terça-feira, 6 de abril de 2010

O insanável desejo de férias

Eh pá... a sério... será que sou preguiçosa?
Está-se em Outubro e eu só consigo pensar em Agosto. Julho, pronto.
Está-se em Abril, como agora, e começo a ficar mais contente porque Julho está quase aí. Se me puser a pensar que ainda faltam 3 meses para Julho, fico deprimidíssima.
Só consigo viver a minha vida em permanente countdown para o Verão; se me falha o countdown, e se, por um momento, me ponho a pensar o mundo real é a vida como ela é, e não as férias, não consigo agir nem funcionar, e deixo que a tristeza tome conte de mim. Prefiro pensar que a vida só existe nas férias, e que todos os outros indiferentes, rápidos meses não passam de prelúdios pouco importantes.
Passo os meses normais num estado de pré-vida, em preparação para a verdadeira vida, que chega apenas com as férias e que, do mesmo modo, parte com o fim das férias.
Não sei se é assim para toda a gente. Se não for, talvez as pessoas me possam explicar como é que fazem para aguentar o estado de pré-vida porque eu, sinceramente, não lhe encontro piada alguma e vejo nisso parco interesse.
Talvez o sucesso dos centros comerciais se explique assim, é onde a gente vai passear para nos esquecermos que ainda não estamos de férias, que a festa ainda não começou, que o restaurante ainda não abriu e estamos à espera cá fora, ao frio.

Ir ao cinema


Tive a sorte de, recentemente, poder ver Psycho no escurinho do cinema. Tudo colado ao écrã, cabecinhas espetadas, sem perder um único movimento do Norman Bates na sua fúria raivosa.
E isto para dizer que, sinceramente, o Anthony Perkins é mesmo bom actor. Verdadeiramente muitíssimo eficiente.
E também para dizer que nada é comparável a ver um filme no cinema. Nada. Os filmes foram feitos para serem vistos no escuro, com toda a concentração, sem telemóveis, telefones, televisão, internet, jornais, a atrapalhar. A cena do chuveiro, que eu tinha visto tantas vezes na TV, ganhou todo um novo impacto no cinema, onde os meus olhos apenas podiam olhar, sem descolar, para a pobre Janet Leigh a desfazer-se num grito estridente, a mãozinha estendida, a resvalar cortina abaixo. E os violinos descontrolados que acompanham as facadas, e o desvairado Norman Bates, com as roupas da mãezinha, que na TV já são quase um lugar-comum, transfiguram-se no cinema e regressam ao horror original.
O cinema é a melhor invenção de sempre. Ir ao cinema ver cinema (de preferência num daqueles a sério, onde não há pipocas à venda, tipo Monumental, King, Londres) e deixar os home theatres para mediocridades, é o que eu defendo.
E reiterar que o Anthony Perkins como Norman Bates é mesmo excelente. No cinema, é toda uma outra dimensão que projecta este actor, que realça a sua falsa doçura e a sua insanável loucura. Soube-me muito bem assustar-me verdadeiramente com este Psycho.

quarta-feira, 31 de março de 2010

Casas assombradas


Gosto de casas. Mais especificamente, gosto de casas abandonadas, em ruínas, carcaças à beira da estrada ou perdidas nos pinhais feios deste país, assombradas.
As casas são assombradas não por fantasmas (quer dizer - eu não acredito em fantasmas, mas como dizia o outro, que os há...), dizia, assombradas não por fantasmas, mas por memórias. Quanto mais velha é uma casa, mais memórias tem. Gosto de pensar no que se passou ali, no que poderá ter acontecido para que um lugar que foi feito para acolher pessoas não ter agora ninguém. Pode ter ocorrido um grande e horrível crime, passional, trágico, ou talvez banal, sem sangue, não sei, mas sei que a minha imaginação inventa, inventa, inventa sem parar sempre que tenho a sorte de pisar uma destas pobres casas em ruínas.
Tenho sempre pena quando vejo casas abandonadas com janelas emparedadas, pesadas correntes à porta, para afastar as pessoas de um sítio onde elas deveriam estar. Recentemente, tive a sorte de ir passear a uma montanha alta, verde, esplendorosa, que, além da beleza natural, tinha um hotel abandonado mesmo lá em cima. Nem quis acreditar na minha sorte. O porte escuro, escaqueirado, do edifício despontava por entre árvores e flores verdinhas, frescas, que contrariavam a soturnidade do hotel. Deslumbrante. Quis entrar no recinto, atrevi-me a subir umas escadinhas cheias de erva daninha, mas pus-me imediatamente a fugir a sete, oito, nove, pés, porque ouvi um ladrar imenso de uns cães absolutamente psicopatas, e tive medo que me viessem morder cheios de vontade. Ainda olhei para trás para os ver, gordos, grandes, castanhos, maus. Fiquei com tanta pena de não poder visitar aquele hotel recheado de fantasmas, de coisas que se passaram ali, quem sabe um menino a passear pelos corredores com um triciclo, incessantemente, duas meninas de olhos parados que repetem "come play with us, Danny...", um quarto onde não se pode entrar, uma velha desfigurada, desdentada, louca, a rir...
Vejo muitos filmes de terror. Mas não foram estes que me despertaram o gosto por casas abandonadas, que ninguém quer. Foram dois livros em particular; o primeiro foi Jane Eyre, da minha muito querida Charlotte Bronte (eu adoro as irmãs Bronte, mas o meu pai goza comigo, porque acha que elas são uma grande seca e não tem pachorra para histórias de meninas pobrezinhas governantazinhas; diz-me que eu já devia ter ultrapassado as Bronte, mas não, nunca ultrapassei nem quero), continuando, Jane Eyre, com aquele ambiente quase claustrofóbico, a Jane fechada no quarto vermelho em pequena, a louca fechada no sótão, uma casa cheia de segredos, cheia da vida de muitas pessoas; o outro livro foi Rebecca. A omnipresente mansão de Manderley, com a governanta vestida de preto, sem nada além de fel, ódio, mal, e o também omnipresente fantasma de Rebecca que paira por todos os quartos, vê tudo, sabe tudo, não deixa ninguém escapar. O que será viver numa casa com olhos, com ouvidos, que respira connosco? Consigo imaginá-lo quando encontro casas abandonadas, e por isso gosto tanto delas.
Porém, ainda antes deste dois livros, houve um outro elemento de fundamental importância que me revelou o interesse de um casarão repleto de memórias. Não, não foi um livro nem um filme, mas sim uma telenovela baseada num livro, chamada, dramaticamente, A Sucessora (nota para os senhores da TVI: pensem em arranjar, pelo menos, títulos decentes, retumbantes, para os dejectos que passam todas as noites, Olhos de Mar, Cabelos de Mel, Xixi e Cocó e outras pérolas do género. Uma coisa como A Sucessora, curto e com impacto, é que é). Não me lembro de quase nada desta telenovela, porque, além de ser ainda muito, muito pequena, a minha mãe quase nunca me deixava ver. Lembro-me, porém, que tratava da temática de uma jovem que casara com um homem rico e viúvo, que a tinha levado para o seu casarão onde havia um quarto sempre fechado, uma governanta maléfica, e a memória sempre eterna da falecida mulher. Lembro-me também de chegar ao colégio e todos os miúdos discutirem animadamente o que estava no quarto fechado: o cadáver da falecida mulher; a falecida mulher afinal viva, mas em cadeira de rodas; a versão mais macabra constava da falecida mulher afinal viva, amarrada a uma cadeira sem poder sair dali, alimentada pelo marido à colher.
Esta telenovela era, obviamente, inspirada na Rebecca e no livro homónimo (homónimo da telenovela, ou seja, também chamado A Sucessora) de uma autora brasileira, Carolina Nabuco. Por acaso, no Verão passado, li este livro, cheia de expectativa (tanto que esta Carolina processou a Daphne Du Maurier por plágio, mas, ao que sei, não ganhou). Infelizmente, o livro da Carolina tem não um lagarto pintado, mas alguma falta de piada. Talvez tenha valor pela descrição de algum colorido realista (eish, que profissional, eh eh), mas não achei grande coisa.
Para os queridos leitores que chegaram ao final deste post, que eu duvido que tenham sido muitos, porque isto de ler textos longos em blogs é o que é, eu própria também não costumo ter grande paciência, enfim, para os leitores que me acompanham até ao término, o meu muito obrigado, espero que tenham gostado, amanhã volto, volte comigo.
Era a brincar. Era para imitar aqueles talk shows foleiros e tal, tanto que eu amanhã nem sei se consigo cá vir. Isto para dizer que gosto de casas abandonadas, assustadoras, terríveis nas suas memórias, feitas da vida das pessoas.
E também para dizer que há um site magnífico que eu gosto muito de visitar e que consta de um arquivo lindíssimo de fotografias de locais abandonados. De uma beleza estranha e algo incompreensível, porque locais abandonados costumam ser feios. Mas, na verdade, não são. A beleza está em todo o lado e, de facto, e como dizem os ingleses, está no olhar de quem vê. O site é este.
Agora sim, muito obrigada, até amanhã, talvez.


Karaoke

Esta música permite-me um momento de pausa, em que canto com toda a moral que consigo, escova na mão a fazer de microfone, olhos fechados se preciso for, com toda a alma e todo o sentimento de que sou capaz, assumida e convictamente pirosa, lamecha, de lagriminha ao canto do olho, absolutamente arrebatada, rendida à doçura fofinha, queridinha, tudo acabado em inho, desta maravilhosa canção. Uma absoluta delícia.
Não resisto, mesmo. Adoro, adoro, adoro. Viva o Stevie.

terça-feira, 30 de março de 2010

Gostar de cães


Há algo que me intriga e que se prende com aquele tipo de pessoas de quem toda a gente gosta.
Há, efectiva e estranhamente, pessoas assim, que agradam instintivamente a gregos, troianos, espartanos e quejandos. A todos.
Impressionante.
São, normalmente, pessoas doces, com alguma personalidade, muito divertidas mas sem nunca chegarem ao impositivo, com paciência para ouvir os outros, embora revelando muito pouco acerca de si. São seres humanos de tal modo agradáveis e aprazíveis que é impossível vilipendiá-los, dizer mal, enxovalhá-los, atrever sequer um pensamento ligeiramente menos elogioso acerca deles, sob pena de nos sentirmos as piores pessoas do mundo. Pensar mal deles, ou não gostar deles, equivale quase a dizer que não se gosta de cães. Não gostar de cães é ser péssima pessoa, como todos sabemos, aliás - Edgar Allan Poe compreendeu-o exemplarmente, escrevendo, no seu magnífico conto "The Black Cat", o seguinte: to those who have cherished an affection for a faithful dog, I need hardly be at trouble of explaining the nature or the intensity of the gratification thus derivable. There is something in the unselfish and self-sacrificing love of a brute which goes directly to the heart of him who has had frequent occasion to test the paltry friendship and gossamer fidelity of mere Man (acho este excerto delicioso).
Portanto, há certo tipo de pessoas que, misteriosamente, de formas e trejeitos incognoscíveis, pelo menos para mim, reúnem um consenso inabalável, da mesma forma que os cães o conseguem fazer. Vão directamente ao coração dos outros, como diz Poe, nada a fazer.
Como exemplo, lembro-me apenas de gente tipo Jamie Oliver. Ainda não ouvi absolutamente ninguém que me conseguisse dizer mal do Jamie Oliver. É simpático, bom comunicador, enérgico, tem programas interessantes, cozinha bem, é criativo; mesmo quem o acha irritante não consegue deixar de reconhecer que sim senhora, é um indivíduo que trabalha bem, preocupado com a alimentação das crianças, que tenta melhorar o regime alimentar paupérrimo em Inglaterra, etc. e tal.
O Jamie Oliver é o cão de toda a gente. Eu também gosto imenso dele, até porque tenho tendência para achar cães um doce, excepto quando ladram e se tentam atirar às pessoas. De resto, vão directamente para o meu coração.

O absoluto banco de jardim e a absoluta pessoa que se sentou nele

Daqui a pouco vou ao Campo de S. Francisco ver o banco onde Antero de Quental se suicidou.
Lembro-me de, na escola secundária, ter uma professora de Português que nos tinha explicado o suicídio de Antero pela impossibilidade que este sentia em encontrar o "Absoluto", e que devia ter achado que o tal Absoluto vinha com a morte, o que até se compreende, de modo que enfim, mal por mal, tinha decidido acabar com tudo com dois tiros.
Na verdade, não foi assim tão detalhadamente que ela nos explicou. Disse apenas que, porque Antero compreendera que o tal Absoluto era impossível de encontrar, se tinha suicidado.
Bom. A professora era, com toda a justiça, esforçada, mas este episódio de encontrar a razão para o suicídio de Antero ali, numa aula de uma hora, para gatos pingados de dezasseis anos, foi quase patético. As pessoas de dezasseis anos, apesar de tudo, não são atrasadas mentais (espera-se). Até elas conseguem discernir um disparate de uma coisa inteligente.
Mas enfim. Porque, felizmente, a história do Absoluto que nunca mais chegava, qual Godot, nunca me convenceu devidamente, lá irei eu hoje, respeitosamente, ao banco de Antero.

terça-feira, 23 de março de 2010

O insustentável peso das palavras

Não gosto nada quando as pessoas me vêm chatear com sentimentalidades. Detestando o Primo Basílio, percebo, de alguma forma, o quão irresistível seria gozar com as cartas de romance barato e banal que a burguesinha Luísa lhe enviava. Realmente, aquilo devia ser um folhetim de bradar aos céus, o que, de qualquer modo, não desculpa de todo o repugnante Primo Basílio, mas enfim.
Não gosto, em particular, quando as pessoas usam o verbo "amar" à minha frente, que é verbo que me faz uma espécie que quase desemboca em formigueiro, de tal modo me incomoda. Há palavras com um peso intocável, retumbante, e esta é uma delas. Não se deve usar em público, sem mais nem menos, por dá cá aquela palha, do pé para a mão, ao deus-dará, assim e assado e outros lugares-comuns. Este é um verbo cujo peso é, pura e simplesmente, demasiadamente grande para que eu o possa levantar. Prefiro não ter de pensar nisso.
As pessoas não percebem o peso das palavras. Há palavras leves, diáfanas, como o verbo "gostar", como o substantivo "afecto"; há outras, como Milan Kundera saberia e bem, insustentavelmente pesadas. É o que se passa com o verbo "amar", que esmaga, incomoda. Não quero que me firam os ouvidos com ele.
Mas, por vezes, as pessoas põem-se a falar desbragadamente à minha frente e fartam-se de usar palavras pesadíssimas, insustentáveis, literalmente insuportáveis. Não sei o que posso fazer.
Tenho ouvidos sensíveis. É um problema.

segunda-feira, 22 de março de 2010

Durante o dia, principalmente se tenho tempo para ouvir música, tenho 300 000 ideias absolutamente brilhantes.
Mas depois esqueço-me de todas elas quando chega a altura de ir dormir.
Eu tenho ideias de génio. Infelizmente, tenho uma memória de porcaria.

Embalar a trouxa e zarpar


O poema que mais me contorceu as entranhas por o sentir tão verdadeiro foi aquele de Fernando Pessoa, "viajar! Perder países! Ser outro constantemente".
Gostava de ter o tipo de vida que me permitisse pular de país em país, ilha em ilha, lugar em lugar, sem partir demasiadamente depressa, para me poder afeiçoar, e porém sem nunca ficar o tempo suficiente para me afeiçoar demasiado. Permanecer e partir na altura certa, com conta, peso e medida, tal como a vida bem vivida exige.
O privilégio de poder ser o "outro" quando se quiser, quando assim o entendermos, é algo que invejo. Poder pegar nas malas e deixar tudo, conseguir reunir os pertences numa trouxa, cerrar os punhos e andar. É uma grande liberdade - talvez a única liberdade.
Talvez por isso eu me deslumbre com Corto Maltese, não apenas porque é bonito, alto, moreno e eloquente, mas, fundamentalmente, porque não conhece amarras de espécie nenhuma. Sorte a dele ser apenas personagem de banda desenhada.
Há amarras que são benéficas. O amor é uma amarra. Mas não deixa de ser uma amarra, tal como todas as outras coisas que alguém nos disse uma vez que nós precisamos - casas, empregos, conta no banco, número de contribuinte. Todas estas estranhas identidades heterónomas que quase apagam a nossa própria identidade. É quase contra-natura.
Como é que podemos ser nós próprios quando aquilo que queremos é ser outro, viajar, perder países? Quando nem a nós queremos pertencer?
É muita filosofia para a minha vã cabeça .

Viajar assim é viagem.
Mas faço-o sem ter de meu

Mais que o sonho da passagem

O resto é só terra e céu.


Justificar completamente

Meu amor, você me dá sorte, meu amor, você me dá sorte na vida..



Coisas que adoçam, adoçam, adoçam a vida de uma pessoa, quando ela vai distraída a pensar.

sábado, 20 de março de 2010

Orgulho e preconceito


Ontem estava a jantar com uns amigos e arranjei maneira de desviar a conversa para um assunto que muito me apraz e que é o Dartacão. Começámos a falar dos Moscãoteiros e eu disse que o meu preferido sempre foi o Arãomis, porque era o cão poeta, que dava rosas à namorada, escrevia poemas e gostava muito de livros. Era um intelectual. Disseram-me logo: "ó Rita, mas tu também sempre gostaste de homens amaricados!"
Pronto. É isto, as pessoas passam a vida a insultar-me. Mas continuando. Primeiro, o Arãomis era um cão, portanto a crítica é um bocado injusta. Segundo, não compreendi a relação causal que ali se estabelecia. Então o Arãomis era amaricado porque gostava de livros? Como é que o Arãomis, mosqueteiro, que usava espada, quando em aventuras ia era sempre o primeiro, quando ia combater já não há rival algum, o seu lema era um por todos e todos por um, era "amaricado" porque oferecia rosas à namorada e escrevia poemas?
Rapidamente me contradisseram - "não, não, o Arãomis era amaricado porque era mulher, então tu não sabes que ele era uma mulher". Ao que eu fui forçada a responder que, lamentavelmente, essa estupidez do Arãomis ser mulher pertencia a outros desenhos animados, mais tardios, e convenientemente chamados "D'Artagnan", com a voz do grande Miguel Guilherme, e não "Dartacão".
"Ah, mesmo assim, se fores escolher o moscãoteiro mais amaricado, tem sempre de ser o Arãomis. Se fores ver as orelhas dele e tudo, tipo cocker, o mais amaricado é ele". - efectivamente, para este argumento das orelhas do Arãomis não tenho refutação possível. Mas ninguém é perfeito.
E porém, não posso deixar de pensar que este entusiasmo em apelidar o Arãomis de moscãoteiro amaricado releva uma certa corrente de pensamento subjacente, a de que o homem que é homem pode gostar de livros, sim, mas não em demasia. Serve-se deles e depois deita-os fora quando chega a altura de arranjar máquinas, dar marteladas, ser desenrascado. O que não passa de um estereótipo mentiroso. Aliás, a forma como essa grande fonte de saber chamada Wikipedia descreve o Ara(o)mis é muito explícita relativamente à sua masculinidade:

Friendship is so important to Aramis that it is strongly implied, at the end of Le Vicomte De Bragelonne, that he cried (for the first time in his entire life) when one of his friends died.

Aqui está - um homem não chora, e se chora, é pelo seu amigo homem, nunca por uma mulher qualquer. Muito à D.H. Lawrence, que haveria com certeza de gostar destes bonecos.
No entanto, e muito curiosamente, a versão desenho animado em que Aramis é mulher explica-se da seguinte forma:

In the anime version, Aramis is a woman who cross-dressed into a man in order to become a musketeer. Aramis' love of the arts in the original novel influenced the producers of the Japanese cartoon series to change the character's gender.

Ai gosta de livrinhos e versalhada, coisa de gaja? Então façamos mesmo dele uma gaja e resolve-se o problema. Que preconceito. Este mundo ainda é tão dividido em pequeninos retalhos tradicionalistas que definem o nosso comportamento...

Não sei bem o que pensar deste post. Nunca me passou pela cabeça que se pudesse escrever tanto sobre um desenho animado, ainda por cima cão. Mas a mente tem razões que o próprio coração desconhece.

nota: a propósito de bonecos e Dartacão, descobri este blog giríssimo.

Lua de fel

O feminismo morreu? Já não faz sentido?
Ah, pois, eu não acho, nem na Europa, nem em qualquer outro lado. Faz todo o sentido, especialmente nos dias que correm, em que se publicam livros muito ocidentalizados e libertários, muito conscientes do papel da mulher da sociedade, e que dizem coisas assim deste calibre elevadíssimo:

College was plan B. I was still hoping for plan A, but Edward was so stubborn about leaving me human... [...] Edward didn't seem to understand why I wouldn't let him pay my college tuition (he was ridiculously enthusiastic about plan B).

Isto vem do New Moon, versão livro, cujo primeiro capítulo está disponível on-line e que eu me dei ao trabalho de ler. Queria saber porque é que isto vende tanto. E agora percebo que vende porque retrata a história de um rapaz vampiro, jeitoso e rico, que se apaixona por uma lambisgóia pobre cujo sonho é tornar-se vampira para não ter de trabalhar, muito menos ir para a universidade, descrita como apenas o "plano B". Devo dizer que, nos tempos que correm, minados pela influência nefasta do tal credit crunch, talvez a rapariga esteja de facto a optar pelo mais seguro. Portanto, esta historieta, com aspirações a nouveau-Romeu e Julieta (a epígrafe do livro é um verso desta peça, que fofinho), proclama o casamento como a aspiração mais elevada da mulher, e um namorado invencível ao lado a tomar as decisões todas, já para não falar da elevação moral desta literatura - a autora, Stephanie qualquer coisa, disse numa qualquer entrevista que estava farta de ver jovens bombardeados com sexo e drogas e outros malefícios, e portanto decidiu escrever uma linda, pura história de amor, decente, de moral e lágrima, em que não há galdeirices contra-natura e é tudo respeitador da ordem estabelecida, homem dominador, menina submissa sem estudos, dele dependente para tudo. Ah, que já vejo anjos e os arcanjos deleitados com isto...
Não sabia que as adolescentes, e talvez algumas mulheres, ainda iam nesta conversa. Pensava que o admirável mundo novo lá fora seria suficiente para sonharem outras coisas. Mas pronto. Cada um é como cada qual.

quinta-feira, 18 de março de 2010

Já estou outra vez com saudades do Blogger Hipotético.
Mas não tenho ideias nenhumas.
Estou a pensar talvez, assim, não sei, eventualmente.

Roubo de identidade


Descobri uma pessoa no facebook que usa exactamente a mesma imagem que também aqui está no blog, a aguarela da Louise Brooks pelo Hugo Pratt, o pai do (esse sim, absolutamente meu) Corto Maltese.
Fiquei devastada. Não há explicação para aquilo que eu senti quando vi, na caixinha que diz "amigos em comum", a minha (minha!) foto. Depois, muito tristemente, lembrei-me que este rosto sorridente, de pescoço alto, de torre, não é meu. É um desenho de uma outra pessoa que não tem nada a ver comigo.
Mas habituei-me tanto a esta imagem, uso-a há tanto tempo, já, sempre gostei tanto dela, dos olhos sorridentes, da expressão afectuosa, que me habituei a pensar que, de uma certa forma, tudo isto me pertencia. Foi preciso outra mulher qualquer, que teve exactamente a mesma ideia do que eu, para que me apercebesse, duramente, que não, a imagem com a qual me identifico não é minha. É, até, estranhamente, muitíssimo alheia. E portanto, mais uma vez com grande pena minha, não posso levar ninguém a tribunal por roubo de identidade. Tenho de aceitar. E isso entristece-me profundíssimamente - a aguarela de Louise Brooks é de mim feita alheia.
Dou por mim a perguntar se essa outra mulher que também usa a mesma aguarela a sabe respeitar e salvaguardar. Se aprecia as pinceladas esbatidas, pastéis, que rodeiam o rosto, se se detém a contemplar a expressão doce do olhar da Louise, a perceber a ligeira inclinação do pescoço de torre, esguio, se sorri, como eu sorrio, em resposta ao sorriso irresistivelmente simples da Louise, a encantar-se, como eu me encanto, com a promessa de ingenuidade e genuinidade que o rosto deixa transparecer.
Acho que não, acho que a mulher não faz nada disto. Só eu é que faço porque este pormenores, a forma como eu gosto desta aguarela, isto sim, é mesmo só meu.
E portanto não consigo desfazer-me da Louise, que sempre acompanhou este blog desde o iniciozinho. Não consigo, não consigo, não consigo. Prefiro continuar na ilusão perdida de que ela é minha. Tal como Corto Maltese. Mas esse, ai de que me vier dizer que não é meu.

quarta-feira, 17 de março de 2010

E no entanto, ela move-se

Acho isto lindo.
E acho lindo que giremos à volta do sol, porque, pelo menos, temos mais animação, mais movimento, muita purpurina, muito confetti, muita sardinha assada. Tem muito mais piada do que estarmos parados, sem ir a lado nenhum, à espera que o sol descreva o seu círculo.
Não sei como é que os senhores da Idade Média não viam isto.

Estou olhando o teu retrato, meu velho pisano,
aquele teu retrato que toda a gente conhece,
em que a tua bela cabeça desabrocha e floresce
sobre um modesto cabeção de pano.
Aquele retrato da Galeria dos Ofícios da tua velha Florença.
(Não, não, Galileu! Eu não disse Santo Ofício.
Disse Galeria dos Ofícios.)
Aquele retrato da Galeria dos Ofícios da requintada Florença.
Lembras-te? A Ponte Vecchio, a Loggia, a Piazza della Signoria
Eu sei... Eu sei...
As margens doces do Arno às horas pardas da melancolia.
Ai que saudade, Galileu Galilei!

Olha. Sabes? Lá em Florença
está guardado um dedo da tua mão direita num relicário.
Palavra de honra que está!
As voltas que o mundo dá!
Se calhar até há gente que pensa
que entraste no calendário.

Eu queria agradecer-te, Galileu,
a inteligência as coisas que me deste.
Eu,
e quantos milhões de homens como eu
a quem tu esclareceste,
ia jurar -- que disparate, Galileu!
-- e jurava a pés juntos e apostava a cabeca
sem a menor hesitação --
que os corpos caem tanto mais depressa
quanto mais pesados são.
Pois não é evidente, Galileu?
Quem acredita que um penedo caia
com a mesma rapidez que um botão de camisa ou que um seixo da praia?
Esta era a inteligência que Deus nos deu.

Estava agora a lembrar-me, Galileu,
daquela cena em que tu estavas sentado num escabelo
e tinhas à tua frente
um friso de homens doutos, hirtos, de toga e de capelo
a olharem-te severamente.
Estavam todos a ralhar contigo,
que parecia impossível que um homem da tua idade
e da tua condição,
se estivesse tornando num perigo
para a Humanidade
e para a Civilizacão.

Tu, embaraçado e comprometido, em silêncio mordiscavas os lábios,
e percorrias, cheio de piedade,
os rostos impenetráveis daquela fila de sábios.
Teus olhos habituados à observação dos satélites e das estrelas,
desceram lá das suas alturas
e poisaram, como aves aturdidas -- parece que estou a vê-las --,
nas faces grávidas daquelas reverendíssimas criaturas.
E tu foste dizendo a tudo que sim, que sim senhor, que era tudo tal qual
conforme suas eminências desejavam,
e dirias que o Sol era quadrado e a Lua pentagonal
e que os astros bailavam e entoavam
à meia-noite louvores à harmonia universal.
E juraste que nunca mais repetirias
nem a ti mesmo, na própria intimidade do teu pensamento, livre e calma,
aquelas abomináveis heresias
que ensinavas e escrevias
para eterna perdição da tua alma.

Ai, Galileu!
Mal sabiam os teus doutos juízes, grandes senhores deste pequeno mundo,
que assim mesmo, empertigados nos seus cadeirões de braços,
andavam a correr e a rolar pelos espaços
à razão de trinta quilómetros por segundo.
Tu é que sabias, Galileu Galilei.
Por isso eram teus olhos misericordiosos,
por isso era teu coração cheio de piedade,
piedade pelos homens que não precisam de sofrer, homens ditosos
a quem Deus dispensou de buscar a verdade.

Por isso estoicamente, mansamente,
resististe a todas as torturas,
a todas as angústias, a todos os contratempos,
enquanto eles, do alto inacessível das suas alturas,
foram caindo,
caindo,
caindo,
caindo,
caindo sempre,
e sempre,
ininterruptamente,
na razão directa dos quadrados dos tempos.
Poema para Galileu, António Gedeão

Matéria para o teste

Às vezes, penso se serei uma boa cidadã. Acho que sou, porque a mim ninguém me dá perdão por evasões fiscais se eu pagar 5% de coisas (mil desculpas, não resisti).
Continuando. Considero importante ser boa cidadã, isto é, como diziam os renascentistas, ser "civil", mas hoje fui multada cruelmente por um deslize absolutamente inofensivo, que foi ir na faixa do bus, como se isso fosse um grande e horrível crime, e de alguma forma senti que esta multa penalizava não apenas a presença da minha inocente viatura na porcaria da faixa do bus (mas a PSP não tem mais que fazer?!), como era também um castigo absolutamente alietório e até alienante, como acontece a Kapa no Processo. Foi, aliás, quase como ele que me senti. Não foi agradável.
Tal como não é agradável ter de suportar o olhar dos outros, coisa que abomino, aliás, por mim, as outras pessoas podiam falar comigo a 15 metros de distância, aos gritos, que eu não me importava. Não sei se toda a gente passa por isto, mas tenho quase a certeza que sim. Refiro-me a certos momentos na vida em que usamos uma certa roupinha, ou um batonzinho mais especial, enfim, momentos em ostentamos algo que é esteticamente aprazível, e há sempre alguém que nos olha de cima a baixo, mas é incapaz de pronunciar o elogio que ali está contido nos lábios, mesmo, mesmo, a rebentar, mas nunca proferido porque isso, para algumas pessoas, é uma "fraqueza". E ficam ali a olhar, por brevíssimos segundos, e nós ficamos ali a ignorar o breve momento em que a fel tomou conta de alguém. É desagradável.
Ou talvez olhem para nós para apreciar a fealdade ou a piroseira, o que é igualmente legítimo. Eu só solicito é que as pessoas sejam discretas, ou que acompanhem o olhar com palavras. Digam "olha tão giro", ou então "eh pá, isso é um bocadinho feio, para a próxima tens de ter mais cuidado", mas digam, ao invés de olhares venenosos, ostensivos. Feios, digamos.
E isto, olhares de fel e multa, confirma apenas a minha triste conclusão, que é a de que este mundo nos mantém sempre em permanente estágio, raramente nos dá contrato, e quase nunca nos passa a efectivos. É constante avaliação, todos os dias, pelos pares, pelos superiores, pelos inferiores, por amigos, por conhecidos, por estranhos, por tudo e todos. Quando finalmente passamos todos os testes, é tarde demais; se, pelo contrário, chumbamos um, a possibilidade de melhoria de nota é inversamente proporcional à nossa idade, isto é, torna-se cada vez mais difícil à medida que envelhecemos.
E por isso eu defendo que nunca se estude assim muito para o teste. Sei que isto parece a aurea mediocritas, mas eu acho que não é. Até me parece mais uma questão de sanidade mental.
Corre como correr.

terça-feira, 16 de março de 2010

Palavras e expressões que fazem rir

"Agastado" e respectivo verbo (eu agasto, tu agastas, ele agasta, etc.)
Fazer espécie, especialmente na versão "faz-me muita espécie".
Desenxabido, especialmente na versão "desen-xá-bido".
Rega-bofe.
Andar ao deus-dará.
Patega e patego ("não sejas patega!", disseram-me uma vez. Não pude ficar zangada porque me estava a rir).
Maniento.
Coiso.
Mel-réis, como se dizia antigamente do dinheiro. Nem sei se está bem escrito.
Pândega.
Pança.
Balofo.
Badameco.
Rambóia.
Treco-lareco.
Converseta.
Tist'ó cão.
Perua (infelizmente, a versão mais cómica desta palavra é aplicada às senhoras).
Cóboiada.
Justamente (na versão "pois, eu j'stamente foi isso que lhe disse").
Você.

Sem esquecer a forma de tratamento "pá", que sempre ocupará um lugar muito especial na minha lista. A língua portuguesa é soberba, e nunca me canso de dizer, constatar e apreciar tal realidade.

Este homem compreende-me

When the waiter hands you the menu and says “Has anyone explained our concept?”, everybody old enough to have been to McDonald’s is competent to reply: “You bring me food, I eat it, I pay, you give me my coat back.”

E é isto. AA Gill, que escreveu este texto, faz crítica de restaurantes para o Times há que tempos (em 2005 até foi a um restaurante português e fartou-se de dizer mal, num texto que vacilava entre o ofensivo e o brilhante, e foi engraçadíssimo, embora eu tenha ficado absolutamente agastada, mas pronto - o texto pode ser lido aqui), continuando, o AA Gill tem absoluta razão acerca desta coisa absurda do restaurante com "conceito". Se há coisa que me aborrece em restaurantes, para além do sinal de casa de banho a dizer "mulher" ao invés de "senhora" - gosto das coisas com uma certa etiqueta, pronto, é uma idiossincrasia minha - é isto do "conceito". Se estou sentada à mesa à espera que me tragam a lista (evitemos aqui a opção desagradável entre "menu" e "ementa") e me perguntam "conhece o nosso conceito?", fico logo furibunda. Conheço, sim, o conceito é comer. Mais alguma coisa que devo saber? Não estou a ver.
Não gosto de restaurantes com "conceito" porque isso normalmente equivale a eu ter de pagar a refeição e ainda ter de suportar constantes idas à mesa, a interromper conversas e deglutição com "está tudo bem aqui?", "não é preciso nada"?
Eu sei que isto são tudo tentativas de bom atendimento. Sei que as pessoas estão a fazer o seu trabalho. E também sei que, normalmente, estas tentativas equivalem a eu não voltar ao estabelecimento, principalmente se estes pretensiosismo acontecem em Portugal, que tem comida boa, simples, despretensiosa. O melhor da nossa comida é o seu despretensiosismo, e irrita-me um tanto ou quanto que isso se desvaneça com a história do "conceito". Voltemos à nossa encantadora simplicidade, é só isso que eu solicito.
Enfim. Post inútil e irrelevante, sei bem, mas precisava, mais uma vez, de me esvaziar de toda a fel, o que começa a ser um hábito e pronto, enfim, mil desculpas.

Desampara da minha janela

Há coisas que me dão um certo nó no estômago.
Por exemplo, aquela música linda do Bob Dylan chamada It Ain't Me. O poema é sobre um homem que se vai embora porque não quer ser o amor da vida de uma qualquer mulher. Eu compreendo a posição do Bob Dylan - também compreendo a posição da qualquer mulher. No entanto, indendentemente disto, o que me angustia levemente nesta canção é o tom de desilusão que estes assuntos acarretam sempre. Admite-se que, por alguns momentos breves, a ideia de felicidade foi de facto possível, mas o mundo, ou o pessimismo, ou o tédio, ou a preguiça, foram mais fortes, e resta a ruína. É tal e qual como a canção do Serge Gainsbourg sobre a qual escrevi há mais de um ano - Je Suis Venu Te Dire Que Je M'En Vais. Esta é, tal como a canção de Dylan, cruelmente bela, e trata do mesmo assunto, que não deixa de ser quase um lugar-comum: o homem que parte, a mulher (que não passa de uma personagem-sombra, em ambas as canções) que fica, chorosa e estilhaçada. É uma pena. Eu tenho, de facto, pena desta sombra, desta mulher invisível.
Tem graça que, no caso das canções masculinas que falam sobre a ruptura, a ideia é tentar sempre amenizar a coisa com palavras sensatas e bonitas, mas não necessariamente justificar, ao passo que, quando as mulheres cantam sobre deixar maridos ou namorados, justificam-se sempre com "eu dei-te tudo e tu eras um grande estúpido", ou "eu dei-te tudo e tu mesmo assim não quiseste". A verdade é que me baseio em apenas três canções para esta asserção, e que são as supra-citadas Bob Dylan e Serge, sendo que a terceira é aquela dessa grande cantora com toda uma séria carreira por trás, Leona Lewis, apropriadamente designada por "Better in Time".
Pensando bem, é capaz de não ser grande amostra.
Esqueci-me do objectivo inicial deste post. Vou ter de terminar por aqui.
Nota apenas para dizer que, quanto a mim, a perfeita canção de Bob Dylan é, com certeza, sobre muito mais do que uma ruptura amorosa. Mas enfim.



domingo, 14 de março de 2010

Plástico


Pronto. Vou falar do Sexo e a Cidade. Vou, porque há coisas que me agastam, e portanto este vai ser mais um post a destilar fel, mas não é contra a série.
Gosto muito da série. Tem piada, é um regalo para os olhos com os vestidos e os sapatos e os cabelos e as pessoas podem dizer-me à vontade que aquilo são mulheres a falar como homens gay, ou vice-versa, que eu não quero saber, gosto à mesma.
E porém. Não são as meninas do Sexo e a Cidade, com sua frenética ânsia e interminável conta bancária sempre pronta a esvair-se em sapatos ridículos, que me enervam. Não. O que me enerva são as meninas com frenética ânsia a esvaírem-se em sapatos e malas ridículas e de plástico e que vivem em Portugal que me enervam. A demanda constante pela "marca". Os óculos esbugalhados com umas letras garrafais nas hastes, DIOR, DOLCE, VERSACE, PRADA. Hã? O que é isto? As Louis Vuitton falsas, já a dar de si, fios soltos, costuras descosidas. Os sapatos de saltos altíssimos, cheios de chulé, que desfazem calcanhares, que permitem apenas passinhos periclitantes que dão vontade de rir.
Lamento muito, mas é estúpido. Tudo isto é estúpido, é pobreza de espírito. É tão estúpido e parvo como ir a um restaurante cujo "conceito" é "gourmet low cost", como eu fui noutro dia, portanto enfio a carapuça, porque como já escrevi antes, carapuças há-as para todos os gostos e eu mais remédio não tenho do que usar a minha. Enfim. Que um restaurante tenha um "conceito" que não seja comer e beber, já acho estranho; que o conceito seja gourmet mas low cost, acho de uma pretensão meio parva. Mas devo dizer que a comida, por acaso, estava óptima, e o ambiente também era giro, portanto se calhar ainda lá volto. Como disse, tenho uma carapuça e uso-a.
O problema é que eu vejo o país perdido nestas parvoíces, nesta ânsia imparável por coisas feias, baratas, falsamente bonitas, falsamente inteligentes. É terrível.
Aceitemos todos: não temos dinheiro. Ok? Não temos. Aceitemos todos que: não podemos ter malas Louis Vuitton, nem Manolos, nem viver em Nova Iorque, nem pensar em homens o dia todo e ainda ganhar dinheiro com isso. Aceitemos que temos de viver de outra forma, comprar outras coisas. Mais baratas, mais honestas, mais bonitas.
É que estou farta de ver gente feia, coisas feias, plástico, plástico brilhante, à minha volta. Sapatos de plástico brilhante, malas de plástico envernizado, sorrisos de plástico brilhante, bleagh. Para onde é que eu tenho de ir para me regalar com a beleza natural da simplicidade? Para Trás-os-Montes? Não me apetecia, porque é um bocado longe, mas pronto, se for preciso vou. Por acaso, gosto muito de Trás-os-Montes. Tenho pena de ser longe do mar.
Vou ter muitas saudades do mar.