terça-feira, 18 de maio de 2010

Maleita

O problema das maleitas que demoram a passar e persistem em afligir-nos por muitos dias é que se começa a ter muito afincadamente a noção do "mal-estar". Quase que se materializa à nossa frente.
Os sonhos de febre são os piores, os mais disformes. Vozes que nos gritam ao ouvido e que depois se esbatem, para mais tarde voltarem novamente, em ondas, e aquelas cores estranhas, amorfas, que percorrem a mente em grande rapidez. É, na verdade, uma experiência muito surreal.
Como não consigo escrever mais, que o "mal-estar" assola, queria porém deixar um poema que ilustra tudo isto e muito mais. Só me lembro dele (do poema) quando estou doente, e penso que se percebe porquê - foi escrito por Samuel Taylor Coleridge, esse romântico levemente alucinado que, como muitos outros românticos, gostava de comer comida estragada para ter pesadelos e depois escrever sobre eles. Manias.
Não admira, portanto, que o talento de S. T. Coleridge, combinado com as grandes perturbações intestinais que com certeza o acometiam, e que, como todos sabemos, seriam com certeza grande inspiração, tenha resultado neste clarividente poema sobre o incómodo, a alteração, da "doença" - aqui vão, sem mais delongas, alguns versos de "The Pains of Sleep":
Ere on my bed my limbs I lay,
It hath not been my use to pray
With moving lips or bended knees;
But silently, by slow degrees,

My spirit I to Love compose,

In humble trust mine eyelids close,

With reverential resignation,

No wish conceived, no thought expressed,

Only a sense of supplication;

A sense o'er all my soul impressed
That I am weak, yet not unblessed,

Since in me, round me, every where

Eternal strength and wisdom are.


But yester-night I prayed aloud

In anguish and in agony,
Up-starting from the fiendish crowd

Of shapes and thoughts that tortured me:

A lurid light, a trampling throng,

Sense of intolerable wrong,

And whom I scorned, those only strong!

Thirst of revenge, the powerless will

Still baffled, and yet burning still!

Desire with loathing strangely mixed
On wild or hateful objects fixed.

Fantastic passions! maddening brawl!
And shame and terror over all!


É um pouco isto que se passa quando estamos doentes e não dá para fechar os olhos e dormir o sono dos justos, não é?

domingo, 16 de maio de 2010

Matéria

Bom, uma intoxicação alimentar é do pior que pode acontecer ao Homem. Para mim, equivale ao que Kafka dizia sobre acordar cedo - é degradante. A pessoa confronta-se, verdadeiramente, com o facto de ser um animal, talvez o único animal racional sobre a Terra, mas ainda assim um animal, que nada mais tem do que "matéria". Matéria, matéria, matéria por todo o lado. Nestas alturas, não servem de nada as elevações do espírito, nem a arte, nem os bons livros, nem nada, mas apenas o confronto com o facto de sermos apenas "pó". É, até, um exercício de humildade - quer sejas a Rainha de Inglaterra, ou o Obama, ou apenas uma rapariga normal, o que tens para mostrar ao mundo, a tal matéria, é igual para todos e comum à raça humana, que é, na verdade, uma raça animalesca como as outras.
Até é quase filosófico, uma intoxicação alimentar. Dá para a gente pensar.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Pois que tudo são coisinhas

E, mais uma vez, venho aqui dar conta não das pessoas que são assim e assado e que me irritam, mas antes daquilo que em Portugal é assim e assado e que me enternece (embora talvez me devesse irritar).
Há uma certa ternurinha em Portugal, uma certa disposição mansa, a que acho muita graça, embora esta mansidão seja, provavelmente, só fachada, mas enfim. Por exemplo, n'O Mistério da Estrada de Sintra, Eça faz pela primeira vez menção à personagem de Fradique Mendes, esse exótico espécime estrangeirado, que, numa festa, decide falar extravangantemente da relação amorosa e fatal que manteve com uma mulher canibal. E diz-se assim:

Carlos Fradique contava as situações monstruosas de uma paixão mística que tivera por uma negra antropófaga:
- Um dia, exaltado de amor, aproximei-me dela,arregacei a manga e apresentei-lhe o braço nu. Queria fazer-lhe aquele mimo! Ela cheirou, deu uma dentada, levou um pedaço longo de carne,mastigou, lambeu os beiços ...e pediu mais.
-Oh! sr. Fradique! - gritaram todos, escandalizados.

Este "oh! sr. Fradique!" deslumbra-me e faz-me sempre rir. Este escândalozinho que as pessoas deste país gostam de sentir, dissociando-se dele, fazendo questão de afirmar que são muito morais, muito decentes, muito queridas. É bonito. E não esquecer que vem tudo acompanhado de uma impecável, mais uma vez também muito decente, boa-educação, patrocinada pelas requintadas (e intrincadas) formas de tratamento da língua portuguesa - o "sr. Fradique", honorífico + apelido, não há cá primeiros nomes para ninguém.
As pessoas gostam de se enternecer, em Portugal. Gostam de pensar que são boas pessoas. E isso é bonito. Acho mesmo que sim.

terça-feira, 11 de maio de 2010

Ah! E ainda a respeito do que se passa no youtube, o pessoal que se dá ao trabalho de ir lá retirar material devia pôr os olhos nos grandes Monty Python, que criaram um canal onde disponibilizam todo o seu material, porque sabem, e provavelmente apreciam, que as pessoas gostam deles e da obra que criaram.
Só gente medíocre é que tem medo da pirataria, é o que eu acho. Os DVDs dos Monty Python deixam de se vender? Eles perdem dinheiro? Não me consta que isso aconteça (posso estar errada, mas penso que não).


(E também me esqueci de juntar à lista dos descontrolados raivosos aquele horrível do Manual de Instruções para Crimes Banais, filme do qual penso que falarei em breve. Foi dos filmes mais terríveis que vi, e o criminoso do filme foi dos que mais detestei. Explicarei porquê.
Mas agora não.)

Desejo sinceramente que o youtube se

Bom, mas é que fico mesmo a espumar de raiva, com vagas incontroláveis de instintos absolutamente assassinos, qual cão danado, qual Vincent Vega e Jules a descarregar a arma depois daquele "Ezequiel 25:17", qual Robert DeNiro no GoodFellas a despachar os tipos todos que sabiam dos negócios escuros dele ao som do Leyla do Eric Clapton, qual Kaiser Soze a matar inimigos e pessoas que conheciam os inimigos e até pessoas que deviam dinheiro aos inimigos, qual Vitto no Padrinho, que volta à terrinha na Sicília para despachar o gordo mafioso que lhe tinha matado o pai, fico assim como esta gente toda, quando vou ao youtube e constato que uma data de links que pus no facebook ou nos favoritos não está lá, e também (atenção) não está disponível em mais nenhum lado. OK?
É que não está.
Estamos a falar de Mário Viegas a recitar poesia, por exemplo.
Estamos a falar de excertos mínimos de filmes (não são o filme inteiro, nem de perto nem de longe).
Estamos a falar de clips do South Park, que eu, por acaso, até acho que ainda não saíram sequer em DVD.
Estamos a falar de entrevistas antigas com escritores, músicos.
Estamos a falar de videoclips que, por amor de Deus, mais não servem do que promover bandas e que, estando disponíveis no yoube, apenas estimulariam o apreço e o gosto pelas mesmas, resultando, talvez quem sabe, na efectiva compra do CD.
A sério. Terem retirado o Mário Viegas, então, deixa-me fora de mim, absolutamente fora de mim, com instintos assassinos, qual os sapatos da enfermeira no Vestida para Matar, qual Hanibal Lecter (sim, sim!, é este o meu estado), qual Kaiser Soze, qual Robert DeNiro em Goodfellas, em Padrinho, qual Vincent Vega, cães danados e outros que me estão agora a faltar.
Oh pá, a sério. Que estupidez. Lembram-se daquilo que o Miguel Esteves Cardoso disse da Leya há bem pouco tempo? Pois bem, eu digo exactamente o mesmo à gentinha que vai ao youtube retirar conteúdos inofensivos, interessantes e que, além de não infringirem direitos de autor, apenas promovem e publicitam os ditos autores.
E agora despeço-me, que a fel destila em golfadas, toda eu sou fel, bleagh, que porcaria, tenho de ir tomar um duche para adocicar.

(nota para dizer que estou a ponderar seriamente criar uma etiqueta "fel" neste blog. É que, infelizmente, a minha natureza resvala sempre para o mal).

domingo, 9 de maio de 2010

Bola


Gosto de futebol por causa da festa. Não percebo a fundo todas as regras do jogo, e nem sequer conheço todo o plantel do Benfica. Mas gosto de futebol e sou do Benfica.
Acima de tudo, gosto de bola, que pode ser uma rodilha de trapos ou uma esfera mais pesada e profissional, e que permite que os miúdos joguem na rua e que os adultos disputem campeonatos. A bola dá oportunidade tanto ao pobre como ao aristocrata - há inúmeros casos de jogadores que vieram do nada, de vidas pobres ou quase miseráveis, mas que chutavam a bola desde pequenos e que assim descobriram um talento imenso (o que não desculpa de forma nenhuma a pobreza, mas mostra como o futebol chega a tantas vidas diferentes). A bola fascina crianças, que de repente se esquecem da sofisticação dos brinquedos com pós modernos para exercitar o pé em chutos animados, e no entanto é uma coisa tão simples, que não custa nada. Uma bola.
E, por isso, ver o Benfica campeão é, como dizem os benfiquistas mais empedernidos, "uma alegria muito grande" e "uma coisa muito bonita". Primeiro, porque, por herança familiar, que mais tarde se tornou do coração também, sou do Benfica. Segundo, porque é inesquecível ir à Luz e ver tantas pessoas felizes. Respira-se felicidade, que transborda de tanta gente tão diferente, velhos, novos, famílias inteiras, adolescentes, mulheres, homens.
Aceito quem não gosta de futebol, quem não tem paciência, quem é indiferente a derrotas e vitórias (nem sequer é uma questão de aceitar; não tenho nada a ver com isso). Aceito, porém, com muita dificuldade que me digam que ter um clube do coração "é uma estupidez", como às vezes ouço, e que o futebol só serve para negócios escuros por causa de uma data de homens a correr atrás da bola. Os negócios escuros do futebol só entristecem quem verdadeiramente gosta de um clube, assim como o mau perder e as cenas de batatada que às vezes acontecem também mancham, vergonhosamente, aquilo que devia ser uma festa alegre. E porém, estes episódios tristes não afectam a felicidade de uma vitória, ou a plenitude de cantar a plenos pulmões na Luz (onde não consegui estar hoje, com uma pena imensa), de cachecol ao pescoço.
É uma coisa muito bonita. Uma alegria muito grande. E gosto que as pessoas partilhem isto por causa de uma simples bola. Não me parece menor, não me parece pouco inteligente. Parece-me bem, e isto independentemente de sermos do Benfica, do Sporting, do Porto.
Viva a bola e, hoje, com toda a força, viva o Benfica.

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Um possível problema de tradução


Em Birthday Letters/Cartas de Aniversário, de Ted Hughes, edição Relógio d´Água e tradução de Manuel Dias, há um poema de que gosto muito, muito, muito que se chama Blue Flannel Suit e que, antes de terminar, diz assim:

You waited,
Knowing yourself helpless in the tweezers
Of the life that judged you, and I saw
The flayed nerve, the unheable face-wound
Which was all you had for courage

A tradução é a seguinte:

Esperaste,
sabendo-te indefesa nas tenazes
da vida que te julgava, e eu vi
no teu nervo esfolado e na ferida incurável do teu rosto,
toda a tua coragem

Não sou tradutora, nem conto atrever-me sequer a tentar traduzir poesia, e talvez o meu problema com esta tradução seja apenas hiper-sensibilidade minha em relação ao poema de que gosto tanto. No entanto, julgo que, efectivamente, o último verso traduzido não faz jus à fragilidade bonita do original. O "nervo esfolado" e a "ferida incurável" é tudo o que resta, e é tudo com que se pode contar para ir arranjar coragem não se sabe bem onde; "which is all you had for courage" é muito diferente de "eu vi [no nervo esfolado, na ferida incurável] toda a tua coragem". A tradução portuguesa dá uma força quase dominadora a esta coragem que, no original inglês, não me parece existir. Há coragem, sim, mas esfarrapada, frágil, de modo que o "flayed nerve" e "unhealable face-wound" se tornam, curiosamente, ainda mais poderosos - são sinais de ferida e desgosto que, apesar de tudo, continuam a ser coragem.
Mas pronto. De resto, nada a dizer. A minha mensagem ao tradutor é, fazendo minhas as palavras de Herman a Manoel de Oliveira, "que não desista" e "que continue".

Ardente e violentamente

Estou a sempre a começar posts pelo desagradável intróito (tão desagradável como a própria palavra "intróito" e a pessoa que o escreve) "não gosto de pessoas que...".
E este post não vai variar. Não gosto de pessoas que não gostam muito de uma coisa. Aquelas pessoas que gostam de tudo e não gostam verdadeiramente de nada.
Ah, Pearl Jam? Gosto, pois, já os vi ao vivo.
Ah, Kraftwerk? Gosto, pois, já os vi ao vivo.
Ah, Quim Barreiros? Gosto, pois, já o vi ao vivo.
Ah, George Orwell? Gosto, pois, já o li ao vivo.
Ah, A Aparição? Gosto, pois, já li e pensei sobre o livro ao vivo! (pois claro...)
Ah, Lídia Jorge? Gosto, pois, já a li e vi o filme ao vivo.
Ah, Murakami? Gosto, pois, etc.
Não é possível. Há gente que gosta destas coisas todas que eu enunciei, tudo ao mesmo tempo, sem critério nenhum, e sem se manifestar ardente e violentamente por nada. Não acredito em quem não se manifesta ardente e violentamente por nada, e prefiro não acreditar, porque é gente que me irrita.
Uma vez, ao ler uns pensamentos de Vergílio Ferreira, de que, por acaso, gostei muito, deparei-me com o seguinte: Morrerás em breve. É incontestável. E quanta verdade morrerá contigo sem saberes que a sabias. Só por não teres tido a sorte de num simples encontro ou encontrão ta fazerem vir ao de cima.
Portanto, como é que há pessoas que passam a vida a evitar as verdades que devem sentir com toda a força, a encolher os ombros, a gostar de tudo por igual, por atacado? Essas pessoas são as mesmas de quem fala Vergílio Ferreira. Fazem-me impressão.
Sou uma pessoa muito impressionável.

Umas notinhas sobre uns documentários que tenho visto


Há pouco tempo, vi na televisão o filme, presumo que mais ou menos ficcionado, sobre Grey Gardens, uma casa decadente nos Hamptons onde viviam Big Edie e Little Edie, mãe e filha, dementes, doces e completamente afastadas do mundo. Conheci-as ao ver o documentário dos irmãos Maysles, que me impressionou muito, e sobre o qual escrevi aqui; vi também, há relativamente pouco tempo, um outro documentário destes realizadores sobre os Beatles (The Beatles - The First US Visit) que, incrível e supreendentemente, me desapontou.
Estes documentários, tal como o recente Fantasia Lusitana de João Canijo, recusam muito claramente a voz off e vão mais longe - recusam entrevistas com possíveis "especialistas" a opinar sobre o assunto, deste modo evitando quaisquer cortes entre o espectador e o objecto a documentar. É o objecto que tem a única voz do filme, inteira e ininterrupta. Quando este objecto consiste em duas senhoras divertidas e com uma vida tão estranha e inimaginável como as Edies, corre tudo bem. Quando o objecto consiste num país que sofre do tal irrealismo prodigioso, também corre tudo bem. Então, porque é que não resulta com os Beatles?
Porque a única coisa que decorre de um documentário filmado nos anos 60 e que se limita a filmar os Beatles em todas as ocasiões possíveis é o facto de se tornar penosamente óbvio que nenhum dos quatro elementos da banda estava alguma vez sozinho, ou tinha tempo para reflectir, ou para pura e simplesmente ficar calado. Tinham sempre gente à volta, e o que o documentário regista é que os quatro Beatles passavam a vida a mandar bocas inconsequentes e a "entrar no personagem", correspondendo à performance que deles era constantemente esperada. A autenticidade, que enternece e seduz em Grey Gardens, é evitada e nunca transparece no documentário sobre os Beatles.
Talvez a conclusão a retirar seja isto mesmo, a de que os Beatles, coitadinhos, tinham sempre gente à volta, ou então eram pura e simplesmente ocos e não tinham nada para dizer. Eu, porém, acho que tinham porque já li entrevistas bem mais interessantes com a banda. De modo que este estilo documental de dar voz, directa e ininterrupta, àquilo que se retrata nem sempre é boa ideia. Às vezes, não faz mal haver voz off, os tais especialistas a explicar tudo bem explicadinho como se o espectador fosse parvo e tal. Dá mais substância.
Bom. Não tenho mais nada a dizer. Parece que, depois de tanta frase, teria assim uma conclusão mais retumbante, não é? Mas não, fico mesmo por aqui. Não era a minha intenção escrever um post enganoso, e portanto desde já aqui deixo as minhas desculpas.

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Desculpas que se arranjam para não ir limpar a casa

1 - estar a ler um texto com a expressão "queda livre", em vez disso ler "queca livre" e ficar a pensar em possíveis ilações que se poderão retirar de algo que Freud, com certeza, designaria por acto falhado

2- pôr-me a ver o Henrique Sá Pessoa a cozinhar ao ar livre (sim, cozinhar ao ar livre, não em queda livre e nem sequer a tal outra hipótese), tipo Jamie Oliver, e pensar que há pessoas que têm uma maneira lenta de falar que é muito engraçada. É o Henrique Sá Pessoa e o Nicholas Cage. São lentos a falar. Acho piada a esta idiossioncrasia porque eu sou o contrário, falo muito depressa e ninguém percebe o que eu digo, o que complica a minha vida.

3 - reparar que o Henrique Sá Pessoa está a cozinhar com a música pirosa dos Journey no background (aquela que é "don't stop believing, just a small town girl", blá blá) e ficar a pensar que isso quer dizer alguma coisa que eu não estou a atingir. É que eu, por acaso, até acho piada à música

4 - estar sentada no sofá e olhar para o chão e pensar, "ah, afinal também não está assim tão sujo"

5 - estar sentada no sofá e pensar que afinal não almocei bem e tenho de ir comer mais qualquer coisa, se não começo a limpar e depois fico sem forças, e depois como é que é?!

6 - escrever este post

7 - ir ao youtube procurar o vídeo que aqui vai figurar

8 -pensar que, realmente, o Henrique Sá Pessoa e o Nicholas Cage têm mesmo uma maneira engraçada de falar, são assim lentos.

terça-feira, 4 de maio de 2010

O trauma Branwell Brontë


Branwell Brontë nasceu numa família de mulheres, com três irmãs que ficaram para a história ao contrário do seu próprio nome, tão rapidamente esquecido como a sua vida vã. Os recursos da família eram dispendidos no único filho varão, em quem o pai insistia em ver rasgos de brilhantismo que mais ninguém via e, se bem que encorajasse também as historietas e as fantasias que as filhas gostavam de escrever, era Branwell que era resguardado para Oxford e Cambridge, onde nunca entrou, era Branwell que viajava, era Branwell que ficava em casa, protegido pela família, ao passo que as irmãs eram enviadas para escolas onde se morria de tuberculose e má nutrição.
Era também Branwell que se embebedava, que se tornava toxicodependente, que morria de amores proibidos pela senhora da casa onde trabalhava como professor dos filhos do casal e que, assim, trazia verdadeiramente o temido "opróbrio" à família.
A História tornou claro que Charlotte, Emily e Anne eram brilhantes, e Branwell não; que Charlotte, Emily e Anne escreviam bem, e Branwell não; que Charlotte, Emily e Anne haviam sido injustamente menosprezadas, e Branwell injustamente sobrevalorizado.
E, no entanto, a figura de Branwell Brontë é estranhamente interessante. O seu percurso auto-destrutivo, sem limites (adultério, droga, doença, excesso, morte prematura com tuberculose), mostra bem que, antes da História, era já para ele claro que seriam as suas irmãs as dignas herdeiras da chama literária que, nele, se apagava - no quadro que pinta de si próprio e das suas irmãs (este aqui ao lado), Branwell apaga a sua própria figura, preferindo que a sua identidade merecidamente se apague. No fundo, é uma personagem condenada desde o início, curvada sob o peso de expectativas familiares irrealistas que nele insistiam em ver génio, verve, imortalidade, e ele sem conseguir corresponder por pouco que fosse. Nem génio, nem verve, nem nada - apenas um tipo normal, acalentado por uma família para quem ele, que não tinha nada, era tudo.
Viver para corresponder às expectativas dos outros deve ser muito complicado.

domingo, 2 de maio de 2010

A propósito de louras



Agora fala-se muito da Grace Kelly; é capa da Vanity Fair, é exposição do guarda-roupa no Victoria & Albert, que eu hei-de ir ver, se a tanto me ajudar o engenho e a arte, é reminiscência saudosa do incomparável estilo, eterna elegância, inimitável porte principesco, tanto que até casou com um príncipe e tudo (e que caro o pagou). Aliás, a reportagem da Vanity Fair chega aos píncaros do risível, sendo um bom exemplo do que acontece quando certos e determinados desejos e anseios humanos são canalizados para estrelas de Hollywood e se desenvolvem fixações pouco saudáveis que levam a que se escrevam coisas como isto:

As for color, Grace was given her own, Apollonian palette. Wheat-field and buttercup yellows, azure and cerulean blues, seashell pink and angel-skin coral, Sun King gold and Olympus white—no one wore white like Grace Kelly. To those with a feeling for history, beauty, and style, Grace Kelly’s late-career wardrobe—the huntress Artemis during the day and Aphrodite at night—is unforgettable if not positively Delphic.

Bom. Eu, por acaso, gosto da Grace Kelly. Primeiro, o louro americano sempre me deslumbrou, em particular o louro gélido da Grace Kelly, que resultava tão bem nos filmes do Hitchcock. Aliás, nos filmes deste, as louras são sempre heroínas corajosas, e as morenas não necessariamente más, mas sempre umas pobres tristes (exemplo paradigmático, as duas meninas dos Pássaros - a loura sobrevive e fica com o namorado, a morena morre depois de ter sido sempre desprezada pelo seu amor). Mas continuando.
A propósito de louras, de quem eu sempre gostei foi da Marilyn. Comparada com a Grace, a Marilyn parece a desleixada com um palmo de cara que se enganou e, em vez de entrar na tasca onde habitualmente cantava o vaudeville de collant rasgado, entrou no restaurante fino onde se toca piano e come lagosta. E, no entanto, há um encanto mais autêntico na Marilyn, uma certa espontaneidade que eu acho enternecedora. A Grace não enternece. É uma estátua de gelo que ali está para deslumbrar, para ser admirada. A Marilyn, de busto emproado, cabelo platinado, cara de falsa ingénua, parece mais perdida, mais tonta, menos séria, menos perfeita. Tem uma sensibilidade que a Grace não consegue, ou, pelo menos, nunca conseguiu nos filmes que vi dela.
E por isso gosto mais da Marilyn, porque na vida real também me interessam mais as pessoas que revelam as fragilidades que têm, que não se envergonham disso. Os que as tentam esconder, muitas vezes mal disfarçadamente, irritam-me um bocadinho.

Fantasia Lusitana


Ao ver "Fantasia Lusitana", de João Canijo (sou fã absoluta deste homem), confirma-se plenamente o que Eduardo Lourenço, com toda a sabedoria e pelos vistos presciência, escreveu no Labirinto da Saudade: o irrealismo prodigioso com que Portugal se vê ao espelho.
O documentário de Canijo revela como toda a propaganda do Estado Novo, alguma dela até, devo confessar, tristemente divertida ("os nossos mercados são tão bonitos, as belas cebolas, as batatas, suas irmãs, que só esperam pelo seu melhor amigo, o bacalhau", coisas assim), dizia, toda esta propaganda disseminava a imagem do pobrezinho mas honrado Portugal, reduto intocável de paz, felicidade, alegre modéstia, mimosa fé, alheio à guerra, ao holocausto, aos próprios refugiados que invadiam Lisboa - "pois que tudo são coisinhas", como escreveu Garcia de Resende (quer dizer, escreveu mais ou menos isto, não posso garantir que saiba de cor) a propósito da corte portuguesa renascentista. Era o que se passava em Lisboa - tudo eram coisinhas, alegres, frescas, fadistas. Interessantíssimos os relatos de Saint-Exupery e Alfred Doblin, que eu não fazia ideia que tinham passado por Lisboa, mas que estiveram de facto cá em 1940 - ambos falam de como a luz da nossa belíssima cidade (aqui, sem sombra de ironia - Lisboa é efectivamente uma beleza, e ainda bem) acaba por ter um efeito muito mais desconcertante do que apaziguador. Um falso paraíso, uma paz prestes a desmoronar-se, todo um povo que quer com toda a força acreditar, prodigiosa e irrealisticamente, que a guerra está lá longe, que não o afecta.
Algumas imagens do documentário são aterradoras, e isto porque ainda se reconhece tanto do país da altura naquilo que o país é agora (sim, isto é um lugar-comum mais do que comum, bem sei; já quando se lê o Eça se percebe que ainda há tanta coisa igual, blá, blá... mas os lugares-comuns têm uma vantagem, é que normalmente são verdadeiros).
Mas quem sou eu para me queixar. Vamos ter feriado porque o Papa nos vem visitar, e isso para mim é sinal dos tempos, que a liberdade está a passar por aqui. Há que rejubilar.

Henry Chinaski

Quando aparecia a feira na cidade, toda a gente lá ia. Era um acontecimento.
Eu gostava da feira porque era a única altura do ano em que se podia comprar pão doce, fresquinho e com uma camada de açúcar por cima. No resto do ano, nenhuma padaria o vendia.
A juventude gostava de se concentrar na pista de carrinhos de choque. Os rapazes vinham do frango assado ao jantar, fim de tarde na feira, e exibiam ali a destreza automobilística, já que ninguém os deixava tirar a carta. As raparigas usavam gel no cabelo, vestiam fatos de sair e agrupavam-se ao pé da pista, a lançar olhares ansiosos aos condutores, na esperança de que eles as convidassem para encontrões e solavancos de encontro a outros carrinhos. Às vezes, funcionava, e a noite acabava por detrás de um qualquer pavilhão, já com os carrinhos bem esquecidos e com a mente concentrada noutros choques bem diferentes; outras vezes, não funcionava, e lá voltavam as raparigas para casa, em bando, o gel no cabelo que afinal não fizera diferença nenhuma, mais valia nem terem posto nada. Se era Carnaval, ainda levavam com um balão de água em cima, ouviam os rapazes que o tinham lançado a fugir e a rir, e chegavam a casa como verdadeiras gatas pingadas.
Para mim, a noite acabava sempre a vomitar, que pão doce e rodopios de carrinhos de choque me davam mais que voltas ao pobre estômago. O gel no cabelo não adianta nada quando se sofre do estômago, e portanto nunca me incomodei com isso. A feira também costumava vender calendários com fotografias de pessoas famosas, a Marilyn, o Elvis, o James Dean. Uma vez, encontrei um conjunto de calendários com os Beatles e comprei logo, muito satisfeita com o meu achado. Nessa noite, senti que o vomitanço tinha compensado.
Nas outras noites, nem por isso. Não me querendo comparar, percebo perfeitamente Henry Chinaski. Além disso, não gosto de feiras, nem nunca gostei.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Este post não "fluiu". A magia não se deu. Só para avisar.

A escritora Joanna Trollope considera que as mulheres são infelizes porque, com estes pós modernos, criam falsas e exageradas expectativas relativamente aos homens. Diz a Joanna que não é realista fazer uma listinha e esperar que os homens, ou um homem em particular, reúna critérios como ganhar muito dinheiro, saber cozinhar, ser desenrascado e um animal fogoso, tudo ao mesmo tempo. Aliás, o que ela diz exactamente, e que retiro dessa instituição do mais imaculado jornalismo britânico que é o Daily Mail, é:

People have to throw away this absurd Vera Wang shopping list which says of a man that he has to earn £100,000 a year, that he has to be able to cut down a tree, play the Spanish guitar, make love all night and cook me a cheese souffle.


Acontece que, nunca tendo lido os livros da Joanna, mas partilhando da opinião de Savaater de que todas as pessoas são respeitáveis independentemente da opinião que têm, não tenho motivos para não respeitar também aquilo que ela, Joanna Trollope, se lembra de dizer. E, de facto, acho que há uma certa verdade no que diz. Da mesma forma que a publicidade, os filmes, e talvez apenas os sinais dos tempos, permitiram aos homens idealizar suecas ou americanas louras e inteligentes, também as mulheres idealizam o marido médico a destilar dinheiro e amor perpétuo - como se constata ao visionar pérolas televisivas como Anatomias de Grey e quejandos, com o neurocirurgião absolutamente derreado à vista da sua subalterna, que ele quer apenas proteger e amar, e que é, de forma reveladora, carinhosamente apelidado de "McDreamy". Pois.
Lendo a blogosfera e falando com as pessoas, acho que efectivamente concordo com Joanna Trollope. Toda a gente tem exigências absolutamente arrebatadoras e impossíveis relativamente aos outros. As das mulheres em particular, que são as que conheço melhor porque eu própria também não consigo evitar certas destas exigências, vão desde inteligência, cultura e educação a cor dos olhos, rabo giro, roupa gira, nariz pequeno, nariz grande, sinal na cara, moreno, alto, baixo, gordo, "misterioso", "decidido", "confiante", "sensível", "que não tenha vergonha de chorar", "que nunca chore", "artístico", "artístico sem ser gay", "que seja de esquerda", "que seja de direita", "que seja centrão", "que nunca vote", enfim, uma imensa panóplia que com certeza os homens também terão quando idealizam a mulher perfeita.
O problema é que, às vezes, estamos mesmo à espera que as pessoas reúnam esta parafernália toda de qualidades, e temos uma lista mental com tópicos que vamos riscando, "ai, mas eu não quero uma pessoa que diz 'há-des", "ai, mas eu nunca poderia gostar de alguém que acha que cinema português é Adão e Eva", "ai, mas eu nunca poderia gostar de alguém que usa pullover por cima dos ombros", "ai, mas eu nunca poderia gostar de alguém que foi ver a Beyoncé ao vivo e adorou", etc., etc. Confesso que estou a traçar um quadro propositadamente negro - compreendo perfeitamente que ninguém queira partilhar um minuto, quanto mais a vida, com indivíduos que correspondam a este perfil.
Mas enfim, chega-se a um ponto em que tempos de perceber que há coisas que não têm importância nenhuma (não são, seguramente, "há-des" e gostar de Beyonce, mas talvez, por exemplo, o pullover por cima dos ombros seja tolerável... ou talvez não). E que, ou abrimos os olhos para as pessoas que nos rodeiam e que talvez sejam, sei lá, "espectaculares", ou nos sentamos, especados e especadas, pacientemente à espera de Godot que, como Beckett ensina e bem, nunca há-de chegar e é bem feita.
No entanto, agora estou a ver as notícias que anunciam que a Grécia acabou de descer para uma nota BB+, que pelos vistos quer dizer que, nas palavras do jornalista, "é lixo que não interessa a ninguém". E, sinceramente, não quero saber da Joanna e de quem quer um homem que ganhe as tais cem mil libras e toque guitarra espanhola, de que eu por acaso até nem gosto, nem de quem tem listas com as qualidades do príncipe encantado, nem nada destes assuntos.
Neste momento, odeio profundamente essas agênciazecas de rating, odeio toda a alta finança e taxas de juros e instituições e transacções de capitais e ataques dos mercados, e todos os imprestáveis governos gregos, enfim, todos esses seres malignos que permitem que a "minha" Grécia seja enxovalhada desta maneira, nós pelo mesmo caminho, e o futuro, como diria o grande Herman, visteze-o? Era o viste-lo.

terça-feira, 27 de abril de 2010

Gramáticas


Este livro, A Concise Chinese-English Dictionary for Lovers, é uma pequena delícia. É mesmo assim que o quero descrever. É um doce "cupcake" em forma de livro. Trata da história de Z, uma jovem chinesa que vai viver para Londres para aprender inglês e acaba por se apaixonar por um homem mais velho, com uma vida inteira atrás. Ainda não acabei de ler, mas já suspeito que vai tudo acabar em tragédia.
O maior interesse do livro não é a rápida história de amor. É a forma como Z procura descrever tudo o que vai experimentando e sentindo em inglês, ao invés da sua língua materna, o chinês. Uma vez que Z quase não percebe inglês, mas tem um desejo incendiário de aprender tudo e saber todas as palavras, fazendo-se sempre acompanhar por um precioso dicionário, o seu processo de aprendizagem emocional é absolutamente paralelo à aprendizagem linguística.
A beleza deste livro está na premissa bonita de que a linguagem emoldura e define tudo o que sentimos e vivemos. Sem linguagem, não há pensamento, porque tudo o que pensamos tem de ser verbalizado. Esta hipótese foi desenvolvida por Sapir e Whorf que, com a sua famosa, e até certo tempo popular, teoria da relatividade linguística, disseram que ninguém vê as ondas do mar da mesma maneira.
De alguma forma, esta simpática e doce teoria, que eleva a linguagem aos píncaros, e que a torna a rainha de todas as percepções de todos os mundos, caiu em desgraça. Mas a Z, deste livro que estou a ler, concordaria com certeza com este poder essencial da linguagem, ela que vai aprendendo o mundo em que vive à medida que o verbaliza, conseguindo pérolas de sabedoria como:

Chinese, we not having grammar. We saying things simple way. No verb-change usage, no tense differences, no gender changes. We bosses of our language. But, English language is boss of English user.

É verdade, concordo com a Z. E, baixinho e em segredo, concordo com Sapir e Whorf. Ninguém vê as ondas da mesma maneira, tanto que há pessoas baixas e pessoas altas, de modo que os baixos vêem golfadas que vêm para os engolir e os altos vêem grandes poças de água. A gramática, nestas alturas, varia muito e é de facto grandemente relativa.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Endireitar a vida

Bom.
Chegou a hora de dar uma volta à minha vida e começar a andar com as coisas para a frente, que o mundo é um lugar duro e, como diz a canção que ostenta o meu nome, cerra os dois punhos e andou.
De modo que se aceitam ideias para uma trash-novel com laivos de falsa intelectualidade e com uns quantos name-droppings incisivos, para agradar a um largo espectro de leitores, isto é, os leitores mais exigentes satisfazem-se naquela atitude de sobranceria que lhes é comum (ó rapariguinha, isto de que tu falas também eu conseguia escrever e muito mais, pá, mas pensas que és a única a conhecer o Noam Chomsky ou quê) e os leitores menos exigentes satisfazem-se a pensar que são espertos por conseguirem ler tão bem e tão rapidamente um livro que até fala do Noam Chomsky (atenção: estamos aqui a falar da dupla versão de Noam Chomsky, o comentador político e o linguista. Uma coisa com nível).
Prometo uma recompensazita de aí uns 2%, o que é avultado, porque o livro vai vender milhões e vai ser traduzido, no mínimo, para espanhol. Estamos a falar de Brasil e restante América do Sul a comprar.
Por enquanto, estou a pensar num romance que começa com uma trintona meio intelectual, tipo galeria de arte ou universidade, na cama com um falhado qualquer com problemas de droga; o falhado é super giro, mas estraga-lhe a vida toda e envergonha-a à frente dos amigos ricos e intelectuais.
Como se constata, isto precisa de ser apimentado, de modo que, como disse no início deste post, aceitam-se ideias e sugestões.
Bem-haja, muito obrigadinha.

sábado, 24 de abril de 2010

A atracção do abismo

O meu pai fala, às vezes, da atracção pelo abismo, e que é o estranho fenómeno que acontece quando estamos perante uma coisa terrivelmente má, mas da qual não nos conseguimos afastar, de tão intenso é o maléfico e pernicioso desejo de ver o Mal com os nossos próprios olhos. O meu pai, por acaso, viu o Mal quando apanhou na televisão, há imensos anos, um concurso que na altura era medonho mas que hoje, devido ao meritório esforço e trabalho da TVI, seria apenas sofrível, e que se chamava A Amiga Olga.
Bom. Eu sinto esta necessidade do Mal muitas vezes. Por exemplo, estou neste momento a ver um programa sobre casais com filhos pequenos e absolutamente hediondos, que berram, gritam, esganiçam-se, atiram comida para o chão, fazem birra por tudo e por nada, não dormem, não deixam os pais em paz. Por um lado, quase dá vontade de chorar, tal é a pena que se sente pelos pobres e desesperados pais. Por outro lado, não dá pena. Dá vontade de rir, um riso vil e de baixeza inominável, porque não sou eu naquela situação.
É este o efeito do Mal. Por isso é que é o Mal. Torna-nos más pessoas, pelo menos a mim.
Mas continuo muito bem-disposta por não ter a vida daqueles casais com crianças doidas. Posso ter a atracção do abismo, mas não desço às suas profundezas.
Continuo a ler o Ham on Rye e a gostar muito. Li na Wikipedia que Bukowski costumava dizer "don't try", e que tal sentença até está na sua lápide. Não se deve forçar certas coisas.
Eu concordo, e acho que é um pensamento com muita razão e muita inteligência. Por isso é que eu não tenho escrito, não tem dado. E não consigo tentar. Quanto mais tento, pior fica.
É assim.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

...dir-te-ei quem és?

Ofereceram-me um livro de contos da Katherine Mansfield (uma querida amiga, que já não vejo há uns tempos; resta dizer que me ofereceu o livro também há uns tempos); na contra-capa, podia ler-se que, entre vários outros excelsos talentos de Katherine, um deles avultava, e que era o ter sido amiga de D. H. Lawrence e de outro qualquer que não me lembro. O Lawrence atraiu-me mais, porque dantes eu era verdadeiramente uma groupie do D. H. Mas adiante, que isso foi há tempos idos e eu não vou estar agora a retomar, muito menos relatar, cavalgadas passadas.
Dizia, a Katherine Mansfield vinha recomendada por ter sido amiga do D. H. Lawrence. Pergunto-me se isto tem alguma coisa a ver com o eventual talento literário da senhora. A não ser que a qualidade literária se pegue na mesma medida que nesse tempo se pegava a sífilis ou a tuberculose ou a escarlatina ou sei lá.
Nunca confiei muito naquele provérbio piroso (há tantos provérbios pirosos que nem sei por onde começar) que dita "diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és". Acho uma injustiça e, se encerra alguma verdade, esta será, com certeza, muito, muito, muito parcial. Parcialíssima.
A não ser que escolhamos as pessoas por quem nos apaixonamos (os amigos incluem-se no grupo das pessoas por quem nos apaixonamos), isto de alguém ser amigo do outro não me diz mesmo nada. A não ser que seja alguém amigo do Hitler - aí, abro uma excepção.
E porém, de certa forma, acabamos de facto por escolher os nossos amigos. Controlamos o coração de alguma forma.
Isto para dizer que o facto de a Katherine Mansfield ter sido amiga do D. H. Lawrence é absolutamente indiferente para a minha apreciação, e até gosto, por aquilo que ela escreve. Diz-me com quem andas e quanto muito digo-te o que queres da vida, mas não mais do que isso.

terça-feira, 20 de abril de 2010

Música para "começar"




Aquela música que ouvimos, por magia, quando "ele" (ou ela, dependendo dos casos) chega. Assim, mesmo à filme.
Que lamechiche tão fofinha.

Música para "acabar"




A música perfeita, perfeita para o desgosto. É assim a vida, sem contemplações ou festinhas na cabeça. Pronto.

(não sei se já disse, mas o Revolver é uma obra-prima.)

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Ginásios

Já descobri por que abomino ginásios.
É porque tenho de estar ali ingloriamente a fazer figura de parva numa bicicleta que não vai a lado nenhum? Não.
É porque tenho de exibir protuberâncias que quero manter escondidas ao mundo, e deixar que os meus olhos se firam com a vã flacidez de outros seres humanos, também eles ingloriamente batalhando num tapete andante que os há de deixar para sempre à espera de Godot? Não.
É porque os espaços interiores, de luz artificial do ginásio, me deixam indisposta e a sentir-me na Caverna? Não (quer dizer, sim, mas neste caso, não).
É porque não gosto da roupa que se tem de usar em ginásios. Detesto a roupa. O meu problema é de ordem estética, e não física.
A roupa de desporto é pavorosa. Calças largas demais ou justas demais, sem qualquer forma ou feitio minimamente elogioso. Sapatos de ténis de cores incompreensíveis. T-shirts que, já não lhes basta a forma quadrada e anódina, se colam à pele, independentemente do tecido. Blusões disformes. Nada se aproveita, tudo se transforma em trapos garridos e sem jeito.
Não conheço ninguém, ninguém, ninguém que fique bem com roupa de ginástica. Toda a gente fica mal. Às vezes, encontro pessoas na rua que encontrei no ginásio. Algumas delas continuam a parecer tão mal como no ginásio, o que é pena. A maior parte delas consegue, porém, um aspecto normal, de ser humano com alguma decência. Essa decência, com pêlos e peles rotundas à mostra, é difícil de manter. E é esse espectáculo da pobre vaidade de todos nós, enfiados em roupas feias e disformes, que se contempla num ginásio e é isso que eu não suporto. De modo que faço o sacrifício de não ir ao ginásio.
Sim, porque é de um sacrifício que estamos a falar. Entre ficar a casa a provar um Hagen-Daazito e ir ao ginásio pular e fingir que me divirto até à exaustão, prefiro claramente a segunda opção. Mas sou uma pessoa sensível à estética, e portanto não vou.
Como se constata, este post é de uma utilidade extrema.

domingo, 18 de abril de 2010

Caridadezinha (ou: Jack the Ripper - uma reflexão)


Este post interessa-me a mim apenas, portanto gostaria de avisar já que, provavelmente, os leitores que fazem o favor de passar por aqui não vão apreciar sobejamente o que escrevo a seguir. É sobre o Jack the Ripper; a maior parte das pessoas que conheço não acha piada a este assunto e manda-me calar quando falo sobre isto, mas como, no meu próprio blog, ninguém me cala, pronto, aqui estou eu a preparar-me para, finalmente, escrever um post com tudo o que me apetece dizer e reflectir sobre Jack the Ripper. Tenho este interesse nos crimes de Whitechapel; é uma idiossincrasia minha.
Em primeiro lugar, aquilo que se aprende e descobre ao tentar estudar os mesmos crimes é a pobreza angustiante que se vivia no East End, e que afectava homens, mulheres e crianças de forma absolutamente avassaladora. Sem outro recurso que não fosse vender flores no mercado a troco de miséria, ou prostituição a troco também de miséria, a vida das mulheres em particular era dura e normalmente culminava numa morte desdentada, abandonada e ao frio em coma alcoólico, no meio da rua. O que ganhavam mal pagava uma enxerga suja numa qualquer espelunca, a dividir dormitórios com outros miseráveis de má sorte. Uma das vítimas do Ripper, Annie Chapman, morreu porque, na noite em que a esquartejaram, calcorreava a rua às cinco da manhã, sem ter comido nem bebido, doente e mal se sustendo em pé, à procura de um qualquer cliente para que pudesse regressar à pensão de onde a tinham expulsado e pagar uma cama para dormir umas horas. E, como ela, havia muitas. Todas as vítimas do Ripper, excepto a última, mais nova e mais bonita, eram quarentonas desempregadas e irredutivelmente desamparadas cujo melhor amigo era a cervejola no pub. George Bernard Shaw declarou até, à altura, que, se os crimes do Ripper serviam para alguma coisa, seria para finalmente chamar a atenção para a pobreza inominável em que se vivia no East End londrino.
É precisamente a morte de Annie Chapman que mais me intriga. Morreu num pátio interior, por volta das 4.30 ou 5 da manhã. O dia já clareava, aliás - sabe-se que, nesse dia, o sol nasceu por volta das cinco da manhã, precisamente. As pessoas que viviam no prédio com janelas sobre o pátio onde Annie Chapman morreu já se afadigavam para um dia de trabalho. O mercado de Spitalfields, mesmo ali ao lado, cinco minutos a pé se tanto, abria às 5 da manhã. A única casa de banho do prédio ficava no pátio onde Annie Chapman foi assassinada. Quem a matou teve tempo de, em mais ou menos meia hora ao que tudo indica, lhe cortar a garganta, esquartejá-la e retirar-lhe o útero. E também teve tempo de abandonar o local. Ninguém viu nada. Ninguém ouviu nada. Pelo menos, nada de incriminador ou que apontasse para uma pista concreta.
À luz do dia, o tal Jack the Ripper esquartejou uma mulher, num pátio de um prédio onde várias pessoas estavam já acordadas, saiu pelos vistos sem uma nódoa de sangue, uma vez que não atraiu as atenções de ninguém quando chegou à rua, e ninguém viu nada. Absolutamente nada.
Como é que isto é possível? Não me parece possível. Há quem diga que, quando o Ripper abandonou o pátio, foi facilmente confundido com os vários talhantes que trabalhavam no mercado de Spitalfields e que usavam aventais ensanguentados. Talvez. A não ser que o assassino se desse ao trabalho de se vestir mais ou menos como um talhante, não me parece plausível, porque Jack the Ripper não parece ter sido um serial killer altamente inteligente; ao que tudo indica, foi apenas altamente sortudo.
O seu "perfil" de criminoso indica um indivíduo que, mais do que esperteza, foi apenas bafejado por uma grande sorte ao nunca ter sido visto nem apanhado por ninguém. Matava furiosamente quando podia (os crimes aconteceram todos em fins-de-semana ou em vésperas de fim-de-semana, podendo concluir-se que eram perpetrados por alguém que trabalhava e que não tinha tempo para grandes cavalgadas durante a semana), mas não seguia um método severo e apertado. Era o que apanhava à mão. No East End, não lhe seria difícil encontrar, todas as noites, prostitudas que faziam o seu estilo, batidas pela vida, gastas, já nos quarenta, talvez até nos cinquenta. Foi, até, exactamente o que aconteceu numa noite em que quase foi apanhado; interromperam-lhe a tarefa, teve de fugir apenas com tempo para cortar a garganta a Elizabeth Stride, e rapidamente encontrou outra mulher perdida pelas ruas, Catherine Eddowes, a quem teve mais tempo para aplicar os correctivos que considerava necessários. Se não dava com uma, dava com outra; ia-se adaptando até concretizar os seus objectivos, sem se importar com grandes rupturas ou distracções. Não era, pois, um criminoso muito manipulador, meticuloso, cuidadoso. Tinha um certo modus operandi e gostava de o seguir como podia, mas não de uma forma rígida e severa. É, pelo menos, o que me parece, a julgar pelo que tenho lido.
Não percebo como é que nunca o apanharam. Mas a injustiça dos crimes permanece, e ainda hoje é perpetuada sempre que se escolhem mulheres como vítimas por serem, à partida, presas mais fáceis, nomeadamente mulheres pobres.
Aquilo que prejudica, e terá prejudicado em 1888, ano dos crimes, a descoberta do assassino, terá sido também a especulação interminável em torno da identidade do criminoso, incontáveis falsos testemunhos, incontáveis 15 minutos de fama. A Metropolitan Police defende-se ainda hoje com alguma veemência, dizendo que a corporação sempre fez o possível e o impossível para encontrar o Ripper. Tudo indica que sim; o que acontece é que, em fins das décadas vitorianas, o conceito de "fazer o impossível" para encontrar um criminoso que matava putas velhas e sozinhas seria com certeza diferente do que aquele que desejaríamos. Basta ler os artigos de jornais dessa época (todos disponíveis no site do Times; basta fazer uma busca no ano de 1888) para perceber, claramente, que o mundo se dividia entre "nós", as classes médias e altas, e os "outros", os desgraçados das catacumbas que vivem lá longe e que, de uma forma ou de outra, têm aquilo que merecem; o máximo que se pode fazer, para nos certificarmos da nossa bondade, é termos muita pena delas. As vítimas são insistentemente descritas como mulheres "da mesma classe"; descreve-se com algum pormenor a localização das ruas, porque se assume, e provavelmente com precisão, que o leitor do jornal não estará, nem deverá estar, familiarizado com as vielas do East End, em si mesmo uma cidade tão diferente da sua Londres. A ideologia notória era a de que, com a caridadezinha, as coisas vão-se resolvendo - George Bernard Shaw, mais uma vez, escreve para os jornais e aponta a caridade com a pior causa de pobreza. Não é com a boa vontade caridosa das classes altas, superiormente estendendo a mão aos desgraçadinhos, que a coisa se dá (e, pela terceira vez neste blog, tenho imperiosamente de voltar a repetir a citação de Sade de que mais gosto, retirada da Filosofia da Alcova: a beneficência é mais um vício do orgulho do que uma verdadeira ostentação da alma; é por ostentação que se dão alívio aos semelhantes, nunca é com a pura intenção de praticar um acto bom).
Estes crimes passaram-se há muito tempo. Mas permanecem, não apenas porque o criminoso nunca foi apanhado. É porque pobres, miseráveis, e desgraçadas putas velhas continuam a existir, embora a gente tenha aquela sensação de que desapareceram da face da terra, levados pelo Jack the Ripper ou outra entidade igualmente estranha.
Às vezes, até pensamos que nunca chegaram a existir. Ou pior, que já não existem.

O meu país estranho e seu cheiro a sovaco


Envelheço.
Descubro um fascínio inaudito, ainda mais profundo, por Cesário Verde, António Nobre, José Malhoa, Amália, procissões, saias de nazarenas, galos de barcelos, santos antónios (estátuas, não as fogueiras), meninos jesus gorduchos, fado, aventais, bairros altos. Sorrio, quase melancólica, ao ver as hordas de jovens mal vestidos a cheirar a cerveja velha que percorrem a estreiteza do Bairro Alto. Com grande esperteza e alguma piada, Jorge de Sena dizia, no seu "incontornável" poema A Portugal, que este país está repleto de poetas tão sentimentais "que o cheiro de um sovaco os põe em transe"; eu estou ainda pior - o Bairro Alto cheira a sujidade, a álcool barato, a ganza, a juventude errónea, e eu encanto-me. E nem sequer sou poeta, sentimental ou não. E porém, encanto-me.
Envelheço, agora sem a mais pequena sombra de dúvida.
Encanta-me o país pequenino com erros de ortografia. Senhoras Nagonias. Que é dos pintores do meu país estranho, onde estão eles que não vêm pintar? Agora e sempre, António Nobre.
Estou mesmo velha.

E talvez tudo isto se deva à exposição da Joana Vasconcelos no CCB. Os corações de Viana com a voz da Amália por trás arrasam qualquer um. É a portugalidade que nos invade. Seja lá o que "portugalidade" queira dizer.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Reparei agora que, num post ali em baixo, escrevi que sentia que me podia "aninhar" numa ilha.
"Aninhar"? Mas eu agora sou o tipo de pessoa que escreve "sinto que me posso aninhar, numa ilha"?
Eu tinha notado que andava em estado de abrandamento. Mas não pensei que pudesse chegar a este ponto.
Acho que vou ter de fazer uma grave pausa para séria reflexão. Seriíssima.

Salvação, meu irmão

Li aqui (um blog lindo!) o seguinte excerto de uma entrevista a Stanley Kubrick, a propósito da Laranja Mecânica:

Q.
Alex loves rape and Beethoven: what do you think that implies?

Stanley Kubrick: I think this suggests the failure of culture to have any morally refining effect on society. Hitler loved good music and many top Nazis were cultured and sophisticated men but it didn’t do them, or anyone else, much good.

É aterrador. Kubrick tem razão.
Quando li, lembrei-me daquele texto incontornável de Almada Negreiros, que entra numa livraria, conta os livros e os anos que tem para viver e chega à conclusão de que nem para metade da livraria tem tempo. E que a salvação tem de estar noutro lado.
Não está nos livros, nem na música, nem em Beethoven, ou Wagner, ou sushi e caviar, ou Dior e Chanel. A questão, porém, é que a salvação também não estará, com toda a certeza, em Ágata e Emanuel, Paulo Coelho e Nicholas Sparks.
Talvez tenha de me resignar ao facto de a arte não servir para nada. E o seu valor residir nisso, em não servir para nada. Quer dizer, serve para nos fazer sentir melhor, o que é importantíssimo, mas talvez não tenha, efectivamente, um propósito social e político de maior.
E porém, esta inocência, ou imunidade, da arte é algo que me recuso a aceitar. O estético pelo estético, que Harold Bloom diz definir o cânone, não pode ser aceite como inocente, resguardado, separado do mundo e das vidas dos homens, que incluem, essas vidas, o bem e o mal. Tal como a arte.
Onde estará, então, a salvação? Aguarda-se e agradece-se rapidez na resposta. Sem outro assunto, subscrevo-me atenciosamente.

Talvez por estar enredada no império do cinema hollywoodesco (que é bastante bom, em minha opinião), devido a anos e anos de visionamente, espero sempre mais de filmes que não sejam americanos. Vou sempre a contar com um filme artístico, actores sensíveis, realizadores informados e empenhados, esquecendo-me de que, tal como no cinema americano, qualquer filme, europeu, asiático ou o que seja, pode ser tão mau como um qualquer Van Damme (que, curiosamente, nem sequer é americano; o Steven Seagal, por seu lado, é americano demais, e o seu rabo-de-cavalo tornou-se já num tal lugar-comum do ridículo que nem sequer me atrevo a dissertar sobre isso). Enfim. Como dizia, vou sempre com grandes expectativas relativamente a filmes que não venham de Hollywood. Os últimos que vi desiludiram-me, porém, levando-me à conclusão de que, hoje em dia, como em tudo na vida, é verdadeiramente difícil, diria até árduo ("árduo" dá aquela ideia de que temos de trabalhar para obter; é uma palavra esplêndida), encontrar originalidade seja onde for.
Bom. Vi o Thirst, de Park Chan-wook, e devo dizer que este filme me enchia de expectativas. Primeiro, porque adorei os filmes anteriores de vi do Park, momemente Lady Vengeance, mas mais especificamente Old Boy, que é uma obra prima. Em segundo lugar, os temas que este realizador normalmente retrata (violência, vinganças, traições, crimes, mistérios, etc.) também me interessam, no sentido em que acho que, normalmente, resultam em grandes filmes.
Mas não foi isso que aconteceu. Thirst não é mau. Também não é brilhante. É, meramente, normal. Transformar as personagens principais em algo que se assemelha a vampiros já começa a ser estafante, mas enfim, a perspectiva de Thirst sobre o vampirismo até é gira. E porém, tudo culmina na mediania. Entristeceu-me, porque quando ouvi falar de Thirst e de Park Chan-wook a fazer um filme sobre vampiros pareceu-me, sinceramente, ouro sobre azul. Mas não, na verdade foi apenas, digamos, latão sobre azul-cueca (que designação deslumbrante) deslavado. Cobre, pronto, para compor. Mas não mais do que isso. No entanto, o poster do filme é bem bonito:

A minha segunda desilusão prende-se com Tony Manero, de cujo brilhantismo só duvidei quando efectivamente vi o filme, tanto mais que este último vinha muitíssimo bem recomendado, repleto de críticas a rebentar de elogios e untuosidades várias. E, de facto, a ideia de retratar a história de um tipo vadio, perdedor e falhado, de cinquenta e tal anos, que vive obcecado com a personagem de John Travolta em Febre de Sábado à Noite, na ditadura chilena, pareceu-me assim gira, gira, gira.
Mas não é. Quer dizer, a ideia, quanto a mim, continua gira, mas o filme é que não é. Irritou-me a forma martelada e quase irresponsável com que, de vez em quando, o filme se lembrava que afinal a acção se passava sob a violência de uma ditadura sanguinária, para mostrar umas pessoas à toa que eram presas ou mortas por distribuir panfletos. Só isso. Li uma crítica que considerava que a personagem principal, ele próprio violento e estéril, seria a personificação da ditadura, mas eu não vou muito nisso. Não me convence. Tony Manero é, infelizmente, pouco original e pouco interessante. Vê-se. Já vi pior. Também já vi melhor.
Ainda bem, porém, que isto aconteceu, para eu aprender de uma vez por todas que não vale a pena querer ser artística, usar óculos de massa e ir ver cinema não americano só porque não é americano. O que interessa é ir ver cinema bom. E isso, felizmente, existe em todo o lado, em todos os países. É conseguir descobrir onde ele está (nota para dizer que nada tenho contra cinema americano, pelo contrário, até - tenho tudo a favor. A maior parte dos meus fimes preferidos é americana, começando logo pelo inesquecível Sunset Boulevard, a doce Annie Hall, etc., etc., etc. ... imagens que ficam e ficarão comigo para sempre. A embelezar os meus pensamentos, que precisam sempre muito de renovações estéticas).

terça-feira, 13 de abril de 2010

Publicidade enganosa

O Facebook é uma "plataforma social" que a gente usa para se sentir de bem com a vida. De repente, temos uma imensa quantidade de amigos e pessoas virtuais (não no meu caso, porque eu só tenho 10 amigos no facebook e são tudo pessoas do café) que, de quando em vez, nos prestam muito mais atenção do que aquela que alguma vez nos poderiam conceder na vida real, e vice-versa. E tudo funciona alegremente.
Mas esta ânsia, por parte do Facebook, de nos convencer da nossa popularidade cai facilmente na publicidade enganosa relativa à nossa própria pessoa. Estou a referir-me, em concreto, à caixinha dos "requests" que se encontra no canto superior direito e que nos informa dos friend requests, das invitations, etc. e tal. Também nos informa dos farmville requests e café world requests, que, por acaso, deixaram de me servir uma vez que, já há alguns meses, decidi deixar-me desta coisa dos jogos online, qual heroinómano que passa para a metadona. Continuando, depois desta lista toda de requests, o facebook informa-nos, enigmaticamente, de que temos ainda um x número de "other requests". E ficamos a pensar no que serão estes outros convites. Publicar um livro e ganhar o Nobel, dois em um? Uma oferta super gira por parte do principado do Mónaco, que nos oferece férias pagas e um iate? Cheque vitalício e grátis da Amazon?
Não. Não é nada disto. Estes "other requests" são abracinhos carinhosos, beijinhos fofinhos, corações de várias cores, pillow fights, novamente farmvilles e coisinhas pequenininhas e inuteizinhas como esta. Não atrasam nem adiantam e ficamos na mesma, sem Nobel nem cheque da Amazon nem palacete no Mónaco (que, por acaso, nem é sítio que me atraia grandemente; assim como assim, prefiro o Nobel ou o cheque).
E é esta a grande frustração do Facebook. Por mais popularidade e ilusões que nos traga, não nos torna mais inteligentes, mais bonitos, mais interessantes. Não muda nem um milímetro da nossa vida. É um bocadinho chato.

Quem vive em ilhas, compra um cão


Eu passo a vida com a algo incómoda sensação de que, a mim, e excepto insónias permanentes e enervantes, nunca acontece nada.
No entanto, em retrospectiva, acho que até me aconteceram muitas coisas. Umas más, outras boas, mas aconteceram. E porém, permaneço no mundo como aquela pessoa a quem nunca acontece nada. Não faço as coisas acontecer. Às vezes, olho para os outros e parece-me que os estou a observar à distância. Sei que as pessoas vivem com problemas, angústias, alegrias, mas sinto que tudo isso se passa numa redoma na qual não me incluo.
Talvez seja por isso que goste de ilhas. Sinto que me posso aninhar, numa ilha. Há algo de estranhamente reconfortante em saber que o resto do mundo está a milhas, separado por uma imensidão de água. E as coisas não me acontecem, em ilhas.
Talvez seja também por isto que os meus amigos (aqueles que estão em ilhas comigo) me dizem, "tu arranja mas é um cão, pá, que é para ver se aprenderes o que é tratar de alguém".
Tenho de arranjar um cão. Urgentemente.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Dali enjoa

Não acho que aquelas pessoas que gostam de tudo sejam normais.
Por exemplo, há pessoas que gostam de música clássica. E isso, a elas, basta-lhe - tudo o que seja música clássica, elas gostam. Não há um compositor favorito, mais - não há um compositor que detestem. É isto que não acho normal. Se cheirar a música clássica, serve, ouvindo-se, indiferentemente, Stravinsky e Chopin.
Passa-se a mesma coisa com pintura. Há pessoas que apregoam que gostam muito de pintura. Têm pintor favorito? Se sim, é sempre o Dali (inevitavelmente, até enjoa; a mim, Dali não me diz muito, precisamente porque enjoei. Não há outra forma de o explicar). Se não é Dali, gostam de tudo, exceptuando talvez os modernos, que isso de um quadro todo azul não é pintura a sério.
Normalmente, estas pessoas são aquelas que estão sempre a ver notícias na televisão. Curiosamente, quem gosta de tudo é quem não tem, verdadeiramente, grande gosto por nada. Adaptam a personalidade à medida das coisas que vão aparecendo, de modo que nunca conseguem escolher programas na televisão que realmente correspondam aos seus gostos. E por isso é mais fácil deixar a tv ligada no canal das notícias, que sempre dá qualquer coisa de jeito e evita a pessoa ter a maçada de andar a escolher.
Por isso, eu normalmente aprecio mais quem, em primeiro lugar, sabe aquilo de que não gosta; em segundo lugar, nunca por nunca vê chinfrineiras inenarráveis apresentadas por pobres de espírito, tipo Prós e Contras, na ilusão de que está a ser "informado", e lê as notícias no jornal.
Saber do que não se gosta é essencial.

Char-les Bu-kows-ki

Quando penso em Charles Bukowski, penso em várias coisas. Penso que não gostei nada do único romance que li dele, o Mulheres; penso nas várias pessoas que conheço que o adoram e que me deram alguma da sua poesia a ler (já gostei mais); penso em Roger Crumb, de quem sou fã, que ilustrou um livrinho-diário de Bukowski (The Captain is Out to Lunch...), do qual gosto muito (este livro, sim, tem coisas que me falam ao coração; por exemplo:



E penso, fundamentalmente, num episódio que presenciei na Barata da Praça de Londres já há uma data de anos.
Estava eu, calmamente, a espraiar os olhinhos pelos livros, quando, pelo canto dos mesmos olhinhos, vejo um indivíduo mais ou menos da minha idade, assim com aquele ar de intelectual esforçado, isto é: óculos pretos de massa, pesados, casaco de malha, barbicha. Nada contra; eu até reparei no indivíduo porque, na altura, os intelectuais esforçados era gente que me agradava. O tal intelectual dirige-se a uma das empregadas da loja e pergunta se ela pode ir chamar alguém que lhe dê uma informação, ao que a empregada diz que ele lhe poderá perguntar o que quiser. E diz então o intelectual esforçado, "olhe, então eu vou perguntar-lhe se tem alguma coisa de um escritor americano chamado Char-les Bu-kows-ki." Pronunciou isto muito devagar, a pensar que a rapariga não conheceria, com certeza, escritor tão obscuro. No entanto, a rapariga da livraria, despachadíssima, respondeu-lhe imediatamente que "do Bukowski", de momento, não tinham nada - tinha esgotado, estavam à espera.
Até aposto que o intelectual esforçado teve, naquele momento, o seu primeiro grande desgosto de amor. Ah, que afinal o Bukowski era homem de vários leitores, um vadio, tão vadio e popular que os livros até esgotam na livraria, os empregados da livraria até o tratam apenas pelo apelido, como a escritores do cânone, daqueles que toda a gente conhece. Ah, que afinal o Bukowski não era só para ele... e agora, como impressionar família e amigos com a menção de um tipo que, afinal, toda a gente lê?!
Há coisas que perdem toda a piada quando descobrimos que, afinal, também os outros se apropriam delas, sem nada que possamos fazer contra isso. Somos menos especiais ao percebermos que os outros, a arraia-miúda, gosta exactamente dos mesmos livros, dos mesmos escritores, da mesma música, e que a nossa identidade, cuidadosamente construída em torno de objectos exteriores que deveriam definir o que somos, se desmorona, fácil e fragilmente, só porque alguém também gosta, por exemplo, do Bukowski, ou da Ute Lemper, ou da Sarah Kane, ou daquele grupo afegão radicado na França que grava em Londres e tem um som electrónico-nu/pop-nu/jazz-house-blues, com uma leve influência soul. Quanto a mim, se encontrar outra pessoa que também goste deste grupo, deixo logo de os ouvir.
Isto para dizer que me disseram que uma boa opção seria ler Ham on Rye, do "Bukowski". O livro está, finalmente, na minha mesa-de-cabeceira, esperando eu que apague da minha memória a desilusão do Mulheres.

domingo, 11 de abril de 2010

Down and Out in Paris and London


Then the question arises, Why are beggars despised?--for they are despised, universally. I believe it is for the simple reason that they fail to earn a decent living. In practice nobody cares whether work is useful or useless, productive or parasitic; the sole thing demanded is that it shall be profitable. In all the modem talk about energy, efficiency, social service and the rest of it, what meaning is there except 'Get money, get it legally, and get a lot of it'? Money has become the grand test of virtue. By this test beggars fail, and for this they are despised.

Na absoluta impossibilidade de escrever sobre este magnífico livro, aqui deixo um excerto. Entre o documental e o ficcional, é obra a ler com toda a convicção. Antes de Truman Capote, George Orwell. Veementemente.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Viver v. limpar


Em Inglaterra, há um programa em que duas senhoras muito bem compostas vão a casa de outras pessoas, um bocadinho porcas, e limpam-lhes a casa toda de cima a baixo. Na verdade, as casas que aparecem no programa são pocilgas imundas e certamente mal-cheirosas, lugares peçonhentos que não se compreende que consigam albergar vida humana.
Mas a verdade é que albergam. E com isto quero dizer que, sendo uma pessoa com todo o apreço por limpeza e boa apresentação, sendo até inclusivamente uma pessoa que limpa regularmente a sua casinha, varandas e tudo, e num dia bom até janelas e persianas, sendo uma pessoa desta índole, julgo, porém, que a limpeza é algo sobrevalorizado.
Não entraria nunca numa casa pocilga cheia de peçonha, mas se há algo que me enerva e que causa até um ténue sentimento de desprezo é uma casa a rebrilhar, a cheirar a Sonasol, tudo esfregado até, certamente, terem as unhas saltado dos dedinhos da pobre lavadeira. Não acho natural que os sítios sejam muito limpinhos, a não ser que estejamos a falar de um hospital ou de uma enfermaria. Uma casa onde vivem pessoas tem de ter a sua parte de higiene, a sua parte de arrumação e a sua quota de desarrumação acompanhada por um bocadinho de pó, uma nódoazita aqui e ali (desde que não sejam nódoas na roupa - nódoas na roupa são efectivamente horríveis). É normal. É humano. É sinal de que, naquela casa, as pessoas respiram, vivem, descontraem.
Odeio casas a rebrilhar de limpo. Faz-me lembrar a história do pobrezinho mas honrado, o que eu tenho é pouco, mas olhem tão bem apresentadinho que está. Faz-me lembrar o excerto do Lobo das Estepes, em que o Lobo se senta nos degraus de uma viúva, que os esfregava e voltava a esfregar, para se deleitar com a limpeza arrumadinha da pequena burguesia.
Esta limpeza arrumadinha é uma seca, é uma coisa anódina, é um eterno almoço de Domingo que nunca mais acaba, é a Última Ceia na parede, é aquela árvore que se pendura no carro a deitar cheirete, é o garrafão de vinho tinto na praia, areia nos óculos, cães lulus no sofá (acho que estes cães se chamam poodles e eu não os suporto por serem antipáticos e sempre à beira do colapso nervoso), criancinhas de três anos com pulseiras a desfazerem-se em gritos, tudo condensado num eterno bocejo, aborrecimento, tédio, tédio, tédio.
É por isso que, para mim, uma casa limpa só se suporta com conta, peso e medida. Como tudo na vida, as nossas escolhas deverão ser, à semelhança do que escreveu George Orwell, entre ler e fumar, e não entre viver e limpar. Escolho sempre as primeiras opções.

terça-feira, 6 de abril de 2010

O insanável desejo de férias

Eh pá... a sério... será que sou preguiçosa?
Está-se em Outubro e eu só consigo pensar em Agosto. Julho, pronto.
Está-se em Abril, como agora, e começo a ficar mais contente porque Julho está quase aí. Se me puser a pensar que ainda faltam 3 meses para Julho, fico deprimidíssima.
Só consigo viver a minha vida em permanente countdown para o Verão; se me falha o countdown, e se, por um momento, me ponho a pensar o mundo real é a vida como ela é, e não as férias, não consigo agir nem funcionar, e deixo que a tristeza tome conte de mim. Prefiro pensar que a vida só existe nas férias, e que todos os outros indiferentes, rápidos meses não passam de prelúdios pouco importantes.
Passo os meses normais num estado de pré-vida, em preparação para a verdadeira vida, que chega apenas com as férias e que, do mesmo modo, parte com o fim das férias.
Não sei se é assim para toda a gente. Se não for, talvez as pessoas me possam explicar como é que fazem para aguentar o estado de pré-vida porque eu, sinceramente, não lhe encontro piada alguma e vejo nisso parco interesse.
Talvez o sucesso dos centros comerciais se explique assim, é onde a gente vai passear para nos esquecermos que ainda não estamos de férias, que a festa ainda não começou, que o restaurante ainda não abriu e estamos à espera cá fora, ao frio.

Ir ao cinema


Tive a sorte de, recentemente, poder ver Psycho no escurinho do cinema. Tudo colado ao écrã, cabecinhas espetadas, sem perder um único movimento do Norman Bates na sua fúria raivosa.
E isto para dizer que, sinceramente, o Anthony Perkins é mesmo bom actor. Verdadeiramente muitíssimo eficiente.
E também para dizer que nada é comparável a ver um filme no cinema. Nada. Os filmes foram feitos para serem vistos no escuro, com toda a concentração, sem telemóveis, telefones, televisão, internet, jornais, a atrapalhar. A cena do chuveiro, que eu tinha visto tantas vezes na TV, ganhou todo um novo impacto no cinema, onde os meus olhos apenas podiam olhar, sem descolar, para a pobre Janet Leigh a desfazer-se num grito estridente, a mãozinha estendida, a resvalar cortina abaixo. E os violinos descontrolados que acompanham as facadas, e o desvairado Norman Bates, com as roupas da mãezinha, que na TV já são quase um lugar-comum, transfiguram-se no cinema e regressam ao horror original.
O cinema é a melhor invenção de sempre. Ir ao cinema ver cinema (de preferência num daqueles a sério, onde não há pipocas à venda, tipo Monumental, King, Londres) e deixar os home theatres para mediocridades, é o que eu defendo.
E reiterar que o Anthony Perkins como Norman Bates é mesmo excelente. No cinema, é toda uma outra dimensão que projecta este actor, que realça a sua falsa doçura e a sua insanável loucura. Soube-me muito bem assustar-me verdadeiramente com este Psycho.

quarta-feira, 31 de março de 2010

Casas assombradas


Gosto de casas. Mais especificamente, gosto de casas abandonadas, em ruínas, carcaças à beira da estrada ou perdidas nos pinhais feios deste país, assombradas.
As casas são assombradas não por fantasmas (quer dizer - eu não acredito em fantasmas, mas como dizia o outro, que os há...), dizia, assombradas não por fantasmas, mas por memórias. Quanto mais velha é uma casa, mais memórias tem. Gosto de pensar no que se passou ali, no que poderá ter acontecido para que um lugar que foi feito para acolher pessoas não ter agora ninguém. Pode ter ocorrido um grande e horrível crime, passional, trágico, ou talvez banal, sem sangue, não sei, mas sei que a minha imaginação inventa, inventa, inventa sem parar sempre que tenho a sorte de pisar uma destas pobres casas em ruínas.
Tenho sempre pena quando vejo casas abandonadas com janelas emparedadas, pesadas correntes à porta, para afastar as pessoas de um sítio onde elas deveriam estar. Recentemente, tive a sorte de ir passear a uma montanha alta, verde, esplendorosa, que, além da beleza natural, tinha um hotel abandonado mesmo lá em cima. Nem quis acreditar na minha sorte. O porte escuro, escaqueirado, do edifício despontava por entre árvores e flores verdinhas, frescas, que contrariavam a soturnidade do hotel. Deslumbrante. Quis entrar no recinto, atrevi-me a subir umas escadinhas cheias de erva daninha, mas pus-me imediatamente a fugir a sete, oito, nove, pés, porque ouvi um ladrar imenso de uns cães absolutamente psicopatas, e tive medo que me viessem morder cheios de vontade. Ainda olhei para trás para os ver, gordos, grandes, castanhos, maus. Fiquei com tanta pena de não poder visitar aquele hotel recheado de fantasmas, de coisas que se passaram ali, quem sabe um menino a passear pelos corredores com um triciclo, incessantemente, duas meninas de olhos parados que repetem "come play with us, Danny...", um quarto onde não se pode entrar, uma velha desfigurada, desdentada, louca, a rir...
Vejo muitos filmes de terror. Mas não foram estes que me despertaram o gosto por casas abandonadas, que ninguém quer. Foram dois livros em particular; o primeiro foi Jane Eyre, da minha muito querida Charlotte Bronte (eu adoro as irmãs Bronte, mas o meu pai goza comigo, porque acha que elas são uma grande seca e não tem pachorra para histórias de meninas pobrezinhas governantazinhas; diz-me que eu já devia ter ultrapassado as Bronte, mas não, nunca ultrapassei nem quero), continuando, Jane Eyre, com aquele ambiente quase claustrofóbico, a Jane fechada no quarto vermelho em pequena, a louca fechada no sótão, uma casa cheia de segredos, cheia da vida de muitas pessoas; o outro livro foi Rebecca. A omnipresente mansão de Manderley, com a governanta vestida de preto, sem nada além de fel, ódio, mal, e o também omnipresente fantasma de Rebecca que paira por todos os quartos, vê tudo, sabe tudo, não deixa ninguém escapar. O que será viver numa casa com olhos, com ouvidos, que respira connosco? Consigo imaginá-lo quando encontro casas abandonadas, e por isso gosto tanto delas.
Porém, ainda antes deste dois livros, houve um outro elemento de fundamental importância que me revelou o interesse de um casarão repleto de memórias. Não, não foi um livro nem um filme, mas sim uma telenovela baseada num livro, chamada, dramaticamente, A Sucessora (nota para os senhores da TVI: pensem em arranjar, pelo menos, títulos decentes, retumbantes, para os dejectos que passam todas as noites, Olhos de Mar, Cabelos de Mel, Xixi e Cocó e outras pérolas do género. Uma coisa como A Sucessora, curto e com impacto, é que é). Não me lembro de quase nada desta telenovela, porque, além de ser ainda muito, muito pequena, a minha mãe quase nunca me deixava ver. Lembro-me, porém, que tratava da temática de uma jovem que casara com um homem rico e viúvo, que a tinha levado para o seu casarão onde havia um quarto sempre fechado, uma governanta maléfica, e a memória sempre eterna da falecida mulher. Lembro-me também de chegar ao colégio e todos os miúdos discutirem animadamente o que estava no quarto fechado: o cadáver da falecida mulher; a falecida mulher afinal viva, mas em cadeira de rodas; a versão mais macabra constava da falecida mulher afinal viva, amarrada a uma cadeira sem poder sair dali, alimentada pelo marido à colher.
Esta telenovela era, obviamente, inspirada na Rebecca e no livro homónimo (homónimo da telenovela, ou seja, também chamado A Sucessora) de uma autora brasileira, Carolina Nabuco. Por acaso, no Verão passado, li este livro, cheia de expectativa (tanto que esta Carolina processou a Daphne Du Maurier por plágio, mas, ao que sei, não ganhou). Infelizmente, o livro da Carolina tem não um lagarto pintado, mas alguma falta de piada. Talvez tenha valor pela descrição de algum colorido realista (eish, que profissional, eh eh), mas não achei grande coisa.
Para os queridos leitores que chegaram ao final deste post, que eu duvido que tenham sido muitos, porque isto de ler textos longos em blogs é o que é, eu própria também não costumo ter grande paciência, enfim, para os leitores que me acompanham até ao término, o meu muito obrigado, espero que tenham gostado, amanhã volto, volte comigo.
Era a brincar. Era para imitar aqueles talk shows foleiros e tal, tanto que eu amanhã nem sei se consigo cá vir. Isto para dizer que gosto de casas abandonadas, assustadoras, terríveis nas suas memórias, feitas da vida das pessoas.
E também para dizer que há um site magnífico que eu gosto muito de visitar e que consta de um arquivo lindíssimo de fotografias de locais abandonados. De uma beleza estranha e algo incompreensível, porque locais abandonados costumam ser feios. Mas, na verdade, não são. A beleza está em todo o lado e, de facto, e como dizem os ingleses, está no olhar de quem vê. O site é este.
Agora sim, muito obrigada, até amanhã, talvez.


Karaoke

Esta música permite-me um momento de pausa, em que canto com toda a moral que consigo, escova na mão a fazer de microfone, olhos fechados se preciso for, com toda a alma e todo o sentimento de que sou capaz, assumida e convictamente pirosa, lamecha, de lagriminha ao canto do olho, absolutamente arrebatada, rendida à doçura fofinha, queridinha, tudo acabado em inho, desta maravilhosa canção. Uma absoluta delícia.
Não resisto, mesmo. Adoro, adoro, adoro. Viva o Stevie.

terça-feira, 30 de março de 2010

Gostar de cães


Há algo que me intriga e que se prende com aquele tipo de pessoas de quem toda a gente gosta.
Há, efectiva e estranhamente, pessoas assim, que agradam instintivamente a gregos, troianos, espartanos e quejandos. A todos.
Impressionante.
São, normalmente, pessoas doces, com alguma personalidade, muito divertidas mas sem nunca chegarem ao impositivo, com paciência para ouvir os outros, embora revelando muito pouco acerca de si. São seres humanos de tal modo agradáveis e aprazíveis que é impossível vilipendiá-los, dizer mal, enxovalhá-los, atrever sequer um pensamento ligeiramente menos elogioso acerca deles, sob pena de nos sentirmos as piores pessoas do mundo. Pensar mal deles, ou não gostar deles, equivale quase a dizer que não se gosta de cães. Não gostar de cães é ser péssima pessoa, como todos sabemos, aliás - Edgar Allan Poe compreendeu-o exemplarmente, escrevendo, no seu magnífico conto "The Black Cat", o seguinte: to those who have cherished an affection for a faithful dog, I need hardly be at trouble of explaining the nature or the intensity of the gratification thus derivable. There is something in the unselfish and self-sacrificing love of a brute which goes directly to the heart of him who has had frequent occasion to test the paltry friendship and gossamer fidelity of mere Man (acho este excerto delicioso).
Portanto, há certo tipo de pessoas que, misteriosamente, de formas e trejeitos incognoscíveis, pelo menos para mim, reúnem um consenso inabalável, da mesma forma que os cães o conseguem fazer. Vão directamente ao coração dos outros, como diz Poe, nada a fazer.
Como exemplo, lembro-me apenas de gente tipo Jamie Oliver. Ainda não ouvi absolutamente ninguém que me conseguisse dizer mal do Jamie Oliver. É simpático, bom comunicador, enérgico, tem programas interessantes, cozinha bem, é criativo; mesmo quem o acha irritante não consegue deixar de reconhecer que sim senhora, é um indivíduo que trabalha bem, preocupado com a alimentação das crianças, que tenta melhorar o regime alimentar paupérrimo em Inglaterra, etc. e tal.
O Jamie Oliver é o cão de toda a gente. Eu também gosto imenso dele, até porque tenho tendência para achar cães um doce, excepto quando ladram e se tentam atirar às pessoas. De resto, vão directamente para o meu coração.

O absoluto banco de jardim e a absoluta pessoa que se sentou nele

Daqui a pouco vou ao Campo de S. Francisco ver o banco onde Antero de Quental se suicidou.
Lembro-me de, na escola secundária, ter uma professora de Português que nos tinha explicado o suicídio de Antero pela impossibilidade que este sentia em encontrar o "Absoluto", e que devia ter achado que o tal Absoluto vinha com a morte, o que até se compreende, de modo que enfim, mal por mal, tinha decidido acabar com tudo com dois tiros.
Na verdade, não foi assim tão detalhadamente que ela nos explicou. Disse apenas que, porque Antero compreendera que o tal Absoluto era impossível de encontrar, se tinha suicidado.
Bom. A professora era, com toda a justiça, esforçada, mas este episódio de encontrar a razão para o suicídio de Antero ali, numa aula de uma hora, para gatos pingados de dezasseis anos, foi quase patético. As pessoas de dezasseis anos, apesar de tudo, não são atrasadas mentais (espera-se). Até elas conseguem discernir um disparate de uma coisa inteligente.
Mas enfim. Porque, felizmente, a história do Absoluto que nunca mais chegava, qual Godot, nunca me convenceu devidamente, lá irei eu hoje, respeitosamente, ao banco de Antero.

terça-feira, 23 de março de 2010

O insustentável peso das palavras

Não gosto nada quando as pessoas me vêm chatear com sentimentalidades. Detestando o Primo Basílio, percebo, de alguma forma, o quão irresistível seria gozar com as cartas de romance barato e banal que a burguesinha Luísa lhe enviava. Realmente, aquilo devia ser um folhetim de bradar aos céus, o que, de qualquer modo, não desculpa de todo o repugnante Primo Basílio, mas enfim.
Não gosto, em particular, quando as pessoas usam o verbo "amar" à minha frente, que é verbo que me faz uma espécie que quase desemboca em formigueiro, de tal modo me incomoda. Há palavras com um peso intocável, retumbante, e esta é uma delas. Não se deve usar em público, sem mais nem menos, por dá cá aquela palha, do pé para a mão, ao deus-dará, assim e assado e outros lugares-comuns. Este é um verbo cujo peso é, pura e simplesmente, demasiadamente grande para que eu o possa levantar. Prefiro não ter de pensar nisso.
As pessoas não percebem o peso das palavras. Há palavras leves, diáfanas, como o verbo "gostar", como o substantivo "afecto"; há outras, como Milan Kundera saberia e bem, insustentavelmente pesadas. É o que se passa com o verbo "amar", que esmaga, incomoda. Não quero que me firam os ouvidos com ele.
Mas, por vezes, as pessoas põem-se a falar desbragadamente à minha frente e fartam-se de usar palavras pesadíssimas, insustentáveis, literalmente insuportáveis. Não sei o que posso fazer.
Tenho ouvidos sensíveis. É um problema.

segunda-feira, 22 de março de 2010

Durante o dia, principalmente se tenho tempo para ouvir música, tenho 300 000 ideias absolutamente brilhantes.
Mas depois esqueço-me de todas elas quando chega a altura de ir dormir.
Eu tenho ideias de génio. Infelizmente, tenho uma memória de porcaria.

Embalar a trouxa e zarpar


O poema que mais me contorceu as entranhas por o sentir tão verdadeiro foi aquele de Fernando Pessoa, "viajar! Perder países! Ser outro constantemente".
Gostava de ter o tipo de vida que me permitisse pular de país em país, ilha em ilha, lugar em lugar, sem partir demasiadamente depressa, para me poder afeiçoar, e porém sem nunca ficar o tempo suficiente para me afeiçoar demasiado. Permanecer e partir na altura certa, com conta, peso e medida, tal como a vida bem vivida exige.
O privilégio de poder ser o "outro" quando se quiser, quando assim o entendermos, é algo que invejo. Poder pegar nas malas e deixar tudo, conseguir reunir os pertences numa trouxa, cerrar os punhos e andar. É uma grande liberdade - talvez a única liberdade.
Talvez por isso eu me deslumbre com Corto Maltese, não apenas porque é bonito, alto, moreno e eloquente, mas, fundamentalmente, porque não conhece amarras de espécie nenhuma. Sorte a dele ser apenas personagem de banda desenhada.
Há amarras que são benéficas. O amor é uma amarra. Mas não deixa de ser uma amarra, tal como todas as outras coisas que alguém nos disse uma vez que nós precisamos - casas, empregos, conta no banco, número de contribuinte. Todas estas estranhas identidades heterónomas que quase apagam a nossa própria identidade. É quase contra-natura.
Como é que podemos ser nós próprios quando aquilo que queremos é ser outro, viajar, perder países? Quando nem a nós queremos pertencer?
É muita filosofia para a minha vã cabeça .

Viajar assim é viagem.
Mas faço-o sem ter de meu

Mais que o sonho da passagem

O resto é só terra e céu.


Justificar completamente