
Este post interessa-me a mim apenas, portanto gostaria de avisar já que, provavelmente, os leitores que fazem o favor de passar por aqui não vão apreciar sobejamente o que escrevo a seguir. É sobre o Jack the Ripper; a maior parte das pessoas que conheço não acha piada a este assunto e manda-me calar quando falo sobre isto, mas como, no meu próprio blog, ninguém me cala, pronto, aqui estou eu a preparar-me para, finalmente, escrever um post com tudo o que me apetece dizer e reflectir sobre Jack the Ripper. Tenho este interesse nos crimes de Whitechapel; é uma idiossincrasia minha.
Em primeiro lugar, aquilo que se aprende e descobre ao tentar estudar os mesmos crimes é a pobreza angustiante que se vivia no East End, e que afectava homens, mulheres e crianças de forma absolutamente avassaladora. Sem outro recurso que não fosse vender flores no mercado a troco de miséria, ou prostituição a troco também de miséria, a vida das mulheres em particular era dura e normalmente culminava numa morte desdentada, abandonada e ao frio em coma alcoólico, no meio da rua. O que ganhavam mal pagava uma enxerga suja numa qualquer espelunca, a dividir dormitórios com outros miseráveis de má sorte. Uma das vítimas do Ripper, Annie Chapman, morreu porque, na noite em que a esquartejaram, calcorreava a rua às cinco da manhã, sem ter comido nem bebido, doente e mal se sustendo em pé, à procura de um qualquer cliente para que pudesse regressar à pensão de onde a tinham expulsado e pagar uma cama para dormir umas horas. E, como ela, havia muitas. Todas as vítimas do Ripper, excepto a última, mais nova e mais bonita, eram quarentonas desempregadas e irredutivelmente desamparadas cujo melhor amigo era a cervejola no pub. George Bernard Shaw declarou até, à altura, que, se os crimes do Ripper serviam para alguma coisa, seria para finalmente chamar a atenção para a pobreza inominável em que se vivia no East End londrino.
É precisamente a morte de Annie Chapman que mais me intriga. Morreu num pátio interior, por volta das 4.30 ou 5 da manhã. O dia já clareava, aliás - sabe-se que, nesse dia, o sol nasceu por volta das cinco da manhã, precisamente. As pessoas que viviam no prédio com janelas sobre o pátio onde Annie Chapman morreu já se afadigavam para um dia de trabalho. O mercado de Spitalfields, mesmo ali ao lado, cinco minutos a pé se tanto, abria às 5 da manhã. A única casa de banho do prédio ficava no pátio onde Annie Chapman foi assassinada. Quem a matou teve tempo de, em mais ou menos meia hora ao que tudo indica, lhe cortar a garganta, esquartejá-la e retirar-lhe o útero. E também teve tempo de abandonar o local. Ninguém viu nada. Ninguém ouviu nada. Pelo menos, nada de incriminador ou que apontasse para uma pista concreta.
À luz do dia, o tal Jack the Ripper esquartejou uma mulher, num pátio de um prédio onde várias pessoas estavam já acordadas, saiu pelos vistos sem uma nódoa de sangue, uma vez que não atraiu as atenções de ninguém quando chegou à rua, e ninguém viu nada. Absolutamente nada.
Como é que isto é possível? Não me parece possível. Há quem diga que, quando o Ripper abandonou o pátio, foi facilmente confundido com os vários talhantes que trabalhavam no mercado de Spitalfields e que usavam aventais ensanguentados. Talvez. A não ser que o assassino se desse ao trabalho de se vestir mais ou menos como um talhante, não me parece plausível, porque Jack the Ripper não parece ter sido um serial killer altamente inteligente; ao que tudo indica, foi apenas altamente sortudo.
O seu "perfil" de criminoso indica um indivíduo que, mais do que esperteza, foi apenas bafejado por uma grande sorte ao nunca ter sido visto nem apanhado por ninguém. Matava furiosamente quando podia (os crimes aconteceram todos em fins-de-semana ou em vésperas de fim-de-semana, podendo concluir-se que eram perpetrados por alguém que trabalhava e que não tinha tempo para grandes cavalgadas durante a semana), mas não seguia um método severo e apertado. Era o que apanhava à mão. No East End, não lhe seria difícil encontrar, todas as noites, prostitudas que faziam o seu estilo, batidas pela vida, gastas, já nos quarenta, talvez até nos cinquenta. Foi, até, exactamente o que aconteceu numa noite em que quase foi apanhado; interromperam-lhe a tarefa, teve de fugir apenas com tempo para cortar a garganta a Elizabeth Stride, e rapidamente encontrou outra mulher perdida pelas ruas, Catherine Eddowes, a quem teve mais tempo para aplicar os correctivos que considerava necessários. Se não dava com uma, dava com outra; ia-se adaptando até concretizar os seus objectivos, sem se importar com grandes rupturas ou distracções. Não era, pois, um criminoso muito manipulador, meticuloso, cuidadoso. Tinha um certo modus operandi e gostava de o seguir como podia, mas não de uma forma rígida e severa. É, pelo menos, o que me parece, a julgar pelo que tenho lido.
Não percebo como é que nunca o apanharam. Mas a injustiça dos crimes permanece, e ainda hoje é perpetuada sempre que se escolhem mulheres como vítimas por serem, à partida, presas mais fáceis, nomeadamente mulheres pobres.
Aquilo que prejudica, e terá prejudicado em 1888, ano dos crimes, a descoberta do assassino, terá sido também a especulação interminável em torno da identidade do criminoso, incontáveis falsos testemunhos, incontáveis 15 minutos de fama. A Metropolitan Police defende-se ainda hoje com alguma veemência, dizendo que a corporação sempre fez o possível e o impossível para encontrar o Ripper. Tudo indica que sim; o que acontece é que, em fins das décadas vitorianas, o conceito de "fazer o impossível" para encontrar um criminoso que matava putas velhas e sozinhas seria com certeza diferente do que aquele que desejaríamos. Basta ler os artigos de jornais dessa época (todos disponíveis no site do Times; basta fazer uma busca no ano de 1888) para perceber, claramente, que o mundo se dividia entre "nós", as classes médias e altas, e os "outros", os desgraçados das catacumbas que vivem lá longe e que, de uma forma ou de outra, têm aquilo que merecem; o máximo que se pode fazer, para nos certificarmos da nossa bondade, é termos muita pena delas. As vítimas são insistentemente descritas como mulheres "da mesma classe"; descreve-se com algum pormenor a localização das ruas, porque se assume, e provavelmente com precisão, que o leitor do jornal não estará, nem deverá estar, familiarizado com as vielas do East End, em si mesmo uma cidade tão diferente da sua Londres. A ideologia notória era a de que, com a caridadezinha, as coisas vão-se resolvendo - George Bernard Shaw, mais uma vez, escreve para os jornais e aponta a caridade com a pior causa de pobreza. Não é com a boa vontade caridosa das classes altas, superiormente estendendo a mão aos desgraçadinhos, que a coisa se dá (e, pela terceira vez neste blog, tenho imperiosamente de voltar a repetir a citação de Sade de que mais gosto, retirada da Filosofia da Alcova: a beneficência é mais um vício do orgulho do que uma verdadeira ostentação da alma; é por ostentação que se dão alívio aos semelhantes, nunca é com a pura intenção de praticar um acto bom).
Estes crimes passaram-se há muito tempo. Mas permanecem, não apenas porque o criminoso nunca foi apanhado. É porque pobres, miseráveis, e desgraçadas putas velhas continuam a existir, embora a gente tenha aquela sensação de que desapareceram da face da terra, levados pelo Jack the Ripper ou outra entidade igualmente estranha.
Às vezes, até pensamos que nunca chegaram a existir. Ou pior, que já não existem.