terça-feira, 18 de maio de 2010

Maleita

O problema das maleitas que demoram a passar e persistem em afligir-nos por muitos dias é que se começa a ter muito afincadamente a noção do "mal-estar". Quase que se materializa à nossa frente.
Os sonhos de febre são os piores, os mais disformes. Vozes que nos gritam ao ouvido e que depois se esbatem, para mais tarde voltarem novamente, em ondas, e aquelas cores estranhas, amorfas, que percorrem a mente em grande rapidez. É, na verdade, uma experiência muito surreal.
Como não consigo escrever mais, que o "mal-estar" assola, queria porém deixar um poema que ilustra tudo isto e muito mais. Só me lembro dele (do poema) quando estou doente, e penso que se percebe porquê - foi escrito por Samuel Taylor Coleridge, esse romântico levemente alucinado que, como muitos outros românticos, gostava de comer comida estragada para ter pesadelos e depois escrever sobre eles. Manias.
Não admira, portanto, que o talento de S. T. Coleridge, combinado com as grandes perturbações intestinais que com certeza o acometiam, e que, como todos sabemos, seriam com certeza grande inspiração, tenha resultado neste clarividente poema sobre o incómodo, a alteração, da "doença" - aqui vão, sem mais delongas, alguns versos de "The Pains of Sleep":
Ere on my bed my limbs I lay,
It hath not been my use to pray
With moving lips or bended knees;
But silently, by slow degrees,

My spirit I to Love compose,

In humble trust mine eyelids close,

With reverential resignation,

No wish conceived, no thought expressed,

Only a sense of supplication;

A sense o'er all my soul impressed
That I am weak, yet not unblessed,

Since in me, round me, every where

Eternal strength and wisdom are.


But yester-night I prayed aloud

In anguish and in agony,
Up-starting from the fiendish crowd

Of shapes and thoughts that tortured me:

A lurid light, a trampling throng,

Sense of intolerable wrong,

And whom I scorned, those only strong!

Thirst of revenge, the powerless will

Still baffled, and yet burning still!

Desire with loathing strangely mixed
On wild or hateful objects fixed.

Fantastic passions! maddening brawl!
And shame and terror over all!


É um pouco isto que se passa quando estamos doentes e não dá para fechar os olhos e dormir o sono dos justos, não é?

domingo, 16 de maio de 2010

Matéria

Bom, uma intoxicação alimentar é do pior que pode acontecer ao Homem. Para mim, equivale ao que Kafka dizia sobre acordar cedo - é degradante. A pessoa confronta-se, verdadeiramente, com o facto de ser um animal, talvez o único animal racional sobre a Terra, mas ainda assim um animal, que nada mais tem do que "matéria". Matéria, matéria, matéria por todo o lado. Nestas alturas, não servem de nada as elevações do espírito, nem a arte, nem os bons livros, nem nada, mas apenas o confronto com o facto de sermos apenas "pó". É, até, um exercício de humildade - quer sejas a Rainha de Inglaterra, ou o Obama, ou apenas uma rapariga normal, o que tens para mostrar ao mundo, a tal matéria, é igual para todos e comum à raça humana, que é, na verdade, uma raça animalesca como as outras.
Até é quase filosófico, uma intoxicação alimentar. Dá para a gente pensar.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Pois que tudo são coisinhas

E, mais uma vez, venho aqui dar conta não das pessoas que são assim e assado e que me irritam, mas antes daquilo que em Portugal é assim e assado e que me enternece (embora talvez me devesse irritar).
Há uma certa ternurinha em Portugal, uma certa disposição mansa, a que acho muita graça, embora esta mansidão seja, provavelmente, só fachada, mas enfim. Por exemplo, n'O Mistério da Estrada de Sintra, Eça faz pela primeira vez menção à personagem de Fradique Mendes, esse exótico espécime estrangeirado, que, numa festa, decide falar extravangantemente da relação amorosa e fatal que manteve com uma mulher canibal. E diz-se assim:

Carlos Fradique contava as situações monstruosas de uma paixão mística que tivera por uma negra antropófaga:
- Um dia, exaltado de amor, aproximei-me dela,arregacei a manga e apresentei-lhe o braço nu. Queria fazer-lhe aquele mimo! Ela cheirou, deu uma dentada, levou um pedaço longo de carne,mastigou, lambeu os beiços ...e pediu mais.
-Oh! sr. Fradique! - gritaram todos, escandalizados.

Este "oh! sr. Fradique!" deslumbra-me e faz-me sempre rir. Este escândalozinho que as pessoas deste país gostam de sentir, dissociando-se dele, fazendo questão de afirmar que são muito morais, muito decentes, muito queridas. É bonito. E não esquecer que vem tudo acompanhado de uma impecável, mais uma vez também muito decente, boa-educação, patrocinada pelas requintadas (e intrincadas) formas de tratamento da língua portuguesa - o "sr. Fradique", honorífico + apelido, não há cá primeiros nomes para ninguém.
As pessoas gostam de se enternecer, em Portugal. Gostam de pensar que são boas pessoas. E isso é bonito. Acho mesmo que sim.

terça-feira, 11 de maio de 2010

Ah! E ainda a respeito do que se passa no youtube, o pessoal que se dá ao trabalho de ir lá retirar material devia pôr os olhos nos grandes Monty Python, que criaram um canal onde disponibilizam todo o seu material, porque sabem, e provavelmente apreciam, que as pessoas gostam deles e da obra que criaram.
Só gente medíocre é que tem medo da pirataria, é o que eu acho. Os DVDs dos Monty Python deixam de se vender? Eles perdem dinheiro? Não me consta que isso aconteça (posso estar errada, mas penso que não).


(E também me esqueci de juntar à lista dos descontrolados raivosos aquele horrível do Manual de Instruções para Crimes Banais, filme do qual penso que falarei em breve. Foi dos filmes mais terríveis que vi, e o criminoso do filme foi dos que mais detestei. Explicarei porquê.
Mas agora não.)

Desejo sinceramente que o youtube se

Bom, mas é que fico mesmo a espumar de raiva, com vagas incontroláveis de instintos absolutamente assassinos, qual cão danado, qual Vincent Vega e Jules a descarregar a arma depois daquele "Ezequiel 25:17", qual Robert DeNiro no GoodFellas a despachar os tipos todos que sabiam dos negócios escuros dele ao som do Leyla do Eric Clapton, qual Kaiser Soze a matar inimigos e pessoas que conheciam os inimigos e até pessoas que deviam dinheiro aos inimigos, qual Vitto no Padrinho, que volta à terrinha na Sicília para despachar o gordo mafioso que lhe tinha matado o pai, fico assim como esta gente toda, quando vou ao youtube e constato que uma data de links que pus no facebook ou nos favoritos não está lá, e também (atenção) não está disponível em mais nenhum lado. OK?
É que não está.
Estamos a falar de Mário Viegas a recitar poesia, por exemplo.
Estamos a falar de excertos mínimos de filmes (não são o filme inteiro, nem de perto nem de longe).
Estamos a falar de clips do South Park, que eu, por acaso, até acho que ainda não saíram sequer em DVD.
Estamos a falar de entrevistas antigas com escritores, músicos.
Estamos a falar de videoclips que, por amor de Deus, mais não servem do que promover bandas e que, estando disponíveis no yoube, apenas estimulariam o apreço e o gosto pelas mesmas, resultando, talvez quem sabe, na efectiva compra do CD.
A sério. Terem retirado o Mário Viegas, então, deixa-me fora de mim, absolutamente fora de mim, com instintos assassinos, qual os sapatos da enfermeira no Vestida para Matar, qual Hanibal Lecter (sim, sim!, é este o meu estado), qual Kaiser Soze, qual Robert DeNiro em Goodfellas, em Padrinho, qual Vincent Vega, cães danados e outros que me estão agora a faltar.
Oh pá, a sério. Que estupidez. Lembram-se daquilo que o Miguel Esteves Cardoso disse da Leya há bem pouco tempo? Pois bem, eu digo exactamente o mesmo à gentinha que vai ao youtube retirar conteúdos inofensivos, interessantes e que, além de não infringirem direitos de autor, apenas promovem e publicitam os ditos autores.
E agora despeço-me, que a fel destila em golfadas, toda eu sou fel, bleagh, que porcaria, tenho de ir tomar um duche para adocicar.

(nota para dizer que estou a ponderar seriamente criar uma etiqueta "fel" neste blog. É que, infelizmente, a minha natureza resvala sempre para o mal).

domingo, 9 de maio de 2010

Bola


Gosto de futebol por causa da festa. Não percebo a fundo todas as regras do jogo, e nem sequer conheço todo o plantel do Benfica. Mas gosto de futebol e sou do Benfica.
Acima de tudo, gosto de bola, que pode ser uma rodilha de trapos ou uma esfera mais pesada e profissional, e que permite que os miúdos joguem na rua e que os adultos disputem campeonatos. A bola dá oportunidade tanto ao pobre como ao aristocrata - há inúmeros casos de jogadores que vieram do nada, de vidas pobres ou quase miseráveis, mas que chutavam a bola desde pequenos e que assim descobriram um talento imenso (o que não desculpa de forma nenhuma a pobreza, mas mostra como o futebol chega a tantas vidas diferentes). A bola fascina crianças, que de repente se esquecem da sofisticação dos brinquedos com pós modernos para exercitar o pé em chutos animados, e no entanto é uma coisa tão simples, que não custa nada. Uma bola.
E, por isso, ver o Benfica campeão é, como dizem os benfiquistas mais empedernidos, "uma alegria muito grande" e "uma coisa muito bonita". Primeiro, porque, por herança familiar, que mais tarde se tornou do coração também, sou do Benfica. Segundo, porque é inesquecível ir à Luz e ver tantas pessoas felizes. Respira-se felicidade, que transborda de tanta gente tão diferente, velhos, novos, famílias inteiras, adolescentes, mulheres, homens.
Aceito quem não gosta de futebol, quem não tem paciência, quem é indiferente a derrotas e vitórias (nem sequer é uma questão de aceitar; não tenho nada a ver com isso). Aceito, porém, com muita dificuldade que me digam que ter um clube do coração "é uma estupidez", como às vezes ouço, e que o futebol só serve para negócios escuros por causa de uma data de homens a correr atrás da bola. Os negócios escuros do futebol só entristecem quem verdadeiramente gosta de um clube, assim como o mau perder e as cenas de batatada que às vezes acontecem também mancham, vergonhosamente, aquilo que devia ser uma festa alegre. E porém, estes episódios tristes não afectam a felicidade de uma vitória, ou a plenitude de cantar a plenos pulmões na Luz (onde não consegui estar hoje, com uma pena imensa), de cachecol ao pescoço.
É uma coisa muito bonita. Uma alegria muito grande. E gosto que as pessoas partilhem isto por causa de uma simples bola. Não me parece menor, não me parece pouco inteligente. Parece-me bem, e isto independentemente de sermos do Benfica, do Sporting, do Porto.
Viva a bola e, hoje, com toda a força, viva o Benfica.

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Um possível problema de tradução


Em Birthday Letters/Cartas de Aniversário, de Ted Hughes, edição Relógio d´Água e tradução de Manuel Dias, há um poema de que gosto muito, muito, muito que se chama Blue Flannel Suit e que, antes de terminar, diz assim:

You waited,
Knowing yourself helpless in the tweezers
Of the life that judged you, and I saw
The flayed nerve, the unheable face-wound
Which was all you had for courage

A tradução é a seguinte:

Esperaste,
sabendo-te indefesa nas tenazes
da vida que te julgava, e eu vi
no teu nervo esfolado e na ferida incurável do teu rosto,
toda a tua coragem

Não sou tradutora, nem conto atrever-me sequer a tentar traduzir poesia, e talvez o meu problema com esta tradução seja apenas hiper-sensibilidade minha em relação ao poema de que gosto tanto. No entanto, julgo que, efectivamente, o último verso traduzido não faz jus à fragilidade bonita do original. O "nervo esfolado" e a "ferida incurável" é tudo o que resta, e é tudo com que se pode contar para ir arranjar coragem não se sabe bem onde; "which is all you had for courage" é muito diferente de "eu vi [no nervo esfolado, na ferida incurável] toda a tua coragem". A tradução portuguesa dá uma força quase dominadora a esta coragem que, no original inglês, não me parece existir. Há coragem, sim, mas esfarrapada, frágil, de modo que o "flayed nerve" e "unhealable face-wound" se tornam, curiosamente, ainda mais poderosos - são sinais de ferida e desgosto que, apesar de tudo, continuam a ser coragem.
Mas pronto. De resto, nada a dizer. A minha mensagem ao tradutor é, fazendo minhas as palavras de Herman a Manoel de Oliveira, "que não desista" e "que continue".

Ardente e violentamente

Estou a sempre a começar posts pelo desagradável intróito (tão desagradável como a própria palavra "intróito" e a pessoa que o escreve) "não gosto de pessoas que...".
E este post não vai variar. Não gosto de pessoas que não gostam muito de uma coisa. Aquelas pessoas que gostam de tudo e não gostam verdadeiramente de nada.
Ah, Pearl Jam? Gosto, pois, já os vi ao vivo.
Ah, Kraftwerk? Gosto, pois, já os vi ao vivo.
Ah, Quim Barreiros? Gosto, pois, já o vi ao vivo.
Ah, George Orwell? Gosto, pois, já o li ao vivo.
Ah, A Aparição? Gosto, pois, já li e pensei sobre o livro ao vivo! (pois claro...)
Ah, Lídia Jorge? Gosto, pois, já a li e vi o filme ao vivo.
Ah, Murakami? Gosto, pois, etc.
Não é possível. Há gente que gosta destas coisas todas que eu enunciei, tudo ao mesmo tempo, sem critério nenhum, e sem se manifestar ardente e violentamente por nada. Não acredito em quem não se manifesta ardente e violentamente por nada, e prefiro não acreditar, porque é gente que me irrita.
Uma vez, ao ler uns pensamentos de Vergílio Ferreira, de que, por acaso, gostei muito, deparei-me com o seguinte: Morrerás em breve. É incontestável. E quanta verdade morrerá contigo sem saberes que a sabias. Só por não teres tido a sorte de num simples encontro ou encontrão ta fazerem vir ao de cima.
Portanto, como é que há pessoas que passam a vida a evitar as verdades que devem sentir com toda a força, a encolher os ombros, a gostar de tudo por igual, por atacado? Essas pessoas são as mesmas de quem fala Vergílio Ferreira. Fazem-me impressão.
Sou uma pessoa muito impressionável.

Umas notinhas sobre uns documentários que tenho visto


Há pouco tempo, vi na televisão o filme, presumo que mais ou menos ficcionado, sobre Grey Gardens, uma casa decadente nos Hamptons onde viviam Big Edie e Little Edie, mãe e filha, dementes, doces e completamente afastadas do mundo. Conheci-as ao ver o documentário dos irmãos Maysles, que me impressionou muito, e sobre o qual escrevi aqui; vi também, há relativamente pouco tempo, um outro documentário destes realizadores sobre os Beatles (The Beatles - The First US Visit) que, incrível e supreendentemente, me desapontou.
Estes documentários, tal como o recente Fantasia Lusitana de João Canijo, recusam muito claramente a voz off e vão mais longe - recusam entrevistas com possíveis "especialistas" a opinar sobre o assunto, deste modo evitando quaisquer cortes entre o espectador e o objecto a documentar. É o objecto que tem a única voz do filme, inteira e ininterrupta. Quando este objecto consiste em duas senhoras divertidas e com uma vida tão estranha e inimaginável como as Edies, corre tudo bem. Quando o objecto consiste num país que sofre do tal irrealismo prodigioso, também corre tudo bem. Então, porque é que não resulta com os Beatles?
Porque a única coisa que decorre de um documentário filmado nos anos 60 e que se limita a filmar os Beatles em todas as ocasiões possíveis é o facto de se tornar penosamente óbvio que nenhum dos quatro elementos da banda estava alguma vez sozinho, ou tinha tempo para reflectir, ou para pura e simplesmente ficar calado. Tinham sempre gente à volta, e o que o documentário regista é que os quatro Beatles passavam a vida a mandar bocas inconsequentes e a "entrar no personagem", correspondendo à performance que deles era constantemente esperada. A autenticidade, que enternece e seduz em Grey Gardens, é evitada e nunca transparece no documentário sobre os Beatles.
Talvez a conclusão a retirar seja isto mesmo, a de que os Beatles, coitadinhos, tinham sempre gente à volta, ou então eram pura e simplesmente ocos e não tinham nada para dizer. Eu, porém, acho que tinham porque já li entrevistas bem mais interessantes com a banda. De modo que este estilo documental de dar voz, directa e ininterrupta, àquilo que se retrata nem sempre é boa ideia. Às vezes, não faz mal haver voz off, os tais especialistas a explicar tudo bem explicadinho como se o espectador fosse parvo e tal. Dá mais substância.
Bom. Não tenho mais nada a dizer. Parece que, depois de tanta frase, teria assim uma conclusão mais retumbante, não é? Mas não, fico mesmo por aqui. Não era a minha intenção escrever um post enganoso, e portanto desde já aqui deixo as minhas desculpas.

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Desculpas que se arranjam para não ir limpar a casa

1 - estar a ler um texto com a expressão "queda livre", em vez disso ler "queca livre" e ficar a pensar em possíveis ilações que se poderão retirar de algo que Freud, com certeza, designaria por acto falhado

2- pôr-me a ver o Henrique Sá Pessoa a cozinhar ao ar livre (sim, cozinhar ao ar livre, não em queda livre e nem sequer a tal outra hipótese), tipo Jamie Oliver, e pensar que há pessoas que têm uma maneira lenta de falar que é muito engraçada. É o Henrique Sá Pessoa e o Nicholas Cage. São lentos a falar. Acho piada a esta idiossioncrasia porque eu sou o contrário, falo muito depressa e ninguém percebe o que eu digo, o que complica a minha vida.

3 - reparar que o Henrique Sá Pessoa está a cozinhar com a música pirosa dos Journey no background (aquela que é "don't stop believing, just a small town girl", blá blá) e ficar a pensar que isso quer dizer alguma coisa que eu não estou a atingir. É que eu, por acaso, até acho piada à música

4 - estar sentada no sofá e olhar para o chão e pensar, "ah, afinal também não está assim tão sujo"

5 - estar sentada no sofá e pensar que afinal não almocei bem e tenho de ir comer mais qualquer coisa, se não começo a limpar e depois fico sem forças, e depois como é que é?!

6 - escrever este post

7 - ir ao youtube procurar o vídeo que aqui vai figurar

8 -pensar que, realmente, o Henrique Sá Pessoa e o Nicholas Cage têm mesmo uma maneira engraçada de falar, são assim lentos.

terça-feira, 4 de maio de 2010

O trauma Branwell Brontë


Branwell Brontë nasceu numa família de mulheres, com três irmãs que ficaram para a história ao contrário do seu próprio nome, tão rapidamente esquecido como a sua vida vã. Os recursos da família eram dispendidos no único filho varão, em quem o pai insistia em ver rasgos de brilhantismo que mais ninguém via e, se bem que encorajasse também as historietas e as fantasias que as filhas gostavam de escrever, era Branwell que era resguardado para Oxford e Cambridge, onde nunca entrou, era Branwell que viajava, era Branwell que ficava em casa, protegido pela família, ao passo que as irmãs eram enviadas para escolas onde se morria de tuberculose e má nutrição.
Era também Branwell que se embebedava, que se tornava toxicodependente, que morria de amores proibidos pela senhora da casa onde trabalhava como professor dos filhos do casal e que, assim, trazia verdadeiramente o temido "opróbrio" à família.
A História tornou claro que Charlotte, Emily e Anne eram brilhantes, e Branwell não; que Charlotte, Emily e Anne escreviam bem, e Branwell não; que Charlotte, Emily e Anne haviam sido injustamente menosprezadas, e Branwell injustamente sobrevalorizado.
E, no entanto, a figura de Branwell Brontë é estranhamente interessante. O seu percurso auto-destrutivo, sem limites (adultério, droga, doença, excesso, morte prematura com tuberculose), mostra bem que, antes da História, era já para ele claro que seriam as suas irmãs as dignas herdeiras da chama literária que, nele, se apagava - no quadro que pinta de si próprio e das suas irmãs (este aqui ao lado), Branwell apaga a sua própria figura, preferindo que a sua identidade merecidamente se apague. No fundo, é uma personagem condenada desde o início, curvada sob o peso de expectativas familiares irrealistas que nele insistiam em ver génio, verve, imortalidade, e ele sem conseguir corresponder por pouco que fosse. Nem génio, nem verve, nem nada - apenas um tipo normal, acalentado por uma família para quem ele, que não tinha nada, era tudo.
Viver para corresponder às expectativas dos outros deve ser muito complicado.

domingo, 2 de maio de 2010

A propósito de louras



Agora fala-se muito da Grace Kelly; é capa da Vanity Fair, é exposição do guarda-roupa no Victoria & Albert, que eu hei-de ir ver, se a tanto me ajudar o engenho e a arte, é reminiscência saudosa do incomparável estilo, eterna elegância, inimitável porte principesco, tanto que até casou com um príncipe e tudo (e que caro o pagou). Aliás, a reportagem da Vanity Fair chega aos píncaros do risível, sendo um bom exemplo do que acontece quando certos e determinados desejos e anseios humanos são canalizados para estrelas de Hollywood e se desenvolvem fixações pouco saudáveis que levam a que se escrevam coisas como isto:

As for color, Grace was given her own, Apollonian palette. Wheat-field and buttercup yellows, azure and cerulean blues, seashell pink and angel-skin coral, Sun King gold and Olympus white—no one wore white like Grace Kelly. To those with a feeling for history, beauty, and style, Grace Kelly’s late-career wardrobe—the huntress Artemis during the day and Aphrodite at night—is unforgettable if not positively Delphic.

Bom. Eu, por acaso, gosto da Grace Kelly. Primeiro, o louro americano sempre me deslumbrou, em particular o louro gélido da Grace Kelly, que resultava tão bem nos filmes do Hitchcock. Aliás, nos filmes deste, as louras são sempre heroínas corajosas, e as morenas não necessariamente más, mas sempre umas pobres tristes (exemplo paradigmático, as duas meninas dos Pássaros - a loura sobrevive e fica com o namorado, a morena morre depois de ter sido sempre desprezada pelo seu amor). Mas continuando.
A propósito de louras, de quem eu sempre gostei foi da Marilyn. Comparada com a Grace, a Marilyn parece a desleixada com um palmo de cara que se enganou e, em vez de entrar na tasca onde habitualmente cantava o vaudeville de collant rasgado, entrou no restaurante fino onde se toca piano e come lagosta. E, no entanto, há um encanto mais autêntico na Marilyn, uma certa espontaneidade que eu acho enternecedora. A Grace não enternece. É uma estátua de gelo que ali está para deslumbrar, para ser admirada. A Marilyn, de busto emproado, cabelo platinado, cara de falsa ingénua, parece mais perdida, mais tonta, menos séria, menos perfeita. Tem uma sensibilidade que a Grace não consegue, ou, pelo menos, nunca conseguiu nos filmes que vi dela.
E por isso gosto mais da Marilyn, porque na vida real também me interessam mais as pessoas que revelam as fragilidades que têm, que não se envergonham disso. Os que as tentam esconder, muitas vezes mal disfarçadamente, irritam-me um bocadinho.

Fantasia Lusitana


Ao ver "Fantasia Lusitana", de João Canijo (sou fã absoluta deste homem), confirma-se plenamente o que Eduardo Lourenço, com toda a sabedoria e pelos vistos presciência, escreveu no Labirinto da Saudade: o irrealismo prodigioso com que Portugal se vê ao espelho.
O documentário de Canijo revela como toda a propaganda do Estado Novo, alguma dela até, devo confessar, tristemente divertida ("os nossos mercados são tão bonitos, as belas cebolas, as batatas, suas irmãs, que só esperam pelo seu melhor amigo, o bacalhau", coisas assim), dizia, toda esta propaganda disseminava a imagem do pobrezinho mas honrado Portugal, reduto intocável de paz, felicidade, alegre modéstia, mimosa fé, alheio à guerra, ao holocausto, aos próprios refugiados que invadiam Lisboa - "pois que tudo são coisinhas", como escreveu Garcia de Resende (quer dizer, escreveu mais ou menos isto, não posso garantir que saiba de cor) a propósito da corte portuguesa renascentista. Era o que se passava em Lisboa - tudo eram coisinhas, alegres, frescas, fadistas. Interessantíssimos os relatos de Saint-Exupery e Alfred Doblin, que eu não fazia ideia que tinham passado por Lisboa, mas que estiveram de facto cá em 1940 - ambos falam de como a luz da nossa belíssima cidade (aqui, sem sombra de ironia - Lisboa é efectivamente uma beleza, e ainda bem) acaba por ter um efeito muito mais desconcertante do que apaziguador. Um falso paraíso, uma paz prestes a desmoronar-se, todo um povo que quer com toda a força acreditar, prodigiosa e irrealisticamente, que a guerra está lá longe, que não o afecta.
Algumas imagens do documentário são aterradoras, e isto porque ainda se reconhece tanto do país da altura naquilo que o país é agora (sim, isto é um lugar-comum mais do que comum, bem sei; já quando se lê o Eça se percebe que ainda há tanta coisa igual, blá, blá... mas os lugares-comuns têm uma vantagem, é que normalmente são verdadeiros).
Mas quem sou eu para me queixar. Vamos ter feriado porque o Papa nos vem visitar, e isso para mim é sinal dos tempos, que a liberdade está a passar por aqui. Há que rejubilar.

Henry Chinaski

Quando aparecia a feira na cidade, toda a gente lá ia. Era um acontecimento.
Eu gostava da feira porque era a única altura do ano em que se podia comprar pão doce, fresquinho e com uma camada de açúcar por cima. No resto do ano, nenhuma padaria o vendia.
A juventude gostava de se concentrar na pista de carrinhos de choque. Os rapazes vinham do frango assado ao jantar, fim de tarde na feira, e exibiam ali a destreza automobilística, já que ninguém os deixava tirar a carta. As raparigas usavam gel no cabelo, vestiam fatos de sair e agrupavam-se ao pé da pista, a lançar olhares ansiosos aos condutores, na esperança de que eles as convidassem para encontrões e solavancos de encontro a outros carrinhos. Às vezes, funcionava, e a noite acabava por detrás de um qualquer pavilhão, já com os carrinhos bem esquecidos e com a mente concentrada noutros choques bem diferentes; outras vezes, não funcionava, e lá voltavam as raparigas para casa, em bando, o gel no cabelo que afinal não fizera diferença nenhuma, mais valia nem terem posto nada. Se era Carnaval, ainda levavam com um balão de água em cima, ouviam os rapazes que o tinham lançado a fugir e a rir, e chegavam a casa como verdadeiras gatas pingadas.
Para mim, a noite acabava sempre a vomitar, que pão doce e rodopios de carrinhos de choque me davam mais que voltas ao pobre estômago. O gel no cabelo não adianta nada quando se sofre do estômago, e portanto nunca me incomodei com isso. A feira também costumava vender calendários com fotografias de pessoas famosas, a Marilyn, o Elvis, o James Dean. Uma vez, encontrei um conjunto de calendários com os Beatles e comprei logo, muito satisfeita com o meu achado. Nessa noite, senti que o vomitanço tinha compensado.
Nas outras noites, nem por isso. Não me querendo comparar, percebo perfeitamente Henry Chinaski. Além disso, não gosto de feiras, nem nunca gostei.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Este post não "fluiu". A magia não se deu. Só para avisar.

A escritora Joanna Trollope considera que as mulheres são infelizes porque, com estes pós modernos, criam falsas e exageradas expectativas relativamente aos homens. Diz a Joanna que não é realista fazer uma listinha e esperar que os homens, ou um homem em particular, reúna critérios como ganhar muito dinheiro, saber cozinhar, ser desenrascado e um animal fogoso, tudo ao mesmo tempo. Aliás, o que ela diz exactamente, e que retiro dessa instituição do mais imaculado jornalismo britânico que é o Daily Mail, é:

People have to throw away this absurd Vera Wang shopping list which says of a man that he has to earn £100,000 a year, that he has to be able to cut down a tree, play the Spanish guitar, make love all night and cook me a cheese souffle.


Acontece que, nunca tendo lido os livros da Joanna, mas partilhando da opinião de Savaater de que todas as pessoas são respeitáveis independentemente da opinião que têm, não tenho motivos para não respeitar também aquilo que ela, Joanna Trollope, se lembra de dizer. E, de facto, acho que há uma certa verdade no que diz. Da mesma forma que a publicidade, os filmes, e talvez apenas os sinais dos tempos, permitiram aos homens idealizar suecas ou americanas louras e inteligentes, também as mulheres idealizam o marido médico a destilar dinheiro e amor perpétuo - como se constata ao visionar pérolas televisivas como Anatomias de Grey e quejandos, com o neurocirurgião absolutamente derreado à vista da sua subalterna, que ele quer apenas proteger e amar, e que é, de forma reveladora, carinhosamente apelidado de "McDreamy". Pois.
Lendo a blogosfera e falando com as pessoas, acho que efectivamente concordo com Joanna Trollope. Toda a gente tem exigências absolutamente arrebatadoras e impossíveis relativamente aos outros. As das mulheres em particular, que são as que conheço melhor porque eu própria também não consigo evitar certas destas exigências, vão desde inteligência, cultura e educação a cor dos olhos, rabo giro, roupa gira, nariz pequeno, nariz grande, sinal na cara, moreno, alto, baixo, gordo, "misterioso", "decidido", "confiante", "sensível", "que não tenha vergonha de chorar", "que nunca chore", "artístico", "artístico sem ser gay", "que seja de esquerda", "que seja de direita", "que seja centrão", "que nunca vote", enfim, uma imensa panóplia que com certeza os homens também terão quando idealizam a mulher perfeita.
O problema é que, às vezes, estamos mesmo à espera que as pessoas reúnam esta parafernália toda de qualidades, e temos uma lista mental com tópicos que vamos riscando, "ai, mas eu não quero uma pessoa que diz 'há-des", "ai, mas eu nunca poderia gostar de alguém que acha que cinema português é Adão e Eva", "ai, mas eu nunca poderia gostar de alguém que usa pullover por cima dos ombros", "ai, mas eu nunca poderia gostar de alguém que foi ver a Beyoncé ao vivo e adorou", etc., etc. Confesso que estou a traçar um quadro propositadamente negro - compreendo perfeitamente que ninguém queira partilhar um minuto, quanto mais a vida, com indivíduos que correspondam a este perfil.
Mas enfim, chega-se a um ponto em que tempos de perceber que há coisas que não têm importância nenhuma (não são, seguramente, "há-des" e gostar de Beyonce, mas talvez, por exemplo, o pullover por cima dos ombros seja tolerável... ou talvez não). E que, ou abrimos os olhos para as pessoas que nos rodeiam e que talvez sejam, sei lá, "espectaculares", ou nos sentamos, especados e especadas, pacientemente à espera de Godot que, como Beckett ensina e bem, nunca há-de chegar e é bem feita.
No entanto, agora estou a ver as notícias que anunciam que a Grécia acabou de descer para uma nota BB+, que pelos vistos quer dizer que, nas palavras do jornalista, "é lixo que não interessa a ninguém". E, sinceramente, não quero saber da Joanna e de quem quer um homem que ganhe as tais cem mil libras e toque guitarra espanhola, de que eu por acaso até nem gosto, nem de quem tem listas com as qualidades do príncipe encantado, nem nada destes assuntos.
Neste momento, odeio profundamente essas agênciazecas de rating, odeio toda a alta finança e taxas de juros e instituições e transacções de capitais e ataques dos mercados, e todos os imprestáveis governos gregos, enfim, todos esses seres malignos que permitem que a "minha" Grécia seja enxovalhada desta maneira, nós pelo mesmo caminho, e o futuro, como diria o grande Herman, visteze-o? Era o viste-lo.

terça-feira, 27 de abril de 2010

Gramáticas


Este livro, A Concise Chinese-English Dictionary for Lovers, é uma pequena delícia. É mesmo assim que o quero descrever. É um doce "cupcake" em forma de livro. Trata da história de Z, uma jovem chinesa que vai viver para Londres para aprender inglês e acaba por se apaixonar por um homem mais velho, com uma vida inteira atrás. Ainda não acabei de ler, mas já suspeito que vai tudo acabar em tragédia.
O maior interesse do livro não é a rápida história de amor. É a forma como Z procura descrever tudo o que vai experimentando e sentindo em inglês, ao invés da sua língua materna, o chinês. Uma vez que Z quase não percebe inglês, mas tem um desejo incendiário de aprender tudo e saber todas as palavras, fazendo-se sempre acompanhar por um precioso dicionário, o seu processo de aprendizagem emocional é absolutamente paralelo à aprendizagem linguística.
A beleza deste livro está na premissa bonita de que a linguagem emoldura e define tudo o que sentimos e vivemos. Sem linguagem, não há pensamento, porque tudo o que pensamos tem de ser verbalizado. Esta hipótese foi desenvolvida por Sapir e Whorf que, com a sua famosa, e até certo tempo popular, teoria da relatividade linguística, disseram que ninguém vê as ondas do mar da mesma maneira.
De alguma forma, esta simpática e doce teoria, que eleva a linguagem aos píncaros, e que a torna a rainha de todas as percepções de todos os mundos, caiu em desgraça. Mas a Z, deste livro que estou a ler, concordaria com certeza com este poder essencial da linguagem, ela que vai aprendendo o mundo em que vive à medida que o verbaliza, conseguindo pérolas de sabedoria como:

Chinese, we not having grammar. We saying things simple way. No verb-change usage, no tense differences, no gender changes. We bosses of our language. But, English language is boss of English user.

É verdade, concordo com a Z. E, baixinho e em segredo, concordo com Sapir e Whorf. Ninguém vê as ondas da mesma maneira, tanto que há pessoas baixas e pessoas altas, de modo que os baixos vêem golfadas que vêm para os engolir e os altos vêem grandes poças de água. A gramática, nestas alturas, varia muito e é de facto grandemente relativa.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Endireitar a vida

Bom.
Chegou a hora de dar uma volta à minha vida e começar a andar com as coisas para a frente, que o mundo é um lugar duro e, como diz a canção que ostenta o meu nome, cerra os dois punhos e andou.
De modo que se aceitam ideias para uma trash-novel com laivos de falsa intelectualidade e com uns quantos name-droppings incisivos, para agradar a um largo espectro de leitores, isto é, os leitores mais exigentes satisfazem-se naquela atitude de sobranceria que lhes é comum (ó rapariguinha, isto de que tu falas também eu conseguia escrever e muito mais, pá, mas pensas que és a única a conhecer o Noam Chomsky ou quê) e os leitores menos exigentes satisfazem-se a pensar que são espertos por conseguirem ler tão bem e tão rapidamente um livro que até fala do Noam Chomsky (atenção: estamos aqui a falar da dupla versão de Noam Chomsky, o comentador político e o linguista. Uma coisa com nível).
Prometo uma recompensazita de aí uns 2%, o que é avultado, porque o livro vai vender milhões e vai ser traduzido, no mínimo, para espanhol. Estamos a falar de Brasil e restante América do Sul a comprar.
Por enquanto, estou a pensar num romance que começa com uma trintona meio intelectual, tipo galeria de arte ou universidade, na cama com um falhado qualquer com problemas de droga; o falhado é super giro, mas estraga-lhe a vida toda e envergonha-a à frente dos amigos ricos e intelectuais.
Como se constata, isto precisa de ser apimentado, de modo que, como disse no início deste post, aceitam-se ideias e sugestões.
Bem-haja, muito obrigadinha.

sábado, 24 de abril de 2010

A atracção do abismo

O meu pai fala, às vezes, da atracção pelo abismo, e que é o estranho fenómeno que acontece quando estamos perante uma coisa terrivelmente má, mas da qual não nos conseguimos afastar, de tão intenso é o maléfico e pernicioso desejo de ver o Mal com os nossos próprios olhos. O meu pai, por acaso, viu o Mal quando apanhou na televisão, há imensos anos, um concurso que na altura era medonho mas que hoje, devido ao meritório esforço e trabalho da TVI, seria apenas sofrível, e que se chamava A Amiga Olga.
Bom. Eu sinto esta necessidade do Mal muitas vezes. Por exemplo, estou neste momento a ver um programa sobre casais com filhos pequenos e absolutamente hediondos, que berram, gritam, esganiçam-se, atiram comida para o chão, fazem birra por tudo e por nada, não dormem, não deixam os pais em paz. Por um lado, quase dá vontade de chorar, tal é a pena que se sente pelos pobres e desesperados pais. Por outro lado, não dá pena. Dá vontade de rir, um riso vil e de baixeza inominável, porque não sou eu naquela situação.
É este o efeito do Mal. Por isso é que é o Mal. Torna-nos más pessoas, pelo menos a mim.
Mas continuo muito bem-disposta por não ter a vida daqueles casais com crianças doidas. Posso ter a atracção do abismo, mas não desço às suas profundezas.
Continuo a ler o Ham on Rye e a gostar muito. Li na Wikipedia que Bukowski costumava dizer "don't try", e que tal sentença até está na sua lápide. Não se deve forçar certas coisas.
Eu concordo, e acho que é um pensamento com muita razão e muita inteligência. Por isso é que eu não tenho escrito, não tem dado. E não consigo tentar. Quanto mais tento, pior fica.
É assim.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

...dir-te-ei quem és?

Ofereceram-me um livro de contos da Katherine Mansfield (uma querida amiga, que já não vejo há uns tempos; resta dizer que me ofereceu o livro também há uns tempos); na contra-capa, podia ler-se que, entre vários outros excelsos talentos de Katherine, um deles avultava, e que era o ter sido amiga de D. H. Lawrence e de outro qualquer que não me lembro. O Lawrence atraiu-me mais, porque dantes eu era verdadeiramente uma groupie do D. H. Mas adiante, que isso foi há tempos idos e eu não vou estar agora a retomar, muito menos relatar, cavalgadas passadas.
Dizia, a Katherine Mansfield vinha recomendada por ter sido amiga do D. H. Lawrence. Pergunto-me se isto tem alguma coisa a ver com o eventual talento literário da senhora. A não ser que a qualidade literária se pegue na mesma medida que nesse tempo se pegava a sífilis ou a tuberculose ou a escarlatina ou sei lá.
Nunca confiei muito naquele provérbio piroso (há tantos provérbios pirosos que nem sei por onde começar) que dita "diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és". Acho uma injustiça e, se encerra alguma verdade, esta será, com certeza, muito, muito, muito parcial. Parcialíssima.
A não ser que escolhamos as pessoas por quem nos apaixonamos (os amigos incluem-se no grupo das pessoas por quem nos apaixonamos), isto de alguém ser amigo do outro não me diz mesmo nada. A não ser que seja alguém amigo do Hitler - aí, abro uma excepção.
E porém, de certa forma, acabamos de facto por escolher os nossos amigos. Controlamos o coração de alguma forma.
Isto para dizer que o facto de a Katherine Mansfield ter sido amiga do D. H. Lawrence é absolutamente indiferente para a minha apreciação, e até gosto, por aquilo que ela escreve. Diz-me com quem andas e quanto muito digo-te o que queres da vida, mas não mais do que isso.