Nesta exposição muitíssimo interessante da National Gallery explicam-se algumas, digamos que, falcatruas do mundo da arte - obras falsamente atribuídas a mestres apenas para se tornarem sucesso de vendas, obras modificadas por aprendizes tão argutos e proficientes que a diferença entre o seu traço e, por exemplo, o de Rembrandt se torna quase indiscernível, ou pura e simplesmente quadros que se pensaram, durante muitos anos, falsos e que afinal eram verdadeiros. Como por exemplo, este:
Esta obra de Ucello não cessa de me maravilhar. Parece-me quase inacreditável que tenha sido produzida no século XV, quando me parece tão moderna, vinda de uma banda desenhada do século XX. Repare-se no magnífico dragão, na estética da princesa, nas nuvens de fumo em segundo plano. E porém, Ucello pintou esta maravilha por volta de 1450. Durante séculos, pensou-se que era uma fraude - pintada em tela, coisa rara para a altura por ser tão frágil, e com cobertura a óleo, ao invés de "tempera" de ovo, não poderia com certeza ser obra quatrocentista. E, afinal, era.
E porém. Imaginemos que nunca se conseguira provar que Ucello pintara este dragão inesquecível em 1450, e que a modernidade do quadro anunciava com certeza um século mais recente. Pertenceria o quadro, efectivamente, ao século XV? Como, se todos acreditariam que não? Sabemos com grande grau de certeza que Van Gogh pintou girassóis, que Caravaggio pintou Baco e cestos de fruta e martírios claros e obscuros, que Guardi pintou Veneza. Mas, no fundo, acreditamos - acreditamos que os girassóis são de Van Gogh e que Veneza é de Guardi. Se houver a possibilidade, remota, é certo, de os quadros que conhecemos terem saído da mão de um desconhecido qualquer, isso não faz, com certeza, diferença. Temos situação semelhante com as Cartas da querida Soror Mariana. Alguns dizem que quem as escreveu foi um padre francês, que a pobre Soror lá viveu enterrada no seu convento sem nunca ter conhecido rega-bofes menos próprios com tropas. Outros, como eu, pura e simplesmente acreditam que a querida Marianinha Alcoforado escreveu as cartas - principalmente depois de as ter lido. E, portanto, se eu acredito nisto, o facto de as cartas terem sido, eventualmente, escritas por outra pessoa qualquer não me faz qualquer diferença.
A Gloria Swanson também acreditou até ao fim que o Sr DeMille aguardava o seu famoso close-up. A diferença, no caso dela, é que era a única. Mais ninguém a acompanhava na crença. No entanto, quando o mundo inteiro acredita numa mentira, e se não há ninguém que saiba a verdade, onde está a fronteira entre a verdade e a mentira?
Como dizia o velho e sábio Shakespeare, tudo é ilusão. Para acabar, a belíssima exposição na National Gallery é, mais uma vez, de graça.
E para os queridos leitores que tiveram a paciência de ler este longo post até ao fim, o meu sentido obrigado, boa noite, até uma próxima e muita saúde.
quarta-feira, 7 de julho de 2010
Mas, neste edifício, há, em compensação, muitas pessoas inteligentes, que lêem livros e falam de coisas super-científicas quando vão tomar café. Não sei é dizer se jogam Sims3 ou não, porque muitas deles têm computadores e podem muito bem jogar às escondidas.
Agora a sério - a Biblioteca Britânica tem um painel bem visível à porta, lindíssimo, que diz: "Come in. Knowledge freely available". É mesmo de graça. Com ou sem Sims3.
Pode ler-se, no Y da semana passada, uma entrevista com Alberto Manguel em que este diz que dantes as pessoas tinham vergonha de dizer que eram estúpidas, que só se interessavam por moda ou por jogos de computador, e que hoje em dia já não; hoje em dia, destrói-se "o valor do acto intelectual" e já ninguém tem vergonha de ser estúpido - pelo contrário, é, às vezes, motivo de vanglória. E a razão para, em geral, haver mais gente estúpida é porque há muito dinheiro a ganhar com gente estúpida e pouco dinheiro a ganhar com gente inteligente. Pois é. Nota para dizer que, depois de ler esta entrevista, senti-me muitíssimo mal por ter escrito aqui que gosto de jogar Sims3. Se tivesse lido isto antes, nunca teria admitido tal coisa em público. Agora é tarde demais. Continuando, que isto foi só uma espécie de declaração de interesse, muito honesta, e isso é de louvar. Dizia-se, então, que há mais dinheiro a ganhar com a estupidez do que com a inteligência. Sim. Mas também há um argumento falso de que os media e o consumo promovem a estupidez porque "é isso que as pessoas querem".
Os media e a sociedade de consumo promovem a estupidez porque é mais fácil ser estúpido do que ser inteligente. Não acredito muito que sejam as pessoas que procuram a estupidez. Ah, mas as pessoas vêem o Big Brother, e lêem o 24 Horas (agora já não - faz falta aqui o Nelson, dos Simpsons. Favor confirmar http://www.youtube.com/watch?v=AzSnk3Rbkgk) e gostam das telenovelas da TVI. Pois é. Mas também gostam de outras coisas. Ou poderiam gostar. A gente habitua-se a tudo. De modo que a estupidez parte, de facto, dos media e deste apelo desenfreado ao consumo (cada vez tenho menos respeito pelos meios de comunicação social, especialmente porque reconheço a sua importância fundamental; vê-los insistir em trilhar um caminho de estupidez fácil e de pouco rigor é que é inaceitável). Sim, quem vai na conversa tem a sua parte de estupidez. E talvez haja gente mesmo estúpida. De facto, há. Mas eu tenho uma inefável, estranhamente optimista sensação de que são uma minoria. Wishful thinking.
Comemoram-se os 50 anos de To Kill a Mockingbird (nota para dizer que a tradução do título em português, Não Matem a Cotovia, não faz justiça à grandeza do livro; o título português parece uma coisa Paulo Coelho - hippie - ecologista chato. Há que pensar noutras opções).
Harper Lee, que escreveu o livro, ainda vive, é uma reclusa e não fala com ninguém, apenas ocasionalmente permitindo que os seus amigos e familiares dêem entrevistas por ela. O seu grande amigo de infância, Truman Capote, gostou sempre de espalhafato até morrer, mas não escapou a um certo anti-climax à hora da morte. Talvez Lee queira evitar esse sentimento de perda e, antecipando-o, refugia-se do mundo, evitando que este a deite fora no fim, qual Greta Garbo. Sempre me interroguei porque é que Harper Lee nunca voltou a escrever um romance, considerando que o único que produziu é tão bom. E talvez a razão se encontre aqui, na qualidade imensa do primeiro romance.
Talvez haja um limite, um racionamento, da inspiração. Talvez certas pessoas sejam brilhantes, mas apenas consigam usar o seu brilhantismo uma vez na vida. Escrevem aquilo e pronto. Harper Lee escreveu a cotovia. Orson Wells fez o Citizen Kane. Emily Bronte escreveu Wuthering Heights.
Outras pessoas há que conseguem racionar com mais equilíbrio o seu talento. Picasso não pintou só a Guernica; Saramago não escreveu só o Memorial; Truman Capote não escreveu só o In Cold Blood; Beethoven não compôs apenas a 9ª Sinfonia, e por aí fora.
Porém, o que parece certo é que há sempre um momento maior, uma chama mais intensa, que depois se apaga necessariamente. Há pessoas que escrevem melhor quando começam, e para o fim da vida já não se aturam. Há outras que estão apenas a praticar com os primeiros livros, e os últimos que publicam são verdadeiramente os monumentos. Seja qual for o caso, o momento de glória parece ser escasso, reduzido, único. Não faço ideia porque é que Harper Lee não fala com ninguém, não publica romances, prefere que se esqueçam dela. Talvez saiba que nunca conseguirá escrever outra cotovia. Talvez prefira não escrever. Talvez tenha escrito mas não queira publicar. Talvez tenha medo do olhar crítico daqueles que esperam dela um outro rasgo de brilhantismo. As pessoas brilhantes têm, de facto, um caminho duro a percorrer. Têm a responsabilidade de cumprir sempre com as exigências do seu brilhantismo, e o que fazer naqueles dias em que a cabeça só dá para pizza e cerveja? O mundo à espera, necessitado, de um monumento, do romance, filme, quadro fundamental, ou da revolução do século XXII, e a pessoa capaz de fazer tudo acontecer está ali, a beber cerveja e a comer pizza. Talvez Harper Lee tenha decidido que a sua contribuição para o mundo estava feita, concretizada e acabada com um único romance. Humildemente, a minha opinião é que deveria ter continuado a publicar romances, mesmo que tudo o que escrevesse não passasse de algodão doce que enjoa e dá dores de estômago. Mas talvez seja um peso demasiadamente grande, aquele que Harper Lee escolheu não carregar. E, considerando o livro que nos deixou, a gente perdoa.
Ao que parece, o escritor Martin Amis recusa-se a aceitar, e consegue até bloquear, uma sua biografia escrita por um professor da Universidade de Ulster, Richard Bradford. Amis não gosta de certos aspectos e eventos mencionados, não concorda com o retrato que é pintado, é amigo de quem se diz que é inimigo, inimigo de quem se diz que é amigo, e quer manter a ex-mulher bem resguardada de atenções bisbilhoteiras.
A vida retratada é, de facto, de Martin Amis. Parece natural e legítimo que tenha uma palavra a dizer. Mas, como igualmente se compreende, a palavra que Amis tem a dizer não é apenas uma palavra ou um esclarecimento de factos - é, verdadeiramente, uma errata. O que ele quer, como qualquer ser humano, é, muito naturalmente, fazer uma errata à sua vida - elimina o que ficou mal escrito, apura o que está bem escrito.
Eu adorava, também, poder fazer tal coisa. Já escrevi antes que me dava um jeitão fazer uma errata à vida - onde fui burra, deve ler-se "fui extremamente inteligente"; onde fiz figura de parva e sofri rejeições, embaraços, parvoíceis, desentendidos, equívocos e quejandos, deve ler-se "fui presciente, consciente, ciente, inteligente". E assim por diante. Se, para além disto, eu pudesse publicar esta errata, sabendo que os olhos do mundo pousavam, interessados, em mim, tanto melhor. Qual seria a diferença entre aquilo que realmente sou e aquilo que o mundo acredita que eu sou? Além de mim, não haveria ninguém que pudesse contradizer a errata e afiançar a verdade - a verdade, era eu que a construía. E o meu novo Eu, corrigido e emendado, permaneceria irrepreensível, à imagem e semelhança da perfeição que eu quisesse.
Ou seja - com uma errata, seria a minha hagiografia, e não a minha biografia, que eu poderia construir, e fá-lo-ia com todo o prazer. Martin Amis está na posição de o conseguir.
Mas, como Bardford aponta e bem, uma biografia não é uma hagiografia. Como se diz em estrangeiro, a merda acontece e faz parte da vida. É uma chatice, mas também uma evidência a que ninguém escapa - a vida, no fundo, é como um cadastro que nunca se apaga. A gente faz uma parvoíce qualquer e aquilo fica lá sempre, no passado, a pulsar, a lembrar-nos daquela vez em que fomos tão imperdoavelmente parvos, e agora o precedente está criado e não há perdão.
Kierkegaard sabia disto muito bem e Martin Amis devia lê-lo.
É o meu conselho para ti, ó Martin.
Conheço uma pessoa que tem muito jeito para descrever gente normal, como se constata pelo seguinte excerto:
...e, finalmente, aquela categoria de pessoas que é possível caracterizar com uma só palavra: cinzentas. São pessoas que, por força da roupa, da cara, do cabelo e dos olhos, têm uma aparência turva, cinzenta, como um dia em que não há tempestade no céu mas também não há sol, nem isto nem aquilo: paira uma neblina que tira toda a nitidez aos objectos. (...) Tais pessoas são completamente impassíveis, caminham sem olharem para nada, calam-se sem pensarem em nada.
É a mesma pessoa que, no seu Almas Mortas, descreveu certa personagem como "daquelas pessoas que não é carne nem peixe", o que está bem visto. A normalidade parece muito simples, sem nada que se lhe diga, mas na verdade não é. Carne é carne; peixe é peixe; ambos são possíveis de definir. O que é não ser carne nem peixe, nem um nem outro? Não se consegue explicar. Toda a gente pensa que não é normal porque toda a gente quer ser especial. Mas, na verdade, toda a gente é normal. A normalidade também tem destas coisas - quanto mais lhe queremos fugir, mais normal nos tornamos, porque é normal querer ser especial e não conseguir. Gosto de ler sobre a normalidade. Aprecio muitíssimo quem a identifica e cristaliza exemplarmente. Não é fácil. O extra-ordinário chama mais a atenção do que o ordinário. É mais fácil escrever sobre ele.
Diz que Deus Diz que dá Diz que Deus dará Não vou duvidar, ó nega E se Deus negar Eu vou me indignar e chega
Carinhas larocas como esta, cabelinho comprido e romântico como este, devia ser como a Maria Rueff uma vez disse dos homens bonitos, usa e passa à outra.
Não gosto quando as pessoas dão o dito por não dito.
Eu sei que o faço amiúde, mas não aprecio quando os outros o fazem. E o que é certo é que as pessoas estão sempre a dar o dito por não dito "no que concerne" (oh, expressão bonita) à minha pessoa.
Há pessoas que têm uma certa mania de fazer tudo pela calada, evitando o compromisso pesado da frase declarativa afirmativa e do ponto final. Em vez disso, preferem a ambiguidade cobardolas das reticências e da frase interrogativa.
Em vez de "Passo por tua casa.", dizem "passo por tua casa... passo por tua casa? sim, passo por tua casa...", e depois não passam. Se lhes for pedir satisfações, respondem-me "eu dei-te a certeza de que ia a tua casa? Não, eu disse talvez". E assim se vão safando, graças à sua sábia manipulação gramatical.
Pois. Para mim, a gramática serve para as pessoas comunicarem racional e eficazmente, como dizia esse filósofo interessante que é Paul Grice, cujos ensinamentos fazem falta a certos indivíduos. O ponto final serve para ser utilizado. A frase declarativa afirmativa serve para comunicar algo de forma directa, clara, sem abiguidade - seja perspícuo, lá dizia Grice. Não é para nos refugiarmos na comodidade das reticências, cuja diplomacia é equivalente àquela que deu o Prémio Nobel ao Kissinger. Não tenho, de facto, as reticências em grande consideração. Não percebo porque é que as pessoas insistem em violar de forma tão aberta e abusiva estes princípios fundamentais das regras de conversação e das normas gramaticais, que servem para a gente se entender. Eu defendo o ponto final. Não aprecio quem não o sabe utilizar. A vida tem uma gramática, e portanto era bom que todos soubéssemos utilizar as regras de pontuação.
Eu dantes tinha um dicionário que era da Carina Alexandra. Lá estava, em letras grossas, muito carregadas a tinta azul, o nome dela, Carina Alexandra. Sentávamo-nos sempre os dois nos dias de teste de Inglês e usávamos o mesmo dicionário. Era uma coisa nossa, era como se fosse dos dois.
Até costumava ir a casa da Carina estudar e tudo. Ia de camioneta e depois ela e o pai iam à paragem buscar-me. O pai olhava para mim sempre desconfiado, com uma careta mal disposta. Não gostava de mim porque o cão se enervava todo quando eu ia lá a casa. Bastava-me entrar pelo portão e lá vinha o cão todo esganiçado, todo nervoso, a ladrar e a espumar. Uma vez o cãozeco ficou tão nervoso que eu pensei que me ia morder e dei-lhe um pontapé. Resultou, porque era um caniche, que são cães pequenos, mas a partir desse dia foi um problema para entrar na casa da Carina, porque o cão ora rosnava, ora gania mal me punha a vista em cima, e era um desatino. O pai da Carina adorava o cão e detestava-me a mim, e quando eu lá ia, o pai passava a tarde a consolar o cão.
A Carina e eu tínhamos sempre a mesma nota a Inglês, que era por causa do dicionário que a gente usava sempre. Eu gostava da Carina. Tinha cabelo comprido e usava uns óculos esquisitos. Eu gostava dos óculos, mas ela não. Também tinha um feitio esquisito, resmungava quando não diziam bem o nome dela, que é "Cárina", e resmungava quando alguém tinha notas melhores que as dela. Isso acontecia muito, porque a Carina Alexandra só tinha 3 e quase nunca chegava ao 4, portanto passava a vida a resmungar. Eu gostava, dava-lhe personalidade. Ela era gira.
Houve um dia em que não se quis sentar ao pé de mim nem me deixou usar o dicionário. Nunca mais usei aquele dicionário com as letras grossas a anunciar "Carina Alexandra". A Carina passou a partilhá-lo com um estúpido qualquer da nossa turma que era muito magrinho e passava a vida sozinho, sem amigos nenhuns. Para mim foi muito difícil, sem dicionário quase chumbei a Inglês e ainda hoje é uma língua que eu não sei falar bem. Mas no meu trabalho não faz diferença, qual é o empreiteiro que precisa de falar Inglês? Eu é que não sou, e além disso daqui a uns meses vou viver para o Brasil por motivos que me dão jeito não dizer, e lá fala-se português, portanto as línguas não me vão fazer falta nenhuma.
Noutro dia, via-a e voltei a pensar nela. Tinham-me dito que não tinha conseguido entrar na universidade em Lisboa para o curso que ela queria, que era Jornalismo, e que por isso tinha ficado cá na privada, a tirar acho que era Contabilidade. Mas não deve ter acabado, ou se calhar faltam-lhe cadeiras, porque a encontrei na bomba de gasolina. Estava muito mais gorda, a princípio nem a reconheci. Agora usa o cabelo puxado num rabo de cavalo muito apertadinho, assim com gel ou isso. Tem umas borbulhas na testa que dantes não tinha e já não usa óculos. Os olhos dela parecem muito mais pequeninos sem óculos, muito pequenos mesmo. Parece ainda mais esquisita. Fiquei ao pé da bomba o dia todo, para a ver sair. Chegou um tipo num carro de dois lugares e foi ter com ela. A Carina deu-lhe a mão, pareceu contente. Os olhos encolheram-se todos quando se riu. O indivíduo que a foi buscar era muito magro, muito escanzelado. Também tinha um ar encolhido e não se riu para a Carina Alexandra, até a empurrou e tudo para ela entrar no carro. Passei pela casa dos pais dela, para ver se ela ainda vivia lá, e acho que deve viver, porque vi o carro de dois lugares estacionado. Mas o raio do cão é que ainda não morreu e deve ter-me cheirado, que mal me aproximei desatou a ladrar que nem um desalmado. Fugi dali, não quero que a Carina Alexandra saiba que eu a vi. Acho que amanhã passo outra vez pela bomba de gasolina. Quero saber se ela já foi ao Brasil.
Imagino sempre o Cesário Verde com a cara do B. Fachada, ou por outra - quando o B. Fachada apareceu no cenário musical deste país, eu reparei que a cara que eu normalmente associava ao Cesário Verde era a dele. Olha que coincidência.
É, porém, uma coincidência que não surpreende - ambos são louros, de olhos claros, muito bonitinhos, magrinhos (imagino que o Cesário fosse magro), com um ar frio e frágil. Ambos são poetas, embora aqui, como se compreende, a precedência caiba ao grande Cesário. Serve este post para dizer que gostaria que isto acontecesse mais vezes - olhar para alguém e dizer, "olha, lá vai a cara do Antero de Quental" - por acaso, o B. Fachada também é parecido com o Antero; "olha, lá vai a cara do Bernardim Ribeiro"; "olha, lá vai a cara do Alexandre Herculano", mas menos sisuda, e etc. As coisas são muito diferentes quando conhecemos a cara de alguém. É como ver uma coisa a cores na TV - parece sempre muito mais real do que em preto e branco (daí ser até bem mais interessante ver a preto e branco). É exactamente o mesmo com a cara das pessoas. Há muita gente que vive a preto e branco na minha cabeça, e eu vou lá de vez em quando colorir, pinto os olhos de uma cor um dia, o cabelo de outra noutro dia qualquer. Mas gostava de conhecer, detalhadamente, a cara de algumas pessoas de que gosto, mesmo sem nunca as ter conhecido - como o meu querido Cesário e o seu absurdo desejo de sofrer.
Embora saiba que Viven Leigh protagonizou Um Eléctrico Chamado Desejo (doravante designado por Streetcar, porque eu sou uma pessoa que é asim), e que tal consumou uma injustiça para a também grande Jessica Tandy, que fazia de Blanche na peça da Broadway, dizia, embora estando ciente desta injustiça, não posso deixar de me deliciar com a Vivien enquanto Blanche Dubois.
Primeiro, sou fã da Vivien Leigh desde pequena. Teria talvez uns 10 ou 11 anos da primeira vez que vi o Gone With the Wind e me apaixonei por Rhett Butler e Scarlett O'Hara. Que fogosos, que bonitos, que imperiosos, os dois. É impossível não gostar de os ver a trabalhar, ainda que o filme dure quatro horas e que eu hoje em dia esteja em condições de admitir que, enfim, talvez seja um tanto ou quanto pastelão. Bom. Isto para dizer que tudo em Vivien Leigh como Blanche é frágil e adocicado e perigosamente instável na medida certa. O tom é irrepreensível, e a forma como Blanche balança na corda bamba, entre a sanidade mental e a loucura, é admirável. Os olhos ligeiramente desvairados, por exemplo - como é que se conseguem uns olhos apenas ligeiramente desvairados? Não sei, mas a Vivien consegue-o. Talvez tenha sido ajudada pela força incontida de Brando, que, sendo tão impossivelmente lindo, dá ao seu Stanley uma única vantagem, que não chega para o redimir - o facto de ser bonito e uma força da natureza. Tudo o resto, nele, é bruto e primário. A mulher, Stella, tem-lhe afecto devido essencialmente a questões de ordem física, ao tal desejo que às vezes complica a vida de uma pessoa. Quanto a Blanche, o seu problema é, exactamente, não saber bem o que fazer às tais questões de ordem física e descontrolar-se com isso. Depois faz figura de desavergonhada e é escorraçada da cidade onde vive. Stanley, por seu lado, sabe exactamente o que faz quando se trata de matéria carnal - domina. E a sua única superioridade assenta nisso. De modo que a pobre Blanche, que com a força mental não pode contar, e dada como é a atracções físicas desorientadas, não tem qualquer hipótese. É um problema grave quando o corpo pede coisas que a cabeça não quer dar. Criam-se discrepâncias de grande impacto social. Vale a pena ver e rever o Streetcar. Só me falta ler a peça. Ainda não resolvi este problema.
Não gosto muito do Casablanca. Não quer dizer que não considere um grande filme. Com ou sem a minha consideração, é evidente que Casablanca é um grande filme. E porém não gosto.
O meu desagrado prende-se com aquela tristemente famosa história do "we'll always have Paris". É tão inútil. De que é que serve a alguém estar para sempre ligado a um romance acabado, de lágrimas, que já não traz felicidade e que, por acordo de ambas as partes, foi terminado? Não compreendo.
A questão é que para mim foi sempre óbvio e terrivelmente claro que Ingrid Bergman deveria ter ficado com o Rick. O facto de ter apanhado o tal avião para Lisboa é incompreensível. Pode ter sido o mais nobre, o mais sensato, o mais fácil - mas não foi o mais acertado. Escolher a infelicidade para o resto da vida não pode ser o mais acertado. O marido da Ingrid arranjava-se sem ela, com certeza. Continuaria a liderar a Resistência e conhecia a sua "Jeanne Moulin" ou algo parecido. Também não gosto muito da versão do As Time Goes By que aparece no filme, ao pianinho, mas isso já é outra questão. Em vez do Sam, lamento muito mas devia ser a Billie Holiday ali a cantar. Assim, sim. Mas voltando à questão dessa problemática terrível do "we'll always have Paris" - hã? Mas isto é para servir de consolo? Não me parece consolo de qualquer espécie. Parece-me uma triste, inaceitável despedida. É isso que me transtorna em Casablanca - a separação de Rick e da Ingrid é inaceitável. A ordem natural das coisas diz que devem ficar juntos. Mas eles insistem em viver apenas de memórias - porque se enganam e insistem no erro de que a memória é algo que se tem. O meu conselho a Rick e a Ingrid (não me lembro do nome dela no filme, não quero saber) - vejam Another Woman, do Woody Allen. Aí, vão perceber que uma memória é algo que se perde. Não é algo que se tem. E talvez aí decidam ter, e não perder.
Sei, porém, de onde é que não vêm e talvez saiba o que preciso de fazer para ter mais ideias.
Mais do que desligar a televisão, que deixou de me distrair, tenho de desligar a internet. É tão fácil perder tempo com a internet, e uma perda de tempo ainda mais improdutiva do que a televisão.
Dividimo-nos em pequenos pedaços, cada um a prestar atenção a coisas diferentes - ler artigos na wikipedia, ler as notícias, ver uma coisa no youtube, descobrir um site absolutamente inútil mas que nos parece interessantíssimo, escrever parvoíces no facebook ou olhar para as parvoíces dos outros, etc.
Na maior parte das vezes, sinto-me tão mal quando desligo a internet como quando acabo de jogar Sims3, que a minha infantilidade não consegue deixar de gostar - absolutamente oca. Não há nada na minha cabeça, nestes momentos. A internet é, na maior parte das vezes, a fast food do cérebro. É claro que apresenta vantagens inegáveis mas é, fundamentalmente, a glorificação globalizada e virtual da inutilidade. Eu sempre fui a favor da inutilidade, mas agora começo a achar um tanto ou quanto demais. É que, antes da internet e dos computadores, eu não sabia o que era a sensação de completo esvaziamento mental. Agora sei. E considero desagradável. Não gosto. Por isso, gostava, sim, de saber de onde vêm as ideias. Gostava de conseguir passar uma semana sem televisão nem internet, a ler, a ler, a ler compulsivamente e a ter ideias. Mas basta-me ligar o pc para não resistir ao impulso demoníaco do império on-line. Além de que, obviamente, tenho o blog, e gosto do blog. É bom ter algo que obrigue a escrever regularmente, mesmo que nem sempre saia bem. Mas vir ao blog implica entupir-me com as boçalidades que navegam por aí, neste espaço etéreo onde nos encontramos. E é chato. Gostando de inutilidade, sempre me insurgi ligeiramente contra a boçalidade, que incomoda. Bom. Isto para dizer que há semanas que não tenho uma única ideia de jeito. Uma única. Ando a trabalhar demasiado, talvez, e eu nunca me dei bem com o trabalho. Eu e o trabalho, é uma magia que não se dá. Enfim.
Quando li a Pérola, de Steinbeck, na escola secundária, o professor disse-nos para prestarmos atenção à personagem do médico ganancioso e viscoso e como o facto de ele se referir aos doentes como "clientes" definia, por si só, tal personagem.
Lembro-me muitas vezes deste médico da Pérola. No outro dia fui à clínica e tinham lá uma mensagem a avisar os "clientes" de uma seguradora de que iriam perder uma qualquer cobertura (ambulância ou o que era). Vi há pouco uma série americana com uns médicos que chamam à clínica onde eles próprios trabalham "a place of business". Incomoda-me. É isto.
sexta-feira, 18 de junho de 2010
Estou em choque. Descobri agora que Saramago morreu. O Ano da Morte de Ricardo Reis ficará para sempre comigo.
A única consolação que tenho (e não é bem consolação) é que me faltam ainda muitos livros de Saramago para ler. Duvido que me apaixone por algum como pelo Ano da Morte, mas pode ser que aconteça. É Saramago, afinal. E a sua escrita, aquele domínio da língua que ele tinha, uma coisa impressiva, uma simplicidade que aterrava, as verdades tão simples, chãs, que ele conseguia dizer.
Dentro de nós há uma coisa que não tem nome e essa coisa é o que nós somos.
A solidão não é viver só, a solidão é não sermos capazes de fazer companhia a alguém ou alguma coisa dentro de nós.
Era uma escrita sentenciosa. Mas nunca doutrinal. Era bonita, apenas. Era bom ler pelo prazer de ver ali a língua portuguesa num expoente de criatividade, de significação, de matéria que é trabalhada e esfregada e tecida até resultar naquelas frases assombrosas.
Gostava dele. Considero-o um enorme escritor. Não me apete dizer mais nada. Apetece-me ler isto:
Thou wast not born for death, immortal Bird No hungry generations tread thee down; The voice I hear this passing night was heard In ancient days by emperor and clown:
Perhaps the self-same song that found a path
Through the sad heart of Ruth, when, sick for home, She stood in tears amid the alien corn; The same that ofttimes hath Charm'd magic casements, opening on the foam Of perilous seas, in faery lands forlorn.
Qual é a ideia de uma banda que tem o nome de um dos membros? Não compreendo o objectivo. Não vale mais ter uma carreira a solo?
Por exemplo - Van Halen. Não compreendo esta escolha de nome. Porque é que o Van Halen não se decidiu por uma carreira a solo? Era porque não sabia cantar e precisava de um indivíduo para ir saltar, cantar e fazer figura de parvo, ao passo que ele, Van Halen, se limitava a deixar que a sua franja fizesse a figura de parvo por ele, ficando caladinho, a tocar a guitarrinha e pronto? É uma incógnita. Outro exemplo - Fleetwood Mac. Percebo que o Mick Fleetwood tenha sido o fundador. Mas então porque é que não escolheu ser artista a solo? Se precisava de uma gira loura e maluca, com a mania que é bruxa pagã (é o que me consta da Stevie Nicks), para vender discos, então que tivesse respeitado os outros e tivesse dado um nome mais democrático à banda - Fleetwood Mac & Stevie, por exemplo, sei lá. Estas bandas deveriam pôr os olhos num exemplo de classe, bom gosto e democracia - Crosby, Stills & Nash, que por vezes, como bem se compreende, eram os Crosby, Stills, Nash & Young. Pois é. Ao menos, está o nome de toda a gente muito bem discriminadinho. Analisando agora uma outra problemática, também acho foleiro que certas bandas decidam incorporar o próprio nome nas canções. Os Porno for Pyros tinham uma música que se chamava: Porno for Pyros. O refrão era: Porno for Pyros. Para o caso de ninguém ter percebido bem a designação da banda, sentiram esta necessidade de enfatizar. Também não compreendo tal necessidade. Deriva, provavelmente, de certas inseguranças e desejo de afirmação. Considero desagradável. O meu irmão dava sempre o exemplo do ridículo que seria se os Smashing Pumpkins decidissem escrever uma canção cujo refrão fosse o nome da banda. Pois é. Muito inconveniente, e até feio. Nem os Beatles se safam - uma canção chamada Beatles seria terrível. Neste aspecto, os Rolling Stones têm mais sorte porque foram buscar o nome a uma música irrepreensível do Muddy Waters, e portanto aqui nada a dizer. Mas voltando às bandas cuja designação corresponde ao nome de um dos membros - é muito pouco democrático. Eu não gostaria de estar numa banda chamada "Sousa", ou "Santos", ou "Ferreira". Mais vale pertencer a um conjunto musical tipo Jorge Santos e Seus Muchachos. Sempre seria mais honesto. E agora, parar com toda a parvoíce e abrir coração e ouvidos ao momento musical que se segue. Impecável. Soberbo. Este Muddy Waters era rei. Os Rolling Stones tinham muito bom gosto, de facto.
Well, I wish I was a catfish, swimmin in a oh, deep, blue sea I would have all you good lookin women, fishin, fishin after me Sure 'nough, a-after me Sure 'nough, a-after me Oh 'nough, oh 'nough, sure 'nough
I went to my baby's house, and I sit down oh, on her steps. She said, "Now, come on in now, Muddy You know, my husband just now left Sure 'nough, he just now left Sure 'nough, he just now left" Sure 'nough, oh well, oh well
Well, my mother told my father, just before hmmm, I was born, "I got a boy child's comin, He's gonna be, he's gonna be a rollin stone, Sure 'nough, he's a rollin stone Sure 'nough, he's a rollin stone" Oh well he's a, oh well he's a, oh well he's a
Well, I feel, yes I feel, feel that a low down time ain't long I'm gonna catch the first thing smokin, back, back down the road I'm goin Back down the road I'm goin Back down the road I'm goin Sure 'nough back, sure 'nough back
Muitas vezes, envio emails a mim própria. É um método eficaz e seguro para guardarmos documentos e material necessário, escusando de dependermos de pens e computadores e outras coisas que se podem avariar (comigo, avariam-se sempre). E porém. Isto de me enviar emails é fenómeno que não cessa de me espantar e confundir. Os filósofos do século XIX e da escola romântica, soubessem eles desta invenção magnificente que é a Internet, e ficariam com certeza com a cabeça descontrolada, de tanto que teriam para dizer. Estou mesmo a ver o desespero acerca da perda da individualidade, a fragmentação da identidade. Tenta lá ser a flauta divina que Deus toca ao escreveres poemas num blog, ó Shelley. Fazeres uns copy paste deste e daquele, aqui e ali. E depois reencaminhares para ti próprio. Não há grande divindade nisso, pois não? Mas, por exemplo, Schopenhauer. Considero que a internet e a possibilidade de enviarmos emails a nós próprios é coisa capaz de dar cabo da cabeça ao pobre Schopen. Hã? Então mas... que vontade é esta e ... solipsismo? Então como, se eu não sei onde está o meu Eu? Está no facebook? Está nos 10 endereços electrónicos diferentes? Está nos vários blogues que escrevo? Pois, agora assim de repente não consigo muito bem perceber onde é que está o meu Eu, e sendo assim isto do solipsismo ... se calhar convinha primeiro ver onde é que está a consciência de si e tal... talvez no facebook? O facebook parece-me bem, vou começar por lá e... Pobre Schopen. Ainda bem que não nasceu nesta altura, se não andava para aí a bater com a cabeça nas paredes, desgovernado. Os Gregos é que estariam muitíssimo bem preparados para a internet. O quê, mandar emails a nós próprios? Pffff, faço isso todos os dias ao pequeno-almoço. Quero lá saber disso, este mundo para mim nada tem de novo. Eu só sei que nada sei, de modo que não é uma porcaria de um email que me vai afectar. Assim como assim, isto é tudo uma ilusão. Esta gente pensa que descobriu o mundo virtual agora - pobres coitados, eu rio-me da sua ignorância. Eles sempre viveram no mundo virtual. Não passamos de sombras. A Ideia está lá no alto, a rir-se de nós. O Arquétipo não é para toda a gente. E andam estes todos contentes, a pensar no facebook, a analisar o facebook, como se isso fosse alguma coisa de novo. Pobres ignorantes. Os Gregos é que davam bem a volta à internet, de facto. Numa luta entre a internet e os filósofos gregos, ganhavam os gregos à vontade.
Hoje passaram-se várias coisas durante o meu almoço. De vário tipo e de vária ordem.
Eu e a minha amiga L. discutimos a tal questão do Código Da Vinci vs. Pêndulo de Foucault, mas antes disso, tivemos de ficar à espera de mesa. Era um daqueles restaurantezinhos (ou restaurantezecos?) pequenos, de hora de almoço, que tem sempre movimento e também a vantagem de ser baratinho (ou barateco?). Bom. Eu perguntei ao senhor - "desculpe, podemos sentar-nos naquela mesa?", ao que ele respondeu "deixa-me limpar primeiro". Deixa-me. E disse mais qualquer coisa recorrendo a este fenómeno desagradável que é a segunda pessoa do singular. Eu tenho a ligeira convicção de que o tu e a segunda do singular deviam mais ou menos ser omitidos das gramáticas que se dão a pessoas que têm estabelecimentos públicos. Estas pessoas deviam aprender uma gramática especial, só para elas, em que não figurasse o "tu". É discriminação? Pois sim. Se esta medida é discriminação, paciência. A verdade é que nem crianças de uma certa idade (mais crescidinhas) deveriam ser sujeitas ao tu quando vão às lojas (relativamente ao tratamento de crianças em lojas, nem me aventuro a dissertar - o pessoal das lojas tem de se decidir, porque ou enlouquecem à vista de uma criança, ou ignoram-na completamente, e lá fica ela de moedinha ao balcão, como eu já vi, a tentar pagar o café do pai). Eu sei bem que há muitos falantes de língua portuguesa que acham que devíamos ser mais como os espanhóis, mais informais, muito tu para aqui e para acolá - eu respeito esta posição porque, se de facto fosse próprio da língua portuguesa usar naturalmente o tu, nada teria contra. Mas a verdade é que não é. A verdade é que, socialmente, é mais neutro (nem vou dizer mais bem-educado; digo só mais neutro) preferir a terceira pessoa do singular ao "tu". Não vale a pena dizer, "ah, vamos usar todos o tu", quando ninguém usa. É forçado. Fere o ouvidinho. Se estiver em Espanha e me tratarem por tu, não me passa pela cabela começar a "mandar vir" (bela expressão); a norma é assim e pronto. Mas o que é certo é que eu vivo em Portugal, onde o tu não é muito aceitável, a não ser que se trate da nossa família ou dos nossos amigos. Pronto, ok, admito, retracto-me, faço todos os mea culpa e mais alguns - posso ser conservadorazeca, reaccionariazeca, tudo muito -eco, mas a verdade é que o tu me aborrece verdadeiramente. Aborrece. É foleiro. Foleireco.
Acho graça aos diminutivos portugueses. Podem ser de vário tipo e de vária ordem, desde a junção dos sufixos -inho e -eco até à pronúncia engraçada de certas expressões (por exemplo, há quem diga "sim sinhora" em vez de "sim senhora", para ser mais simpático. É fofinho).
Fascina-me, em particular, o sufixo -eco. Não há formas mais ostensiva e eficaz de denotar desprezo do que este cómico, sonante sufixo. Por acaso, o meu irmão tem a mania de me chamar Riteca, mas neste caso é só a brincar. Espera-se. Vejamos o efeito deste sufixo nalguns nomes que não o meu (o meu é impenetrável a este tipo de achincalhos) - Hélder, Helderzeco; Filipa, Filipazeca; Lúcia, Luciazeca; Pedro, Pedreco; Isabel, Isabeleca, etc. Podia continuar, mas penso que já se compreendeu o efeito. De facto, o português é uma língua crudelíssima. É uma língua que se dá ao trabalho de codificar morfologicamente esse sentimento de achincalho que é o desprezo. Se queremos demonstrar o nosso desagrado por alguém, basta recorrermos ao -eco. Considero interessantíssimo que uma língua de morfologia tão forte como a nossa utilize, precisamente, um dos seus pontos fortes para atacar os próprios falantes, colocando à disposição este -eco tão embaraçoso. Dizer de alguém, por exemplo, "é uma mulherzeca", ou "é um homenzeco", é inferiorizante. A língua portuguesa não é apenas traiçoeira, é também cruel. Que tristezazeca.