terça-feira, 16 de março de 2010

Palavras e expressões que fazem rir

"Agastado" e respectivo verbo (eu agasto, tu agastas, ele agasta, etc.)
Fazer espécie, especialmente na versão "faz-me muita espécie".
Desenxabido, especialmente na versão "desen-xá-bido".
Rega-bofe.
Andar ao deus-dará.
Patega e patego ("não sejas patega!", disseram-me uma vez. Não pude ficar zangada porque me estava a rir).
Maniento.
Coiso.
Mel-réis, como se dizia antigamente do dinheiro. Nem sei se está bem escrito.
Pândega.
Pança.
Balofo.
Badameco.
Rambóia.
Treco-lareco.
Converseta.
Tist'ó cão.
Perua (infelizmente, a versão mais cómica desta palavra é aplicada às senhoras).
Cóboiada.
Justamente (na versão "pois, eu j'stamente foi isso que lhe disse").
Você.

Sem esquecer a forma de tratamento "pá", que sempre ocupará um lugar muito especial na minha lista. A língua portuguesa é soberba, e nunca me canso de dizer, constatar e apreciar tal realidade.

Este homem compreende-me

When the waiter hands you the menu and says “Has anyone explained our concept?”, everybody old enough to have been to McDonald’s is competent to reply: “You bring me food, I eat it, I pay, you give me my coat back.”

E é isto. AA Gill, que escreveu este texto, faz crítica de restaurantes para o Times há que tempos (em 2005 até foi a um restaurante português e fartou-se de dizer mal, num texto que vacilava entre o ofensivo e o brilhante, e foi engraçadíssimo, embora eu tenha ficado absolutamente agastada, mas pronto - o texto pode ser lido aqui), continuando, o AA Gill tem absoluta razão acerca desta coisa absurda do restaurante com "conceito". Se há coisa que me aborrece em restaurantes, para além do sinal de casa de banho a dizer "mulher" ao invés de "senhora" - gosto das coisas com uma certa etiqueta, pronto, é uma idiossincrasia minha - é isto do "conceito". Se estou sentada à mesa à espera que me tragam a lista (evitemos aqui a opção desagradável entre "menu" e "ementa") e me perguntam "conhece o nosso conceito?", fico logo furibunda. Conheço, sim, o conceito é comer. Mais alguma coisa que devo saber? Não estou a ver.
Não gosto de restaurantes com "conceito" porque isso normalmente equivale a eu ter de pagar a refeição e ainda ter de suportar constantes idas à mesa, a interromper conversas e deglutição com "está tudo bem aqui?", "não é preciso nada"?
Eu sei que isto são tudo tentativas de bom atendimento. Sei que as pessoas estão a fazer o seu trabalho. E também sei que, normalmente, estas tentativas equivalem a eu não voltar ao estabelecimento, principalmente se estes pretensiosismo acontecem em Portugal, que tem comida boa, simples, despretensiosa. O melhor da nossa comida é o seu despretensiosismo, e irrita-me um tanto ou quanto que isso se desvaneça com a história do "conceito". Voltemos à nossa encantadora simplicidade, é só isso que eu solicito.
Enfim. Post inútil e irrelevante, sei bem, mas precisava, mais uma vez, de me esvaziar de toda a fel, o que começa a ser um hábito e pronto, enfim, mil desculpas.

Desampara da minha janela

Há coisas que me dão um certo nó no estômago.
Por exemplo, aquela música linda do Bob Dylan chamada It Ain't Me. O poema é sobre um homem que se vai embora porque não quer ser o amor da vida de uma qualquer mulher. Eu compreendo a posição do Bob Dylan - também compreendo a posição da qualquer mulher. No entanto, indendentemente disto, o que me angustia levemente nesta canção é o tom de desilusão que estes assuntos acarretam sempre. Admite-se que, por alguns momentos breves, a ideia de felicidade foi de facto possível, mas o mundo, ou o pessimismo, ou o tédio, ou a preguiça, foram mais fortes, e resta a ruína. É tal e qual como a canção do Serge Gainsbourg sobre a qual escrevi há mais de um ano - Je Suis Venu Te Dire Que Je M'En Vais. Esta é, tal como a canção de Dylan, cruelmente bela, e trata do mesmo assunto, que não deixa de ser quase um lugar-comum: o homem que parte, a mulher (que não passa de uma personagem-sombra, em ambas as canções) que fica, chorosa e estilhaçada. É uma pena. Eu tenho, de facto, pena desta sombra, desta mulher invisível.
Tem graça que, no caso das canções masculinas que falam sobre a ruptura, a ideia é tentar sempre amenizar a coisa com palavras sensatas e bonitas, mas não necessariamente justificar, ao passo que, quando as mulheres cantam sobre deixar maridos ou namorados, justificam-se sempre com "eu dei-te tudo e tu eras um grande estúpido", ou "eu dei-te tudo e tu mesmo assim não quiseste". A verdade é que me baseio em apenas três canções para esta asserção, e que são as supra-citadas Bob Dylan e Serge, sendo que a terceira é aquela dessa grande cantora com toda uma séria carreira por trás, Leona Lewis, apropriadamente designada por "Better in Time".
Pensando bem, é capaz de não ser grande amostra.
Esqueci-me do objectivo inicial deste post. Vou ter de terminar por aqui.
Nota apenas para dizer que, quanto a mim, a perfeita canção de Bob Dylan é, com certeza, sobre muito mais do que uma ruptura amorosa. Mas enfim.



domingo, 14 de março de 2010

Plástico


Pronto. Vou falar do Sexo e a Cidade. Vou, porque há coisas que me agastam, e portanto este vai ser mais um post a destilar fel, mas não é contra a série.
Gosto muito da série. Tem piada, é um regalo para os olhos com os vestidos e os sapatos e os cabelos e as pessoas podem dizer-me à vontade que aquilo são mulheres a falar como homens gay, ou vice-versa, que eu não quero saber, gosto à mesma.
E porém. Não são as meninas do Sexo e a Cidade, com sua frenética ânsia e interminável conta bancária sempre pronta a esvair-se em sapatos ridículos, que me enervam. Não. O que me enerva são as meninas com frenética ânsia a esvaírem-se em sapatos e malas ridículas e de plástico e que vivem em Portugal que me enervam. A demanda constante pela "marca". Os óculos esbugalhados com umas letras garrafais nas hastes, DIOR, DOLCE, VERSACE, PRADA. Hã? O que é isto? As Louis Vuitton falsas, já a dar de si, fios soltos, costuras descosidas. Os sapatos de saltos altíssimos, cheios de chulé, que desfazem calcanhares, que permitem apenas passinhos periclitantes que dão vontade de rir.
Lamento muito, mas é estúpido. Tudo isto é estúpido, é pobreza de espírito. É tão estúpido e parvo como ir a um restaurante cujo "conceito" é "gourmet low cost", como eu fui noutro dia, portanto enfio a carapuça, porque como já escrevi antes, carapuças há-as para todos os gostos e eu mais remédio não tenho do que usar a minha. Enfim. Que um restaurante tenha um "conceito" que não seja comer e beber, já acho estranho; que o conceito seja gourmet mas low cost, acho de uma pretensão meio parva. Mas devo dizer que a comida, por acaso, estava óptima, e o ambiente também era giro, portanto se calhar ainda lá volto. Como disse, tenho uma carapuça e uso-a.
O problema é que eu vejo o país perdido nestas parvoíces, nesta ânsia imparável por coisas feias, baratas, falsamente bonitas, falsamente inteligentes. É terrível.
Aceitemos todos: não temos dinheiro. Ok? Não temos. Aceitemos todos que: não podemos ter malas Louis Vuitton, nem Manolos, nem viver em Nova Iorque, nem pensar em homens o dia todo e ainda ganhar dinheiro com isso. Aceitemos que temos de viver de outra forma, comprar outras coisas. Mais baratas, mais honestas, mais bonitas.
É que estou farta de ver gente feia, coisas feias, plástico, plástico brilhante, à minha volta. Sapatos de plástico brilhante, malas de plástico envernizado, sorrisos de plástico brilhante, bleagh. Para onde é que eu tenho de ir para me regalar com a beleza natural da simplicidade? Para Trás-os-Montes? Não me apetecia, porque é um bocado longe, mas pronto, se for preciso vou. Por acaso, gosto muito de Trás-os-Montes. Tenho pena de ser longe do mar.
Vou ter muitas saudades do mar.

Sentidos de humor


Soube agora que a chamada "Academia", aquela que dá Óscares, decidiu retirar da cerimónia um sketch de Sacha Baron Cohen destinado a James Cameron, que era para não ofender o senhor.
A questão é que o (bom) humor pode, muitas vezes, ofender, o que é pena, mas é assim mesmo.
Lembro-me, com muito pesar, de ter estado uma vez numa conferência em que, num dos intervalos, para descontrair, se falou de filmes. Era o ano em que Borat, o filme do supra mencionado Sacha Baron Cohen, tinha sido exibido nos cinemas, deixando alguns muito agastados, e outros, como eu, perdidos de riso. Acontece que os colegas da conferência pertenciam aos primeiros, aos que tinham ficado agastados. A cena em Borat luta nu contra um bojudo, repugnante homenzinho gordo e peludo, cena inesquecível de tão irreal, ousada, inacreditável que é, foi descrita por todos como de mau gosto e nojenta. Eu concordei, de mau gosto e nojenta. E, curiosamente, é isso que faz dela algo de tão inesquecível. Mais do que fazer rir, a dita cena prolonga-nos o queixo até ele ir ao chão, porque parece impossível que alguém tenha filmado tal coisa.
Mas não, os colegas da conferência não iam na conversa. O Borat era coisa do diabo, repulsiva, boçal, sem a mínima piada, ao passo que eu estava ali especada, desesperada, a tentar explicar que sim, repulsivo, sim, boçal nem tanto, porque tem piada!, estranhamente, tem piada, e é tão difícil alguém conseguir um humor que roça o limite do mau mas nunca chega a ser mau, e por isso é tão bom. Fui muito infeliz na explicação deste paradoxo. Ainda me lembro de um rosto que se contorceu a olhar para mim, esganiçando-se a exclamar, do alto da sua pobre petulância ,"o Borat?! Que horrível".
Senti-me, naquele momento, absolutamente alienada do meu semelhante. O pior distanciamento que pode acontecer entre as pessoas é não serem capazes de se rir juntas. É um muro intransponível, um sentimento de solidão inexpugnável. Detestei, naquele momento, todas as pessoas à minha volta, detestei a conferência, quis voltar para casa. Depois encolhi os ombros e resignei-me.
O Rui Veloso cantava que não se ama alguém que não ouve a mesma canção. Eu acrescentaria: não se ama alguém que não se ri da mesma canção. É muito triste.

sábado, 13 de março de 2010

Façam greve, pequenos, façam greve

Façam greve na Páscoa, para chatear toda a gente, para chamar atenção. As greves são assim, têm de fazer efeito. Façam greve, para todos ficarmos a perceber de uma vez por todas que a TAP já não funciona, que a TAP só presta maus serviços, que é mais um triste sinal de um Estado pesado, lento, burocrático, falido. Façam greve para se poder dizer, ainda mais veementemente, que se a TAP fosse privada, nada disto aconteceria. Façam greve, que assim a privatização vem mais depressa e é assim que o país se quer, privatizado de uma ponta à outra, que o Estado não tem competência para nada. Este Estado, se calhar, não tem, de facto.
Não me passa pela cabeça contrariar o direito à greve, conquistado e adquirido, nem dizer que é "coisa do século passado", como o excelso Fernando Pinto não tem vergonha de dizer (e devia ter). Mas, com todo o respeito pelos pilotos da TAP, não me parece que esta greve beneficie alguma coisa, a não ser belas ideias como esta. Por mim, tudo bem. Aliás, se é para privatizar, para quê perder tempo, privatize-se já Portugal e vendam-no a Espanha, Inglaterra, França, EUA, talvez Índia ou China, futuras super-potências, sei lá, a quem o quiser comprar. Porque não? As únicas desvantagens seriam talvez salários baixos, exploração, desemprego, problemas que este país nunca conheceu, e que seriam imediatamente compensados por um maior recurso ao crédito e bancos novamente recheadinhos, a emprestar dinheiro a toda a gente, a emprestar dinheiro a si próprios, tudo liquidez, tudo a fluir, que alegria, que beleza.
Apagada e vil tristeza - vira-te e revira-te nos Jerónimos, Luís Vaz, que tens razões para isso. Mas olha, em compensação, a tua voz ainda canta com muita razão. Há que ver sempre o lado positivo das coisas, como diziam os Monty Python.

sexta-feira, 12 de março de 2010

Ó língua da minha terra, agora é que eu percebi...

Adoro linguagem barroca, excessiva, extravagante, adjectivos, muitos adjectivos, vírgulas, graus superlativos absolutos sintéticos e analíticos, conjunções copulativas e também causais, travessões, pontos e vírgulas, advérbios de modo, sujeitos intermináveis, predicados incisivos, complementos circunstanciais quilométricos, complementos agentes da passiva ad aeternum, apostos e complementos a perder de vista, frases que se prolongam e duram, duram, duram, e acima de tudo muitos adjectivos, tantos adjectivos, o Eça de Queiroz usava sempre adjectivação binária, por isso gosto tanto dele, por mim até podia usar trenária ou quaternária, que as valsas são sempre rápidas demais para meu gosto, e compassos mais longos oferecem mais tempo para disfrutar, que morfologia esplêndida tem o adjectivo, magnífico, magnificente, magnânimo, como se pode viver sem adjectivos, não pode, e a seguir a adjectivos gosto de vírgulas, essenciais para a frase não acabar nunca, e a seguir a vírgulas gosto do travessão, e acima de tudo gosto da língua portuguesa, que aguenta uma sintaxe de arrasar, uma sintaxe em que as frases nunca morrem, nunca sofrem o corte do ponto final, tão anglo-saxónico, e embora eu me considere uma anglófila porque gosto de inglês e de Inglaterra - gosto, sim, e muito -, continuando, apesar disto, o português contorna os pontos finais que é uma beleza, uma verdadeira arte, uma manobra de diversão linguisticamente perfeita, e portanto gosto de vírgulas, gosto de adjectivos, a quem Lobo Antunes e Cardoso Pires faziam guerra, e ainda bem para eles porque escrevem magnificamente e eu apenas me rendo a essa evidência, mas gosto de vírgulas, gosto de adjectivos, e abomino insensatamente, tal como Cesário Verde adorava ângulos agudos mas ao contrário, o ponto final.

Com que voz

Numa cena de Blue in the Face (vide vídeo abaixo), Jim Jarmush decide deixar de fumar e partilhar o seu derradeiro cigarro com Harvey Keitel, que trabalha numa tabacaria e que lhe vende tabaco há anos. Jim Jarmush diz que, entre outras razões, vai sentir muito a falta do cigarro porque, e passo a citar: sex and cigarettes, you've got to admit...having a cigarette after sex, that's like... a cigarette never tastes like that, you know. To share a cigarette with your lover...
Ao que Karvey Keitel responde, ah, that's bliss.
Eu não fumo, porque sou tisicazinha e não posso, embora ninguém diga olhando para mim, porque não me dá para emagrecer, mas enfim, são os padecimentos da alma e do corpo que por vezes assumem estranhas formas. Continuando. Não fumo, portanto não sei de que é que o Jim Jarmush fala, não faço ideia absolutamente nenhuma, nenhuma.
Sei, porém, o que é partilhar uma canção com um amigo. Isso sei bem o que é, e tenho sempre muitas saudades das nossas cordas vocais sintonizadas, gargantas esganiçadas mas muitíssimo empenhadas e convictas, absolutamente dedicadas àquela canção do princípio ao fim. Os poucos minutos que dura a canção são uma espécie de concretização da amizade. É verdadeiramente lindo. Chego a fazer playlists de canções que já cantei, no carro, na rua, numa festa, com este ou aquele amigo, quando tenho saudades dele ou dela. Quando volto a cantar a canção, é uma espécie de evocação da pessoa de quem sentimos a falta. E nem sempre se trata de boa música. Às vezes, são canções pirosíssimas. Mas sabe sempre tão bem cantá-las a plenos pulmões com um amigo. Partilhar uma canção com um amigo - ah, que felicidade.


quarta-feira, 10 de março de 2010

I miss their pictures









(Peço desculpa pelo título em inglês, tão piroso. Mas acho que se percebe a razão.)

E é isto uma senhora

Há um conto em Dubliners, de James Joyce, acerca de uma senhora que queria que a filha tocasse no recital de piano, e queria à força que isso acontecesse, de tal modo que começa o conto como personagem respeitável e incólume acaba a fazer figura de parva aos olhos dos outros, objecto de desprezo e escárnio. "E é isto uma senhora!" - é a última frase que pronunciam sobre ela.
Já não leio o conto há muito tempo, mas nunca me esqueci desta frase. Porque o mundo é exigente demais. As pessoas têm de ser sempre compostas, inteligentes, olhar por onde andam e nunca dar um passo em falso. Escolher amigos, profissão, casa e rotinas sem se enganarem, um engano, um único engano pode ser desastroso, depois não entras no curso que queres e vais para o desemprego, depois não arranjas o emprego que queres e és explorado e macerado até te pisarem o sangue, depois não te apaixonas e não te casas nem tens filhos e és infeliz para o resto da vida, quem sabe se não te tornas tarado, quem sabe se os outros não vão olhar para ti como o pequeno, talvez inofensivo mas é sempre de desconfiar, maluco que se senta à mesa do café, de meio sorriso na cara, a meter conversa com todos, a segredar palavras indecifráveis de si para si, emparedado numa solidão que mete pena, e depois como é?, é esta a vida que queres para ti?
É impossível viver assim. A senhora só queria ver a filha a tocar piano em público, deixem-na em paz.
Não se é menos senhora, ou menos pessoa, por causa disso.

Falsos, abomináveis ídolos


Que me lembre, nunca escrevi um post a descompor uma pessoa do mundo real de cima a baixo, tanto mais que aqueles que eu verdadeiramente gostaria de descompor são, normalmente, alvos demasiadamente fáceis, tipo Eduardo de Sá, de modo que não me dou ao trabalho de tal baixeza.
Hoje, porém, vou abrir uma excepção. E essa excepção é a Oprah, cuja irresponsabilidade chocante não será, com certeza, devidamente expressa pelas minhas tristes palavras espalhadas ao vento, como diria o Magnífico Bardo, aka Camões (não que eu alguma vez me compare a Camões - quer dizer: não comparo o talento, evidentemente, mas a tristeza se calhar até comparo).
Adiante. Ora, esta Oprah, que tem o grande defeito sumamente conhecido que é o de ter um problema de identidade profundo e pensar que é Deus, dedica um programa (programa 13, série 17 - por favor confirmem, se não acreditarem em mim) ao modo como mulheres de diferentes países vivem. E houve uma senhora do Dubai. E esta senhora do Dubai diz que tem uma vida muito confortável e mimosinha: a sogra tem um "chef" que lhe faz a comida toda, e ela própria tem uma criada filipina a viver em casa, porque a maior parte das famílias tem, além de um marido que lhe paga as contas todas do telemóvel, porque os maridos fazem isso às mulheres no Dubai. Mas atenção, que não se pense que no Dubai é só boa vida, não!, no Dubai também há pessoas que têm de ir à luta todos os dias. E pergunta a Oprah se no Dubai há sem-abrigos. E diz a residente no Dubai que não, que não há, porque o governo toma muito bem conta dos cidadãos. Não se paga conta de electricidade, há cuidados médicos de graça para toda a gente, todos têm direito a subsídio de desemprego, e portanto no Dubai não há sem abrigos. Não há pobres, portanto.
Esta Oprah devia, pura e simplesmente, ter vergonha naquela cara por permitir este tipo de propaganda obscena e indesculpável. Não estou a dirigir a minha raiva à pobre de espírito residente no Dubai - as pessoas acreditam no que querem, especialmente se escolhem que governos e políticos e a sua própria parvoíce pensem por elas. Agora, esta Oprah, auto-proclamada salvadora da pátria, sempre tão boazinha, sempre tão justiceirazinha, sempre tão humanitária que até promove programas excelsos como o Dr Phil, esta Oprah não investiga, não se dá ao trabalho, de pôr os olhos nesta situação que se passa no Dubai? Como é que é possível, por parte de quem se comporta como uma verdadeira heroína, defensora de pobres e oprimidos, porque ela própria fez parte deles?
Eu sei que o programa está já datado. Eu sei que o Dubai já foi à vida, afogado no tal credit crunch. Mas não muda o facto da heroína Oprah permitir propaganda mentirosa e chocante no programinha dela.
Aquilo que me interrogo é se o faz por indesculpável e medíocre ignorância ou por igualmente indesculpável indiferença. A resposta é tristemente arrepiante em ambos os casos.

terça-feira, 9 de março de 2010

Pinta


Da mesma forma que há coisas intrinsecamente más, também as há intrinsecamente boas. Como por exemplo, Marlon Brando, mais concretamente na cena da varanda no Eléctrico Chamado Desejo (doravante "Streetcar", que é como eu gosto de me referir a este filme, que sou pessoa de tu-cá-tu-lá).
Não me parece que alguém possa ficar indiferente a Brando (em novo), nem mesmo homens, embora compreenda que alguns sintam a necessidade de não o admitir. Nada tem a ver com preferências íntimas ou falta delas - tem a ver com o facto de algumas pessoas, homens ou mulheres, terem um magnetismo indelével, inegável, inultrapassável. Aquele tipo de pessoas à volta das quais os outros giram como pequenos satélites deslumbrados. Muitas vezes, estas pessoas nem sequer são muito bonitas, de feições perfeitas e imaculadas. Às vezes, até são feias. Mas, como diria o Nelo, personagem do grande Herman, acerca de si próprio, "têm muito poder".
E são estes, até, os casos mais interessantes e profundos de atracção - os feios com pinta.
Não era o caso de Brando, porém. Era deslumbrante com pinta. Teve sorte, nada a fazer.



Sinais exteriores de riqueza

Ena pá!
Este blogue tem 15 seguidores, o que é um número respeitabilíssimo. Porreiro.
Obrigada a todos.
Para comemorar, vou pôr uma aplicaçãozinha aqui ao lado, esperando que ninguém se importe.
Se não achasse uma piroseira, punha também um smile.
Bem-haja, sim?

segunda-feira, 8 de março de 2010

Está mal

Disseram-me assim: "não posso dizer mal da Sandra Bullock nem do filme, porque ainda não vi".
As pessoas estão sempre a usar este argumento - não dizer mal sem ver o filme, sem ler o livro, sem experimentar o vestido. Concordo que se deve deixar a maledicência para momentos vis e baixos que todos devemos evitar. Mas não concordo que não se possa formar uma opinião ainda antes do primeiro contacto.
Lamentavelmente, algumas coisas são intrinsicamente más e não precisamos de tentar gastar o nosso tempo com elas para perceber tal verdade. Eu não vi o filme com a Sandra Bullock nem quero ver, porque tenho 99% de certeza que vai ser mau. E, sinceramente, o 1% de margem de dúvida não me incomoda o suficiente para perder tempo a ver o filme.
Tal como nunca li nenhum livro de Nicholas Sparks nem vi nenhum filme baseado na obra do senhor e tenho 100% certeza de que não prestam. Não preciso de ver. Qualquer pessoa sabe.
Da mesma forma que algumas coisas, na vida e no mundo, estão certas e estão erradas, sem relativismos ou margens para dúvidas. Converso algumas vezes com um indivíduo meu conhecido a fazer doutoramento em Ética, que diz que é muito complicado decidir sobre a excisão feminina, porque "faz parte da cultura das pessoas". Pois. Mas há tradições e costumes errados que têm de se mudar. Mais uma vez, qualquer pessoa sabe.
Lembrei-me disto porque é Dia da Mulher. E há coisas intrinsicamente más. Não preciso de ver o filme ou experimentar o vestido para saber.

The Dude abides

De que gostei na noite passada, isto é, hoje, quando descobri os vencedores? Gostei deste homem a receber o Oscar:



Sim senhora. Não vi o filme, mas Jeff Bridges merece, com certeza, que ele é um fixe (inesquecível no Big Lebowski).
Para o resto, falta-me a pachorra. É tudo uma seca, como diria Jacintinho n'A Cidade e as Serras. Falta-me, principalmente, a paciência para a Sandra Bullock, que sempre achei um tanto ou quanto canastrona, e para a Mo'nique, que sempre que abre a boca parece que tem a lágrima ao canto do olho e tudo lhe treme ("thank you, Gaaaaawd!"). Um pouquinho mais de naturalidade.
Mas enfim.

Rita juntou-se ao grupo das Pessoas que Não Querem a Miley Cyrus nos Óscares


Os Óscares vão começar daqui a nada. Estou entretida a ver a passadeira vermelha, onde um ser aparentemente do sexo masculino entrevista esse outro ser que é a Miley Cyrus (reparar neste beicinho... eh pá... 16 anos e já usa botox? Mas que mundo este...).
Os Óscares são o que são, mas eu pensava que ainda tinham levemente a ver com o cinema. Já vi que não.
A Miley Cyrus?! A Miley Cyrus.
Vou passar o resto da noite a tentar perceber porque é que isto me irrita tanto.
A Miley Cyrus... mas ... ?
Ah, e espero que ganhem os Coen, que nitidamente estão entre os nomeados para dignificar o acervo de filmes deste ano, que é assim um bocadinho paupérrimo e óbvio.
A Miley Cyrus...?

domingo, 7 de março de 2010

Joan Collins e os autocarros que ela apanha


Na minha infância, havia uma mulher que me fascinava e que se chamava Alexis Carrington, má como as víboras e empenhada em destruir a vida do ex-marido magnata, que a tinha deixado para casar com uma loura deslavada de sorriso beatífico e claustral, que era a Linda Evans na vida real e que, também na vida real, namorou com aquele artista grego que dá vontade de rir, o Yanni.
A Alexis Carrington movia-se num mundo que eu nem sempre podia contemplar, porque a minha mãe não me deixava, e que era uma telenovela chamada Dinastia, protagonizada pela Joan Collins. Esta mulher suscitava-me espanto e admiração: aquelas unhas vermelhas e magníficas, a ostensiva maquilhagem, o cabelo escuro, muito ondulado e muito armado, a roupa faiscante, os ombros infindos devido a enchumaços épicos, enfim, uma maravilha. A Joan era um equilíbrio precário entre a aristocrata falida e a diva de bordel, a dona de casa abastada e a mulher perdida, o refinamento de maneiras e a descompostura da mulher traída, sem casa e sem marido. Magnífico.
Também ainda em pequena, li uma entrevista, uma vez, com a Joan. Dizia ela (era, até, a manchete da entrevista) que "os homens são como os autocarros: perde-se um, espera-se um bocadinho e chega outro" (presumo que os homens possam dizer o mesmo das mulheres).
Esta clarividência tem-me acompanhado na vida. Houve alturas de grande desânimo, em que me pus a pensar que, daquela vez, tinha definitivamente perdido o autocarro, que nunca mais viria outro, e que ficaria ali, à beira da estrada, sem destino, para o resto da vida. Mas a Joan estava certa. Chegou sempre outro autocarro e, mesmo que o bilhete fosse caro, valeu sempre a pena pagar. E esta forma sensata de ver a vida, é a Joan Collins que a ensina.

sexta-feira, 5 de março de 2010

Xanax


Descobri um admirável mundo novo.
Um mundo em que deito a cabeça na almofada e durmo. Durmo profundamente, o ritmo cardíaco a ronronar que nem gatinho bem aninhado, as pálpebras profundamente fechadinhas.
Um mundo em que não ando de nó no estômago, em que as pequenas contradições e mesquinhas amarguras do dia-a-dia não me incomodam, em que as pequenas questiúnculas não me parecem mais do que isso - apenas questiúnculas.
Um mundo em que sorrio, em que descanso, em que me sinto normal e a cabeça respira, aliviada.
Às drogas, eu digo sim.



Chuva


Hoje choveu tanto, tanto, tanto, que a chuva entrou pelos meus sapatos, olhos, vestidos, e inundou-me, e quase me afogou, e às tantas eu nem conseguia respirar, e então comecei a nadar.
Nadei, nadei, nadei, e à minha volta havia muita gente também a nadar, alguns até furiosamente, sempre acompanhados pelo martelar incessante, quase cruel, da chuva, as gotas na nossa cabeça, as gotas no nosso pescoço e arrepiavam, e tudo a nadar, até que perguntei a alguém, "mas estamos a nadar para onde?", e a pessoa respondeu, "não sei, mas não podemos parar, não é?", e eu perguntei, "porquê?", e a pessoa respondeu novamente, "porque se pararmos não vamos a lado nenhum. Se continuarmos a nadar, talvez cheguemos a qualquer lado, sei lá".
Eu nadei, nadei, nadei e a chuva nunca parou.
Agora já estou em casa e, lá fora, não se ouve barulho nenhum. A chuva silenciou tudo, e ela própria já se calou.

quinta-feira, 4 de março de 2010

Petals on a wet, black bough


Hoje aconteceu-me uma coisa tão estranha.
Estava a tomar café e a ler o jornal. É uma combinação que me agrada, café e jornal.
Bom. Acabei de ler o jornal, acabei o café (tenho o péssimo hábito de beber café a correr, a queimar-me a língua; a minha mãe, grande apreciadora e perita em matéria de café, diz que isso é sinal de quem é novato nestas andanças e não aprendeu, ainda, a equilibrar a curteza de uma bica com o tempo que é preciso para a apreciar verdadeiramente; ora, eu bebo café há mais de dez anos e a verdade é que, de facto, nunca consegui dominar bem esta técnica. Tenho medo que fique frio de repente e então bebo-o logo de enfiada, assim que tenho a chávena nas mãos). Adiante. Levantei-me para pagar e, à minha frente na caixa, estava uma rapariga (ou senhora - lá está, nunca sei), mas enfim, estava uma rapariga à minha frente que olha para mim e me dirige um sorriso imenso, aberto, e esboça um "olá". Como se me conhecesse.
A questão era: eu tinha uma vaga ideia de conhecer aquela cara. Vaguíssima, desvanecida, apagada quase à extinção, e não me conseguia lembrar de todo se a conhecia de facto, ou não.
A rapariga continuava a sorrir. Parecia tão contente por me ver. E eu fiquei especada, a tentar sorrir, mas de certeza a fazer cara de parva, e só pensava "se eu lhe perguntar 'mas eu conheço-a de algum lado?', vou ser muitíssimo mal-educada, não posso de todo dirigir-me a ela assim". De modo que decidi ficar ali a fazer figura de parva, de meio sorriso posto, até ela me deixar passar à frente e eu pagar a despesa.
Depois, agarrei no jornal, de cabeça baixa, a fingir que o estava a ler, para poder sair do café rapidamente sem ter de encarar novamente a rapariga. Que feio.
O sorriso dela era mesmo simpático. Parecia o sorriso de alguém que gosta de nós.
Mas será possível eu ter conhecido uma pessoa assim e não me conseguir lembrar?