terça-feira, 26 de janeiro de 2010

We are beautiful, no matter what they say...

A sério que não sei muito bem o que é "ser bonito". Não vou recorrer ao velho lugar-comum de quem o feio ama, bonito lhe parece, e que a beleza é relativa, e isto e aquilo, embora me pareçam absolutamente verdadeiros. Porém, a beleza, pura e simplesmente, parece-me impossível de determinar. Por exemplo:


Este indivíduo, o Jonathan Rhys-Meyers, que entrou no Velvet Goldmine e no Match Point, será bonito? Não tenho muito a certeza. É perfeitinho, não lhe falta nada, mas há aqui qualquer coisa, uma falta de carisma intrínseco, que o torna feio. Porquê? Não consigo explicar, mas por acaso até acho que deviam fazer deste rapaz um case study, porque, sendo objectivamente bonito, na verdade não é. Que estranho.
E tenho verificado isto com muitas pessoas da chamada "vida real". Pessoas objectivamente bem-parecidas, agradáveis ao olhar, para quem olhamos como quem olha para um quadro a óleo muito bem pintadinho: simetria, equilíbrio, geometria perfeita, harmonia irresistível nas expressões faciais, nos movimentos. Mas depois há ali qualquer coisa que não bate certo, que falha. A beleza perfeita faz-se normalmente acompanhar por uma limpeza asséptica que parece destruir qualquer defeito, e isso não tem piada nenhuma. Acho que o equivalente a pessoas perfeitinhas como este Jonathan é isto:


Este quadro parece bonito, mas na verdade é feio. Tudo aqui bate certo, a luz, os verdinhos, a casinha, todos os inhos são um mimo. Mas, estranhamente, este quadro é, na verdade, feio. Há um qualquer desvio aqui, uma coisa completamente desprovida de carácter, de originalidade, que o torna profundamente feio, embora, objectivamente, o quadro seja bonito. Eu acho que esta característica desprovida de carácter e de originalidade deve-se ao facto de o quadro ser, na verdade, uma grande piroseira. De modo que, e voltando ao que escrevi num post anterior, aquilo que é verdadeiramente bonito está na imperfeição. A perfeição é, na sua maior parte, pirosa.
E isto tanto vale para a pintura como para as pessoas, acho eu.

Apuro-me em lançar, originais e exactos, os meus alexandrinos...


Contaram-me uma vez que Almeida Garrett, esse grande vate do Romantismo que, aliás, introduziu o próprio Romantismo em Portugal, que advogava os arrebatamentos da alma e a inspiração do poeta, deixou caderninhos de rascunho de esquemas e esquemas de rimas (ababcc, aabbcc, etc.), métricas e formas, que depois preenchia com palavras diferentes. Isto é, primeiro decidia-se pela forma, pelo esquema rimático, e só depois é que aparecia a tal inspiração, os tais tormentos de amores, o ignoto deo e tal.
E isto vindo de um poeta romântico. É claro que o poeta como a flauta de Deus, que Shelley descrevia, não poderá nunca ser verdade. Os poetas parecem-me, acima de tudo, humanos, pelo menos os bons poetas. Não estou a falar, obviamente, de poetas de cantina, como aquele rapaz que, uma vez, se sentou ao pé de mim na cantina do liceu e me perguntou se eu gostava de poesia e se conhecia Fernando Pessoa. Eu disse que sim. Ele aproveitou para dizer que, caso eu não soubesse, ele próprio escrevia poemas e as pessoas a quem ele mostrava os poemas diziam que eram muito parecidos com os do Fernando Pessoa. "Às vezes, as pessoas até me dizem que não sabem distinguir!", dizia o rapaz. Pobre Pessoa.
Este rapaz da cantina não era, obviamente, um poeta. Talvez fosse, porém, tocado por Deus. Parecia ter loucura suficiente para isso.
Mas voltando a Garrett. Imagino-o à secretária, de língua de fora, num esforço burguês para acertar com a rima e a métrica, e depois ler o poema finalizado, com um sorriso satisfeito, tal como um alfaiate olha para os ombros perfeitos do casaco que acabou de coser. A diferença é que, no caso de Garrett, o resultado era um poema. Um poema verdadeiro é sempre uma coisa inexplicavelmente estrondosa que, porém, resulta de um conjunto de tarefas, pelos vistos, tão pouco inspiradoras, tão pouco devedoras das musas, com tão pouca glória... talvez resida aqui o mistério da Literatura. É trabalho, como qualquer outro trabalho, mas com resultados gloriosos.
É por isso que sei que não sou escritora (quer dizer, não só por isso, mas principalmente por isso), embora tente permanentemente escrever. Tudo aquilo que escrevo está rigorosamente dependente da inspiração. Quando não tenho inspiração, que é na maior parte dos dias, não consigo escrever. Não sei o que é trabalhar para escrever um conto ou um romance, porque não sei escrever sem essa coisa desconhecida que é "a inspiração". E, até aprender como é que se faz da escrita trabalho, nunca poderei, verdadeiramente, ser "escritora". E eu queria tanto.
Estou bem lixada.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Prova em contrário

O efeito que uma noite em branco tem no ser humano é interessantíssimo. Ontem à noite não dormi um minuto sequer, vítima de uma insónia implacável. Vou passar de imediato à acção e entrar pelo caminho da droga, que me levará, espero eu, com a ajuda de um ou dois comprimiditos, a longas noites de sono descansado, já que a minha natureza o impede.
Mas enfim. Tive, assim, muito tempo para pensar na vida. E chego à conclusão que as pessoas me dizem muito, "olha, Rita, tu devias dar-te mais com as pessoas, não devias pensar tanto mal das pessoas, não devias ser assim tão rabugenta e feia". Um argumento que as pessoas gostam de adicionar a esta elocução tão eloquente (cacofónico) é "olha que maior parte das pessoas é boa pessoa!".
Não duvidando que maior parte das pessoas não será, por falta de oportunidade ou de vontade, um psicopata assassino desvairado, duvido, porém, que a maior parte das pessoas seja efectivamente boa pessoa. Eu, normalmente, e porque sei que eu própria sou má pessoa, parto sempre do princípio que toda a gente também é, até prova em contrário. Infelizmente, raramente me engano e a prova em contrário só chega de longe a longe, se é que chega de todo - as pessoas revelam-se quase todas vaidosas, egocêntricas, falam e não ouvem, olham para o próprio umbigo, lêem pouco, pensam que são o máximo e o poço de toda a sensatez quando não passam de uma poça de ignorância, arrogantes, etc., etc. - podia continuar, mas é demasiadamente deprimente.
No entanto, também é verdade que as pessoas não são de boa índole, mas também não são verdadeiramente "más". Não têm propriamente coração de víbora, digamos assim, apenas coração normal, de ser humano normal, isto é - não são Jesus Cristo, mas também não são o Hitler.
De modo que a pergunta que eu levanto é, o que é, verdadeiramente, uma boa pessoa? É alguém com espírito de missionário, totalmente dedicado aos outros, esquecendo-se de si próprio e, quiçá, da própria família e dos filhos, como o caso de uma senhora que uma vez li no jornal que, insistindo numa gravidez de altíssimo risco que provavelmente a conduziria à morte, escolheu ter o bebé, acabando mesmo por morrer e deixando para trás marido e três filhos ainda pequenos? É alguém que toma conta da sua família, educa os seus filhos, paga impostos mas não levanta nem mais uma palha? São os outros que dão imenso à comunidade em prol do benefício fiscal? São aqueles que, como diz o Marquês de Sade na sua Filosofia de Alcova, praticam o bem apenas para depois se poderem vangloriar disso? O que é, então, uma boa pessoa?
Não deixo de me comover, de alguma forma, com a ingenuidade de algumas más pessoas, convencidas que são muito boas pessoas. Tão cabecinhas no ar e tão cheias da sua própria importância iludida. Também não trazem grande mal ao mundo. E chego, portanto, à conclusão que as pessoas normais são más pessoas por exclusão de partes, e só chegam a boas se forem o Ghandi ou isso. Porém, são as más pessoas que se esforçam verdadeiramente por serem boas pessoas, em toda a sua vulgar normalidade e tragédia, que têm piada. E são essas que, de vez em quando, conseguem a tal prova em contrário. Eu espero um dia também conseguir.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

É verdade que o que se passou, e ainda passa, no Haiti ultrapassa os limites da nossa compreensão.
Mas também não sei o que dizer da constante cobertura mediática que se tem feito, a todas as horas, a fazer render um peixe de misérias, sofrimento, orfandade, desastre. Pergunto-me o que consegue sentir uma pessoa que perdeu tudo para além do razoável, que está no limite de todos os limites, prostrada numa cama de campanha, com uma câmara apontada à cara. Pergunto-me o que pode o resto do mundo sentir.
O resto do mundo pode e deve chocar-se, pode regressar a alguma humanidade primordial, ajudar a AMI; outros, mais audazes, mais nobres, poderão talvez voluntariar-se.
No entanto, há uma fronteira que se traça, invisivelmente, para lá da qual já não vamos fazer nada, a tal humanidade primordial embrutece e passa a amortecer o choque. E a comunicação social, ao que me parece, já a traçou.

Faz-me impressão o trabalho

Eu sei que estou a bater no molhado, e no ceguinho, talvez provavelmente nos dois, ou talvez esteja a chover no ceguinho e a bater no molhado, já não sei, enfim, sei que me repito bastante e que já escrevi sobre isto antes, mas a verdade é que sinto não ter ainda escrito suficientemente sobre as pessoas com aquele hábito irritante de acharem que elas é que trabalham muito, sempre infinitamente mais do que os outros.
A verdade é que estas pessoas não trabalham nada e produzem fel e bílis, quase ódio, contra quem sabe aproveitar o tempo livre por ter uma coisa chamada "vida pessoal". É este conceito de "vida pessoal" que falta a certos indivíduos. E estes mesmos indivíduos gostam de lançar olhares recriminadores a outros que, quando o Verão se aproxima, dizem que o que vão fazer a seguir ao trabalho é ir em busca de umas havaianas giras; os mesmos indivíduos que nos interrompem com longas descrições das obras na casa e dos esgotos entupidos, logo a seguir a perguntar, apenas por delicadeza que não engana ninguém, o que fizemos nas férias, e percebendo rapidamente que o que fizemos foi, felizmente, muito e bom. Quanto mais estes indíviduos falam, mais nós nos vamos apercebendo de que a vida deles não é nada recheada de actividades profissionais importantíssimas, compromissos inadiáveis, responsabilidades imensas que os impedem de gozar a vida. É precisamente o contrário. São facilmente substituíveis no emprego, como aliás quase toda a gente é; serão, talvez, facilmente substituíveis em família, e até facilmente substituíveis para eles próprios, porque não sabem o que hão-de fazer com todo o tempo livre que têm, todo o infindável tempo em que ninguém precisa deles para nada, muito menos eles próprios. São, todos eles, as mãos de um ex-fumador, para ali caídas, sem qualquer precisão ou necessidade. Coitados.
E criam, assim, um mundo fictício onde mal têm tempo para respirar, onde estão sempre ocupados, e todos os outros são irremediavelmente preguiçosos.
É por isso que eu raramente acredito quando as pessoas me dizem que estão muito ocupadas, que estão a passar por uma fase terrível, com uma carga de trabalho aceleradíssima e que não têm tempo para nada. Penso sempre que é exactamente o contrário - não têm nada para fazer, percebem a dimensão da sua inutilidade, assustam-se com isso e começam a inventar, a arranjar desculpas para si próprios, justificações para a sua existência.
É uma tristeza. Eu, por mim, gosto de dias inúteis, gosto de não ter nada para fazer, e gosto de não fazer nada. Somos todos inúteis, e mesmo assim há quem goste de nós, sabe-se lá porquê. A beleza da vida é isto mesmo, a sua deliciosa inutilidade.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Há sempre qualquer coisa que está para acontecer, qualquer coisa que eu devia perceber

Tenho inveja.
Tenho uma inveja desgraçada de quem está na vida sempre descontraído, como se tudo corresse sempre bem.
Tenho inveja porque eu, infelizmente, passo a vida preocupada. Um aperto constante no estômago, uma inquietação permanente, constantes empurrões. Nunca consigo descansar, dormir verdadeiramente. O sono dos justo é algo que eu não conheço, talvez porque já tenha perdido essa oportunidade, talvez porque, como o meu pai diz, eu sou daquelas pessoas que acha que, se as coisas são complicadas, porque é que eu hei-de estar a torná-las simples.
Todos os dias, há uma mão invisível que me empurra numa direcção desconhecida e que me provoca uma ansiedade intrínsica. O que é que vou comer ao jantar. Onde é que vou estar daqui a dez anos. O que devo mudar na minha vida. O que não devo mudar. Enfim.
Infelizmente, esta tal mão invisível parecer completamente desordenada. Não me indica nenhum caminho de jeito, não me dá qualquer orientação. Empurra, desajeitadamente, apenas. Que maçada.
Queria tanto poder descontrair, era só o que eu queria, conseguir descontrair e, já agora, como diz a Kika no final do filme do Almodovar com o mesmo nome, "um bocadinho de orientação". Também não fazia mal nenhum.

Um-do-li-tá...




Que escolha difícil, difícil, difícil...que desgraça, se todas as decisões na vida fossem assim.
Belíssima série, este True Blood.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Para sempre responsável por aquele que cativaste


Tenho alguma dificuldade em perceber o que é a amizade. Consigo senti-la, porque, felizmente, não sou psicopata nem sociopata, acho eu, mas compreender a amizade é algo que efectivamente me escapa.
Uma querida pessoa, daquelas poucas que me são muito próximas, dizia-me noutro dia que não devemos esperar muito dos amigos, ou, pelo menos, não devemos cometer aquele erro comum de esperar tudo dos amigos. Normalmente, queremos que os amigos nos telefonem, nos levem a passear e a tomar café, ouçam os nossos problemas, partilhem da nossa comiseração, rejubilem com o nosso gáudio, riam connosco, chorem connosco, leiam os livros que nós queremos que eles leiam, que nos dêem a nós livros interessantes para ler, que venham connosco ao cinema, que nos reconfortem nas neuras e nos desgostos, que nos tenham em altíssima conta, que venham às compras connosco e aprovem todos os sapatos e camisolas de que gostamos, que nos admirem e que sejam eles próprios admiráveis. Não será muito a exigir de alguém? Com certeza que sim. Dizia-me, então, essa tal querida pessoa que devemos distribuir todos estes encargos por amigos diferentes, de índole diferente. Há amigos que são bons para telefonar, outros para conversar sobre desgostos, outros para conversar sobre alegrias, outros bons para ouvir, outros bons para ficarmos calados, outros bons para viajar, outros para ir jantar fora, outros para ir ao cinema, etc. É muito raro termos daqueles amigos que dão para tudo.
À partida, eu concordaria com esta teoria interessante da economia da amizade e de aplicar o investimento nos sítios certos. Mas a verdade é que esta teoria não funciona. Por estranho (e lamecha) que pareça, um amigo é esta espécie de super-homem ou super-mulher que está na nossa vida para as coisas mais normais e mais bizarras que nos possam acontecer, desde comer um hamburger até a encontros imediatos de terceiro grau. Por isso é que me custa a acreditar, ou a aceitar, neste conceito de amigos não para as ocasiões, mas apenas para certas ocasiões.
No entanto, esta polivalência da amizade, esta versatilidade inesgotável, a quantidade de papéis diferentes que os amigos acumulam, é algo que, para mim, permanece um mistério bem cerrado. Como pode alguém fazer tanta coisa ao mesmo tempo? Já para não falar na semelhança entre a amizade e as relações amorosas - há poucos dias, falava com uma amiga sobre o possibilidade, ou não, de dois amigos poderem "acabar" um com o outro, como se fossem namorados. Nunca se diz "A não-sei-quantas era minha amiga, mas depois acabámos e já não nos falamos", por exemplo. No entanto, a amizade tem rupturas, discussões, ciúmes, tal e qual como aqueles que temos com os nossos namorados.
A vida, e a amizade, são lugares estranhos.

domingo, 17 de janeiro de 2010

Whatever happened to Kevin Smith

Há casos em que a abundância de dinheiro só prejudica, e a falta dele obriga a esforços criativos que obtêm resultados muito interessantes.
Estou a lembrar-me dos Gato Fedorento na SicRadical, quando apenas tinham dinheiro para o bigode postiço.
Estou fundamentalmente a lembrar-me do realizador Kevin Smith, cujo filme mais mainstream foi provavelmente o Dogma, que é uma grande seca; no entanto, Kevin Smith realizou belíssimas comédias nos seus tempos de independente da Nova Jérsia, tudo de baixo orçamento, mas competentíssimas. A acção passava-se sempre num mundo familiar, de amigos que conheciam outros amigos e que tinham andado todos na mesma escola, uma vidinha pequenina de subúrbio onde as coisas bonitas que os filmes têm a mania de engrandecer, como o amor ou as pequenas desilusões, eram todas vistas de uma forma normal, de rotina. Em suma, apesar de fazer filmes em New Jersey, o universo destes filmes de baixo orçamento eram muito familiares ao comum dos mortais, apesar das personagens e das situações loucas que conviviam com a tal normalidade de subúrbio.
Mallrats, por exemplo, passa-se todo dentro de um centro comercial, assim se demonstrando como Saramago tinha razão ao escrever a sua "Caverna" - de facto, quando se está no centro comercial, o mundo lá fora esbate-se até se apagar por completo. Clerks contava as peripécias de uma estação de serviço e dos indivíduos que lá trabalhavam; Chasing Amy, ao contrário de Mallrats muito elogiado pela crítica, é um filminho adorável em que um muito jovem Ben Affleck se apaixona por uma rapariga lésbica, tendo os dois de gerir a situação com todas as suas alegrias e complicações. Muito menos limpinho que When Harry Met Sally, e quase tão giro.
Porém, agora que os estúdios se renderam ao talento independente, habituado a gerir pouco dinheiro, de Kevin Smith, este último realizou o Dogma e, entre outras coisas, uma coisa também com Ben Affleck, chamada Jersey Girl e que, a julgar pelo trailer, chuif, chuif. Também fez a sequela do Clerks, e por acaso o trailer até está engraçado, mas, sinceramente, tenho medo de ver. Tenho um grande receio que me desiluda tanto que estrague o efeito dos filmes mais antigos (se alguém já viu e quiser deixar uma opinião, mil obrigados).
Da mesma forma que não compra a felicidade, o dinheiro também não compra, nem aumenta, talento, é o que tenho a dizer.



(O que me faz sempre rir neste trailer é a parte final, em que o Jay imita aquela cena do Silêncio dos Inocentes. Sei que não tem especial piada, mas o que posso fazer, se me rio sempre...)

Nota mental: escrever sobre qualquer coisa, escrever sobre qualquer coisa...

Não adianta.
Já comecei dois posts - um era sobre os meus vizinhos, que são um bocado chatos porque têm um cão Milu um bocadinho patético, que ladra de uma forma esganiçada, discutem sempre muito ao fim-de-semana por estarem fechados em casa, e além disso cozinham epicamente, empestando o hall e o elevador de cheiro intenso a carne assada, cebola, peixe frito. Um cheiro indelével. A minha teoria é que, cheios de boas intenções a preparar comida caseira, os vizinhos são incapazes de aguentar tanta trabalheira e perdem a cabeça uns com os outros, de certeza que os filhos adolescentes não ajudam o suficiente, não fazem a cama, não vêm para a mesa, a comida a arrefecer, não levantam a mesa, a cozinha o Domingo todo por limpar, que preguiçosos, caem finalmente o Carmo e a Trindade, que tão precariamente se aguentaram a semana toda, e é o dilúvio de gritos e portas a bater comum a todos os fins-de-semana. A minha sugestão é que os vizinhos fossem comprar um frango assado, que não é caro e resolvia o problema. E sempre saíam um pouco e queimavam a adrenalina que depois dispendem a gritar.
Este post não resultou.
O outro post era sobre as pessoas que precisam tanto de receber elogios que arranjam estratagemas, muito mal disfarçados, para os solicitar, o que é constrangedor, tanto para quem é solicitado como para quem solicita. Por exemplo, no outro dia diziam-me o seguinte "se fosse outra pessoa fazia isto mais depressa, mas eu sou assim, gosto de fazer tudo bem, sou perfeccionista demais, não é, eu sei que é um defeito!, eu sei que é um defeito, mas eu sou assim, sou lenta, se calhar outra pessoa fazia mais depressa, eu sou perfeccionista...", e assim sucessivamente. Um cansaço. Sempre à espera que eu dissesse "não, não, como tu estás a fazer é que está bem! Assim é que é! Outra pessoa fazia à pressa e fazia mal, não, não, tu é que és a melhor". Mas não disse. Por acaso, costumo sempre aceder e dar o tal elogio que as pessoas estão à espera, não me custa, tanto me faz, não acredito em elogios, nunca penso nos elogios que dou, e se as pessoas são felizes assim, tanto melhor. Mas desta vez não dei e foi muito engraçado, porque a conversa morreu ali e eu não tive de mentir.
Este post também não resultou.
Nãotenho conseguido escrever.

sábado, 16 de janeiro de 2010

O grave e terrível drama de deixar crescer o cabelo (aviso: é literalmente sobre isto que se vai falar)

Quem já passou por isso sabe perfeitamente do que estou a falar.
O que se passa é que, tendo decidido há algum tempo cortar o cabelo, desfrutei de mais ou menos um ano de delícias, cabelo curto à Jean Seberg, à Astrid Kirchherr, à Winona Ryder, enfim, diverti-me imenso, apesar de (mais uma vez, quem já passou por isto sabe perfeitamente do que estou a falar) dizer que o cabelo curto é low-maitenance é apenas para quem nunca o usou curto, porque este tipo de corte exige permanentes idas ao cabeleireiro acertar as pontinhas rebeldes que crescem logo em duas semanas. Enfim.
Acontece que, já um bocadinho farta das Jeans Sebergs e das Astrids, que inventaram o corte de cabelo dos Beatles mas pronto, agora estou mais numa de Amelies e Louise Brooks, e portanto decidi deixar crescer o cabelo. Quem já passou por isto sabe perfeitamente do que estou a falar, e sabe que é nada mais nada menos do que: pe-sa-de-lo.
Primeiro, acordar todas as manhãs com as pontas meio crescidas espetadas para todo o lado, em pequenas ondas impossíveis de esticar. Tempo imenso perdido a lavar a cabeça e a esticar cabelos por todo o lado, com o secador no máximo, até estar tudo direitinho. Passo a vida a lavar a cabeça.
Segundo, sair de casa e o parco penteado, que foi o que se conseguiu arranjar, desfaz-se imediatamente, tornando-se o cabelo numa massa desordenada, onde pequenos fios caem para a testa, e outros se levantam indecentemente por trás da orelha. Um desalinho.
Terceiro, olhar para o espelho, pentear com os dedos, pentear com a escova, voltar a pentear, e tudo o que se consegue é, novamente, uma massa desalinhada por onde pequenas pontas, sem ordem nem forma, persistem em despontar. Tipo Lisa Simpson, mas ainda pior.
Quarto, olhar para o espelho e desesperar de tal forma que se quer, e muito, ir à máquina zero.
Eu tenho a convicção de que, quando o cabelo está bem, o dia corre bem. Quando o cabelo está mal, o dia corre mal. Ultimamente, como só tenho maus dias de cabelo, está-me a correr tudo mal, ando sem tino, a tentar fazer coisas e sem conseguir acabar nada. Tudo desorganizado, e a culpa é toda do cabelo, que me faz desatinar.
O pior de tudo ainda é ouvir os comentários caridosos das pessoas - "ah, estás a deixar crescer o cabelo... olha, eu gostava muito quando o usavas curto!", do estilo: "corta mas é essa trunfa, que isso não se pode ver". Pois.
Mas não vou cortar a trunfa, não senhor. Vou persistir, ao menos uma vez na vida, e voltar à Louise Brooks. Em vez disto:


(em si, uma lindíssima foto)

... o meu objectivo é este:


(ainda por cima, e como já aqui afirmei, e como todos os meus amigos podem confirmar, eu sou tal e qual como a Louise, sou igual, igual, igual, e portanto vou ficar exactamente assim).

O que acontece quando se desiste, definitivamente, de ser brilhante


Há alguns dias, eu e a minha amiga Alexandra estávamos a discutir a sorte que ambas temos em ser pessimistas, porque, paradoxalmente, ou talvez não, há muito mais humor no pessimismo do que no optimismo. Não me consigo lembrar de nenhum humorista ou escritor com piada que seja optimista, talvez porque o optimismo não nos deixa esperar grande coisa da vida. Se vai tudo correr bem, independentemente de, está tudo tranquilo. Ora, eu penso que é precisamente no "independentemente de" que reside o grande interesse da vida e do pessimismo. A Alexandra concorda comigo (acho eu).
Bom. Isto para dizer que o meu pessimista preferido de sempre é Woody Allen. Por mais filmes sofríveis que ele faça, eu continuo a gostar dele. Mas devo dizer que este último, "Whatever Works", deixa bastante a desejar. Como seria de esperar, há alguns monólogos interessantes do personagem principal, interpretado por Larry David, e que, à partida, poderiam salvar o filme.
Mas não salvam."Whatever Works" é uma dúzia de personagens a despachar falas, de tal modo que, por vezes, parecem estar a ler do teleponto. O pessimismo negro de Larry David (cuja combinação com Woody Allen, à partida, me pareceu brilhante) não convence ninguém, pior do que isso, nem sequer chega a ter piada - e isto é o pior que Woody Allen poderia ter feito. Chegar ao ponto de fazer filmes que, ainda que repetições medíocres e ad nauseam de filmes anteriores, não têm, pura e simplesmente, piada. Nem Larry David, normalmente tão cínico e cáustico, em teoria o perfeito alter ego de Woody Allen, tem graça.
Há, porém, algo que Larry David diz no filme e que é interessante: "on paper, we're perfect. But life isn't on paper". Tal e qual como este "Whatever Works" - em teoria, uma excelente ideia. Mas a vida não é em teoria. O que não deixa de ser uma pena.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Ave Caesar, moriture te salutant

Ser um mau artista (mau actor, mau escritor, mau pintor) deve ser terrível. O confronto com a própria mediocridade deve ser um espelho crudelíssimo. Nem sei como isso se aguenta.
A arte é uma coisa muito cruel. A literatura, por exemplo, é uma Minerva de espada à cinta que mata, com o tempo, toda a mediocridadezinha que se atreve a tentar medrar. Acho que era isto que o Harold Bloom queria dizer quando falava da angústia da influência. A obra literária nova sabe que a única alternativa a não entrar no cânone é a morte. Não há, de todo, um meio termo.
No fundo, a nova obra literária é um gladiador que tem de provar o seu mérito lutando com outros gladiadores mais experientes, e que são todo o cânone literário já existente. Quando nasce, a jovem obra literária apenas pode dizer "ave Caesar, moriture te salutant". O César, neste caso, somos nós, os leitores. Se a obra literária for boa, pomos o polegar para cima e o jovem, mas esplêndido, gladiador viverá para sempre. Se for uma porcaria, polegar para baixo, e a pequena obra literária, ainda que sobreviva alguns anos graças ao chamado "hype" que às vezes consegue enganar os leitores, acaba por morrer rápida e indignamente. É que, ainda porcima, é de facto uma morte indigna, porque literatura medíocre serve apenas para, de vez em quando, a ressuscitarmos depois de morta para gozar com ela, como se faz com os romances de cordel do século XIX, daqueles que o Camilo escreveu para ganhar dinheiro. Uma tristeza.
A arte é mesmo um campo de batalha, uma coisa selvagem, uma razia. É de facto, a única coisa na vida de que me consigo lembrar que é alheia ao conceito do Bem. Por exemplo, um livro pode ter as melhores intenções, e contribuir até para melhorar a vida das pessoas, mas isso não quer dizer que seja boa literatura, ou literatura, sequer. O Bem, ou pelo menos o bem comum (pode sempre argumentar-se que a Arte é necessariamente Bem, como o Platão dizia - era o Platão?), pode estar completamente ausente da Arte. E a Arte não deixa de ser menos arte por causa disso.
Que coisa tenebrosa.

Gaja que devia fazer o meu estilo mas não faz: Audrey Hepburn


Eh pá, pronto, tudo bem, matem-me, esfolem-me, mas eu não consigo gostar da Audrey Hepburn, mais, não a consigo suportar.
É bonita? É. Linda, até.
É doce e encantadora? É.
Tinha estilo e vestia-se bem? Sem dúvida, melhor do que a princesa Di (que teve um "di-sastre", coitadinha - mil desculpas, a piada de mau gosto foi mais forte do que a minha má pessoa).
É boa actriz? Pois, para mim não é. Acho, até, espantoso como não se fala mais na pouca versatilidade da Audrey como actriz.
O meu problema é que eu vi três filmes com a Audrey Hepburn - My Fair Lady; Sabrina; Breakfast at Tiffany's. Achei-a um desastre em todos. Só na Sabrina é que se safava, mas isso era porque o que o papel exigia somente sorrir e ser encantadora, e isso a Audrey era-o, de facto.
No My Fair Lady, achei-a um erro total de casting (foi, aliás, uma das críticas que se fizeram ao filme na altura, e eu concordo inteiramente). Não convence ninguém com o mau sotaque cockney. É, pura e simplesmente, refinada de mais e não consegue enfiar-se numa personagem de rapariga de rua, quase rufia.
Em Breakfast, pior ainda. A Holly é quase uma mulher perdida, uma aventureira sem rumo, e a Audrey Hepburn, com o bandolim ou o que era, a tocar a lamechiche do Moon River, tem ar de menina de colégio interno a quem as freiras deram meia-hora para ir à janela suspirar, antes de marchar para a cama às 8 da noite. Qual festas malucas, qual dinheiro de tipos da Máfia, qual quê.
Enfim. Como ícone, a Audrey é soberba. Tem um arzinho muito simpático, uma carinha linda de morrer. Na tela, infelizmente, não faz nada o mais estilo. Até me enjoa um bocadinho. Prefiro a outra Hepburn, a Katherine. Para desenjoar.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Morto e enterrado

Há um livro de que gosto muito, The Go-Between, e que começa com uma frase icónica e já muito citada, mas absolutamente verdadeira e sábia:

The past is a foreign country. They do things differently there.

Esta frase parece-me sempre ainda mais verdadeira, sábia e icónica em dias como os de hoje, frios, relativamente tristes, e que incluem emails deste tal passado. O mesmo passado que se diz estar morto e enterrado, e aqui está uma outra frase muitíssimo verdadeira, também - o passado, de facto, morreu e foi enterrado. E nada torna este lugar-comum mais verdadeiro do que o reencontro com pessoas do passado. É penoso perceber que o minúsculo, mas importante, mundo que, um dia, uniu algumas pessoas - amigos, amantes, o que seja - ruiu, acabou, afundou-se e não vai voltar a erguer-se. Pura e simplesmente, desintegrou-se na memória. É ainda mais penoso assistir ao espectáculo encenado pelas pessoas que não percebem isso e querem à força avivar memórias indiferentes, frias, puxar uma brasa que já não existe, que nunca vai voltar a aquecer, que morreu para sempre.
E é também doloroso perceber que esta tristeza que nos preenche ao assistir ao tal espectáculo, à brasa que morreu, às pessoas que ainda se afadigam, pateticamente, de volta de um monte de cinzas mortas, rapidamente dá lugar à indiferença.
Cada vez me convenço mais, a la Woody Allen, e como já escrevi antes, que as memórias são algo que se perde e não algo que se tem.
E, como também já uma vez escrevi, reitero um verso de Leonard Cohen que calha mesmo bem aqui, para terminar tanta melancolia barata - that's all, I don't think of you that often.

domingo, 10 de janeiro de 2010

O meu desejo tardio para o ano novo de 2010 é:

não ter nenhum desejo.

É apenas isto que minha apagada e vil, não tristeza, mas vã glória de mandar, pode alcançar.

Talvez tenha lido Ricardo Reis a mais, ou o ano da sua morte.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Solidao

Le-se n'O Ano da Morte de Ricardo Reis a seguinte clarividencia:

"a solidao nao "e" viver so, a solidao "e" nao sermos capazes de fazer companhia a alguem ou a alguma coisa que esta dentro de nos"

(favor colocar os acentos devidos que eu mais nao posso, obrigada)

Esta observacao esta muitissimo bem vista (nao fosse ela uma observacao), como alias todo o livro esta muito bem visto ("e" uma obra-prima, verdadeiramente). A solidao, curiosamente, nao "e" o estarmos fisicamente sozinhos, vivermos sozinhos, viver a nossa vida sozinhos. A solidao "e", de facto, o nao sermos capazes de fazer companhia a nos proprios, de nao sabermos o que fazer de nos.
Quando nao somos capazes de nos entreter sozinhos, e a nossa propria companhia se torna um enfado, ai sim, estamos embrenhados numa solidao custosa (o tipo de solidao que leva as pessoas a psiquiatras e, de forma ainda mais grave, a psicologos tipo Eduardo de Sa, que medo).
O estarmos meramente solitarios nao e, de todo, solidao. "E" vivermos com a nossa companhia, que "e" uma boa companhia. Gosto, apoio e dou aval.

(que desespero, a falta de acentos, mil desculpas, nao consigo escrever assim)

Nota final: como a chamada "alma portuguesa", se "e" que ela existe, soube transformar a solidao num elevado sentimento estetico, deixo a bela cancao da grande Amalia, precisamente denominada "Solidao", desta feita com os arrebites jazzisticos dum tipo conhecido que agora o nome nao ocorre, e que sao mesmo de uma pinta insuperavel.

Em 1965

...David Bailey tirou esta fotografia, que vi hoje, aqui. Nao sei porque, mas "e" a foto que mais gosto do John e do Paul (trato-os pelo primeiro nome, tenho muito a-vontade com eles).


Lin-dos.
Que bela fotografia.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Delicadezas portuguesas

Vale muito a pena ler o texto de MEC, "A aventura dos empregados", neste blog. Gosto muito deste blog, tambem (mas nao so) porque gosto muito de tomar cafe em cafes, e nao em casa (nada contra o sofisticado e belo Nespresso, que aprecio, mas um cafe tomado num cafe tem um je ne sais quoi imprescindivel).
A seguir com atencao (o blog e os cafes), e o que recomendo.

Relatividades

Volto a nao ter acentos no teclado. O que me faz sentir estrangeira em terra estrangeira e (este "e" leva acento) verdadeiramente o teclado, que nao me permite escrever a minha lingua com alguma dignidade.
Falar noutra lingua (leia-se, em ingles) e-me um tanto ou quanto indiferente. Estou habituada ao ingles, que se foi tornando, ao longo da vida, talvez mais intimo do que o portugues. Mas a escrita e (volta a levar acento) algo de muito diferente. Escrever em portugues faz muito mais sentido do que em ingles (a unica lingua estrangeira que me "e" quase tao proxima como o portugues). Escrever em ingles nao faz sentido nenhum, "e" uma escrita fria, quase cientifica. Tem muito pouco coracao.
Isto para dizer que o mundo dos transportes publicos "e" algo de fascinante. Se em Portugal escuto uma senhora ao telemovel a falar do filho que nao pode casar com a malandra da namorada, em Londres mal consigo discernir tres adolescentes oxigenadas e de unhaca comprida e pintalgada, a falar atabalhoadamente e muitissimo depressa, uma delas relativamente agastada porque uma colega da escola, aparentemente uma dickhead, a tinha tentado esfaquear na perna. Porem, e felizmente, o esforco fora em vao, ja que a adolescente, que agora se sentava com relativo conforto no autocarro, se tinha virado para ela e perguntado "what the fuck are you doing". Ao que parece, suficiente para que a outra desistisse da punhalada.
Jardim "a" beira mar plantado e tal.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Problemática do pijama e seus derivados

Tenho um problema com uma peça de roupa em particular, e que é "o" pijama. Nunca acerto com pijamas. Só os encontro grandes demais, ou pequenos demais, bonitos demais, ou feios demais, caros demais, ou baratos demais. Nunca encontro pijamas com conta, peso e medida. São sempre desmesurados. É um tormento. Passo noites em grande desconforto, ainda por cima agora, que está frio, o saco de água quente esfria, e lá fico eu apertada na camisolinha fina demais, ou a nadar no camisolão, tão distante da minha pele que não aquece.
No fundo, não era nada disto que eu queria falar. Queria apenas uma oportunidade para me referir a peças de roupa como no catálogo da La Redoute - "o" pijama, "a" bota, "a" camisola, "o" camisolão" e (esta é a minha preferida), "a calça".
Se há hábito linguístico que não me agrada é este último - dizer "a calça" ao invés de "as calças". Umas calças têm duas pernas. Eu acho que se deve dizer "as calças".
Para rematar e para concluir "o" post perfeitamente inútil, apenas relevar que eu, ao contrário de todas as outras pessoas que disso se queixam, gosto bastante de receber o pijama como prenda de Natal. Também não me importo se me oferecerem a quente pantufa. E já agora o fofo roupão. É isto.

Post clubístico


Sempre achei que Soren Kierkegaard era um homem com muitas coisas interessantes e acertadas sobre a vida, nomeadamente no que respeita à multidão e às massas. Segundo Kierkegaard, a verdade não está na multidão, mas sim no indivíduo - a multidão mente.
Humildemente, concordo com Kierkegaard. Concordo, mas com limites. Há alturas em que a multidão não mente, e tenho um exemplo muito claro - o jogo de ontem, Benfica vs Porto, no Estádio da Luz. Foi todo um ritual que muito aprecio - cachecol vermelho ao pescoço, estádio, "SLB, SLB, SLB" em uníssono, golo aos vinte e tal minutos, euforia, bife à Portugália no fim.
Quando estas actividades ritualísticas e em massa terminaram, e quando finalmente me vi livre da multidão, senti-me muito bem e muito reconfortada. Embora seja sempre fundamental regressar ao colo da nossa solidão, há momentos em que a multidão não mente. De vez em quando, lembra-se de dizer a verdade.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Rebelde ma non troppo, a bem da moral, ó faxavôr

No Reino Unido, há uma campanha, com grupo no facebook e tudo, que tenta que Killing in the Name, dos grande Rage Against the Machine, seja o número 1 de downloads do Natal, ao invés da cançãozita do palerma anódino qualquer que ganhou o X-Factor, convenientemente, nestas últimas semanas, em que anda tudo a gastar o salário em prendas.
Os Rage gravaram uma entrevista para a BBC, sessão onde também tocaram Killing in the Name, que já é dos anos 90. Acontece que esta música termina com um repetido "fuck you, I won't do what you tell me", rebeldia que a BBC considerou ser um bocadinho, digamos que , despropositada (segundo a tola da locutora, "nós tínhamos pedido à banda para não dizer isto!", pegando depois do seu chinelo de salto alto para lhes dar tau-tau). É assim, uns lutam pelo direito à ofensa, outros, como a estimada BBC, tentam poupar os nossos delicados ouvidos à dita ofensa.
De qualquer forma, os Rage Against the Machine já fizeram saber que ficam muito felizes por ter sido a sua música a escolhida para, de alguma forma, combater a piroseira comercialona e vazia que é a música "pop" dos dias de hoje, Mariahs Careys e quejandos (sinceramente, não me consigo lembrar de tipa com menos dignidade e valor para a música do que esta Mariah Carey. Consegue ser pior que a Celine Dion, outra cidadã de voz retinta cheia de fru-frus exagerados que até arrepiam de medo). Disse o guitarrista Tom Morello (que, a solo, tem um disquinho muito interessante, The Nightwatchman):

...the internet campaign "tapped into the silent majority of the people in the UK who are tired of being spoon-fed one schmaltzy ballad after another". (tirado daqui)

Não só no Reino Unido, diria eu. O que acontece é que, em Portugal, o top de singles e discos (mesmo o de downloads), que é o caso aqui, é indiferente a quase todos, ao passo que em Inglaterra ainda mantém a notoriedade, de modo que conseguir levar uma canção como Killing in the Name ao topo assume uma relevância que cá, provavelmente, não teria.
Apesar de os Rage Against serem também uma banda que precisa, e com certeza quer, promoção e dinheiro, nunca enriqueceram de forma absurda (tanto quanto sei), mantiveram sempre uma faceta clara de rebeldia e optaram por um percurso mais underground, menos exposto, do seu trabalho. Gostei de saber desta iniciativa de levar ao número 1 o Killing in the Name, com o seu veio quase violento, anti-Establishment, para derrotar nos tops a músiquinha anódina, produzida em série e empacotada, que normalmente se consome.
Espero que o Killing in the Name ganhe. Deixo aqui o vídeo de os Range censurados pela BBC. É apreciar.

Dizer não ao feio

Depois de uma semana um tanto ou quanto desconcertante e muito dificultosa, em primeiro lugar devido ao muito trabalho, em segundo lugar devido à situação desconcertante com o tremor de terra (que me fez acordar espavorida, a pensar que era o Exorcista a sacudir-me a cama ("the power of Christ compels you! the power of Christ compels you!"), mas não, afinal era só um sismo. Aliás, foi isso mesmo que eu pensei - "ah, não é nada o Exorcista, é só um terramoto. Volta a dormir, que está tudo bem". E adormeci mesmo), dizia, depois desta semana, chego à conclusão de que o Natal é já para a semana e que os Pais-Natal nas varandas são terrivelmente feios. Por acaso, concordo com aquela campanha do Menino Jesus, bem mais bonito e fofinho, como se quer no Natal.
Toda esta problemática esteticamente reprovável do boneco do Pai-Natal pendurado na varanda fez-me lembrar outras coisas igualmente reprováveis, como roupa pendurada na janela. Tenho um único vizinho que faz isto, quando todas as outras pessoas secam a roupa na varanda, ou em casa, ou sei lá onde elas secam, secam nalgum lado que eu não sou obrigada a ver. Este vizinho, que ainda por cima não vive nos andares mais altos, deixa as cuecas todas ao léu, os lençóis de flanela, as camisolas, tudo ali despudoradamente exposto, a secar sem quaisquer pruridos. É extremamente feio.
O que me conduz a uma questão que decorre directamente desta. Toda a gente tem o direito de se ofender por tudo e por nada e, hoje em dia, toda a gente se habituou ao seu direito de ser ouvida e considerada na sua ofensa, ainda que esta seja completamente indiferente e não interesse a ninguém (nem ao tal Menino Jesus, rival do Pai Natal). Portanto, eu estou aqui para me insurgir e para me ofender contra aquilo que eu acho ser feio, esteticamente inaceitável, ofensivo para os meus pobres olhos.
Boneco do Pai-Natal na janela.
Roupa pendurada na janela.
Bebés com as orelhas furadas.
Bebés com pulseiras.
Bebés com qualquer tipo de jóia ou fita no cabelo (cabeça, porque cabelo eles não têm muito, ainda por cima).
Vivendas geminadas.
Jardins de vivendas com fontes, ou estátuas de meninas, meninos, leões, enfim, todo o tipo de estátua.
Descampados.
Prédios sem varandas.
Martim Moniz (a zona de Lisboa, não o senhor, coitado).
A voz do Eduardo de Sá (peço desculpa a quem tem este senhor em consideração, mas para mim não dá).
Eucaliptos vistos da autoestrada.
Salas com azulejo até meio da parede, e depois parede de estuque até cima.
Quadros da Última Ceia.
Aquelas caixas esquisitas que servem para guardar o pão e que as pessoas às vezes têm na cozinha.

Eu podia continuar. Mas é Natal e prefiro tentar algum optimismo.
No entanto, levanto a questão de lançar um abaixo-assinado contra a estética ofensiva, já que os nossos olhos merecem algum refrigério e motivos para sorrir.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Imperfeições.

Gosto de imperfeições. Acho que as imperfeições são ainda mais bonitas do que a perfeição, porque exigem atenção ao pormenor, exigem conhecimento atento de qualquer coisa ou de alguém.
Capelas Imperfeitas.
Dentes tortos.
Sinais.
Narizes grandes.
A Vénus de Milo sem braços.
Um olhar ligeiramente estrábico.
Cabelos quase espigados.
Pessoas quase gordas (gordura é formosura).
Singularidades de raparigas (louras ou não).
Corvos, desajeitados e anafados em terra, mas daquele negro brilhante quando voam.
A mão demasiadamente grande do discípulo à esquerda de Jesus Cristo, na Ceia em Emaús, de Caravaggio.
As unhas sujas de Baco, no quadro de Caravaggio.
Caravaggio é o pintor da imperfeição, para mim (eu, que sou assim super especialista em pintura). Adoro este indivíduo.


A imperfeição é mesmo uma perfeição, não é? Eu acho que sim.

domingo, 13 de dezembro de 2009

Pessoa-cão

Costuma dizer-se que há pessoas-cão e pessoas-gato, dependendo do animal de estimação que preferem.
Não tendo nada contra gatos, que têm a sua piada, eu gosto principalmente de cães. Deixo aqui dois exemplos de cães, um francês e outro português, sem os quais não gostava nada de ficar, pois são muito bons cães.




Que queridos.

Olá, o meu nome é Rita e sou viciada


Ainda por cima com mais do que idade para ter juízo. O que, lamentavelmente e como se demonstra, não tenho.
Que vergonha.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Arrumações


Vou hoje começar uma tarefa épica, e que é re-organizar e re-arrumar a minha estante. O problema é que, neste momento, a estante é um mar de incongruências que me enervam, porque não gosto de ver livros em locais onde eles não fazem sentido. Por exemplo, tenho o Livro de Cesário Verde junto de umas edições muito foleiras do Guerra e Paz, daquelas da Europa-América com uma fotografia na capa de uma série de televisão dos anos 80 manhosa, e provavelmente com o texto traduzido do francês. É atroz, é um desrespeito para o Cesário e além disso dificulta-me a vida, porque, apesar de a minha estante não ser assim tão grande, não consigo encontrar os livros que quero com a eficiência necessária (noutro dia, por exemplo, até pensei que tinha perdido a Filosofia da Alcova do grande Marquês de Sade, e eu que gosto tanto do Divino Marquês, apenas para descobrir que não, afinal estava para lá metido entre as irmãs Brontë e o Shakespeare - embora, pensando nisso, talvez até faça algum sentido. Tenho ideia de que o Marquês de Sade apreciaria as malucas das irmãzinhas Brontë, se as tivesse conhecido).
De modo que decidi mudar esta grave situação, começar de novo e re-organizar a estante. Sinto-me um verdadeiro John Cusack no Alta Fidelidade (no caso dele, eram discos), e estou agora a ponderar os critérios que deverão presidir à re-organização dos livros. John Cusack optou pelo critério autobiográfico, que, em princípio, vai ser o critério que eu vou seguir também. Em vez de arrumar livros por género literário, vou socializar com os meus livros e arrumá-los pela ordem em que eles entraram na minha vida. Parece-me uma coisa muito acertada, não obstante ter perdido e emprestado livros importantíssimos. Mas isso também faz parte dos livros, perderem-se, emprestarem-se, andarem de mão em mão como as pombinhas da Catrina.
Acho que vou deixar espaços vazios na estante para os livros que perdi. Não tenho pena, porque sei que eles andam por aí.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Com uns pós modernos nada complicados sentimo-nos realizados

Devo dizer que, não sendo uma pessoa assim de se dar, e nunca podendo, portanto, proceder ao engate nos termos em que o brilhante Variações o descreve ("um momento em que me dou, em que te dás" - pois, isto para mim não dá, mesmo), continuando, não sendo uma pessoa de me dar, esta minha característica anti-social horrível e triste transparece nas chamadas redes sociais, em que o conceito de "networking", talvez um daqueles que mais abomino e, confesso, pelo qual tenho até um certo desprezo, assume uma importância fundamental. Mormente no facebook.
Dantes não gostava do facebook, mas agora até gosto. Gosto especialmente da parte em que podemos pôr notas, porque eu nunca fui organizada o suficiente para ter um caderninho com poemas e textos de que gosto, e o facebook dá-me a oportunidade de o fazer, com a vantagem de que os amigos podem ver, comentar e discutir ideias comigo, se também gostarem, ou não, daquilo que eu publico lá. Gera-se uma espécie de converseta de café, que é das conversetas que eu mais aprecio nesta vida. No entanto, desconheço por completo as regras de etiqueta do facebook, o que é coisa que me agasta, porque eu, além de ser uma pessoa com a faceta horrível do anti-social, também tenho um bocado a mania de gostar de saber regras (comportamentais, linguísticas, de cortesia, etc.). É uma idiossincrasia minha. E o facebook deixa-me um bocado à nora, especialmente com pessoas que vejo menos na vida real e com quem acabo por me encontrar mais no mundo artificial do facebook. Há pessoas que eu acho uma simpatia no facebook, e com quem conversei mais na internet do que na vida real. Mas, na tal vida real, quando calha encontrar esta gente, verifico que a proximidade online não significa nada. Conhecer alguém online situa-se ali num estado intermédio estranhíssimo, uma espécie de limbo entre um perfeito desconhecido e um mero conhecido. De modo que eu nunca sei como agir . Trato as pessoas por tu? Não trato por tu? Elogio os posts e conversas interessantes do facebook e quejandos, ou finjo que nunca aconteceram, por revelarem uma intimidade que, na vida real, pura e simplesmente não existe? É tal e qual como na cançãozinha dos grandes GNR - "com os pós modernos nunca ganhamos, mas também nada investimos". De modo que estas pessoas do facebook, nas quais nada da minha vida se investe, a não ser algum tempo, mas eu sou uma pessoa com tempo, são uma espécie de seres virtuais, estranhos fantasmas cujo rosto muda à medida que as pessoas actualizam o perfil e mudam fotografias, e que têm sempre representações diferentes para mim (da mesma forma que eu tenho para elas, com certeza).
E nem vou entrar na complicada tarefa de adicionar amigos ou "cancelar" ou "desadicionar" amigos. Isto, então, é uma verdadeira estratégia, com os prós e contras que só os meandros do tal networking é que conseguem decifrar. Eu costumo ter muita vergonha para pedir às pessoas para serem minhas amigas. Parece que estou outra vez a viver os tempos do colégio, em que (isto passava-se no meu colégio, que talvez fosse um local bizarro; não sei como era noutras escolas), continuando, no meu colégio, as meninas (os rapazes eram mais despachados), se gostavam do vestido ou da boneca da outra, chegavam-se ao pé dela e diziam timidamente: "vamos ser amigas?". E era assim, adicionava-se logo ali uma amiguinha. Eu acho que o facebook também se processa de modo similar, e por isso refreio-me um bocadinho de fazer isto, pedir aos outros "queres ser meu amigo?" - acho, digamos que, intrusivo, embora saiba que não é. É cada vez mais normal.
Enfim. Sou um bocado conservadora. Mea culpa, muita expiação e arrependimento.
O que vale é que eu só tenho cinco amigos no facebook. Se tivesse mais, queria ver como era. Escrevia um tratado filosófico sobre estas temáticas interessantíssimas e mandava ao Eduardo de Sá, esse animal da psicologia, para ele dar a sua opinião. Que beleza que havia de sair dali.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Perdida


Os meus vizinhos mudaram, há pouco tempo, a porta de entrada e o tapete. Isto quer dizer que eu saio do elevador e vejo uma porta desconhecida, um tapete desconhecido e, à míngua de outros elementos de identificação, fico sem saber se aquele é mesmo o meu andar ou se, por acaso, me enganei no botão do elevador e saí no andar errado. Fico ali parada, a interrogar-me se hei-de meter a chave à porta e ter a sorte de ser mesmo a minha porta, ou se tento arrombar a porta de outra pessoa, que depois pode chamar a polícia e é uma chatice.
O caso tornou-se ainda mais grave quando pintaram os prédios do meu bairro todos de igual. Agora, fico à nora para saber qual é o meu prédio. Noutro dia, entrei num edifício que parecia o meu, com um elevador que parecia o meu, e subi para o meu andar. Pus a chave à porta, abri-a, mas quando entrei no apartamento pensei que a minha casa tinha sido invadida por extraterrestres. Da cozinha saía um cheirinho reconfortante de carne assada. Na sala, a televisão mostrava desenhos animados. A estante, em vez de livros, tinha bibelots e fotografias de criança. Havia brinquedos espalhados pelo chão por todo o lado. Da cozinha saiu um homem gorducho, com barriga de cerveja, mais ou menos da minha idade mas meio careca, que me sorriu, disse estar a fazer o jantar e que o miúdo precisava de ir tomar banho. Naquilo que era o meu escritório já não havia escritório nenhum, mas antes um mimoso quartinho de criança, com uma cama coberta por um edredon fofinho onde um menino pequeno brincava com um peluche qualquer.
Percebi logo que me tinha enganado na casa, suspirei de alívio e fugi dali a sete pés. Quando ia a fugir, com todos os meus sete pés, e até oito se os tivesse, vi entrar no prédio uma senhora mais ou menos da minha idade, sem barriga de cerveja mas com franja de cabeleireiro. Voltei a suspirar de alívio. Ainda me enganei umas quantas vezes até dar com a minha porta, mas finalmente encontrei-a. Não tenho nenhum edredon fofinho nem hábito de fazer carne assada, mas ao menos na minha casa, sei com o que posso contar. Tenho é de a conseguir encontrar.

Muito obrigadinho, muito obrigado


Há um disco mítico da minha infância que se chama Jardim Jaleco, de Carlos Mendes. (e que, indecentemente, e tanto quanto sei, nunca foi lançado em CD; infelizmente, o vinil que eu tinha, parafraseando o grande Herman, "viste-lo? Era o visteze-o").
O Jardim Jaleco era sobre uma ida ao jardim zoológico, conduzida pelo Guarda Ezequiel, e em que cada animal cantava a sua cantiga. Ainda hoje me recordo do Elefante D. Henrique que tinha um amigo que era cão e se chamava Diogo (insuperável), da Serpente Serafina, uma das minhas preferidas, mas, acima de tudo, o que recordo com muita saudade, à boa maneira portuguesa, é a música do crocodilo, o Casca-Grossa, que era fadista.
Esta musiquinha é de um humor imbatível, e só consigo perceber isto agora, com esta idade avançada que tenho. Na altura, como o crocodilo Casca Grossa era fadista e eu não gostava nada de fado, não apreciava muito o que ele cantava, embora soubesse a canção de cor. E ainda hoje sei, e por isso lhe acho tanta graça. O Casca-Grossa queixava-se de que as pessoas andavam atrás dele para fazer sapatos e malas com a sua bela pele, e ele, na mais apurada voz de Alfama, cheia de trejeitos, rematava com: "mas eu não me rendo, só pretendo a igualdade! Sou casca grossa, mas nunca pus a pata na poça!"
Lin-do. A "igualdade" e a "pata na poça" são demais para mim e ainda hoje me fazem rir desalmadamente ao recordar o crocodilo fadista. E o melhor ainda era mesmo no fim da canção, em que o público, igualmente à boa maneira portuguesa, se desfazia em palmas e gritos de "eh, fadista!", para receber do Casca-Grossa um sentido agradecimento: "muito obrigadinho, muito obrigado. Muito obrigadinho, muito obrigado". Foi o meu primeiro contacto com o humor conseguido através das frases feitas, das convenções da linguagem, e por isso continua bem presente na minha memória.
Acho que o Casca-Grossa e o Tal Canal são, ainda hoje, as grande fontes de humor que adoçam a minha vida (é piroso, mas é verdade). O que reforça uma teoria que eu tenho, que acalento e continuarei a acalentar, e que é: as crianças têm de ser expostas ao bom humor desde tenra idade, ainda que nem sempre o percebam ou achem graça. Eu não achava graça ao Casca-Grossa, e agora adoro. Também não percebia muito bem o Tal Canal (nem a Marilu eu conseguia compreender bem), e agora não passo sem a minha edição especial em DVD. Também não entendia nada, mas é que mesmo nada, do Flying Circus dos Monty Python que passava na RTP, e agora passo a vida no canal dos Monty Python no YouTube. É assim, a vida muda, os gostos discutem-se, e as referências que trazemos da infância acabam por ser fundamentais no nosso (bom) humor.
Saber rir é das coisas mais compensadoras que existe. Tão bom como o Côte D'Or Truffé Noir. Ou quase tão bom.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Shakespeare dá jeito: all the world's a stage and all the men and women merely players


Queria escrever sobre Synecdoche, New York, o filme de Charlie Kaufman que vi há pouco tempo, mas acho que não consigo. Gostei muito do filme, mas não sei bem porquê. É um filme triste sobre um indivíduo solitário, egocêntrico, feio, incapaz de cumprir o seu desígnio artístico. Não é, verdadeiramente, um artista, é um diletante que se esforça, até aos limites do possível e da depressão, para conseguir criar algo. Porém, nunca consegue. A sua vida é absolutamente infrutífera - de tal modo que, apesar de ter duas filhas, não tem com elas qualquer relação de amor ou proximidade. É um deserto estéril, sem relações humanas profundas que consigam medrar.
É um filme algo deprimente, portanto. Contudo, é também um filme doce, engraçado e inteligente, com um enredado de ficção dentro da ficção que nunca mais acaba e que delicia o espectador, ocupado que fica a tentar perceber aquilo tudo.
Os filmes escritos por Charlie Kaufman centram-se sempre na questão das fronteiras entre a realidade e a ficção e onde é que essas fronteiras se estabelecem. Este Sinédoque leva esta questão até ao limite e quase afirma que não há fronteira nenhuma, que a realidade e a ficção são, em última instância, a mesma coisa. É interessante pensar sobre isto porque, também no limite, a nossa vida é sempre uma ficção vivida pelas várias "personas" que criamos para representar esta ou aquela situação, uma sucessão de duplos de nós próprios que vamos criando a cada momento, para nos adaptarmos ao que nos é exigido pelo exterior. De modo que a nossa identidade não é mais do que isso, uma série de máscaras que nos convêm em contextos diferentes, e que, quando as retiramos, vemos que afinal não está lá nenhum rosto oculto, só mesmo a máscara.
Que bodega de post. Mas queria mesmo escrever sobre Sinédoque, Nova Iorque, e não consigo melhor que isto. O filme é superiormente e infinitamente melhor do que parece descrito por mim, prometo (e também é melhor do que o trailer, que deixo abaixo mas que não ilustra a qualidadezinha do filme).
(e dizer também que os actores são todos bons, bons, bons, competentíssimos Philip Seymour Hoffman e Samantha Morton, e os outros também vão nada mal)

sábado, 5 de dezembro de 2009

Qual é coisa, qual é ela?

Dói-me a barriga.
Tanto tenho vontade de rir muito, como de chorar.
Tenho saudades de tudo, mas depois forço-me a ficar completamente indiferente.
Quero que o telefone toque, mas se toca fico nervosíssima.
Dói-me a cabeça.
Durmo mal.
Acordo sobressaltada.
Dou por mim a sorrir, feita parva, ao ver as bochechinhas coradas das crianças, mas apenas porque me lembram daquela canção dos Rolling Stones que reza it is the evening of the day, I sit and watch the children play, smiling faces I can see, but not for me, I sit and watch as tears go by.
Acho que este mundo é o melhor dos mundos possíveis.
Acho que este mundo é o pior dos mundos possíveis, cinco minutos depois.

Adivinha: estou apaixonada ou tenho uma depressão?
(Venha o diabo e escolha)

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

A tentação da preguiça

Tenho tosse.
Tenho o nariz a pingar.
Até tive de sair da Zara e tudo, que o pó da roupa atacou de tal forma o meu pobre narizinho que foi só fungar até desistir das compras.
Ah, a tentação, a tentação de confundir os sintomas de uma simples constipaçãozita provocada pelas infindas asmas e renites alérgicas que me acometem, a mim, pobre tísicazinha, e começar a dizer por aí que tenho gripe A, e pobre de mim, que terei de ficar em casa imenso tempo, sem poder trabalhar de forma nenhuma, a começar hoje e a acabar na sexta-feira da próxima semana...

A vida dos outros

Acho que, no fundo, no fundo, as pessoas querem sempre dizer-nos a vida toda delas. Já que não podem aparecer nas revistas, consolam-se com os incautos que vão apanhando e sobre quem poderão despejar todo um mundo de informação que não interessa para nada ao receptor, mas que contribui para que o emissor se sinta tremendamente importante.
Cheguei a esta conclusão ao observar as pessoas que falam ao telemóvel em viagens de autocarro ou comboio., coisa que eu adoro fazer, porque, subrepticiamente, sim, tenho um interesse desfasado na vida do cidadão comum. E há cidadãos que, para meu deleite, fazem questão de desfiar toda a sua vida, personalidade, gostos e embirrações aos gritos, para informar não só o desgraçado do outro lado da linha que tem de os ouvir, mas também toda a audiência composta pelas pessoas que se encontram no dito autocarro ou carruagem de comboio.
Exemplificando.
Uma vez, num comboio a transbordar, com o ar condicionado avariado, a rapariga ruiva, meio vesga, que se sentou à minha frente, pegou no telemóvel e não descolou de lá o ouvido até chegarmos ao destino. É importante dizer que o comboio era descendente, como muitos comboios são, e que não ia de Queluz à Cruz Quebrada, mas fazia antes o percurso de uma cidade do norte de Inglaterra até Londres. A viagem demorou horas, período de tempo que chegou e sobejou (adoro este verbo) para que eu me inteirasse do seguinte:
a rapariga vivia no norte e ia a Londres passar o fim-de-semana com um amigo, para ver se espairecia, porque o namorado, que se chamava Lee, a tinha deixado; este namorado tinha um irmão chamado Steve, que estava do lado da rapariga e não percebia porque é que o Lee tinha abandonado a rapariga, que era boa rapariga e não tinha nada de mal; aliás, ela e o Lee até já viviam juntos há três anos, e ela inclusivamente tinha deixado o namorado da altura, o Stanley, para ficar com o Lee. Ora, este Lee não era bom da cabeça, porque não só tinha, lá está, abandonado a rapariga, como tinha ido viver com a mãe desempregada que vivia em Blackpool; a rapariga não entendia o que é o que Lee tinha a fazer em Blackpool, que é sítio sem futuro nenhum, e porque é que tinha decidido ir viver com a mãe, que estava desempregada e não tinha dinheiro para o sustentar. O próprio Lee não tinha dinheiro, e ela, raparia ruiva vesga, é que o tinha sustentado aquele tempo todo, para agora estar para ali abandonada por dá cá aquela palha; por isso, ia para Londres descontrair, que aquela história toda estava a dar-lhe cabo da cabeça, mas o amigo que estava à espera dela em Londres era apenas um amigo e nada mais, já que ela estava farta de homens, era cada um pior que o outro, e de agora em diante só ia mas era prestar atenção a mulheres, que se calhar como lésbica tinha mais sorte.
Saí do comboio e a rapariga seguiu à minha frente. Não vi ninguém à espera dela. Afastei-me para o metro e ainda me virei para trás. Vi-a especada, a olhar não sei para onde, sozinha. Coitadita.
Noutro dia, no autocarro, ia uma senhora igualmente entretida a falar ao telemóvel. Estava a falar com uma amiga. Esta amiga tinha um filho. Este filho tinha uma namorada. O mesmo filho também tinha um carro, mas não tinha casa, nem estudos, nem desejo de ter estudos, nem emprego a sério, e ainda vivia com os pais. Isto porque não tinha estímulo para sair de casa, porque a namorada não queria casar com ele. A senhora do telemóvel aconselhou a amiga do outro lado da linha que dissesse ao filho para acabar com a namorada, porque esta última era uma abusadora, que queria andar de carro até arranjar outro rapaz melhor de quem ela gostasse, altura em que terminaria todo o namoro como o filho da senhora do outro lado da linha. O filho que poupasse tristeza e gasolina e acabasse já com a tal rapariga.
Ontem, ao almoço, as duas raparigas que se sentaram ao pé de mim a bebericar uma sopa e um café estavam a discutir a problemática do amante de uma delas. Este amante tinha uma companheira com quem vivia, mas sabia que ela era "má-rês", de modo que não confiava nela, isto é, não punha a casa em nome dela nem tinha filhos dela, mas tinha uma filha, isso sim, de uma outra; esta outra também não era boa pessoa, e a filha parece que era como a mãe, de modo que o amante da rapariga que estava a almoçar ao meu lado, desgraçado como era, tinha sido forçado a aventurar-se no mundo do affair extra-conjugal, namorando clandestinamente com a rapariga que se sentava ao meu lado. Segundo esta, o amante gostava dela e queria ficar com ela, porque nela sim, ele podia enfim confiar, mas a questão é que a companheira era uma bruxa e não o deixava em paz, e ele não sabia bem como descalçar a bota. A amiga da rapariga, que também estava a almoçar ao meu lado, disse que aquilo era tudo "doentio". Apeteceu-me pôr ali um "like", como no facebook.
A vida dos outros cansa muito. E é assim, levamos com ela todos os dias, despudoradamente. Se a rapariga do comboio, a senhora do autocarro, e a rapariga do almoço, algum dia gozarem de 15 minutos (ou até mesmo só 5, que chegam bem) de fama, aposto que até fotocopiam o BI para que o mundo o estude atentamente.
Feitios.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Come chocolates, pequena, come chocolates

Comida saudável, que bom, legumes bio, muita sopinha, sumos naturais, pão integral, cenouras e courgettes. É sempre assim que eu me alimento.
Excepto quando está sol, porque apetece mais gelados.
Excepto quando chove, porque fico triste e apetece chocolate.
Excepto nos dias de semana, quando tenho de ir trabalhar e apetece comer pão branquinho e croissants, para consolar.
Excepto quando me convidam para jantar, atraindo-me de forma quase desonesta com:




Atracção fatalíssima.
Mas de resto, sempre comidinha saudável, iogurtes naturais, beringelas, que bom.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

A causa do pessimismo

Quando penso na vida em geral, e na minha em particular, chego à conclusão de que aquilo que me faz adoptar, quase inconscientemente, uma perspectiva algo desiludida e lúgubre face ao pacote casamento + filhos + monovolume + construir vivenda + mulher-a-dias (opção "cão" depende do tamanho do jardim e encargos financeiros acrescidos) não é o número de divórcios sempre em flecha, não são as histórias terríveis de casamentos que nasceram tortos e ainda mais tortos acabaram, não é o tédio de ver famílias inteiras em centros comerciais, não é ver criancinhas de quatro anos aos gritos, que ainda não comem com garfo e ainda dizem "proquê", para grande deleite dos adultos, que não as corrigem e as vão deixar cometer erro atrás de erro, alguns bem mais graves do que aqueles que respeitam à mera ortografia portuguesa, para o resto da vida. Não. Não é nada disto. Aquilo que me faz torcer o nariz, com algum receio, ao pacote casamento + extras (incluindo a opção "férias") explica-se com uma leitura muito antiga, de há muitos anos, e que é esta:



Querida Alice Vieira, que escreveu um livro para mim inesquecível, Viagem à Volta do Meu Nome, em que um rapaz chamado Abílio, que tem uma família só de Constanças, detesta tanto o nome próprio que decide passar a chamar-se Luís, partindo numa divertida e interessante viagem de auto-descoberta, dizia, a querida Alice Vieira, que eu ainda hoje adoro, que é ainda hoje das escritoras mais importantes do meu universo, a querida Alice Vieira conseguiu escrever este livro do El-Rei Tadinho, que goza descaradamente com os contos de fadas (os mesmos que eu tanto aprecio), desconstrói todos os lugares-comuns tão doces e fofinhos a que estamos habituados (mormente o "felizes para sempre"), e conseguiu assim, alegremente, destruir todas as expectativas que eu poderia acalentar de alguma felicidade doméstica.
Se eu tivesse lido El-Rei Tadinho mais tardiamente, com certeza apreciaria apenas o seu inesgotável humor, as situações caricatas e engraçadas, o grande jogo de referências e desconstrução face aos contos de fadas tradicionais. Como o li muito, muito pequena, aquilo que aprendi, com alguma angústia, é que as princesas (ou as fadas) louras e de olhos azuis casam com o rei (Tadinho, neste caso), mas depois não vivem felizes para sempre, nas lonjuras do seu castelo mágico, rodeadas por aias de vestidos compridos e gorduchos bebés de cabelo aos caracóis. Não - estas princesas casam-se, mas depois têm de lavar fraldas e limpar a casa, a mãe das princesas vive com elas e com o marido e faz sopa de feijão encarnado, o rei levanta-se todos os dias muito cedo para ir para o escritório, chega a casa cansado, o que faz na vida é trabalhar e ter filhos e mal tem tempo de prestar atenção ao resto.
De modo que aprendi, cedo de mais, uma lição que só deveria ter aprendido mais tarde, quando tivesse idade para perceber que os contos de fada são só ficção. Na idade em que deveria ainda aspirar a ser como a Bela Adormecida ou a Branca de Neve (embora sem a maçã), já eu sabia que lavar fraldas (hoje em dia são descartáveis, pronto; este problema está resolvido) e fazer sopa não é assim tão interessante. Pelo menos, o El-Rei Tadinho e respectiva esposa, a fada loura, não pareciam terrivelmente felizes. O "para sempre" passou-lhes ao lado. E este exemplo do casal infeliz, numa história para crianças, gerou um pessimismo em mim que não é muito agradável, mas que existe.
A Alice Vieira é responsável por grande parte do meu pessimismo, o que afecta seriamente a minha vida, e por isso, qualquer dia, ainda hei-de ajustar contas com esta senhora. Apesar de continuar a gostar muito dela. O que cria um dilema. O que, por sua vez, cria outro problema para eu resolver.
A minha vida é assim, só agruras.

Era uma vez

Gosto de contos de fadas, de princesas, de monstros, dragões, mafarricos, bruxas más, feiticeiras, maçãs envenenadas, castelos, masmorras, príncipes encantados, reis, rainhas, encantamentos, poções mágicas, caldeirões, sapatinhos de cristal, abóboras, carruagens, bailes, vestidos compridos, caixões de cristal, anões (e porém, não gosto particularmente de Gandalfs, Terras do Nunca ou Médias ou o que seja, anéis, hobbits; não sei porquê, mas comigo este universo não resulta).
Gosto, enfim, de mundos puramente ficcionais, ilimitados. E por isso gosto muito do universo de dois indivíduos, que acho bastante semelhantes, Tim Burton e Edward Gorey. O primeiro é sobejamente conhecido, o segundo também, mas como é mais velho e não fez filmes, fala-se menos dele (além disso, também já morreu). Gorey tem livrinhos maravilhosos, de um humor lúgubre e macabro, repletos de ilustrações deliciosas, de figuras delgadas e delicadas, em cenários estranhíssimos. Tem coisas terríveis, e no entanto irresistivelmente engraçadas, como estas:



Acho que dá para perceber sobre o que trata este livro, The Gashlycrumb Tinies. Tem outras coisas tristes, quase tragicómicas, ou ainda ilustrações que não servem para nada nem dizem nada, a não ser a brincadeira, ou o nonsense pelo nonsense, como estas:


Lin-do.

Lembro-me de que Jim Henson tinha um programa, há muitos anos, chamado o Contador de Histórias, em que John Hurt se sentava à lareira e, todos os episódios, contava um conto diferente, recheado de tudo aquilo a que se tem direito nos contos de fadas: bruxas, dragões, heróis, reis, princesas, etc. Eu adorava este programa, que aliava a riqueza narrativa ao encanto da imagem. E é o que faz gente como Tim Burton e Edward Gorey. Dão mais fantasias à nossa fantasia. Gosto bastante, no fundo era só para dizer isto.

domingo, 29 de novembro de 2009

Toma lá 100 escudos e não gastes tudo em freiras

Por um lado, gosto do Natal. Gosto das compras (sim, é verdade), do descanso, dos doces, da descontracção da família, do entusiasmo tão peculiar das crianças nesta altura, das decorações todas, gosto sobretudo que haja pelo menos uma época do ano em que toda a gente sente a obrigação de ser boa, embora ninguém cumpra efectivamente este desiderato da bondade.
Por outro lado, não gosto do Natal. Não gosto porque eu, tal como quase toda a gente, não me torno necessariamente bondosa por esta altura, nem mais espiritual, nem mais nada. Quanto muito, tenho mais consciência da minha maldade e do meu egoísmo e sinto-me mil vezes pior com isso do que nos restantes meses do ano, o que provoca ansiedade e stress, o cabelo e a pele ressentem-se, e a depressão está a um passo. É um fenómeno complicado.
Vê-se mais gente a pedir para a caridade, na rua, durante o Natal. Cancros, crianças abandonadas, drogados, sem-abrigo, há gente a pedir para tudo. E há pedintes. Há os pedintes de Lisboa, que estão sempre em todo o lado, mas que no Natal parecem ainda mais flagrantes, mais incomodativos, mais berrantes. Cortam o coração de forma ainda mais profunda, são mais difíceis de ignorar, a gente pensa "mas como é que é possível viver numa sociedade em que estas coisas se tornaram normais?", e depois viramos as costas e tentamos esquecer. E esquecemos. Eu, pelo menos, esqueço, o que é repugnante mas no entanto verdadeiro.
Não consigo dar uma moeda a um pedinte. Não por ter medo que ele vá gastar tudo em freiras, como dizia João César Monteiro, mas porque considero uma indignidade dar um euro, dois, três, quatro, cinco, o que seja, a outra pessoa, que teve o azar de estar ali, naquela situação. Sinto-me mal, sinto que é ofensivo para a pessoa que eu lhe dê dinheiro. Podia ser eu. Não sou, mas podia ser. Eu tive sorte, a outra pessoa teve azar. E o poder que eu, ou qualquer outra pessoa como eu, acaba por ter numa situação como estas, face a um pedinte, é algo de ilegítimo, de grotesco, de bizarro. Não consigo lidar com esta bizarria grotesca, e por isso nunca dou dinheiro, embora saiba que talvez devesse dar. Prefiro consolar-me numa "dor que não dói" e contribuir para instituições de apoio organizadas. Assim é que se ajuda, não é? Não é a dar dinheiro aos pedintes na rua, não é? Sim, claro que é. Por exemplo, aquela senhora que vejo todos os dias na escada do metro, velhota, de lenço na cabeça, com um pequeno cartão riscanhado a preto, "ajude, bem-haja, etc". O meu euro não lhe faria qualquer diferença. Claro que não. O que é que se compra hoje em dia com um euro, não é?
Não lhe faria qualquer diferença. Não faria.
Regresso de um blog que fazia muita falta, aqui. Fico muito contente, e que desta vez o blog se mantenha firme e hirto por muitos e longos anos.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Como os sentimentos esdrúxulos, as cartas de amor são naturalmente ridículas

Eu dantes tinha uma mania, que era: escrever cartas de amor.
Sempre que pensava estar apaixonada, escrevia muitas cartas; enviava algumas, não enviava outras, mas escrevia sempre muitas. Já nessa altura sabia que Fernando Pessoa as considerava ridículas, mas eu discordava em absoluto. As minhas cartas de amor eram profundas e filosóficas, cheias de verdades importantíssimas sobre a vida e os sentimentos, e seriam tudo menos efémeras. Ou, pelo menos, eu assim pensava, naquela altura.
É evidente que a grande tristeza de crescer é compreender que a verdade está não nas minhas cartas de amor que o tempo levou, mas antes em Fernando Pessoa. É claro que todas as cartas de amor são ridículas, e não só, as minhas em particular ainda são mais, porque as escrevi com a arrogância da convicção de que não eram ridículas. Resta-me a consolação de saber que também eu recebi algumas cartas de amor, e que também estas foram ridículas. De modo que foi troca por troca, o que é simpático refrigério.
E compreendo agora que tudo o que tenha a ver com sentimentos, mimosos estados de alma e doces amores, se reveste de um ridículo que eu não consigo discernir de onde vem, mas que existe. Não estou a falar sequer da parafernália grotesca do S. Valentim, estou a falar de coisas normais, de ver duas pessoas apaixonadas a olhar uma para outra e termos de desviar a cara para não nos sentirmos envergonhados por elas. Devíamos aplaudi-los, e no entanto ficamos ali, contrafeitos, embaraçados, desconfortáveis. Excepto, é claro, quando somos nós os pombos apaixonados, e envergonhamos nós os outros.
Não percebo porque é que o amor tem de ser ridículo, mas o que é certo é que o é. Mesmo. No entanto, talvez este ridículo seja necessário ao amor. O fofinho, o queridinho, tem de fazer parte do amor, mesmo que depois, enfim, a pessoa entre em expiação e compense com uma data de filmes suecos ou qualquer outra coisa que provoque sofrimento e pessimismo, para que o equilíbrio se restabeleça. Mas o fofinho é necessário ao amor.
Eu, porém, cortei com as cartas de amor. São, efectivamente, ridículas. O fofinho não tem de ir tão longe.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Que me metam entre cobertores e não me façam mais nada, que a porta do meu quarto fique para sempre fechada...

Metade da minha vida é passada com sono.
Acordo com sono, vou trabalhar com sono, almoço, fico cheia de sono depois do almoço, os cafés não têm qualquer efeito em mim, passo a tarde com sono, chego a casa com sono, tomo café outra vez, e mesmo assim janto com sono.
Só não tenho sono imediatamente após o jantar. É o único momento da minha vida em que não tenho sono nenhum.
Vejo televisão e não tenho sono.
Leio e não tenho sono.
Ouço música, ouço os vizinhos aos berros, os vizinhos calam-se finalmente e vão dormir, tudo finalmente silencioso, e eu ainda sem sono.
Até quando adormeço, não tenho sono. Acordo no outro dia, desta vez cheia de sono, sem saber bem como adormeci. Espera-me um dia repleto da vontade terrível e cruel de fechar os olhos e descansar, e porém sem o poder fazer.
As pessoas falam comigo e eu só peço que se calem, já que sou perfeitamente incapaz de compreender o que dizem, acontece-me tantas vezes as pessoas falarem comigo e eu a desesperar-me, porque me esqueci daquilo que disseram há dois segundos, distraída que estava, quase sonâmbula. Já estou assim há alguns anos, e portanto hoje em dia já quase toda a gente que conheço se aborreceu comigo, de modo que não tenho amigos, nem conhecidos, nem nada, passo a vida ostracizada e cheia de sono.
Tinha uma amiga que era assim. O caso dela foi ainda pior. Tinha insónias de tal modo agudas que passava a noite em claro. Morria de sono o dia todo.
Deixou de ter energia mórbida para fazer exercício físico mórbido e ficou ela obesa mórbida.
Deixou de ir de carro para o emprego porque teve dezenas de acidentes por adormecer ao volante.
Deixou de ir ao emprego porque não se conseguia levantar de manhã. Foi despedida.
Ficou sem rendimentos. Perdeu a casa. Perdeu o carro estampado. Foi viver com os pais. Engordou ainda mais. Ficou sem poder sair de casa. Continuou sem dormir, embora não tenha a certeza, deixei de me dar com ela.
É essencial saber vencer a insónia.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

The Man with No Name


Se não me estivesse a doer muito a cabeça, falaria de Clint Eastwood e de como o adoro ver, velho e enrugado, a resmungar contra tudo e contra todos e a polir o seu magnífico Gran Torino verde, ou azul, ou o que era, e como adoro aquela dança final no The Good, The Bad and the Ugly, aquele olhar de desprezo, o andar firme, a postura toda convencida, a figura estilizada até à perfeição do duro de roer, batido pela vida e por isso invencível. O criminoso reformado e de bom coração em Unforgiven, o foragido espertalhão de Alcatraz, até o polícia quase psicopata que é Dirty Harry, adoro tudo, adoro o semblante de pedra, áspero, silencioso. Gosto, sobretudo, do facto de Clint Eastwood falar pouco mas, quando fala, é para fazer justiça, ou então para pôr alguém no seu miserável lugar - é que é uma coisa que entusiasma uma pessoa, de facto.
No entanto, o que eu gostava verdadeiramente era de poder, um dia, ver a dança final, icónica, de The Good, The Bad... no luxo de uma sala de cinema, com aquela música intensa e entusiasmante a retumbar. Isso e o Ran. É um sonho que eu acalento.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Ir à rua pôr o lixo

Há uma grande desvantagem relativamente aos momentos catárticos, como por exemplo o concerto dos Massive Attack do post anterior, e que é o sentimento profundo e arrasador da ressaca. Regressei a casa sábado à noite limpa de todos os pecados e inundada por uma alegria eufórica, com os ouvidos ainda a retumbar daquele ritmo contagiante e frenético; acordei Domingo à tarde cansada e sem dar sentido à vida. Era como se as coisas só voltassem a fazer sentido se pudesse reviver momentos semelhantes aos da felicidade da noite anterior. Tinha olheiras e um grande sentimento de frustração.
Voltei para a cama. Doía-me a cabeça e tremia de frio. Passei o dia a chá e bolachas. Não vi televisão. Não consegui ler. Tudo um supremíssimo cansaço.
Hoje, consigo suportar a rotina apenas e só porque penso numa mesa de café, uma chávena escaldada, o líquido a ferver, a comemoração do fim do dia. É só mesmo isso que me aguenta. Sim, porque o concerto, esse, já é passado. Como diria o Herman num dos episódios do Tal Canal, "visteze-o? Era o viste-lo".
As alegrias, as catarses, as limpezas emocionais, trazem muito lixo ao de cima. E depois toda a gente tem preguiça de ir à rua deitar o lixo fora.