se considero que alguém escreve bem ou mal, mas não consigo exactamente definir porquê - quer dizer, quando a escrita é má, consigo, porque se torna bastante fácil. Quando se escrevem diálogos do calibre "então compraste mais sapatos?", "É. Comprei", está tudo dito. Qualquer pessoa que, com ou sem licença poética, admita "é" como resposta a uma pergunta que não contém o verbo "ser" tem, claramente, problemas que eu duvido que não ultrapassem a própria (má) escrita. Mas, lá está, como qualquer pessoa de nacionalidade portuguesa, tenho muito mais facilidade em apontar e justificar o que está mal do que justificar o que está bem.
Sei que aprecio cada vez mais a escrita que é apenas formalmente má, ou propositadamente má. Há quem escreva propositadamente mal de forma admirável. Agora só me consigo lembrar de Charles Bukowski e Lobo Antunes em certas crónicas e momentos de alguns romances, mas há outros. Escrita com asneiras, com frases entrecortadas ou mesmo interrompidas, que começam a meio e terminam no início, mas uma escrita fluida, escorreita, viva. Penso que era isto que Truman Capote designava, muito interessantemente, por "underwriting". Curiosamente, o primeiro romance de Truman, Other Voices, Other Rooms, sobre o qual já escrevi aqui no blog, é tudo menos "underwritten". Mas é uma escrita simples, ao mesmo tempo. Não é excessiva, apenas admite momentos de alguma extravagância, o que é inteiramente diferente.
Bom. A minha intenção era escrever um post que se dedicasse com algum afinco ao problema do calor e de as pessoas insistirem em mostrar ao mundo a sua flacidez, usando tops de licra que se colam de tal forma às protuberâncias que ficam a parecer da família do bonequinho da Michelin, e como isso não é bonito nem correcto, sendo que a minha sugestão ia no sentido de se começar a usar umas coisas mais folgadas a bem da estética comum, assim como sapatinhos fechados para quem não tem paciência para limpar as unhas dos pés, já que certas visões de dedões descuidados assustam ligeiramente, mas enfim; acabei por escrever algo completamente diferente.
Ainda não sei como se vai chamar este post. Falta-me o "títalo". Este é um exemplo de escrita propositadamente má. O resto também pode ser, mas este foi mesmo de propósito.

terça-feira, 25 de maio de 2010

Ligeira inveja

Este blog anda muito mole, muito pouco dinâmico. Quer dizer, "dinâmico" é coisa que nunca foi e ainda bem - eu própria não sou dinâmica. Canso-me ao pé de pessoas dinâmicas. Não tenho muita paciência para pessoas dinâmicas. Se calhar, tenho inveja.
Deve ser isso. É a inveja. Gosto de pensar que sou uma pessoa que não sente inveja nenhuma, mas não é verdade. Há vezes em que acontecem coisas excelentes aos outros, e nós ficamos felizes por eles, a sério que ficamos, mas mesmo assim não conseguimos impedir aquela ligeira, ligeiríssima, sensação de que há uma agulha que nos espicaça ao de leve, algures no corpo, na barriga, no pescoço, talvez. "Porque não eu? Eu mereço mais" - temos este pensamento baixo e vil.
Eu, pelo menos, tenho.
Tudo para dizer que o blog está muito mole. Esfarela, como diria Ramalho Ortigão nas Farpas.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Dialéctica - parte II

A dialéctica senhor/escravo tem muitas ramificações e relevância na sociedade dos nossos tempos. É, no fundo, uma explicação da dependência. As pessoas desprezam os "drógados", porque não contribuem para o bem da comunidade e arrumam carros quando ninguém lhes pede, mas elas próprias (eu incluída) são dependentes.
Exemplificando. O meu computador é ancião. Não direi que é pré-histórico, mas é, vamos lá, da Antiguidade. Nem sequer chega à Idade Média. Mas funciona, portanto vou-me aguentando, alegremente, com ele. A desvantagem, porém, de estar em posse de um computador pré-medieval é que, com alguma frequência, ele é acometido de certas maleitas. Desta vez, foi o carregador que se estragou, o que me obrigou a ficar dois dias sem pc, até encontrar forma de resolver a questão, que felizmente foi resolvida.
Constatei, nesse par de dias, que não ter computador é debilitante. Não pude trabalhar. Tudo o que precisava para trabalhar, processador de texto incluído, estava no pc. Não pude escrever. Já não consigo escrever à mão. Sei isto porque me perguntaram - mas não podes escrever à mão? E aí, fui forçada a admitir que não. O máximo que ainda escrevo à mão são cartas, postais, mas normalmente envio emails. Se pegar numa caneta e olhar para uma folha branca, a gritar por palavras, nada me sai.
De modo que o trabalho atrasou todo e passei dois dias entupida. Ainda por cima, o livro que estou a ler não me agrada sumamente, o que toldou ainda mais a minha mente habituada a estímulos fáceis.
E assim se conclui que Hegel tinha toda a absoluta razão - o computador é o senhor, eu sou verdadeiramente a escrava. E o mesmo se passa com toda a gente que tem o trabalho todo no computador, de tal forma que este se torna quase um pedaço da vida das pessoas. Se o perdemos, é uma chatice.
Porém, ontem, nas notícias, ao ver as pessoas fascinadas, algumas até dispostas a fazer sacrifícios à carteira, com os novos écrãs 3D, para poderem ir para casa e lá ficarem, de óculos escuros, a olhar para a televisão, senti uma súbita alegria reconfortante. Sim, eu posso ser um exemplo de alienação, que é coisa que terei de resolver. Mas há gente muito, muitíssimo, pior do que eu.

sábado, 22 de maio de 2010

Todos os livros são compostos de mudança

Tal como as pessoas, os livros mudam. E mudam de uma forma muito clara.
Li o Dracula de Bram Stoker na adolescência. Adorava os arrepios na espinha, o medo que me provocava. Os capítulos em que Jonathan Harker está fechado no castelo, à mercê de vampiros e restantes criaturas igualmente malévolas, pareciam-me claustrofóbicos, medonhos, magistrais.
Voltei a ler Dracula já adulta. Uma leitura fácil, de arrepio fácil, um sobrenatural quase sensacionalista. Um livrinho com piada.
Também li O País das Últimas Coisas, de Paul Auster, há uma série de anos. Adorei. Também achei "claustrofóbico" que, pelos vistos, era a principal qualidade que procurava na escrita enquanto atravessava a adolescência. Voltei a lê-lo há dois anos. Ao contrário do que ouço dizer, gente até de grande iluminação, eu não acho o Paul Auster nada mau. Também não achei o País das Últimas Coisas mau. Está é muito longe de ser o grande, imenso livro que eu pensava que era.
Há certos livros que são como, por exemplo, os namoradinhos da escola primária. Já não os vimos há centenas de anos, e as memórias que temos deles são fofinhas e queridas e boas. Se calha vê-los na vida real, a desilusão é profunda - ninguém consegue corresponder a expectativas tão ternurentas. Os livros do passado são, na maior parte dos casos, exactamente a mesma coisa.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Dialéctica


Eu acho que, mais ou menos, percebi aquela questão da dialéctica senhor/escravo do Hegel e tal. O trabalho liberta. Se o senhor vive do trabalho do escravo, então quem é livre é o escravo, porque, sem o trabalho deste, o senhor não vai a lado nenhum e portanto quem é dependente é o senhor, e não o escravo.
Pois. Isto é tudo muito bonito e verdadeiro. E nem sequer vou falar da adendazinha que o Marx juntou aqui a esta dialéctica. Vou dizer, sim, que se eu pudesse ser livre sem ter de andar a trabalhar, desculpa lá, ó Hegel, mas preferia muito mais.
Não me venham com as histórias do trabalho que é edificante. Onde é que está a edificação em ter de andar a trabalhar para ganhar dinheiro ao fim do mês? Trabalho assim não é edificante. Nós é que nos enganamos a nós próprios porque é a única forma de suportar o jugo, e então inventámos este conceito de "realização profissional" para taparmos os olhos. E é exactamente aquilo que eu faço, porque, se os meus olhos se abrem, e eu vejo o Carmo e a Trindade finalmente a cair, nunca mais Lisboa se recompõe. E depois é uma maçada.
Ai.
Se o Hegel fosse vivo, conversava um bocadinho com ele no sentido de o fazer alterar, ligeiramente, a dialéctica - não dá para ser "toda a gente é senhor porque ninguém precisa de trabalhar?".

O inferno são os outros

Acho graça, surpreendo-me e, na maior parte das vezes, irrito-me, com a vaidade das pessoas.
Não percebo a vontade desesperada de se evidenciarem. Falam por cima dos outros e falam de coisas óbvias e banais. Coisas em que outros pensaram já há muito, coisas que muitos fizeram antes deles. Que não são nada de especial.
Acham-se na posição justa para criticar, julgar, aconselhar os outros. São paternalistas. Escrevem e falam em inglês demasiadas vezes, vendo nisso um sinal do seu cosmopolitismo pobre, da sua educação tristemente pouco esmerada. Gosto muito de inglês, mas nunca confio em quem recorre a ele demasiadas vezes, quase em detrimento do português. É um tanto ou quanto aquilo que poderíamos designar por "provinciano".
Também já percebi que há algo que as pessoas excessivamente vaidosas gostam muito de fazer, e que é comprazer-se na sua arrogância. Consideram que a arrogância lhes confere superioridade, interesse, um certo snobismo aristocrático. Vêem nela força de carácter e não a tomam por aquilo que realmente é - a fraqueza cobarde de quem vive do artifício. E uma fraqueza bastante irritante e desagradável, por sinal. E, no entanto, dizem "às vezes acham-me muito arrogante", "às vezes acham-me muito agressivo", "às vezes acham que eu não dou confiança", como se tudo isto fosse louvável.
E depois esforçam-se tanto - valha-me Deus, o quanto se esforçam. Sempre em constantes manobras para atrair atenção, para perceber de que forma conseguem ultrapassar os outros, aquilo que podem exibir. É patético. É triste.
Passou-me a maleita do corpo, mas hoje ficou-me a do espírito. A vaidade é insuportável, é repugnante. E conheço gente demais assim. De modo que me entristece. De modo que a maior parte das pessoas vale pouco a pena.
E eu própria tenho pena.

terça-feira, 18 de maio de 2010

Maleita

O problema das maleitas que demoram a passar e persistem em afligir-nos por muitos dias é que se começa a ter muito afincadamente a noção do "mal-estar". Quase que se materializa à nossa frente.
Os sonhos de febre são os piores, os mais disformes. Vozes que nos gritam ao ouvido e que depois se esbatem, para mais tarde voltarem novamente, em ondas, e aquelas cores estranhas, amorfas, que percorrem a mente em grande rapidez. É, na verdade, uma experiência muito surreal.
Como não consigo escrever mais, que o "mal-estar" assola, queria porém deixar um poema que ilustra tudo isto e muito mais. Só me lembro dele (do poema) quando estou doente, e penso que se percebe porquê - foi escrito por Samuel Taylor Coleridge, esse romântico levemente alucinado que, como muitos outros românticos, gostava de comer comida estragada para ter pesadelos e depois escrever sobre eles. Manias.
Não admira, portanto, que o talento de S. T. Coleridge, combinado com as grandes perturbações intestinais que com certeza o acometiam, e que, como todos sabemos, seriam com certeza grande inspiração, tenha resultado neste clarividente poema sobre o incómodo, a alteração, da "doença" - aqui vão, sem mais delongas, alguns versos de "The Pains of Sleep":
Ere on my bed my limbs I lay,
It hath not been my use to pray
With moving lips or bended knees;
But silently, by slow degrees,

My spirit I to Love compose,

In humble trust mine eyelids close,

With reverential resignation,

No wish conceived, no thought expressed,

Only a sense of supplication;

A sense o'er all my soul impressed
That I am weak, yet not unblessed,

Since in me, round me, every where

Eternal strength and wisdom are.


But yester-night I prayed aloud

In anguish and in agony,
Up-starting from the fiendish crowd

Of shapes and thoughts that tortured me:

A lurid light, a trampling throng,

Sense of intolerable wrong,

And whom I scorned, those only strong!

Thirst of revenge, the powerless will

Still baffled, and yet burning still!

Desire with loathing strangely mixed
On wild or hateful objects fixed.

Fantastic passions! maddening brawl!
And shame and terror over all!


É um pouco isto que se passa quando estamos doentes e não dá para fechar os olhos e dormir o sono dos justos, não é?

domingo, 16 de maio de 2010

Matéria

Bom, uma intoxicação alimentar é do pior que pode acontecer ao Homem. Para mim, equivale ao que Kafka dizia sobre acordar cedo - é degradante. A pessoa confronta-se, verdadeiramente, com o facto de ser um animal, talvez o único animal racional sobre a Terra, mas ainda assim um animal, que nada mais tem do que "matéria". Matéria, matéria, matéria por todo o lado. Nestas alturas, não servem de nada as elevações do espírito, nem a arte, nem os bons livros, nem nada, mas apenas o confronto com o facto de sermos apenas "pó". É, até, um exercício de humildade - quer sejas a Rainha de Inglaterra, ou o Obama, ou apenas uma rapariga normal, o que tens para mostrar ao mundo, a tal matéria, é igual para todos e comum à raça humana, que é, na verdade, uma raça animalesca como as outras.
Até é quase filosófico, uma intoxicação alimentar. Dá para a gente pensar.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Pois que tudo são coisinhas

E, mais uma vez, venho aqui dar conta não das pessoas que são assim e assado e que me irritam, mas antes daquilo que em Portugal é assim e assado e que me enternece (embora talvez me devesse irritar).
Há uma certa ternurinha em Portugal, uma certa disposição mansa, a que acho muita graça, embora esta mansidão seja, provavelmente, só fachada, mas enfim. Por exemplo, n'O Mistério da Estrada de Sintra, Eça faz pela primeira vez menção à personagem de Fradique Mendes, esse exótico espécime estrangeirado, que, numa festa, decide falar extravangantemente da relação amorosa e fatal que manteve com uma mulher canibal. E diz-se assim:

Carlos Fradique contava as situações monstruosas de uma paixão mística que tivera por uma negra antropófaga:
- Um dia, exaltado de amor, aproximei-me dela,arregacei a manga e apresentei-lhe o braço nu. Queria fazer-lhe aquele mimo! Ela cheirou, deu uma dentada, levou um pedaço longo de carne,mastigou, lambeu os beiços ...e pediu mais.
-Oh! sr. Fradique! - gritaram todos, escandalizados.

Este "oh! sr. Fradique!" deslumbra-me e faz-me sempre rir. Este escândalozinho que as pessoas deste país gostam de sentir, dissociando-se dele, fazendo questão de afirmar que são muito morais, muito decentes, muito queridas. É bonito. E não esquecer que vem tudo acompanhado de uma impecável, mais uma vez também muito decente, boa-educação, patrocinada pelas requintadas (e intrincadas) formas de tratamento da língua portuguesa - o "sr. Fradique", honorífico + apelido, não há cá primeiros nomes para ninguém.
As pessoas gostam de se enternecer, em Portugal. Gostam de pensar que são boas pessoas. E isso é bonito. Acho mesmo que sim.

terça-feira, 11 de maio de 2010

Ah! E ainda a respeito do que se passa no youtube, o pessoal que se dá ao trabalho de ir lá retirar material devia pôr os olhos nos grandes Monty Python, que criaram um canal onde disponibilizam todo o seu material, porque sabem, e provavelmente apreciam, que as pessoas gostam deles e da obra que criaram.
Só gente medíocre é que tem medo da pirataria, é o que eu acho. Os DVDs dos Monty Python deixam de se vender? Eles perdem dinheiro? Não me consta que isso aconteça (posso estar errada, mas penso que não).


(E também me esqueci de juntar à lista dos descontrolados raivosos aquele horrível do Manual de Instruções para Crimes Banais, filme do qual penso que falarei em breve. Foi dos filmes mais terríveis que vi, e o criminoso do filme foi dos que mais detestei. Explicarei porquê.
Mas agora não.)

Desejo sinceramente que o youtube se

Bom, mas é que fico mesmo a espumar de raiva, com vagas incontroláveis de instintos absolutamente assassinos, qual cão danado, qual Vincent Vega e Jules a descarregar a arma depois daquele "Ezequiel 25:17", qual Robert DeNiro no GoodFellas a despachar os tipos todos que sabiam dos negócios escuros dele ao som do Leyla do Eric Clapton, qual Kaiser Soze a matar inimigos e pessoas que conheciam os inimigos e até pessoas que deviam dinheiro aos inimigos, qual Vitto no Padrinho, que volta à terrinha na Sicília para despachar o gordo mafioso que lhe tinha matado o pai, fico assim como esta gente toda, quando vou ao youtube e constato que uma data de links que pus no facebook ou nos favoritos não está lá, e também (atenção) não está disponível em mais nenhum lado. OK?
É que não está.
Estamos a falar de Mário Viegas a recitar poesia, por exemplo.
Estamos a falar de excertos mínimos de filmes (não são o filme inteiro, nem de perto nem de longe).
Estamos a falar de clips do South Park, que eu, por acaso, até acho que ainda não saíram sequer em DVD.
Estamos a falar de entrevistas antigas com escritores, músicos.
Estamos a falar de videoclips que, por amor de Deus, mais não servem do que promover bandas e que, estando disponíveis no yoube, apenas estimulariam o apreço e o gosto pelas mesmas, resultando, talvez quem sabe, na efectiva compra do CD.
A sério. Terem retirado o Mário Viegas, então, deixa-me fora de mim, absolutamente fora de mim, com instintos assassinos, qual os sapatos da enfermeira no Vestida para Matar, qual Hanibal Lecter (sim, sim!, é este o meu estado), qual Kaiser Soze, qual Robert DeNiro em Goodfellas, em Padrinho, qual Vincent Vega, cães danados e outros que me estão agora a faltar.
Oh pá, a sério. Que estupidez. Lembram-se daquilo que o Miguel Esteves Cardoso disse da Leya há bem pouco tempo? Pois bem, eu digo exactamente o mesmo à gentinha que vai ao youtube retirar conteúdos inofensivos, interessantes e que, além de não infringirem direitos de autor, apenas promovem e publicitam os ditos autores.
E agora despeço-me, que a fel destila em golfadas, toda eu sou fel, bleagh, que porcaria, tenho de ir tomar um duche para adocicar.

(nota para dizer que estou a ponderar seriamente criar uma etiqueta "fel" neste blog. É que, infelizmente, a minha natureza resvala sempre para o mal).

domingo, 9 de maio de 2010

Bola


Gosto de futebol por causa da festa. Não percebo a fundo todas as regras do jogo, e nem sequer conheço todo o plantel do Benfica. Mas gosto de futebol e sou do Benfica.
Acima de tudo, gosto de bola, que pode ser uma rodilha de trapos ou uma esfera mais pesada e profissional, e que permite que os miúdos joguem na rua e que os adultos disputem campeonatos. A bola dá oportunidade tanto ao pobre como ao aristocrata - há inúmeros casos de jogadores que vieram do nada, de vidas pobres ou quase miseráveis, mas que chutavam a bola desde pequenos e que assim descobriram um talento imenso (o que não desculpa de forma nenhuma a pobreza, mas mostra como o futebol chega a tantas vidas diferentes). A bola fascina crianças, que de repente se esquecem da sofisticação dos brinquedos com pós modernos para exercitar o pé em chutos animados, e no entanto é uma coisa tão simples, que não custa nada. Uma bola.
E, por isso, ver o Benfica campeão é, como dizem os benfiquistas mais empedernidos, "uma alegria muito grande" e "uma coisa muito bonita". Primeiro, porque, por herança familiar, que mais tarde se tornou do coração também, sou do Benfica. Segundo, porque é inesquecível ir à Luz e ver tantas pessoas felizes. Respira-se felicidade, que transborda de tanta gente tão diferente, velhos, novos, famílias inteiras, adolescentes, mulheres, homens.
Aceito quem não gosta de futebol, quem não tem paciência, quem é indiferente a derrotas e vitórias (nem sequer é uma questão de aceitar; não tenho nada a ver com isso). Aceito, porém, com muita dificuldade que me digam que ter um clube do coração "é uma estupidez", como às vezes ouço, e que o futebol só serve para negócios escuros por causa de uma data de homens a correr atrás da bola. Os negócios escuros do futebol só entristecem quem verdadeiramente gosta de um clube, assim como o mau perder e as cenas de batatada que às vezes acontecem também mancham, vergonhosamente, aquilo que devia ser uma festa alegre. E porém, estes episódios tristes não afectam a felicidade de uma vitória, ou a plenitude de cantar a plenos pulmões na Luz (onde não consegui estar hoje, com uma pena imensa), de cachecol ao pescoço.
É uma coisa muito bonita. Uma alegria muito grande. E gosto que as pessoas partilhem isto por causa de uma simples bola. Não me parece menor, não me parece pouco inteligente. Parece-me bem, e isto independentemente de sermos do Benfica, do Sporting, do Porto.
Viva a bola e, hoje, com toda a força, viva o Benfica.

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Um possível problema de tradução


Em Birthday Letters/Cartas de Aniversário, de Ted Hughes, edição Relógio d´Água e tradução de Manuel Dias, há um poema de que gosto muito, muito, muito que se chama Blue Flannel Suit e que, antes de terminar, diz assim:

You waited,
Knowing yourself helpless in the tweezers
Of the life that judged you, and I saw
The flayed nerve, the unheable face-wound
Which was all you had for courage

A tradução é a seguinte:

Esperaste,
sabendo-te indefesa nas tenazes
da vida que te julgava, e eu vi
no teu nervo esfolado e na ferida incurável do teu rosto,
toda a tua coragem

Não sou tradutora, nem conto atrever-me sequer a tentar traduzir poesia, e talvez o meu problema com esta tradução seja apenas hiper-sensibilidade minha em relação ao poema de que gosto tanto. No entanto, julgo que, efectivamente, o último verso traduzido não faz jus à fragilidade bonita do original. O "nervo esfolado" e a "ferida incurável" é tudo o que resta, e é tudo com que se pode contar para ir arranjar coragem não se sabe bem onde; "which is all you had for courage" é muito diferente de "eu vi [no nervo esfolado, na ferida incurável] toda a tua coragem". A tradução portuguesa dá uma força quase dominadora a esta coragem que, no original inglês, não me parece existir. Há coragem, sim, mas esfarrapada, frágil, de modo que o "flayed nerve" e "unhealable face-wound" se tornam, curiosamente, ainda mais poderosos - são sinais de ferida e desgosto que, apesar de tudo, continuam a ser coragem.
Mas pronto. De resto, nada a dizer. A minha mensagem ao tradutor é, fazendo minhas as palavras de Herman a Manoel de Oliveira, "que não desista" e "que continue".

Ardente e violentamente

Estou a sempre a começar posts pelo desagradável intróito (tão desagradável como a própria palavra "intróito" e a pessoa que o escreve) "não gosto de pessoas que...".
E este post não vai variar. Não gosto de pessoas que não gostam muito de uma coisa. Aquelas pessoas que gostam de tudo e não gostam verdadeiramente de nada.
Ah, Pearl Jam? Gosto, pois, já os vi ao vivo.
Ah, Kraftwerk? Gosto, pois, já os vi ao vivo.
Ah, Quim Barreiros? Gosto, pois, já o vi ao vivo.
Ah, George Orwell? Gosto, pois, já o li ao vivo.
Ah, A Aparição? Gosto, pois, já li e pensei sobre o livro ao vivo! (pois claro...)
Ah, Lídia Jorge? Gosto, pois, já a li e vi o filme ao vivo.
Ah, Murakami? Gosto, pois, etc.
Não é possível. Há gente que gosta destas coisas todas que eu enunciei, tudo ao mesmo tempo, sem critério nenhum, e sem se manifestar ardente e violentamente por nada. Não acredito em quem não se manifesta ardente e violentamente por nada, e prefiro não acreditar, porque é gente que me irrita.
Uma vez, ao ler uns pensamentos de Vergílio Ferreira, de que, por acaso, gostei muito, deparei-me com o seguinte: Morrerás em breve. É incontestável. E quanta verdade morrerá contigo sem saberes que a sabias. Só por não teres tido a sorte de num simples encontro ou encontrão ta fazerem vir ao de cima.
Portanto, como é que há pessoas que passam a vida a evitar as verdades que devem sentir com toda a força, a encolher os ombros, a gostar de tudo por igual, por atacado? Essas pessoas são as mesmas de quem fala Vergílio Ferreira. Fazem-me impressão.
Sou uma pessoa muito impressionável.

Umas notinhas sobre uns documentários que tenho visto


Há pouco tempo, vi na televisão o filme, presumo que mais ou menos ficcionado, sobre Grey Gardens, uma casa decadente nos Hamptons onde viviam Big Edie e Little Edie, mãe e filha, dementes, doces e completamente afastadas do mundo. Conheci-as ao ver o documentário dos irmãos Maysles, que me impressionou muito, e sobre o qual escrevi aqui; vi também, há relativamente pouco tempo, um outro documentário destes realizadores sobre os Beatles (The Beatles - The First US Visit) que, incrível e supreendentemente, me desapontou.
Estes documentários, tal como o recente Fantasia Lusitana de João Canijo, recusam muito claramente a voz off e vão mais longe - recusam entrevistas com possíveis "especialistas" a opinar sobre o assunto, deste modo evitando quaisquer cortes entre o espectador e o objecto a documentar. É o objecto que tem a única voz do filme, inteira e ininterrupta. Quando este objecto consiste em duas senhoras divertidas e com uma vida tão estranha e inimaginável como as Edies, corre tudo bem. Quando o objecto consiste num país que sofre do tal irrealismo prodigioso, também corre tudo bem. Então, porque é que não resulta com os Beatles?
Porque a única coisa que decorre de um documentário filmado nos anos 60 e que se limita a filmar os Beatles em todas as ocasiões possíveis é o facto de se tornar penosamente óbvio que nenhum dos quatro elementos da banda estava alguma vez sozinho, ou tinha tempo para reflectir, ou para pura e simplesmente ficar calado. Tinham sempre gente à volta, e o que o documentário regista é que os quatro Beatles passavam a vida a mandar bocas inconsequentes e a "entrar no personagem", correspondendo à performance que deles era constantemente esperada. A autenticidade, que enternece e seduz em Grey Gardens, é evitada e nunca transparece no documentário sobre os Beatles.
Talvez a conclusão a retirar seja isto mesmo, a de que os Beatles, coitadinhos, tinham sempre gente à volta, ou então eram pura e simplesmente ocos e não tinham nada para dizer. Eu, porém, acho que tinham porque já li entrevistas bem mais interessantes com a banda. De modo que este estilo documental de dar voz, directa e ininterrupta, àquilo que se retrata nem sempre é boa ideia. Às vezes, não faz mal haver voz off, os tais especialistas a explicar tudo bem explicadinho como se o espectador fosse parvo e tal. Dá mais substância.
Bom. Não tenho mais nada a dizer. Parece que, depois de tanta frase, teria assim uma conclusão mais retumbante, não é? Mas não, fico mesmo por aqui. Não era a minha intenção escrever um post enganoso, e portanto desde já aqui deixo as minhas desculpas.

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Desculpas que se arranjam para não ir limpar a casa

1 - estar a ler um texto com a expressão "queda livre", em vez disso ler "queca livre" e ficar a pensar em possíveis ilações que se poderão retirar de algo que Freud, com certeza, designaria por acto falhado

2- pôr-me a ver o Henrique Sá Pessoa a cozinhar ao ar livre (sim, cozinhar ao ar livre, não em queda livre e nem sequer a tal outra hipótese), tipo Jamie Oliver, e pensar que há pessoas que têm uma maneira lenta de falar que é muito engraçada. É o Henrique Sá Pessoa e o Nicholas Cage. São lentos a falar. Acho piada a esta idiossioncrasia porque eu sou o contrário, falo muito depressa e ninguém percebe o que eu digo, o que complica a minha vida.

3 - reparar que o Henrique Sá Pessoa está a cozinhar com a música pirosa dos Journey no background (aquela que é "don't stop believing, just a small town girl", blá blá) e ficar a pensar que isso quer dizer alguma coisa que eu não estou a atingir. É que eu, por acaso, até acho piada à música

4 - estar sentada no sofá e olhar para o chão e pensar, "ah, afinal também não está assim tão sujo"

5 - estar sentada no sofá e pensar que afinal não almocei bem e tenho de ir comer mais qualquer coisa, se não começo a limpar e depois fico sem forças, e depois como é que é?!

6 - escrever este post

7 - ir ao youtube procurar o vídeo que aqui vai figurar

8 -pensar que, realmente, o Henrique Sá Pessoa e o Nicholas Cage têm mesmo uma maneira engraçada de falar, são assim lentos.

terça-feira, 4 de maio de 2010

O trauma Branwell Brontë


Branwell Brontë nasceu numa família de mulheres, com três irmãs que ficaram para a história ao contrário do seu próprio nome, tão rapidamente esquecido como a sua vida vã. Os recursos da família eram dispendidos no único filho varão, em quem o pai insistia em ver rasgos de brilhantismo que mais ninguém via e, se bem que encorajasse também as historietas e as fantasias que as filhas gostavam de escrever, era Branwell que era resguardado para Oxford e Cambridge, onde nunca entrou, era Branwell que viajava, era Branwell que ficava em casa, protegido pela família, ao passo que as irmãs eram enviadas para escolas onde se morria de tuberculose e má nutrição.
Era também Branwell que se embebedava, que se tornava toxicodependente, que morria de amores proibidos pela senhora da casa onde trabalhava como professor dos filhos do casal e que, assim, trazia verdadeiramente o temido "opróbrio" à família.
A História tornou claro que Charlotte, Emily e Anne eram brilhantes, e Branwell não; que Charlotte, Emily e Anne escreviam bem, e Branwell não; que Charlotte, Emily e Anne haviam sido injustamente menosprezadas, e Branwell injustamente sobrevalorizado.
E, no entanto, a figura de Branwell Brontë é estranhamente interessante. O seu percurso auto-destrutivo, sem limites (adultério, droga, doença, excesso, morte prematura com tuberculose), mostra bem que, antes da História, era já para ele claro que seriam as suas irmãs as dignas herdeiras da chama literária que, nele, se apagava - no quadro que pinta de si próprio e das suas irmãs (este aqui ao lado), Branwell apaga a sua própria figura, preferindo que a sua identidade merecidamente se apague. No fundo, é uma personagem condenada desde o início, curvada sob o peso de expectativas familiares irrealistas que nele insistiam em ver génio, verve, imortalidade, e ele sem conseguir corresponder por pouco que fosse. Nem génio, nem verve, nem nada - apenas um tipo normal, acalentado por uma família para quem ele, que não tinha nada, era tudo.
Viver para corresponder às expectativas dos outros deve ser muito complicado.

domingo, 2 de maio de 2010

A propósito de louras



Agora fala-se muito da Grace Kelly; é capa da Vanity Fair, é exposição do guarda-roupa no Victoria & Albert, que eu hei-de ir ver, se a tanto me ajudar o engenho e a arte, é reminiscência saudosa do incomparável estilo, eterna elegância, inimitável porte principesco, tanto que até casou com um príncipe e tudo (e que caro o pagou). Aliás, a reportagem da Vanity Fair chega aos píncaros do risível, sendo um bom exemplo do que acontece quando certos e determinados desejos e anseios humanos são canalizados para estrelas de Hollywood e se desenvolvem fixações pouco saudáveis que levam a que se escrevam coisas como isto:

As for color, Grace was given her own, Apollonian palette. Wheat-field and buttercup yellows, azure and cerulean blues, seashell pink and angel-skin coral, Sun King gold and Olympus white—no one wore white like Grace Kelly. To those with a feeling for history, beauty, and style, Grace Kelly’s late-career wardrobe—the huntress Artemis during the day and Aphrodite at night—is unforgettable if not positively Delphic.

Bom. Eu, por acaso, gosto da Grace Kelly. Primeiro, o louro americano sempre me deslumbrou, em particular o louro gélido da Grace Kelly, que resultava tão bem nos filmes do Hitchcock. Aliás, nos filmes deste, as louras são sempre heroínas corajosas, e as morenas não necessariamente más, mas sempre umas pobres tristes (exemplo paradigmático, as duas meninas dos Pássaros - a loura sobrevive e fica com o namorado, a morena morre depois de ter sido sempre desprezada pelo seu amor). Mas continuando.
A propósito de louras, de quem eu sempre gostei foi da Marilyn. Comparada com a Grace, a Marilyn parece a desleixada com um palmo de cara que se enganou e, em vez de entrar na tasca onde habitualmente cantava o vaudeville de collant rasgado, entrou no restaurante fino onde se toca piano e come lagosta. E, no entanto, há um encanto mais autêntico na Marilyn, uma certa espontaneidade que eu acho enternecedora. A Grace não enternece. É uma estátua de gelo que ali está para deslumbrar, para ser admirada. A Marilyn, de busto emproado, cabelo platinado, cara de falsa ingénua, parece mais perdida, mais tonta, menos séria, menos perfeita. Tem uma sensibilidade que a Grace não consegue, ou, pelo menos, nunca conseguiu nos filmes que vi dela.
E por isso gosto mais da Marilyn, porque na vida real também me interessam mais as pessoas que revelam as fragilidades que têm, que não se envergonham disso. Os que as tentam esconder, muitas vezes mal disfarçadamente, irritam-me um bocadinho.

Fantasia Lusitana


Ao ver "Fantasia Lusitana", de João Canijo (sou fã absoluta deste homem), confirma-se plenamente o que Eduardo Lourenço, com toda a sabedoria e pelos vistos presciência, escreveu no Labirinto da Saudade: o irrealismo prodigioso com que Portugal se vê ao espelho.
O documentário de Canijo revela como toda a propaganda do Estado Novo, alguma dela até, devo confessar, tristemente divertida ("os nossos mercados são tão bonitos, as belas cebolas, as batatas, suas irmãs, que só esperam pelo seu melhor amigo, o bacalhau", coisas assim), dizia, toda esta propaganda disseminava a imagem do pobrezinho mas honrado Portugal, reduto intocável de paz, felicidade, alegre modéstia, mimosa fé, alheio à guerra, ao holocausto, aos próprios refugiados que invadiam Lisboa - "pois que tudo são coisinhas", como escreveu Garcia de Resende (quer dizer, escreveu mais ou menos isto, não posso garantir que saiba de cor) a propósito da corte portuguesa renascentista. Era o que se passava em Lisboa - tudo eram coisinhas, alegres, frescas, fadistas. Interessantíssimos os relatos de Saint-Exupery e Alfred Doblin, que eu não fazia ideia que tinham passado por Lisboa, mas que estiveram de facto cá em 1940 - ambos falam de como a luz da nossa belíssima cidade (aqui, sem sombra de ironia - Lisboa é efectivamente uma beleza, e ainda bem) acaba por ter um efeito muito mais desconcertante do que apaziguador. Um falso paraíso, uma paz prestes a desmoronar-se, todo um povo que quer com toda a força acreditar, prodigiosa e irrealisticamente, que a guerra está lá longe, que não o afecta.
Algumas imagens do documentário são aterradoras, e isto porque ainda se reconhece tanto do país da altura naquilo que o país é agora (sim, isto é um lugar-comum mais do que comum, bem sei; já quando se lê o Eça se percebe que ainda há tanta coisa igual, blá, blá... mas os lugares-comuns têm uma vantagem, é que normalmente são verdadeiros).
Mas quem sou eu para me queixar. Vamos ter feriado porque o Papa nos vem visitar, e isso para mim é sinal dos tempos, que a liberdade está a passar por aqui. Há que rejubilar.

Henry Chinaski

Quando aparecia a feira na cidade, toda a gente lá ia. Era um acontecimento.
Eu gostava da feira porque era a única altura do ano em que se podia comprar pão doce, fresquinho e com uma camada de açúcar por cima. No resto do ano, nenhuma padaria o vendia.
A juventude gostava de se concentrar na pista de carrinhos de choque. Os rapazes vinham do frango assado ao jantar, fim de tarde na feira, e exibiam ali a destreza automobilística, já que ninguém os deixava tirar a carta. As raparigas usavam gel no cabelo, vestiam fatos de sair e agrupavam-se ao pé da pista, a lançar olhares ansiosos aos condutores, na esperança de que eles as convidassem para encontrões e solavancos de encontro a outros carrinhos. Às vezes, funcionava, e a noite acabava por detrás de um qualquer pavilhão, já com os carrinhos bem esquecidos e com a mente concentrada noutros choques bem diferentes; outras vezes, não funcionava, e lá voltavam as raparigas para casa, em bando, o gel no cabelo que afinal não fizera diferença nenhuma, mais valia nem terem posto nada. Se era Carnaval, ainda levavam com um balão de água em cima, ouviam os rapazes que o tinham lançado a fugir e a rir, e chegavam a casa como verdadeiras gatas pingadas.
Para mim, a noite acabava sempre a vomitar, que pão doce e rodopios de carrinhos de choque me davam mais que voltas ao pobre estômago. O gel no cabelo não adianta nada quando se sofre do estômago, e portanto nunca me incomodei com isso. A feira também costumava vender calendários com fotografias de pessoas famosas, a Marilyn, o Elvis, o James Dean. Uma vez, encontrei um conjunto de calendários com os Beatles e comprei logo, muito satisfeita com o meu achado. Nessa noite, senti que o vomitanço tinha compensado.
Nas outras noites, nem por isso. Não me querendo comparar, percebo perfeitamente Henry Chinaski. Além disso, não gosto de feiras, nem nunca gostei.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Este post não "fluiu". A magia não se deu. Só para avisar.

A escritora Joanna Trollope considera que as mulheres são infelizes porque, com estes pós modernos, criam falsas e exageradas expectativas relativamente aos homens. Diz a Joanna que não é realista fazer uma listinha e esperar que os homens, ou um homem em particular, reúna critérios como ganhar muito dinheiro, saber cozinhar, ser desenrascado e um animal fogoso, tudo ao mesmo tempo. Aliás, o que ela diz exactamente, e que retiro dessa instituição do mais imaculado jornalismo britânico que é o Daily Mail, é:

People have to throw away this absurd Vera Wang shopping list which says of a man that he has to earn £100,000 a year, that he has to be able to cut down a tree, play the Spanish guitar, make love all night and cook me a cheese souffle.


Acontece que, nunca tendo lido os livros da Joanna, mas partilhando da opinião de Savaater de que todas as pessoas são respeitáveis independentemente da opinião que têm, não tenho motivos para não respeitar também aquilo que ela, Joanna Trollope, se lembra de dizer. E, de facto, acho que há uma certa verdade no que diz. Da mesma forma que a publicidade, os filmes, e talvez apenas os sinais dos tempos, permitiram aos homens idealizar suecas ou americanas louras e inteligentes, também as mulheres idealizam o marido médico a destilar dinheiro e amor perpétuo - como se constata ao visionar pérolas televisivas como Anatomias de Grey e quejandos, com o neurocirurgião absolutamente derreado à vista da sua subalterna, que ele quer apenas proteger e amar, e que é, de forma reveladora, carinhosamente apelidado de "McDreamy". Pois.
Lendo a blogosfera e falando com as pessoas, acho que efectivamente concordo com Joanna Trollope. Toda a gente tem exigências absolutamente arrebatadoras e impossíveis relativamente aos outros. As das mulheres em particular, que são as que conheço melhor porque eu própria também não consigo evitar certas destas exigências, vão desde inteligência, cultura e educação a cor dos olhos, rabo giro, roupa gira, nariz pequeno, nariz grande, sinal na cara, moreno, alto, baixo, gordo, "misterioso", "decidido", "confiante", "sensível", "que não tenha vergonha de chorar", "que nunca chore", "artístico", "artístico sem ser gay", "que seja de esquerda", "que seja de direita", "que seja centrão", "que nunca vote", enfim, uma imensa panóplia que com certeza os homens também terão quando idealizam a mulher perfeita.
O problema é que, às vezes, estamos mesmo à espera que as pessoas reúnam esta parafernália toda de qualidades, e temos uma lista mental com tópicos que vamos riscando, "ai, mas eu não quero uma pessoa que diz 'há-des", "ai, mas eu nunca poderia gostar de alguém que acha que cinema português é Adão e Eva", "ai, mas eu nunca poderia gostar de alguém que usa pullover por cima dos ombros", "ai, mas eu nunca poderia gostar de alguém que foi ver a Beyoncé ao vivo e adorou", etc., etc. Confesso que estou a traçar um quadro propositadamente negro - compreendo perfeitamente que ninguém queira partilhar um minuto, quanto mais a vida, com indivíduos que correspondam a este perfil.
Mas enfim, chega-se a um ponto em que tempos de perceber que há coisas que não têm importância nenhuma (não são, seguramente, "há-des" e gostar de Beyonce, mas talvez, por exemplo, o pullover por cima dos ombros seja tolerável... ou talvez não). E que, ou abrimos os olhos para as pessoas que nos rodeiam e que talvez sejam, sei lá, "espectaculares", ou nos sentamos, especados e especadas, pacientemente à espera de Godot que, como Beckett ensina e bem, nunca há-de chegar e é bem feita.
No entanto, agora estou a ver as notícias que anunciam que a Grécia acabou de descer para uma nota BB+, que pelos vistos quer dizer que, nas palavras do jornalista, "é lixo que não interessa a ninguém". E, sinceramente, não quero saber da Joanna e de quem quer um homem que ganhe as tais cem mil libras e toque guitarra espanhola, de que eu por acaso até nem gosto, nem de quem tem listas com as qualidades do príncipe encantado, nem nada destes assuntos.
Neste momento, odeio profundamente essas agênciazecas de rating, odeio toda a alta finança e taxas de juros e instituições e transacções de capitais e ataques dos mercados, e todos os imprestáveis governos gregos, enfim, todos esses seres malignos que permitem que a "minha" Grécia seja enxovalhada desta maneira, nós pelo mesmo caminho, e o futuro, como diria o grande Herman, visteze-o? Era o viste-lo.

terça-feira, 27 de abril de 2010

Gramáticas


Este livro, A Concise Chinese-English Dictionary for Lovers, é uma pequena delícia. É mesmo assim que o quero descrever. É um doce "cupcake" em forma de livro. Trata da história de Z, uma jovem chinesa que vai viver para Londres para aprender inglês e acaba por se apaixonar por um homem mais velho, com uma vida inteira atrás. Ainda não acabei de ler, mas já suspeito que vai tudo acabar em tragédia.
O maior interesse do livro não é a rápida história de amor. É a forma como Z procura descrever tudo o que vai experimentando e sentindo em inglês, ao invés da sua língua materna, o chinês. Uma vez que Z quase não percebe inglês, mas tem um desejo incendiário de aprender tudo e saber todas as palavras, fazendo-se sempre acompanhar por um precioso dicionário, o seu processo de aprendizagem emocional é absolutamente paralelo à aprendizagem linguística.
A beleza deste livro está na premissa bonita de que a linguagem emoldura e define tudo o que sentimos e vivemos. Sem linguagem, não há pensamento, porque tudo o que pensamos tem de ser verbalizado. Esta hipótese foi desenvolvida por Sapir e Whorf que, com a sua famosa, e até certo tempo popular, teoria da relatividade linguística, disseram que ninguém vê as ondas do mar da mesma maneira.
De alguma forma, esta simpática e doce teoria, que eleva a linguagem aos píncaros, e que a torna a rainha de todas as percepções de todos os mundos, caiu em desgraça. Mas a Z, deste livro que estou a ler, concordaria com certeza com este poder essencial da linguagem, ela que vai aprendendo o mundo em que vive à medida que o verbaliza, conseguindo pérolas de sabedoria como:

Chinese, we not having grammar. We saying things simple way. No verb-change usage, no tense differences, no gender changes. We bosses of our language. But, English language is boss of English user.

É verdade, concordo com a Z. E, baixinho e em segredo, concordo com Sapir e Whorf. Ninguém vê as ondas da mesma maneira, tanto que há pessoas baixas e pessoas altas, de modo que os baixos vêem golfadas que vêm para os engolir e os altos vêem grandes poças de água. A gramática, nestas alturas, varia muito e é de facto grandemente relativa.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Endireitar a vida

Bom.
Chegou a hora de dar uma volta à minha vida e começar a andar com as coisas para a frente, que o mundo é um lugar duro e, como diz a canção que ostenta o meu nome, cerra os dois punhos e andou.
De modo que se aceitam ideias para uma trash-novel com laivos de falsa intelectualidade e com uns quantos name-droppings incisivos, para agradar a um largo espectro de leitores, isto é, os leitores mais exigentes satisfazem-se naquela atitude de sobranceria que lhes é comum (ó rapariguinha, isto de que tu falas também eu conseguia escrever e muito mais, pá, mas pensas que és a única a conhecer o Noam Chomsky ou quê) e os leitores menos exigentes satisfazem-se a pensar que são espertos por conseguirem ler tão bem e tão rapidamente um livro que até fala do Noam Chomsky (atenção: estamos aqui a falar da dupla versão de Noam Chomsky, o comentador político e o linguista. Uma coisa com nível).
Prometo uma recompensazita de aí uns 2%, o que é avultado, porque o livro vai vender milhões e vai ser traduzido, no mínimo, para espanhol. Estamos a falar de Brasil e restante América do Sul a comprar.
Por enquanto, estou a pensar num romance que começa com uma trintona meio intelectual, tipo galeria de arte ou universidade, na cama com um falhado qualquer com problemas de droga; o falhado é super giro, mas estraga-lhe a vida toda e envergonha-a à frente dos amigos ricos e intelectuais.
Como se constata, isto precisa de ser apimentado, de modo que, como disse no início deste post, aceitam-se ideias e sugestões.
Bem-haja, muito obrigadinha.

sábado, 24 de abril de 2010

A atracção do abismo

O meu pai fala, às vezes, da atracção pelo abismo, e que é o estranho fenómeno que acontece quando estamos perante uma coisa terrivelmente má, mas da qual não nos conseguimos afastar, de tão intenso é o maléfico e pernicioso desejo de ver o Mal com os nossos próprios olhos. O meu pai, por acaso, viu o Mal quando apanhou na televisão, há imensos anos, um concurso que na altura era medonho mas que hoje, devido ao meritório esforço e trabalho da TVI, seria apenas sofrível, e que se chamava A Amiga Olga.
Bom. Eu sinto esta necessidade do Mal muitas vezes. Por exemplo, estou neste momento a ver um programa sobre casais com filhos pequenos e absolutamente hediondos, que berram, gritam, esganiçam-se, atiram comida para o chão, fazem birra por tudo e por nada, não dormem, não deixam os pais em paz. Por um lado, quase dá vontade de chorar, tal é a pena que se sente pelos pobres e desesperados pais. Por outro lado, não dá pena. Dá vontade de rir, um riso vil e de baixeza inominável, porque não sou eu naquela situação.
É este o efeito do Mal. Por isso é que é o Mal. Torna-nos más pessoas, pelo menos a mim.
Mas continuo muito bem-disposta por não ter a vida daqueles casais com crianças doidas. Posso ter a atracção do abismo, mas não desço às suas profundezas.
Continuo a ler o Ham on Rye e a gostar muito. Li na Wikipedia que Bukowski costumava dizer "don't try", e que tal sentença até está na sua lápide. Não se deve forçar certas coisas.
Eu concordo, e acho que é um pensamento com muita razão e muita inteligência. Por isso é que eu não tenho escrito, não tem dado. E não consigo tentar. Quanto mais tento, pior fica.
É assim.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

...dir-te-ei quem és?

Ofereceram-me um livro de contos da Katherine Mansfield (uma querida amiga, que já não vejo há uns tempos; resta dizer que me ofereceu o livro também há uns tempos); na contra-capa, podia ler-se que, entre vários outros excelsos talentos de Katherine, um deles avultava, e que era o ter sido amiga de D. H. Lawrence e de outro qualquer que não me lembro. O Lawrence atraiu-me mais, porque dantes eu era verdadeiramente uma groupie do D. H. Mas adiante, que isso foi há tempos idos e eu não vou estar agora a retomar, muito menos relatar, cavalgadas passadas.
Dizia, a Katherine Mansfield vinha recomendada por ter sido amiga do D. H. Lawrence. Pergunto-me se isto tem alguma coisa a ver com o eventual talento literário da senhora. A não ser que a qualidade literária se pegue na mesma medida que nesse tempo se pegava a sífilis ou a tuberculose ou a escarlatina ou sei lá.
Nunca confiei muito naquele provérbio piroso (há tantos provérbios pirosos que nem sei por onde começar) que dita "diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és". Acho uma injustiça e, se encerra alguma verdade, esta será, com certeza, muito, muito, muito parcial. Parcialíssima.
A não ser que escolhamos as pessoas por quem nos apaixonamos (os amigos incluem-se no grupo das pessoas por quem nos apaixonamos), isto de alguém ser amigo do outro não me diz mesmo nada. A não ser que seja alguém amigo do Hitler - aí, abro uma excepção.
E porém, de certa forma, acabamos de facto por escolher os nossos amigos. Controlamos o coração de alguma forma.
Isto para dizer que o facto de a Katherine Mansfield ter sido amiga do D. H. Lawrence é absolutamente indiferente para a minha apreciação, e até gosto, por aquilo que ela escreve. Diz-me com quem andas e quanto muito digo-te o que queres da vida, mas não mais do que isso.

terça-feira, 20 de abril de 2010

Música para "começar"




Aquela música que ouvimos, por magia, quando "ele" (ou ela, dependendo dos casos) chega. Assim, mesmo à filme.
Que lamechiche tão fofinha.

Música para "acabar"




A música perfeita, perfeita para o desgosto. É assim a vida, sem contemplações ou festinhas na cabeça. Pronto.

(não sei se já disse, mas o Revolver é uma obra-prima.)

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Ginásios

Já descobri por que abomino ginásios.
É porque tenho de estar ali ingloriamente a fazer figura de parva numa bicicleta que não vai a lado nenhum? Não.
É porque tenho de exibir protuberâncias que quero manter escondidas ao mundo, e deixar que os meus olhos se firam com a vã flacidez de outros seres humanos, também eles ingloriamente batalhando num tapete andante que os há de deixar para sempre à espera de Godot? Não.
É porque os espaços interiores, de luz artificial do ginásio, me deixam indisposta e a sentir-me na Caverna? Não (quer dizer, sim, mas neste caso, não).
É porque não gosto da roupa que se tem de usar em ginásios. Detesto a roupa. O meu problema é de ordem estética, e não física.
A roupa de desporto é pavorosa. Calças largas demais ou justas demais, sem qualquer forma ou feitio minimamente elogioso. Sapatos de ténis de cores incompreensíveis. T-shirts que, já não lhes basta a forma quadrada e anódina, se colam à pele, independentemente do tecido. Blusões disformes. Nada se aproveita, tudo se transforma em trapos garridos e sem jeito.
Não conheço ninguém, ninguém, ninguém que fique bem com roupa de ginástica. Toda a gente fica mal. Às vezes, encontro pessoas na rua que encontrei no ginásio. Algumas delas continuam a parecer tão mal como no ginásio, o que é pena. A maior parte delas consegue, porém, um aspecto normal, de ser humano com alguma decência. Essa decência, com pêlos e peles rotundas à mostra, é difícil de manter. E é esse espectáculo da pobre vaidade de todos nós, enfiados em roupas feias e disformes, que se contempla num ginásio e é isso que eu não suporto. De modo que faço o sacrifício de não ir ao ginásio.
Sim, porque é de um sacrifício que estamos a falar. Entre ficar a casa a provar um Hagen-Daazito e ir ao ginásio pular e fingir que me divirto até à exaustão, prefiro claramente a segunda opção. Mas sou uma pessoa sensível à estética, e portanto não vou.
Como se constata, este post é de uma utilidade extrema.

domingo, 18 de abril de 2010

Caridadezinha (ou: Jack the Ripper - uma reflexão)


Este post interessa-me a mim apenas, portanto gostaria de avisar já que, provavelmente, os leitores que fazem o favor de passar por aqui não vão apreciar sobejamente o que escrevo a seguir. É sobre o Jack the Ripper; a maior parte das pessoas que conheço não acha piada a este assunto e manda-me calar quando falo sobre isto, mas como, no meu próprio blog, ninguém me cala, pronto, aqui estou eu a preparar-me para, finalmente, escrever um post com tudo o que me apetece dizer e reflectir sobre Jack the Ripper. Tenho este interesse nos crimes de Whitechapel; é uma idiossincrasia minha.
Em primeiro lugar, aquilo que se aprende e descobre ao tentar estudar os mesmos crimes é a pobreza angustiante que se vivia no East End, e que afectava homens, mulheres e crianças de forma absolutamente avassaladora. Sem outro recurso que não fosse vender flores no mercado a troco de miséria, ou prostituição a troco também de miséria, a vida das mulheres em particular era dura e normalmente culminava numa morte desdentada, abandonada e ao frio em coma alcoólico, no meio da rua. O que ganhavam mal pagava uma enxerga suja numa qualquer espelunca, a dividir dormitórios com outros miseráveis de má sorte. Uma das vítimas do Ripper, Annie Chapman, morreu porque, na noite em que a esquartejaram, calcorreava a rua às cinco da manhã, sem ter comido nem bebido, doente e mal se sustendo em pé, à procura de um qualquer cliente para que pudesse regressar à pensão de onde a tinham expulsado e pagar uma cama para dormir umas horas. E, como ela, havia muitas. Todas as vítimas do Ripper, excepto a última, mais nova e mais bonita, eram quarentonas desempregadas e irredutivelmente desamparadas cujo melhor amigo era a cervejola no pub. George Bernard Shaw declarou até, à altura, que, se os crimes do Ripper serviam para alguma coisa, seria para finalmente chamar a atenção para a pobreza inominável em que se vivia no East End londrino.
É precisamente a morte de Annie Chapman que mais me intriga. Morreu num pátio interior, por volta das 4.30 ou 5 da manhã. O dia já clareava, aliás - sabe-se que, nesse dia, o sol nasceu por volta das cinco da manhã, precisamente. As pessoas que viviam no prédio com janelas sobre o pátio onde Annie Chapman morreu já se afadigavam para um dia de trabalho. O mercado de Spitalfields, mesmo ali ao lado, cinco minutos a pé se tanto, abria às 5 da manhã. A única casa de banho do prédio ficava no pátio onde Annie Chapman foi assassinada. Quem a matou teve tempo de, em mais ou menos meia hora ao que tudo indica, lhe cortar a garganta, esquartejá-la e retirar-lhe o útero. E também teve tempo de abandonar o local. Ninguém viu nada. Ninguém ouviu nada. Pelo menos, nada de incriminador ou que apontasse para uma pista concreta.
À luz do dia, o tal Jack the Ripper esquartejou uma mulher, num pátio de um prédio onde várias pessoas estavam já acordadas, saiu pelos vistos sem uma nódoa de sangue, uma vez que não atraiu as atenções de ninguém quando chegou à rua, e ninguém viu nada. Absolutamente nada.
Como é que isto é possível? Não me parece possível. Há quem diga que, quando o Ripper abandonou o pátio, foi facilmente confundido com os vários talhantes que trabalhavam no mercado de Spitalfields e que usavam aventais ensanguentados. Talvez. A não ser que o assassino se desse ao trabalho de se vestir mais ou menos como um talhante, não me parece plausível, porque Jack the Ripper não parece ter sido um serial killer altamente inteligente; ao que tudo indica, foi apenas altamente sortudo.
O seu "perfil" de criminoso indica um indivíduo que, mais do que esperteza, foi apenas bafejado por uma grande sorte ao nunca ter sido visto nem apanhado por ninguém. Matava furiosamente quando podia (os crimes aconteceram todos em fins-de-semana ou em vésperas de fim-de-semana, podendo concluir-se que eram perpetrados por alguém que trabalhava e que não tinha tempo para grandes cavalgadas durante a semana), mas não seguia um método severo e apertado. Era o que apanhava à mão. No East End, não lhe seria difícil encontrar, todas as noites, prostitudas que faziam o seu estilo, batidas pela vida, gastas, já nos quarenta, talvez até nos cinquenta. Foi, até, exactamente o que aconteceu numa noite em que quase foi apanhado; interromperam-lhe a tarefa, teve de fugir apenas com tempo para cortar a garganta a Elizabeth Stride, e rapidamente encontrou outra mulher perdida pelas ruas, Catherine Eddowes, a quem teve mais tempo para aplicar os correctivos que considerava necessários. Se não dava com uma, dava com outra; ia-se adaptando até concretizar os seus objectivos, sem se importar com grandes rupturas ou distracções. Não era, pois, um criminoso muito manipulador, meticuloso, cuidadoso. Tinha um certo modus operandi e gostava de o seguir como podia, mas não de uma forma rígida e severa. É, pelo menos, o que me parece, a julgar pelo que tenho lido.
Não percebo como é que nunca o apanharam. Mas a injustiça dos crimes permanece, e ainda hoje é perpetuada sempre que se escolhem mulheres como vítimas por serem, à partida, presas mais fáceis, nomeadamente mulheres pobres.
Aquilo que prejudica, e terá prejudicado em 1888, ano dos crimes, a descoberta do assassino, terá sido também a especulação interminável em torno da identidade do criminoso, incontáveis falsos testemunhos, incontáveis 15 minutos de fama. A Metropolitan Police defende-se ainda hoje com alguma veemência, dizendo que a corporação sempre fez o possível e o impossível para encontrar o Ripper. Tudo indica que sim; o que acontece é que, em fins das décadas vitorianas, o conceito de "fazer o impossível" para encontrar um criminoso que matava putas velhas e sozinhas seria com certeza diferente do que aquele que desejaríamos. Basta ler os artigos de jornais dessa época (todos disponíveis no site do Times; basta fazer uma busca no ano de 1888) para perceber, claramente, que o mundo se dividia entre "nós", as classes médias e altas, e os "outros", os desgraçados das catacumbas que vivem lá longe e que, de uma forma ou de outra, têm aquilo que merecem; o máximo que se pode fazer, para nos certificarmos da nossa bondade, é termos muita pena delas. As vítimas são insistentemente descritas como mulheres "da mesma classe"; descreve-se com algum pormenor a localização das ruas, porque se assume, e provavelmente com precisão, que o leitor do jornal não estará, nem deverá estar, familiarizado com as vielas do East End, em si mesmo uma cidade tão diferente da sua Londres. A ideologia notória era a de que, com a caridadezinha, as coisas vão-se resolvendo - George Bernard Shaw, mais uma vez, escreve para os jornais e aponta a caridade com a pior causa de pobreza. Não é com a boa vontade caridosa das classes altas, superiormente estendendo a mão aos desgraçadinhos, que a coisa se dá (e, pela terceira vez neste blog, tenho imperiosamente de voltar a repetir a citação de Sade de que mais gosto, retirada da Filosofia da Alcova: a beneficência é mais um vício do orgulho do que uma verdadeira ostentação da alma; é por ostentação que se dão alívio aos semelhantes, nunca é com a pura intenção de praticar um acto bom).
Estes crimes passaram-se há muito tempo. Mas permanecem, não apenas porque o criminoso nunca foi apanhado. É porque pobres, miseráveis, e desgraçadas putas velhas continuam a existir, embora a gente tenha aquela sensação de que desapareceram da face da terra, levados pelo Jack the Ripper ou outra entidade igualmente estranha.
Às vezes, até pensamos que nunca chegaram a existir. Ou pior, que já não existem.

O meu país estranho e seu cheiro a sovaco


Envelheço.
Descubro um fascínio inaudito, ainda mais profundo, por Cesário Verde, António Nobre, José Malhoa, Amália, procissões, saias de nazarenas, galos de barcelos, santos antónios (estátuas, não as fogueiras), meninos jesus gorduchos, fado, aventais, bairros altos. Sorrio, quase melancólica, ao ver as hordas de jovens mal vestidos a cheirar a cerveja velha que percorrem a estreiteza do Bairro Alto. Com grande esperteza e alguma piada, Jorge de Sena dizia, no seu "incontornável" poema A Portugal, que este país está repleto de poetas tão sentimentais "que o cheiro de um sovaco os põe em transe"; eu estou ainda pior - o Bairro Alto cheira a sujidade, a álcool barato, a ganza, a juventude errónea, e eu encanto-me. E nem sequer sou poeta, sentimental ou não. E porém, encanto-me.
Envelheço, agora sem a mais pequena sombra de dúvida.
Encanta-me o país pequenino com erros de ortografia. Senhoras Nagonias. Que é dos pintores do meu país estranho, onde estão eles que não vêm pintar? Agora e sempre, António Nobre.
Estou mesmo velha.

E talvez tudo isto se deva à exposição da Joana Vasconcelos no CCB. Os corações de Viana com a voz da Amália por trás arrasam qualquer um. É a portugalidade que nos invade. Seja lá o que "portugalidade" queira dizer.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Reparei agora que, num post ali em baixo, escrevi que sentia que me podia "aninhar" numa ilha.
"Aninhar"? Mas eu agora sou o tipo de pessoa que escreve "sinto que me posso aninhar, numa ilha"?
Eu tinha notado que andava em estado de abrandamento. Mas não pensei que pudesse chegar a este ponto.
Acho que vou ter de fazer uma grave pausa para séria reflexão. Seriíssima.