domingo, 15 de novembro de 2009

Manhã Pura

Agora que tenho o meu ipod e respectivo itunes de volta ao seu estado normal (um obrigado encarecido às almas caridosas que me auxiliaram), volto ao fru-fru (haverá expressão mais pavorosa que esta, eh eh?) das playlists e dos shuffles e dessas coisas todas muito deslumbrantes.
Bom, uma coisa que tem despertado o interesse é o facto de haver certas músicas que se adaptam particularmente bem a certas alturas do dia. Já escrevi que, por exemplo, ouvir Tom Waits de manhã é coisa que não resulta. O Tom tem de ter um espírito e um ambiente bem mais obscuros - o que o torna particularmente bom para um dia escuro e chuvoso como este.
No entanto, como ouvir música de manhã é muito importante para mim, pois se não ouço algo de jeito antes de começar a trabalhar, sou, digamos que, uma mistura de zombie ressacado deprimido mal disposto com sede de sangue, o que é bastante negativo (exemplo, retirado convenientemente desse grande filme que é A Noite dos Mortos - Vivos:







mesmo de meter medo),






dizia, como fico num estado miserabilíssimo, preciso, de facto, de uma música matinal eficaz. De modo que ando a estudar uma playlist matinal que resulte mesmo, que condense a mistura ideal de energia, melodia, profundidade e alegria inconsequente, para dispor bem.
Até agora, tenho um top 5, como diria John Cusack nesse outro grande filme que é o Alta Fidelidade, do qual constam:
1. o fundamental e indispensável Unfinished Sympathy, Massive (já escrevi sobre isto antes, não me vou alongar muito sobre esta canção; tenho apenas uma pequena ressalva, que é: bilhetinho para o Campo Pequeno já cá canta, ponto de exclamação)
2. o imprescindível Pure Morning, Placebo (o que eu gosto destes indivíduos, gosto, gosto)
3. Are You Ready To Be Heartbroken, do grande Lloyd Cole (esta música traz à playlist aquela parte da profundidade, da filosofia, para nos convencer que o dia que está prestes a começar tem uma qualquer relevância. Infelizmente, não encontro um vídeo decente desta canção no youtube para postar aqui)
4. Postcards From Italy, dos Beirut (a alegria inconsequente, meio folk, meio havaina, dá vontade de cantar, muito giro e querido)
5. uma escolha recente, mas que não consigo parar de cantarolar, e que portanto consolida o sentimento eufórico e alegre que já vem dos Beirut, e que é You Don't Know Me, Ben Folds e Regina Spektor.

O importante para começarmos bem a manhã é mesmo, reitero, o equilíbrio perfeito entre a euforia alegre e a filosofia. Até hoje, estas musiquinhas têm impedido o meu lado zombie-feio de emergir de uma forma absolutamente descarada, mas sei que ainda há muito trabalho a fazer.
Tenho também pensado na playlist adequada para o fim do dia, quando se sai do trabalho, cansada e farta e a precisar de um mimo. Mas isso fica para outro post, que é matéria mais complexa.


sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Gaja que faz o meu estilo: Elis Regina


Ilumina a mina escura e funda, o trem da minha vida

Esta frase, cantada pela voz grande da Elis e que ouvi em pequena, produziu uma marca indelével na minha imaginação infantil, pela sua força intensa, que me impressionava.
Lembro-me de, em pequena, ver a Elis na televisão, muito sorridente e de cabelo curtinho, e de a ter achado fascinante (sempre fui uma criança com apurado sentido estético no que toca a cabelos). Lembro-me de a minha mãe ouvir "em repeat" este Romaria, de arrepiar. Ouvir a Elis continua, surpreendentemente, a produzir em mim exactamente o mesmo efeito de quando eu era pequena - uma comoção que quase dá um nó na garganta. Límpida e intensa - a voz, a presença, tudo.
E deixo aqui este vídeo. Também de arrepiar, de dar nó na garganta. Grande Elis.




quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Kafka está a rir-se de mim


Provavelmente, este seria o tipo de coisa que deveria escrever no facebook ou twitter, que não tenho, ou quejandos. Mas vou escrever aqui.
Comprei um ipod. Um objecto minúsculo que custa centenas de euros. Enchi-o de música até transbordar. Mudei de computador. E a música que tenho no ipod, que eu comprei, que é meu, por alguma razão que desconheço, não pode ser transferida para o computador, que também é meu. Quer dizer, é tudo meu, paguei tudo sem ficar a dever nada e, alegremente, a querida Apple, qual velha beata a velar pelos seus ricos santinhos, parece não ter pensado num método prático e simples que me permita ter a minha musiquinha na minha biblioteca do itunes, facilmente, sempre que mudo de computador. Se o disco vai abaixo, pumba, vai tudo abaixo. Então mas o quê, agora tenho de ir "queimar" os CDs todos outra vez e perder horas neste processo? Compro um ipod novo?
A culpa é toda minha. Isto é uma grande lição. Gasta-se o virtual dinheiro, que julgamos nosso, num deslumbramento bimbo pelas tecnologias que facilitam tudo, facilitam imenso, e algo tão simples, como ter a nossa música (sublinho o determinante possessivo e, já agora, sublinho possessivo) no nosso pc a partir do nosso ipod (reitero o determinante possessivo) é impossível.
Por favor, alguém que me diga que isto é tudo uma grande inépcia da minha parte, fraca de espírito que sou em relação a tecnologias e informáticas, e que poderei, num ápice, transferir a música do ipod para o novo pc. Que isto sou tudo eu, que sou estúpida, e venho para aqui injustamente vilipendiar a sedenta Apple, na sua enjoada e insuportável missão de proteger direitos de autor e, já agora, ganhar uns trocos à custa disso (e à nossa custa, também). Digam-me que isto é tudo injustiça minha e, já agora, em podendo e por caridade, informem-me de como proceder para efectuar a dita transferência. Um sentido bem-haja.

(estão a ver, este sorrisinho ironicozinho do Kafka, pior que a Mona Lisa? Ah, pois. Quem sabe, sabe, e os parvos como eu ficam a olhar).

E se este blog fosse assim...


Vejo que as tempestades vêm aí
pelas árvores que, à medida que os dias se tomam mornos,
batem nas minhas janelas assustadas
Rainer Maria Rilke


Olho o sol indiferente da baça janela.
As pessoas caminham com uma tranquilidade fria.
Não sei quem és, mas sei que te conheço. O olhar rasgado e vedor nessa presença física e diáfana que me outorgas. O beijo simples. A partida certa.
O dia voltará a amanhecer, tão certo como o teu regresso. A solidão é o meu abraço, o meu colo, o meu mais frio lençol, um toque gélido na pele de mar e luz.
Não sei quem és, mas sei que te conheço.



Há uma razão para este blog não ser nada disto, e essa razão é:
(junto o meu ao riso do Nelson)

Pessimismo

Não havia mais ninguém a comprar castanhas.

Optimismo

Hoje vi uma senhora rechonchuda a comprar castanhas quentes e boas a um senhor, na rua.
A senhora estava muito sorridente.
Tinha um ar mesmo satisfeito, enquanto procurava troco na carteira para dar ao homem.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Não sou eu, não

Estou cheia de sono.
Estou a morrer de sono.
E o mundo lá fora quer coisas práticas, respostas directas, sucesso, competência, eficiência.
Eu tenho uma resposta muito clara a estas coisas que o mundo quer. E vou dá-la da forma mais clara possível, para que o mundo perceba bem, de uma vez por todas:





Há muitas alturas na vida em que eu gostaria de cantar esta canção, ou por outra, recitar esta canção. Resolveria muita coisa.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Homo homini lupus?


Estou irremediavelmente dividida entre um humanismo optimista e o terrível pessimismo de Hobbes, "o homem é lobo do homem".
Como é que uma matilha de lobos, ou até mesmo um lobo terrível e solitário, com sede de sangue e de poder, consegue, ao mesmo tempo que ostenta este carácter tão assassino, fazer coisas como a literatura, a a arquitectura, a pintura, enfim, coisas que encarnam qualquer ideia possível de perfeição? Um professor da FLUL, Manuel Frias Martins, escreveu um livro sobre literatura e chamava a esta ideia da perfeição (pelo menos, acho que era isso que ele queria dizer) a "matéria negra".
Mas o homem é lobo do homem. Como é que um lobo com sede de sangue consegue, ao mesmo tempo que ostenta um carácter tão assassino, fazer coisas como a literatura, a a arquitectura, enfim, a perfeição, a matéria negra?
É deste círculo vicioso que não me consigo livrar.

domingo, 8 de novembro de 2009

O artista é um bom artista

Espero ansiosamente por qualquer estreia dos Irmãos Coen - A Serious Man, neste caso. Alguns filmes são melhores do que outros, já se sabe, e daí estes realizadores passarem do 8 ao 80 aos olhos da crítica - tanto são adorados com Fargos, Este País..., Bartons Finks, como são vilipendiados com Lady Killers, Burn After Reading e até (esta, sinceramente, não percebo), o magnífico Oh Brother Where Art Thou, que eu adoro, mas acerca do qual nunca li críticas tão entusiastas como deveria haver (quando Este País... estreou, cheguei a ler uma crítica em que se dizia que os Coen tinham, finalmente, feito o seu primeiro grande filme desde Fargo. Infelizmente, não consegui encontrar esta pérola na internet para postar aqui, mas tenho a certeza absoluta de ter lido tal monstruosidade, penso que no Público; no entanto, como digo, não posso provar).
Há pessoas que já fizeram coisas tão boas que não precisam de comprovar constantemente a sua genialidade. Tudo o que fazem que não é uma obra-prima é, pelo menos, bom. Os Irmãos Coen (tal como o Woody Allen, o Tim Burton ou o Nick Cave, quanto a mim) são exemplos paradigmáticos desse tipo de pessoas. Nunca vi nada deles que não merecesse ser visto.
Também gosto daquele tipo de artistas que recompensa o público. Adoro quando o Woody Allen recheia os seus filmes mais recentes com diálogos e citações de filmes anteriores, como que a piscar o olho àqueles que reconhecem de imediato a referência; gosto quando Nick Cave conta uma história do princípio ao fim nas suas canções, terminando numa apoteose (daí coisas como Stagger Lee serem fabulosas, na escalada narrativa e de violência que oferece); gosto quando os irmãos Coen pegam num elenco reduzido, em cenários simples, em narrativas vindas do noir, contadas anteriormente centenas de vezes, e conseguem um diamante perfeito como este:




ou:





The Man Who Wasn't There é, visualmente, dos filmes mais bonitos que existe. Esta foto aqui acima parece quase retirada do Citizen Kane. Além disso, tem o Billy Bob Thornton a fumar da forma mais estilosa que já vi, em, literalmente, todas as cenas. Deve ser dos filmes em que mais se fuma, mais ainda do que os originais noir que serviram de inspiração. E que bem que se fuma neste filme, é uma beleza...
Tal como este Nick Cave, cheio de pinta, a destilar pinta, diria até, é também uma beleza, a cantar Stagger Lee.
O artista que é um bom artista, mesmo que tente, nunca consegue deixar de ser bom. E, como diz Truman Capote, se isso é uma vantagem, também não deixa de ser um chicote, permanente a exigir mais.


sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Este blog faz um aninho... oh, coisa má fofa.
Tentei mudar as cores, o fundo, o template, para comemorar, mas não deu. Gosto como está, não me conseguiria habituar a outra coisa. Espero que consiga durar mais um ano; gosto da passadeira desta Rua.

A elite, esse papão

Uma vez, numa discussão entre "amigos" sobre o Processo de Bolonha, fui instada a dar a minha opinião; disse que as universidades deviam promover o saber pelo saber. Respondeu-me um "amigo": "a tua perspectiva é elitista e estúpida". Eu, que não sou pessoa de levar desaforo para casa, como dizem os nossos companheiros brasileiros, encetei uma bulha e criou-se ali um escarcéu. Mas no fim tudo se resolveu.
Aquilo que me irrita profundamente é evocar-se "elitismo" e "elite" como se fossem coisas nefastas para o país, quando o problema deste país, de qualquer país, é o não ter elite de qualquer espécie. O que me parece é que, quando as pessoas despendem o seu latim a vilipendiar o elitismo e a elite, é na verdade em algo semelhante à plutocracia que estão a pensar. O problema resolve-se muito facilmente com um objecto, que deveria ser de uso diário, designado comummente por "dicionário".
As elites, um grupo de pessoas de excelência, que são superiores pelo mérito e pela qualidade intelectual ou técnica que detêm (não pelo poder, pelo dinheiro ou pelas cunhas) - sublinho a palavra mérito - são essenciais. Qualquer país precisa de alguém que estabeleça padrões educacionais, culturais, civilizacionais, até. E nem todos estão em condições para o fazer, pura e simplesmente. Temos todos os mesmos direitos, somos todos seres humanos dignos e respeitáveis, mas há pessoas que, pura e simplesmente, são melhores do que nós. E estas pessoas, esta tão odiada "elite", seriam aqueles que, ao invés de nivelar por baixo, como se costuma dizer, estabeleceriam padrões de exigência tais que o nível estaria sempre nos píncaros.
Não é o que se passa neste jardim à beira-mar plantado, da mesma forma que não é o que se passa nos outros países europeus que conheço minimamente (não são assim muitos, digo já). Políticos, intelectuais, escritores, a "inteligência" em geral, foi para o estrangeiro, ou vive na semi-obscuridade. Quem alcança relevância mediática ou profissional é, na maior parte dos casos, ou mediano, ou pura e simplesmente medíocre. E isto é aceite por todos porque se pensa, erradamente, deturpadamente, que a democracia é isto, quando nunca ninguém disse que a democracia é o poder da mediocridade. E o que se devia dizer é que este ódio às elites e a recompensa outorgada aos medíocres é a derrocada de qualquer futuro.
A hegemonia da mediocridade está bem à vista, tendo chegado já há muito às escolas e, até, à única instituição onde nunca poderia ter chegado, com consequências desastrosas - a universidade.
Por isso, aquilo que eu desejo para 2010 é que este país consiga ter uma elite digna desse nome.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Melhor Blogger Hipotético: Leonard Woolf


22nd March 1941

Oh, woman, please do shut up, do shut your big, massive gob, please do!
No. No such luck. Here she comes again (if I have to listen to that whinning little voice of hers one more time , "Lenny, I hear voices", "Lenny, I can't write today", "Lenny, I am a dreadful housewife, do you not think so?", "Lenny, I say, for the life of me I am at a loss with Mrs Dalloway, what shall she do after buying the flowers, I simply cannot fathom, perhaps a trip to a lighthouse...", the way she babbles on, oooooooh!). Now she is telling me she cannot write. Again.
Of course you can't, dear. You're too busy bothering me with that appaling depression of yours. I am not a doctor, helloo-O!
And this bloody war going on... what is happening to my people?

25th March 1941

Right. I am a busy man. Busy and concerned. I am deeply concerned with the faith of my people in "Europe", for example (what a ghastly place - I dare say, every gentleman ought to have been born a British man). So, I do have all these worries.
And this woman gives me no peace. I cannot work. I cannot print my pamphlets. All my life is now devoted to her needs, her writing, her thoughts... oh, God.
For example, the other day. She made me read the rubbish she was writing. I could not follow a bloody sentence! I do not know what she is on about half the time! This woman just ignores the meaning of "punc-tua-tion". But of course, I could not tell her that, oh God, no, we wouldn't want another of her fits, would we?, so I just told her, "This is all quite lovely, Ginnie, old girl, but perhaps a comma or two, a stop or two, wouldn't hurt?" Even this harmless remark made her cry. Hours spent trying to appease her... oh, what to do!
If only I could go back to living alone, without "her"... I need to help with the war effort somehow, I can't have her breathing down my neck, she and her "depression".

27th March 1941

I have had what I believe is just about the most brilliant idea any man in my situation could have had. The most brilliant idea! Now, Ginnie is depressed, everybody knows that - what if something happens, something that... if she had a crisis... I could put stones in her pockets...

29th March 1941
Oh, the grief.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Diário deprimente da pessoa impotente



Abri a caixa de email e o único email novo que tinha era:
"A Mega TV & Eddy sugerem-lhe: que prendas vai dar no Natal?". Não respondi porque não sei quem são a Mega TV e o Eddy.
Depois, fiquei em casa à espera que alguém me telefonasse. Verifiquei se o telefone estava a funcionar. Estava.
Verifiquei se o telemóvel tinha bateria. Tinha.
Fui ao facebook. Não tinha mensagens novas nem comentários. Fui ver a quinta, o café, o yoville. Preenchi mais meia-hora do meu tempo.
Depois, enquanto permanecia em casa e esperava que o telefone tocasse, revi as coisas que teria de fazer no trabalho, no dia seguinte. Ficou tudo visto e revisto.
Verifiquei se o telemóvel tinha bateria. Tinha.
Verifiquei se o telefone estava a funcionar. Estava.
A medo, não fosse o telefone tocar, decidi ir tomar café. Levei o telemóvel comigo, não fosse alguém precisar de me contactar. Tomei café. Pedi também um croissanzinho minúsculo, com docinho de ovo.
Fui a casa ver se tinha chamadas não atendidas. Não tinha. O telefone estava a funcionar. Verifiquei o email. Ponderei responder à Mega TV e ao Eddy. A minha mãe diz que eu tenho de aprender a fazer amigos e a ser sociável.
Como ninguém precisava, pelos vistos, de falar comigo, fui ao supermercado comprar bombons e gelado. Voltei rapidamente para casa.
Nada de chamadas não atendidas.
Suspirei.
Bebi água.
Voltei a ler o email da Mega TV e do Eddy.
Abri uma lata de atum. Foi o meu jantar.
Sentei-me no sofá da sala e percorri todos os canais de televisão em dois minutos. 57 channels and nothing on, como diz o Bruce Springsteen. Sou uma pessoa cheia de referências.
(o telemóvel silencioso tinha bateria)
Voltei ao facebook. Não havia mensagens novas, nem comentários novos, nem amigos novos. Fui à quinta, apanhei os legumes, subi de nível. Fui ao café, servi os pratos, subi de nível. Voltei ao perfil. Tudo igual.
(o telefone estava a funcionar)
Estava tão cansada.
Voltei ao email. Quem será o Eddy, onde ficará a Mega TV?
Fui dormir. Adormeci logo, surpreendentemente, de tão cansada que estava.
O telemóvel, esse, tocou finalmente. Era o alarme do despertador.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Bulhão Pato & Gomes de Sá

Apetecia-me escrever sobre livros (porque não vou poder ir ao debate na Bertrand, esta quinta-feira, sobre livros-fenómeno, apesar de tudo o que tenha a moderação de Anabela Mota Ribeiro, lamento muito e peço muita desculpa, me suscitar grande desconfiança, e apesar também de já não conseguir suportar a crítica fácil ao Dan Brown, só nisto o Expresso gastou três artigos este fim-de-semana, já se sabe que Dan Brown é mau escritor e que as suas personagens são risíveis, mas sinceramente, não é o único, nem sequer o pior, e além disso, parece-me a mim, a maior crítica, e a mais grave, que se pode fazer a este indivíduo é a grande desonestidade intelectual que ostenta, porque, sejamos honestos, quem de facto acreditar na existência do Priorado do Sião tem de ter um qualquer problema mental seriamente incapacitante, talvez Dan Brown de facto padeça disso, mas enfim, o que será pior, Dan Brown e as suas mentiras parvas a ritmo acelerado, ou alguém como o João Aguiar, que é uma pessoa respeitável, se ter dado ao trabalho de escrever um livro meio paródia, meio crítica, ao Código Da Vinci, com coisas como o Priorado do Cifrão pelo meio, mas o que é isto?, sinceramente, as pessoas às vezes perdem a noção com estas fúrias desproporcionadas contra os tais livros-fenómeno).
Lá querer escrever sobre livros, queria. No entanto, e incontornavelmente, só me vêem à cabeça os nomes estranhos da culinária portuguesa e as mistelas que apresenta, quase todas muitíssimo boas, mas sem dúvida muito estranhas:
Feijoada de choco.
Ovo "a cavalo".
Bitoque.
Abatanado.
Bifana.
Arroz à valenciana.
Bacalhau à Zé do Pipo.
Chouriço.
Bica.
Arroz malandrinho.
Rissol (se há vocábulo que me faça rir, é sem dúvida este - rissol; no entanto, dizer que nada tenho contra a natureza do género alimentício, que um rissolinho de camarão quentinho, a estalar, ui, é daqui, como se costuma dizer, e agora estou a fazer aquele gesto tão parvo que até envergonha que é apertar o lóbulo da orelha entre os dedos - mentira, nunca faço este gesto).
Bá-bá (é um bolo, descobri há uns anos).
Chispe.
Sandocha e mini, ou "sande" e "mine" (estas já são clássicas).
Não sei porque é que eu, querendo escrever um post minimamente inteligente, só me consigo lembrar disto. Talvez porque a língua portuguesa tenha maravilhas que a própria maravilha desconhece, e nada lhe escapa.

Vale a pena

Está mesmo muito bom, este texto. Sim, senhora.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

As armas e as malas assinaladas

Ulisses voltou para casa, estafado.
Finalmente - Ítaca. Ele, que tinha calcorreado tantos quilómetros, com tanta gaja maluca a azucriná-lo, a transformar-lhe a tripulação em animais, ele a ter de se amarrar ao mastro do navio, não fosse isso e ia borda fora com o canto daquelas sirenes com o cio, as mulheres, realmente, só cargas de trabalhos.
As mulheres todas - menos a sua, a doce Penélope, entretida a fiar e a desfiar, a fiar e a desfiar, confiante no seu regresso.
De modo que Ulisses estava feliz, de largo sorriso no rosto, já confiante na alegria que Penélope sentiria ao olhar para ele, ainda por cima quando voltava a casa ainda tão atlético, tão bem conservado. Querida Penélope.
Mas afinal Penélope não tinha esperado. Fiar, desfiar, fiar, desfiar, aquilo não era para ela, mulher ainda jovem, dinâmica, que gostava de viver a vida. Tinha um galifão mais novo, que deixava o robusto Ulisses a um canto, como se costuma dizer.
E o que fez Ulisses para reconquistar a afinal atrevida Penélope, que não tinha esperado por ele?
O galifão podia ser mais novo e enérgico, mas mais rico e com mais gosto não era. Para alguma coisa tinha Ulisses passado tanto tempo a guerrear e no mar, fazem-se umas economias jeitosas com tão parco estilo de vida. E o que Ulisses tinha a dar à sua mulher, que o galifão não tinha, era isto:



A insuperável Louboutin Cadeau "evening wear". O derradeiro cavalo de tróia do espertalhão Ulisses, sempre arguto e homem de gosto, a que nenhuma mulher, nem mesmo a firme Penélope, conseguia resistir.
E a ordem natural das coisas repôs-se.

domingo, 1 de novembro de 2009

Penitência linguística (post deselegante)

Hoje, ao regressar a casa depois de ir tomar café com a minha amiga Alexandra, reparei que ando a dizer muito mais palavrões do que o normal.
Normalmente, não gosto de palavrões. Acho que a língua portuguesa tem muitos recursos, todos eles de grande expressividade e até comicidade, que substituem perfeitamente os palavrões. Mas, devido talvez ao facto de estar extremamente "stressada" (fiz ontem cinco testes de stress na internet e o resultado foi sempre invariável: "you're extremely stressed. Please click here for a full list of doctors and clinics in your area" - eu cliquei e fiz várias marcações para vários médicos nigerianos que descobri serem meus vizinhos, e até já paguei as consultas e tudo, custou-me os olhos da cara mas há-de valer, com certeza, a pena), dizia, devido ao meu profundo stress, reparo que, em ambientes de familiaridade, digo mais palavrões.
E agora compreendo, enfim, a grande necessidade de haver palavrões na língua, em qualquer língua. É que, por vezes, certas tristezas só podem ser descritas com um bem empregado palavrão, ou, em linguagem técnica que é para amenizar, um belo "expeletivo".
A minha questão, porém, é - que poderei fazer para me penitenciar e para entrar no bom caminho da graça linguística, deixando de parte os pecaminosos palavrões? É esta a questão que agora me angustia, que me provoca mais stress e, consequentemente, me faz empregar mais palavrões.
Merda, pá, e agora...

Supremíssima moleza


Os Domingos são os dias mais moles de sempre. Tudo é mole e flácido num Domingo, mesmo o tempo - se o sol brilha, os raios emanam aquele calor que derrete na pele, pegajoso; se está chuva, caem gotículas húmidas e cerradas do céu, que empapam tudo, oleosas.
As ruas estão desertas, e quem decide andar a pé vai vagarosamente, preguiçosamente; os olhos das pessoas são inexpressivos, inertes, moles, tudo é mole.
É impressionante. Não conheço dia mais aborrecido, onde o tédio se respira no próprio ar.
As crónicas do Lobo Antunes ilustram este sentimento de inutilidade e moleza dos Domingos exemplarmente - o homem que se perdia nos centros comerciais e ia para casa com uma mulher igual à sua, que porém não era a sua, e só descobria o erro já a semana ia a meio; e o outro homem que temia os Domingos, numa companhia forçada e quase desesperante com a mulher, que lhe falava de frangos assados e microondas a prestações, e o homem já a desejar voltar ao trabalho, à repartição, para ao menos pensar noutras coisas que não microondas e marquises.
Os Domingos são feitos disto - marquises, frango assado, centros comerciais, seats ibiza, pastelarias vazias, céu cinzento, rua molhada e escorregadia, unhas descascadas, pipocas no cinema repleto de adolescentes, música de elevador, renatos rafael, marcos paulos, preguiça, preguiça, tédio, moleza.
Uma supremíssima moleza.

sábado, 31 de outubro de 2009

Something in the way she looked


Esta menina, a Patty Boyd, que agora já é uma senhora idosa, foi mulher do George Harrison e depois também foi mulher do Eric Clapton, o que quer dizer que:

- "Something", do álbum Abbey Road, foi escrito por Harrison para ela
- "Layla", de Eric Clapton, também
- "Wonderful Tonight" também

O que dizer sobre isto? Que Boyd devia cumprir (e parece que sim, que cumpriu) a regra que a Maria Rueff, uma vez há tempos, disse que as mulheres deveriam adoptar em relação a certos homens: usa - passa - a - outra - não - à - mesma.

Sir Lee


Estou muito contente. O melhor Drácula do mundo foi merecidamente condecorado, como se pode ler aqui.
Gosto de Christopher Lee porque, ainda hoje, é a figura perfeita do vampiro cheio de classe. Ninguém fez, faz, ou fará, este papel melhor do que ele (não me venham com o Bela Lugosi, também está bem, mas não supera o Lee), aliás - ninguém faz de mau melhor do que o agora Sir Lee, cheio de pinta. E ninguém amedronta melhor e com mais classe do que Lee - o Freddy Krueger tirou-me o sono por uma semana, quando, em pequena, vi o Pesadelo em Elm Street às escondidas, mas Christopher Lee a fazer de Drácula aristocrata deu-me insónias durante 15 dias, o que bate o Freddy Krueger aos pontos, de modo que o Sir Lee merece a minha estima e consideração e desde já quero por este meio enviar-lhe os meus sentidos parabéns.
Parece que agora também vai entrar na Alice do Tim Burton. Viva, viva.

"A salvação divina, são os homens que a trazem"



E é assim, quando a escuridão aperta e tudo parece sem remédio, vê-se uma peça brilhante como esta e tudo parece, quase por magia, amenizar-se, simplificar-se - tudo parece melhor, enfim.
E vimos para casa a pensar numa série de coisas, não apenas no brilhantismo do texto, dos actores (Cintra - Batarda: ora aqui está uma grande combinação), no despojamento lindíssimo da cenografia, mas também em intensidades humanas. Em "Ifigénia na Táurida", é o rei bárbaro que concede a liberdade e o regresso à civilização dos prisioneiros gregos, por exemplo - gostei deste aspecto, fiquei a pensar nisto.
Também já tinha pensado nesta questão da civilização vs barbarismo devido a Medeia, de Eurípides - a figura da mulher bárbara, estrangeira, que mata os próprios filhos, sobre a qual escrevi aqui. Não quer dizer que tenha alguma conclusão relativamente a este assunto, porque de facto não tenho - mas estou a pensar nisto.
E, mais uma vez, os seres humanos andam sempre à volta do mesmo, e a presença dos deuses é inevitável - o confronto, a submissão ou a adoração dos deuses. Tal como em Macbeth (com certeza, tal como em muitas outras peças, mas é Macbeth que me vem à mente), a eterna questão de saber se somos nós que fazemos o nosso próprio destino, ou se são os deuses que o fazem. Por isso gostei da frase que dá título a este post. Faz lembrar o fogo divino que Prometeu rouba aos deuses e que dá aos homens, enfurecendo o mundo divino quando se apercebe que, entre deuses e homens, a diferença já não é muita.
(esqueçamos o que aconteceu ao pobre Prometeu, a águia que lhe comia os intestinos todos os dias, enquanto durante a noite os intestinos se recompunham magicamente para a águia se voltar a refastelar uma e outra vez... deixa lá o fogo em paz, ó Prometeu).

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

(desabafo extra)

E outra coisa, detesto quando as pessoas me dizem "vou dar-te um conselho", ou "aconselho-te a...".
Nem o meu pai me diz isto, quanto mais ter de aturar pessoas com a mania a dizerem-me coisas desta índole. Se alguém se põe com esta conversa, pumba, riscadinhos da minha lista. E eles preocupados. E eu também não (não estou preocupada, quero dizer).
De modo que fica tudo na paz dos anjos.

Subtileza das sensações inúteis

Eh pá, que tédio, que tédio tão grande todos os dias, sempre a mesma coisa, por mais livros que se leiam, por mais sítios onde se vá, por mais textos que se escrevam, por mais diferentes que sejam as palavras, querem sempre dizer a mesma coisa, por mais variada que seja a música que ouvimos, toca sempre os mesmos acordes, por mais genial que sejam as coisas que os outros escrevem, são sempre banalidades estúpidas sob uma capa de bom português, por mais genial que sejam as coisas que eu escrevo, são sempre banalidades estúpidas mas sem a fachada de bom português, porque às vezes também é preciso conseguir escrever mal, mas mesmo assim nada resulta, sempre tudo igual, tudo igual, tudo igual, tudo feito até à exaustão de tal modo que irrita, a merda do trânsito, impossível, não há filmes de jeito no cinema, quero lá saber das americanadas, das últimas obras primas em exibição no King, tudo o que seja vagamente europeu, vagamente língua desconhecida, vagamente imagens desconexas à Godard e é ver os críticos a babarem-se, tão previsível que mete dó, ou isso ou uma lamechice qualquer que vai ganhar o Oscar, a merda que ouço as pessoas dizer, todos os dias, elas trabalham sempre muito, são muito sacrificadas, especialmente quando vão para o Brasil procurar casa de férias, que sacrificadas que são, tanto que elas trabalham, cada vez tenho menos paciência para os outros, como é possível que os outros se suportem a si próprios, dizem as mesma coisas, antes de abrirem a boca já sei (1) onde vão no fim de semana, (2) que livro estão a ler, (3) que posição, certamente tão brilhante que enjoa, têm sobre o que disse Saramago, Saramago pode dizer o que quiser, é ridículo que sequer se tenha falado sobre isso, é ridículo que eu própria esteja a falar disso, de modo que já estou como dizia não sei quem, o inferno são os outros, como é possível que eu, com tanta queixa, me suporte a mim própria. Tudo um supremíssimo cansaço, dizia Álvaro de Campos. Tudo um imenso enjoo, permito-me acrescentar eu.
Respirar fundo, para acalmar.
Mas como dizia Sérgio Godinho - cá se vai andando, com a cabeça entre as orelhas.
(se estivesse numa fase bem-educada, pediria desculpa pela virulência tão desagradável deste post, mas estou a atravessar uma fase muito mal-educada, por tanto não peço desculpa nenhuma)

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

There's something about Whitechapel (II)


- Hell's about right. I've seen it all here, lad.
Alligators waddling through the shit of the gutters
Albinos being led about on chains
Kids, no more than nine, having it off in broad daylight, probably with their sisters
Anybody in Whitechapel's yours for under a shilling.
D'you know, there's less than 250 lodging houses in Whitechapel? Housing 8500 people? 35, 40 people per house.


Este "romance gráfico" magnífico é dedicado a Polly Ann Nicholls, Annie Chapman, Liz Stride, Kate Eddowes e Mary Jean Kelly, pobres, desprotegidas, prostitutas, sem educação, sem-abrigo, sem família, verdadeiramente destituídas em todos os sentidos da palavra, e as cinco vítimas (asseguradamente - talvez haja mais) de Jack the Ripper.
Londres era, em 1888, e talvez seja ainda, uma cidade de uma riqueza extrema e de uma pobreza abjecta.
O caso de Jack the Ripper condensa muita coisa - opressão daqueles que não têm qualquer forma de protecção (pobres); fosso social profundíssimo entre pobres e ricos; abuso de poder; completa sujeição da mulher ao homem; a sensação, ambígua, pouco concreta, quase inefável, mas no entanto presente, de que algo trágico, ou fracturante, está mesmo para acontecer, nos meandros de tanta miséria repugnante, lado a lado com tanta riqueza.
Hoje, o East End londrino, o mesmo que albergou os crimes do Ripper, e tantos outros que a história escolheu não registar, e que no fim da II Grande Guerra era ainda um imenso bairro de lata onde se passava fome, devastado pelas bombas do Eixo, é hoje, cada vez mais, uma agradável zona muito artística, cheia de cafés, pubs, estudantes, artistas de rua, e onde as rendas disparam de ano para ano. O que é um bom sinal - as pessoas vivem melhor, já se pode andar confortavelmente na rua, há mais dignidade e conforto material.
Ou talvez também queira dizer que em Londres, como noutras cidades, os pobres foram morar para outro lado, um lado mais longe, mais afastado, onde a gente não os vê amiúde.
O que também é bom. Ver pobres é sempre uma maçada tão grande.
Em resumo - "From Hell", de Alan Moore e Eddie Campbell. A ler, o mais veementemente (iic, que advérbio tão feio) possível.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Devo ser só eu, mas...



... esta canção é tudo menos inocente, desculpem lá. Malandrecos, estes Beatles.

Avaliação

Hoje tive de ser avaliada para saber se merecia ou não ser despedida. Entrei numa sala e estavam três pessoas sentadas a uma mesa a olhar para mim. Um era magro e alto, a do meio era uma mulher, tão normal que não a conseguiria descrever, o da ponta era baixo e gordo. Foi este que me interpelou:
-Então, como é que te chamas? (tratou-me por tu, que falta de chá... e nem uma cadeira para eu me sentar).
- Rita.
- Ok, Rita. O que é que sabes fazer?
- Eu... assim de repente, bem... aaah....
- Então vens a uma coisa destas e não sabes fazer nada?!
- Sei, sei! Eu sei fazer muita coisa...
- Como por exemplo... - disse o homem alto e magro, parecendo muito enfadado. Reclinou-se na cadeira e olhou para mim, com os braços atrás das costas.
- Sei ler, sei escrever...
- Bom, olha, isso não me parece assim nada de especial... como tu temos nós muita gente lá fora, à espera de vir aqui. Então vá, já que estás aqui, tens alguma coisa que nos possas mostrar? - perguntou-me o gordo, novamente.
- Bom, eu por acaso trouxe um texto que eu escrevi e...
- Então vá, anda. Despacha-te. Toca a andar - o gordo, outra vez.
Comecei:
-"Era uma vez uma menina que não tinha pernas para andar. Quer dizer, pernas tinha, mas não no sentido metafórico do termo; por mais que a menina fizesse, não ia a lado nenhum. Quer dizer, ir, até ia, mas não no sentido metafórico do termo - não progredia na vida. A menina não conseguia explicar porquê, ela que até sabia falar inglês e tudo. Uma vez, a menina que não tinha pernas para andar decidiu pedir empréstimo ao banco para comprar uma muleta. O empréstimo foi-lhe concedido, mas apenas por muitos e muitos anos - quando acabasse de o pagar, já seria uma velhota. A menina comprou a muleta e, durante os anos que a muleta durou, conseguiu avançar mais ligeiramente na vida, mas quando a muleta se partiu, a menina ficou exactamente onde estava, não foi a mais lado nenhum, e ainda por cima passou a vida toda a pagar ao banco. As coisas não lhe correram lá muito bem. Fim"
Li de um fôlego e depois olhei para o júri que, por sua vez, se entreolhava, encolhia e tentava abafar o riso.
- Olha, querida, isso deve ser a coisa mais ridícula que eu já ouvi - disse a mulher, falando pela primeira vez. E tinha um ar tão simpático, apesar de tudo... - ... previsível, coloquial, pouco imaginativo...muito mau. És mesmo muito má. As verdades são para serem ditas, desculpa lá.
- Ó Rita, não vai dar, pá. - afirmou categoricamente o gordo, cada vez mais bonacheirão. - Por mim é não.
- Por mim também é não - acrescentou logo a mulher.
O homem magro olhou para mim, com um ar sarcástico e arrogante:
- Em casos como este, quem desempata sou eu.
Olhei para ele, em expectativa.
- E a resposta é... - continuou o magro, cada vez mais horrivelmente sarcástico. - ... a resposta é.... não.
Fiquei a olhar, especada, feita parva.
- Não é não. Agora vai-te embora, que temos muita gente à espera e não podemos ficar aqui o dia todo a olhar para ti - o gordo até tinha bochechas rosadas e tudo. Parecia da quinta do Tio Manel.
- E nunca te esqueças que a formação em todas as áreas do saber é muito importante, porque hoje em dia ler e escrever não chega, e ... - a mulher do meio começou com um grande discurso, mas eu não estive para a ouvir. Dei meia volta e fui-me embora.
E foi assim que a vida me despediu.

sábado, 24 de outubro de 2009

Adeus, tristeza, até depois


Este é o livro que me vai acompanhar nos próximos tempos. Para fazer esquecer os episódios tão pequeninos, tão tristinhos, tão ridiculozinhos, tão supersticiosozinhos de véu negro na cabeça, em que este país gosta às vezes de chafurdar, como se alegremente nada mais houvesse para fazer e para pensar.
Chegou a hora de acabar (com eles, os episódios). Ainda ninguém percebeu?

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

As minhas aventuras na burocracia portuguesa


Fui tirar o chamado cartão de cidadão, aquele super-cartão que é trezentos em um - a partir de agorar, pode concentrar todas as gloriosas burocracias da sua vida num único cartão! Não compre carteiras anafadas com divisórias para muitos cartões, que tem de enfiar no bolso e depois faz figura de parvo com o bolso a rebentar pelas costuras - isso é coisa do passado. Compre apenas uma prática e pequenina carteira para levar o seu único cartão, o único cartão de que alguma vez vai precisar, o Cartão do Cidadão - o cartão que é prático como você.
Era nisto que eu estava a pensar quando fui tirar o tal cartão. Estava delirante. Cheguei à pomposa "Conservatório do Registo Civil" e tirei uma senha toda profissional, que dizia cartão de cidadão - pedido (não levantamente/cancelamento, outra das opções). Fui para uma maquineta automática e absolutamente pós-moderna, onde:
1- me mediram (e, com grande pena minha, descontaram logo os centímetros extra dos saltos, embora eu tivesse pedido para não alterar nada)
2- me pesaram e viram se eu estava em período fértil
3- fizeram um scan à pupila
4 - tiraram, sem me sujar os dedos, as impressões digitais dos dois dedos indicadores
5 - digitalizaram a minha assinatura
6 - apontaram se eu era canhota ou não, porque se fosse teria de ir para uma "sala especial".
(destes pontos, apenas três estão correctos. Eu não saberia dizer, mas agora que já pedi o cartão, posso afirmar que apenas os pontos 1, 4 e 5 estão correctos. ).
Acontece que eu vou viajar no Natal. Acontece que a parva da easyjet, que é normalmente a minha opção em termos de transportadores aéreas, agora pede, para se fazer a reserva, não só número do BI, mas também validade do mesmo BI, facto que apenas poderei saber quando tiver o cartão, de onde se depreende que preciso do cartão em minha posse para poder fazer a reserva quanto antes para depois não pagar balúrdios pelo bilhete. De modo que disse à senhora que queria pedir o super-cartão com urgência, já a pensar que ia ter de pagar mil taxas e sobretaxas extra, mas pronto.
- Não - foi a resposta.
Não se pode pedir o super-cartão com urgência, tem de se esperar um período no mínimo de 15 dias, "dizem eles", segundo me informou a funcionária.
- Então e qual é o período máximo? - perguntei eu, numa lógica, que me parece acertada, de que se há um período mínimo, também haverá um máximo.
- Ah, máximo não há.
- Porquê?
- Porque isto passa por vários serviços e nós não podemos estar a assegurar nada. Se atrasar nas Finanças, ou na Segurança Social, não sabemos quando vem. Por exemplo, tivemos um cartão que demorou uma semana e outro que desde Agosto ainda não veio.
- Desde Agosto? Então a pessoa pode estar desde Agosto sem BI?!
- Pode. Nós não conseguimos dizer.
- Mas o que lhe estou a perguntar é se há um período médio durante o qual se verifica que a maioria dos cartões costuma chegar.
- O período médio, eles dizem que é 15 dias.
Tive de me rir. Acabava de constatar que me tinha encetado um diálogo com esta espécime de quem ouvimos falar nos jornais designada por "burocrata" e que, consequentemente, o meu problema não seria resolvido. Haveria, sim, a possibilidade de um BI provisório no Areeiro, levando este e aquele papel, e mais outra maningância qualquer.
Por mim, vou tirar o passaporte, que parece que demora uma semana, mas é.
E alegremente aguardo o super-cartão, super cómodo e fácil e prático e leve na carteira, trezentas informações todas concentradas numa só, enquanto ele, o cartão, inicia o seu, certamente vagaroso, percurso pelas seguranças sociais, e depois passa para as finanças, e depois para hospitais e centros de saúde, quem sabe até pelas rodoviárias nacionais e TAPs deste país, até entrar, com toda a pompa, em minha posse.

Três (exemplares) Cantos: Sérgio, José Mário, Fausto


O concerto de Sérgio Godinho, José Mário Branco e Fausto ontem, no Campo Pequeno, foi tão bom que nem tenho nada a dizer. Apenas que houve alguns problemas de som, o Fausto às vezes não se ouvia tão bem, mas nada de especial. Tudo o resto foi um exemplo de excelência. Vozes lindas, as destes senhores, poemas magistrais, a sonoridade da música popular portuguesa de que tinha muitas saudades sem nunca me ter apercebido - épico.
Gostei do concerto porque, além da música irrepreensível, a sensação de que ali estava a olhar para três exemplos da história da música portuguesa, e de Portugal também, foi indelével. Só tinha visto Sérgio ao vivo, nunca José Mário e muito menos Fausto, mais recluso, e estou contente por ter estado neste concerto histórico. Também fiquei contente com as palavras de José Mário Branco ao público - "contem connosco, para isto, e para o resto".
Apenas um reparo - o Barco Vai de Saída, canção gloriosa de Fausto, dessa também glória que é o álbum Por Esse Rio Acima, esteve flagrantemente ausente. Com todos os músicos, todos os instrumentos, um público absolutamente galvazinado, cantar o Barco teria sido, com certeza, uma apoteose. Terei de continuar a pular ao som desta canção em casa, ao invés de o ter feito ontem, no Campo Pequeno, como queria. Os meus pés ainda têm bicho-carpinteiro.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Criacionismo (o título deste post engana muito)

- Mas é que tu não percebes - dizia-me ele - ela nem sequer sabia o que era o "criacionismo".
Eu fiquei a pensar na (pobre) rapariga com quem este meu amigo tinha terminado o relativamente longo namoro - não era bonita, mas também não era feia; a seu desfavor tinha o cabelo oxigenado, mas a seu largo favor tinha a inteligência, a simpatia, o facto de ter um cão e de ser DJ nas horas vagas. Mas, pelos vistos, tais predicados não eram suficientes para ele, ainda na ressaca de um divórcio e, pelos vistos, chegando à conclusão que isto de nos apaixonarmos por alguém é mais difícil do que parece; pormenores como este do criacionismo, que não teriam qualquer importância a longo prazo, tomavam uma proporção exagerada naquela fase inicial, em que se decide se se gosta verdadeiramente, ou não, da outra pessoa.
Imagino a rapariga a aprender o que é o criacionismo, mas em vão, porque já é tarde demais; depois, a ler o Crime e Castigo, mas também já vai ser tarde demais; depois, a desfazer-se do cão e a arranjar um gato, mas também já vai ser tarde demais. E enfim. O que queremos nós dos outros, afinal?
Eu acho que queremos muito pouco. Alguém que não nos envergonhe - acho que é o fundamental. Para este meu amigo, a ignorância da (agora ex) namorada era embaraçosa. Para outras pessoas, sapatos com berloque causam um imenso desconforto. Quem souber o que é o criacionismo (nem sei como é que se escreve - tive de corrigir o post porque escrevi "creacionismo") e não usar sapatos de berloque ganha pontos porque, à partida, não envergonha ninguém. Mas isto de não causar vergonhas tem que se lhe diga. É como simpatizar com alguém, tudo muito bem, muito certinho, as coisas certas ditas às horas certas, e depois ouvir "olha, este relatório, fize-o em dez minutos".
Tudo por água abaixo. Este "fize-o" é igual ao criacionismo do meu amigo. Enfim, é assim, a vida traz muitas (des)ilusões, ou por outra: traze muitas (des)ilusões.

domingo, 18 de outubro de 2009

Tragédias banais



Há tanta tragédia na banalidade do dia-a-dia que, às vezes, sinto-me esmagada. Sei que o que estou a dizer não é novidade (À Espera de Godot, etc). Mas há muita tragédia na vida quotidiana.
Estar no Centro de Saúde e ver uma senhora velhota que vai à recepcionista pela segunda vez naquele dia - já ali esteve, disseram-lhe para ir ao hospital, onde lhe disseram para voltar ali, onde naquele preciso momento lhe dizem que tem, afinal, de ir para o hospital. É um exemplo.
Estar no autocarro, daqueles que pára nas terrinhas todas, e ver um jovem rapaz que corre disparado do fundo da rua e , no momento em que finalmente se aproxima do autocarro e abranda para respirar fundo, a besta que conduz o transporte fecha a porta e arranca o mais depressa que pode, deixando o pobre rapaz, a suar em bica, especado na paragem. É outro exemplo.
O problema é que a nossa vida é feita de pessoas extraordinárias e de outras que, não desmerecendo o humanismo de que sou adepta, são profundas bestas. E, infelizmente, há que saber lidar com bestas - o que pode ser trágico. Convém comprar um chicote.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

There's something about Whitechapel...

E por falar em Morrissey, vale sempre a pena ouvir a sua melhor canção de sempre (para mim). Ma-ra-vi-lha. Se os Silva alguma vez fizerem uma coisa assim tão boa, vou a correr comprar o disco.

Os Silva


Bom, depois de aturado estudo sobre os "traumatismos" da identidade portuguesa, tal como são designados por Eduardo Lourenço, ocorreu-me que haveria uma forma relativamente fácil de resolver a velha questão dos portugueses que vivem tão mal consigo próprios: arranjar um Morrissey e uma banda como os Smith, mas em português.
Os Smiths fizeram com que os ingleses se sentissem bem com a sua inalienável inaptitude - fizeram com que a solidão, a incapacidade de arranjar namorada/o, ser feio, não ser sociável, ser tímido, usar óculos, ter maus dentes, ser desajeitado, ser branquinho e nunca conseguir apanhar bronze, fosse cool. A partir do momento em que há uma banda que vem publicamente cantar (e cantar bem, ainda por cima) que todos os problemas que nos atormentam são, na verdade, a matéria de que os sonhos e a arte são feitos, tudo passa a estar bem. Com o "advento" dos Smith, a juventude inglesa resolveu o conflito interior que mantinha com a sua nacionalidade e consigo própria.
Visto isto, o que eu proponho é que se arranje uma banda, aqui e agora, neste país, que seja como os Smith, mas em versão portuguesa - os Silva. Os Silva podiam ter um vocalista com um nome meio estranho ("Morriqueiro", por exemplo), para contrastar com a vulgaridade da designação da banda, e podiam cantar canções sobre: ser endividado,/a ser baixo/a, ser gordo/a, ter barriga de cerveja, andar sempre a enganar a namorada/o, ter muitos filhos, casar muito novo/a,não acordar a horas, o stress de fazer sempre tudo à última da hora (algo que provoca uma fracturante crise existencial), comer bifanas, espanhóis, etc. Se aparecer alguma banda que consiga transformar todos estes "traumatimos" numa identidade absolutamente atraente e cool, todos os nossos problemas pluri-geracionais estarão de imediato resolvidos.
Podiam cantar uma canção assim, por exemplo:

Eu sou filho e herdeiro
De muito pouca timidez
É quase criminoso
Os meus pais dão-me dinheiro
E eu vou e gasto-o todo

Tu cala-te, mas é
E não te ponhas a criticar
pois eu sou apenas humano, né
Quero tanto alguém para amar,

coisas assim deste estilo.
É esta a minha proposta e a minha solução para a psicanálise do destino português. Espero que todos gostem e que resulte. Um muito obrigado.


How Soon is Now - The Smiths (o vídeo dá para ver no YouTube mas não dá para incorporar;tem de ficar apenas esta amostra foleira).

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Coisas que acontecem às boas meninas que, em vez que irem para o céu, vão viver com o Tom Waits (à partida, uma boa ideia)



- Passa-me um cigarro.
- Não, que são 8 da manhã.
- Passa-me a merda do cigarro, deves achar que és minha mãe. Aproveita e tira um para ti também.
- Ah, está bem. Realmente, não há lei nenhuma a dizer que não se pode fumar às 8 da manhã, pois não?
- (riso sarcástico) E se houvesse, qual era o problema?
- (sorriso envergonhado) Nenhum...
- Ai, tu vives tanto de regras... ora agora passa-me aí o whisky.
- Não, que ontem bebeste uma garrafa inteira.
- Não fui eu, foi o piano.
- Não, foste tu, e precisas de sair e de cortar esse cabelo.
- O piano é que precisa. Para que é que queres que eu corte o cabelo? Não fico mais bonito, deixa estar. Passa o whisky. Aproveita e bebe um copo, também.
- Está bem. Realmente, não há lei nenhuma a dizer que não se pode beber whisky às 8 da manhã, pois não?
- Mesmo que houvesse, qual era o problema?
- Nenhum...
- Já bebeste bem?
- Sim. Agora vou contar-te todos os meus segredos.
- Mas vais mentir-me sobre o teu passado.
- Sim. E mandar-te para a cama para sempre, que já são 8 da manhã e são mais que horas de dormires qualquer coisa.
- Primeiro dançamos um tango até doer.
- Está bem. realmente não há lei nenhuma que diga que não se pode dançar o tango às 8 da manhã, etc.
- E mesmo que houvesse, qual era o problema?
- Nenhum...
Etc.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

As viagens de Kant


Uma das coisas irritantes do chamado "processo de socialização", ou "processo civilizacional", Bom Selvagem, Norbert Elias e isso, é termos de morder a língua quando alguém diz uma coisa tão estúpida que dá vontade de rir ou, quando somos más pessoas e quiçá violentas, como eu, de lhes bater.
Dizia uma pessoa que conheço mas com quem não tenho, felizmente, de manter uma relação de amizade, que a vantagem de quem provém de um país grande é que o pensamento também se torna grande. Desta forma assim automática.
É verdade que uma das coisas que me atrai em países como os Estados Unidos, por exemplo, é a concepção de espaço que lá se deve ter, uma coisa imensa, a perder de vista, um fôlego maior. Gostava de saber qual a sensação de poder pegar no carro e conduzir centenas de quilómetros por dia, ver milhentas coisas e paisagens diferentes e respirar atmosferas diferentes num território que pertence sempre ao mesmo país. Basta, até, ir a Espanha, para perceber que a forma como conceptualizamos o espaço pode, efectivamente, ser bastante distinta dependendo do país onde crescemos. E, de facto, nos EUA tudo parece em ponto grande, os carros, os arranha-céus, até a comida. Talvez isso advenha do espaço imenso a que estão habituados.
Mas dizer que pensar em grande é predicado de quem vem de um país grande é absurdo. Aliás, o que é de facto impressionante em certos indivíduos é a grandeza do seu génio, independentemente da pequenez do seu país, da sua cidade, da sua casa. Não era na cidade do Kant que as pessoas acertavam o relógio de cada vez que ele regressava da universidade, tão regular, pequenina e certinha era a sua rotina? Kant nunca viajou muito. Mas isso nunca impediu o seu génio de, como dizia Fernando Pessoa, viajar e perder países - apenas não o fez fisicamente.
Poder estar fisicamente presente noutros países e noutras culturas é um privilégio. Mas viajar verdadeiramente, viajam as mentes grandes. Mesmo que nunca saiam do seu país.
E era isto que eu gostaria de ter dito à tal pessoa que me bombardeou com a barbaridade que disse, que quem vem de um país grande pensa sempre em grande, mas o tal processo-de-socialização-civilizacional reprimiu os meus instintos violentos e obrigou-me a morder a língua. Tenho de ser menos bem-educada.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

A cada um, sua camisola




Há coisas que me fazem muita espécie, uma espécie desesperada, se é que isso existe (deve existir - as espécies, há-as de todas as formas e feitios, não é?). Bom. Uma das coisas que me provoca essa tal espécie é o fenómeno do "vestir a camisola", que me atormenta verdadeiramente (a metáfora, não o acto literal de se vestir camisolas, embora, como se verá, o vestuário também é coisa para me fazer espécie).
Atormentam-me as pessoas que assumem uma identidade profissional como se isso correspondesse à sua verdadeira identidade. Por exemplo, ontem fui ao supermercado com uma amiga, e dos altifalantes saía uma música verdadeiramente irritante, as palavras cuspidas muito depressa, "venha ao Pingo Doce", ou algo semelhante, uma melodia rápida e tonta a martelar o ouvido. A minha amiga comentou com a senhora da caixa que a cançãozinha não tinha graça nenhuma - era "um bocadinho feia". "Olhe que não", respondeu a senhora, "parece, mas não é". A senhora da caixa parecia tão convicta desta apenas aparente fealdade da música ("parece feia, mas não é verdadeiramente feia - dê-lhe uma hipótese e descobrirá o verdadeiro Eu desta música, que é, no seu íntimo, um amor de pessoa") que não tive coragem de a rebater, tanto mais que a mesma senhora da caixa começou a explicar pormenorizadamente todos os pormenores da publicidade ao Pingo Doce, e os "spots" novos que a televisão ia passar, e que giros que eles eram.
Por um lado, esta convicção leal à entidade empregadora é, até, comovente. Por outro lado, não é.
O exemplo mais ilustrativo, e literal, do "vestir a camisola" produziu-se quando entrei para a faculdade. Era uma faculdade conservadora, pesadona, daquelas que assustam mal transpomos a soleira da porta, um cinzento opressivo por todo o lado, carantonhas envelhecidas e de poucos (pouquíssimos) amigos nas aulas. O tipo de faculdade que existe, verdadeiramente, para "formar" os alunos, o que seria até algo bastante positivo, não fosse o facto de essa formação corresponder, verdadeiramente, a uma "formatação". E que melhor exemplo desta formatação do que quando comparávamos os colegas dos mesmos anos que, entrando na faculdade como pessoas, vá, normais, chegavam ao terceiro ano (nem sequer esperavam pelo final do curso) absolutamente transfigurados - as calças de ganga davam lugar a sóbrias calças pretas ou cinzentas, ou saia travada e collants para as senhoras; os blusões descontraídos, as camisolas largas eram trocadas por pullovers, camisas engomadas e repuxadas, saias-casaco, os queridos ténis Converse-All Star (ainda hoje tenho os meus, ai pois tenho) substituídos por camafeus horríveis com berloque, se preciso fosse, ou sapatos de enfermeira pretos ou castanhos, enfim - um pavor. Toda uma farda entediante que parecia cumprir um único propósito, o de esconder qualquer tipo de juventude, descontracção, alegria. E as pessoas conformavam-se com esta necessidade de vestir este tipo de camisola, porque só assim eram "pessoas sérias", alunos responsáveis, confiantemente trilhando o caminho do sucesso que, pelos vistos, era o único objectivo que os havia levado àquela faculdade. Pessoas que se levam a sério, respeitáveis.
Não me vou esquecer de uma manhã parda (ai que descrição tão original de uma manhã de Outono, realmente, este blog é só originalidades), dizia, não me vou esquecer de uma manhã parda em que vi um rapaz entrar para a faculdade e, não o reconhecendo, tive porém a nítida sensação de já o ter visto antes. Tinha barba (uma espécie de "pêra"), blaser azul escuro, calças cinzentas, os livros debaixo do braço, um ar de pedra, postura sólida, a transbordar daquela confiança excessiva da arrogância. Eu sabia que conhecia aquela cara, e de facto conhecia - era um rapaz que se tinha sentado, há dois anos atrás, ao pé de mim, num enorme anfiteatro, de T-shirt e calças desbotadas, e que me tinha perguntado o significado de "arrogar".
Enfim. Vistamos camisolas num dia de Inverno, quando precisamos delas, e vistamos apenas as camisolas que são nossas. Camisolas que nos querem oferecer ou impingir não são grande coisa, vem uma chuvada e esfarelam-se todas.


Women, listen to your mothers, don't just succumb to the wishes of your brothers. Take a step back, take a look at one another, you need to know the difference between a father and a lover.

Tenho a sensação (bela expressão portuguesa) que precisamos muito de ouvir White Stripes aqui em Portugal.

Kicking Edgar Allan Poe



Que canção tão absurda. Que canção tão perfeita.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

História da menina que só sabia que nada sabia

Era uma vez uma menina que queria muito escrever mas não sabia sobre quê.
"Escreve sobre aquilo que conheces", disseram-lhe, e foi o pior conselho que lhe deram, porque a menina compreendeu, com grande lucidez, que, efectivamente, não conhecia nada, e por isso não tinha nada para escrever nem nenhuma história para contar, o que a afectou gravemente, de tal modo que desenvolveu uma depressão colossal, passou a vida de psiquiatra em psiquiatra tal como as pombinhas da Catrina, nunca conseguiu arranjar um emprego que a suportasse por mais de um mês, e ainda por cima a recibos verdes sempre, ainda por cima a menina explorada, se não fosse a família, com posses, a pagar o psiquiatra ai, ai, como é que era, e mesmo assim com tanta consulta a menina não conseguia conhecer nada e, consequentemente, nunca conseguia escrever, de modo que acabou por se casar com um homem que também não conhecia nada, muito menos escrevia, mas estava efectivo não sei onde, um homem que a distraía e via televisão com ela, e quando começou a ter filhos a menina percebeu que o melhor era deixar-se dessas coisas da escrita, e já agora das leituras também, que isso só traz é agruras e sofrimentos.
E foi assim que deixou de ir ao psiquiatra, deixou de escrever e, continuando sem conhecer nada, ao menos poupava nas contas ao fim do mês e era quase, quase feliz.
Fim.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Conhece o teu inimigo

Hoje, vinha no carro a ouvir a versão de Abandono do Projecto Amália Hoje, e vinha também a pensar em várias coisas, desencadeadas principalmente pelo refrão (por teu livre pensamento, foram-te longe encerrar, tão longe que o meu lamento não te consegue alcançar - é um poema de estarrecer). Enfim, vinha a pensar na opressão, na ditadura e em inimigos e no facto de que ter um inimigo não é algo que se deseje, mas o que se pode desejar, sim, é conhecer o rosto do nosso inimigo, no caso de o termos. E é impossível não termos inimigos na vida, infelizmente - na geração anterior à minha, seria provavelmente a ditadura. As ditaduras são indefensáveis, e nunca me passaria pela cabeça escrever o que quer que fosse a favor de de um autoritarismo ditatorial mas, no entanto, quem lutava contra a ditadura lutava contra um rosto definido e bem conhecido, um alvo identificável. A minha geração tem dezenas de inimigos, todos eles sem rosto, todos eles mais escondidos e vagos, e portanto mais difíceis de atingir. O desemprego será, talvez, um dos mais claros inimigos das pessoas da minha idade, e das mais novas também. Porém, escondem-se por trás do desemprego uma série de inimigos, esses sim absolutamente ocultos e disseminados por todo o lado, de tal forma que é difícil lutar contra eles. Por exemplo, se eu um dia ficar desempregada, não duvido que haja imediatamente alguém que não só me diga que a culpa é inteiramente minha, como me apelide de preguiçosa e "subsídio-dependente" se tiver de recorrer ao subsídio de desemprego. Para certas pessoas, os responsáveis pelo desemprego são sempre os próprios desempregados, que, portanto, são os seus próprios inimigos e o caso morre ali, não havendo necessidade de se ir à procurar de restantes culpados.
Deixemos, porém, estes complicados raciocínios. Será talvez mais fácil concentrarmo-nos nos poucos inimigos aos quais conseguimos atribuir um rosto, uma identificação. Ao ler notícias escabrosas como esta, restam-me poucas dúvidas sobre a identidade desses inimigos. E, ao constatar o "pacote de medidas" implementadas para resolver a questão dos suicídios, as minhas dúvidas dissipam-se ainda mais.
E o meu lamento não pode, de facto, alcançar nada.


sábado, 26 de setembro de 2009

O absurdo desejo de chorar


Lembro-me, às vezes, talvez muitas, talvez demais, dos doces versos de Cesário e do seu "absurdo desejo de sofrer". Acho que compreendo Cesário, porque sou, às vezes, talvez muitas, talvez demais, assaltada por um absurdo desejo de chorar, motivado sabe-se lá porquê. Uma pessoa solitária, com as calças puxadas até meio da barriga, com um cinto inútil, sozinha, triste e feia, no intervalo de um concerto, que depois sai do espectáculo e caminha vagarosamente pela rua deserta e que, por qualquer razão, parece a encarnação mais irredutível e quase cruel da solidão - é um exemplo.
Ou então um senhor velhote, muito curvado, numa daquelas retrosarias muito antigas, com um sorriso no rosto, a atender as pessoas de calças, chinelos e camisola interior. A gente pensa que entrou na loja e que, por qualquer razão estranha e inaudita, o surpreendemos a vestir-se, mas não, é mesmo assim, é aquela a roupa que ele usa. E, na montra, há toalhas e peúgas e pijamas de homem de corte antiquado, que ostentam pequenos cartões que informam "Êste pijama é para quem pesar mais de 66 quilos" e "côr da moda. muito bonita." (a cor um beje chumbo, a lembrar hospital), e entretanto aos pés do pijama estão cintas e cuecas de senhora, umas às bolinhas de várias cores, e há outro cartãozinho, numa letra muito desenhada à menino de escola, que diz: "as cuecas da Mariquinhas, que as usava sempre às pintinhas". E dentro da loja continua o senhor curvado, sorridente, de camisola interior de alças, a dizer que nunca falha um voto, umas eleições. E a distância entre isto e o mundo maquilhado, das luzes artificiais, da boa-educação afectada e cortante dos cortes ingleses e das avenidas parece tão profunda, e os cortes ingleses todos onde vamos fazer compras parecem tão estúpidos.
Ou então é um pequeno gesto, como ir a uma loja comprar um objecto pequenino e insignificante, um lápis talvez, um bloco-notas, daquelas lojas onde se entra por acaso, e a senhora velhota que nos atende, de repente e porque pensa que estamos a olhar para o lado entretidos com qualquer coisa, ajeita com dedos esperançosos, como quem espera resolver um problema rapidamente, a cabeleira na cabeça pequenina, percebendo nós, pela primeira vez, que ela usa peruca, mas que isso não dá vontade de rir. Não dá mesmo vontade nenhuma de rir.
E portanto, de vez em quando, lembro-me de Cesário, e sinto um absurdo desejo de chorar, motivado sabe-se lá porquê.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Pessoa de raça peixeira

Foi com a campanha eleitoral, e mais propriamente há cinco minutos, que me apercebi de que há uma "raça" de pessoas em Portugal que tem sido ignorada e, provavelmente, bastante desrespeitada por não ter sido, sequer, reconhecida como "raça" e não ser alvo de qualquer protecção que a salvaguarde de ataques racistas. É que, de facto, e segundo aquilo que o Dr Paulo Portas me ensinou, além das pessoas de etnias que não a portuguesa, tais como os indivíduos de raça negra, ou indianos, ou pessoas da Europa de Leste, há uma outra "raça", provavelmente muito discriminada, a viver em Portugal, que são "as peixeiras". Há, precisamente, cinco minutos, apareceu o Dr Portas no telejornal a criticar o Dr Francisco Louçã (a profusão de títulos honoríficos neste post é a minha veia portuguesa a pulsar, que respeitinho é bonito, e quem tem estudos tem direito a ser doutor e pronto), dizia, o Dr Portas criticava o Dr Louçã, dizendo:
"As pessoas que trabalham com o peixe são trabalhadores como outros quaisquer e, quando vocês jantam bom peixe, alguém o arranjou. E é extraordinário o Dr Francisco Louçã dizer que não frequenta as peixeiras. E depois o racista sou eu!" (ispsis verbis, cortesia das novas tecnologias televisivas que permitem fazer pausa e pôr para a frente e para trás como se fosse no vídeo).
Fiquei, assim, elucidada sobre esta raça de pessoas que são as peixeiras, que são pessoas que se podem frequentar, pessoas que devem andar por aí em hordas, nos seus bairros, nas suas casas, e que se definem por aquela raça de ser humano que trabalha com o peixe. Mas não vale a pena encetar qualquer campanha tipo SOS Racismo, ou Todos Diferentes, Todos Iguais, porque também fiquei esclarecida sobre isso - as pessoas peixeiras são trabalhadores como outros quaisquer. Deve ser por isso que não devemos ser racistas e devemos ir frequentá-los.
Esta campanha eleitoral tem-me ensinado tanta coisa, tanta coisa, que eu até estou aturdida. É que é muito triste viver num país e perceber que há estas raças de pessoas que cá vivem cuja existência eu desconhecia. Nós a pensar que conhecemos um país e depois é isto.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Uma ficção eleitoral

Se eu por acaso fosse escritora, escreveria sobre um homem que vai votar, no dia das eleições, e está até ao último minuto para se decidir, de tal modo que está já com o boletim de voto na mão e mesmo assim não sabe, a decidir, a decidir, e depois põe a cruz no partido X, vai à urna, o papel escorrega lá para dentro a muito custo, e de repente o homem muda de ideias e quer à força que abram a urna para sacar o seu papelinho, que com certeza será fácil de identificar porque foi o último a cair para o monte, mas não o deixam, e ele lá vai para casa muito agastado, e depois vem a descobrir que o partido vencedor venceu por um único voto apenas, um simples e insignificante votinho. O homem sente-se muito mal, cheio de remorsos, afinal devia ter votado no partido Y, e agora se alguma coisa acontecer a culpa é dele, a culpa é toda dele, de tal forma que os meios de comunicação social passam a entrevistá-lo de cada vez que algo nefasto acontece no país, os impostos, os escândalos, a corrupção, tudo por sua culpa exclusiva, o homem a arranjar justificação atrás de justificação, mas sem nada que o justifique, o remorso a crescer, a culpa, o homem já cheio de olheiras e sem dormir, se é Verão há incêndios, se é Inverno há cheias, se não fosse o seu voto eram outros no lugar do Governo a endireitar o país, mas ele votou e estragou tudo, e continua no seu sofrimento até que vêm outras eleições. E o homem vota no partido Y. E descobre que o partido X voltou a ganhar, mas apenas por um voto, um único e mísero voto, que não foi o seu, e é a completa redenção. Os meios de comunicação social passam a entrevistar um outro homem, outro qualquer, outro que podia ser ele, outro homem que também não consegue dormir, se é Verão há incêndios, se é Inverno há cheias, os escândalos, a corrupção, tudo por causa do seu insignificante voto. O primeiro homem dorme descansado. O segundo homem morre de remorsos.
E vêm novamente as eleições. O partido X volta a ganhar por um voto. O segundo homem dorme descansado. O terceiro homem morre de remorsos.
E assim sucessivamente.

Problemática do Blogger Hipotético

Gosto imenso quando as pessoas me dizem "eu vou-te ser sincero/a", porque me parece comovente que alguém acredite, pelos vistos convictamente, na sua sinceridade, fazendo-me também, com tal candura, aceitar tal sinceridade.
Ora, eu vou também ser sincera para com as dignas pessoa que eventualmente lerão este post, apenas para dizer que sei que a série que encetei aqui no bloguezito designada por "Melhor Blogger Hipotético" não tem sucesso nenhum. Sei que não tem, embora não seja pelo facto de não ter comentários (há muitos posts aqui que não têm comentários, de modo que a ausência de reacção ao Blogger Hipotético não é novidade). Não tem sucesso porque a falta de comentários ao Blogger Hipotético não corresponde ao meu entusiasmo quando escrevo os posts. É dos posts que mais gosto de escrever, mas nunca ninguém liga nenhuma; nem mesmo os meus amigos, quando episodicamente vêm aqui ler a minha querida Rua, alguma vez produzem qualquer tipo de comentário ou crítica ao Blogger Hipotético. Passa-lhes completamente ao lado, o que me deveria obrigar a tirar as devidas ilações, e lá devidamente tiradas elas estão, mas eu prefiro ignorá-las.
Como me diverte muito, vou continuar a minha série de Blogger Hipotético, embora, e com as devidas distâncias, tenha a consciência de que começa a assemelhar-se àquelas séries de TV tipo Lost, que ninguém já tem pachorra para aturar (nem eu própria, apesar de todas as razões estéticas que me deveriam levar a ver o Lost). Um possível candidato será o marido de Virginia Woolf, o Leonard. Imagino-o um pobre homem (sei que não foi pobre homem nem homem pobre), aristocrata algo fleumático (que forma tão original de se descrever um inglês) convertido em dona de casa, a tentar dar algum sentido ao mar de depressão em que a mulher se afundava (a culpa não é da Virginia, claro - pensei que o Leonard a poderia tratar por "Ginny", eh eh). Mas ainda não sei bem como "abordar" a personagem.
Veremos. Pode ser que mude de ideias e escolha outra pessoa.
Foi este o meu momento de sinceridade. Acabou aqui.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Ir ao dentista não compensa


Pelo que percebo, o conceito de "ir ao dentista" mudou muito. Em primeiro lugar, vai-se lá e o dentista já é da nossa idade, ao invés de um simpático dinossauro, que era o que normalmente acontecia quando éramos pequenos. Portanto, a coisa começa logo mal porque a pessoa sente-se imediatamente velha.
Segunda mudança, abrupta e terrível, pelo menos para mim: depois de horas sentada numa cadeira ingrata, com um jacto de luz boca adentro, dentição bem exposta e vulnerável, sorrio ao pensar na minha merecida, e opípara, recompensa: "coma gelados, Rita, coma muitos gelados nas próximas horas, para o dente ir mais ao sítio". De facto, acho que a razão pela qual eu nunca chorava quando ia ao dentista, em pequena, era porque no fim, quase invariavelmente, o simpático dinossauro dizia: "e agora tem de ir comer um gelado". E eu lá saía do consultório, com a minha mãe rendida à evidência de que, naquele dia, dois gelados de seguida seriam com certeza permitidos: primeiro, chocolate e caramelo, segundo, chocolate e baunilha (isto já sou eu perdida em sonhos; gelado sim, mas só um - chocolate e caramelo, pronto. O segundo gelado de enfiada só existe mesmo na minha cabeça).
Ora acontece que hoje em dia a tal recompensa já não existe. Está para lá uma pessoa sentada, em grande sofrimento e angústia nervosa, a torcer as mãos enquanto o dentista assegura que nada vai doer (e, de facto, raramente dói, mas a parafernália de instrumentos aguçados que por ali se vêem mais parecem vindos do consultório do Dr Mengele do que outra coisa, estimulam todo o tipo de tenebrosos pensamentos), dizia, depois de tal esforço penoso, que é da recompensazinha, que é do doutor a dizer-nos, "e agora vá comer gelados, coma muitos gelados", que é da nossa satisfação, completamente permitida e legítima de, ao menos uma vez, comer gelado até fartar porque o médico assim o exige, e não a nossa gula que tantas vezes nos deixa ficar mal? Eu respondo. Essa satisfação, a recompensa, não existe, porque os dentistas, com as modernices dos nossos tempos, já não consideram necessário ir comer gelados. Agora a moda é responder, à nossa inocente pergunta "e então o que é que eu posso comer hoje, doutor?", "esteja à vontade, tenha só cuidado a trincar, porque de resto é fazer vida normal".
"Vida normal". Que expressão curiosa e tão pouco útil, esta, "fazer vida normal". Se eu vou ao dentista para depois vir de lá a "fazer uma vida normal", mais vale não ir a nenhuma consulta, já que "fazer uma vida normal", que foi o que me levou ao dentista em primeira instância. O que é que custa ao dentista dizer para a gente ir comer um geladinho, que faz bem ao dente?
Eu decidi que, ainda que o meu dentista não me diga para comer gelados, eu comê-los-ei à mesma, porque sou uma pessoa com apego às tradições. Vivemos numa sociedade muito desiludida e insensível, e eu sou daquelas pessoas que quer manter viva a criança que há em mim, de modo que o que eu defendo é que, mesmo com sacrifício, se coma um gelado depois de se sair do dentista. É o que farei hoje, ainda que um cremoso gelado Strawberry Cheesecake com pedaços de bolacha e suave molho de morango não me esteja a apetecer mesmo nada e que vá fazer muito sacrifício para comer uma bolinha que seja.