Quando as pessoas dizem que têm muito jeito para a escrita, isso normalmente nunca corresponde à verdade. Apenas quer dizer que não dão erros ortográficos e que conseguem escrever a metro, isto é, mais de dez linhas, sem lhes faltar ideias. Não me posso esquecer do mafarrico que se sentou ao pé de mim na cantina da escola e que disse que tinha "muito jeito" para escrever poemas, tanto jeito que as pessoas até lhe diziam que ele dava ares de Fernando Pessoa. Escrevia bem, achava ele.
Eu não sei o que é escrever bem. Sei dizer se considero que alguém escreve bem ou mal, mas não consigo exactamente definir porquê - quer dizer, quando a escrita é má, consigo, porque se torna bastante fácil. Quando se escrevem diálogos do calibre "então compraste mais sapatos?", "É. Comprei", está tudo dito. Qualquer pessoa que, com ou sem licença poética, admita "é" como resposta a uma pergunta que não contém o verbo "ser" tem, claramente, problemas que eu duvido que não ultrapassem a própria (má) escrita. Mas, lá está, como qualquer pessoa de nacionalidade portuguesa, tenho muito mais facilidade em apontar e justificar o que está mal do que justificar o que está bem.
Sei que aprecio cada vez mais a escrita que é apenas formalmente má, ou propositadamente má. Há quem escreva propositadamente mal de forma admirável. Agora só me consigo lembrar de Charles Bukowski e Lobo Antunes em certas crónicas e momentos de alguns romances, mas há outros. Escrita com asneiras, com frases entrecortadas ou mesmo interrompidas, que começam a meio e terminam no início, mas uma escrita fluida, escorreita, viva. Penso que era isto que Truman Capote designava, muito interessantemente, por "underwriting". Curiosamente, o primeiro romance de Truman, Other Voices, Other Rooms, sobre o qual já escrevi aqui no blog, é tudo menos "underwritten". Mas é uma escrita simples, ao mesmo tempo. Não é excessiva, apenas admite momentos de alguma extravagância, o que é inteiramente diferente.
Bom. A minha intenção era escrever um post que se dedicasse com algum afinco ao problema do calor e de as pessoas insistirem em mostrar ao mundo a sua flacidez, usando tops de licra que se colam de tal forma às protuberâncias que ficam a parecer da família do bonequinho da Michelin, e como isso não é bonito nem correcto, sendo que a minha sugestão ia no sentido de se começar a usar umas coisas mais folgadas a bem da estética comum, assim como sapatinhos fechados para quem não tem paciência para limpar as unhas dos pés, já que certas visões de dedões descuidados assustam ligeiramente, mas enfim; acabei por escrever algo completamente diferente.
Ainda não sei como se vai chamar este post. Falta-me o "títalo". Este é um exemplo de escrita propositadamente má. O resto também pode ser, mas este foi mesmo de propósito.
Eu não sei o que é escrever bem. Sei dizer se considero que alguém escreve bem ou mal, mas não consigo exactamente definir porquê - quer dizer, quando a escrita é má, consigo, porque se torna bastante fácil. Quando se escrevem diálogos do calibre "então compraste mais sapatos?", "É. Comprei", está tudo dito. Qualquer pessoa que, com ou sem licença poética, admita "é" como resposta a uma pergunta que não contém o verbo "ser" tem, claramente, problemas que eu duvido que não ultrapassem a própria (má) escrita. Mas, lá está, como qualquer pessoa de nacionalidade portuguesa, tenho muito mais facilidade em apontar e justificar o que está mal do que justificar o que está bem.
Sei que aprecio cada vez mais a escrita que é apenas formalmente má, ou propositadamente má. Há quem escreva propositadamente mal de forma admirável. Agora só me consigo lembrar de Charles Bukowski e Lobo Antunes em certas crónicas e momentos de alguns romances, mas há outros. Escrita com asneiras, com frases entrecortadas ou mesmo interrompidas, que começam a meio e terminam no início, mas uma escrita fluida, escorreita, viva. Penso que era isto que Truman Capote designava, muito interessantemente, por "underwriting". Curiosamente, o primeiro romance de Truman, Other Voices, Other Rooms, sobre o qual já escrevi aqui no blog, é tudo menos "underwritten". Mas é uma escrita simples, ao mesmo tempo. Não é excessiva, apenas admite momentos de alguma extravagância, o que é inteiramente diferente.
Bom. A minha intenção era escrever um post que se dedicasse com algum afinco ao problema do calor e de as pessoas insistirem em mostrar ao mundo a sua flacidez, usando tops de licra que se colam de tal forma às protuberâncias que ficam a parecer da família do bonequinho da Michelin, e como isso não é bonito nem correcto, sendo que a minha sugestão ia no sentido de se começar a usar umas coisas mais folgadas a bem da estética comum, assim como sapatinhos fechados para quem não tem paciência para limpar as unhas dos pés, já que certas visões de dedões descuidados assustam ligeiramente, mas enfim; acabei por escrever algo completamente diferente.
Ainda não sei como se vai chamar este post. Falta-me o "títalo". Este é um exemplo de escrita propositadamente má. O resto também pode ser, mas este foi mesmo de propósito.







