quinta-feira, 8 de outubro de 2009

A cada um, sua camisola




Há coisas que me fazem muita espécie, uma espécie desesperada, se é que isso existe (deve existir - as espécies, há-as de todas as formas e feitios, não é?). Bom. Uma das coisas que me provoca essa tal espécie é o fenómeno do "vestir a camisola", que me atormenta verdadeiramente (a metáfora, não o acto literal de se vestir camisolas, embora, como se verá, o vestuário também é coisa para me fazer espécie).
Atormentam-me as pessoas que assumem uma identidade profissional como se isso correspondesse à sua verdadeira identidade. Por exemplo, ontem fui ao supermercado com uma amiga, e dos altifalantes saía uma música verdadeiramente irritante, as palavras cuspidas muito depressa, "venha ao Pingo Doce", ou algo semelhante, uma melodia rápida e tonta a martelar o ouvido. A minha amiga comentou com a senhora da caixa que a cançãozinha não tinha graça nenhuma - era "um bocadinho feia". "Olhe que não", respondeu a senhora, "parece, mas não é". A senhora da caixa parecia tão convicta desta apenas aparente fealdade da música ("parece feia, mas não é verdadeiramente feia - dê-lhe uma hipótese e descobrirá o verdadeiro Eu desta música, que é, no seu íntimo, um amor de pessoa") que não tive coragem de a rebater, tanto mais que a mesma senhora da caixa começou a explicar pormenorizadamente todos os pormenores da publicidade ao Pingo Doce, e os "spots" novos que a televisão ia passar, e que giros que eles eram.
Por um lado, esta convicção leal à entidade empregadora é, até, comovente. Por outro lado, não é.
O exemplo mais ilustrativo, e literal, do "vestir a camisola" produziu-se quando entrei para a faculdade. Era uma faculdade conservadora, pesadona, daquelas que assustam mal transpomos a soleira da porta, um cinzento opressivo por todo o lado, carantonhas envelhecidas e de poucos (pouquíssimos) amigos nas aulas. O tipo de faculdade que existe, verdadeiramente, para "formar" os alunos, o que seria até algo bastante positivo, não fosse o facto de essa formação corresponder, verdadeiramente, a uma "formatação". E que melhor exemplo desta formatação do que quando comparávamos os colegas dos mesmos anos que, entrando na faculdade como pessoas, vá, normais, chegavam ao terceiro ano (nem sequer esperavam pelo final do curso) absolutamente transfigurados - as calças de ganga davam lugar a sóbrias calças pretas ou cinzentas, ou saia travada e collants para as senhoras; os blusões descontraídos, as camisolas largas eram trocadas por pullovers, camisas engomadas e repuxadas, saias-casaco, os queridos ténis Converse-All Star (ainda hoje tenho os meus, ai pois tenho) substituídos por camafeus horríveis com berloque, se preciso fosse, ou sapatos de enfermeira pretos ou castanhos, enfim - um pavor. Toda uma farda entediante que parecia cumprir um único propósito, o de esconder qualquer tipo de juventude, descontracção, alegria. E as pessoas conformavam-se com esta necessidade de vestir este tipo de camisola, porque só assim eram "pessoas sérias", alunos responsáveis, confiantemente trilhando o caminho do sucesso que, pelos vistos, era o único objectivo que os havia levado àquela faculdade. Pessoas que se levam a sério, respeitáveis.
Não me vou esquecer de uma manhã parda (ai que descrição tão original de uma manhã de Outono, realmente, este blog é só originalidades), dizia, não me vou esquecer de uma manhã parda em que vi um rapaz entrar para a faculdade e, não o reconhecendo, tive porém a nítida sensação de já o ter visto antes. Tinha barba (uma espécie de "pêra"), blaser azul escuro, calças cinzentas, os livros debaixo do braço, um ar de pedra, postura sólida, a transbordar daquela confiança excessiva da arrogância. Eu sabia que conhecia aquela cara, e de facto conhecia - era um rapaz que se tinha sentado, há dois anos atrás, ao pé de mim, num enorme anfiteatro, de T-shirt e calças desbotadas, e que me tinha perguntado o significado de "arrogar".
Enfim. Vistamos camisolas num dia de Inverno, quando precisamos delas, e vistamos apenas as camisolas que são nossas. Camisolas que nos querem oferecer ou impingir não são grande coisa, vem uma chuvada e esfarelam-se todas.


Women, listen to your mothers, don't just succumb to the wishes of your brothers. Take a step back, take a look at one another, you need to know the difference between a father and a lover.

Tenho a sensação (bela expressão portuguesa) que precisamos muito de ouvir White Stripes aqui em Portugal.

Kicking Edgar Allan Poe



Que canção tão absurda. Que canção tão perfeita.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

História da menina que só sabia que nada sabia

Era uma vez uma menina que queria muito escrever mas não sabia sobre quê.
"Escreve sobre aquilo que conheces", disseram-lhe, e foi o pior conselho que lhe deram, porque a menina compreendeu, com grande lucidez, que, efectivamente, não conhecia nada, e por isso não tinha nada para escrever nem nenhuma história para contar, o que a afectou gravemente, de tal modo que desenvolveu uma depressão colossal, passou a vida de psiquiatra em psiquiatra tal como as pombinhas da Catrina, nunca conseguiu arranjar um emprego que a suportasse por mais de um mês, e ainda por cima a recibos verdes sempre, ainda por cima a menina explorada, se não fosse a família, com posses, a pagar o psiquiatra ai, ai, como é que era, e mesmo assim com tanta consulta a menina não conseguia conhecer nada e, consequentemente, nunca conseguia escrever, de modo que acabou por se casar com um homem que também não conhecia nada, muito menos escrevia, mas estava efectivo não sei onde, um homem que a distraía e via televisão com ela, e quando começou a ter filhos a menina percebeu que o melhor era deixar-se dessas coisas da escrita, e já agora das leituras também, que isso só traz é agruras e sofrimentos.
E foi assim que deixou de ir ao psiquiatra, deixou de escrever e, continuando sem conhecer nada, ao menos poupava nas contas ao fim do mês e era quase, quase feliz.
Fim.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Conhece o teu inimigo

Hoje, vinha no carro a ouvir a versão de Abandono do Projecto Amália Hoje, e vinha também a pensar em várias coisas, desencadeadas principalmente pelo refrão (por teu livre pensamento, foram-te longe encerrar, tão longe que o meu lamento não te consegue alcançar - é um poema de estarrecer). Enfim, vinha a pensar na opressão, na ditadura e em inimigos e no facto de que ter um inimigo não é algo que se deseje, mas o que se pode desejar, sim, é conhecer o rosto do nosso inimigo, no caso de o termos. E é impossível não termos inimigos na vida, infelizmente - na geração anterior à minha, seria provavelmente a ditadura. As ditaduras são indefensáveis, e nunca me passaria pela cabeça escrever o que quer que fosse a favor de de um autoritarismo ditatorial mas, no entanto, quem lutava contra a ditadura lutava contra um rosto definido e bem conhecido, um alvo identificável. A minha geração tem dezenas de inimigos, todos eles sem rosto, todos eles mais escondidos e vagos, e portanto mais difíceis de atingir. O desemprego será, talvez, um dos mais claros inimigos das pessoas da minha idade, e das mais novas também. Porém, escondem-se por trás do desemprego uma série de inimigos, esses sim absolutamente ocultos e disseminados por todo o lado, de tal forma que é difícil lutar contra eles. Por exemplo, se eu um dia ficar desempregada, não duvido que haja imediatamente alguém que não só me diga que a culpa é inteiramente minha, como me apelide de preguiçosa e "subsídio-dependente" se tiver de recorrer ao subsídio de desemprego. Para certas pessoas, os responsáveis pelo desemprego são sempre os próprios desempregados, que, portanto, são os seus próprios inimigos e o caso morre ali, não havendo necessidade de se ir à procurar de restantes culpados.
Deixemos, porém, estes complicados raciocínios. Será talvez mais fácil concentrarmo-nos nos poucos inimigos aos quais conseguimos atribuir um rosto, uma identificação. Ao ler notícias escabrosas como esta, restam-me poucas dúvidas sobre a identidade desses inimigos. E, ao constatar o "pacote de medidas" implementadas para resolver a questão dos suicídios, as minhas dúvidas dissipam-se ainda mais.
E o meu lamento não pode, de facto, alcançar nada.


sábado, 26 de setembro de 2009

O absurdo desejo de chorar


Lembro-me, às vezes, talvez muitas, talvez demais, dos doces versos de Cesário e do seu "absurdo desejo de sofrer". Acho que compreendo Cesário, porque sou, às vezes, talvez muitas, talvez demais, assaltada por um absurdo desejo de chorar, motivado sabe-se lá porquê. Uma pessoa solitária, com as calças puxadas até meio da barriga, com um cinto inútil, sozinha, triste e feia, no intervalo de um concerto, que depois sai do espectáculo e caminha vagarosamente pela rua deserta e que, por qualquer razão, parece a encarnação mais irredutível e quase cruel da solidão - é um exemplo.
Ou então um senhor velhote, muito curvado, numa daquelas retrosarias muito antigas, com um sorriso no rosto, a atender as pessoas de calças, chinelos e camisola interior. A gente pensa que entrou na loja e que, por qualquer razão estranha e inaudita, o surpreendemos a vestir-se, mas não, é mesmo assim, é aquela a roupa que ele usa. E, na montra, há toalhas e peúgas e pijamas de homem de corte antiquado, que ostentam pequenos cartões que informam "Êste pijama é para quem pesar mais de 66 quilos" e "côr da moda. muito bonita." (a cor um beje chumbo, a lembrar hospital), e entretanto aos pés do pijama estão cintas e cuecas de senhora, umas às bolinhas de várias cores, e há outro cartãozinho, numa letra muito desenhada à menino de escola, que diz: "as cuecas da Mariquinhas, que as usava sempre às pintinhas". E dentro da loja continua o senhor curvado, sorridente, de camisola interior de alças, a dizer que nunca falha um voto, umas eleições. E a distância entre isto e o mundo maquilhado, das luzes artificiais, da boa-educação afectada e cortante dos cortes ingleses e das avenidas parece tão profunda, e os cortes ingleses todos onde vamos fazer compras parecem tão estúpidos.
Ou então é um pequeno gesto, como ir a uma loja comprar um objecto pequenino e insignificante, um lápis talvez, um bloco-notas, daquelas lojas onde se entra por acaso, e a senhora velhota que nos atende, de repente e porque pensa que estamos a olhar para o lado entretidos com qualquer coisa, ajeita com dedos esperançosos, como quem espera resolver um problema rapidamente, a cabeleira na cabeça pequenina, percebendo nós, pela primeira vez, que ela usa peruca, mas que isso não dá vontade de rir. Não dá mesmo vontade nenhuma de rir.
E portanto, de vez em quando, lembro-me de Cesário, e sinto um absurdo desejo de chorar, motivado sabe-se lá porquê.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Pessoa de raça peixeira

Foi com a campanha eleitoral, e mais propriamente há cinco minutos, que me apercebi de que há uma "raça" de pessoas em Portugal que tem sido ignorada e, provavelmente, bastante desrespeitada por não ter sido, sequer, reconhecida como "raça" e não ser alvo de qualquer protecção que a salvaguarde de ataques racistas. É que, de facto, e segundo aquilo que o Dr Paulo Portas me ensinou, além das pessoas de etnias que não a portuguesa, tais como os indivíduos de raça negra, ou indianos, ou pessoas da Europa de Leste, há uma outra "raça", provavelmente muito discriminada, a viver em Portugal, que são "as peixeiras". Há, precisamente, cinco minutos, apareceu o Dr Portas no telejornal a criticar o Dr Francisco Louçã (a profusão de títulos honoríficos neste post é a minha veia portuguesa a pulsar, que respeitinho é bonito, e quem tem estudos tem direito a ser doutor e pronto), dizia, o Dr Portas criticava o Dr Louçã, dizendo:
"As pessoas que trabalham com o peixe são trabalhadores como outros quaisquer e, quando vocês jantam bom peixe, alguém o arranjou. E é extraordinário o Dr Francisco Louçã dizer que não frequenta as peixeiras. E depois o racista sou eu!" (ispsis verbis, cortesia das novas tecnologias televisivas que permitem fazer pausa e pôr para a frente e para trás como se fosse no vídeo).
Fiquei, assim, elucidada sobre esta raça de pessoas que são as peixeiras, que são pessoas que se podem frequentar, pessoas que devem andar por aí em hordas, nos seus bairros, nas suas casas, e que se definem por aquela raça de ser humano que trabalha com o peixe. Mas não vale a pena encetar qualquer campanha tipo SOS Racismo, ou Todos Diferentes, Todos Iguais, porque também fiquei esclarecida sobre isso - as pessoas peixeiras são trabalhadores como outros quaisquer. Deve ser por isso que não devemos ser racistas e devemos ir frequentá-los.
Esta campanha eleitoral tem-me ensinado tanta coisa, tanta coisa, que eu até estou aturdida. É que é muito triste viver num país e perceber que há estas raças de pessoas que cá vivem cuja existência eu desconhecia. Nós a pensar que conhecemos um país e depois é isto.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Uma ficção eleitoral

Se eu por acaso fosse escritora, escreveria sobre um homem que vai votar, no dia das eleições, e está até ao último minuto para se decidir, de tal modo que está já com o boletim de voto na mão e mesmo assim não sabe, a decidir, a decidir, e depois põe a cruz no partido X, vai à urna, o papel escorrega lá para dentro a muito custo, e de repente o homem muda de ideias e quer à força que abram a urna para sacar o seu papelinho, que com certeza será fácil de identificar porque foi o último a cair para o monte, mas não o deixam, e ele lá vai para casa muito agastado, e depois vem a descobrir que o partido vencedor venceu por um único voto apenas, um simples e insignificante votinho. O homem sente-se muito mal, cheio de remorsos, afinal devia ter votado no partido Y, e agora se alguma coisa acontecer a culpa é dele, a culpa é toda dele, de tal forma que os meios de comunicação social passam a entrevistá-lo de cada vez que algo nefasto acontece no país, os impostos, os escândalos, a corrupção, tudo por sua culpa exclusiva, o homem a arranjar justificação atrás de justificação, mas sem nada que o justifique, o remorso a crescer, a culpa, o homem já cheio de olheiras e sem dormir, se é Verão há incêndios, se é Inverno há cheias, se não fosse o seu voto eram outros no lugar do Governo a endireitar o país, mas ele votou e estragou tudo, e continua no seu sofrimento até que vêm outras eleições. E o homem vota no partido Y. E descobre que o partido X voltou a ganhar, mas apenas por um voto, um único e mísero voto, que não foi o seu, e é a completa redenção. Os meios de comunicação social passam a entrevistar um outro homem, outro qualquer, outro que podia ser ele, outro homem que também não consegue dormir, se é Verão há incêndios, se é Inverno há cheias, os escândalos, a corrupção, tudo por causa do seu insignificante voto. O primeiro homem dorme descansado. O segundo homem morre de remorsos.
E vêm novamente as eleições. O partido X volta a ganhar por um voto. O segundo homem dorme descansado. O terceiro homem morre de remorsos.
E assim sucessivamente.

Problemática do Blogger Hipotético

Gosto imenso quando as pessoas me dizem "eu vou-te ser sincero/a", porque me parece comovente que alguém acredite, pelos vistos convictamente, na sua sinceridade, fazendo-me também, com tal candura, aceitar tal sinceridade.
Ora, eu vou também ser sincera para com as dignas pessoa que eventualmente lerão este post, apenas para dizer que sei que a série que encetei aqui no bloguezito designada por "Melhor Blogger Hipotético" não tem sucesso nenhum. Sei que não tem, embora não seja pelo facto de não ter comentários (há muitos posts aqui que não têm comentários, de modo que a ausência de reacção ao Blogger Hipotético não é novidade). Não tem sucesso porque a falta de comentários ao Blogger Hipotético não corresponde ao meu entusiasmo quando escrevo os posts. É dos posts que mais gosto de escrever, mas nunca ninguém liga nenhuma; nem mesmo os meus amigos, quando episodicamente vêm aqui ler a minha querida Rua, alguma vez produzem qualquer tipo de comentário ou crítica ao Blogger Hipotético. Passa-lhes completamente ao lado, o que me deveria obrigar a tirar as devidas ilações, e lá devidamente tiradas elas estão, mas eu prefiro ignorá-las.
Como me diverte muito, vou continuar a minha série de Blogger Hipotético, embora, e com as devidas distâncias, tenha a consciência de que começa a assemelhar-se àquelas séries de TV tipo Lost, que ninguém já tem pachorra para aturar (nem eu própria, apesar de todas as razões estéticas que me deveriam levar a ver o Lost). Um possível candidato será o marido de Virginia Woolf, o Leonard. Imagino-o um pobre homem (sei que não foi pobre homem nem homem pobre), aristocrata algo fleumático (que forma tão original de se descrever um inglês) convertido em dona de casa, a tentar dar algum sentido ao mar de depressão em que a mulher se afundava (a culpa não é da Virginia, claro - pensei que o Leonard a poderia tratar por "Ginny", eh eh). Mas ainda não sei bem como "abordar" a personagem.
Veremos. Pode ser que mude de ideias e escolha outra pessoa.
Foi este o meu momento de sinceridade. Acabou aqui.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Ir ao dentista não compensa


Pelo que percebo, o conceito de "ir ao dentista" mudou muito. Em primeiro lugar, vai-se lá e o dentista já é da nossa idade, ao invés de um simpático dinossauro, que era o que normalmente acontecia quando éramos pequenos. Portanto, a coisa começa logo mal porque a pessoa sente-se imediatamente velha.
Segunda mudança, abrupta e terrível, pelo menos para mim: depois de horas sentada numa cadeira ingrata, com um jacto de luz boca adentro, dentição bem exposta e vulnerável, sorrio ao pensar na minha merecida, e opípara, recompensa: "coma gelados, Rita, coma muitos gelados nas próximas horas, para o dente ir mais ao sítio". De facto, acho que a razão pela qual eu nunca chorava quando ia ao dentista, em pequena, era porque no fim, quase invariavelmente, o simpático dinossauro dizia: "e agora tem de ir comer um gelado". E eu lá saía do consultório, com a minha mãe rendida à evidência de que, naquele dia, dois gelados de seguida seriam com certeza permitidos: primeiro, chocolate e caramelo, segundo, chocolate e baunilha (isto já sou eu perdida em sonhos; gelado sim, mas só um - chocolate e caramelo, pronto. O segundo gelado de enfiada só existe mesmo na minha cabeça).
Ora acontece que hoje em dia a tal recompensa já não existe. Está para lá uma pessoa sentada, em grande sofrimento e angústia nervosa, a torcer as mãos enquanto o dentista assegura que nada vai doer (e, de facto, raramente dói, mas a parafernália de instrumentos aguçados que por ali se vêem mais parecem vindos do consultório do Dr Mengele do que outra coisa, estimulam todo o tipo de tenebrosos pensamentos), dizia, depois de tal esforço penoso, que é da recompensazinha, que é do doutor a dizer-nos, "e agora vá comer gelados, coma muitos gelados", que é da nossa satisfação, completamente permitida e legítima de, ao menos uma vez, comer gelado até fartar porque o médico assim o exige, e não a nossa gula que tantas vezes nos deixa ficar mal? Eu respondo. Essa satisfação, a recompensa, não existe, porque os dentistas, com as modernices dos nossos tempos, já não consideram necessário ir comer gelados. Agora a moda é responder, à nossa inocente pergunta "e então o que é que eu posso comer hoje, doutor?", "esteja à vontade, tenha só cuidado a trincar, porque de resto é fazer vida normal".
"Vida normal". Que expressão curiosa e tão pouco útil, esta, "fazer vida normal". Se eu vou ao dentista para depois vir de lá a "fazer uma vida normal", mais vale não ir a nenhuma consulta, já que "fazer uma vida normal", que foi o que me levou ao dentista em primeira instância. O que é que custa ao dentista dizer para a gente ir comer um geladinho, que faz bem ao dente?
Eu decidi que, ainda que o meu dentista não me diga para comer gelados, eu comê-los-ei à mesma, porque sou uma pessoa com apego às tradições. Vivemos numa sociedade muito desiludida e insensível, e eu sou daquelas pessoas que quer manter viva a criança que há em mim, de modo que o que eu defendo é que, mesmo com sacrifício, se coma um gelado depois de se sair do dentista. É o que farei hoje, ainda que um cremoso gelado Strawberry Cheesecake com pedaços de bolacha e suave molho de morango não me esteja a apetecer mesmo nada e que vá fazer muito sacrifício para comer uma bolinha que seja.

sábado, 19 de setembro de 2009

Elogios na sapataria


Desconfio sempre de elogios. Quer dizer, gosto muito que me elogiem, mas a questão é que a veracidade do elogio me suscita muitas dúvidas. Sempre que recebo um elogio, começo a pensar nos motivos ulteriores que o motivam. A sinceridade nunca é um desses motivos - que razão terá alguém em elogiar outra? Eu só elogio quando quero algo em troca, e não tenho razões para pensar que as coisas se processem de modo diferente com as outras pessoas.
Continuando. O melhor elogio que recebi até hoje foi numa sapataria no chamado "estrangeiro". Estava com uma amiga minha num destino turístico a comprar sapatos, em amena cavaqueira com o senhor dono da livraria, e de repente diz-nos eles, também "em estrangeiro": "ai meninas, vocês são tão bonitas, parecem vindas de um filme do Almodovar!". Até hoje, este elogio ecoa na minha mente - pareço vinda de um filme do Almodovar. Que pinta.
Decidi partilhar este elogio com uma pessoa cuja opinião eu prezava. Mandei uma chamada SMS a dizer-lhe, "olha, dizem que eu pareço uma actriz vinda de um filme do Almodovar", à qual a resposta foi "as actrizes do Almodovar são todas travestis, não são?". Há gente mesmo estúpida.
Os elogios não interessam a ninguém.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

O cinzento e o branco

Eu acho que o coração se divide em três partes: as pessoas de quem gostamos, as pessoas de quem não gostamos e as pessoas que nos são indiferentes.
No entanto, tenho uma amiga que discorda profundamente da forma como o meu coração está dividido. Diz ela que o seu coração tem uma parte branca, para o amor, uma parte negra, para o ódio, e uma parte (uma grande parte) cinzenta, quase a tocar no amor, mas que não é bem amor. Esta parte cinzenta pode, porém, ser muito perigosa, pois se a parte branca é reservada ao namorado, a parte cinzenta rserva-se sabe-se lá para quem. O que pode fazer perigar a imaculada parte branca. Não sei se me estou a fazer entender.
Fiquei a pensar nisto. Aliás, tenho pensado nisto há imenso tempo, meses, mas ainda não tinha escrito nada sobre o assunto porque, primeiro, arrisca-se à lamechice, que é coisa que me enerva, segundo, até recentemente não tinha acentos no teclado e isto não é matéria que aguente um post sem acentos. Como agora já tenho acentos, já posso escrever sobre o que me apetecer, "encetando todos os esforços" (que belíssima expressão) para fugir à horripilante lamechice fofinha e queridinha, que é verdadeiramente aquilo de que falamos quando falamos de amor (oh, que referência tão bem enxertada, não me venham dizer que não - estou a brincar).
Bom. Dizia eu. Fiquei a pensar na tal parte cinzenta do coração, e na forma como é possível olharmos para alguém e pensar que não estamos apaixonados, mas podíamos perfeitamente estar. E a consciência dessa possibilidade é clara como a água. Então, qual é a diferença entre estar apaixonado e saber que é perfeitamente possível, em abstracto, apaixonarmo-nos por uma pessoa específica? E mais, quando isto acontece, o que fazer à parte branca do coração, aquela que, pelos vistos, se reserva para aqueles por quem estamos verdadeiramente apaixonados? Será que a parte cinzenta contamina necessariamente a parte branca? E indo ainda mais longe, se a parte cinzenta não contaminar a branca, será que justifica e desculpabiliza aquilo que com tanto desprezo apelidamos de "traição"?
Este post está desnecessariamente complicado. Nem eu própria sei se compreendo o que escrevi, com tanto colorido (estranhamente monocromático) à mistura. Mas para bom entendedor, meia palavra (ou até muitas) basta, não é verdade? É.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

A importância da pastilha Gorila


As maravilhosas férias de Verão, maravilhosas sobretudo por serem férias, e que já acabaram, embora eu não esteja minimamente preparada para outro ano de trabalho devido a uma preguiça intrínseca, deram-me um tempo precioso para me embrenhar em alguma da literatura norte-americana que queria pôr em dia, nomeadamente sulista; infelizmente, e porque o tempo não é infinito e porque fiz outras coisas nas férias além de ler, só me embrenhei até aos joelhos e não da cabeça aos pés, mas enfim, embrenhar-me até aos joelhos rendeu o suficiente para ler Truman Capote (magnífico primeiro romance, sobre o qual escrevi abaixo) e, fundamental e finalmente, O Som e a Fúria, de William Faulkner.
É impossível não admirar este livro. É também impossível não o considerar dificílimo de ler, pelo menos quando o lemos pela primeira vez. As primeiras narrativas são um teste à capacidade do leitor de conseguir agregar narrativas e torná-las discursos inteligíveis - e sim, eu já sabia, antes mesmo de começar a ler, que a primeira narrativa provinha do doce e abandonado Benjy, atrasado mental. O que torna, porém, este Som e Fúria magnífico é a forma como recompensa o leitor. Quando a leitura se aprofunda, e toda a história, triste e desiludida, começa finalmente a fazer sentido, é quase uma epifania. É como se nos estivessem a dar uma pastilha Gorila, um chupa-chupa, um Epá, qualquer coisa que comprove e premeie o nosso esforço. E, a partir daí, podemos verdadeiramente apreciar a escrita furiosa.
Gosto de livros que recompensam o leitor. A principal razão de gostar tanto de Lobo Antunes foi, precisamente, a sensação de revelação que sentia ao ler aquela narrativa fragmentada e finalmente chegar ao ponto de agregação total, em que todas as personagens e toda a história começam finalmente a fazer sentido. Cada livro de Lobo Antunes era uma corrida ansiosa para ganhar a pastilha Gorila, e como sabia bem mastigar a pastilha depois de a termos merecido...
Falo de Lobo Antunes porque quem, como eu, o leu antes de ler Faulkner, reconhece imediata e claramente a influência do segundo sobre o primeiro. Faulkner é a matriz a que Lobo Antunes foi beber, o que, aliás, este escritor nunca negou. No entanto, o último livro que li de Lobo, Não Entres Tão Depressa..., não me deu nenhuma pastilha Gorila, o que me entristeceu bastante. Pela primeira vez, senti que a escrita densa, hermética, as personagens isoladas e fechadas em si nunca se abriram e se tornaram claras como a água, como acontecera nos romances anteriores que eu lera. A escrita hermética permaneceu exactamente isso, hermética, um muro à minha frente, e por mais que admire a complexidade da escrita de Lobo, isso não me faz necessariamente gostar de um livro que se recusa a abrir. Ou talvez seja eu que não o saiba abrir.
Enfim. Isto para dizer que, na escrita e na leitura, tal como no jardim infantil, a pastilha Gorila é fundamental.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Entourage


Sou fã, fã, fã desta série, desta Entourage. Não sei explicar muito bem porquê - é das séries mais misóginas que já vi, não tem nenhuma espécie, nem intenção, de conteúdo social ou interventivo, e trata da vida de quatro semi-rufias de Nova Iorque que se mudam para Los Angeles - um que é uma estrela de cinema, Vicent Chase, e os outros, três amigos que constituem a sua "entourage", que vivem às suas custas.
Mas Entourage é soberba. Infelizmente, o facto de não conter nenhuma personagem feminina que sirva um propósito pouco acima do decorativo não me incomoda de todo. A série é divertidíssima, e vale pelos diálogos irresponsáveis, a descontracção das personagens, e fundamentalmente, quanto a mim, pela interpretação exagerada e magnífica de Jeremy Piven (o agente aceleradíssimo Ari Gold, em permanente estado de raiva, incansável, absolutamente manipulador e sem um pingo de escrúpulos) e Kevin Dillon, no papel de Johhny Drama, irmão de Vincent e actor falhado, dado a exageros de toda a espécie e com um claro problema do chamado "anger management".
Depois, há uma série de pormenores que fazem de Entourage uma pérola. O genérico impecável, epíteto do cool, a começar desde logo na cançãozinha dos Jane's Addiction e passando pela matrícula orgulhosamente nova-iorquina do carro dos quatro amigos, enquanto se passeiam por Los Angeles; cameos em cada episódio; o facto de fazerem pouco (gosto desta expressão) de Britney Spears, de forma mais ou menos subtil (começaram logo na temporada 1, e continuam - estamos na temporada 6). A forma como retratam a indústria de Hollywood - infantil, egoísta, ridícula, caprichosa, povoada por personagens absurdas para qualquer adulto minimamente razoável. Os únicos que, de alguma forma, se mantêm incólumes face a um sistema tão bizarro são, curiosamente, o inocente Vicent Chase e os seus fiéis amigos.
Enfim - gosto. E não estou sozinha, porque ouvi dizer que há outra pessoa neste mundo que também gosta muito destes rapazes, e que por acaso até se chama Barack Obama, toma-toma.
Nunca tenho saudades nenhumas de Portugal, mas confesso que o teclado com acentos já começáva a fazêr fálta. Múíta fálta.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Historia do olho


Continuo sem acentos - aviso a navegacao.
O meu pai diz que ha duas maneiras de se ver um filme: com os olhos da cara ou com o olho do cu (o meu pai inventou esta teoria quando eu lhe disse que nao tinha gostado de um filme que ele, por acaso, tinha apreciado muito. E claro que, segundo ele, quem nao tinha visto o filme com os olhos da cara era eu). Adiante. Aquilo que o meu pai diz dos filmes tambem se aplica aos livros, que podem ser lidos com os olhos da cara ou com o do traseiro (sejamos um tanto ou quanto delicados relativamente a designacao de determinadas partes da anatomia humana que, por muito alivio que possam trazer, arriscam igualmente alguma deselegancia). Por exemplo, um livro que eu adoro, adoro, adoro e li repetidas vezes e Rebecca, de Daphne du Maurier. Na edicao inglesa, pode ler-se na afterword de Sally Beauman:
Rebecca, from the time of first publication, has been woefully and wilfully underestimated. It has been dismissed as a gothic romance, as "women's fiction" - with such prejudicial terms giving clues as to why the novel has been so unthinkingly misinterpreted. Re-examination of this strange, angry and prescient novel is long overdue.
Eu propria, numa primeira e superficial leitura de Rebecca, pensei tambem tratar-se de um pequeno romance-pipoca, ainda que muitissimo atraente. Talvez por ser um livro tao facil de ler, e este e um erro que, quanto a mim, se comete amiude - quando algo e facil de ler, o leitor mais intelectualoide e inseguro, que usa o olhinho do rabiosque quando deveria usar os dois que tem na cara, torce o nariz. E mais compensador ler Wasteland e perceber alguma coisa daquilo, a todos os niveis (socialmente, fica melhor poder anunciar publicamente que lemos TS Eliot, ao inves de Daphne du Maurier).
Longe de mim querer comparar Rebecca e Wasteland. O que afirmo e que ambos sao igualmente bons, em patamares diferentes. Nao se deve ter medo daquilo que e facil, ou banal. Um livro facil nao tem de ser mau, um livro dificil nao e necessariamente bom (se a leitura se tornar impossivel, o livro sera ate, pura e simplesmente, mau). Ainda recentemente vi uma exposicao de Jeff Koons (vide foto), onde se informava o espectador que o "artista" gostava de obrigar as pessoas a reflectir sobre a arte e sobre o preconceito que o mundo artistico dissemina em relacao a fruicao daquilo que e banal. O que e banal esta mal.
Nem sempre. O facil, o banal, a simplicidade, podem encerrar tanta beleza como a sofisticacao e a complexidade do que e dificil. Apenas temos de usar os olhos da cara mais do que o do cu, como diz o meu pai, que tem sempre muita razao. A arte e como o sol, quando nasce e para todos.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

The Dude abides



Gosto tanto, tanto, tanto, tanto, tanto deste filme que nao sou capaz de escrever muito sobre ele sem me entusiasmar.
Primeiro, a personagem principal, o "Dude" (traduzido algumas vezes por "Coiso" em Portugal, e desde ja envio muitos parabens ao tradutor/a que optou por este belissimo e comico termo), e das minhas personagens cinematograficas absolutamente favoritas. Muitissimo bem representado por Jeff Bridges.
Segundo, o uso da lingua neste filme e uma perola. Usam-se palavroes a torto e a direito (penso, ate, que Big Lebowski encabeca a lista de filmes onde se dizem mais palavroes, a par de Good Fellas ou algo parecido), e, como ja escrevi quase ate a exaustao, ilustra perfeitamente como a linguagem "feia" e "tabu" pode, tantas vezes, ser estilisticamente tao rica (este interessante artigo da BBC refere, ate, "the power of quotability" do filme).
Terceiro, o pequeno "cameo", se lhe posso chamar assim, de John Turturro, no seu estranho "The Jesus".
Quarto, linda cinematografia, sequencias oniricas impecaveis (tanto quanto consigo perceber, os irmaos Cohen gostam muito de introduzir onirismo nos seus filmes, e conseguindo cenas visualmente muito interessantes). Exemplo:




Um deleite.
Por ultimo, este filme lembra-me muitos e queridos amigos. E faz-me rir muito, que e tudo o que se pode pedir na vida, amigos e gargalhadas. Hoje estou poetica-lamecha, a idade pesa, I grow old, I shall wear the bottom of my trousers rolled, bla, bla, bla.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Other Voices, Other Rooms


A infancia e a idade mais estranha das nossas vidas. Nao tenho saudades nenhumas da infancia, apenas porque a ignorancia e a dependencia dos adultos me deixam poucas saudades.
Este pensamento ocorre-me devido a ter acabado de ler Other Voices, Other Rooms, o primeiro romance que Truman Capote publicou. Numa escrita muito lirica, cheia de colorido e comparacoes exuberantes, Other Voices... e sobre a solidao da infancia e do crescimento, ou, pelo menos, e um pouco sobre isso.
Adorei o livro, principalmente porque tinha acabado de ler um livro de contos de Fitzgerald que, surpreendentemente, nao me agradou nada. Ha algo na escrita do F. Scott que, resultando tao bem no Gatsby, nao resulta nada nos contos, pelo menos quanto a mim, naqueles que li. Os temas sempre presentes da juventude desperdicada, sem futuro, vacuo, futilidade, a procura constante de algo que justifique a vidinha, pareceram-me condensados demais nas historias. A intensidade das personagens era quase desperdicada, e a escrita vigorosa, mas ao mesmo tempo psicologica, de Fitzgerald nao me seduziu nos contos que li. Nao sei explicar melhor.
Other Voices, Other Rooms e um luxo, muito southern gothic, quase impressionista (as vivas descricoes da densa vegetacao sulista sao uma explosao de cores e sentidos), e muito, muito melancolico, porque fala de memorias. Tambem muito emocional. Tambem um livro onde a figura masculina tradicional, brutal e viril, e uma perpetua fonte de desgosto, miseria, sofrimento. As personagens femininas sao estranhas e submissas, ou carismaticas mas vencidas pelo mundo. Os homens sao feios, porcos e maus, a nao ser que, como o "Cousin Randolph", se distanciem do tradicional papel masculino e optem por uma vida alternativa a todos os niveis, inclusive o da sexualidade.

But we are alone, darling child, terribly, isolated from each other; so fierce is the world's ridicule we cannot speak or show our tenderness; for us, death is stronger than life, it pulls like a wind through the dark, all our cries burlesqued in joyless laughter; and with the garbage of loneliness stuffed down us until our guts burst bleeding green, we go screaming round the world, dying in our rented rooms, nightmare hotels, eternal homes of the transient heart.

Este Capote nunca desilude.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Eusebiozinho


Fico sempre abismada com a quantidade de parques que ha em Londres e, para alem disso, fico ainda mais abismada com o facto de estes imensos, lindos parques, espalhados por toda a cidade (nao e so Hyde Park) terem sempre gente, faca chuva ou sol. Ingleses e estrangeiros, velhos e criancas, caes, gatos, passaros, esquilos, patos e gansos, pululam nos parques londrinos. Bicicletas, triciclos, trotinetes; meninos de tres anos que pedalam sem a ajuda das rodinhas, calmeiroes de T-shirt que treinam o ciclismo avidamente; donas de casa de maquilhagem e calcoes que vao a andar, e adolescentes de fatos de treino da moda cujo jogging energico ultrapassa a dona de casa; familias inteiras de bicicleta, a chuva, o aspirante a poeta que escrevinha a moleskin ao pe do lago, quando faz sol; o casal de namorados que traz o picnic e ensaia o esplendor na relva; o grupo de amigos barulhentos que se alegra com vinho barato em copos de plastico ao fim de semana. Toda a gente aproveita todos os parques.
Ve-se mais natureza e faz-se mais vida exterior em Londres do que em Lisboa, cidade mais pequena, mais agradavel, mais simpatica, menos agressiva, mais soalheira, onde no entanto, e infelizmente, nao sei se pelos dificeis acessos a Monsanto, nao sei se por vergonha, nao sei se pelo apego aos carros, nao sei se pela dificuldade das colinas, enfim, nao sei, toda a gente ainda vive naquela modorra domestica que Eca ridicularizava com o seu Eusebiozinho, que sabia poemas de cor mas morria com as correntes de ar.
Ve-se pouca gente a almocar nas (poucas) areas verdes de Lisboa, por exemplo. Eu acho que e por vergonha. Se calhar, temos medo que os outros pensem que somos pobres e que por isso trouxemos a sandocha de casa. No sitio onde trabalho, nao ha sitio algum onde se possa comer, muito menos aquecer, qualquer refeicao que tentemos trazer de casa, por exemplo, e ninguem aproveita os espacos relvados do exterior para comer um lanchinho que se traz na mala. Toda a gente vai ao cafe gastar dinheiro, e eu propria ja desisti de trazer almoco de casa, porque me sinto ave rara envergonhada, e portanto faco o que os outros fazem, o que tambem e uma vergonha. Nao ha solucao.
Por outro lado, e tambem verdade que os londrinos aproveitam os espacos verdes e a hora de almoco para comer junk da loja da esquina, batatas fritas de pacote, tudo o que seja rapido e barato. Os portugueses ainda conseguem uma sopinha e um croquete por menos de cinco euros. Entre a sopa e o pacote de batata frita, eu, de facto, prefiro a sopa. No entanto, a figura assustadora do domestico, ensaboado, viuvo, mole Eusebiozinho e ainda omnipresente no nosso pequeno Portugal. Somos tao domesticos.
Comeco a pensar que a "domesticidade" e um grave defeito. Qualquer dia, escreverei mais sobre isto.

Misoginia



Ha muita coisa que quero escrever, mas nao ter acesso a um teclado portugues enerva-me solenemente; por outro lado, nao escrever nada tambem me enerva, de modo que vou tentar um qualquer equilibrio, escrevendo posts pequenos e sucintos. A minha vontade e escrever tudo em ingles enquanto nao regressar ao teclado com todos os acentos devidos, mas nao vou deixar que isso aconteca; ja bem basta ter cedido ao estilo piroso de intercalar frases ou palavras em ingles nos posts, portanto era so o que faltava comecar a escrever em ingles apenas devido a falta de teclado decente.
Bom. Esta extensa introducao nao faz grande jus ao meu desiderato inicial, que era, como eventualmente se poderao lembrar, escrever posts sucintos. Assim sendo, e tentando cumprir a minha va promessa (quanto menos escrever, menos necessidade tenho de acentos), o principal objectivo deste post e dizer que cheguei a conclusao de que, nao gostando de misoginia, ha certos misoginos de quem gosto bastante. Ou por outra, ha certos homens, injustamente, quanto a mim, denominados misoginos, de quem gosto muitissimo e que nao merecem a injustica de tal insulto.
Exemplo paradigmatico e D.H Lawrewce, o meu querido D.H., que, ao que parece, nao escrevendo sobre a sexualidade feminina tal como esta e retratada no Sexo e a Cidade, e portanto submetendo as suas heroinas aos desejos carnais de "faunos inquietantes" e muito masculinos (palavras de Simone de Beuvoir no Segundo Sexo, favor confirmar), ao inves de apresentar a mulher como fonte de jurisdicao, desde que roupa vestir a quem levar para a cama, dizia eu, como D.H. Lawrence nao apresentou a mulher assim, pumba, levou com o desagradavel epiteto de "misogino" em muita da meta-literatura que discutiu as suas obras. Sobre isto, tenho uma palavra a dizer: injusto. E mais nao digo, que as obras do querido D.H. explicam tudo e falam por si.
O outro exemplo, que pelos vistos tambem foi apelidado de misogino, e este magnifico J. W. Waterhouse, pintor pre-rafaelita competentissimo e lindo (ou por outra, os quadros sao lindos). Tambem ele foi acusado de misoginia - a mulher e sempre uma forca malefica, que destroi a vida do homem com a sua perfidia. No entanto, parece que uma voz se ergueu em defesa do pintor, chamando a atencao para varios quadros que Waterhouse pintara, nao apenas a pobre sereia indefesa ou a demoniaca Circe, mas tambem a sabia Medeia de quem Jasao depende, ou a sabedoria e poder atribuidos, efectivamente, a Circe, figura que Waterhouse admirava e em que condensa a importancia e o poder femininos. Pronto. Portanto, Waterhouse nao e necessariamente misogino.
Atribuir misoginia a alguem preocupa-me sempre muito, porque me parece que a dita misoginia e grave e perigosa demais para ser mal atribuida, o que muitas vezes acontece. Perde-se energia a vilipendiar artistas que, como diria o Diacono Remedios, sao bons artistas, em vez de canalizar energia para lutar contra a verdadeira misoginia.
E e este o meu pensamento do dia, que formulo com pesar por nao ter conseguido condensa-lo num post mais pequenito. Quem puder ir ver a exposicao do Waterhouse em Londres, que o faca asinha asinha, pois vale muito a pena.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Sera seguro nao ter seguro?

Ha duas noticias que tem tomado grande parte da energia dos jornalistas aqui no UK. Uma e a subida do desemprego, e a outra e a validade/futuro/sustentabilidade do NHS, national health service ou, para nos, o servico nacional de saude.
Comecou com declaracoes (ai os acentos, peco tanta desculpa, mas este teclado nao da para mais), dizia, comecou a "polemica" com declaracoes do Partido Republicano de que o NHS, importacao britanica que Obama quer instalar no pais, era "evil" (e, numa versao mais intelectual e sofistificada, "orwelliano") e que deixava hordas de pessoas as portas da morte, em listas de espera, ou recusando-lhes tratamento. Depois, um deputado do Partido Conservador deu umas quantas entrevistas nos Estados Unidos, em que abertamente desvalorizava a existencia de um servico nacional de saude. Resultado: os ingleses foram para o twitter defender o seu bem amado NHS, de tal modo que o sistema foi abaixo (Stephen Hawkings tambem participou, afirmando que o NHS lhe salvara a vida e, aproveitando o "momentum", muitos membros do Partido Trabalhista, nomeadamente Gordon Brown, participaram activamente nas maravilhas da internet, juntado a sua voz a dos outros britanicos que elogiavam o NHS. Os conservadores foram, como o nome indica, mais conservadores e comedidos, e preferiram anunciar em conferencias de imprensa o seu total apoio a instituicao do servico nacional de saude, apesar do colega rebelde ter ido aos States vilipendiar o querido NHS).
Esta historia revela, de imediato, um aspecto periferico mas importante, que e a forma como a internet muda a actividade politica - estou neste momento a ouvir John Prescott na televisao a dizer que fez um discurso no youtube ao povo dos Estados Unidos, para explicar e defender o NHS. Os youtubes e os twitters sao instrumentos rapidos e praticos para o politico estender a sua propaganda e amancebar-se com o "povao".
O mais relevante nesta historia e a discussao da manutencao de um servico nacional de saude e a necessidade extrema, quanto a mim, da sua existencia. Os Republicanos dizem que a "socializacao" da saude e demoniaca, e que condena o Estado a falencia e os doentes a filas de espera. No Reino Unido, muitos dizem ja que o NHS, apesar do emprego que cria, esta perto de se tornar financeiramente incomportavel, principalmente porque se gastam rios de dinheiro em pequenas operacoes que nao sao verdadeiramente relevantes.
O chamado "Estado social" tem sofrido ataques constantes, agudizados pela crise financeira, que nos convence que vamos todos morrer falidos e sem tecto. No entanto, tem de ser possivel uma racionalizacao de custos e a manutencao de um Estado que, no minimo, de educacao e saude de qualidade aos cidadaos. O modelo americano das seguradoras de saude e, para mim, aterrador, e, se por um lado compreendo a falta de dinheiro geral e o envelhecimento da populacao, por outro parece-me que os paises escandinavos, apesar dos impostos altissimos que pagam, dao um bom exemplo. E digo isto enquanto reflicto se investir num seguro de saude sera, ou nao, uma boa ideai.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

A policeman held up the traffic, the band walked back and forth a few times and that was that.

Estava a esquecer-me, imperdoavelmente, deste evento importantissimo que, como se compreende, tem de ser enfatizado aqui na Rua, por se tratar do aniversario da foto que da o emblema aqui ao bloguezito.


40 anos e ninguem diria que tem mais de dez, nao e? Cheia de historia, esta fotografia, a comecar nos boatos de que Paul McCartney morrera, a passar pelo magnifico album apropriadamente entitulado "Abbey Road", e a terminar sabe-se la quando e onde. Ja atravessei esta rua algumas vezes e quero continuar a atravessar.

Ferias, ou: o post que nao vou escrever


O blog, e eu, tem andado adormecido na habitual modorra do Verao, em que a mente lentamente se apaga, tal como os acentos desaparecem deste post, porque, mais uma vez, o meu teclado portugues nao esta disponivel. Saber que nao tenho acentos nao torna a escrita nada aprazivel, o que, a juntar a minha preguica, resulta numa indolencia insuperavel. E dai o blog ter andado tao parado, e dai eu nao ter nada na cabeca que permita um post minimamente interessante. A unica ideia que tive ate agora prendia-se com a problematica das unhas, em particular as unhas das senhoras.
O post que me ocorreu escrever, mas que nao vou escrever porque e futil, centra-se na questao de saber se devem as senhoras arranjar as suas unhas. E um problema, porque se nao se arranjar as unhas corre-se o risco de andar por ai com unhas feias, o que e algo repugnante; por outro lado, arranjar as unhas pode dar um ar um tanto ou quanto bimbo, estilo Carmela Soprano, o que tambem nao e o que se quer. Antes de se arranjar a unhaca, ha que considerar o comprimento da unha, que, se muito longo, e de facto bimbo e, se muito curto, fica feio com qualquer tipo de verniz; depois, temos tambem de considerar o tipo de arranjo que se vai fazer, porque se se pintar a unha de preto fica muito gotico, e se se optar pela sofisticada manicura francesa, pode ficar arranjado de mais e inevitavelmente, la esta, exibir umas unhas tipo gel, tipo Carmela Soprano, tipo pessoa que passa a vida no Colombo e sabe as lojas de cor e depila as sobrancelhas ate ficar com duas cruzes ridiculas por cima dos olhos, o que nao e ideal.
De modo que, se eu por acaso escrevesse um post sobre unhas, era neste tipo de questoes que me concentraria. E, como se demonstrou, mais vale nao escrever nada enquanto nao tiver nada de interessante para escrever.
Assim sendo, continuara o blog em banho-maria, esperando eu que, la mais para o fim do Verao, se consiga uma ebulicaozita, uma efeverscencia ligeiramente mais inteligente.

sábado, 1 de agosto de 2009

He's my man


E pronto, acabou a minha contagem decrescente, com toda a glória e pompa, porque ontem fui finalmente ver o grande Leonard Cohen no Atlântico. Queria deixar, ainda na ressaca de o ter visto ao vivo, as seguintes notas:
- Cohen, visivelmente frágil e envelhecido, tocou três horas (três), das 21h às 0h, com um intervalo de 15 mins (? - não me lembro exactamente). Cantou impecavelmente. A voz permanece dura e profunda, irrepreensível, indiferente ao envelhecer do trovador. Um fartote, uma beleza, pagou e recompensou o dinheirinho do bilhete.
- Fundamentalmente um poeta, Leonard cantou e falou com o público, num espectáculo muitíssimo bem organizado e preparado, com grandes músicos, mas ao qual, como seria de esperar, faltou o intimismo. O Atlântico é uma sala enorme, e a sensação de que se estava a ver um espectáculo algo formatado foi mais ou menos óbvia (muito parecido com o concerto de Londres do ano passado, em CD; ao que parece, também quase igual ao de Lisboa do ano passado, a que não assisti).
- grandes músicos a acompanhar o grande Cohen, verdadeiramente excelentes
- Famous Blue Raincoat, Famous Blue Raincoat, Famous Blue Raincoat! (não estava à espera que cantasse, mas cantou, num dos encores - oh meu Deus, oh meu Deus, que beleza assustadora).
- o artista é, de facto, um grande, imenso artista.
- um dos meus sonhos musicais está já concretizado - já vi o grande Cohen ao vivo. Visto que o outro sonho musical que eu acalentava era ver Beatles ao vivo, e uma vez que isso nunca foi possível, terei, rapidamente, de encontrar outro objectivo.
- grande L. Cohen.

sexta-feira, 31 de julho de 2009

Por mim, ninguém já se detém na estrada


Eu sei que esta história facilmente se encaixa numa dessas tragédias do quotidiano que gostamos de ignorar por nos sentirmos superiores aos tabloids: mãe e filha que apanham um táxi para junto da linha ferroviária, põem a cabeça nos carris e esperam pacientemente pelo comboio que as irá decapitar. E eu poderia dizer que esta tragédia do quotidiano me arrepia, e como é terrível que isto aconteça, e etc. e tal. E de facto todos estes lugares-comuns são verdadeiros. É arrepiante, e todos os pormenores desta tragédia do quotiano são arrepiantes e gélidos, o pormernor do táxi, o pormenor de sairem de casa para apanharem o táxi para a morte. Tudo o que escrevo é um imenso lugar comum, e no entanto tão perturbador.
Não sei por que se mataram as senhoras, mas o que a mim me parece certo, de relevo, nesta tragédia do quotidiano, tão pronta a alimentar a avidez do tabloid e pasquim, é a solidão. "Não têm nenhum familiar próximo". "Os corpos ainda não foram reclamados".
No excelente concerto de ontem, Leonard Cohen, nas suas palavras de despedida, disse ao público que esperava reencontrá-lo na companhia de familiares e amigos, mas que, se não fosse essa a sua situação, então que estivesse em paz com a sua solidão. E, de facto, a solidão, tão primordial no ser humano, é também a sua grande tragédia. Os outros são a nossa única hipótese de uma escassa salvação possível. E quando não temos os "outros" na nossa vida?
Uma coisa é estar só. Outra é estar desamparado. Ainda outra, provavelmente desesperante, é estar só e desamparado. A solidão suporta-se. Penso até que a solidão é incompreendida - toda a gente a encara como uma tragédia, quando pode ser um benefício. Mas o desamparo é irredutível, trágico.
A minha mãe diz-me que a Hannah Arendt escreveu sobre isto. Tenho de ir ler.

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Dance me to your beauty with a burning violin

E faltam apenas 6 dias.

Love Story?

Sem querer desmerecer Ryan O'Neil, um actor que eu respeito por ter entrado no Barry Lyndon, que eu por acaso nunca vi mas quero muito ver, e que além disso perdeu a mulher há pouco tempo, e portanto coitado, dizia, sem querer desmerecer Ryan O'Neil, gostaria que alguém me explicasse um dia o apelo de Love Story.
A minha resposta imediata a isto é que o filme não tem apelo nenhum, e destina-se apenas a deleitar senhoras já entradotas, que o foram ver ao cinema na falta de Patrick Swayze e Dirty Dancing, ou Tom Cruise e Top Gun, filmes mais tardios e de uma geração mais recente. Porém, Dirty Dancing e Top Gun são sofríveis e olvidáveis, ao passo que este Love Story parece, estranhamente, permanecer na memória colectiva. Quem é mais velho elogia-o constantemente, quem é mais novo e o vê, diz que gosta muito. Se formos à IMDB, verificamos que, na entrada para Love Story, se recomendam outras xaropadas de amor, como por exemplo O Gigante, E Tudo o Vento Levou, etc., deixando transparecer a ideia, quanto a mim errónea, de que Love Story se equipara aos grandes clássicos românticos.
Um momento. Sim, O Gigante é interminável e uma estucha, Gone with the Wind é uma xaropada, mas tanto um como outro têm, quer queiramos quer não, grande qualidade. Ambos contam com excelentes, excelentes actores: a grande Elizabeth Taylor, James Dean, Rock Hudson para o Gigante, e em Gone in the Wind a lendária Vivien Leigh, o lendário Clark Gable (canastrão ou não, é lendário), além de que este último filme tem uma produção épica e exímia, cenas bem filmadas, guarda-roupa impecável, technicolor vibrante, enfim, é um filme de antologia (fui, durante muito tempo, fã absoluta deste filme, devo confessar). São xaropadas, mas enchem o olho.
Love Story não tem nada disto. Tem um bom actor, o Ryan O'Neil, uma actriz mais ou menos, a Ali McGraw, um enredo pobrezinho, pobrezinho, mesmo paupérrimo, que culmina, de forma pouco original, com a morte da pobrezinha Ali, qual Julieta shakesperiana, mas sem a grande escrita de Shakespeare. No fundo, é o batido enredo do Amor de Perdição mas transformado em filme americano. Assim como assim, prefiro o Amor de Perdição.
Há, porém, um grande ponto a favor deste Love Story, que é a banda sonora. Aliás, estou a escrever este post porque hoje o ipod brindou-me com a versão de Astrud Gilberto, que canta a melodia do filme com uma letra em espanhol, o que me fez lembrar este filmito. Se calhar, é a banda sonora a responsável por esta resistência ao tempo deste filme sofrível. De outra forma, a razão pela qual Love Story ainda é conhecido é um mistério para mim, já que não percebo porque não se afundou, perdendo-se para sempre por entre aquilo que o tempo gosta de apagar. É, de facto, curioso como há filmes maus que, por uma razão ou outra, continuam a agradar a tanta gente. Às vezes, começo a não perceber o que determina a qualidade cinematográfica, ou a falta dela.
Enfim. Mistérios desta vida. Quem ainda não viu o Gone With the Wind não sabe o que está a perder, é o que digo.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Guilty pleasure

A minha actividade de lazer, ontem, foi ver o Crepúsculo, vulgo Twilight, uma vez que é um filme de vampiros (como já escrevi, simpatizo com vampiros); queria também saber o que justificaria toda a comoção que tem envolvido o tal filme, e já agora compreender porque é que os vampiros, subitamente, têm atraído tanta atenção por parte da indústria de entretenimento. A comoção é fácil de explicar, aliás, nem sequer é preciso ver o filme para perceber - dois jovens muito sérios e ensimesmados, com ar de novo-gótico, ambos muito bonitos. O suficiente para derrear qualquer adolescente.
O filme em si, como seria de esperar, não é grande coisa. Os actores não são bons (mas os que fazem de vampiros são todos lindos, o que, presumo, será o mais importante), o enredo é simplista e limita-se a criar desculpas para que os vampiros possam exibir os seus dotes sobre-humanos, e a história de amor entre o vampiro Edward e a humana Bella é algo, como direi, surpreendente, no sentido em que estes dois, embora mal consigam completar uma conversa de cinco minutos, conseguem estar apaixonadíssimos.
Porém. Há que dar a mão à palmatória e perceber que a indústria de cinema norte-americana sabe o que faz. Este rapaz que faz de vampiro Edward Cullen, um tal de Robert Pattinson, muito pálido, com um olhar muito intenso, sempre com cara sofredora, de grande conflito interior, resulta em cheio. Até eu fiquei com um ligeiro aperto no estômago ao vê-lo proteger a pobre namorada, e a dizer-lhe que seria melhor se se separassem, para que a pobre Bella viva em segurança. Felizmente, isso não acontece e ficam juntos no fim.
De modo que o filme não presta. Mas este vampiro Edward, com aquela palidez, aquela força sobre-humana, aquela intensidade (muito mal representada, mas enfim) está muito bem "esgalhado" (detesto esta palavra; no entanto, aplica-se bem aqui). Contra mim própria falo, mas gostei de o ver a trabalhar.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Composição

Eu gosto muito da Beth Ditto, ela nesta capa está linda, linda, e acho que é muito positivo as pessoas acharem-na super linda, porque assim destroem-se muitos estereótipos negativos para a imagem das mulheres, nomeadamente o serem gordas, porque está muito mal achar que as mulheres gordas são feias, porque ser escanzelada como as super-modelos é que está mal, e portanto eu acho que a Beth Ditto dá um bom exemplo porque mostra que é possível ser linda e ser gorda, tudo ao mesmo tempo, e isso é positivo e bom para a sociedade em geral, e assim os homens podem passar a olhar para mulheres normais e achá-las bonitas, porque hoje em dia isso não acontece, e depois as mulheres começam a ficar anorécticas para arranjar namorado e é um problema porque se ficam anorécticas não arranjam namorado nem têm filhos porque estão fracas, e se ninguém tiver filhos a sociedade não progride, e portanto se todas as mulheres forem como a Beth Ditto os homens têm de namorar com elas e têm todos filhos e a sociedade fica a ganhar, e portanto eu gosto da Beth Ditto, e além disso ela é amiga da Kate Moss, o que prova que ela é bonita, porque se fosse feia a Kate Moss não andava na rua com ela.
E canta bem.

Love affair #2, ou: lei da relatividade


Realmente, como mudam as pessoas. A primeira vez que olhei para umas Birkenstock, achei-as horrendas e pensei de mim para mim que nunca as usaria, a não ser que me transformasse num turista alemão com meias. Ora, acontece que sou muito influenciável, em primeiro lugar, pelo poder da cor, e agora há modelos Birkenstock em todas as cores do arco-íris e mais alguma, o que faz delas uma delícia. Em segundo lugar, sou influenciada pelo conforto dos meus pezinhos, e o conforto deste chinelo é incomparável. Visto isto, passei a usar Birken, solidamente, todo o Verão, sem qualquer arrependimento.
A beleza, de facto, é muito relativa, é a conclusão que eu retiro de tudo isto. Eu, que considerava um par de Birkens como o mais inestético que se pode exibir nos pés, acho, nos dias de hoje, que estas sandálias são, como determinadas pessoas diriam, "uma graça". Só é comparável a achar o Serge Gainsbourg feio com o trovão, e depois vê-lo a cantar e achá-lo lindo, o que também já me aconteceu.

terça-feira, 21 de julho de 2009

Love affair


Há quinze anos, e ainda continua. Tão in love como no primeiro dia.

Melhor Blogger Hipotético: Michelangelo Merisi da Caravaggio


Há bar e bar, há ir e voltar
Blog arrependido de um pintor incompreendido

Julho, 1592
Portanto, eu fugi, né. Tinha a polícia toda à perna, eh pá, pronto, tive mesmo de fugir, né. Acho que matei um gajo qualquer lá no bar, bem, que azar do caraças, mas isto também só me acontece a mim!
Mas vá lá, consegui trazer cesto da fruta. Sem ele, nunca mais pintava nada, nada, nada!

Agosto, 1594
Ai a minha vida, acho que matei outro gajo. Tenho de mudar esta vida, já tenho outra vez a polícia atrás de mim, que chatice!
Bom, mas ontem conheci um tipo, uma coisa linda, um rapazinho impecável. Acho que o vou pôr ao pé do cesto da fruta, e pintá-lo assim. Ficava muita bem, o rapaz e o cesto da fruta.
É preciso é que a bófia não me apanhe.

Julho, 1601
Pumba, matei outro gajo. Eu qualquer dia vou preso. E ainda por cima pintei um quadro, mas um quadro muita giro, com um rapazinho muita bonito, a fazer de Dioniso, uma coisa linda. Mas começaram-me a chatear, "eh pá, ó Michelangelo, então tu pintas o Baco sentado em cima dum colchão, com as unhas todas sujas, então mas o que é isso, então mas tu parece que nem és pintor a sério nem nada" ... bem... não há paciência para estes ignorantes, né.
A ver se eu agora não mato ninguém, eu agora a ver se não mato ninguém!

Julho, 1610
Ai, ai, ai, que eu desta não me safo, ai que já matei outro gajo, ai a minha vida, ai a minha vida, mas a culpa não é minha, pois se eu nem me lembro de nada, entretido como estava lá no bar do Rubirosa, o tintol, o apelo daquele Dioniso que eu pintei, uma coisa linda... mas pronto, acho que já despachei mais uma alminha. Que mau. Desta é que vou fugir de vez, nem Roma nem nada, vou-me embora daqui, tou farto de me dizerem que não conseguem ver o que eu pinto, que é tudo escuro, ou então que é feio, e que eu pinto Nossas Senhoras feias, qué aquilo, tão gorda, e que não sei pintar a Ceia em Emaús, e a mão do discípulo tá muito grande, e não sei nada de perspectiva, bem! Que ignorantes! E depois admiram-se de eu andar por aí a matar gente.
Ah, pronto.
Diz que sim, diz que John Cheever vale, de facto, a pena.

Tempo que passa

Pela primeira vez desde há meses e meses e meses, tantos que nem consigo contar, dou por mim a chegar a casa e - a não ter nada para fazer.
Nada para fazer.
Quando Seinfeld decidiu acabar com a sua muitíssimo bem sucedida e muitíssimo engraçada sit-com, deu uma entrevista. Nessa entrevista, explicou que uma coisa que as pessoas lhe perguntavam muito era "Então agora que já não tem o programa, o que é que faz?". E Seinfeld responde - "Eu digo-vos o que faço. Não faço nada".
Eu, preguiçosa por natureza, sempre percebi este apego ao "nada" de Seinfeld (um homem que desiste da TV para não fazer nada, quando o seu programa de TV era, precisamente, sobre nada), e isto porque eu costumava considerar o meu "nada" como algo extremamente produtivo, em que lia, desenhava, ouvia música, escrevia. Mas depois de tempos infindos habituada a viver sem este "nada", agora que ele reaparece na minha vida, fico sem jeito a olhar. Não sei o que fazer ao tempo livre, da mesma forma que um ex-fumador não sabe o que há-de fazer às mãos. E também não sei o que fazer a esta terrível sensação de ter de aproveitar bem o tempo, tic-tac, tic-tac, não desperdiçar o tempo, o tempo escasseia, ai que vergonha não saber o que fazer ao tempo livre. Mas a verdade é que viver em sociedade é assim, a gente habitua-se ao tempo fragmentado, curto, a correr, compartimentado em horários e gavetas, e quando o tempo salta das gavetas para a nossa vida, ficamos abismados. Eu, pelo menos, fico.
Mas, por favor, não tomem atenção ao que escrevo. Já alguém, nome próprio Chico, apelido Buarque, descreveu tudo isto de forma tão bonita e tão superior à minha:

Vou
Uma vez mais
Correr atrás
De todo o meu tempo perdido
Quem sabe, está guardado
Num relógio escondido por quem
Nem avalia o tempo que tem

Ou
Alguém o achou
Examinou
Julgou um tempo sem sentido
Quem sabe, foi usado
E está arrependido o ladrão
Que andou vivendo com o meu quinhão
Ou dorme num arquivo
Um pedaço de vida, vida
A vida que eu não gozei
Eu não respirei
Eu não existia
Mas eu estava vivo
Vivo, vivo
O tempo escorreu
O tempo era meu
E apenas queria
Haver de volta
Cada minuto que passou sem mim

Sim
Encontro enfim
Iguais a mim
Outras pessoas aturdidas
Descubro que são muitas
As horas dessas vidas que estão
Talvez postas em leilão

São
Mais de um milhão
Uma legião
Um carrilhão de horas vivas
Quem sabe, dobram juntas
As dores coletivas, quiçá
No canto mais pungente que há

Ou dançam numa torre
As nossas sobrevidas
Vidas, vidas
A se encantar
A se combinar
Em vidas futuras
E vão tomando porres
Porres, porres
Morrem de rir
Mas morrem de rir
Naquelas alturas
Pois sabem que não volta jamais
Um tempo que passou


Oh, que belo poema.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Ler ou não ler

Ando há algum tempo para ler algo deste autor, John Cheever. Parece que era amigo de Truman Capote, e que escreveu muito sobre aquilo que esconde a vida asséptica dos subúrbios americanos. Uma vez li um artigo que designava John Cheever pelo escritor "da classe média americana". Não sei se isto será interessante, se não.
À medida que envelheço, sofro cada vez mais a angústia, não da influência, mas da selecção. Sinto que cada vez tenho menos tempo para perder com livros que não valem a pena. E receio que este escritor da classe média americana não valha muito a pena, embora também tenha receio de que valha e depois quem fica a perder sou eu. Basta lembrar-me dos anos que perdi a não gostar do Great Gatsby, apenas para o reler no ano passado e me ter apaixonado por Fitzgerald. Mas, ao mesmo tempo, pôr-me a ler este indivíduo, este Cheever, e depois descobrir que ele é uma espécie de Charles Bukowski da burguesia, seria uma desilusão e uma perda de tempo, tempo que poderia estar a aproveitar a ler coisas decentes.
Por exemplo, tenho um projecto de leitura que tem sido adiado, e que é o de ler as tragédias gregas todas que conseguir apanhar, as que já li e as que ainda não li. Ainda não o concretizei, mas quero concretizá-lo, um dia, e para isso vou precisar de tempo (e também de encontrar tragédias gregas, traduzidas, nas livrarias deste país, o que nem sempre é fácil, infelizmente). Tempo que não pode ser desperdiçado a ler John Cheever se este não passar da narrativa do desespero das donas de casa.
Portanto, a questão que eu levanto a quem tiver a enorme e muito apreciada gentileza de me responder, e que desde já agradeço, é: já alguém leu este John Cheever e, por favor, informavam-me num comentariozinho de mais ou menos cinco linhas se vale ou não a pena lê-lo?
Um sentido bem-haja.

domingo, 19 de julho de 2009


Gosto de olhar para esta fotografia e interrogar-me em que é que Truman Capote estará a pensar.
Gosto muito do fotógrafo que tirou esta foto, o Weegee. Tirava fotografias cruas da cidade, de prisões, da polícia, das multidões.
E também tirou esta, em que a Marilyn olha maliciosamente para o lado e o pequeno Truman dança com ela. Acho curioso que lhe agarre o pulso. É sinal de dominação, não é?
Enfim. Gosto da Marilyn, gosto do Truman. Apeteceu-me pôr aqui esta foto, ainda que não tenha nada de muito interessante a dizer sobre ela, infelizmente. Mas enfim, este blog serve para isso. É o meu reservatório de coisas e pensamentos que não têm nenhum lugar para ir.

I'm a sentimental, if you know what I mean. I love the country, but I can't stand the scene.

Faltam 10 dias.

Gripes

Bom.
Eu vou muitas vezes ao Reino Unido.
Eu passo muito tempo no Reino Unido.
Estou neste momento a ver um senhor na televisão a dizer que é preciso ter cuidado; li no Público que é preciso ter cuidado, embora a recomendação se aplique fundamentalmente a senhoras grávidas, o que não é o meu caso.
Por mais que queira, não me consigo preocupar com a gripe, nem com a suína, nem com a das aves, nem com qualquer outra. Se apanhar, apanhei, e tomo os comprimidos. Se os comprimidos não resultarem, paciência.
O que não me parece que vá fazer é viver a minha vida guiada pelos medos artificiais que a comunicação social gosta de criar. A mesma comunicação social que prognosticava milhões de mortes devido à gripe das aves. A mesma comunicação social que deixou de falar na SIDA, que parece que é "apenas" doença crónica, embora continue a matar hordas de seres humanos em todo o mundo.
Enfim. Os meus bilhetes para o UK continuam marcados, pagos e serão, com toda a certeza, usados.

(outra) Gaja que faz o meu estilo: Juliette Lewis


Dantes, eu gostava muito da Juliette Lewis, devido principalmente a Natural Born Killers e àquela forma vagarosa, melosa, de falar. Gosto de pessoas que falam devagar (também gosto muito do discurso lento de Nicholas Cage, por exemplo, embora ele me tenha desiludido muito, e já escrevi sobre isso e tudo, portanto não vou dizer mais nada). Mas, dizia, a Juliette Lewis é lenta a falar, o que me agrada, porque eu falo demasiadamente rápido e ninguém percebe nada do que eu digo, de modo que a minha vida é um eterno problema de comunicação com os meus semelhantes.
À semelhança de uma outra actriz de que também gosto muito, a Chloe Sevigny, esta Juliette tinha uma veia rebelde bem cheia e pulsante, e fazia filmes não propriamente bons, mas meio estranhos, como o NBK, o Kalifornia (com o seu namorado da altura, Brad Pitt - não que eu seja dada à coscuvilhice, mas gosto de saber estas coisas), e até o Cabo do Medo, que ainda hoje acho um bocadinho intenso.
Como eu sempre quis ter esta veia rebelde pulsante, mas infelizmente nunca tive, gostava de ver a Juliette a trabalhar. Vi-a no Husbands and Wives do Woody Allen e gostei muito dela, daquela beleza-feia que ela tem.
Hoje em dia, sei que tem uma banda, Juliette and the Licks, mas não acho que sejam grande coisa. Para mim, a Juliette é para ser apreciada no cinema, com aqueles olhos rasgados e estranhos, aquele sorriso meio feioso mas ao mesmo tempo bonito, o discurso vagaroso, o ar mal comportado. Gosto dela assim e espero que volte depressa.

sexta-feira, 17 de julho de 2009

The apparition of these faces in the crowd; Petals on a wet, black bough.


Nome é a imitação, por meio da voz, daquilo que nomeia e imita o imitador, lê-se em Crátilo.

(disclaimer: qualquer relação entre o lindo e composto título do post, roubado a Ezra Pound, e a frase inicial, roubada a Platão, e a qualidade do post que se segue é mera coincidência)

Passado alguns míseros séculos, Saussure contradisse Platão e afirmou que as coisas não eram assim. Toda a linguagem não passa de convenção, e não é a essência. O que quer dizer que eu seria exactamente a mesma pessoa caso me chamasse Ana, Margarida, Sofia, Cristina, Joana, Maria, Constantina, Fernanda, Gertrudes.
Porém - seria, de facto, a mesma pessoa se me chamasse Gertrudes? Se calhar, não. Se calhar, crescia a não gostar do meu nome e desenvolveria problemas de auto-estima. Ou então, por ser um nome tão diferente, crescia a adorá-lo e a pensar que era a melhor. Tornava-me "manienta", como certas pessoas gostam de dizer, e não há problema, porque é um excelente vocábulo português.
Quando nos é dado um nome, ele não acaba por fazer, de certa forma, parte da nossa essência? Talvez não porque, apesar de tudo, há pessoas que mudam de nome e não mudam de essência. Mas isto talvez queira dizer que estas pessoas mudaram de nome porque encontraram outro que finalmente as define. Talvez o nome possa, de facto, ser, mais do que uma convenção, a tal essência, a Ideia.
Eu acho mesmo que sim porque, por exemplo, não gostava nada de me chamar "Cátia" (e posso escrever isto à vontade porque só com um grande azar é que há alguém chamado Cátia por entre os (poucos mas muitíssimo bons) transeuntes desta Rua). Quando conhecemos alguém com uma grande personalidade que se chama Cátia, a tal "Cátia" normalmente diz não gostar do seu nome, e nós normalmente também pensamos sempre que a pessoa não tem, de facto, "cara" de Cátia. E este critério (a pessoa ter cara de...) aplica-se à maior parte de nós. Todos temos "cara" de um qualquer nome, um nome que se aplica a quem somos. Eu, por exemplo, chamo-me Rita mas tenho uma grande cara de Louise Brooks. É que tenho mesmo, perguntem a quem quer que seja que me conhece. Não estou a mentir. É que não estou mesmo. Longe de mim.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Angústias

Escreve uma tese _ disseram-me, com olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me disseram "Escreve uma tese!"
Eu olhei-os com olhos parvos,
(Há, nos meus olhos, estupidez e cansaço)
E não cruzei os braços,
E escrevi a tal da tese.

A minha glória não é esta:
Não acompanhar ninguém
Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Como no dia em que escrevi a primeira frase

A minha vida devia ser
Um vendaval que se soltou
Uma onda que se alevantou
Um átomo a mais que se animou...
Mas pedem-me definições
E é isso que eu dou.

Sei lá por onde vou. Suspiro.

Hoje tive saudades deste conjunto musical



You crazy!???
FNM were the shnizzle-my-dizzle (that's a good thing). They were the kings of prog rock of their time. Able to condense the music of early prog rock (songs which went on for ages, think 10-20mins) into listenable pieces of punchy music. Think small victory, midlife crisis, epic, we care a lot. And dont forget they 'lived' in a time when the media darlings were Guns N Roses (in their early days), (later) Nirvana, Pearl Jam and other so-called alternative cool boys/girls.
Mike Patton and co are god!!!
(or something like that anyway - i thought this is better than just replying 'yes they are good')

Que belíssima resposta à minha, ao que parece ofensiva, pergunta "Os Faith No More não eram assim tãããão bons, pois não?".

terça-feira, 14 de julho de 2009

A memória é o mês mais cruel

Há temas recorrentes nos filmes de Woody Allen que me fazem reflectir e, às vezes, chegam quase a atormentar. Um desses temas é a memória.
Já escrevi aqui no blog que uma das frases que não esqueço, e que é pronunciada pela personagem principal de Another Woman, é I wonder if a memory is something you have or something you lost. Penso nisto tantas, tantas, tantas vezes.
Num outro filme de Woody, Husbands and Wives, a personagem de Mia Farrow separa-se do marido (peço desculpa pelo spoiler), representado por Woody Allen. Este procura atraí-la de volta com recordações felizes e carinhosas do passado de ambos, ao que Mia Farrow responde: those memories are just memories. They're from years gone by, they're just isolated moments. They don't tell the whole story.
Inclino-me mais a concordar com Mia Farrow e encarar as recordações como coisas perdidas. Todo o passado, no fundo, é uma perda imensa. E nem sei se isto é bom, se é mau. Parece muito negro e negativo, mas talvez encarar a memória como um momento que perdemos seja surpreendentemente vantajoso. Se as recordações forem más, alegramo-nos por serem já passado irrecuperável que não voltaremos a viver; se forem boas, não precisamos de ter saudades porque o que se perdeu está perdido, o que foi ao ar perdeu o lugar e já não vale a pena pensar mais nisso.
A recordação de tempos felizes é, como TS Eliot dizia do mês de Abril, uma coisa crudelíssima. Conseguem ser uma verdadeira tortura para a mente. Sei que isto é novamente o meu desgastante pessimismo a falar, mas não deixa de ser verdade.
Tenho de deixar de ver tanto Woody Allen, que, com a mania que é sueco, é bem capaz de ser responsável pela depressão que a internet, aparentemente, me diagnosticou.

I'll be wearing a river's disguise, the hyacinth wild on my shoulder, my mouth on the dew of your thighs

Faltam 16 dias (só!).

Coisas que eu não percebo: o advento da T-shirt


Por vezes, sinto-me uma dos Antigos a olhar para as invenções deste mundo.
Porém, há invenções que eu abomino ligeiramente. A começar pela roupa de Verão. Detesto as roupas que se usam no Verão; detesto aquelas cores que agridem, muito amarelo, muito verde, muito azul claro, muita alegria por todo lado que só usa quem for adolescente, porque quem não for faz figura de parva. Detesto o facto de não dar jeito usar preto porque faz calor. Detesto o facto de a roupa de Verão ser assim uma espécie de um farrapinho, quanto mais leve melhor, que serve apenas para cobrir impudicícias, e que não cumpre nenhum propósito estético. Tudo na vida deve cumprir um propósito estético, já dizia Oscar Wilde, e a roupa de Verão não apresenta este propósito nem tem nenhuma personalidade.
Porém, há uma peça de roupa em particular que eu não compreendo (deve ser muito sofisticada) e que, para mim, simboliza esta falta de carisma da roupa de Verão: a T-shirt. O que é isto? Quem é que usa isto? (sim, eu sei, usamos todos; eu própria tenho duas ou três). A T-shirt é um bocado de algodão, grosseiramente cortado em forma de T, com umas mangas feias, e que não dá para embelezar por mais bonecada que lá se estampe. Uma T-shirt de uma só cor é feia porque não tem personalidade; uma T-shirt com coisas escritas continua a ser feia porque é uma T-shirt; uma T-shirt com a marca das roupas é, além de piroso, feio porque se está a fazer publicidade de graça. Em resumo, a T-shirt não tem salvação possível.
Confesso que há T-shirts com escritos com que eu simpatizo. Estou há que tempos para comprar a que está aqui na foto ao lado porque a acho muito engraçada (mais ninguém com quem eu falei acha, mas a mim este "warn-a-brother" faz-me sempre rir); mas há que reconhecer que a T-shirt é a peça de roupa mais feiosa e mais deslavada que se pode usar. A T-shirt, quanto a mim, está para a roupa como o Tom Hanks está para o cinema: dá jeito, compõe durante uns tempos, mas chega a uma altura que já não dá para suportar o tédio e a pessoa precisa de uma coisa diferente (blusas, tops, túnicas, etc., é só ir à Zara, H&M e quejandos e escolher coisas a bom preço que não são T-shirts).
O apelo que eu aqui deixo é: não à T-shirt.
E, para terminar, este post confirma que o Verão é, de facto, a silly season, em que algumas pessoas muito "silly" se ocupam a escrever todo um texto dedicado a temas interessantíssimos como o concernente (bonita palavra) à T-shirt.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Qual é a diferença entre tristeza e depressão?
Não penso estar deprimida, mas ontem fiz uns dois ou três testes na internet e parece que tenho todos os sintomas de depressão menos dois. A internet disse-me que eu devia consultar um médico rapidamente.
Parece que, afinal, estou deprimida. E eu que nunca tinha dado por isso.

Tea and oranges, all the way from China

Faltam 17 dias.

O insustentável peso do ser


Vi ontem, na RTP2, um documentário surpreendente e estranho. Chamava-se Grey Gardens, e era sobre duas senhoras, mãe (Big 'Edie') e filha ('Little' Edie), que viviam isoladas, sem dinheiro e sem ajuda, num casarão nos Hamptons, uma zona chique perto de Nova Iorque onde os endinheirados vão passar férias. O pai, nos dias de opulência, tinha abandonado a mãe na mansão; esta tinha chamado a filha para viver consigo, e a filha acedera, abandonando a sua vida em Nova Iorque para fazer companhia à mãe. Envelheciam as duas numa mansão vazia e enorme, decadente e esquálida, cheia de sombras e uma estranha alegria amarga, ou pelo menos assim parecia, quando os documentaristas as filmaram. As duas senhoras tinham chamado a atenção por viverem numa casa decadente e mal cheirosa, cheia de gatos e ratos e outros animaizinhos, de tal modo que os vizinhos já se tinham queixado; por outro lado, o facto de serem tia e prima de Jackie Kennedy e/ou Onassis também não passava despercebido. Aliás, a Jackie K. e/ou O., ao saber da indigência das familiares, abriu os cordões à bolsa para limpar e fazer obras à casa, mas isso já não aparece no documentário.
O que aparece é uma vida bizarra, de completa isolação, em que duas mulheres vivem uma rotinha de uma estranheza absoluta, alimentando-se de memórias dos dias em que cantavam e dançavam e eram felizes. A lembrança dessa felicidade é aquilo que as sustém, é quase elástica - a mãe, Big Edie, fala do antigo marido, de como a sua vida foi preenchida, de como cantava belíssimamente, e como ainda hoje é feliz com os seus gatos e com as caganitas que estes lhe deixam no quarto; a filha, Little Edie, diz que as únicas coisas que gosta na vida são a Igreja Católica, dançar e nadar; fala constantemente do regresso a Nova Iorque, de como a sua vida está em standby para que a possa retomar na cidade, de como a sua mãe a irrita ao afastar todos os (poucos) pretendentes que foi encontrando. Little Edie parece não perceber que tem 56 anos. Para ela, viver naquela enorme casa assombrada é um sonho, um estado passageiro, que acabará em breve e lhe abrirá a porta para a felicidade esperada, cheia de dança, de canto e de homens de sonho (não ter um homem que nos peça em casamento é um nojo, diz ela).
Este documentário, que rapidamente faz lembrar obras de ficção sobre a solidão e seus terríveis sucedâneos (o grande Sunset Boulevard e Whatever Happened to Baby Jane vêm imediatamente à mente), é triste e bonito e engraçado, tudo ao mesmo tempo. Gostei mesmo muito do filme e das estranhas Edies, mas não deixa de ser um terrível retrato de uma solidão inexpugnável. É estranhíssimo perceber que, afinal, o ser humano precisa desesperadamente dos outros, precisa de pessoas que confirmem a sua "ligação à terra" (e a mim custa-me dizer isto, porque sempre fui de opinião que quanto menos pessoas houver a chatear a vida de alguém, melhor). No fundo, o ser humano precisa de ser recordado por alguém, precisa que os outros saibam que ele exista, para não se tornar num fantasma, que era quase o que esta mãe e filha eram, apesar de todo o seu encanto (pareciam muito engraçadas e queridas).
O ser humano não é leve, e se é, precisa de ser pesado; precisa de, como dizia Nietzche, "provar a sua fidelidade à terra", não através do niilismo, mas antes de amarras ao mundo real, amarras que nos tornam pesados, presos à terra. Estas amarras são as outras pessoas. E eram estas amarras que a Big Edie e a Little Edie não tinham.
Um belíssimo filme. Vale muito a pena ver, é o conselho que aqui deixo, esperando que a minha vã filosofia barata não tenha estragado o apetite para este belo Grey Gardens.