quarta-feira, 9 de junho de 2010

Deixai que as criancinhas ouçam música

Um amigo deixou-me um chamado "share" muito querido no mural do facebook. Era aquela cantiga do Chico Buarque chamada Agora Eu era Herói, que costumávamos ouvir em pequenos.
Além desta, ouvíamos também o Barata Moura, o Jardim Jaleco, cantigas tradicionais, um disco brasileiro giríssimo que tinha uma capa à Monty Python e uma cantiga que rezava "era uma casa muito engraçada, não tinha tecto, não tinha nada...", o Sítio do Picapau Amarelo, a Cinderela e o Pó de Arroz do Carlos Paião e o Tony Silva ("Tóniiiii.... meu nome é Tóni Silva, sou grande criador de toda a música rock" - durante anos, pensei que o verdadeiro nome do Herman José era Tony Silva), e mais tarde o Serafim Saudade. Tudo coisas com piada. Algumas delas, não sendo de elevadíssima qualidade musical, eram perfeitamente giras e aceitáveis e não feriam os ouvidos de ninguém.
Ora. Não sendo eu daquelas pessoas que enlouquece à vista de crianças, considero-me porém como pessoa que gosta de crianças (o que há para não gostar, exceptuando quando são chatas?). E é por isso que vejo com algum pesar o lixo musical a que elas estão sujeitas. Há esta mania insuportável de considerar que as crianças, por serem pequenas, são parvas, de modo que qualquer coisa que se lhes dá será, com certeza, bem vinda. E é ver os pequenitos expostos a cantiguinhas da índole do "fantasminha porcalhão, não venhas para aqui não", de um renovado e digitalizado Avô Cantigas, e as músicas da carochinha em DVD, de animação miserável e som mutilado por computadores ranhosos. E as criancinhas a ver e a dançar, porque não conhecem melhor.
Atenção. Eu também ouvia muita porcaria quando era pequena. Mas porcaria daquela que, revelando eu tais embaraços em público, daria com certeza direito a enxovalhos públicos, e merecidos, ainda por cima. De modo que não vou revelar. O que acontece é que, entre essa porcaria, também ouvia muita coisa boa, além de ter tido a sorte de ter nascido num tempo em que, se se queria que os miúdos ouvissem Mozart ou Prokofiev, por exemplo, punha-se a tocar um disco de Mozart ou Prokofiev e pronto, ao invés de recorrer a mariquices inúteis como "Mozart para bebés" ou "Prokofiev para bebés". Este tipo de produtos só existem porque se assume, de facto, que as crianças são parvas e que não têm idade para ouvir música clássica a sério, que ainda as traumatiza. Então, será melhor ouvir música de qualidade inferior, uma mistela de sons de plástico, para lhes acalmar (e treinar) os ouvidinhos. Ainda gostava de encontrar, por exemplo, a versão "Pedro e o Lobo" para bebés. Ou, melhor ainda, o Carnaval dos Animais para bebés. É que estas obras, como é sabido, são perigosíssimas, destinadas somente aos ouvidos calejados de um adulto e será melhor mantê-las bem longe dos pequenotes.
Por isso é que eu gosto do facto de Jesus ter dito "deixai vir a mim as criancinhas". Ele não estava com paternalismos e coisas. A sensação que tenho é que respeitava as crianças. Se fosse hoje, Jesus dava-lhes a ouvir música a sério e pronto. Por acaso, sempre simpatizei com Jesus neste aspecto.



segunda-feira, 7 de junho de 2010

Monogamia

Tenho dormido muito com os contos de S. Petersburgo, que é como quem diz, tenho dormido muito com Gogol.
Mas a magia não está a acontecer.
Vou ter de ir seduzir os Maias outra vez. Ora que cousa.

Para Jagger e Richards

Milton Nascimento escreveu uma canção chamada Para Lennon e McCartney. Penso sempre num certo imperialismo anglófono quando a ouço, e penso também que sou, inevitavelmente, vítima desse imperialismo.
Como muitos outros países, somos colonizados. Não quer dizer que não haja vantagens neste estado de quase aculturação em que nos encontramos. Eu, por exemplo, gosto muito de cinema americano, de literatura anglófona, não viveria sem a música dos Beatles, e tenho com o Reino Unido uma relação fortíssima há muitos anos, ainda que se tenha tornado cada vez mais desiludida. Mas é um laço que, quer queira, quer não, é sólido e tão cedo não se romperá.
Porém, o estado de colonização em que me encontro é também óbvio. E, apesar de eu embarcar nele, há que dizer que acarreta uma certa saloiada muito indesejável. Esta adoração reverente e quase ridícula pelo inglês (língua que eu própria adoro, mas pronto). Terminar as frases com "whatever" é uma aberração que me atinge de forma retumbante. Levo muitos dias para me recompor. Os empacotados que passam todos os dias na televisão, alguns de grande qualidade, há que dizê-lo (Sopranos "forever" - sim, já admiti que eu própria sou colonizada), outros de qualidade mais dúbia, como a saga de lamechiche em catadupa dos Irmãos e Irmãs, assépticos wasps (mais outra) que enjooa. Entusiasmo injustificado por coisas que não ultrapassam a mais comum das vulgaridades, como por exemplo cupcakes - e não me venham dizer que é por ser novidade. Eu adoro cupcakes, acho uma graça, são muito queridinhos. Mas são queques com um molho cheio de corante por cima. Num país em que há bolas de Berlim à disposição, pastéis de nata a estalar, vê-se gente a fazer fila para a barraca do Campo Pequeno que vende cupcakes. Pá. Não se percebe. Tal como não se percebe bem que o Expresso publique uma receita do Jamie Oliver em cada edição, como se não houvesse tradição de boa comida neste país. Há duas semanas, ou na semana passada, a receita do Jamie, publicada num jornal português, neste país onde, como se sabe, ninguém sabe cozinhar peixe, era precisamente peixe grelhado. Pausa para absorver a bizarria disto.
São estes pequenos sinais de aculturação que eu absorvo, aceito, apoio, e acerca dos quais perco a autoridade para falar. Mas escrevo este post porque quero demonstrar a mim mesma de que estou ciente do que me está a acontecer. Uma espécie de desculpa. Para me fazer sentir melhor. Embora não faça.
Gostava muito que o Milton Nascimento tivesse escrito algo para Jagger e Richards, por exemplo, e deixasse o Lennon e o McCartney em paz, que era para eu descontrair. Deixa-os lá trabalhar, ó Milton.

domingo, 6 de junho de 2010

Nota mental: com o Camões resultava


- Cami, acorda. São horas de mudarmos a pala.
- Hã?
- Acorda, vá. Se não mudamos a pala, ficas com essa toda suja e depois é muito chato.
- Ah, tens razão. Realmente, se não fosses tu...
- Pronto. Vais escrever, hoje?
- Vou, pá. Decidi que tenho de enxertar para lá uma cena de sexo. Que é para vender. Sabes que sem sexo, nada se vende.
- Ai, sim? Ah... mas tu tem cuidado, Cami. Está a ficar um poema tão bonito, tão profundo... não estragues tudo com brejeirices.
- Eu, brejeiro? Claro que não, até parece que não me conheces. Já sei como é que vou dar a volta à coisa. Os marinheiros vão ter a uma ilha cheia de ninfas doidas. Só rega-bofe, mas rega-bofe com classe.
- Estou a perceber. Uma ínsula divina, cheia de aquáticas donzelas, glória dos olhos, dor dos corações, não é?
- É tal e qual! O que é que foi isso que tu disseste? Espera lá, fofinha, espera lá para eu apontar.
- Aponta, aponta.
- Olha, e estou a pensar incluir romãs. São o símbolo da fertilidade, não é?
- Pois é. Romãs, mostrando a rubicunda cor, com que o rubi seu preço perde...
- Tu hoje estás demais! Deixa-me mas é apontar isso tudo. Tens mais ideias?
- Não, acho que não. E já pensaste em como vão ser as ninfas? Vão ter um mover de olhos brando e piedoso?
- Não, isso não dá para o rega-bofe. As ninfas vão ser umas doidas, já te disse. Vai ser mais do estilo de esperar um corpo de quem levam a alma.
- Cami, isso está excelente! Espera um corpo de quem levas a alma...
- Por acaso está, não está? Vês, não és só tu que tens ideias boas.
- Eu nunca disse que era só eu. Aliás, quando eu ganhei o Nobel a gente falou sobre isso. Tu disseste que estavas muito orgulhoso de mim e não tinhas inveja nenhuma.
- Ó fofinha, e não tenho. Fiquei muito orgulhoso. Só que agora tenho de me concentrar muito a sério no meu poema para ver se para a próxima sou eu a ganhar o Nobel.
- E bem mereces, Cami. Tu és o maior poeta de sempre. Se este país não estivesse numa apagada e vil tristeza, já tinhas ganhado tudo o que há para ganhar e vivias em deleitosas honras que a vida fazem sublimada. Os triunfos, a fronte coroada de palma e ouro, a glória e maravilha - estes são os deleites que tu sempre mereceste.
- Obrigada pelo teu apoio, fofinha. Mas em vez disso, vê lá o que tenho de fazer... ir ao paço receber a tença pacientemente. Às vezes, sinto que este país me mata lentamente.
- Não, Cami, não penses assim. Tu és o maior de todos os poetas. Este país vai dar-te todo o reconhecimento que mereces, mais tarde ou mais cedo.
- Eu espero bem que sim. Só de pensar que morro e ainda me enterram numa vala comum... já viste a tristeza que era?
- Cala-te, Cami, credo! Lagarto, lagarto, lagarto. Pára já de pensar em parvoíces e vai mais é despachar o poema. Já tens título?
- Não, ainda não. Só dou no fim.
- És o maior, Cami.
- Obrigada, fofinha.

sábado, 5 de junho de 2010

Fogueteiro

Portugal está repleto de sítios pavorosos. O que me faz impressão são aquelas terras de descampado, por onde pululam vivendas feias, de cor desbotada ou com azulejos de casa-de-banho por fora, e onde não há cafés nenhuns ou, se há, é um barracão com um anúncio a dizer "Café Camelo". Que é uma zurrapa.
Curiosamente, Portugal é um país bonito. O que acontece é que a costa estremenha, e até um pouco da nortenha, desconhece o significado de planeamento urbano e está devastada por subúrbios selvagens. É desconfortável.
Não estranho que os países onde vi das aldeias mais feias de sempre tenham sido Portugal e a Grécia. É claro que também têm aldeias bonitas, mas sofrem deste mal de muita fealdade urbana concentrada numa pequena área.
Se soubesse mais de arquitectura (não sei nada), estaria com certeza em condições de perceber o impacto da supra-mencionada fealdade na vida das pessoas. Não é, mais uma vez, de estranhar que o presidente da Câmara de Tirana (ou equivalente ao presidente), quando confrontado com a falta de verba para fazer obras numa cidade que precisa desesperadamente delas, tenha decidido gastar o dinheiro em pintar os edifícios de várias cores, para, pelo menos, alegrar o olhar de quem fazia o esforço de viver na capital da Albânia. Não resultou - a cidade tornou-se ainda mais feia, porque agora não era apenas feia, era também garridamente bizarra. Feria o olhar.
É fundamental gostarmos do sítio onde vivemos. Podemos viver num local objectivamente feio, mas para nós, nem que seja pela força do hábito, que tem, de facto, muita força, tem de nos parecer aprazível, relva, amigos à porta, cafés, passarinhos e abelhas, sei lá.
Quem o feio ama, bonito lhe parece. Uma vida feliz aplica isto não apenas às pessoas, mas também aos locais. E será, talvez, a única forma de vencer o feio.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Graciosidades

Há pormenores da vida normal que têm tanta graça.
Hoje, por exemplo, vi duas coisas que nunca tinha visto antes. Fui tomar café e pedi um frugal café, que é coisa corriqueira e que não espanta ninguém, tanto que comecei a frase por dizer que fui, precisamente, tomar café. Bom. Acontece que, depois de mim, estava uma senhora que se aviou de uma forma inaudita - pediu uma bola de Berlim com creme, coisa que me pareceu bem, acompanhada de uma SuperBock. Nunca me teria ocorrido semelhante combinação, tanto que cerveja a meio da tarde, ainda por cima regada pelo creme da bola de Berlim, seria com certeza coisa para me trazer de volta incómodos relacionados com a tal "matéria" sobre a qual escrevi há pouco tempo e que gostaria de evitar. De modo que achei uma graça - mistura arrevezada, esta, da bolinha de Berlim e da jola a acompanhar (nota para dizer que eu sou daquelas pessoas que não considera necessário grafar entre aspas palavras e expressões engraçadas da língua, mesmo que sejam calão ou demasiado informais - daí o jola e não "jola").
Continuando. Tomei o meu café e a senhora foi com certeza à sua vida, acompanhada da SuperBock e da bola de Berlim. Eu continuei para casa, e durante o meu percurso, a certa altura, vi uma senhora de idade à janela de um primeiro andar, de cabelo branco alegrado por uns leves tons violeta, que com certeza pareceram à senhora uma boa ideia, acompanhada de um gato preto, com ar meigo, que de certeza se chamava Farrusco. Não teria reparado nela se não estivesse a cantar. Cantava, a meia voz, embora de forma audível, uma canção do estilo music-hall português dos anos 40, como aquela canção que é assim, "adeeeeeeus! Não afastes os teus olhos dos meeeeeeuus....". Não sei o resto da letra nem da canção, mas era mais ou menos isto que a senhora cantava. E cantava bem, afinadinho. Olhei para ela e tive de sorrir, reconhecendo que tinha ouvido a canção. Espero que ela não pense que eu estava a gozar com ela, porque não estava.
Da mesma forma que aposto que o gato se chama Farrusco, também aposto que a senhora vive na casa da filha e acha que tem de ser a mulher-a-dias para pagar o favor. Já teria, com certeza, adiantado o jantar, aspirado a casa, mudado os lençóis, e estava ali, naquele momento calmo, a apreciar o sol que enfraquecia, a anunciar o fim de tarde. Antes de chegar a filha, o genro e os filhos e de o sossego se acabar, faz umas festas ao gato, sente o calor na cara, canta um bocadinho.
Por mim, tudo bem. Há coisas na vida comum que têm tanta graça - por são assim, graciosas.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Dormindo com livros


Gosto de livros velhos que cheiram mal.
Os livros novos, para mim, só servem para eu adormecer com eles e acordar com páginas dobradas e vincos na capa, para os pôr e tirar da mala até de lá saírem sovados, gastos, abertos muitas vezes.
Gosto muito de dormir com livros. O livro com que eu dormi mais vezes foi Os Maias. Ontem até deu um programa sobre este livro e tudo, e estava ansiosa por ver, mas infelizmente o cansaço foi mais forte e adormeci. Quando acordei, era de madrugada. Os Maias já se tinham ido embora e não deu para dormir com eles.
Mas como, por alturas do Verão, gosto sempre de reler este livro, porque acho que as férias correm melhor repletas de novas perspectiva e ideias sobre Carlos e Maria Eduarda, ainda devo ter tempo para dormir com Os Maias. O Verão todinho.
É tão bom dormir com livros, usar e abusar deles, até ficarem todos sovados, dobrados, cansados, gastos. É para isso que eles servem.

Performance

Chegados a um ponto em que é difícil destrinçar a máscara do nosso verdadeiro Eu, começamos a interrogar-nos se o tal Eu alguma vez existiu.
Gosto de máscaras porque nunca são verdadeiramente máscaras - o facto de as escolhermos para nós indica que são a identidade, o nosso verdadeiro rosto. Há muito pouco que se esconde debaixo do véu. O que parece, é.
É por isso que eu sei que aquele filme, o Avatar, é todo mentira.

terça-feira, 1 de junho de 2010

Come bolos, pequena, come bolos


O meu sonho é ter uma pastelaria.
Vou largar tudo, tirar um curso de pasteleira e fazer bolos para o resto da vida.
O meu estabelecimento vai ser todo azul e vai cheirar a Earl Grey e a montanhas de bolos fresquinhos. Vai ter: muitas bolas de Berlim exclusivamente com creme, parras, sortido húngaro, S. Marcos, profiteroles com chantilly verdadeiro, palmiers cobertos e simples, babás, rins (de chocolate), pastéis de nata, eclairs, salame de chocolate, bolo de bolacha, charlotte de chocolate, fios de ovos, trouxas de ovos, lampreias de ovos, queijadas de Sintra, travesseiros de Sintra, croissants com doce de ovo.
Pode parecer que não, mas a verdade é que muito raramente me delicio com uma maravilha das que acabei de enunciar. Por isso, só por ter escrito este post, já me sinto muito, muito, muito mais contente.
Posso não gostar do pecado da vaidade, mas adoro, adoro, e inclusivamente apoio, o pecado da gula.
Sempre que escrevo aqui sobre um livro ou um autor e digo, "ah, é dos meus livros preferidos", estou a mentir. Os meus livros preferidos são dois e ambos publicados pela Vaqueiro - Bolos e Bolinhos e Sobremesas.
Cada vez me convenço mais que, caso fosse pasteleira, seria bem mais feliz. Nunca é tarde. A metafísica que me deixe em paz. Uma bola de Berlim resolve tantos problemas.

Vãs filosofias para cabeças que pensam muito e mal

O meu problema é que vejo o mundo todo distorcido, a começar por mim.
Quando me olho ao espelho em casa, vejo-me muito bem equilibrada e em geral posso dizer que é algo que me satisfaz.
Depois, vou a andar na rua, vejo um reflexo na montra das lojas e penso "olha aquela senhora gorducha, com umas ancas que parecem aqueles vestidos à século XVII, que engraçado ". E vou ver e sou eu.
O Kant falava do fenómeno e do númeno. Eu, com a grande autoridade filosófica que detenho, considero que, de facto, este simpático filósofo tinha razão. Eu encanto-me com o fenómeno, com a ilusão, com o artifício. A essência das coisas, a sua verdade, é que já custa muito a aceitar.
Ou talvez esteja antes a pensar em Platão. Eu sou daquelas pessoas que gosta de estar na caverna a olhar para as sombras, que projectam uma versão apurada da minha própria pessoa. Sempre fui muito de estar em casa, os ares lá de fora dão-me a chamada asma alérgica, de modo que conviver com arquétipos não é muito a minha onda.
Gosto da imagem que vejo reflectida na caverna, e para mim está bem assim, porque a realidade, como dizia o Hegel, esse outro grande espertalhão, é como é e pior para ela. Prefiro não ter nada a ver com isso.
Pronto.


segunda-feira, 31 de maio de 2010

Lágrimas


Eu sou completamente a favor da felicidade, da alegria e até do optimismo, embora possa parecer que não. Mas a verdade é que sou.
No entanto, considero que há momentos na vida em que a tristeza é inevitável e assumi-la também. Por exemplo, tenho notado que, nos últimos tempos, têm-se sucedido notícias sobre pessoas que conheço vagamente e que se separaram ou divorciaram. Como as rupturas, quaisquer que sejam, mas principalmente as amorosas, são coisas que verdadeiramente me deixam aterrada, fico sempre cheia de pena, e indago acerca do estado de espírito da pessoa ("ah, mas ele/ela está bem? anda a trabalhar muito, ao menos, para conseguir esquecer?", sei lá, coisas parvas desta índole). Fico sempre abismada com as respostas que recebo. Uma semana depois do desgosto e já toda a gente mudou de emprego para se encontrar agora a ganhar €300000 por mês, ou já se casaram novamente, ou já apresentaram namorado novo aos pais, ou vão ter um bebé com o namorado/a novo/a, ou foram convidados para ir viver para a Califórnia como estrelas de cinema, etc., etc.
Admiro quem tem esta elasticidade para deixar que os azares da vida embatam neles para fazerem ricochete, superando rapidamente obstáculos e voltando a repor a ordem natural das coisas, que deve ser feliz. E porém, a rapidez com que as pessoas escamoteiam a tristeza é algo que me surpreende sempre. Não ouço falar de ninguém que fique em casa a chorar, que tenha dificuldade em manter uma vida normal, que admita que está infeliz. É evidente que muitos preferem esconder estados de espírito e adoptar uma fachada de alegria e força para o mundo exterior, o que é legítimo. Mas, mesmo em conversas pessoais que vou tendo, constato que a infelicidade e a tristeza são cada vez mais palavras proibidas no léxico de toda a gente.
Se eliminar os vocábulos "infelicidade" e "tristeza" equivalesse a erradicá-los definitivamente da vida das pessoas, estaríamos todos de acordo. Mas não nomear uma coisa não quer dizer que ela não exista. É impossível viver sem que, com grande pena minha e de toda a gente, sejamos atingidos por ondas negras de tristeza. É mesmo assim. Um bom método talvez seja chorar tudo o que há para chorar, resolver todos os lutos antes que eles se avolumem ainda mais. E isto não sou eu que digo - já há muito que se sabe do poder das lágrimas. Leia-se, interessantemente, o que diz José Tolentino Mendonça na sua introdução a O Dom das Lágrimas. Orações da antiga liturgia cristã, Assírio e Alvim, p.12:
Temos muitas maneiras de chorar, e o modo como o fazemos revela não só a temperatura dos sentimentos, mas a natureza da própria sensibilidade. Ao chorar, mesmo na solidão mais estrita, dirigimo-nos a alguém: esforçamo-nos para que ninguém veja que choramos, mas choramos sempre para um outro ver. As lágrimas emprestam um realismo único, irresistível à dramática expressão de nós próprios. São um traço tão pessoal como o olhar ou o mover-se ou o amar.

Choramos pouco, não é? A não ser as velhotas- "eu-sou-uma-pessoa-doente" que de vez em quando aparecem na televisão (e não dão vontade nenhuma de rir, apesar de eu estar a falar disto descontraidamente), as pessoas não choram muito. E, se choram em privado, nunca dizem que choram. Isso é com elas, de facto, não me cabe a mim especular o porquê.
Mas pronto. Isto sou só eu a falar. Eu nem nunca chorei na vida e detesto, verdadeiramente, que chorem ao pé de mim, de modo que não sou pessoa para estar aqui a pregar sermões.

domingo, 30 de maio de 2010

Oh Denis doo-be-do


Por outro lado, e complementando o post anterior, gostaria muito de ter visto o Easy Rider no cinema, ao invés de em DVD, que é sempre uma coisa inferior. É a recordação que deixo aqui de Dennis Hopper, de quem gostei muito no próprio Easy Rider (o final é inesquecível; este filme vale muitíssimo a pena), tal como em Apocalypse Now, em que estava bastante cómico. A entrevista de Dennis Hopper nos extras do DVD do Easy Rider (ligeira vantagem do DVD) também é engraçada - Dennis Hopper diz que queria sempre tudo à maneira dele, mesmo quando isso era, claramente, a pior das opções possíveis. Uma vez, os outros produtores do filme fizeram tudo às escondidas, ele só descobriu no fim e, em vez de partir tudo (como parece que era sua característica), riu-se e disse "eles tinham razão, ficou muito melhor assim".
Era um gajo fixe, ao que parece. E que bonito que ele estava no Gigante, a fazer de filho da Lizzie.

sábado, 29 de maio de 2010

Ainda esta semana tentei ir ao cinema e não encontrei nada que me apetecesse, verdadeiramente, ver. Tudo deslavado. Uma dor de alma. A crise está por todo lado.
Como diz um amigo meu, a solução é passar a ir única e exclusivamente à Cinemateca e esquecer o resto.

Conversa de café


Um amigo meu dizia, há imensos anos (tudo o que me aconteceu, pelos vistos, foi sempre há imensos anos), que gostava de namorar com raparigas feias. É que, explicava ele, como são feias, são mais interessantes, porque não podem contar com a carinha laroca para atrair a atenção. Ele arranjava, inclusivamente, metáforas muito engraçadas dignas, sei lá, de elevações de espírito como um episódio do Sexo e a Cidade, mas naquela altura tinham, de facto, graça - é como mergulhar no mar, chegares lá ao fundo e veres tudo com toda a clareza, o azul da água que não é o mesmo à superfície, enfim, coisas assim.
Lembro-me de ter protestado contra esta conversa. O que ele dizia é que as feias dão menos trabalho a engatar. Mas não era isso. Ele tinha, convictamente, mais interesse em pessoas feias do que em pessoas bonitas.
Eu também, curiosamente. Já escrevi que gosto de imperfeições e etc. e tal. Mas também acho mais graça a pessoas feias que depois, com o tempo, se vão tornando bonitas. A beleza perfeita é aterradora - é como ir a um museu ver um quadro e ficar ali estarrecido a olhar. E o quadro, se calhar, até ficava muito bem na nossa sala. Mas, passado algum tempo, tornava-se um objecto de decoração como outro qualquer. Perdia a novidade, alguma piada, até. E, por isso, as pessoas muito bonitas sofrem um processo inverso aos feios - também devido a alguma inveja, que é, de facto, algo de muito desagradável e vil, quanto mais observamos as pessoas muito bonitas, mais defeitos descobrimos, e estes defeitos avolumam-se de forma a tornarem-se insuportáveis. "Ah, que lindo que ele é, mas tem umas mãos esquisitas" - e, dia após dias, só vemos aquelas mãos horríveis, de gestos deselegantes, que estragam tudo. "Ah, que elegante que ele é, mas tem a boca torta" - e, de dia para dia, a boca vai-se tornando tão torta que chega à bochecha e, qualquer dia, vai parar à orelha, o que pode causar algum desconforto. É por isso que o meu problema com um certo cinema dos dias de hoje é não haver actores nem actrizes feios na quantidade necessária. Têm todos aquele ar higienizado da nata de Hollywood, que me incomoda um tanto ou quanto. Eu gosto mais de ir ver filmes com pessoas feias, que tenham alguma coisa para onde eu possa olhar sem ser dentes ofuscantes.
Não quero com isto dizer que a beleza não é importante. É, e quem diz que não é, sinceramente, está a mentir e pronto. Acontece é que a beleza, curiosamente, é algo de muito mais complexo do que se possa pensar. A beleza não envolve só, ou talvez nem sequer envolva fundamentalmente, perfeição física - envolve aquela entidade diáfana e inefável designada por "pinta". E a pinta ou se tem, ou não se tem, mas quando existe, traz consigo a verdadeira beleza.
É evidente que há uns seres estranhos que conseguem ter as duas coisas, excelsa perfeição física e pinta, mas nesses não vale a pena pensar, que só servem para a gente se sentir mal. Eu, a esses, punha-os a todos num museu e não os deixava sair de lá, para o mundo real. Era bem feita.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

É tão pouco provável ser Milton ou ser Virgílio

O que é "escrever bem" ou "ter jeito" para a escrita?
Quando as pessoas dizem que têm muito jeito para a escrita, isso normalmente nunca corresponde à verdade. Apenas quer dizer que não dão erros ortográficos e que conseguem escrever a metro, isto é, mais de dez linhas, sem lhes faltar ideias. Não me posso esquecer do mafarrico que se sentou ao pé de mim na cantina da escola e que disse que tinha "muito jeito" para escrever poemas, tanto jeito que as pessoas até lhe diziam que ele dava ares de Fernando Pessoa. Escrevia bem, achava ele.
Eu não sei o que é escrever bem. Sei dizer se considero que alguém escreve bem ou mal, mas não consigo exactamente definir porquê - quer dizer, quando a escrita é má, consigo, porque se torna bastante fácil. Quando se escrevem diálogos do calibre "então compraste mais sapatos?", "É. Comprei", está tudo dito. Qualquer pessoa que, com ou sem licença poética, admita "é" como resposta a uma pergunta que não contém o verbo "ser" tem, claramente, problemas que eu duvido que não ultrapassem a própria (má) escrita. Mas, lá está, como qualquer pessoa de nacionalidade portuguesa, tenho muito mais facilidade em apontar e justificar o que está mal do que justificar o que está bem.
Sei que aprecio cada vez mais a escrita que é apenas formalmente má, ou propositadamente má. Há quem escreva propositadamente mal de forma admirável. Agora só me consigo lembrar de Charles Bukowski e Lobo Antunes em certas crónicas e momentos de alguns romances, mas há outros. Escrita com asneiras, com frases entrecortadas ou mesmo interrompidas, que começam a meio e terminam no início, mas uma escrita fluida, escorreita, viva. Penso que era isto que Truman Capote designava, muito interessantemente, por "underwriting". Curiosamente, o primeiro romance de Truman, Other Voices, Other Rooms, sobre o qual já escrevi aqui no blog, é tudo menos "underwritten". Mas é uma escrita simples, ao mesmo tempo. Não é excessiva, apenas admite momentos de alguma extravagância, o que é inteiramente diferente.
Bom. A minha intenção era escrever um post que se dedicasse com algum afinco ao problema do calor e de as pessoas insistirem em mostrar ao mundo a sua flacidez, usando tops de licra que se colam de tal forma às protuberâncias que ficam a parecer da família do bonequinho da Michelin, e como isso não é bonito nem correcto, sendo que a minha sugestão ia no sentido de se começar a usar umas coisas mais folgadas a bem da estética comum, assim como sapatinhos fechados para quem não tem paciência para limpar as unhas dos pés, já que certas visões de dedões descuidados assustam ligeiramente, mas enfim; acabei por escrever algo completamente diferente.
Ainda não sei como se vai chamar este post. Falta-me o "títalo". Este é um exemplo de escrita propositadamente má. O resto também pode ser, mas este foi mesmo de propósito.

terça-feira, 25 de maio de 2010

Ligeira inveja

Este blog anda muito mole, muito pouco dinâmico. Quer dizer, "dinâmico" é coisa que nunca foi e ainda bem - eu própria não sou dinâmica. Canso-me ao pé de pessoas dinâmicas. Não tenho muita paciência para pessoas dinâmicas. Se calhar, tenho inveja.
Deve ser isso. É a inveja. Gosto de pensar que sou uma pessoa que não sente inveja nenhuma, mas não é verdade. Há vezes em que acontecem coisas excelentes aos outros, e nós ficamos felizes por eles, a sério que ficamos, mas mesmo assim não conseguimos impedir aquela ligeira, ligeiríssima, sensação de que há uma agulha que nos espicaça ao de leve, algures no corpo, na barriga, no pescoço, talvez. "Porque não eu? Eu mereço mais" - temos este pensamento baixo e vil.
Eu, pelo menos, tenho.
Tudo para dizer que o blog está muito mole. Esfarela, como diria Ramalho Ortigão nas Farpas.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Dialéctica - parte II

A dialéctica senhor/escravo tem muitas ramificações e relevância na sociedade dos nossos tempos. É, no fundo, uma explicação da dependência. As pessoas desprezam os "drógados", porque não contribuem para o bem da comunidade e arrumam carros quando ninguém lhes pede, mas elas próprias (eu incluída) são dependentes.
Exemplificando. O meu computador é ancião. Não direi que é pré-histórico, mas é, vamos lá, da Antiguidade. Nem sequer chega à Idade Média. Mas funciona, portanto vou-me aguentando, alegremente, com ele. A desvantagem, porém, de estar em posse de um computador pré-medieval é que, com alguma frequência, ele é acometido de certas maleitas. Desta vez, foi o carregador que se estragou, o que me obrigou a ficar dois dias sem pc, até encontrar forma de resolver a questão, que felizmente foi resolvida.
Constatei, nesse par de dias, que não ter computador é debilitante. Não pude trabalhar. Tudo o que precisava para trabalhar, processador de texto incluído, estava no pc. Não pude escrever. Já não consigo escrever à mão. Sei isto porque me perguntaram - mas não podes escrever à mão? E aí, fui forçada a admitir que não. O máximo que ainda escrevo à mão são cartas, postais, mas normalmente envio emails. Se pegar numa caneta e olhar para uma folha branca, a gritar por palavras, nada me sai.
De modo que o trabalho atrasou todo e passei dois dias entupida. Ainda por cima, o livro que estou a ler não me agrada sumamente, o que toldou ainda mais a minha mente habituada a estímulos fáceis.
E assim se conclui que Hegel tinha toda a absoluta razão - o computador é o senhor, eu sou verdadeiramente a escrava. E o mesmo se passa com toda a gente que tem o trabalho todo no computador, de tal forma que este se torna quase um pedaço da vida das pessoas. Se o perdemos, é uma chatice.
Porém, ontem, nas notícias, ao ver as pessoas fascinadas, algumas até dispostas a fazer sacrifícios à carteira, com os novos écrãs 3D, para poderem ir para casa e lá ficarem, de óculos escuros, a olhar para a televisão, senti uma súbita alegria reconfortante. Sim, eu posso ser um exemplo de alienação, que é coisa que terei de resolver. Mas há gente muito, muitíssimo, pior do que eu.

sábado, 22 de maio de 2010

Todos os livros são compostos de mudança

Tal como as pessoas, os livros mudam. E mudam de uma forma muito clara.
Li o Dracula de Bram Stoker na adolescência. Adorava os arrepios na espinha, o medo que me provocava. Os capítulos em que Jonathan Harker está fechado no castelo, à mercê de vampiros e restantes criaturas igualmente malévolas, pareciam-me claustrofóbicos, medonhos, magistrais.
Voltei a ler Dracula já adulta. Uma leitura fácil, de arrepio fácil, um sobrenatural quase sensacionalista. Um livrinho com piada.
Também li O País das Últimas Coisas, de Paul Auster, há uma série de anos. Adorei. Também achei "claustrofóbico" que, pelos vistos, era a principal qualidade que procurava na escrita enquanto atravessava a adolescência. Voltei a lê-lo há dois anos. Ao contrário do que ouço dizer, gente até de grande iluminação, eu não acho o Paul Auster nada mau. Também não achei o País das Últimas Coisas mau. Está é muito longe de ser o grande, imenso livro que eu pensava que era.
Há certos livros que são como, por exemplo, os namoradinhos da escola primária. Já não os vimos há centenas de anos, e as memórias que temos deles são fofinhas e queridas e boas. Se calha vê-los na vida real, a desilusão é profunda - ninguém consegue corresponder a expectativas tão ternurentas. Os livros do passado são, na maior parte dos casos, exactamente a mesma coisa.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Dialéctica


Eu acho que, mais ou menos, percebi aquela questão da dialéctica senhor/escravo do Hegel e tal. O trabalho liberta. Se o senhor vive do trabalho do escravo, então quem é livre é o escravo, porque, sem o trabalho deste, o senhor não vai a lado nenhum e portanto quem é dependente é o senhor, e não o escravo.
Pois. Isto é tudo muito bonito e verdadeiro. E nem sequer vou falar da adendazinha que o Marx juntou aqui a esta dialéctica. Vou dizer, sim, que se eu pudesse ser livre sem ter de andar a trabalhar, desculpa lá, ó Hegel, mas preferia muito mais.
Não me venham com as histórias do trabalho que é edificante. Onde é que está a edificação em ter de andar a trabalhar para ganhar dinheiro ao fim do mês? Trabalho assim não é edificante. Nós é que nos enganamos a nós próprios porque é a única forma de suportar o jugo, e então inventámos este conceito de "realização profissional" para taparmos os olhos. E é exactamente aquilo que eu faço, porque, se os meus olhos se abrem, e eu vejo o Carmo e a Trindade finalmente a cair, nunca mais Lisboa se recompõe. E depois é uma maçada.
Ai.
Se o Hegel fosse vivo, conversava um bocadinho com ele no sentido de o fazer alterar, ligeiramente, a dialéctica - não dá para ser "toda a gente é senhor porque ninguém precisa de trabalhar?".

O inferno são os outros

Acho graça, surpreendo-me e, na maior parte das vezes, irrito-me, com a vaidade das pessoas.
Não percebo a vontade desesperada de se evidenciarem. Falam por cima dos outros e falam de coisas óbvias e banais. Coisas em que outros pensaram já há muito, coisas que muitos fizeram antes deles. Que não são nada de especial.
Acham-se na posição justa para criticar, julgar, aconselhar os outros. São paternalistas. Escrevem e falam em inglês demasiadas vezes, vendo nisso um sinal do seu cosmopolitismo pobre, da sua educação tristemente pouco esmerada. Gosto muito de inglês, mas nunca confio em quem recorre a ele demasiadas vezes, quase em detrimento do português. É um tanto ou quanto aquilo que poderíamos designar por "provinciano".
Também já percebi que há algo que as pessoas excessivamente vaidosas gostam muito de fazer, e que é comprazer-se na sua arrogância. Consideram que a arrogância lhes confere superioridade, interesse, um certo snobismo aristocrático. Vêem nela força de carácter e não a tomam por aquilo que realmente é - a fraqueza cobarde de quem vive do artifício. E uma fraqueza bastante irritante e desagradável, por sinal. E, no entanto, dizem "às vezes acham-me muito arrogante", "às vezes acham-me muito agressivo", "às vezes acham que eu não dou confiança", como se tudo isto fosse louvável.
E depois esforçam-se tanto - valha-me Deus, o quanto se esforçam. Sempre em constantes manobras para atrair atenção, para perceber de que forma conseguem ultrapassar os outros, aquilo que podem exibir. É patético. É triste.
Passou-me a maleita do corpo, mas hoje ficou-me a do espírito. A vaidade é insuportável, é repugnante. E conheço gente demais assim. De modo que me entristece. De modo que a maior parte das pessoas vale pouco a pena.
E eu própria tenho pena.