quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Educação que faz doer (SPOILERS)


Vi ontem o filme "An Education". Gostei muito, e achei a Carey Mulligan um doce, ao passo que Peter Saarsgard, o seu amante mais velho, estava terrivelmente assustador e seboso, isto é: os actores cumpriram muito bem o seu papel.
Além do filme, gostei também muito de ler aqui o relato da verdadeira história em que o filme se baseia. A jornalista Lynn Barber resume o seu affair meio sórdido, meio desiludido, com um homem mais velho, sedutor mas de pouco encanto, por quem ela nunca se apaixona, que rapidamente a entedia, e que se revela um criminoso untuoso, alguém que provoca desconforto, em quem sabemos não poder confiar. Tudo acaba de uma forma quase trágica - ele é casado, ela tinha desistido de Oxford para se tornar a sua noiva e acaba sozinha, sem noivo nem Oxford. Diz Lynn Barber que a ruptura amorosa não a afectou (nunca se tinha apaixonado por ele), mas que o que a abalou foi ter abandonado a sua própria vida e os seus planos de independência em nome de um homem da má vida que a levava a restaurantes e com quem concordou casar porque os pais lhe disseram que, quando se tem um bom marido, não é preciso ir para a universidade.
Lynn Barber diz também que, apesar do seu longínquo amante mais velho não ter passado de um criminoso que nunca sequer lhe despertou grande paixão, a "educação" que ele lhe deu é fundamental - foi com ele que aprendeu a valorizar outro tipo de homens, homens bondosos, honestos, de confiança. Sem a brutal experiência do "homem malfeitor", talvez nunca apreciasse e acabasse por se apaixonar pelo marido com quem viveu 30 anos, diz ela, este sim, o verdadeiro bom rapazinho.
Eu acho que compreendo bem o que Lynn Barber quer dizer. Há pessoas que parecem deslumbrantes à primeira vista - dinâmicas, atraentes, independentes, de bom gosto - mas que rapidamente se revelam uma imensa desilusão, de tal modo que se tornam entediantes, embaraçosas. O problema é que, se as deixamos entrar na nossa vida, podemos não saber muito bem como as tirar de lá. Mas é apenas quando nos desiludimos desta forma tão profunda que vamos à procura de outro tipo de pessoas, daquelas que nos podem fazer felizes a sério.
É pena que, para encontrarmos qualquer tipo de felicidade na vida, tenhamos primeiro de bater com a cabeça contra o muro com tanta força que nos cresce um galo. Eu tento ter a convicção de que, quando o galo passar, o muro vai abaixo.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Febres de Domingo à noite

Ontem foi Domingo à noite e, como se não bastasse, chovia.
Fui a uma pastelaria ao pé da minha casa que tem sempre pão a sair, faça chuva ou faça sol (por acaso, fazia chuva), seja dia, seja noite (por acaso, já era de noite). Entrei e estavam dois gatos pingados sentados a uma mesa, à espera da fornada que estava para sair (dali a cinco, seis minutos, disse o senhor). Sentei-me também, à espera.
Havia um silêncio deprimente. Ouviam-se os pingos de chuva lá fora, um casal bichanava no canto, o balcão estava já todo despejado e limpo, sem bolos, sem nada. Esperava-se, apenas, pela última fornada de pão.
Talvez para cortar o ar estranhamente pesado, o senhor da pastelaria pôs um CD qualquer a tocar. Qual não é o meu espanto quando reconheço a voz do Donovan, a cantar o Atlantis. Já não ouvia Donovan há anos, e, que me lembre, sempre o ouvi em casa; nunca por nunca, mas mesmo nunca, estive ou soube de qualquer estabelecimento público que passasse como música ambiente a voz melosa do Donovan.
Sentada ali, à mesa da pastelaria, a um Domingo à noite, a chover lá fora, senti-me verdadeiramente uma Tom Waits, ou uma personagem de um dos quadros do Hopper. Talvez isto:



Ou, de forma ainda mais precisa, isto:



Faltava-me, talvez, um cigarro e uma voz de whisky queimado, como a Mercedes McCambridge, que dobrou a menina do Exorcista e fumou dois maços por dia para soar, mais ou menos, como um qualquer demónio. Nunca tinha passado por uma experiência assim.
Podia ter entrado um indivíduo de calças de ganga, botas caneleiras e chapéu à cowboy, com cara de Tom Waits em novo, que me tivesse dito:
- Mas estás aqui, miúda? Fartei-me de procurar por ti! Anda, que tenho o Jolly Jumper à nossa espera.
- Não, que ainda não te perdoei - diria eu, a chorar por entre o fumo do cigarro.
- Deixa lá isso, que não fiz por mal. Vamos embora ser felizes. - diria ele.
E pronto, lá iríamos nós a cavalo do Jolly Jumper em direcção ao pôr do sol, a chuva magicamente evaporada.
Mas não aconteceu nada disso. Veio a fornada de pão, comprei pão e pronto. Senti-me mesmo como num quadro do Hopper.
O Donovan é um grande cantor.


Esta fotografia do Weegee ilustra bem a problemática dos sapatos e tal. Umas peruas todas debruadas com objectos de felicidade exterior e outra perua a olhar para elas, com ar de maluca, não se sabe bem se invejosa, se reprovadora.
Ora o que eu gostava de saber é quem é que é mais ridícula nesta foto, se as peruas debruadas, se a perua com ar de maluca.

Sonhos impossíveis

Recentemente, comprei um par de sapatos esplendoroso. Não querendo tornar este blog no Sexo e a Cidade, porque para isso já existe a própria série, portanto quem quiser conversas sobre sapatos que vá ver, devo dizer que este último item de calçado que eu adquiri tem qualquer coisa de portentoso. Alonga, refina, apura. E a minha intenção era de facto escrever sobre isso - sobre a forma como certas peças de vestuário ou calçado potenciam uma confiança interior que, em vez de surgir naturalmente, precisa às vezes de uma ajudinha. Isto é de uma futilidade sem nome, mas no entanto é verdade.

Porém, não é sobre isso que vou falar. É que, noutro dia, estava no carro a ouvir rádio e passaram aquela música, "never ending stoooo-ry, ahah-ah, ahah-ah, ahah-ah", etc. Eu adorei o filme e adorei o livro da História Interminável. E lembrei-me de um sonho antigo que eu acalentava quando era pequena, e que era poder cavalgar as nuvens com o Falkor, o dragão branco e fofinho do filme. Estava a ouvir a música e fiquei cheia de pena de mim própria, porque a minha vida é toda feita de sonhos impossíveis - ver os Beatles ao vivo e o Falkor existir mesmo.

Do mesmo modo, a tal questão dos sapatos também é, em si mesma, um sonho impossível. A gente pensa que estes "objectos de felicidade exterior", como lhes chama o meu pai, nos tornam mais arrojados, mais seguros, mais coisa e tal, e não tornam nada. Somos como somos, e podemos mascará-lo, mas não mudá-lo. E mesmo mascará-lo nunca resulta por muito tempo porque, como se diz nos filmes, "you can fool a lot of people for a long time, but you can't fool everybody all the time". Mas, mesmo assim, gosto de pensar nestas coisas impossíveis.
Deixo aqui um clip que encontrei no youtube do Falkor a voar e que é uma delícia. Notam-se os efeitos especiais todos, mas o que é que isso interessa.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Dor de cabeça

Não me interrogo só sobre o Peter Pan e quejandos.
Também me interrogo sobre outras coisas importantes, como por exemplo: será que alguma vez existirá uma série de televisão tão absolutamente brilhante como Os Sopranos? Não me parece.
Sendo grande fã desta série, nunca vi, porém, a última temporada até ao fim, de modo que me encontro a colmatar esta lacuna e a ver os episódios todos de enfiada. E pus-me a pensar nisto, se alguma vez as séries de televisão conseguirão ultrapassar a qualidade da escrita e a densidade narrativa dos Sopranos.
O que me fez pensar noutra coisa. Há momentos na vida em que somos atingindos por um meteoro de brilhantismo que nos derreia e nos arrasa. Um filme inesquecível, um livro fundamental, um quadro que nos traz lágrimas aos olhos. E, pelo menos durante algum tempo, não há nada que nos faça esquecer esse meteoro. Estamos soterrados debaixo dele, não conseguimos ler outros livros, ver outros filmes, contemplar outros quadros, dos quais gostemos tanto.
Há coisas que se relacionam connosco de uma forma absolutamente íntima. Por exemplo, para mim, ver A Última Hora, de Spike Lee, foi um meteoro. Sei que o filme é bom, mas não assim tão bom, e no entanto é, até hoje, o filme que mais me afectou. Vi-o todas as semanas até sair de sala. Ainda não fui atingida da mesma forma por nenhum outro filme, mas aguardo esperançosamente que tal aconteça.
Nunca poderei esquecer o momento em que vi uma cópia do David, de Michelangelo, no museu Victoria&Albert. Pensei que era a estátua a sério, feita parva. Olhei para aquelas pernas intermináveis, aquelas mãos enormes, aquele tronco a preparar-se para o ataque, e quase chorei. Nunca vi nada mais magnífico até hoje. E, mesmo sabendo que o que vi foi uma cópia, duvido se o original terá em mim o mesmo efeito (nunca fui a Florença; o que mudou foi que agora já sei que o David está em Florença).
Será que é possível gostarmos de algo de tal forma que nunca voltamos a conseguir gostar genuinamente do resto? Será que há coisas, e talvez até pessoas, que nos afectam de tal maneira que não conseguimos sair debaixo do meteoro? Ficamos ali, a tentar recriar o momento inicial de adoração completa, em que somos atingidos por um raio, um meteoro, o que seja.
Eu gosto de pensar que estes momentos não são irrepetíveis. Que na vida há sempre espaço para meteoros que nos caem em cima da cabeça, e que até podem fazer doer. Mas depois lembro-me de que sou pessimista e já penso de maneira diferente. As dores de cabeça não acontecem assim, do pé para a mão, ou da mão para o pé.

Nota para dizer que, para quem repara em mãos, as do David são algo de absolutamente extraordinário. Que beleza:

Síndroma Peter Pan



Interrogo-me até que idade deixamos de ser "raparigas" e "rapazes" e passamos a mulheres e homens, ou senhores ou senhoras.
Por exemplo, eu ainda penso em mim própria como uma "rapariga". Ainda digo "as raparigas da minha idade", por exemplo. Mas nas lojas ou em locais de atendimento ao público, tanto sou tratada por menina como por senhora. Adoro quando a forma de tratamento recai na primeira escolha, porque penso sempre que é sinal de que fiz as opções certas - não iludi a idade, mas também não fiz questão de a agravar com um certo ar balzaquiano, de nariz e busto empinado, postura de toda boa, ou aspirante a, que certas "raparigas" da minha idade às vezes ostentam. Eu se calhar também ostento e estou para aqui a convencer-me que não.
A minha avó disse-me uma vez, muito sabiamente, que não interessava eu não parecer a idade que tenho, porque os anos estão lá à mesma. Acho que ela tem toda a razão. E isso talvez queira dizer que eu sou apenas "senhora" e já não sou "menina", ainda que de vez em quando consiga enganar as pessoas das lojas porque insisto em usar os meus ténis Converse de há quinze anos atrás, todos escavacados. Não os uso para parecer mais nova, uso porque ainda gosto deles.
Se ainda posso ser tratada por menina, é certamente porque não gosto assim muito de crescer. Não tenho nada contra o envelhecer, pelo contrário, até tenho tudo a favor (sinceramente, acho que tenho muito mais piada agora do que há 15 anos atrás, mas isto talvez seja, novamente, só eu a convencer-me). É apenas o crescer que, a partir dos 20 e tal anos, deixou de me interessar. É interessante aprender coisas novas e deixar pessoas novas entrar na nossa vida, mas o crescer em si custa, e não é só o facto de custar - é aborrecido, também.
Deve ser esta imaturidade que ainda me garante algum ar de meninice.
E porém, penso - ar de meninice para quê, se os anos estão lá à mesma? Mais vale andar por aí de saia travada, saltos altos e rebentar com os pés, deitar fora os Converse, esquecer o Dartacão.
Mas isso, só quando eu for grande.

(O mais estúpido deste post é que eu nem sequer suporto homens (ou serão "rapazes"?) que dizem que, independentemente da idade que têm, ainda se consideram "crianças", pequenos rapazinhos, por dentro. Eu nem sequer gosto do Peter Pan. É que é das poucas personagens da Disney à qual eu nunca achei piada nenhuma, nem mesmo quando era pequena. E no entanto.
Contradições e contrariedades, já delas falava o querido Cesário Verde. É assim a vida.)

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Love affair #3

Estou muito constipada.
E estou tão contente, ao mesmo tempo, por ter redescoberto as DocMartens, que eu tinha descartado quando passei a adolescência. Nos últimos anos, porém, convenci-me que nada há mais engraçado e confortável do que um par de Docs.
Por entre nariz a pingar, olhos lacrimejantes e tosse, penso que, ao menos, os meus pés são fixes:


As minhas são assim tal e qual, são "cherry red" e são a única coisa verdadeiramente gira que eu, de momento, posso ostentar. Tenho esperança que a coisa melhore. Até lá, uso as minhas cherry red com os atacadores amarelos.
É uma coisa estrondosa.
Por entre constipações e tempinho livre do Carnaval, tenho muito tempo para pensar em coisas verdadeiramente importantes, como se constata.

O inverno do meu descontentamento


Acho que, se amanhã também estiver a chover e não fizer sol, como os bolos todos da pastelaria mais próxima e choro até que a voz me doa.
A minha loucura pode chegar a um ponto tal que me obrigue a comer uma bola de Berlim. Pode, pode. Não respondo por mim, se estiver a chover e se for à pastelaria e lá estiver uma rechonchuda bola quentinha, branqueada de açúcar com creme em ondas e a transbordar.
Vou sentar-me a um canto, enquanto lá fora chove, e vou chorar muito, muito, muito, muito, embrenhada na minha loucura, a comer a minha bolinha de Berlim.
Tenho tantas saudades do sol.

Saldanha

Bem, trabalhar num escritório deve ser uma seca de merda.
Ver as mesmas pessoas feias todos os dias.
Ouvir bisbilhotices.
Ter de falar com pessoas que secretamente se despreza porque são menos inteligentes do que nós, mas não podemos dizer a ninguém.
Fazer a mesma coisa todos os dias, dia após dia, mesmo que nos mandem viajar e paguem hotel. Acaba por ser sempre a mesma coisa.
Eu só não percebo porque é que as pessoas insistem em ser feias. Quando calha ir almoçar com alguém a sítios onde o pessoal das empresas também vai, e é corvos de gravata por todo o lado, só se vê gente feia. A culpa é deles. As pessoas podem ser bonitas, se quiserem. Eles escolhem ser feios.
Uma vez, vi um desses corvos de gravata a almoçar ali na zona do Saldanha. Tinha sido meu colega na faculdade. Detestava a faculdade e detestava o curso e jurara nunca por nunca ir fazer um exame de gravata. Só não mudava de curso porque não tinha mais nenhum curso para ir. E no entanto ali estava ele, de gravata, feio como os outros todos.
Tive pena. Além disso, escapuli-me para não ter de ir falar com ele, porque acho que não conseguiria. Também fui feia, é verdade.
Não gosto muito de ir almoçar à zona do Saldanha, é só gente feia. Deprime-me.

Kicking Edgar Allan Poe


A névoa pesada e opressiva do fim de tarde caía já sobre mim quando por fim alcancei a aldeia.
Tinha ali vindo a pedido de um amigo que já não via desdes os bancos da escola, o Rodrigo de Ucher. A sua carta surpreendera-me deveras e produzira em mim um inexplicável efeito de algo iminentemente terrível que estava prestes a acontecer - em palavras delirantes, Rodrigo de Ucher clamava pela minha presença, afirmando que só eu o poderia salvar da situação alarmante em que se encontrava. Acedera prontamente, e, dois dias volvidos depois da recepção da carta, ali me encontrava, naquela pequena aldeia escura, dominada pela silhueta fantasmagórica da Mansão de Ucher.
Era uma casa medonha, repleta de sombras, que quase parecia desabitada. Os vidros reflectiam a frieza das águas do lago, a seus pés. Poderíamos pensar que se tratava de uma casa desabitada - uma fissura rasgava a enorme fachada de pedra descascada. Mas um olhar mais atento descobriria vagas sombras bruxuleantes por detrás das janelas, como se alguém, passivamente, maleficamente, aguardasse o seu momento...
Bati à pesada porta. Nada me preparava para o que ali iria encontrar.
A porta abriu-se. Ao invés de um soturno criado, a mais horrenda criatura espreitava por uma nesga. Quando me viu o semblante, porém, abriu a porta de rompão e atirou-se, medonhamente, para os meus braços.
- Ah, deve ser o amigo do Rodriguinho! Ai que bom que chegou!
Era uma mulher horrorosamente jovem, rotunda, gorda, de cabelo em pé, chinelos esfarrapados nos pés e exalando um terrível... cheiro a refogado! Oh, nesse momento compreendi o horror da vida do meu pobre companheiro Rodrigo, entrevado naquela lúgubre casa, com aquela mulher que lhe parecia ter carinho, que lhe limpava burguesamente a casa (nem um grama de pó em nenhum lado, e era uma mansão grande!), que cozinhava para ele e que... seria possível... esperava o seu filho! Uma onda de pavor paralisou-me. Demorou algum tempo até conseguir chegar à palavra com Rodrigo, sentado num imenso cadeirão, a fumar charuto, de bochechas rosadas, visivelmente mais gordo, refastelado à frente do écrã plasma, a tentar abstrair-se da sua lúgubre vida com cervejas e SportTV.
- Tu não sabes, meu velho, meu único amigo - gemia Rodrigo - Ela fala tanto... e já começou a decorar o quarto do bebé... aquelas cores claras... as almofadinhas... ela gosta de comprar anjinhos para espalhar pela casa no Natal!, e eu, no meu estado, com a minha sensibilidade... estar privado de companhia masculina... é mais do que a minha frágil constituição consegue suportar!
E, enquanto pronunciava estas palavras, eu contemplava Rodrigo, perdido na sua aflição penosa, e pensava em como o casamento o tinha tornado tão rosadinho e cheio como um pequeno leitão. Meu pobre, desgraçado amigo.
Decidi ler-lhe uma história, para o acalmar. E, por uns breves minutos, eu vi as suas grandes bochechas iluminarem-se num sorriso... até que pesados passos de refogado encheram as escadas, alegremente, e uma voz medonhamente chilreante chamou:
- Môôô-ôôôr! O jantar está pronto! É carne assada com batata frita e ovo a cavalo, como tu gostas! Traz o senhor Edgar!
Rodrigo de Ucher olhou para mim e revirou os olhos, agastado. Eu encolhi-me, sem saber como ajudar o meu pobre amigo. Ambos sabíamos que era aquilo, aquele pavor em espiral, o refogado, o "senhor Edgar", o "môr", o princípio do fim, a queda, irremediável, da Casa de Ucher.

(não é para o pontapear; é só mesmo para deixar a minha mui singela homenagem ao Grande.)

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Mãos


Há pessoas que não gostam de dentes tortos. Eu gosto.
Há pessoas que nao gostam de narizes grandes. Eu gosto.
Há pessoas que não gostam de cabelos brancos. Eu gosto.
Ha pessoas que ligam à cara, aos olhos, às sardas, ao cabelo. Eu ligo às mãos.
Adoro reparar nas mãos das pessoas. Não é, porém, algo propositado, embora seja consciente - um pré-requisito para que possa medir a atracção das pessoas.
As mãos são extremidades absolutamente fundamentais, e em particular se se tratar de uma pessoa bonita. É que umas más mãos desfazem qualquer carinha laroca. Unhas pequeninas, por exemplo, são pesadelos andantes. Se forem roídas, pior - dão-me uma bola a estrebuchar no estômago. Mesmo que a cara seja angelical, se as unhas forem plataformas moles e húmidas do roído, está tudo estragado. Uma vez, vi uma rapariga no autocarro com as mãos gordurosas porque estava a comer um pacote de batatas fritas. Não faço ideia se a rapariga era bonita ou feia, porque me lembro apenas das pontas dos dedos a reluzir da gordura, com umas unhas mínimas e ratadas, rodeadas por pele gorducha e roliça, com traços de sujidade entranhada nos refegos. Se a jovem não tivesse saído do autocarro antes de mim, estou, até hoje, em crer de que teria de sair eu a meio do percurso, enjoada como fiquei com aquela visão.
Pelo contrário, umas mãos bonitas é tudo o que se precisa para ser bonito. Mãos longas, de unhas sólidas e largas, sem falhas, que acompanhem o comprimento dos dedos, são algo digno de se ver. Mãos seguras, confiantes, daquelas que a gente quer que segurem a nossa própria mão, capazes de fazer gestos largos, abertos, bonitos. Isso é que é.
Sou um tanto ou quanto obcecada, devo dizer. É a primeira coisa para onde olho, quer em homens, quer em mulheres. Gosto de mãos velhas, magras e compridas, com muitos sulcos, rugas, veias, protuberâncias que fazem padrões que podemos contemplar. Conheço as mãos de todos os actores e actrizes de que gosto. Sei, por exemplo, que o Robert DeNiro tem umas mãos lindas. Que as mãos do Edward Norton também não são más. Que as do John Cusack são só mais ou menos (unhas pequenas, embora não roídas), tais como as do Nick Cave, que são apenas medianas (embora o Nick Cave se desenvencilhe bastante bem devido àquele estilo magnético e insuperável que lhe é intrínseco). Que as do Saramago são elegantes e esguias.
Conheço as mãos dos meus amigos, da minha família, dos meus conhecidos, mesmo que eles não o saibam, e as minhas próprias mãos, claro, que não são más, em minha opinião, embora não tão bonitas como as da querida amiga D., por exemplo.
É que, se pensarmos bem, nada há de mais importante do que as mãos. É com elas que nos expomos, que fazemos gestos, que damos festinhas, que apertamos bochechas, que damos bofetadas, isto é, é com as mãos que manifestamos tanto o amor mais emocionante como o ódio mais furioso. Daí que a primeira coisa pela qual me apaixono seja sempre a expressão essencial de uma mão.

Nota para dizer que continuo a achar o Eduardo Mãos-de-Tesoura um docinho, apesar de tudo.

Lição de Carnaval

Há um tempinho atrás, teria eu, talvez, uns nove anos, veio o Carnaval e a minha avó deu-me a mim e ao meu irmão dinheiro para comprarmos bisnagas. O meu irmão comprou uma bisnaga de preço mediano, ainda ficou com troco para pastilhas e atingiu toda a gente com um esguicho poderosíssimo e afinado que ia daqui até à China. Eu gastei o dinheiro todo numa bisnaga com um ar potente, com uma coisa de plástico intumescida e complexa que, alegadamente, aumentava a quantidade e a força do jacto. Partiu-se à primeira utilização e a culpa nem sequer foi minha. Foi do material em si, que, como tantas outras coisas na vida, era caro, de manutenção difícil, e não merecia o trabalho que dava.
Aprendi desde tenra idade que o dinheiro não compra felicidade nem eficiência. Também aprendi que o que é complicado demais não vale a pena. Mesmo que sejam pessoas.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Literatura dos tristes


Saiu o novo Adrian Mole - The Prostrate Years é o nome do novo volume.
Estou entusiasmadíssima. Sou completa adepta, fã e admiradora da saga de Adrian, e nunca esperei que Sue Townsend prolongasse a sua história até a personagem entrar nos quarenta, com todas as vantagens e desvantagens associadas a tão ternurenta idade.
Tenho esta atracção pela literatura dos tristes, dos patéticos e dos perdedores de tal forma abissais que têm um imenso humor. É reconfortante saber que a tragédia faz rir. Faz-nos menos tristes, melhores pessoas.
O Adrian é uma versão ainda mais despojada do Lucky Jim - é que nem sequer tem a sorte de conseguir um emprego minimimamente respeitável na academia, embora se perca em empregos igualmente estultificantes. Porém, ainda gosto mais de Adrian porque os seus diários acompanharam a minha adolescência, e igualmente a idade adulta. O Adrian é sempre um patamar mais velho do que eu, mas os diários vão sendo publicados à medida que os meus aniversários se acumulam.
Juntamente com o Herman e o Jardim Jaleco, a minha grande referência de humor é sem dúvida o Adrian. Inutilmente preso a um amor de adolescência que nunca, mas nunca, será correspondido, irredutivelmente egoísta e convencido que é interessante o suficiente para precisar de psicanálise, Adrian é também irremediavelmente feio, pobre, pusilânime, ingénuo, indolente, preguiçoso, frio, arrogante, cobarde, banal até às lágrimas, sem pinga de inteligência, talento ou bondade - o Adrian é um espelho tão cruel que a sua crónica da má sorte é hilariante.
Gosto do Adrian porque, no fundo, leio os seus diários e sinto-me muito melhor do que ele. A vida desta personagem consegue ser ainda mais triste do que a minha. E adoro rir-me dele, cruelmente, aquele riso em que apontamos o dedo. É uma verdadeira catarse.
Além de todo este efeito absolutamente purgativo, há um outro pormenor que faz de Adrian Mole um guru - esta mania de não se gostar de pontos de exclamação começa com ele. Sim, começa - é nos Diários de Adrian Mole na Crise da Adolescência que se pode ler qualquer coisa como "eu nunca me conseguiria apaixonar por uma pessoa que usa tantos pontos de exclamação". Lembro-me de ter lido isto e de ter concordado tão absolutamente que me tornei seguidora dos Diários até hoje. Embora tenha ultrapassado a fobia aos pontos de exclamação.
Grande Adrian.
The bottom line is that our social worlds are actually very small. The reason is simple: our brains aren’t big enough to allow us to have deeply meaningful relationships with more than a handful of people.

Pois, eu sabia que aquele post de se ter poucos amigos fazia todo o sentido.
Agora vou parar de falar sobre isto, o assunto é entediante.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Protuberâncias e outras observações


A primeira observação nada tem a ver com protuberâncias, mas é uma observação que eu considero de inteira justiça - ninguém sabe fazer fila como os ingleses. Seja no metro, todos em filinha nas escadas rolantes, seja para comprar bilhete, seja para pagar, estes indivíduos fazem uma fila respeitosa que é uma beleza. Ordeiros, não passam à frente de ninguém, não arranjam esquemas manhosos para apressar a coisa, uma limpeza. Gosto.

A segunda observação prende-se, sim, com protuberâncias, mais concretamente aquelas rotundas que os seres humanos ostentam na sua parte traseira e que normalmente estão cobertas por cuecas e depois por uma outra camada de roupa, saia ou calças ou o que seja. E felizmente que assim é. Ora, eu tenho observado que nos últimos anos algumas pessoas, mormente raparigas novas, gostam de contrariar este costume usando calças de cintura muito baixa, de modo que quando se dobram vê-se não só a cueca, como a própria protuberância em si. Em certos casos, a coisa-se dá-se de tal maneira que até o chamado rego, muito desagradavelmente, fica ali todo a descoberto. É uma coisa muito desagradável, uma coisa com pouca classe. Mas ainda mais desagradável e boçal se torna a situação quando a protuberância à vista é feia e peluda. Sim, certos elementos do sexo masculino aderiram à moda e usam também calças muito descaídas, mas desta feita sem a preocupação de cobrirem as suas partes rotundas, dignas como as de qualquer ser humano, mas no entanto feitas para permanecerem resguardadas de olhares alheios, dizia, sem a preocupação de ocultarem estas tais partes com roupa interior. Agora, certos elementos do sexo masculino dobram-se e fica ali a protuberância toda à vista desarmada, sem esquecer a fenda no meio quase até lá abaixo, ornada por muitos pêlos feios e pretos. Fui brindada com tal visão hoje. Foi uma coisa de tal modo desagradável que vim para aqui escrever sobre isso e, sobre isso, só uma coisa a dizer - bbbblheeeeeec.
Ora, eu não defendo, nem de perto nem de longe, que os homens se livrem da pilosidade, que a natureza concedeu ao ser humano, por meio de cera fria e da chamada depilação, pelo contrário. Acho que o homem deve aceitar o seu hirsutismo, se for caso disso, sendo que a mulher já deve encetar esforços para se livrar dele (mulheres com pêlos é uma coisa de facto muito feia). Agora, se o homem decide, e é este um direito que o assiste, exibir ao mundo as suas rotundas partes traseiras, e sendo certo que o mundo tem igualmente o direito de ser protegido contra a ofensiva estética que isto poderá representar, é minha convicção que talvez o homem que se mete nestas alhadas terá de começar a considerar certas coisas, nomeadamente livrar-se da penugem (penugem é favor) que lhe almofada as tais protuberâncias, ie, depilação, e das valentes.
Não é que resolva a situação, mas pelo menos amortece o choque.
Que medo.

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Lucky Jim


Adoro este livro.
É sobre um académico patético, preguiçoso, que vive na fadiga diária de não deixar que os outros percebam que ele sabe muito menos do que aquilo que aparenta; vive igualmente na azáfama diária de se escapulir às solicitações do Professor Welch, que pensa que é patrão do Jim; este últime vive, finalmente, com o constante pensamento, acompanhado de muito pouca acção, de tentar publicar qualquer coisa, qualquer artigueco, que lhe fortaleça o currículo. No entanto, como Jim não tem talento nenhum, as coisas correm-lhe todas mal, acorda um dia na casa do tal Professor Welch, que o convidara para um fim de semana no campo, apenas para descobrir , à Trainspotting, que não só cagou a cama toda como queimou os lençóis com beatas de cigarro e agora o que fazer, ainda para mais a sua vida amorosa é de fugir, porque há uma Margaret maluca que tem a mania que é namorada dele e que é uma grande feia psicopata; como se não bastasse, este Jim não tem dinheiro, nem boa aparência, nem nada, não passando de um tipo completamente normal a roçar a mediocridade (sendo a contiguidade com a mediocridade o principal problema da normalidade - que bela rima) e o que o safa de uma vida alienante, perdido na vulgaridade da academia e chafurdando na sua indolência pouco inteligente, é um golpe de sorte que lhe dá a oportunidade de um novo emprego e de uma vida inteiramente nova.
É um dos meus livros preferidos, sem dúvida nenhuma. Identifico-me um bocado com o Jim.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Os conselhos que Castiglione deixa a você


No século XVI, Baldassare Castiglione escreveu um tratado sobre a figura do cortesão, intitulado, precisamente, Il Cortegiano, onde descrevia em pormenor as qualidades que o verdadeiro aristocrata deveria congregar para que a sua superioridade moral se manifestasse. É claro que a arte da palavra era proeminente; mas, mais do que isso, Castiglione fala da qualidade da "sprezzatura", que as edições críticas anglo-saxónicas têm decidido traduzir por "nonchalance".
A ideia é que as boas maneiras, a cortesia, a linguagem elevada, os gracejos elegantes com as senhoras, devem ser feitos de forma natural, como se o cortesão tivesse nascido com todos estes predicados. Sabe-se que não nasceu, mas a arte e o engenho do gentleman é dominar estas qualidades de tal forma que elas pareçam inatas (embora sejam precisamente o contrário - trabalhadas, aprendidas, dominadas, ensaiadas).
Não posso deixar de me lembrar do velho Castiglione quase todos os dias. As pessoas esforçam-se tanto, tanto, tanto - se não são tias, querem ser tias e lá lhes sai a afectação da voz; se são tias e não querem ser, afectam não a voz, mas um ar de rebeldia descomposto e penoso; se escrevem mal, arranjam um blog e ficam todas contentes com a quantidade de visitas que recebem, compensando os longos anos de erros ortográficos e frases feitas; se escrevem bem, arranjam um blog e ficam orgulhosíssimas quando ninguém percebe o que escrevem ou as referências que para lá enxertam; se são ricas, fingem que são classe média, se são classe média, confortam-se a pensar que isso das classes já não existe, se são pobres, querem ser classe média e compram uma data de plástico na Zara, que é barata mas tem boa clientela, se são poetas, querem ser Fernando Pessoa, se são prosadores, querem ser o Philip Roth, etc, etc.
Tudo isto sem nunca se cansarem e sem nunca perceberem que a sua "agenda" é tão clara aos olhos dos outros que até dá pena. Que estafa, não percebo como é que as pessoas aguentam. A sério que não percebo. Sempre tanto esforço, tanto esforço, tanto cansaço...
Daí que o que faz mais falta a todos nós é a tal "sprezzatura" de que falava Castiglione. Tentemos ser aquilo que não somos, sim. Tentemos ser melhores, com mais dinheiro, mais sucesso, mais amigos. Mas de forma natural, meus caros. Tudo de forma natural.
Um pouquinho de naturalidade. É tudo o que se pede.

Tigre de Bengala

Uma vez, há muitos anos, era eu pequena, decidi que seria uma boa ideia pensar na vida e nas pessoas com quem podemos, ou não, contar. Decidi contar os amigos que tinha - amigos verdadeiros, aqueles com quem eu podia brincar a tarde toda e a quem fazia confidências. Não se tratava aqui de tomar em consideração rapazes com quem só se conversava se se tivesse um carrinho ou berlindes, nada disso. De modo que me pus a contar e cheguei à conclusão de que tinha 10 amigos verdadeiros. Pareceu-me muito pouco e comecei a chorar (era muito sensível, nessa altura. Também era um bocadinho parva).
Chorei de tal forma que atraí a atenção da minha mãe. A minha mãe não achou o meu problema nada de outro mundo - disse que 10 amigos era perfeitamente normal, 10 era um bom número , pior seria se não tivesse amigos nenhuns e que, assim como assim, "nunca se tem muitos amigos".
Na altura, achei que esta verdade era uma coisa terrível. Nunca se tem muitos amigos, como? Então mas a ideia não era crescer e viver como as pessoas da telenovela, que vivem no Brasil e têm piscina e bebem sumo de maracujá ao pequeno-almoço e vão para a piscina com muitos e muitos amigos e estão sempre a conhecer gente nova, e além do sumo de maracujá também comem bolo ao pequeno-almoço? Nunca se tem muitos amigos, como?, se eu queria que a minha vida fosse assim como a novela, de preferência no Brasil e tudo, e fundamentalmene com bolo ao pequeno-almoço?
Foi difícil habituar-me a esta ideia (a de que nunca se tem muitos amigos; quanto à ideia do bolo ao pequeno-almoço, enfim, ultrapassar a barreira dos trinta dá-nos certas liberdades, como a de decidirmos o que ingerir de manhã, seja bolo, seja croissant, seja apenas leitinho com Ovomaltine), continuando, foi difícil habituar-me, mas talvez tenha sido devido a esta afirmação sábia da minha mãe que me habituei, desde muito cedo, a distinguir entre "amigos" e "conhecidos". Estes últimos vão e vêm como os autocarros, e se com alguns até podemos partilhar momentos mais especiais, o que se verifica é que a entidade dos "conhecidos" é algo de muito efémero. São pessoas que estão na nossa vida num momento e, estranhamente, no outro dia já se fora embora. Mas destas pessoas, há sempre em grande quantidade.
Os amigos são bichos mais complexos, mais difíceis de agarrar, mais complicados de manter na nossa vida. Por isso é que eles nunca são muitos. É como o tigre de Bengala (aquele que é muito raro, acho eu). Quando se apanha um, é tão precioso que temos de o manter numa jaula, não vão eles querer ir-se embora, como fazem os "conhecidos". Em troca, damos carinho, amor, atenção, telefonemas, às vezes até comida para os fazermos esquecer de que os aprisionámos. Por exemplo, a minha amiga Alexandra tem uma Bimby, e se ela algum dia quiser que eu nunca mais saia da jaula, é só fazer aquele bolo de chocolate com açúcar em pó por cima, meio desfeito, molhadinho por dentro, que aparece no livro de receitas da já mencionada Bimby. É a maneira de me ter para sempre.
Sim, os amigos são coisas bem mais complicadas. Deles, há sempre em pouca quantidade, e é bom que assim seja. As jaulas são coisas caras, há que fazer manutenção, limpar, cuidar, prestar atenção. Cabem lá muitos amigos, mas não muitos.
Quanto aos conhecidos, esses andam sempre por aí a pulular. Disfrutemos deles, pois, antes de voltarmos à nossa jaula.


quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Work in progress

Dantes, o meu sonho era ser apátrida. Achava uma coisa linda, isso de não ter país. Julgava, até, ser sinónimo de liberdade total.
Hoje em dia, já não penso da mesma maneira. Em primeiro lugar, percebi que, quer queiramos quer não, o país onde crescemos será sempre parte de nós. Mesmo que não nos identifiquemos com ninguém, mesmo que os hábitos, as tradições, os costumes, sejam, aos nossos olhos, bafientos e estúpidos, mesmo que toda a gente seja muito religiosa e nós não, mesmo que haja muito conversadorismo por todo o lado e nós gostemos de pensar que somos super liberais e modernaças, mesmo que, que, que e que, o nosso país é aquilo que nos informa. Pode ser só um ponto de partida, mas está lá. É impossível crescer num país e não ser desse país.
Tenho amigos que dizem já não conseguir viver no país de origem. Dizem que vão lá de férias e que se irritam com tudo - toda a gente é bisbilhoteira, toda a gente se amontoa à porta do metro em vez de deixar as pessoas sair primeiro, ninguém sabe fazer fila para comprar bilhete, etc. e tal. Mas no entanto, quando voltam ao país onde vivem, são sempre, irremediavelmente, estrangeiros.
Ser estrangeiro é, de facto, uma liberdade. Mas é tão cansativo, depois de um certo tempo. Em Portugal, as pessoas gostam de apregoar que sentem "estrangeiras", como se isso fosse uma vantagem, um ponto a mais na sua personalidade. Eu começo a achar que é "mas é" triste. Estou como o Nietzshe - o super-homem é aquele que prova a sua fidelidade à terra, sem andar por aí a pensar no mundo possível depois da morte. Eu gostava de aceitar o meu país, sem andar por aí a pensar que sou estrangeira. É mais fácil sentirmo-nos estrangeiros - podemos sempre dizer que o que se passa em Portugal não tem nada a ver connosco, já que, assim como assim, nós nem nunca nos sentimos muito portugueses, isto é tudo uma miséria, etc.
E é. É tudo uma miséria, mas não deixa de ser a nossa miséria. Daí eu encetar todos os esforços para ser e para me sentir, verdadeiramente, portuguesa, não obstante o título piroso em inglês deste post. E porém, é muito difícil e espinhoso, isto de aceitar a "portugalidade", os camões, os aviões e os gago-coutinhos, coitadinhos...
Talvez a melhor resposta a isto tude seja mesmo aquela que deu Mário Henrique Leiria: "sabem que mais? Vou da peida."
No entanto, antes de o fazer, deixo aqui um poema que eu, dantes, quando queria ser apátrida, adorava. Ainda gosto deste poema, mas já não consigo partilhar daquilo que diz com a convicção anterior. Ainda bem.

A Portugal - Jorge de Sena

Esta é a ditosa pátria minha amada. Não.
Nem é ditosa, porque o não merece.
Nem minha amada, porque é só madrasta.
Nem pátria minha, porque eu não mereço
A pouca sorte de nascido nela.

Nada me prende ou liga a uma baixeza tanta
quanto esse arroto de passadas glórias.
Amigos meus mais caros tenho nela,
saudosamente nela, mas amigos são
por serem meus amigos, e mais nada.

Torpe dejecto de romano império;
babugem de invasões; salsugem porca
de esgoto atlântico; irrisória face
de lama, de cobiça, e de vileza,
de mesquinhez, de fatua ignorância;
terra de escravos, cu pró ar ouvindo
ranger no nevoeiro a nau do Encoberto;
terra de funcionários e de prostitutas,
devotos todos do milagre, castos
nas horas vagas de doença oculta;
terra de heróis a peso de ouro e sangue,
e santos com balcão de secos e molhados
no fundo da virtude; terra triste
à luz do sol calada, arrebicada, pulha,
cheia de afáveis para os estrangeiros
que deixam moedas e transportam pulgas,
oh pulgas lusitanas, pela Europa;
terra de monumentos em que o povo
assina a merda o seu anonimato;
terra-museu em que se vive ainda,
com porcos pela rua, em casas celtiberas;
terra de poetas tão sentimentais
que o cheiro de um sovaco os põe em transe;
terra de pedras esburgadas, secas
como esses sentimentos de oito séculos
de roubos e patrões, barões ou condes;
ó terra de ninguém, ninguém, ninguém:
eu te pertenço. És cabra, és badalhoca,
és mais que cachorra pelo cio,
és peste e fome e guerra e dor de coração.
Eu te pertenço mas seres minha, não

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Não tenho tempo para pensar num título

Acabei de ler A Estrada, de Cormac McCarthy. Gostei muito, mas fundamentalmente este livro suscita-me uma série de interrogações, a primeira das quais tem a ver com a escrita em si. A Estrada é um livro muitíssimo bem escrito e, enquanto o lia, pensava constantemente que era uma escrita muito vigorosa, dura, "masculina". Este adjectivo era recorrente - uma escrita masculina. O que é uma escrita masculina? Não sei exactamente explicar, mas sei identificar - Cormac McCarthy, Hemingway (porque será...), Salinger, Bukowski, Faulkner, por exemplo, parecem-me detentores de uma escrita masculina. Já Truman Capote, Fitzgerald, D.H. Lawrence, por exemplo, parecem-me menos masculinos na escrita (mas não necessariamente femininos).
Talvez isto se deva aos temas narrativos. Violência, guerra, toureiros, soldados, guerra, sexo, alcoól , loucura, são tradicionalmente mais presentes em universos masculinos, ao passo que psicologias, universos interiores, sentimentos, infância, são coisas mais "à mulher". Tradicionalmente falando, claro.
Ao pensar nos autores femininos que li, parece-me impensável que escrevessem algo como A Estrada. Mais impensável ainda é um livro como A Estrada apresentar como protagonista uma mulher que tenta sobreviver num mundo hostil e apocalíptico com a filha, ao invés de um homem que se faz acompanhar do filho, como de facto o livro relata.
Porquê? Porque os problemas das mulheres não são, apesar dos tempos modernos em que vivemos, os mesmos dos homens? Porque os universos femininos e masculinos ainda estão divididos pelo muro secular da tradição, que faz os homens herdeiros da tal escrita "vigorosa" e as mulheres herdeiras de uma escrita mais do universo da família, da psicologia, introvertida? Não sei.
A verdade é que a maior parte dos autores que leio são homens, não porque o escolho racionalmente, mas porque calha. Há mais escritores homens disponíveis, a escrever sobre uma quantidade de coisas.
Para despachar porque tenho mesmo de ir fazer o jantar, queria ler mais livros escritos por mulheres que falassem de pessoas a sobreviver num mundo horrível até à náusea, como o Cormac McCarthy, porque acho que as mulheres também poderiam perfeitamente escrever sobre isso, mas não encontro tais livros. Talvez se deva à minha ignorância.
Pronto.

Queria uma errata, por favor

Nos últimos dias, a minha actividade central tem sido ler e rever a tese, numa procura incessante, cansativa e enervante de gralhas, falhas, negligências, enfim, tudo o que possa figurar numa terrível "errata". Infelizmente, já tive oportunidade de constatar que esta tal errata vai existir, e constará até de uma lista maior do que eu desejaria, mas enfim. E porém, as erratas são coisas tão reconfortantes. Errámos aqui e ali? Não há qualquer problema, é só escrever "onde se lê x, deve ler-se y", e está tudo absolutamente, integralmente resolvido. Fácil, barato, sem complicações. Um luxo.
Pus-me a pensar que, na vida, seria igualmente vantajoso e muitíssimo confortável conseguirmos sacudir a responsabilidade do capote e resolver todos os eventuais erros com uma errata (o meu estimadíssimo Soren Kierkegaard haveria de gostar disto. Que aconteceria ao teu drama das opções, querido Soren?). Era tão bom chegarmos ao pé das pessoas e dizer, por exemplo, "olha, sabes aquele dia em que não te quis pagar o café? Em vez disso, deves ler "queria muito ter pagado o teu café, mas não tinha troco". E elimina-se logo ali a ofensa.
Há uma longa lista de coisas para as quais eu precisava de uma errata, a saber:
onde se lê "esqueci-me de comprar o alpista certo para o passarinho quando tinha oito anos e ele ficou doente", deve ler-se "comprei o alpista certo e o passarinho ainda hoje está rijo, a cantar que se farta"
onde se lê "não me lembro do nome daquele menino que de vez em quando aparecia no colégio, muito amarelinho e magro, e que depois deixou de aparecer de todo", deve ler-se "lembro-me perfeitamente do nome dele, chamava-se Rui e gostava de brincar à apanhada"
onde se lê "há tanto tempo que não nos víamos, temos de combinar qualquer coisa" deve ler-se "desculpa lá, não tenho paciência para telefonar e provavelmente nunca terei, portanto deixemos a conversa de circunstância e poupemo-nos a promessas nunca cumpridas e eternos planos adiados"
onde se lê "aaah, perdi o telemóvel e os números todos que lá tinha, depois mudei de casa, foi por isso que nunca mais disse nada, sabes?" deve ler-se "deixei de gostar de ti, de ter paciência para um tipo de usa 20 perfumes e foi ver o Tomb Raider duas vezes ao cinema, desculpa lá, é a vida, não é nada de pessoal, qualquer tipo com tanta variedade de perfumes e com tanta pujança para o Tomb Raider nunca seria indivíduo a quem eu atendesse o telemóvel, percebes, e provavelmente também há muita coisa em mim que tu nunca suportarias, como por exemplo o facto de eu só gostar de usar um perfume e de não gostar do Tomb Raider, portanto deixemos as coisas como estão, cada um à sua vida, e muita felicidade para ti"
onde se lê "ah, tenho andado tão ocupada com a tese" deve ler-se "tenho andado ocupada, mas não o suficiente que não possa pensar em disparates e depois vir escrevê-los para o blog"
E etc.
Que conforto, que refrigério, que facilidade seria a vida com toda uma imensa errata onde pudéssemos escrevinhar. Mas as coisas não são assim, volto à conclusão de que Kierkegaard tinha toda a razão, há que escolher, escolher sempre, e viver com isso para o resto da vida. Façamo-nos à vida, pois. Que mais podemos fazer, não é.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

O amor dos outros

A Edit Piaf tem uma canção que eu adoro, que ouço em repeat até mais não poder, e que se chama Les Amants D'Un Jour. A narradora é uma rapariga que trabalha num hotel em que se alugam quartos baratos, e que limpa os copos ao fundo do café (do hotel, presumo eu), como ela diz logo nos versos iniciais. A canção é a história dos tais amantes por um dia e que esta rapariga recorda, num tom muito melancólico. Num dos versos da canção, diz a narradora que y avait tant de soleil au fond de leurs yeux que ça m'a fait mal, que ça m'a fait mal...
Sempre achei muitíssimo comovente esta subtileza da solidão da narradora, quando confrontada com o sol radioso do amor dos outros. É que, de facto, constantar o afecto alheio é de uma melancolia entristecedora, quase de levar lágrimas ao olhos. Já escrevi antes os lugares-comuns do amor ser tão piroso, e de como é constrangedor ver pombinhos apaixonados, e isto e aquilo. Mas, quando nos deparamos com duas pessoas que parecem gostar uma da outra a sério, a constatação do amor é tão bonita que chega a ser triste. Para mim, é triste principalmente porque nunca acredito e tenho pena das pessoas. Tenho uma pena imensa, ponho-me a olhar para elas e a pensar, "o que será deste casal daqui a dez anos, gordos e feios, a levar os filhos para o centro comercial? Será que se vão lembrar desta tarde de sol, deste jardim, onde foram jovens, felizes, com um futuro que vai desaparecer tão depressa?", e foi exactamente o que pensei uma vez, numa tarde de chuva em Inglaterra (olha a novidade), ia eu para a biblioteca, e passa por mim uma rapariga alta a correr, com uns ténis Converse All Star impecáveis, e se lança nos braços de um tipo também alto e giro. Que lindos que eles eram, os dois. Talvez ainda se mantenham giros, não passou muito tempo desde essa altura. Mas daqui a 15 anos, quem sabe.
Quando vemos casais de uma certa idade, é, por vezes, tão difícil acreditar que também eles passaram pela felicidade pirosa do amor, que também eles palpitaram de emoção ao saber que naquele dia se iam encontrar, que também eles foram iluminados pelo tal "sol" do amor de que fala a canção da Edit Piaf. Há, em certos casais, de uma certa idade, um tédio tão grande, uma solidão que parece tão terrível. A solidão deve ser, de facto, ainda mais terrível quando se está com alguém.
É sempre no centro comercial que eu vejo estas pessoas. Tenho de deixar de ir a centros comerciais, venho de lá sempre com uma depressão monumental, de tanto casal e criança de ar amorfo que por lá pulula.
Eu acho que a piada acaba toda com o casamento. Sinceramente, a minha teoria é esta. Acho que é fácil viver muito amor, muito amor, muito entusiasmo, enquanto formos todos namorados e namoradas. Quando se assina o papel e o estado burguês e confortável do casamento invade a nossa vida, começa verdadeiramente o frango assado ao domingo, o centro comercial, o Seat ibiza, as crianças aos berros, etc. Faz-me muita aflição. Mas talvez esteja errada.
A canção da Edit Piaf acaba mal, os amantes matam-se.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Revolutionary Road, aka Kate & Leo (SPOILERS)


Gostei muito deste filme. Nem devia ter gostado tanto. Assusta-me ligeiramente ter compreendido tão bem o suicídio da personagem principal, mas pronto.
Agora, em relação ao casal Kate Winslet/Leonardo di Caprio, eu devo ser a única pessoa do mundo que acha que eles não funcionam como par romântico, isto porque a Kate parece sempre muito mais velha que o DiCaprio, que tem sempre um inamovível ar de miúdo. Por mais que se esforce, parece um adolescentezito parvo. E já não é de agora. Quando vi o Titanic também achei que estes dois não se entendiam no écrã, ficam esquisitos. A Kate, que é tão bonita, parece uma matrona ao pé dele. Além disso, a historieta do Titanic não convence ninguém, principalmente devido à cena final, em que a Kate está deitada na porta flutuante, para não se afogar, enquanto o Leo lentamente congela no oceano, e ainda por cima sempre a falar com ela, a dizer-lhe doces palavras de consolação, como se fosse ela ali a enregelar. Eu pergunto: mas é isto que faz da Kate & Leo um casal, aparentemente, com tanta "química"? Quer dizer, ela safa-se em cima da porta e o namorado congela? Porque é que não se revezaram? Dez minutos em cima da porta para cada um, à vez. Ou os dois em cima da porta, até à cintura. Iam dando aos pés e até se aqueciam.
A sério que esta cena do Titanic sempre me pareceu muito inverosímil e contribuiu fortemente para que estes dois actores não me convencessem. Assim, ao ver Revolutionary Road, a única coisa de que não gostei foi de ver outra vez a Kate e o Leo juntos, porque acho que deviam ter dado à Kate outro marido, mais sério e enfadonho, menos bonitinho e jovem.
Revolutionary Road merecia um post com menos disparates, mas hoje não vai dar.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

We are beautiful, no matter what they say...

A sério que não sei muito bem o que é "ser bonito". Não vou recorrer ao velho lugar-comum de quem o feio ama, bonito lhe parece, e que a beleza é relativa, e isto e aquilo, embora me pareçam absolutamente verdadeiros. Porém, a beleza, pura e simplesmente, parece-me impossível de determinar. Por exemplo:


Este indivíduo, o Jonathan Rhys-Meyers, que entrou no Velvet Goldmine e no Match Point, será bonito? Não tenho muito a certeza. É perfeitinho, não lhe falta nada, mas há aqui qualquer coisa, uma falta de carisma intrínseco, que o torna feio. Porquê? Não consigo explicar, mas por acaso até acho que deviam fazer deste rapaz um case study, porque, sendo objectivamente bonito, na verdade não é. Que estranho.
E tenho verificado isto com muitas pessoas da chamada "vida real". Pessoas objectivamente bem-parecidas, agradáveis ao olhar, para quem olhamos como quem olha para um quadro a óleo muito bem pintadinho: simetria, equilíbrio, geometria perfeita, harmonia irresistível nas expressões faciais, nos movimentos. Mas depois há ali qualquer coisa que não bate certo, que falha. A beleza perfeita faz-se normalmente acompanhar por uma limpeza asséptica que parece destruir qualquer defeito, e isso não tem piada nenhuma. Acho que o equivalente a pessoas perfeitinhas como este Jonathan é isto:


Este quadro parece bonito, mas na verdade é feio. Tudo aqui bate certo, a luz, os verdinhos, a casinha, todos os inhos são um mimo. Mas, estranhamente, este quadro é, na verdade, feio. Há um qualquer desvio aqui, uma coisa completamente desprovida de carácter, de originalidade, que o torna profundamente feio, embora, objectivamente, o quadro seja bonito. Eu acho que esta característica desprovida de carácter e de originalidade deve-se ao facto de o quadro ser, na verdade, uma grande piroseira. De modo que, e voltando ao que escrevi num post anterior, aquilo que é verdadeiramente bonito está na imperfeição. A perfeição é, na sua maior parte, pirosa.
E isto tanto vale para a pintura como para as pessoas, acho eu.

Apuro-me em lançar, originais e exactos, os meus alexandrinos...


Contaram-me uma vez que Almeida Garrett, esse grande vate do Romantismo que, aliás, introduziu o próprio Romantismo em Portugal, que advogava os arrebatamentos da alma e a inspiração do poeta, deixou caderninhos de rascunho de esquemas e esquemas de rimas (ababcc, aabbcc, etc.), métricas e formas, que depois preenchia com palavras diferentes. Isto é, primeiro decidia-se pela forma, pelo esquema rimático, e só depois é que aparecia a tal inspiração, os tais tormentos de amores, o ignoto deo e tal.
E isto vindo de um poeta romântico. É claro que o poeta como a flauta de Deus, que Shelley descrevia, não poderá nunca ser verdade. Os poetas parecem-me, acima de tudo, humanos, pelo menos os bons poetas. Não estou a falar, obviamente, de poetas de cantina, como aquele rapaz que, uma vez, se sentou ao pé de mim na cantina do liceu e me perguntou se eu gostava de poesia e se conhecia Fernando Pessoa. Eu disse que sim. Ele aproveitou para dizer que, caso eu não soubesse, ele próprio escrevia poemas e as pessoas a quem ele mostrava os poemas diziam que eram muito parecidos com os do Fernando Pessoa. "Às vezes, as pessoas até me dizem que não sabem distinguir!", dizia o rapaz. Pobre Pessoa.
Este rapaz da cantina não era, obviamente, um poeta. Talvez fosse, porém, tocado por Deus. Parecia ter loucura suficiente para isso.
Mas voltando a Garrett. Imagino-o à secretária, de língua de fora, num esforço burguês para acertar com a rima e a métrica, e depois ler o poema finalizado, com um sorriso satisfeito, tal como um alfaiate olha para os ombros perfeitos do casaco que acabou de coser. A diferença é que, no caso de Garrett, o resultado era um poema. Um poema verdadeiro é sempre uma coisa inexplicavelmente estrondosa que, porém, resulta de um conjunto de tarefas, pelos vistos, tão pouco inspiradoras, tão pouco devedoras das musas, com tão pouca glória... talvez resida aqui o mistério da Literatura. É trabalho, como qualquer outro trabalho, mas com resultados gloriosos.
É por isso que sei que não sou escritora (quer dizer, não só por isso, mas principalmente por isso), embora tente permanentemente escrever. Tudo aquilo que escrevo está rigorosamente dependente da inspiração. Quando não tenho inspiração, que é na maior parte dos dias, não consigo escrever. Não sei o que é trabalhar para escrever um conto ou um romance, porque não sei escrever sem essa coisa desconhecida que é "a inspiração". E, até aprender como é que se faz da escrita trabalho, nunca poderei, verdadeiramente, ser "escritora". E eu queria tanto.
Estou bem lixada.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Prova em contrário

O efeito que uma noite em branco tem no ser humano é interessantíssimo. Ontem à noite não dormi um minuto sequer, vítima de uma insónia implacável. Vou passar de imediato à acção e entrar pelo caminho da droga, que me levará, espero eu, com a ajuda de um ou dois comprimiditos, a longas noites de sono descansado, já que a minha natureza o impede.
Mas enfim. Tive, assim, muito tempo para pensar na vida. E chego à conclusão que as pessoas me dizem muito, "olha, Rita, tu devias dar-te mais com as pessoas, não devias pensar tanto mal das pessoas, não devias ser assim tão rabugenta e feia". Um argumento que as pessoas gostam de adicionar a esta elocução tão eloquente (cacofónico) é "olha que maior parte das pessoas é boa pessoa!".
Não duvidando que maior parte das pessoas não será, por falta de oportunidade ou de vontade, um psicopata assassino desvairado, duvido, porém, que a maior parte das pessoas seja efectivamente boa pessoa. Eu, normalmente, e porque sei que eu própria sou má pessoa, parto sempre do princípio que toda a gente também é, até prova em contrário. Infelizmente, raramente me engano e a prova em contrário só chega de longe a longe, se é que chega de todo - as pessoas revelam-se quase todas vaidosas, egocêntricas, falam e não ouvem, olham para o próprio umbigo, lêem pouco, pensam que são o máximo e o poço de toda a sensatez quando não passam de uma poça de ignorância, arrogantes, etc., etc. - podia continuar, mas é demasiadamente deprimente.
No entanto, também é verdade que as pessoas não são de boa índole, mas também não são verdadeiramente "más". Não têm propriamente coração de víbora, digamos assim, apenas coração normal, de ser humano normal, isto é - não são Jesus Cristo, mas também não são o Hitler.
De modo que a pergunta que eu levanto é, o que é, verdadeiramente, uma boa pessoa? É alguém com espírito de missionário, totalmente dedicado aos outros, esquecendo-se de si próprio e, quiçá, da própria família e dos filhos, como o caso de uma senhora que uma vez li no jornal que, insistindo numa gravidez de altíssimo risco que provavelmente a conduziria à morte, escolheu ter o bebé, acabando mesmo por morrer e deixando para trás marido e três filhos ainda pequenos? É alguém que toma conta da sua família, educa os seus filhos, paga impostos mas não levanta nem mais uma palha? São os outros que dão imenso à comunidade em prol do benefício fiscal? São aqueles que, como diz o Marquês de Sade na sua Filosofia de Alcova, praticam o bem apenas para depois se poderem vangloriar disso? O que é, então, uma boa pessoa?
Não deixo de me comover, de alguma forma, com a ingenuidade de algumas más pessoas, convencidas que são muito boas pessoas. Tão cabecinhas no ar e tão cheias da sua própria importância iludida. Também não trazem grande mal ao mundo. E chego, portanto, à conclusão que as pessoas normais são más pessoas por exclusão de partes, e só chegam a boas se forem o Ghandi ou isso. Porém, são as más pessoas que se esforçam verdadeiramente por serem boas pessoas, em toda a sua vulgar normalidade e tragédia, que têm piada. E são essas que, de vez em quando, conseguem a tal prova em contrário. Eu espero um dia também conseguir.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

É verdade que o que se passou, e ainda passa, no Haiti ultrapassa os limites da nossa compreensão.
Mas também não sei o que dizer da constante cobertura mediática que se tem feito, a todas as horas, a fazer render um peixe de misérias, sofrimento, orfandade, desastre. Pergunto-me o que consegue sentir uma pessoa que perdeu tudo para além do razoável, que está no limite de todos os limites, prostrada numa cama de campanha, com uma câmara apontada à cara. Pergunto-me o que pode o resto do mundo sentir.
O resto do mundo pode e deve chocar-se, pode regressar a alguma humanidade primordial, ajudar a AMI; outros, mais audazes, mais nobres, poderão talvez voluntariar-se.
No entanto, há uma fronteira que se traça, invisivelmente, para lá da qual já não vamos fazer nada, a tal humanidade primordial embrutece e passa a amortecer o choque. E a comunicação social, ao que me parece, já a traçou.

Faz-me impressão o trabalho

Eu sei que estou a bater no molhado, e no ceguinho, talvez provavelmente nos dois, ou talvez esteja a chover no ceguinho e a bater no molhado, já não sei, enfim, sei que me repito bastante e que já escrevi sobre isto antes, mas a verdade é que sinto não ter ainda escrito suficientemente sobre as pessoas com aquele hábito irritante de acharem que elas é que trabalham muito, sempre infinitamente mais do que os outros.
A verdade é que estas pessoas não trabalham nada e produzem fel e bílis, quase ódio, contra quem sabe aproveitar o tempo livre por ter uma coisa chamada "vida pessoal". É este conceito de "vida pessoal" que falta a certos indivíduos. E estes mesmos indivíduos gostam de lançar olhares recriminadores a outros que, quando o Verão se aproxima, dizem que o que vão fazer a seguir ao trabalho é ir em busca de umas havaianas giras; os mesmos indivíduos que nos interrompem com longas descrições das obras na casa e dos esgotos entupidos, logo a seguir a perguntar, apenas por delicadeza que não engana ninguém, o que fizemos nas férias, e percebendo rapidamente que o que fizemos foi, felizmente, muito e bom. Quanto mais estes indíviduos falam, mais nós nos vamos apercebendo de que a vida deles não é nada recheada de actividades profissionais importantíssimas, compromissos inadiáveis, responsabilidades imensas que os impedem de gozar a vida. É precisamente o contrário. São facilmente substituíveis no emprego, como aliás quase toda a gente é; serão, talvez, facilmente substituíveis em família, e até facilmente substituíveis para eles próprios, porque não sabem o que hão-de fazer com todo o tempo livre que têm, todo o infindável tempo em que ninguém precisa deles para nada, muito menos eles próprios. São, todos eles, as mãos de um ex-fumador, para ali caídas, sem qualquer precisão ou necessidade. Coitados.
E criam, assim, um mundo fictício onde mal têm tempo para respirar, onde estão sempre ocupados, e todos os outros são irremediavelmente preguiçosos.
É por isso que eu raramente acredito quando as pessoas me dizem que estão muito ocupadas, que estão a passar por uma fase terrível, com uma carga de trabalho aceleradíssima e que não têm tempo para nada. Penso sempre que é exactamente o contrário - não têm nada para fazer, percebem a dimensão da sua inutilidade, assustam-se com isso e começam a inventar, a arranjar desculpas para si próprios, justificações para a sua existência.
É uma tristeza. Eu, por mim, gosto de dias inúteis, gosto de não ter nada para fazer, e gosto de não fazer nada. Somos todos inúteis, e mesmo assim há quem goste de nós, sabe-se lá porquê. A beleza da vida é isto mesmo, a sua deliciosa inutilidade.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Há sempre qualquer coisa que está para acontecer, qualquer coisa que eu devia perceber

Tenho inveja.
Tenho uma inveja desgraçada de quem está na vida sempre descontraído, como se tudo corresse sempre bem.
Tenho inveja porque eu, infelizmente, passo a vida preocupada. Um aperto constante no estômago, uma inquietação permanente, constantes empurrões. Nunca consigo descansar, dormir verdadeiramente. O sono dos justo é algo que eu não conheço, talvez porque já tenha perdido essa oportunidade, talvez porque, como o meu pai diz, eu sou daquelas pessoas que acha que, se as coisas são complicadas, porque é que eu hei-de estar a torná-las simples.
Todos os dias, há uma mão invisível que me empurra numa direcção desconhecida e que me provoca uma ansiedade intrínsica. O que é que vou comer ao jantar. Onde é que vou estar daqui a dez anos. O que devo mudar na minha vida. O que não devo mudar. Enfim.
Infelizmente, esta tal mão invisível parecer completamente desordenada. Não me indica nenhum caminho de jeito, não me dá qualquer orientação. Empurra, desajeitadamente, apenas. Que maçada.
Queria tanto poder descontrair, era só o que eu queria, conseguir descontrair e, já agora, como diz a Kika no final do filme do Almodovar com o mesmo nome, "um bocadinho de orientação". Também não fazia mal nenhum.

Um-do-li-tá...




Que escolha difícil, difícil, difícil...que desgraça, se todas as decisões na vida fossem assim.
Belíssima série, este True Blood.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Para sempre responsável por aquele que cativaste


Tenho alguma dificuldade em perceber o que é a amizade. Consigo senti-la, porque, felizmente, não sou psicopata nem sociopata, acho eu, mas compreender a amizade é algo que efectivamente me escapa.
Uma querida pessoa, daquelas poucas que me são muito próximas, dizia-me noutro dia que não devemos esperar muito dos amigos, ou, pelo menos, não devemos cometer aquele erro comum de esperar tudo dos amigos. Normalmente, queremos que os amigos nos telefonem, nos levem a passear e a tomar café, ouçam os nossos problemas, partilhem da nossa comiseração, rejubilem com o nosso gáudio, riam connosco, chorem connosco, leiam os livros que nós queremos que eles leiam, que nos dêem a nós livros interessantes para ler, que venham connosco ao cinema, que nos reconfortem nas neuras e nos desgostos, que nos tenham em altíssima conta, que venham às compras connosco e aprovem todos os sapatos e camisolas de que gostamos, que nos admirem e que sejam eles próprios admiráveis. Não será muito a exigir de alguém? Com certeza que sim. Dizia-me, então, essa tal querida pessoa que devemos distribuir todos estes encargos por amigos diferentes, de índole diferente. Há amigos que são bons para telefonar, outros para conversar sobre desgostos, outros para conversar sobre alegrias, outros bons para ouvir, outros bons para ficarmos calados, outros bons para viajar, outros para ir jantar fora, outros para ir ao cinema, etc. É muito raro termos daqueles amigos que dão para tudo.
À partida, eu concordaria com esta teoria interessante da economia da amizade e de aplicar o investimento nos sítios certos. Mas a verdade é que esta teoria não funciona. Por estranho (e lamecha) que pareça, um amigo é esta espécie de super-homem ou super-mulher que está na nossa vida para as coisas mais normais e mais bizarras que nos possam acontecer, desde comer um hamburger até a encontros imediatos de terceiro grau. Por isso é que me custa a acreditar, ou a aceitar, neste conceito de amigos não para as ocasiões, mas apenas para certas ocasiões.
No entanto, esta polivalência da amizade, esta versatilidade inesgotável, a quantidade de papéis diferentes que os amigos acumulam, é algo que, para mim, permanece um mistério bem cerrado. Como pode alguém fazer tanta coisa ao mesmo tempo? Já para não falar na semelhança entre a amizade e as relações amorosas - há poucos dias, falava com uma amiga sobre o possibilidade, ou não, de dois amigos poderem "acabar" um com o outro, como se fossem namorados. Nunca se diz "A não-sei-quantas era minha amiga, mas depois acabámos e já não nos falamos", por exemplo. No entanto, a amizade tem rupturas, discussões, ciúmes, tal e qual como aqueles que temos com os nossos namorados.
A vida, e a amizade, são lugares estranhos.

domingo, 17 de janeiro de 2010

Whatever happened to Kevin Smith

Há casos em que a abundância de dinheiro só prejudica, e a falta dele obriga a esforços criativos que obtêm resultados muito interessantes.
Estou a lembrar-me dos Gato Fedorento na SicRadical, quando apenas tinham dinheiro para o bigode postiço.
Estou fundamentalmente a lembrar-me do realizador Kevin Smith, cujo filme mais mainstream foi provavelmente o Dogma, que é uma grande seca; no entanto, Kevin Smith realizou belíssimas comédias nos seus tempos de independente da Nova Jérsia, tudo de baixo orçamento, mas competentíssimas. A acção passava-se sempre num mundo familiar, de amigos que conheciam outros amigos e que tinham andado todos na mesma escola, uma vidinha pequenina de subúrbio onde as coisas bonitas que os filmes têm a mania de engrandecer, como o amor ou as pequenas desilusões, eram todas vistas de uma forma normal, de rotina. Em suma, apesar de fazer filmes em New Jersey, o universo destes filmes de baixo orçamento eram muito familiares ao comum dos mortais, apesar das personagens e das situações loucas que conviviam com a tal normalidade de subúrbio.
Mallrats, por exemplo, passa-se todo dentro de um centro comercial, assim se demonstrando como Saramago tinha razão ao escrever a sua "Caverna" - de facto, quando se está no centro comercial, o mundo lá fora esbate-se até se apagar por completo. Clerks contava as peripécias de uma estação de serviço e dos indivíduos que lá trabalhavam; Chasing Amy, ao contrário de Mallrats muito elogiado pela crítica, é um filminho adorável em que um muito jovem Ben Affleck se apaixona por uma rapariga lésbica, tendo os dois de gerir a situação com todas as suas alegrias e complicações. Muito menos limpinho que When Harry Met Sally, e quase tão giro.
Porém, agora que os estúdios se renderam ao talento independente, habituado a gerir pouco dinheiro, de Kevin Smith, este último realizou o Dogma e, entre outras coisas, uma coisa também com Ben Affleck, chamada Jersey Girl e que, a julgar pelo trailer, chuif, chuif. Também fez a sequela do Clerks, e por acaso o trailer até está engraçado, mas, sinceramente, tenho medo de ver. Tenho um grande receio que me desiluda tanto que estrague o efeito dos filmes mais antigos (se alguém já viu e quiser deixar uma opinião, mil obrigados).
Da mesma forma que não compra a felicidade, o dinheiro também não compra, nem aumenta, talento, é o que tenho a dizer.



(O que me faz sempre rir neste trailer é a parte final, em que o Jay imita aquela cena do Silêncio dos Inocentes. Sei que não tem especial piada, mas o que posso fazer, se me rio sempre...)

Nota mental: escrever sobre qualquer coisa, escrever sobre qualquer coisa...

Não adianta.
Já comecei dois posts - um era sobre os meus vizinhos, que são um bocado chatos porque têm um cão Milu um bocadinho patético, que ladra de uma forma esganiçada, discutem sempre muito ao fim-de-semana por estarem fechados em casa, e além disso cozinham epicamente, empestando o hall e o elevador de cheiro intenso a carne assada, cebola, peixe frito. Um cheiro indelével. A minha teoria é que, cheios de boas intenções a preparar comida caseira, os vizinhos são incapazes de aguentar tanta trabalheira e perdem a cabeça uns com os outros, de certeza que os filhos adolescentes não ajudam o suficiente, não fazem a cama, não vêm para a mesa, a comida a arrefecer, não levantam a mesa, a cozinha o Domingo todo por limpar, que preguiçosos, caem finalmente o Carmo e a Trindade, que tão precariamente se aguentaram a semana toda, e é o dilúvio de gritos e portas a bater comum a todos os fins-de-semana. A minha sugestão é que os vizinhos fossem comprar um frango assado, que não é caro e resolvia o problema. E sempre saíam um pouco e queimavam a adrenalina que depois dispendem a gritar.
Este post não resultou.
O outro post era sobre as pessoas que precisam tanto de receber elogios que arranjam estratagemas, muito mal disfarçados, para os solicitar, o que é constrangedor, tanto para quem é solicitado como para quem solicita. Por exemplo, no outro dia diziam-me o seguinte "se fosse outra pessoa fazia isto mais depressa, mas eu sou assim, gosto de fazer tudo bem, sou perfeccionista demais, não é, eu sei que é um defeito!, eu sei que é um defeito, mas eu sou assim, sou lenta, se calhar outra pessoa fazia mais depressa, eu sou perfeccionista...", e assim sucessivamente. Um cansaço. Sempre à espera que eu dissesse "não, não, como tu estás a fazer é que está bem! Assim é que é! Outra pessoa fazia à pressa e fazia mal, não, não, tu é que és a melhor". Mas não disse. Por acaso, costumo sempre aceder e dar o tal elogio que as pessoas estão à espera, não me custa, tanto me faz, não acredito em elogios, nunca penso nos elogios que dou, e se as pessoas são felizes assim, tanto melhor. Mas desta vez não dei e foi muito engraçado, porque a conversa morreu ali e eu não tive de mentir.
Este post também não resultou.
Nãotenho conseguido escrever.

sábado, 16 de janeiro de 2010

O grave e terrível drama de deixar crescer o cabelo (aviso: é literalmente sobre isto que se vai falar)

Quem já passou por isso sabe perfeitamente do que estou a falar.
O que se passa é que, tendo decidido há algum tempo cortar o cabelo, desfrutei de mais ou menos um ano de delícias, cabelo curto à Jean Seberg, à Astrid Kirchherr, à Winona Ryder, enfim, diverti-me imenso, apesar de (mais uma vez, quem já passou por isto sabe perfeitamente do que estou a falar) dizer que o cabelo curto é low-maitenance é apenas para quem nunca o usou curto, porque este tipo de corte exige permanentes idas ao cabeleireiro acertar as pontinhas rebeldes que crescem logo em duas semanas. Enfim.
Acontece que, já um bocadinho farta das Jeans Sebergs e das Astrids, que inventaram o corte de cabelo dos Beatles mas pronto, agora estou mais numa de Amelies e Louise Brooks, e portanto decidi deixar crescer o cabelo. Quem já passou por isto sabe perfeitamente do que estou a falar, e sabe que é nada mais nada menos do que: pe-sa-de-lo.
Primeiro, acordar todas as manhãs com as pontas meio crescidas espetadas para todo o lado, em pequenas ondas impossíveis de esticar. Tempo imenso perdido a lavar a cabeça e a esticar cabelos por todo o lado, com o secador no máximo, até estar tudo direitinho. Passo a vida a lavar a cabeça.
Segundo, sair de casa e o parco penteado, que foi o que se conseguiu arranjar, desfaz-se imediatamente, tornando-se o cabelo numa massa desordenada, onde pequenos fios caem para a testa, e outros se levantam indecentemente por trás da orelha. Um desalinho.
Terceiro, olhar para o espelho, pentear com os dedos, pentear com a escova, voltar a pentear, e tudo o que se consegue é, novamente, uma massa desalinhada por onde pequenas pontas, sem ordem nem forma, persistem em despontar. Tipo Lisa Simpson, mas ainda pior.
Quarto, olhar para o espelho e desesperar de tal forma que se quer, e muito, ir à máquina zero.
Eu tenho a convicção de que, quando o cabelo está bem, o dia corre bem. Quando o cabelo está mal, o dia corre mal. Ultimamente, como só tenho maus dias de cabelo, está-me a correr tudo mal, ando sem tino, a tentar fazer coisas e sem conseguir acabar nada. Tudo desorganizado, e a culpa é toda do cabelo, que me faz desatinar.
O pior de tudo ainda é ouvir os comentários caridosos das pessoas - "ah, estás a deixar crescer o cabelo... olha, eu gostava muito quando o usavas curto!", do estilo: "corta mas é essa trunfa, que isso não se pode ver". Pois.
Mas não vou cortar a trunfa, não senhor. Vou persistir, ao menos uma vez na vida, e voltar à Louise Brooks. Em vez disto:


(em si, uma lindíssima foto)

... o meu objectivo é este:


(ainda por cima, e como já aqui afirmei, e como todos os meus amigos podem confirmar, eu sou tal e qual como a Louise, sou igual, igual, igual, e portanto vou ficar exactamente assim).

O que acontece quando se desiste, definitivamente, de ser brilhante


Há alguns dias, eu e a minha amiga Alexandra estávamos a discutir a sorte que ambas temos em ser pessimistas, porque, paradoxalmente, ou talvez não, há muito mais humor no pessimismo do que no optimismo. Não me consigo lembrar de nenhum humorista ou escritor com piada que seja optimista, talvez porque o optimismo não nos deixa esperar grande coisa da vida. Se vai tudo correr bem, independentemente de, está tudo tranquilo. Ora, eu penso que é precisamente no "independentemente de" que reside o grande interesse da vida e do pessimismo. A Alexandra concorda comigo (acho eu).
Bom. Isto para dizer que o meu pessimista preferido de sempre é Woody Allen. Por mais filmes sofríveis que ele faça, eu continuo a gostar dele. Mas devo dizer que este último, "Whatever Works", deixa bastante a desejar. Como seria de esperar, há alguns monólogos interessantes do personagem principal, interpretado por Larry David, e que, à partida, poderiam salvar o filme.
Mas não salvam."Whatever Works" é uma dúzia de personagens a despachar falas, de tal modo que, por vezes, parecem estar a ler do teleponto. O pessimismo negro de Larry David (cuja combinação com Woody Allen, à partida, me pareceu brilhante) não convence ninguém, pior do que isso, nem sequer chega a ter piada - e isto é o pior que Woody Allen poderia ter feito. Chegar ao ponto de fazer filmes que, ainda que repetições medíocres e ad nauseam de filmes anteriores, não têm, pura e simplesmente, piada. Nem Larry David, normalmente tão cínico e cáustico, em teoria o perfeito alter ego de Woody Allen, tem graça.
Há, porém, algo que Larry David diz no filme e que é interessante: "on paper, we're perfect. But life isn't on paper". Tal e qual como este "Whatever Works" - em teoria, uma excelente ideia. Mas a vida não é em teoria. O que não deixa de ser uma pena.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Ave Caesar, moriture te salutant

Ser um mau artista (mau actor, mau escritor, mau pintor) deve ser terrível. O confronto com a própria mediocridade deve ser um espelho crudelíssimo. Nem sei como isso se aguenta.
A arte é uma coisa muito cruel. A literatura, por exemplo, é uma Minerva de espada à cinta que mata, com o tempo, toda a mediocridadezinha que se atreve a tentar medrar. Acho que era isto que o Harold Bloom queria dizer quando falava da angústia da influência. A obra literária nova sabe que a única alternativa a não entrar no cânone é a morte. Não há, de todo, um meio termo.
No fundo, a nova obra literária é um gladiador que tem de provar o seu mérito lutando com outros gladiadores mais experientes, e que são todo o cânone literário já existente. Quando nasce, a jovem obra literária apenas pode dizer "ave Caesar, moriture te salutant". O César, neste caso, somos nós, os leitores. Se a obra literária for boa, pomos o polegar para cima e o jovem, mas esplêndido, gladiador viverá para sempre. Se for uma porcaria, polegar para baixo, e a pequena obra literária, ainda que sobreviva alguns anos graças ao chamado "hype" que às vezes consegue enganar os leitores, acaba por morrer rápida e indignamente. É que, ainda porcima, é de facto uma morte indigna, porque literatura medíocre serve apenas para, de vez em quando, a ressuscitarmos depois de morta para gozar com ela, como se faz com os romances de cordel do século XIX, daqueles que o Camilo escreveu para ganhar dinheiro. Uma tristeza.
A arte é mesmo um campo de batalha, uma coisa selvagem, uma razia. É de facto, a única coisa na vida de que me consigo lembrar que é alheia ao conceito do Bem. Por exemplo, um livro pode ter as melhores intenções, e contribuir até para melhorar a vida das pessoas, mas isso não quer dizer que seja boa literatura, ou literatura, sequer. O Bem, ou pelo menos o bem comum (pode sempre argumentar-se que a Arte é necessariamente Bem, como o Platão dizia - era o Platão?), pode estar completamente ausente da Arte. E a Arte não deixa de ser menos arte por causa disso.
Que coisa tenebrosa.

Gaja que devia fazer o meu estilo mas não faz: Audrey Hepburn


Eh pá, pronto, tudo bem, matem-me, esfolem-me, mas eu não consigo gostar da Audrey Hepburn, mais, não a consigo suportar.
É bonita? É. Linda, até.
É doce e encantadora? É.
Tinha estilo e vestia-se bem? Sem dúvida, melhor do que a princesa Di (que teve um "di-sastre", coitadinha - mil desculpas, a piada de mau gosto foi mais forte do que a minha má pessoa).
É boa actriz? Pois, para mim não é. Acho, até, espantoso como não se fala mais na pouca versatilidade da Audrey como actriz.
O meu problema é que eu vi três filmes com a Audrey Hepburn - My Fair Lady; Sabrina; Breakfast at Tiffany's. Achei-a um desastre em todos. Só na Sabrina é que se safava, mas isso era porque o que o papel exigia somente sorrir e ser encantadora, e isso a Audrey era-o, de facto.
No My Fair Lady, achei-a um erro total de casting (foi, aliás, uma das críticas que se fizeram ao filme na altura, e eu concordo inteiramente). Não convence ninguém com o mau sotaque cockney. É, pura e simplesmente, refinada de mais e não consegue enfiar-se numa personagem de rapariga de rua, quase rufia.
Em Breakfast, pior ainda. A Holly é quase uma mulher perdida, uma aventureira sem rumo, e a Audrey Hepburn, com o bandolim ou o que era, a tocar a lamechiche do Moon River, tem ar de menina de colégio interno a quem as freiras deram meia-hora para ir à janela suspirar, antes de marchar para a cama às 8 da noite. Qual festas malucas, qual dinheiro de tipos da Máfia, qual quê.
Enfim. Como ícone, a Audrey é soberba. Tem um arzinho muito simpático, uma carinha linda de morrer. Na tela, infelizmente, não faz nada o mais estilo. Até me enjoa um bocadinho. Prefiro a outra Hepburn, a Katherine. Para desenjoar.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Morto e enterrado

Há um livro de que gosto muito, The Go-Between, e que começa com uma frase icónica e já muito citada, mas absolutamente verdadeira e sábia:

The past is a foreign country. They do things differently there.

Esta frase parece-me sempre ainda mais verdadeira, sábia e icónica em dias como os de hoje, frios, relativamente tristes, e que incluem emails deste tal passado. O mesmo passado que se diz estar morto e enterrado, e aqui está uma outra frase muitíssimo verdadeira, também - o passado, de facto, morreu e foi enterrado. E nada torna este lugar-comum mais verdadeiro do que o reencontro com pessoas do passado. É penoso perceber que o minúsculo, mas importante, mundo que, um dia, uniu algumas pessoas - amigos, amantes, o que seja - ruiu, acabou, afundou-se e não vai voltar a erguer-se. Pura e simplesmente, desintegrou-se na memória. É ainda mais penoso assistir ao espectáculo encenado pelas pessoas que não percebem isso e querem à força avivar memórias indiferentes, frias, puxar uma brasa que já não existe, que nunca vai voltar a aquecer, que morreu para sempre.
E é também doloroso perceber que esta tristeza que nos preenche ao assistir ao tal espectáculo, à brasa que morreu, às pessoas que ainda se afadigam, pateticamente, de volta de um monte de cinzas mortas, rapidamente dá lugar à indiferença.
Cada vez me convenço mais, a la Woody Allen, e como já escrevi antes, que as memórias são algo que se perde e não algo que se tem.
E, como também já uma vez escrevi, reitero um verso de Leonard Cohen que calha mesmo bem aqui, para terminar tanta melancolia barata - that's all, I don't think of you that often.

domingo, 10 de janeiro de 2010

O meu desejo tardio para o ano novo de 2010 é:

não ter nenhum desejo.

É apenas isto que minha apagada e vil, não tristeza, mas vã glória de mandar, pode alcançar.

Talvez tenha lido Ricardo Reis a mais, ou o ano da sua morte.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Solidao

Le-se n'O Ano da Morte de Ricardo Reis a seguinte clarividencia:

"a solidao nao "e" viver so, a solidao "e" nao sermos capazes de fazer companhia a alguem ou a alguma coisa que esta dentro de nos"

(favor colocar os acentos devidos que eu mais nao posso, obrigada)

Esta observacao esta muitissimo bem vista (nao fosse ela uma observacao), como alias todo o livro esta muito bem visto ("e" uma obra-prima, verdadeiramente). A solidao, curiosamente, nao "e" o estarmos fisicamente sozinhos, vivermos sozinhos, viver a nossa vida sozinhos. A solidao "e", de facto, o nao sermos capazes de fazer companhia a nos proprios, de nao sabermos o que fazer de nos.
Quando nao somos capazes de nos entreter sozinhos, e a nossa propria companhia se torna um enfado, ai sim, estamos embrenhados numa solidao custosa (o tipo de solidao que leva as pessoas a psiquiatras e, de forma ainda mais grave, a psicologos tipo Eduardo de Sa, que medo).
O estarmos meramente solitarios nao e, de todo, solidao. "E" vivermos com a nossa companhia, que "e" uma boa companhia. Gosto, apoio e dou aval.

(que desespero, a falta de acentos, mil desculpas, nao consigo escrever assim)

Nota final: como a chamada "alma portuguesa", se "e" que ela existe, soube transformar a solidao num elevado sentimento estetico, deixo a bela cancao da grande Amalia, precisamente denominada "Solidao", desta feita com os arrebites jazzisticos dum tipo conhecido que agora o nome nao ocorre, e que sao mesmo de uma pinta insuperavel.

Em 1965

...David Bailey tirou esta fotografia, que vi hoje, aqui. Nao sei porque, mas "e" a foto que mais gosto do John e do Paul (trato-os pelo primeiro nome, tenho muito a-vontade com eles).


Lin-dos.
Que bela fotografia.