domingo, 29 de novembro de 2009
sexta-feira, 27 de novembro de 2009
Como os sentimentos esdrúxulos, as cartas de amor são naturalmente ridículas
Eu dantes tinha uma mania, que era: escrever cartas de amor.
Sempre que pensava estar apaixonada, escrevia muitas cartas; enviava algumas, não enviava outras, mas escrevia sempre muitas. Já nessa altura sabia que Fernando Pessoa as considerava ridículas, mas eu discordava em absoluto. As minhas cartas de amor eram profundas e filosóficas, cheias de verdades importantíssimas sobre a vida e os sentimentos, e seriam tudo menos efémeras. Ou, pelo menos, eu assim pensava, naquela altura.
É evidente que a grande tristeza de crescer é compreender que a verdade está não nas minhas cartas de amor que o tempo levou, mas antes em Fernando Pessoa. É claro que todas as cartas de amor são ridículas, e não só, as minhas em particular ainda são mais, porque as escrevi com a arrogância da convicção de que não eram ridículas. Resta-me a consolação de saber que também eu recebi algumas cartas de amor, e que também estas foram ridículas. De modo que foi troca por troca, o que é simpático refrigério.
E compreendo agora que tudo o que tenha a ver com sentimentos, mimosos estados de alma e doces amores, se reveste de um ridículo que eu não consigo discernir de onde vem, mas que existe. Não estou a falar sequer da parafernália grotesca do S. Valentim, estou a falar de coisas normais, de ver duas pessoas apaixonadas a olhar uma para outra e termos de desviar a cara para não nos sentirmos envergonhados por elas. Devíamos aplaudi-los, e no entanto ficamos ali, contrafeitos, embaraçados, desconfortáveis. Excepto, é claro, quando somos nós os pombos apaixonados, e envergonhamos nós os outros.
Não percebo porque é que o amor tem de ser ridículo, mas o que é certo é que o é. Mesmo. No entanto, talvez este ridículo seja necessário ao amor. O fofinho, o queridinho, tem de fazer parte do amor, mesmo que depois, enfim, a pessoa entre em expiação e compense com uma data de filmes suecos ou qualquer outra coisa que provoque sofrimento e pessimismo, para que o equilíbrio se restabeleça. Mas o fofinho é necessário ao amor.
Eu, porém, cortei com as cartas de amor. São, efectivamente, ridículas. O fofinho não tem de ir tão longe.
É evidente que a grande tristeza de crescer é compreender que a verdade está não nas minhas cartas de amor que o tempo levou, mas antes em Fernando Pessoa. É claro que todas as cartas de amor são ridículas, e não só, as minhas em particular ainda são mais, porque as escrevi com a arrogância da convicção de que não eram ridículas. Resta-me a consolação de saber que também eu recebi algumas cartas de amor, e que também estas foram ridículas. De modo que foi troca por troca, o que é simpático refrigério.
E compreendo agora que tudo o que tenha a ver com sentimentos, mimosos estados de alma e doces amores, se reveste de um ridículo que eu não consigo discernir de onde vem, mas que existe. Não estou a falar sequer da parafernália grotesca do S. Valentim, estou a falar de coisas normais, de ver duas pessoas apaixonadas a olhar uma para outra e termos de desviar a cara para não nos sentirmos envergonhados por elas. Devíamos aplaudi-los, e no entanto ficamos ali, contrafeitos, embaraçados, desconfortáveis. Excepto, é claro, quando somos nós os pombos apaixonados, e envergonhamos nós os outros.
Não percebo porque é que o amor tem de ser ridículo, mas o que é certo é que o é. Mesmo. No entanto, talvez este ridículo seja necessário ao amor. O fofinho, o queridinho, tem de fazer parte do amor, mesmo que depois, enfim, a pessoa entre em expiação e compense com uma data de filmes suecos ou qualquer outra coisa que provoque sofrimento e pessimismo, para que o equilíbrio se restabeleça. Mas o fofinho é necessário ao amor.
Eu, porém, cortei com as cartas de amor. São, efectivamente, ridículas. O fofinho não tem de ir tão longe.
quinta-feira, 26 de novembro de 2009
Que me metam entre cobertores e não me façam mais nada, que a porta do meu quarto fique para sempre fechada...
Metade da minha vida é passada com sono.
Acordo com sono, vou trabalhar com sono, almoço, fico cheia de sono depois do almoço, os cafés não têm qualquer efeito em mim, passo a tarde com sono, chego a casa com sono, tomo café outra vez, e mesmo assim janto com sono.
Só não tenho sono imediatamente após o jantar. É o único momento da minha vida em que não tenho sono nenhum.
Vejo televisão e não tenho sono.
Leio e não tenho sono.
Ouço música, ouço os vizinhos aos berros, os vizinhos calam-se finalmente e vão dormir, tudo finalmente silencioso, e eu ainda sem sono.
Até quando adormeço, não tenho sono. Acordo no outro dia, desta vez cheia de sono, sem saber bem como adormeci. Espera-me um dia repleto da vontade terrível e cruel de fechar os olhos e descansar, e porém sem o poder fazer.
Acordo com sono, vou trabalhar com sono, almoço, fico cheia de sono depois do almoço, os cafés não têm qualquer efeito em mim, passo a tarde com sono, chego a casa com sono, tomo café outra vez, e mesmo assim janto com sono.
Só não tenho sono imediatamente após o jantar. É o único momento da minha vida em que não tenho sono nenhum.
Vejo televisão e não tenho sono.
Leio e não tenho sono.
Ouço música, ouço os vizinhos aos berros, os vizinhos calam-se finalmente e vão dormir, tudo finalmente silencioso, e eu ainda sem sono.
Até quando adormeço, não tenho sono. Acordo no outro dia, desta vez cheia de sono, sem saber bem como adormeci. Espera-me um dia repleto da vontade terrível e cruel de fechar os olhos e descansar, e porém sem o poder fazer.
As pessoas falam comigo e eu só peço que se calem, já que sou perfeitamente incapaz de compreender o que dizem, acontece-me tantas vezes as pessoas falarem comigo e eu a desesperar-me, porque me esqueci daquilo que disseram há dois segundos, distraída que estava, quase sonâmbula. Já estou assim há alguns anos, e portanto hoje em dia já quase toda a gente que conheço se aborreceu comigo, de modo que não tenho amigos, nem conhecidos, nem nada, passo a vida ostracizada e cheia de sono.
Tinha uma amiga que era assim. O caso dela foi ainda pior. Tinha insónias de tal modo agudas que passava a noite em claro. Morria de sono o dia todo.
Deixou de ter energia mórbida para fazer exercício físico mórbido e ficou ela obesa mórbida.
Deixou de ir de carro para o emprego porque teve dezenas de acidentes por adormecer ao volante.
Deixou de ir ao emprego porque não se conseguia levantar de manhã. Foi despedida.
Ficou sem rendimentos. Perdeu a casa. Perdeu o carro estampado. Foi viver com os pais. Engordou ainda mais. Ficou sem poder sair de casa. Continuou sem dormir, embora não tenha a certeza, deixei de me dar com ela.
É essencial saber vencer a insónia.
terça-feira, 24 de novembro de 2009
The Man with No Name

Se não me estivesse a doer muito a cabeça, falaria de Clint Eastwood e de como o adoro ver, velho e enrugado, a resmungar contra tudo e contra todos e a polir o seu magnífico Gran Torino verde, ou azul, ou o que era, e como adoro aquela dança final no The Good, The Bad and the Ugly, aquele olhar de desprezo, o andar firme, a postura toda convencida, a figura estilizada até à perfeição do duro de roer, batido pela vida e por isso invencível. O criminoso reformado e de bom coração em Unforgiven, o foragido espertalhão de Alcatraz, até o polícia quase psicopata que é Dirty Harry, adoro tudo, adoro o semblante de pedra, áspero, silencioso. Gosto, sobretudo, do facto de Clint Eastwood falar pouco mas, quando fala, é para fazer justiça, ou então para pôr alguém no seu miserável lugar - é que é uma coisa que entusiasma uma pessoa, de facto.
No entanto, o que eu gostava verdadeiramente era de poder, um dia, ver a dança final, icónica, de The Good, The Bad... no luxo de uma sala de cinema, com aquela música intensa e entusiasmante a retumbar. Isso e o Ran. É um sonho que eu acalento.
No entanto, o que eu gostava verdadeiramente era de poder, um dia, ver a dança final, icónica, de The Good, The Bad... no luxo de uma sala de cinema, com aquela música intensa e entusiasmante a retumbar. Isso e o Ran. É um sonho que eu acalento.
segunda-feira, 23 de novembro de 2009
Ir à rua pôr o lixo
Há uma grande desvantagem relativamente aos momentos catárticos, como por exemplo o concerto dos Massive Attack do post anterior, e que é o sentimento profundo e arrasador da ressaca. Regressei a casa sábado à noite limpa de todos os pecados e inundada por uma alegria eufórica, com os ouvidos ainda a retumbar daquele ritmo contagiante e frenético; acordei Domingo à tarde cansada e sem dar sentido à vida. Era como se as coisas só voltassem a fazer sentido se pudesse reviver momentos semelhantes aos da felicidade da noite anterior. Tinha olheiras e um grande sentimento de frustração.
Voltei para a cama. Doía-me a cabeça e tremia de frio. Passei o dia a chá e bolachas. Não vi televisão. Não consegui ler. Tudo um supremíssimo cansaço.
Hoje, consigo suportar a rotina apenas e só porque penso numa mesa de café, uma chávena escaldada, o líquido a ferver, a comemoração do fim do dia. É só mesmo isso que me aguenta. Sim, porque o concerto, esse, já é passado. Como diria o Herman num dos episódios do Tal Canal, "visteze-o? Era o viste-lo".
As alegrias, as catarses, as limpezas emocionais, trazem muito lixo ao de cima. E depois toda a gente tem preguiça de ir à rua deitar o lixo fora.
Voltei para a cama. Doía-me a cabeça e tremia de frio. Passei o dia a chá e bolachas. Não vi televisão. Não consegui ler. Tudo um supremíssimo cansaço.
Hoje, consigo suportar a rotina apenas e só porque penso numa mesa de café, uma chávena escaldada, o líquido a ferver, a comemoração do fim do dia. É só mesmo isso que me aguenta. Sim, porque o concerto, esse, já é passado. Como diria o Herman num dos episódios do Tal Canal, "visteze-o? Era o viste-lo".
As alegrias, as catarses, as limpezas emocionais, trazem muito lixo ao de cima. E depois toda a gente tem preguiça de ir à rua deitar o lixo fora.
Toy-like people make me boy-like

Ai, gostei tanto de os ver este fim-de-semana. De tanto cantar, saltar e dançar, saí do Campo Pequeno a sentir-me quase "expurgada" de aborrecimentos, contrariedades, irritações. A música tem este efeito de catarse. Se todos os fins-de-semana as pessoas pudessem ir a um concerto de uma banda de que gostam muito, muito, muito, não precisavam de ser alcoólicas nem de se meterem na droga. É um conselho que eu aqui deixo, em vez da metadona, que se experimente a música.
quarta-feira, 18 de novembro de 2009
No princípio, eram verbos como este...
D. DINIS
CANTIGA D'AMIGO
Levantou-s' a velida
levantou-s' alva
e vai lavar camisas
eno alto:
vai-las lavar alva.
Levantou-s' a louçana
levantou-s' alva
e vai lavar delgadas
eno alto:
vai-las lavar alva.
(E) vai lavar camisas,
levantou-s' alva;
o vento lhas desvia
eno alto:
vai-las lavar alva.
E vai lavar delgadas,
levantou-s' alva;
o vento lhas levava
eno alto:
vai-las lavar alva.
O vento lh'as desvia;
levantou-s' alva;
meteu-s' alva en ira
eno alto:
vai-las lavar alva.
O vento lh'as levava;
levantou-s' alva;
meteu-s' alva en sanha
eno alto:
vai-las lavar alva.
CANTIGA D'AMIGO
Levantou-s' a velida
levantou-s' alva
e vai lavar camisas
eno alto:
vai-las lavar alva.
Levantou-s' a louçana
levantou-s' alva
e vai lavar delgadas
eno alto:
vai-las lavar alva.
(E) vai lavar camisas,
levantou-s' alva;
o vento lhas desvia
eno alto:
vai-las lavar alva.
E vai lavar delgadas,
levantou-s' alva;
o vento lhas levava
eno alto:
vai-las lavar alva.
O vento lh'as desvia;
levantou-s' alva;
meteu-s' alva en ira
eno alto:
vai-las lavar alva.
O vento lh'as levava;
levantou-s' alva;
meteu-s' alva en sanha
eno alto:
vai-las lavar alva.
D. Dinis
Encontrei a transcrição aqui, neste belo blog, que figura também na listinha à direita, e onde se pode encontrar a "tradução" do mesmo poema para português moderno, de Natália Correia. Está aqui o princípio de tudo - da música, da poesia, da literatura, do português. Quer dizer, o princípio está em nós. Poemas como este de D. Dinis talvez sejam, digamos, a "verbalização", e essa, nem todos a conseguem fazer. Só os grandes.
Contra a sinceridade, marchar, marchar
Assim um post à pressa, que tenho uma pilha de papelada aqui mesmo ao pé de mim.
Há uma coisa, acho que talvez já tenha escrito sobre isso, dizia, há uma coisa que eu considero uma daquelas mentiras universais que nos ensinam só porque é bonito, só porque, enfim, as criancinhas ainda têm de crescer com alguns princípios, e que é a sinceridade. Desde quando é que a sinceridade é uma qualidade? Não me parece que seja.
Em primeiro lugar, quando as pessoas me vêm com "olha, desculpa lá a sinceridade", ou "olha, já sabes que eu vou ser muito sincera", este elevado predicado da sinceridade só serve para anunciar, como bem sabemos, que lá vem merda. É o intróito muitíssimo moral que as pessoas gostam de usar para prefaciar uma ofensa, ou algo desagradabilíssimo que já sabem que não vamos gostar de ouvir. Um insulto, portanto ("tu já sabes que eu sou muito sincera - acho que estás a ser parva, acho que és uma besta", etc). Lamento dizer que a sinceridade não atribui elevação moral a ninguém para vir chatear os outros. Não atribui, não.
Em segundo lugar, se desse na cabeça de toda a gente começar a ser "sincera", a sociedade resvalava e esfarelava-se toda, ainda mais do que já está. Todo o convívio humano, toda a base diária que nos permite suportar os outros, assenta em não sermos sinceros. Exemplos:
1.
- Achas que sou boa no meu trabalho?
- Ah, acho que sim... quer dizer, a pessoa tem de estar sempre a fazer um esforço, sempre a estudar, não é, mas sim, acho que sim.
- Ah, obrigada. Então vou continuar, com muita vontade e esforço.
(exemplo de cordialidade, comunicação harmoniosa e, lá está, desonestidade)
2.
- Achas que sou boa no meu trabalho?
- Não, realmente acho que não, acho que és um bocado burra, muito limitada, podes matar-te a estudar que nunca vais perceber isto.
- Minha grande vaca, tens a mania, espera que te vou bater.
(tradução do exemplo anterior em linguagem sincera)
A própria língua está organizada em torno da não-sinceridade. O que é a delicadeza senão uma mentira? O que são as formas de tratamento, o senhor, a senhora, o respeitoso Vossa Excelência, a Sua Majestade, senão metáforas mentirosas que se destinavam/destinam a cumprir um desígnio bem mais importante do que a sinceridade - a harmonia das relações sociais (sim, porque chamar "Sua Majestade" a monarcas como, digamos, D. João III, por exemplo, é realmente uma metáfora mal enjorcada, mas que cumpria o seu propósito)?
Eu sou uma pessoa que é contra a sinceridade. Com a sinceridade, não vamos a lado nenhum. Contra a sinceridade, há que protestar, porque não há interesse em saber o que as pessoas realmente pensam, nem elas, se fossem espertas, teriam qualquer interesse em revelar-nos aquilo que a sua moral sinceridade pensa. A sinceridade é do foro íntimo, é tão íntima como qualquer segredo bem guardado, e é aí que deve ficar - sob pena de ninguém se entender neste pequeno mundo que, já de si, é tão dado à beligerância.
domingo, 15 de novembro de 2009
Manhã Pura
Agora que tenho o meu ipod e respectivo itunes de volta ao seu estado normal (um obrigado encarecido às almas caridosas que me auxiliaram), volto ao fru-fru (haverá expressão mais pavorosa que esta, eh eh?) das playlists e dos shuffles e dessas coisas todas muito deslumbrantes.
Bom, uma coisa que tem despertado o interesse é o facto de haver certas músicas que se adaptam particularmente bem a certas alturas do dia. Já escrevi que, por exemplo, ouvir Tom Waits de manhã é coisa que não resulta. O Tom tem de ter um espírito e um ambiente bem mais obscuros - o que o torna particularmente bom para um dia escuro e chuvoso como este.
No entanto, como ouvir música de manhã é muito importante para mim, pois se não ouço algo de jeito antes de começar a trabalhar, sou, digamos que, uma mistura de zombie ressacado deprimido mal disposto com sede de sangue, o que é bastante negativo (exemplo, retirado convenientemente desse grande filme que é A Noite dos Mortos - Vivos:


mesmo de meter medo),
dizia, como fico num estado miserabilíssimo, preciso, de facto, de uma música matinal eficaz. De modo que ando a estudar uma playlist matinal que resulte mesmo, que condense a mistura ideal de energia, melodia, profundidade e alegria inconsequente, para dispor bem.
Até agora, tenho um top 5, como diria John Cusack nesse outro grande filme que é o Alta Fidelidade, do qual constam:
1. o fundamental e indispensável Unfinished Sympathy, Massive (já escrevi sobre isto antes, não me vou alongar muito sobre esta canção; tenho apenas uma pequena ressalva, que é: bilhetinho para o Campo Pequeno já cá canta, ponto de exclamação)
2. o imprescindível Pure Morning, Placebo (o que eu gosto destes indivíduos, gosto, gosto)
3. Are You Ready To Be Heartbroken, do grande Lloyd Cole (esta música traz à playlist aquela parte da profundidade, da filosofia, para nos convencer que o dia que está prestes a começar tem uma qualquer relevância. Infelizmente, não encontro um vídeo decente desta canção no youtube para postar aqui)
4. Postcards From Italy, dos Beirut (a alegria inconsequente, meio folk, meio havaina, dá vontade de cantar, muito giro e querido)
5. uma escolha recente, mas que não consigo parar de cantarolar, e que portanto consolida o sentimento eufórico e alegre que já vem dos Beirut, e que é You Don't Know Me, Ben Folds e Regina Spektor.
O importante para começarmos bem a manhã é mesmo, reitero, o equilíbrio perfeito entre a euforia alegre e a filosofia. Até hoje, estas musiquinhas têm impedido o meu lado zombie-feio de emergir de uma forma absolutamente descarada, mas sei que ainda há muito trabalho a fazer.
Tenho também pensado na playlist adequada para o fim do dia, quando se sai do trabalho, cansada e farta e a precisar de um mimo. Mas isso fica para outro post, que é matéria mais complexa.
sexta-feira, 13 de novembro de 2009
Gaja que faz o meu estilo: Elis Regina
Ilumina a mina escura e funda, o trem da minha vida
Esta frase, cantada pela voz grande da Elis e que ouvi em pequena, produziu uma marca indelével na minha imaginação infantil, pela sua força intensa, que me impressionava.
Lembro-me de, em pequena, ver a Elis na televisão, muito sorridente e de cabelo curtinho, e de a ter achado fascinante (sempre fui uma criança com apurado sentido estético no que toca a cabelos). Lembro-me de a minha mãe ouvir "em repeat" este Romaria, de arrepiar. Ouvir a Elis continua, surpreendentemente, a produzir em mim exactamente o mesmo efeito de quando eu era pequena - uma comoção que quase dá um nó na garganta. Límpida e intensa - a voz, a presença, tudo.
E deixo aqui este vídeo. Também de arrepiar, de dar nó na garganta. Grande Elis.
quarta-feira, 11 de novembro de 2009
Kafka está a rir-se de mim

Provavelmente, este seria o tipo de coisa que deveria escrever no facebook ou twitter, que não tenho, ou quejandos. Mas vou escrever aqui.
Comprei um ipod. Um objecto minúsculo que custa centenas de euros. Enchi-o de música até transbordar. Mudei de computador. E a música que tenho no ipod, que eu comprei, que é meu, por alguma razão que desconheço, não pode ser transferida para o computador, que também é meu. Quer dizer, é tudo meu, paguei tudo sem ficar a dever nada e, alegremente, a querida Apple, qual velha beata a velar pelos seus ricos santinhos, parece não ter pensado num método prático e simples que me permita ter a minha musiquinha na minha biblioteca do itunes, facilmente, sempre que mudo de computador. Se o disco vai abaixo, pumba, vai tudo abaixo. Então mas o quê, agora tenho de ir "queimar" os CDs todos outra vez e perder horas neste processo? Compro um ipod novo?
A culpa é toda minha. Isto é uma grande lição. Gasta-se o virtual dinheiro, que julgamos nosso, num deslumbramento bimbo pelas tecnologias que facilitam tudo, facilitam imenso, e algo tão simples, como ter a nossa música (sublinho o determinante possessivo e, já agora, sublinho possessivo) no nosso pc a partir do nosso ipod (reitero o determinante possessivo) é impossível.
Por favor, alguém que me diga que isto é tudo uma grande inépcia da minha parte, fraca de espírito que sou em relação a tecnologias e informáticas, e que poderei, num ápice, transferir a música do ipod para o novo pc. Que isto sou tudo eu, que sou estúpida, e venho para aqui injustamente vilipendiar a sedenta Apple, na sua enjoada e insuportável missão de proteger direitos de autor e, já agora, ganhar uns trocos à custa disso (e à nossa custa, também). Digam-me que isto é tudo injustiça minha e, já agora, em podendo e por caridade, informem-me de como proceder para efectuar a dita transferência. Um sentido bem-haja.
(estão a ver, este sorrisinho ironicozinho do Kafka, pior que a Mona Lisa? Ah, pois. Quem sabe, sabe, e os parvos como eu ficam a olhar).
E se este blog fosse assim...

Vejo que as tempestades vêm aí
pelas árvores que, à medida que os dias se tomam mornos,
batem nas minhas janelas assustadas
pelas árvores que, à medida que os dias se tomam mornos,
batem nas minhas janelas assustadas
Rainer Maria Rilke
As pessoas caminham com uma tranquilidade fria.
Não sei quem és, mas sei que te conheço. O olhar rasgado e vedor nessa presença física e diáfana que me outorgas. O beijo simples. A partida certa.
O dia voltará a amanhecer, tão certo como o teu regresso. A solidão é o meu abraço, o meu colo, o meu mais frio lençol, um toque gélido na pele de mar e luz.
Não sei quem és, mas sei que te conheço.
Há uma razão para este blog não ser nada disto, e essa razão é:
(junto o meu ao riso do Nelson)
Optimismo
Hoje vi uma senhora rechonchuda a comprar castanhas quentes e boas a um senhor, na rua.
A senhora estava muito sorridente.
Tinha um ar mesmo satisfeito, enquanto procurava troco na carteira para dar ao homem.
terça-feira, 10 de novembro de 2009
Não sou eu, não
Estou cheia de sono.
Há muitas alturas na vida em que eu gostaria de cantar esta canção, ou por outra, recitar esta canção. Resolveria muita coisa.
Estou a morrer de sono.
E o mundo lá fora quer coisas práticas, respostas directas, sucesso, competência, eficiência.
Eu tenho uma resposta muito clara a estas coisas que o mundo quer. E vou dá-la da forma mais clara possível, para que o mundo perceba bem, de uma vez por todas:
Há muitas alturas na vida em que eu gostaria de cantar esta canção, ou por outra, recitar esta canção. Resolveria muita coisa.
segunda-feira, 9 de novembro de 2009
Homo homini lupus?

Estou irremediavelmente dividida entre um humanismo optimista e o terrível pessimismo de Hobbes, "o homem é lobo do homem".
Como é que uma matilha de lobos, ou até mesmo um lobo terrível e solitário, com sede de sangue e de poder, consegue, ao mesmo tempo que ostenta este carácter tão assassino, fazer coisas como a literatura, a a arquitectura, a pintura, enfim, coisas que encarnam qualquer ideia possível de perfeição? Um professor da FLUL, Manuel Frias Martins, escreveu um livro sobre literatura e chamava a esta ideia da perfeição (pelo menos, acho que era isso que ele queria dizer) a "matéria negra".
Mas o homem é lobo do homem. Como é que um lobo com sede de sangue consegue, ao mesmo tempo que ostenta um carácter tão assassino, fazer coisas como a literatura, a a arquitectura, enfim, a perfeição, a matéria negra?
É deste círculo vicioso que não me consigo livrar.
Mas o homem é lobo do homem. Como é que um lobo com sede de sangue consegue, ao mesmo tempo que ostenta um carácter tão assassino, fazer coisas como a literatura, a a arquitectura, enfim, a perfeição, a matéria negra?
É deste círculo vicioso que não me consigo livrar.
domingo, 8 de novembro de 2009
O artista é um bom artista
Espero ansiosamente por qualquer estreia dos Irmãos Coen - A Serious Man, neste caso. Alguns filmes são melhores do que outros, já se sabe, e daí estes realizadores passarem do 8 ao 80 aos olhos da crítica - tanto são adorados com Fargos, Este País..., Bartons Finks, como são vilipendiados com Lady Killers, Burn After Reading e até (esta, sinceramente, não percebo), o magnífico Oh Brother Where Art Thou, que eu adoro, mas acerca do qual nunca li críticas tão entusiastas como deveria haver (quando Este País... estreou, cheguei a ler uma crítica em que se dizia que os Coen tinham, finalmente, feito o seu primeiro grande filme desde Fargo. Infelizmente, não consegui encontrar esta pérola na internet para postar aqui, mas tenho a certeza absoluta de ter lido tal monstruosidade, penso que no Público; no entanto, como digo, não posso provar).
Há pessoas que já fizeram coisas tão boas que não precisam de comprovar constantemente a sua genialidade. Tudo o que fazem que não é uma obra-prima é, pelo menos, bom. Os Irmãos Coen (tal como o Woody Allen, o Tim Burton ou o Nick Cave, quanto a mim) são exemplos paradigmáticos desse tipo de pessoas. Nunca vi nada deles que não merecesse ser visto.
Também gosto daquele tipo de artistas que recompensa o público. Adoro quando o Woody Allen recheia os seus filmes mais recentes com diálogos e citações de filmes anteriores, como que a piscar o olho àqueles que reconhecem de imediato a referência; gosto quando Nick Cave conta uma história do princípio ao fim nas suas canções, terminando numa apoteose (daí coisas como Stagger Lee serem fabulosas, na escalada narrativa e de violência que oferece); gosto quando os irmãos Coen pegam num elenco reduzido, em cenários simples, em narrativas vindas do noir, contadas anteriormente centenas de vezes, e conseguem um diamante perfeito como este:
The Man Who Wasn't There é, visualmente, dos filmes mais bonitos que existe. Esta foto aqui acima parece quase retirada do Citizen Kane. Além disso, tem o Billy Bob Thornton a fumar da forma mais estilosa que já vi, em, literalmente, todas as cenas. Deve ser dos filmes em que mais se fuma, mais ainda do que os originais noir que serviram de inspiração. E que bem que se fuma neste filme, é uma beleza...
Tal como este Nick Cave, cheio de pinta, a destilar pinta, diria até, é também uma beleza, a cantar Stagger Lee.
O artista que é um bom artista, mesmo que tente, nunca consegue deixar de ser bom. E, como diz Truman Capote, se isso é uma vantagem, também não deixa de ser um chicote, permanente a exigir mais.
sexta-feira, 6 de novembro de 2009
A elite, esse papão
Uma vez, numa discussão entre "amigos" sobre o Processo de Bolonha, fui instada a dar a minha opinião; disse que as universidades deviam promover o saber pelo saber. Respondeu-me um "amigo": "a tua perspectiva é elitista e estúpida". Eu, que não sou pessoa de levar desaforo para casa, como dizem os nossos companheiros brasileiros, encetei uma bulha e criou-se ali um escarcéu. Mas no fim tudo se resolveu.
Aquilo que me irrita profundamente é evocar-se "elitismo" e "elite" como se fossem coisas nefastas para o país, quando o problema deste país, de qualquer país, é o não ter elite de qualquer espécie. O que me parece é que, quando as pessoas despendem o seu latim a vilipendiar o elitismo e a elite, é na verdade em algo semelhante à plutocracia que estão a pensar. O problema resolve-se muito facilmente com um objecto, que deveria ser de uso diário, designado comummente por "dicionário".
As elites, um grupo de pessoas de excelência, que são superiores pelo mérito e pela qualidade intelectual ou técnica que detêm (não pelo poder, pelo dinheiro ou pelas cunhas) - sublinho a palavra mérito - são essenciais. Qualquer país precisa de alguém que estabeleça padrões educacionais, culturais, civilizacionais, até. E nem todos estão em condições para o fazer, pura e simplesmente. Temos todos os mesmos direitos, somos todos seres humanos dignos e respeitáveis, mas há pessoas que, pura e simplesmente, são melhores do que nós. E estas pessoas, esta tão odiada "elite", seriam aqueles que, ao invés de nivelar por baixo, como se costuma dizer, estabeleceriam padrões de exigência tais que o nível estaria sempre nos píncaros.
Não é o que se passa neste jardim à beira-mar plantado, da mesma forma que não é o que se passa nos outros países europeus que conheço minimamente (não são assim muitos, digo já). Políticos, intelectuais, escritores, a "inteligência" em geral, foi para o estrangeiro, ou vive na semi-obscuridade. Quem alcança relevância mediática ou profissional é, na maior parte dos casos, ou mediano, ou pura e simplesmente medíocre. E isto é aceite por todos porque se pensa, erradamente, deturpadamente, que a democracia é isto, quando nunca ninguém disse que a democracia é o poder da mediocridade. E o que se devia dizer é que este ódio às elites e a recompensa outorgada aos medíocres é a derrocada de qualquer futuro.
A hegemonia da mediocridade está bem à vista, tendo chegado já há muito às escolas e, até, à única instituição onde nunca poderia ter chegado, com consequências desastrosas - a universidade.
Por isso, aquilo que eu desejo para 2010 é que este país consiga ter uma elite digna desse nome.
quinta-feira, 5 de novembro de 2009
Melhor Blogger Hipotético: Leonard Woolf

22nd March 1941
Oh, woman, please do shut up, do shut your big, massive gob, please do!
No. No such luck. Here she comes again (if I have to listen to that whinning little voice of hers one more time , "Lenny, I hear voices", "Lenny, I can't write today", "Lenny, I am a dreadful housewife, do you not think so?", "Lenny, I say, for the life of me I am at a loss with Mrs Dalloway, what shall she do after buying the flowers, I simply cannot fathom, perhaps a trip to a lighthouse...", the way she babbles on, oooooooh!). Now she is telling me she cannot write. Again.
Of course you can't, dear. You're too busy bothering me with that appaling depression of yours. I am not a doctor, helloo-O!
And this bloody war going on... what is happening to my people?Of course you can't, dear. You're too busy bothering me with that appaling depression of yours. I am not a doctor, helloo-O!
25th March 1941
Right. I am a busy man. Busy and concerned. I am deeply concerned with the faith of my people in "Europe", for example (what a ghastly place - I dare say, every gentleman ought to have been born a British man). So, I do have all these worries. And this woman gives me no peace. I cannot work. I cannot print my pamphlets. All my life is now devoted to her needs, her writing, her thoughts... oh, God.
For example, the other day. She made me read the rubbish she was writing. I could not follow a bloody sentence! I do not know what she is on about half the time! This woman just ignores the meaning of "punc-tua-tion". But of course, I could not tell her that, oh God, no, we wouldn't want another of her fits, would we?, so I just told her, "This is all quite lovely, Ginnie, old girl, but perhaps a comma or two, a stop or two, wouldn't hurt?" Even this harmless remark made her cry. Hours spent trying to appease her... oh, what to do!
If only I could go back to living alone, without "her"... I need to help with the war effort somehow, I can't have her breathing down my neck, she and her "depression".
27th March 1941I have had what I believe is just about the most brilliant idea any man in my situation could have had. The most brilliant idea! Now, Ginnie is depressed, everybody knows that - what if something happens, something that... if she had a crisis... I could put stones in her pockets...
29th March 1941 Oh, the grief.
Subscrever:
Mensagens (Atom)

