Adoro linguagem barroca, excessiva, extravagante, adjectivos, muitos adjectivos, vírgulas, graus superlativos absolutos sintéticos e analíticos, conjunções copulativas e também causais, travessões, pontos e vírgulas, advérbios de modo, sujeitos intermináveis, predicados incisivos, complementos circunstanciais quilométricos, complementos agentes da passiva ad aeternum, apostos e complementos a perder de vista, frases que se prolongam e duram, duram, duram, e acima de tudo muitos adjectivos, tantos adjectivos, o Eça de Queiroz usava sempre adjectivação binária, por isso gosto tanto dele, por mim até podia usar trenária ou quaternária, que as valsas são sempre rápidas demais para meu gosto, e compassos mais longos oferecem mais tempo para disfrutar, que morfologia esplêndida tem o adjectivo, magnífico, magnificente, magnânimo, como se pode viver sem adjectivos, não pode, e a seguir a adjectivos gosto de vírgulas, essenciais para a frase não acabar nunca, e a seguir a vírgulas gosto do travessão, e acima de tudo gosto da língua portuguesa, que aguenta uma sintaxe de arrasar, uma sintaxe em que as frases nunca morrem, nunca sofrem o corte do ponto final, tão anglo-saxónico, e embora eu me considere uma anglófila porque gosto de inglês e de Inglaterra - gosto, sim, e muito -, continuando, apesar disto, o português contorna os pontos finais que é uma beleza, uma verdadeira arte, uma manobra de diversão linguisticamente perfeita, e portanto gosto de vírgulas, gosto de adjectivos, a quem Lobo Antunes e Cardoso Pires faziam guerra, e ainda bem para eles porque escrevem magnificamente e eu apenas me rendo a essa evidência, mas gosto de vírgulas, gosto de adjectivos, e abomino insensatamente, tal como Cesário Verde adorava ângulos agudos mas ao contrário, o ponto final.
sexta-feira, 12 de março de 2010
Com que voz
Numa cena de Blue in the Face (vide vídeo abaixo), Jim Jarmush decide deixar de fumar e partilhar o seu derradeiro cigarro com Harvey Keitel, que trabalha numa tabacaria e que lhe vende tabaco há anos. Jim Jarmush diz que, entre outras razões, vai sentir muito a falta do cigarro porque, e passo a citar: sex and cigarettes, you've got to admit...having a cigarette after sex, that's like... a cigarette never tastes like that, you know. To share a cigarette with your lover...
Ao que Karvey Keitel responde, ah, that's bliss.Eu não fumo, porque sou tisicazinha e não posso, embora ninguém diga olhando para mim, porque não me dá para emagrecer, mas enfim, são os padecimentos da alma e do corpo que por vezes assumem estranhas formas. Continuando. Não fumo, portanto não sei de que é que o Jim Jarmush fala, não faço ideia absolutamente nenhuma, nenhuma.
Sei, porém, o que é partilhar uma canção com um amigo. Isso sei bem o que é, e tenho sempre muitas saudades das nossas cordas vocais sintonizadas, gargantas esganiçadas mas muitíssimo empenhadas e convictas, absolutamente dedicadas àquela canção do princípio ao fim. Os poucos minutos que dura a canção são uma espécie de concretização da amizade. É verdadeiramente lindo. Chego a fazer playlists de canções que já cantei, no carro, na rua, numa festa, com este ou aquele amigo, quando tenho saudades dele ou dela. Quando volto a cantar a canção, é uma espécie de evocação da pessoa de quem sentimos a falta. E nem sempre se trata de boa música. Às vezes, são canções pirosíssimas. Mas sabe sempre tão bem cantá-las a plenos pulmões com um amigo. Partilhar uma canção com um amigo - ah, que felicidade.
quarta-feira, 10 de março de 2010
E é isto uma senhora
Há um conto em Dubliners, de James Joyce, acerca de uma senhora que queria que a filha tocasse no recital de piano, e queria à força que isso acontecesse, de tal modo que começa o conto como personagem respeitável e incólume acaba a fazer figura de parva aos olhos dos outros, objecto de desprezo e escárnio. "E é isto uma senhora!" - é a última frase que pronunciam sobre ela.
Já não leio o conto há muito tempo, mas nunca me esqueci desta frase. Porque o mundo é exigente demais. As pessoas têm de ser sempre compostas, inteligentes, olhar por onde andam e nunca dar um passo em falso. Escolher amigos, profissão, casa e rotinas sem se enganarem, um engano, um único engano pode ser desastroso, depois não entras no curso que queres e vais para o desemprego, depois não arranjas o emprego que queres e és explorado e macerado até te pisarem o sangue, depois não te apaixonas e não te casas nem tens filhos e és infeliz para o resto da vida, quem sabe se não te tornas tarado, quem sabe se os outros não vão olhar para ti como o pequeno, talvez inofensivo mas é sempre de desconfiar, maluco que se senta à mesa do café, de meio sorriso na cara, a meter conversa com todos, a segredar palavras indecifráveis de si para si, emparedado numa solidão que mete pena, e depois como é?, é esta a vida que queres para ti?
É impossível viver assim. A senhora só queria ver a filha a tocar piano em público, deixem-na em paz.Não se é menos senhora, ou menos pessoa, por causa disso.
Falsos, abomináveis ídolos

Que me lembre, nunca escrevi um post a descompor uma pessoa do mundo real de cima a baixo, tanto mais que aqueles que eu verdadeiramente gostaria de descompor são, normalmente, alvos demasiadamente fáceis, tipo Eduardo de Sá, de modo que não me dou ao trabalho de tal baixeza.
Hoje, porém, vou abrir uma excepção. E essa excepção é a Oprah, cuja irresponsabilidade chocante não será, com certeza, devidamente expressa pelas minhas tristes palavras espalhadas ao vento, como diria o Magnífico Bardo, aka Camões (não que eu alguma vez me compare a Camões - quer dizer: não comparo o talento, evidentemente, mas a tristeza se calhar até comparo).
Adiante. Ora, esta Oprah, que tem o grande defeito sumamente conhecido que é o de ter um problema de identidade profundo e pensar que é Deus, dedica um programa (programa 13, série 17 - por favor confirmem, se não acreditarem em mim) ao modo como mulheres de diferentes países vivem. E houve uma senhora do Dubai. E esta senhora do Dubai diz que tem uma vida muito confortável e mimosinha: a sogra tem um "chef" que lhe faz a comida toda, e ela própria tem uma criada filipina a viver em casa, porque a maior parte das famílias tem, além de um marido que lhe paga as contas todas do telemóvel, porque os maridos fazem isso às mulheres no Dubai. Mas atenção, que não se pense que no Dubai é só boa vida, não!, no Dubai também há pessoas que têm de ir à luta todos os dias. E pergunta a Oprah se no Dubai há sem-abrigos. E diz a residente no Dubai que não, que não há, porque o governo toma muito bem conta dos cidadãos. Não se paga conta de electricidade, há cuidados médicos de graça para toda a gente, todos têm direito a subsídio de desemprego, e portanto no Dubai não há sem abrigos. Não há pobres, portanto.
Esta Oprah devia, pura e simplesmente, ter vergonha naquela cara por permitir este tipo de propaganda obscena e indesculpável. Não estou a dirigir a minha raiva à pobre de espírito residente no Dubai - as pessoas acreditam no que querem, especialmente se escolhem que governos e políticos e a sua própria parvoíce pensem por elas. Agora, esta Oprah, auto-proclamada salvadora da pátria, sempre tão boazinha, sempre tão justiceirazinha, sempre tão humanitária que até promove programas excelsos como o Dr Phil, esta Oprah não investiga, não se dá ao trabalho, de pôr os olhos nesta situação que se passa no Dubai? Como é que é possível, por parte de quem se comporta como uma verdadeira heroína, defensora de pobres e oprimidos, porque ela própria fez parte deles?
Eu sei que o programa está já datado. Eu sei que o Dubai já foi à vida, afogado no tal credit crunch. Mas não muda o facto da heroína Oprah permitir propaganda mentirosa e chocante no programinha dela.
Aquilo que me interrogo é se o faz por indesculpável e medíocre ignorância ou por igualmente indesculpável indiferença. A resposta é tristemente arrepiante em ambos os casos.
Esta Oprah devia, pura e simplesmente, ter vergonha naquela cara por permitir este tipo de propaganda obscena e indesculpável. Não estou a dirigir a minha raiva à pobre de espírito residente no Dubai - as pessoas acreditam no que querem, especialmente se escolhem que governos e políticos e a sua própria parvoíce pensem por elas. Agora, esta Oprah, auto-proclamada salvadora da pátria, sempre tão boazinha, sempre tão justiceirazinha, sempre tão humanitária que até promove programas excelsos como o Dr Phil, esta Oprah não investiga, não se dá ao trabalho, de pôr os olhos nesta situação que se passa no Dubai? Como é que é possível, por parte de quem se comporta como uma verdadeira heroína, defensora de pobres e oprimidos, porque ela própria fez parte deles?
Eu sei que o programa está já datado. Eu sei que o Dubai já foi à vida, afogado no tal credit crunch. Mas não muda o facto da heroína Oprah permitir propaganda mentirosa e chocante no programinha dela.
Aquilo que me interrogo é se o faz por indesculpável e medíocre ignorância ou por igualmente indesculpável indiferença. A resposta é tristemente arrepiante em ambos os casos.
terça-feira, 9 de março de 2010
Pinta

Da mesma forma que há coisas intrinsecamente más, também as há intrinsecamente boas. Como por exemplo, Marlon Brando, mais concretamente na cena da varanda no Eléctrico Chamado Desejo (doravante "Streetcar", que é como eu gosto de me referir a este filme, que sou pessoa de tu-cá-tu-lá).
Não me parece que alguém possa ficar indiferente a Brando (em novo), nem mesmo homens, embora compreenda que alguns sintam a necessidade de não o admitir. Nada tem a ver com preferências íntimas ou falta delas - tem a ver com o facto de algumas pessoas, homens ou mulheres, terem um magnetismo indelével, inegável, inultrapassável. Aquele tipo de pessoas à volta das quais os outros giram como pequenos satélites deslumbrados. Muitas vezes, estas pessoas nem sequer são muito bonitas, de feições perfeitas e imaculadas. Às vezes, até são feias. Mas, como diria o Nelo, personagem do grande Herman, acerca de si próprio, "têm muito poder".
E são estes, até, os casos mais interessantes e profundos de atracção - os feios com pinta.
Não era o caso de Brando, porém. Era deslumbrante com pinta. Teve sorte, nada a fazer.
E são estes, até, os casos mais interessantes e profundos de atracção - os feios com pinta.
Não era o caso de Brando, porém. Era deslumbrante com pinta. Teve sorte, nada a fazer.
Sinais exteriores de riqueza
Ena pá!
Este blogue tem 15 seguidores, o que é um número respeitabilíssimo. Porreiro.
Obrigada a todos.
Para comemorar, vou pôr uma aplicaçãozinha aqui ao lado, esperando que ninguém se importe.
Se não achasse uma piroseira, punha também um smile.
Bem-haja, sim?
Este blogue tem 15 seguidores, o que é um número respeitabilíssimo. Porreiro.
Obrigada a todos.
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Se não achasse uma piroseira, punha também um smile.
Bem-haja, sim?
segunda-feira, 8 de março de 2010
Está mal
Disseram-me assim: "não posso dizer mal da Sandra Bullock nem do filme, porque ainda não vi".
As pessoas estão sempre a usar este argumento - não dizer mal sem ver o filme, sem ler o livro, sem experimentar o vestido. Concordo que se deve deixar a maledicência para momentos vis e baixos que todos devemos evitar. Mas não concordo que não se possa formar uma opinião ainda antes do primeiro contacto.
Lamentavelmente, algumas coisas são intrinsicamente más e não precisamos de tentar gastar o nosso tempo com elas para perceber tal verdade. Eu não vi o filme com a Sandra Bullock nem quero ver, porque tenho 99% de certeza que vai ser mau. E, sinceramente, o 1% de margem de dúvida não me incomoda o suficiente para perder tempo a ver o filme.
Tal como nunca li nenhum livro de Nicholas Sparks nem vi nenhum filme baseado na obra do senhor e tenho 100% certeza de que não prestam. Não preciso de ver. Qualquer pessoa sabe.
Da mesma forma que algumas coisas, na vida e no mundo, estão certas e estão erradas, sem relativismos ou margens para dúvidas. Converso algumas vezes com um indivíduo meu conhecido a fazer doutoramento em Ética, que diz que é muito complicado decidir sobre a excisão feminina, porque "faz parte da cultura das pessoas". Pois. Mas há tradições e costumes errados que têm de se mudar. Mais uma vez, qualquer pessoa sabe.
Lembrei-me disto porque é Dia da Mulher. E há coisas intrinsicamente más. Não preciso de ver o filme ou experimentar o vestido para saber.
Tal como nunca li nenhum livro de Nicholas Sparks nem vi nenhum filme baseado na obra do senhor e tenho 100% certeza de que não prestam. Não preciso de ver. Qualquer pessoa sabe.
Da mesma forma que algumas coisas, na vida e no mundo, estão certas e estão erradas, sem relativismos ou margens para dúvidas. Converso algumas vezes com um indivíduo meu conhecido a fazer doutoramento em Ética, que diz que é muito complicado decidir sobre a excisão feminina, porque "faz parte da cultura das pessoas". Pois. Mas há tradições e costumes errados que têm de se mudar. Mais uma vez, qualquer pessoa sabe.
Lembrei-me disto porque é Dia da Mulher. E há coisas intrinsicamente más. Não preciso de ver o filme ou experimentar o vestido para saber.
The Dude abides
De que gostei na noite passada, isto é, hoje, quando descobri os vencedores? Gostei deste homem a receber o Oscar:


Sim senhora. Não vi o filme, mas Jeff Bridges merece, com certeza, que ele é um fixe (inesquecível no Big Lebowski).
Para o resto, falta-me a pachorra. É tudo uma seca, como diria Jacintinho n'A Cidade e as Serras. Falta-me, principalmente, a paciência para a Sandra Bullock, que sempre achei um tanto ou quanto canastrona, e para a Mo'nique, que sempre que abre a boca parece que tem a lágrima ao canto do olho e tudo lhe treme ("thank you, Gaaaaawd!"). Um pouquinho mais de naturalidade.
Mas enfim.Rita juntou-se ao grupo das Pessoas que Não Querem a Miley Cyrus nos Óscares

Os Óscares vão começar daqui a nada. Estou entretida a ver a passadeira vermelha, onde um ser aparentemente do sexo masculino entrevista esse outro ser que é a Miley Cyrus (reparar neste beicinho... eh pá... 16 anos e já usa botox? Mas que mundo este...).
Os Óscares são o que são, mas eu pensava que ainda tinham levemente a ver com o cinema. Já vi que não.
A Miley Cyrus?! A Miley Cyrus.Vou passar o resto da noite a tentar perceber porque é que isto me irrita tanto.
A Miley Cyrus... mas ... ?
Ah, e espero que ganhem os Coen, que nitidamente estão entre os nomeados para dignificar o acervo de filmes deste ano, que é assim um bocadinho paupérrimo e óbvio.
A Miley Cyrus...?
A Miley Cyrus... mas ... ?
Ah, e espero que ganhem os Coen, que nitidamente estão entre os nomeados para dignificar o acervo de filmes deste ano, que é assim um bocadinho paupérrimo e óbvio.
A Miley Cyrus...?
domingo, 7 de março de 2010
Joan Collins e os autocarros que ela apanha

Na minha infância, havia uma mulher que me fascinava e que se chamava Alexis Carrington, má como as víboras e empenhada em destruir a vida do ex-marido magnata, que a tinha deixado para casar com uma loura deslavada de sorriso beatífico e claustral, que era a Linda Evans na vida real e que, também na vida real, namorou com aquele artista grego que dá vontade de rir, o Yanni.
A Alexis Carrington movia-se num mundo que eu nem sempre podia contemplar, porque a minha mãe não me deixava, e que era uma telenovela chamada Dinastia, protagonizada pela Joan Collins. Esta mulher suscitava-me espanto e admiração: aquelas unhas vermelhas e magníficas, a ostensiva maquilhagem, o cabelo escuro, muito ondulado e muito armado, a roupa faiscante, os ombros infindos devido a enchumaços épicos, enfim, uma maravilha. A Joan era um equilíbrio precário entre a aristocrata falida e a diva de bordel, a dona de casa abastada e a mulher perdida, o refinamento de maneiras e a descompostura da mulher traída, sem casa e sem marido. Magnífico.
Também ainda em pequena, li uma entrevista, uma vez, com a Joan. Dizia ela (era, até, a manchete da entrevista) que "os homens são como os autocarros: perde-se um, espera-se um bocadinho e chega outro" (presumo que os homens possam dizer o mesmo das mulheres).
Esta clarividência tem-me acompanhado na vida. Houve alturas de grande desânimo, em que me pus a pensar que, daquela vez, tinha definitivamente perdido o autocarro, que nunca mais viria outro, e que ficaria ali, à beira da estrada, sem destino, para o resto da vida. Mas a Joan estava certa. Chegou sempre outro autocarro e, mesmo que o bilhete fosse caro, valeu sempre a pena pagar. E esta forma sensata de ver a vida, é a Joan Collins que a ensina.
A Alexis Carrington movia-se num mundo que eu nem sempre podia contemplar, porque a minha mãe não me deixava, e que era uma telenovela chamada Dinastia, protagonizada pela Joan Collins. Esta mulher suscitava-me espanto e admiração: aquelas unhas vermelhas e magníficas, a ostensiva maquilhagem, o cabelo escuro, muito ondulado e muito armado, a roupa faiscante, os ombros infindos devido a enchumaços épicos, enfim, uma maravilha. A Joan era um equilíbrio precário entre a aristocrata falida e a diva de bordel, a dona de casa abastada e a mulher perdida, o refinamento de maneiras e a descompostura da mulher traída, sem casa e sem marido. Magnífico.
Também ainda em pequena, li uma entrevista, uma vez, com a Joan. Dizia ela (era, até, a manchete da entrevista) que "os homens são como os autocarros: perde-se um, espera-se um bocadinho e chega outro" (presumo que os homens possam dizer o mesmo das mulheres).
Esta clarividência tem-me acompanhado na vida. Houve alturas de grande desânimo, em que me pus a pensar que, daquela vez, tinha definitivamente perdido o autocarro, que nunca mais viria outro, e que ficaria ali, à beira da estrada, sem destino, para o resto da vida. Mas a Joan estava certa. Chegou sempre outro autocarro e, mesmo que o bilhete fosse caro, valeu sempre a pena pagar. E esta forma sensata de ver a vida, é a Joan Collins que a ensina.
sexta-feira, 5 de março de 2010
Xanax

Descobri um admirável mundo novo.
Um mundo em que deito a cabeça na almofada e durmo. Durmo profundamente, o ritmo cardíaco a ronronar que nem gatinho bem aninhado, as pálpebras profundamente fechadinhas.
Um mundo em que não ando de nó no estômago, em que as pequenas contradições e mesquinhas amarguras do dia-a-dia não me incomodam, em que as pequenas questiúnculas não me parecem mais do que isso - apenas questiúnculas.
Um mundo em que sorrio, em que descanso, em que me sinto normal e a cabeça respira, aliviada.
Às drogas, eu digo sim.
Chuva

Hoje choveu tanto, tanto, tanto, que a chuva entrou pelos meus sapatos, olhos, vestidos, e inundou-me, e quase me afogou, e às tantas eu nem conseguia respirar, e então comecei a nadar.
Nadei, nadei, nadei, e à minha volta havia muita gente também a nadar, alguns até furiosamente, sempre acompanhados pelo martelar incessante, quase cruel, da chuva, as gotas na nossa cabeça, as gotas no nosso pescoço e arrepiavam, e tudo a nadar, até que perguntei a alguém, "mas estamos a nadar para onde?", e a pessoa respondeu, "não sei, mas não podemos parar, não é?", e eu perguntei, "porquê?", e a pessoa respondeu novamente, "porque se pararmos não vamos a lado nenhum. Se continuarmos a nadar, talvez cheguemos a qualquer lado, sei lá".
Eu nadei, nadei, nadei e a chuva nunca parou.Agora já estou em casa e, lá fora, não se ouve barulho nenhum. A chuva silenciou tudo, e ela própria já se calou.
quinta-feira, 4 de março de 2010
Petals on a wet, black bough

Hoje aconteceu-me uma coisa tão estranha.
Estava a tomar café e a ler o jornal. É uma combinação que me agrada, café e jornal.
Bom. Acabei de ler o jornal, acabei o café (tenho o péssimo hábito de beber café a correr, a queimar-me a língua; a minha mãe, grande apreciadora e perita em matéria de café, diz que isso é sinal de quem é novato nestas andanças e não aprendeu, ainda, a equilibrar a curteza de uma bica com o tempo que é preciso para a apreciar verdadeiramente; ora, eu bebo café há mais de dez anos e a verdade é que, de facto, nunca consegui dominar bem esta técnica. Tenho medo que fique frio de repente e então bebo-o logo de enfiada, assim que tenho a chávena nas mãos). Adiante. Levantei-me para pagar e, à minha frente na caixa, estava uma rapariga (ou senhora - lá está, nunca sei), mas enfim, estava uma rapariga à minha frente que olha para mim e me dirige um sorriso imenso, aberto, e esboça um "olá". Como se me conhecesse.
A questão era: eu tinha uma vaga ideia de conhecer aquela cara. Vaguíssima, desvanecida, apagada quase à extinção, e não me conseguia lembrar de todo se a conhecia de facto, ou não.
A rapariga continuava a sorrir. Parecia tão contente por me ver. E eu fiquei especada, a tentar sorrir, mas de certeza a fazer cara de parva, e só pensava "se eu lhe perguntar 'mas eu conheço-a de algum lado?', vou ser muitíssimo mal-educada, não posso de todo dirigir-me a ela assim". De modo que decidi ficar ali a fazer figura de parva, de meio sorriso posto, até ela me deixar passar à frente e eu pagar a despesa.
Depois, agarrei no jornal, de cabeça baixa, a fingir que o estava a ler, para poder sair do café rapidamente sem ter de encarar novamente a rapariga. Que feio.
O sorriso dela era mesmo simpático. Parecia o sorriso de alguém que gosta de nós.
Mas será possível eu ter conhecido uma pessoa assim e não me conseguir lembrar?
A questão era: eu tinha uma vaga ideia de conhecer aquela cara. Vaguíssima, desvanecida, apagada quase à extinção, e não me conseguia lembrar de todo se a conhecia de facto, ou não.
A rapariga continuava a sorrir. Parecia tão contente por me ver. E eu fiquei especada, a tentar sorrir, mas de certeza a fazer cara de parva, e só pensava "se eu lhe perguntar 'mas eu conheço-a de algum lado?', vou ser muitíssimo mal-educada, não posso de todo dirigir-me a ela assim". De modo que decidi ficar ali a fazer figura de parva, de meio sorriso posto, até ela me deixar passar à frente e eu pagar a despesa.
Depois, agarrei no jornal, de cabeça baixa, a fingir que o estava a ler, para poder sair do café rapidamente sem ter de encarar novamente a rapariga. Que feio.
O sorriso dela era mesmo simpático. Parecia o sorriso de alguém que gosta de nós.
Mas será possível eu ter conhecido uma pessoa assim e não me conseguir lembrar?
quarta-feira, 3 de março de 2010
Afinal, não

Não, afinal não. Afinal não tenho nada medo dos burgueses que comem frango assado e vão ao supermercado no Seat Ibiza. Eu própria quero ter um Seat Ibiza.
Afinal, as famílias que vão aos centros comerciais já não me parecem amorfas, mas sim felizes e alegres, a comprar coisas. Eu também quero comprar coisas. Eu também quero ir ao centro comercial e ser, digamos, feliz e alegre, e ter um cão ou um gato, e ir almoçar com os sogros aos Domingos, e ir à esplanada depois do escritório beber uma cerveja no Verão, e conseguir pagar prestações para ir à República Dominicana, e fazer e congelar sopas, e mudar fraldas de bebés, e comprar DVDs com a Cinderella, e sentir convictamente que algo é "fofinho", e escolher a escola dos filhos, e ir falar com educadoras de infância, e comprar taparuéres, e comprar mercearias ao mês, e adiantar jantares e almoços, e deixar de ter tempo para ter um blog e para pensar em Sopranos, Dartacões, Brunos Aleixos, Montys Pythons, youtubes, a canção do George Michael dos anos 80 em que ele aparece a dançar de costas e é tão gira, deixar de ter tempo para tudo, começar a ir ao ginásio, querer ser magra todos os dias, preocupar-me em não engordar, ficar presa no trânsito, chegar a casa tarde e com trabalho, passar roupa a ferro, ter uma vivenda, ir para o trabalho de comboio, autocarro, metro.
Afinal, eu quero estas coisas todas. Não é estranho?
Afinal, eu quero estas coisas todas. Não é estranho?
segunda-feira, 1 de março de 2010
Cinema lover
Eu não fui ver a Bela e o Paparazzo. Não fui ver porque não é uma prioridade minha. Faço questão de ir ao cinema ver filmes portugueses, mais - faço questão de ir ao cinema, ponto final. Adoro cinema, é uma arte que me seduz por completo e não consigo imaginar uma vida feliz sem aqueles momentos reconfortantes em que decido ir ver o filme x a uma sala de cinema. Nunca fiz, nem penso que farei, questão em investir nos chamados "home theatres" porque os filmes que me interessam verdadeiramente são para ser vistos nas salas.
Portanto, não fui ver a Bela e o Paparazzo porque não me interessa verdadeiramente. Interessa-me apenas medianamente, porque o cinema português me interessa, portanto terei todo o gosto em vê-lo em DVD ou quando passar na televisão.
De qualquer forma, o que me parece sempre lamentável, mas absolutamente lamentável, é que este género de filmes venha sempre acompanhado por discussões que rapidamente se tornam em questiúnculas pessoais e raramente contribuem para uma perspectiva verdadeiramente saudável e interessante sobre cinema e, em particular, sobre o futuro do cinema português, que é matéria que nos devia interessar a todos, a não ser que pertençamos àquele triste grupo de pessoas que só vê filmes que incluam legendas e onde se fala inglês. Eu gosto de pensar que não me incluo nesse grupo.
O crítico Vasco Cãmara, do Público, escreveu esta crítica ao filme e deu-lhe bola preta. Mais do que o texto em si, que até me parece válido, o que dói mesmo é a bola preta. Até percebo que António Pedro Vasconcelos esteja magoado - não se arranjaria, ao menos, uma estrelinha? É que assim, como diria John Cusack em Alta Fidelidade, "that's some cold shit".
António-Pedro Vasconcelos escreveu a Vasco Câmara aqui. Acha que os motivos de Vasco Câmara foram pessoais e que este crítico é movido por um ódio ressabiado (queridas pessoas que fazem o favor de ler este post, é melhor lerem os textos originais e não se deixarem influenciar pelas minhas paráfrases).
A conclusão que eu retiro daqui é que, pelos vistos, a crítica objectiva, saudável, inteligente, é algo de impossível em Portugal (não só a crítica de cinema, mas infelizmente também a de música e a literária). Os críticos são presos por ter cão e por não ter - se gostam, são subservientes, se não gostam é porque são pseudo-intelectualóides contra o mainstream. E porém, a maior parte dos críticos não consegue, de facto, atingir um nível de argumentação objectiva que interesse a alguém. Já se sabe que gostam de Godard e não gostam dos discos da Madonna.
Por outro lado, se a resposta aos críticos é a de que todos eles são movidos por questiúnculas, ódios ou amores pessoais, então assim não vamos a lado nenhum. Já não há pachorra para esta mania de país pequeno de tornar tudo pessoal porque toda a gente se conhece.
De guerras que se levam a peito, já eu estou farta.
Isto parte-me o coração, a sério que parte. Queria ver o cinema respeitado e, acima de tudo, queria ver o cinema português respeitado e levado a sério, independentemente de os filmes serem bons ou maus. Se são bons, que os louvemos condignamente; se são maus, que o afirmemos clara, objectiva e inteligentemente.
Esse dia, ao que parece, ainda vem longe.
Portanto, não fui ver a Bela e o Paparazzo porque não me interessa verdadeiramente. Interessa-me apenas medianamente, porque o cinema português me interessa, portanto terei todo o gosto em vê-lo em DVD ou quando passar na televisão.
De qualquer forma, o que me parece sempre lamentável, mas absolutamente lamentável, é que este género de filmes venha sempre acompanhado por discussões que rapidamente se tornam em questiúnculas pessoais e raramente contribuem para uma perspectiva verdadeiramente saudável e interessante sobre cinema e, em particular, sobre o futuro do cinema português, que é matéria que nos devia interessar a todos, a não ser que pertençamos àquele triste grupo de pessoas que só vê filmes que incluam legendas e onde se fala inglês. Eu gosto de pensar que não me incluo nesse grupo.
O crítico Vasco Cãmara, do Público, escreveu esta crítica ao filme e deu-lhe bola preta. Mais do que o texto em si, que até me parece válido, o que dói mesmo é a bola preta. Até percebo que António Pedro Vasconcelos esteja magoado - não se arranjaria, ao menos, uma estrelinha? É que assim, como diria John Cusack em Alta Fidelidade, "that's some cold shit".
António-Pedro Vasconcelos escreveu a Vasco Câmara aqui. Acha que os motivos de Vasco Câmara foram pessoais e que este crítico é movido por um ódio ressabiado (queridas pessoas que fazem o favor de ler este post, é melhor lerem os textos originais e não se deixarem influenciar pelas minhas paráfrases).
A conclusão que eu retiro daqui é que, pelos vistos, a crítica objectiva, saudável, inteligente, é algo de impossível em Portugal (não só a crítica de cinema, mas infelizmente também a de música e a literária). Os críticos são presos por ter cão e por não ter - se gostam, são subservientes, se não gostam é porque são pseudo-intelectualóides contra o mainstream. E porém, a maior parte dos críticos não consegue, de facto, atingir um nível de argumentação objectiva que interesse a alguém. Já se sabe que gostam de Godard e não gostam dos discos da Madonna.
Por outro lado, se a resposta aos críticos é a de que todos eles são movidos por questiúnculas, ódios ou amores pessoais, então assim não vamos a lado nenhum. Já não há pachorra para esta mania de país pequeno de tornar tudo pessoal porque toda a gente se conhece.
De guerras que se levam a peito, já eu estou farta.
Isto parte-me o coração, a sério que parte. Queria ver o cinema respeitado e, acima de tudo, queria ver o cinema português respeitado e levado a sério, independentemente de os filmes serem bons ou maus. Se são bons, que os louvemos condignamente; se são maus, que o afirmemos clara, objectiva e inteligentemente.
Esse dia, ao que parece, ainda vem longe.
Coisas que não compreendo
Há coisas neste mundo que a minha vã filosofia não alcança, talvez por ser vã, talvez porque o engenho e a arte não me têm ajudado.
Primeiramente, não compreendo o beicinho da Angelina Jolie. Quer dizer, um monumento lindo de morrer, com uma das combinações de que eu mais gosto (cabelo escuro e olhos claros), giríssima, e depois estraga tudo sempre com aquela boquinha irritante:

Porquê?! Não compreendo.
O meu conselho à Angelina é: como diz Castiglione, sobre o qual escrevi ali em baixo, um pouquinho de naturalidade é o que se pede. Veja lá isso, Angélica.
A segunda coisa que eu não compreendo, e que é ainda mais grave, é a Kelly Family. Eu não sei se a Kelly Family ainda existe. Aliás, eu não tenho sequer a certeza de a Kelly Family ter alguma vez existido. A minha opinião é a de que alguém pegou nas tartarugas ninja e as tornou mais antropomórficas, em versão alemã (a Kelly Family era, alegadamente, um grupo musical composto por uma família alemã, tios, irmãos, primos, cunhados, uma misturada, que vinha da Alemanha. Em Portugal, lembro-me de serem muito populares quando eu era adolescente, há muitos anos):

Estes Kelly Family, como se constata, tinham dois predicados: eram todos feios; eram todos assustadoramente parecidos uns com os outros. Pareciam os Habsburgo, o produto de incesto e reprodução plurigeracional sempre dentro da mesma família. Ou então, pareciam a versão mutante dos Habsburgo. Um susto.
As raparigas cantavam como os rapazes e os rapazes cantavam como as raparigas. Era uma coisa incompreensível. Banda que desafiasse tanto, e tão ostensivamente, as convenções de género, só talvez os Hanson, outro fenómeno musical que a História, e bem, escolheu não registar (pelo menos, espero que não):

Estes são os rapazes/raparigas dos Hanson.
É isto. Alguém que me explique a Kelly Family, se alguém ainda se lembrar deles. E, já agora, também os Hanson. Bandas familiares não é comigo, é a conclusão que retiro desta história toda.
Devo confessar que tinha saudades de um post maledicente, que me esvaziasse toda a bílis. É feio. E já está.
Para acabar em beleza, deixo aqui a Kelly Family em acção. Acho que o Wes Craven devia pôr os olhinhos na performance desta gente, é o que tenho a dizer.

Porquê?! Não compreendo.
O meu conselho à Angelina é: como diz Castiglione, sobre o qual escrevi ali em baixo, um pouquinho de naturalidade é o que se pede. Veja lá isso, Angélica.
A segunda coisa que eu não compreendo, e que é ainda mais grave, é a Kelly Family. Eu não sei se a Kelly Family ainda existe. Aliás, eu não tenho sequer a certeza de a Kelly Family ter alguma vez existido. A minha opinião é a de que alguém pegou nas tartarugas ninja e as tornou mais antropomórficas, em versão alemã (a Kelly Family era, alegadamente, um grupo musical composto por uma família alemã, tios, irmãos, primos, cunhados, uma misturada, que vinha da Alemanha. Em Portugal, lembro-me de serem muito populares quando eu era adolescente, há muitos anos):

Estes Kelly Family, como se constata, tinham dois predicados: eram todos feios; eram todos assustadoramente parecidos uns com os outros. Pareciam os Habsburgo, o produto de incesto e reprodução plurigeracional sempre dentro da mesma família. Ou então, pareciam a versão mutante dos Habsburgo. Um susto.
As raparigas cantavam como os rapazes e os rapazes cantavam como as raparigas. Era uma coisa incompreensível. Banda que desafiasse tanto, e tão ostensivamente, as convenções de género, só talvez os Hanson, outro fenómeno musical que a História, e bem, escolheu não registar (pelo menos, espero que não):

Estes são os rapazes/raparigas dos Hanson.
É isto. Alguém que me explique a Kelly Family, se alguém ainda se lembrar deles. E, já agora, também os Hanson. Bandas familiares não é comigo, é a conclusão que retiro desta história toda.
Devo confessar que tinha saudades de um post maledicente, que me esvaziasse toda a bílis. É feio. E já está.
Para acabar em beleza, deixo aqui a Kelly Family em acção. Acho que o Wes Craven devia pôr os olhinhos na performance desta gente, é o que tenho a dizer.
Será talvez um lugar-comum, mas esta canção do Morrissey é suprema. E, para mim, condensa exemplarmente duas coisas que considero supremamente deprimentes: os Domingos e as cidadezinhas costeiras.
Há algo de muito estranho, quase fantasmagórico, nas terrinhas ao pé do mar. São bonitas, por um lado, mas têm sempre uma atmosfera de enterro que não consigo compreender. Alguém se esqueceu de as fechar ao público, como diz o Morrissey.
Quanto aos Domingos, penso que não preciso de me alongar relativamente ao potencial desanimador destes dias. Não conheço ninguém que goste de Domingos.Esta canção é linda.
Morrissey - Everyday Is Like Sunday
Enviado por scootaway. - Veja mais vídeos de musica, em HD!
Cartas de chuva

Os dias de chuva trazem-me sempre as Birthday Letters, de Ted Hughes, juntamente com uma tristeza pingada e cinzenta. Quando procuro activamente por este livro, em livrarias ou dias de sol, nunca o encontro; quando o céu se torna pardacento e molhado, inesperadamente, aparecem-me sempre à frente os poemas que Hughes escreveu para a sua ex-mulher morta e suicida, Sylvia Plath.
Este sábado não foi excepção. A última vez que encontrara Birthday Letters fora numa velha feira do livro, coberto por um plástico roto, as páginas empoladas da chuva. Este sábado, num Chiado escuro e chuvoso, deparei-me com o outlet da Bertrand e, por entre os montes de livros que ali estavam, as Cartas de Aniversário, numa bonita capa azul escura (costumo gostar das capas da Relógio d'Água, e esta não foi excepção), vieram direitinhas a mim, edição bilingue e tudo.
Foi o destino. Tarde de chuva, península inteira a chorar, entro numa livraria fria, com um círio cintilante, e ali, sentado e imóvel, em frente ao altar dos meus olhos, a silhueta, o esboço, a esfinge, das Cartas de Aniversário.
Desta vez, comprei-o. Está na minha estante, junto dos livros a ler rapidamente, e vou começá-lo já hoje. Porque chove, porque ainda faz frio, porque Ted Hughes escreveu sobre a sua triste, condenada, pobre Sylvia suicida.
PS: não sou responsável pelo texto completo deste post. Sou responsável por 90%, mas o terceiro parágrafo é adaptado dos GNR, ainda hoje, grande círio da música portuguesa. Quer dizer, ainda hoje, não, porque o que fizeram a partir do InVivo não interessa, mas até ao InVivo, GNR rulam.
Foi o destino. Tarde de chuva, península inteira a chorar, entro numa livraria fria, com um círio cintilante, e ali, sentado e imóvel, em frente ao altar dos meus olhos, a silhueta, o esboço, a esfinge, das Cartas de Aniversário.
Desta vez, comprei-o. Está na minha estante, junto dos livros a ler rapidamente, e vou começá-lo já hoje. Porque chove, porque ainda faz frio, porque Ted Hughes escreveu sobre a sua triste, condenada, pobre Sylvia suicida.
PS: não sou responsável pelo texto completo deste post. Sou responsável por 90%, mas o terceiro parágrafo é adaptado dos GNR, ainda hoje, grande círio da música portuguesa. Quer dizer, ainda hoje, não, porque o que fizeram a partir do InVivo não interessa, mas até ao InVivo, GNR rulam.
quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010
Educação que faz doer (SPOILERS)

Vi ontem o filme "An Education". Gostei muito, e achei a Carey Mulligan um doce, ao passo que Peter Saarsgard, o seu amante mais velho, estava terrivelmente assustador e seboso, isto é: os actores cumpriram muito bem o seu papel.
Além do filme, gostei também muito de ler aqui o relato da verdadeira história em que o filme se baseia. A jornalista Lynn Barber resume o seu affair meio sórdido, meio desiludido, com um homem mais velho, sedutor mas de pouco encanto, por quem ela nunca se apaixona, que rapidamente a entedia, e que se revela um criminoso untuoso, alguém que provoca desconforto, em quem sabemos não poder confiar. Tudo acaba de uma forma quase trágica - ele é casado, ela tinha desistido de Oxford para se tornar a sua noiva e acaba sozinha, sem noivo nem Oxford. Diz Lynn Barber que a ruptura amorosa não a afectou (nunca se tinha apaixonado por ele), mas que o que a abalou foi ter abandonado a sua própria vida e os seus planos de independência em nome de um homem da má vida que a levava a restaurantes e com quem concordou casar porque os pais lhe disseram que, quando se tem um bom marido, não é preciso ir para a universidade.
Lynn Barber diz também que, apesar do seu longínquo amante mais velho não ter passado de um criminoso que nunca sequer lhe despertou grande paixão, a "educação" que ele lhe deu é fundamental - foi com ele que aprendeu a valorizar outro tipo de homens, homens bondosos, honestos, de confiança. Sem a brutal experiência do "homem malfeitor", talvez nunca apreciasse e acabasse por se apaixonar pelo marido com quem viveu 30 anos, diz ela, este sim, o verdadeiro bom rapazinho.
Eu acho que compreendo bem o que Lynn Barber quer dizer. Há pessoas que parecem deslumbrantes à primeira vista - dinâmicas, atraentes, independentes, de bom gosto - mas que rapidamente se revelam uma imensa desilusão, de tal modo que se tornam entediantes, embaraçosas. O problema é que, se as deixamos entrar na nossa vida, podemos não saber muito bem como as tirar de lá. Mas é apenas quando nos desiludimos desta forma tão profunda que vamos à procura de outro tipo de pessoas, daquelas que nos podem fazer felizes a sério.
É pena que, para encontrarmos qualquer tipo de felicidade na vida, tenhamos primeiro de bater com a cabeça contra o muro com tanta força que nos cresce um galo. Eu tento ter a convicção de que, quando o galo passar, o muro vai abaixo.
Lynn Barber diz também que, apesar do seu longínquo amante mais velho não ter passado de um criminoso que nunca sequer lhe despertou grande paixão, a "educação" que ele lhe deu é fundamental - foi com ele que aprendeu a valorizar outro tipo de homens, homens bondosos, honestos, de confiança. Sem a brutal experiência do "homem malfeitor", talvez nunca apreciasse e acabasse por se apaixonar pelo marido com quem viveu 30 anos, diz ela, este sim, o verdadeiro bom rapazinho.
Eu acho que compreendo bem o que Lynn Barber quer dizer. Há pessoas que parecem deslumbrantes à primeira vista - dinâmicas, atraentes, independentes, de bom gosto - mas que rapidamente se revelam uma imensa desilusão, de tal modo que se tornam entediantes, embaraçosas. O problema é que, se as deixamos entrar na nossa vida, podemos não saber muito bem como as tirar de lá. Mas é apenas quando nos desiludimos desta forma tão profunda que vamos à procura de outro tipo de pessoas, daquelas que nos podem fazer felizes a sério.
É pena que, para encontrarmos qualquer tipo de felicidade na vida, tenhamos primeiro de bater com a cabeça contra o muro com tanta força que nos cresce um galo. Eu tento ter a convicção de que, quando o galo passar, o muro vai abaixo.
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