Uma vez, numa discussão entre "amigos" sobre o Processo de Bolonha, fui instada a dar a minha opinião; disse que as universidades deviam promover o saber pelo saber. Respondeu-me um "amigo": "a tua perspectiva é elitista e estúpida". Eu, que não sou pessoa de levar desaforo para casa, como dizem os nossos companheiros brasileiros, encetei uma bulha e criou-se ali um escarcéu. Mas no fim tudo se resolveu.
Aquilo que me irrita profundamente é evocar-se "elitismo" e "elite" como se fossem coisas nefastas para o país, quando o problema deste país, de qualquer país, é o não ter elite de qualquer espécie. O que me parece é que, quando as pessoas despendem o seu latim a vilipendiar o elitismo e a elite, é na verdade em algo semelhante à plutocracia que estão a pensar. O problema resolve-se muito facilmente com um objecto, que deveria ser de uso diário, designado comummente por "dicionário".
As elites, um grupo de pessoas de excelência, que são superiores pelo mérito e pela qualidade intelectual ou técnica que detêm (não pelo poder, pelo dinheiro ou pelas cunhas) - sublinho a palavra mérito - são essenciais. Qualquer país precisa de alguém que estabeleça padrões educacionais, culturais, civilizacionais, até. E nem todos estão em condições para o fazer, pura e simplesmente. Temos todos os mesmos direitos, somos todos seres humanos dignos e respeitáveis, mas há pessoas que, pura e simplesmente, são melhores do que nós. E estas pessoas, esta tão odiada "elite", seriam aqueles que, ao invés de nivelar por baixo, como se costuma dizer, estabeleceriam padrões de exigência tais que o nível estaria sempre nos píncaros.
Não é o que se passa neste jardim à beira-mar plantado, da mesma forma que não é o que se passa nos outros países europeus que conheço minimamente (não são assim muitos, digo já). Políticos, intelectuais, escritores, a "inteligência" em geral, foi para o estrangeiro, ou vive na semi-obscuridade. Quem alcança relevância mediática ou profissional é, na maior parte dos casos, ou mediano, ou pura e simplesmente medíocre. E isto é aceite por todos porque se pensa, erradamente, deturpadamente, que a democracia é isto, quando nunca ninguém disse que a democracia é o poder da mediocridade. E o que se devia dizer é que este ódio às elites e a recompensa outorgada aos medíocres é a derrocada de qualquer futuro.
A hegemonia da mediocridade está bem à vista, tendo chegado já há muito às escolas e, até, à única instituição onde nunca poderia ter chegado, com consequências desastrosas - a universidade.
Por isso, aquilo que eu desejo para 2010 é que este país consiga ter uma elite digna desse nome.
























