terça-feira, 24 de agosto de 2010

Sinais de Fogo

Acabei de ler Sinais de Fogo, de Jorge de Sena, e tenho uma coisa a dizer - Jorge de Sena é O homem. Obrigada à minha querida S., que me ofereceu, pelo meu aniversário e num gesto de grande generosidade, a sua própria edição, numa altura em que, ainda por cima, Sinais de Fogo estava esgotado (que vergonha - agora já não está, sabias, S.? Queres que te ofereça pelos anos? Eh eh).
Bom. Como ultimamente a minha vida anda em período de, digamos que, entre a revolução e a modorra, que parece impossível mas é verdade, não tenho tido inspiração para escrever grande coisa, mas queria aqui dizer que Sinais de Fogo tem absolutamente de ser lido. Tem de.
E um livro assim, que chega até nós pela amizade e ainda por cima é glorioso, sabe mesmo bem. E quando o acabamos de ler à mesa do café, quando lá fora chovisca (ah, pois, que o calor de Portugal de que toda a gente se queixa não me tem chegado, e eu bem precisada dele estou), é mesmo perfeitinho.
O George Orwell escreveu sobre livros e cigarros. Eu gostaria de escrever sobre livros, cigarros e amigos, tudo à mesa dessa invenção indispensável que é "o café". Sim, porque, se formos a ver bem, o que é que eu tenho a menos que o George Orwell, não é? Nada, não é? Não precisam de responder, eu sei que todos concordam. [insert ironical emoticon]
Uma justificação mais profunda do poder de Sinais de Fogo vai ter de ficar para a próxima.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

O Ilusionista (ligeiro spoiler)


Gostei muito deste filminho, como já tinha gostado das Triplettes. Quer dizer, não gostei exactamente da mesma forma. Adorei as Triplettes de Belleville, e do Ilusionista apenas gostei, porque é um filme muito terno, cheio de sensibilidade. Não vi o original de Tati, e devo dizer que também não me apetece muito ver. O Ilusionista é tão engraçado, tão bonito, tão doce que me encheu as medidas - e apenas pelo lindo poster podemos constatar que o que digo é verdade.

Só para dizer isto. Podia estar aqui a dissertar sobre a condição do artista e de uma coisa que se diz no filme ("os mágicos não existem"), mas não me apetece. Quem quiser que vá ver o filme em vez de andar a perder tempo a ver televisão, que faz muito bem.
Num brever percurso pelos jornais e revistas online, blogs e afins, fico convencidíssima de que o que as pessoas precisam é de ler mais e de baixar a sua pretensiosa e medíocre bola. E, já agora, de ver menos televisão.
Isto digo eu. Agora vou ali ver os últimos episódios do True Blood, que calhou perder.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Cantar a gente surda e endurecida

Vejo semelhanças n'Os Maias e n'O Ano da Morte de Ricardo Reis. Quanto mais penso neles, mais semelhanças vejo. Até chego a pensar no Ano da Morte como Os Maias em prosa poética. O contraste está precisamente aqui, na poesia que é a prosa do Ano da Morte e na narrativa realista, propositadamente viva e absolutamente novelística, dos Maias.
Ambos são livros, histórias, sobre Portugal. Ambos têm como conclusão fundamental uma posição muito clara sobre a chamada "portugalidade". Ambos representam uma possível mudança nesta entidade estranha que é a "portugalidade"por via de duas personagens masculinas estrangeiradas, distintas da massa de Lisboa, iniciadoras da história - Ricardo Reis, recém chegado do Brasil, Carlos da Maia, recém-chegado das suas muitas viagens por países civilizados e cosmopolitas. Por ambas as obras perpassa um cinismo quase existencial. A diferença é que, no Ano da Morte, o cinismo está em Ricardo Reis, a personagem, e nos Maias o cinismo provém do narrador, interveniente nos comentários impiedosos, duros, entristecidos, que lança sobre os enredos e as personagens. Chega-se a ter pena das personagens e quase do pobre país, levado ao extremo do ridículo naquele delirante, medíocre, cruelmente engraçado sarau da Trindade. N'Os Maias, o narrador nunca cede, ou por outra, cede apenas no final - sei que o final dos Maias é visto com grande pessimismo, o país perdido, e a sua única esperança, o superior Carlos da Maia, reduzido ao dandy rico e inútil, mas eu penso que há, no término desta obra, um folgo vivaz de esperança, de algo melhor que ainda pode acontecer. "Ainda o apanhamos, ainda o apanhamos" - João da Ega e Carlos ainda poderão fazer alguma coisa pela sombria estátua de Camões, outra esperança perdida que eles talvez possam resgatar da apagada e vil tristeza.
O final do Ano da Morte é, quanto a mim, parecidíssimo, com a importante diferença, porém, de não deixar grande espaço para o optimismo. Ricardo Reis falha do princípio ao fim, deixando tudo perdido na inconsequência. Versos, poesias, o amor de uma boa mulher, como Adrian Mole definia a sua Pandora (referência despropositada, esta, mas lembrei-me dela), possíveis contestações políticas anti-fascistas, anti-pidescas, tudo cai em derrocada.
No fundo, talvez Os Maias o O Ano da Morte me pareçam semelhantes porque há neles uma relação íntima com Portugal que se estabelece através de personagens que parecem tão vencedoras e que, em última instância, perdem. E, como padroeiro de toda esta reflexão literária e quase interventiva sobre o país, como grande impulsionador do pensamento sobre o mal-estar português, estarão muitas pessoas de que eu não faço ideia, mas está com toda a certeza Camões e a desilusão que cristaliza nos Lusíadas e nos seus lamentos profundos sobre o desconcerto do mundo. Ouvi uma vez alguém dizer que Camões representava o lado solar da literatura portuguesa, ao passo que Pessoa materializava o lado lunar. Não concordo nada (humildemente, acrescento, que fica sempre bem). O lado negro, pessimista, de Camões, e que é inultrapassável e sublime, é fundador deste tal mal-estar, que depois resulta nos Maias, resulta no Ano da Morte, resulta no pensamento de Eduardo Lourenço e o irrealismo prodigioso com que nos define, resulta até em Sinais de Fogo, esta glória do romance português, de Jorge de Sena, que estou agora a ler, e que teria de bom grado introduzido neste post se já o tivesse terminado.
Bom. Quer dizer, isto é só a minha opinião.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Cartões

Na minha desorganização, que ainda não me permitiu despachar pequenas pontas soltas de trabalho e gozar de férias como deve ser, tive de pedir à minha mãe, que felizmente tem paciência para as minhas parvoíces, para me enviar um cartão de que precisava e que me tinha esquecido a quilómetros de distância de onde agora me encontro. A minha mãe lá conseguiu encontrar a porcaria do cartão, enterrado que estava no meio de tantos outros cartões que nunca uso.
Tenho a carteira cheia destes bocados de plástico e, interessantemente, penso sempre que sou daquelas pessoas que se recusa a ter cartões. Não tenho nem um cartão de supermercado, por exemplo, e isto por mais que os supermercados me tenham tentado quebrar com veladas ameaças melífluas ("olhe que sem cartão fica sem desconto nos brinquedos... olhe que sem cartão fica sem pontos para as tupperwares e tachos e panelas e quejandos... olhe que sem cartão ainda lhe damos um pontapé... olhe que sem cartão coisas terríveis podem acontecer...", e etc.).
Também evito ter cartões de lojas, mas tenho. Esqueço-me que os tenho, nunca os uso e perco os descontos todos.
Acho que esta mania de ter cartões, na ilusão estúpida de que se vai poupar dinheiro, quando na verdade apenas engordamos os bolsos do dono do estabelecimento que nos quer "fidelizar", é a mesma coisa que roubar coisas dos quartos de hotel, no falso convencimento de que um dia nos vão ser úteis. Qual é a utilidade de trazer os sabonetinhos, escovinhas de dentes, chinelinhos, há até quem surripie roupões, se depois aquilo só vai atafulhar a casa, nunca é usado e acabamos por deitar tudo fora. E não poupámos dinheiro nenhum nem a nossa vida melhorou por causa disso.
Esta coisa de acumular cartões a bem da economiazinha doméstica, do amealhar, do poupar dinheirinho é tão inútil. Uma vez conheci um casal que tinha uma mercearia. Nunca saíam dali, estavam sempre ali, Domingos e tudo, e o Audi brutal e preto que tinham a reluzir à porta estava sempre estacionado no mesmo sítio. A bem do dinheirinho. Que gente tão patética.
Os cartões também são assim, patéticos. É impossível gastar dinheiro e poupá-lo ao mesmo tempo. Se vivemos numa rede de infindos estabeleciimentos comerciais e empresas cujo o único objectivo é ficar com o nosso dinheiro, é bom que, pelo menos, tenhamos a consciência disso.
Ainda hoje não posso com Audis.

Copycats

Na Radar, estão neste momento a fazer uma pergunta que visa saber qual a canção-versão que é infinitamente superior à canção original.

Há muitas covers que são superiores, quanto a mim. Porém, a maior parte delas será, provavelmente, inferior, nada acrescentando a um original que ou é tão bom que já não admite mais nada, ou é tão indiferente que nada o salva. Por exemplo, qual é a piada de fazer uma versão de qualquer uma das músicas dos Colplay? Já toda a gente é dada à dormência quando os ouve. Uma versão destas cançõezinhas só servirá, com certeza, para aprofundar o tédio, que já não é pouco.

Porém, aquilo em que eu vislumbro alguma piada é quando o original é ostensivamente mau, mas depois alguém se lembra de fazer uma versão que acaba por ser boa ou, pelo menos, admissível. É o que me parece acontecer com a versão dos Travis da Britney Spears, Hit Me Baby One More Time. A canção sai tão bem disfarçada que quase parece boa. Acho este exemplo muito engraçado.

É também interessante pensar na cópia que ultrapassa o original. Acontece às vezes, tal como a velha questão do discípulo que ultrapassa o mestre, sendo isso um elogio à qualidade do mestre. É claro que a versão dos Travis está longe destas conversas de café, mas enfim. Estava só a pensar, coisa que ultimamente tenho feito pouco.



Descubra as diferenças


As diferenças são simples e escassas: a primeira figura na lista dos Mais Bem Vestidos da Vanity Fair de 2010, e a segunda, a ter existido de todo, e nada indica que não terá existido, foi retratada no século XVI, podendo hoje contemplar-se todo o seu esplendor na National Gallery. Tem tudo isto muita graça e muito pouco interesse, é um facto.
A Vanity Fair deveria, quem sabe, poupar-se mais ao ridículo e estudar a sua historiazinha da pintura.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Calor

Há dias e dias.
E há dias em que, sinceramente, nada do que normalmente valorizamos importa o mínimo que seja. Dias em que compreendemos que, verdadeiramente, e como Lobo Antunes uma vez escreveu numa crónica, todos os livros do mundo não valem uma noite de amor. Que a vida não se vive em museus, nos poemas do Cesário Verde, nos quadros do Ucello, em discussões sobre didácticas, pedagogias, reformas, filosofias, metafísicas, músicas e musiquinhas, concertos e bares e restaurantes de sushi que não interessam a ninguém, muito menos ao menino Jesus ou ao Camões, que, coitados, já têm tanto com que se preocupar.
Dias em que, com o calor que está, o que salta à vista é que estar de rabo sentado com um copo de água fresca é tão importante como qualquer livro do mundo, ou até mais. Que nada do que alimenta a mente faz qualquer falta - a mente alimenta-se do corpo e isso basta-lhe. Que nada mais há para além do não pensar, e que isso chega.
Tudo o resto são pormenores, infelizmente.
Acrescento timidamente Os Maias ao copo de água fresca, mas fico-me por aí. Há mais em que não pensar, há mais em que viver.

terça-feira, 27 de julho de 2010

Ainda há quem veja televisão?, ou: singela homenagem à telenovela brasileira

Eu acho graça a ter em casa um sistema que me permite ter não sei quantos canais televisivos que não vejo. E não vejo, não por não ter tempo, mas sim porque, pura e simplesmente, não encontro nada para ver. Nada, nada. Não se trata aqui de não existirem bons programas de TV - eu acho que existem, mas ou não passam nos inúteis canais dos meos e zons e quejandos, ou passam atrasados, ou tarde e a más horas, ou são interrompidos, ou etc. De modo que, neste momento, a minha pessoa encontra-se a pagar um daqueles fabulosos pacotes de telefone + TV + internet apenas devido ao telefone grátis e à internet rápida, complementada por downloads ainda mais rápidos. A televisão, de que eu tanto gostava em pequena, vistese-a? Era o viste-la.
Ok. Sei que a RTP2 ainda tem umas quantas coisas que valem a pena. Os canais de informação vão tendo. Mas são coisas tão esporádicas. Não há nada ali que faça verdadeiramente falta, nem qualquer programa inovador que valha muito a pena ver. Isto para não falar das tentativas de canais novos, aquele interactivo em que se escolhe o programa, Q ou o que é. Nunca lá vi nada de jeito. É tão moderno, tão urbano, tão em cima do acontecimento, tão criativozinho que me dá vontade de lhes varrer as teias de aranha. Que enjoo.
A internet é que safa a coisa. Todos os bons programas de TV que se possam querer ver estão na net, e é bem mais simples e barato arranjá-los lá do que ficar à espera que os canais em Portugal se lembrem de os passar.
O que me surpreende é que os senhores da televisão não tenham ainda "realizado" este estado de coisas. Não percebo o tipo de público a que se dirigem. A quem não tem internet? A quem for parvo? Uma combinação de ambos, ou não sabe/não responde?
No entanto, devo dizer que sinto uma certa saudade de ser pequena e ter menos complicações na cabecinha, já que tal me permitia vibrar com cada novo episódio da telenovela, brasileira e da Globo com se quer, as únicas verdadeiras telenovelas do mundo. A telenovela. O que eu me lembro das discussões sobre a Kananga do Japão, em que a Dora ia para a rua no Rio de Janeiro dançar com o namorado malandro e de má vida, todo vestido de branco, da Tieta, com aquele genérico da senhora desnuda que pôs o país todo em choque (oh, sr Fradique!, diria Eça), a Betty Faria que volta em glória à aldeiazeca que a desprezara, o inesquecível Roque Santeiro, a viúva Porcina, o Sinhozinho Malta, tou certo ou tou errado, e no último episódio mostraram o cientista estranho, acho que era o Professor Astromar, a transformar-se em lobisomem e tudo... ai, o que eu gostava destas animações todas, das cenas de escandaleira e gritos, cafageste!, de choradeiras e paixões, e ainda por cima com bons actores, Lima Duarte, Regina Duarte, Marília Pêra, Glória Pires.
Tenho saudades de me entusiasmar assim. Agora, já não tenho paciência para telenovelas, mesmo que brasileiras. Embora se haja produto que me tenha ensinado a apreciar um bom drama, uma boa faca e alguidar, esse produto foi sem dúvida a telenovela brasileira, e aqui deixo o meu obrigado. Só não aprendi mais porque a minha mãe impunha limites severos na visualização e não me deixava ver os episódios todos à minha vontade.
E para terminar - há par romântico mais espectacular do que Glória Pires e Fábio Jr? Qual Kate e Leo, qual o quê, se é para ser piroso, que se assuma a piroseira e se vá à fonte, ao original. Glória e Fábio forever, é o que digo.
Bom. Isto para dizer que hoje em dia não vejo muita televisão.


Má memória


Estive a ver se encontrava, na Crónica Geral de Espanha, a narrativa da Batalha do Salado, em que o herói é o mestre da Ordem dos Hospitalários, que por acaso calha ser também D. Álvaro Pereira, o pai do Santo Condestável. Giro.

Neste episódio, em que está tudo ocupado a lutar contra os mouros, D. Álvaro está à procura de qualquer coisa de que eu agora não me lembro mas que é essencial para ganhar a batalha, e dizem-lhe algo que eu agora também não me lembro, mas que resulta no Mestre não conseguir encontrar o que procurava, que, como disse, não me lembro o que era. O que me lembro é que há uma frase magnífica em que se descreve o pesar de D. Álvaro pela aparente derrota, e que reza mais ou menos assim: "...e D. Álvaro foi d'esta muy coitado".

Tão lindo. Tão lindo, tão lindo.

Outra coisa de que me lembro é de ter gostado muito de todos os excertos da Crónica Geral de Espanha e dos Livros de Linhagens de D. Pedro que li. Não foram muitos, mas chegaram para compreender que a prosa narrativa medieval é encantadora, porque é ali que nasce tudo.

Este excerto do D. Álvaro muy coitado foi sublinhado por mim e tudo. E agora não o encontro de forma nenhuma. Deve estar enterrado algures, nas resmas e resmas infindáveis de papéis que por aqui pululam. É exasperante.

E deste me vou mui coitada. A Crónica está disponível online, edição crítica de Lindley Cintra, o Grande, de modo que se alguém souber novas do tal excertozinho, alvíssaras, ai Deus e u é.

domingo, 25 de julho de 2010

Materialismo vs eremitismo


Estive a ver uns palacetes em Sintra para comprar (pausa para rir, evidentemente). Na internet, encontram-se uns jeitosos a partir de um milhão de euros. Estamos a falar de um T16 com possibilidade de garagem. Não está mal, embora quanto a mim tudo o que não seja T18 não tenha aquela classe.
A primeira coisa que eu fazia se me saísse o Euromilhões, que eu por acaso nunca jogo, era comprar a Quinta da Regaleira. Comprava aquilo tudo e nunca mais ninguém lá punha os pés sem ser eu. Não mudava nada, porém. Quanto muito, arranjava lá um cantinho para construir uma piscinita, para nem sequer ter de sair de férias para a praia. Passaria, de bom grado, o resto dos meus dias prisioneira na Quinta. Encomendava DVDs e livros da internet. Lia jornais on-line e mandava os supermercados entregarem-me comida à porta. Não é preciso mais nada.
É por isso que penso que, por exemplo, eu sou aquele tipo de pessoa que estava bem como eremita. Qual era o problema de ficar numa propriedade ajardinada, a apanhar laranjas quando está calor para fazer sumo, fazer compras na Amazon e não ter ninguém a chatear? Não há problema nenhum.
Há certas pessoas que não têm feitio para viver uma vida de isolamento. Eu não sou dessas pessoas. Os meus gostos são simples. As minhas exigências são mínimas. Dêem-me a Quinta da Regaleira e nunca mais ouvem falar de mim.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Sintaxes

Cheguei a uma conclusão no que respeita à sintaxe da língua portuguesa.
Não gosto de frases pequenas, e não gosto das chamadas não-frases. Acho que entrecortam os textos de uma maneira feia.
Quando se escreve, por exemplo:
Tenho saudades tuas. Muitas.
Em geral, não gosto disto. Prefiro apenas "tenho muitas saudades tuas", com o sujeito e o predicado em seu devido sítio, organizadinho, escorreitinho. De outra forma, parece que estamos a repartir ideias, o que torna a leitura um bocado desagradável.
Talvez as pessoas usem esta técnica para enfatizar, por exemplo: "concordo. Tanto.", mas quanto a mim isto cria um certo efeito sentimental que me parece meio escusado. Em geral, sentimentalismos ostensivos incomodam-me um tanto ou quanto, especialmente na escrita. Mas talvez eu também não lhes consiga fugir e estou para aqui a criticar.
Era. Só. Para. Dizer. Isto.
Hoje. Não. Tenho. Muito. Que. Contar.
Ultimamente. Não. Tenho. Tido. Muitas. Ideias. De. Modo. Que. Também. Não. Há. Necessidade. De. As. Enfatizar. Com. Ou. Sem. Frases. Pequenas.

Redenção


Menu do almoço deste Domingo que, como se compreenderá, foi igualmente a única refeição do dia:

Entrada - gaspacho fresquinho e apurado, com guarnições (cebola picadinha, tomates e pepinos picadinhos, generosos pedaços de pão frito, ovo cozido picadinho)

Prato principal - sardinhas na brasa, carapaus na brasa e seu acompanhamento, por outras palavras, batata cozida, pimentos assados, salada mista (ou mística, como se prefere em certos estabelecimentos) - nem o suculento rabanete lhe faltava - pão de milho em abundância, ainda morno, azeite, aquele molho que tem um nome que eu não sei e que é azeite, cebola picada, salsa ou coentros e imensa paprica, como diria o grande Herman.

Sobremesa - salada de fruta, mousse de chocolate, pão-de- ló.

Espectacular.
Não tão espectaccular é o efeito a posteriori que a conjugação de sardinha e pimento produz e do qual ainda sinto resquícios, mas enfim, os grandes prazeres encerram eles próprios a sua dose de sofrimento. A vida é assim.
E aqui se encerra esta série de posts sobre comida porque pronto, sinceramente, também já aborrece.
Achei tanta piadola a isto.
Muito bem visto.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

These are a few of my favourite things

Bacalhau com natas.
Bacalhau assado.
Bacalhau cozido com grão.
Sardinhas assadas com pimentos.
Robalo grelhado.
Dourada grelhada.
Cherne no forno.
Arroz de marisco.
Gambas grelhadas.
Peixe frito com arroz de tomate malandrinho.
Petingas e jaquinzinhos, que ainda por cima não dão trabalho a comer.
Peixe no forno (aquele que é gordo e grande, não sei se se chama cardeal ou imperador, só sei que é muito bom), com muita cebola e molhenga do próprio peixe.
Arroz de tamboril.
Caldeirada.
Vinho branco ou tinto.
É só isto.

Peixe!


Por razões geográficas, tenho comido muito pouco peixe, que é como quem diz, há semana e meia que não como peixe. E compreendo agora como tal prejudica o estado de espírito.
A carne embrutece um bocado. Sanguinolenta, animal, pesada, acompanhada por molho ou batatas ou arroz, tudo ali se conjuga para nos cair no estômago como uma bola mal amanhada de massa pastosa, avermelhada, que se espalha pelo sangue e nos torna moles, indolentes, pusilânimes, dormentes.
Nada como um peixinho grelhado para animar. Neste momento, sinto que se comesse peixe, o sangue correria nas veias com outra força, o coração bateria com mais aprumo, o cérebro, que sinto perro, enferrujado, estulto, sacudiria todas as teias de aranha e entraria rapidamente no seu funcionamento mais perfeito, bem oleado e eficaz, pronto a decifrar todas as complexidades do mundo exterior que, neste momento, me parece uma amálgama meio amorfa de cores, sons desarticulados, movimentos vagos.
De modo que, neste momento, os meus sonhos estão repletos de suculentos robalos bojudos, que chegam até mim com a pele a estalar, dourada e saborosa, e com o garfo, cuidadosamente, afasto a cobertura estaladiça em que brilham os grãos de sal e vejo as postas brancas a fumegar, a esperar que o garfo as desfie com cuidado em gordos pedaços que irão acalmar o meu sistema digestivo, que deles bem está necessitado. Ou, em alternativa, um bacalhauzinho na grelha, a cheirar a alho e azeite, adornado por batatinhas bem esmurradas, a saltar da pele castanha. Ai.
Que bem que se come em Portugal.
Que bem que o peixe faz ao espírito.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Nada em que pensar

Eh pá, está a dar o Titanic na televisão e lá está a cena da porta.
Isto intriga-me, a sério que me intriga. A rapariga em cima da porta e o rapaz a congelar na água. Mas porque é que não se revezaram? E agora lá está ela a chorar, muito espantada e triste por ele ter congelado.
Um bocadinho mais de realismo. Se for só com o barco a partir-se ao meio e a afundar, não vamos lá. Um bocadinho mais de realismo.

Escritas


Quando escrevi este post, não tinha encontrado muitos exemplos de mulheres detentoras de uma escrita masculina. Agora, acho que já encontrei:

I'm member and preacher to that church where the blind don't see and the lame don't walk and what's dead stays that way.

Não sei definir o que é uma escrita masculina ou feminina, como disse antes, nem quero dizer que uma escrita dita "masculina" é superior à feminina (as irmãs Bronte, por exemplo, que eu adoro e admiro desde sempre, têm uma escrita feminina, quanto a mim; até o Monte dos Vendavais, tão violento e intenso e tal e coisa, me parece muito feminino). E, no entanto, Flannery O'Connor, neste Wise Blood, tem uma dureza, uma circunspecção, uma sobriedade que, não soubesse eu ser este um livro escrito por uma mulher, diria vindo do Cormac McCarthy ou assim. Hazel Motes, personagem principal, é de uma brutalidade e antipatia tais que fazem lembrar aquele sociopata do Haverá Sangue.
É assim tudo a mesma coisa, tudo do sul.

vã glória de aconselhar

Se há coisa de que eu gosto, é daquelas pessoas que sabem sempre tudo, inclusivamente o que é melhor para nós. É uma idiossincrasia minha, gosto, pronto. E aprecio aquele instinto quase maternal, ou paternal, que elas têm, dizendo, "se queres um conselho, não te candidates ao emprego tal, que não vais a lado nenhum", ou "se comprares casa no sítio x, estás a comprar mal, vais arrepender-te", e assim e assado.
Têm opinião sobre tudo. É outra coisa de que eu realmente gosto, pessoas com opinião sobre tudo. Desde sapatos a vestidos e verniz para as unhas e cabeleireiros, passando pelo preenchimento do IRS, ginásios onde compensa ir e em que horário, coisas que se devem ou não comprar no Pingo Doce,até chegar a tarifários de telemóvel, há gente que sabe sempre tudo e, por consequência, partilham connosco a sua dota opinião, em particular - e isto é importante - se a gente nunca a pediu. Penso que o facto de não pedirmos opinião é, aqui,um factor de grande importância - estas pessoas sabedouras dão a sua opinião na razão inversa às solicitações que recebem, isto é, quando menos pedimos, mais opiniões recebemos. Isto é de uma caridade exemplar.
Por acaso lembrei-me disto porque me estava a lembrar de uma das universidades que frequentei. Antes de ir para lá, disseram-me, "Rita, aproveita bem. Essa universidade é das melhores".
Eu mal conhecia esta pessoa. Esta pessoa, que me disse isto, mal conhecia a universidade para onde eu ia. E, no entanto, sentiu esta necessidade gira de me aconselhar a "aproveitar" bem. Que faria eu se ela não me tivesse dito para aproveitar bem porque a universidade era das melhores? Certamente chumbava tudo, andava para aí perdida e drogada, ao invés de ter a vida que tenho agora que, realmente, sim senhora, também deve ser "das melhores", especialmente a atentar no meu saldo bancário, sempre tão saudável. Nem a crise o abala.
Isto tudo para dizer que as pessoas que sabem sempre tudo nunca sabem nada, são normalmente parvas e deviam perceber que o mundo não quer nem precisa da sua vã glória de mandar.
E com isto me calo.

Love affair #4



Às vezes, há certas coisas que não elevam a mente mas que descontraem o corpinho.