sexta-feira, 17 de julho de 2009

The apparition of these faces in the crowd; Petals on a wet, black bough.


Nome é a imitação, por meio da voz, daquilo que nomeia e imita o imitador, lê-se em Crátilo.

(disclaimer: qualquer relação entre o lindo e composto título do post, roubado a Ezra Pound, e a frase inicial, roubada a Platão, e a qualidade do post que se segue é mera coincidência)

Passado alguns míseros séculos, Saussure contradisse Platão e afirmou que as coisas não eram assim. Toda a linguagem não passa de convenção, e não é a essência. O que quer dizer que eu seria exactamente a mesma pessoa caso me chamasse Ana, Margarida, Sofia, Cristina, Joana, Maria, Constantina, Fernanda, Gertrudes.
Porém - seria, de facto, a mesma pessoa se me chamasse Gertrudes? Se calhar, não. Se calhar, crescia a não gostar do meu nome e desenvolveria problemas de auto-estima. Ou então, por ser um nome tão diferente, crescia a adorá-lo e a pensar que era a melhor. Tornava-me "manienta", como certas pessoas gostam de dizer, e não há problema, porque é um excelente vocábulo português.
Quando nos é dado um nome, ele não acaba por fazer, de certa forma, parte da nossa essência? Talvez não porque, apesar de tudo, há pessoas que mudam de nome e não mudam de essência. Mas isto talvez queira dizer que estas pessoas mudaram de nome porque encontraram outro que finalmente as define. Talvez o nome possa, de facto, ser, mais do que uma convenção, a tal essência, a Ideia.
Eu acho mesmo que sim porque, por exemplo, não gostava nada de me chamar "Cátia" (e posso escrever isto à vontade porque só com um grande azar é que há alguém chamado Cátia por entre os (poucos mas muitíssimo bons) transeuntes desta Rua). Quando conhecemos alguém com uma grande personalidade que se chama Cátia, a tal "Cátia" normalmente diz não gostar do seu nome, e nós normalmente também pensamos sempre que a pessoa não tem, de facto, "cara" de Cátia. E este critério (a pessoa ter cara de...) aplica-se à maior parte de nós. Todos temos "cara" de um qualquer nome, um nome que se aplica a quem somos. Eu, por exemplo, chamo-me Rita mas tenho uma grande cara de Louise Brooks. É que tenho mesmo, perguntem a quem quer que seja que me conhece. Não estou a mentir. É que não estou mesmo. Longe de mim.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Angústias

Escreve uma tese _ disseram-me, com olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me disseram "Escreve uma tese!"
Eu olhei-os com olhos parvos,
(Há, nos meus olhos, estupidez e cansaço)
E não cruzei os braços,
E escrevi a tal da tese.

A minha glória não é esta:
Não acompanhar ninguém
Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Como no dia em que escrevi a primeira frase

A minha vida devia ser
Um vendaval que se soltou
Uma onda que se alevantou
Um átomo a mais que se animou...
Mas pedem-me definições
E é isso que eu dou.

Sei lá por onde vou. Suspiro.

Hoje tive saudades deste conjunto musical



You crazy!???
FNM were the shnizzle-my-dizzle (that's a good thing). They were the kings of prog rock of their time. Able to condense the music of early prog rock (songs which went on for ages, think 10-20mins) into listenable pieces of punchy music. Think small victory, midlife crisis, epic, we care a lot. And dont forget they 'lived' in a time when the media darlings were Guns N Roses (in their early days), (later) Nirvana, Pearl Jam and other so-called alternative cool boys/girls.
Mike Patton and co are god!!!
(or something like that anyway - i thought this is better than just replying 'yes they are good')

Que belíssima resposta à minha, ao que parece ofensiva, pergunta "Os Faith No More não eram assim tãããão bons, pois não?".

terça-feira, 14 de julho de 2009

A memória é o mês mais cruel

Há temas recorrentes nos filmes de Woody Allen que me fazem reflectir e, às vezes, chegam quase a atormentar. Um desses temas é a memória.
Já escrevi aqui no blog que uma das frases que não esqueço, e que é pronunciada pela personagem principal de Another Woman, é I wonder if a memory is something you have or something you lost. Penso nisto tantas, tantas, tantas vezes.
Num outro filme de Woody, Husbands and Wives, a personagem de Mia Farrow separa-se do marido (peço desculpa pelo spoiler), representado por Woody Allen. Este procura atraí-la de volta com recordações felizes e carinhosas do passado de ambos, ao que Mia Farrow responde: those memories are just memories. They're from years gone by, they're just isolated moments. They don't tell the whole story.
Inclino-me mais a concordar com Mia Farrow e encarar as recordações como coisas perdidas. Todo o passado, no fundo, é uma perda imensa. E nem sei se isto é bom, se é mau. Parece muito negro e negativo, mas talvez encarar a memória como um momento que perdemos seja surpreendentemente vantajoso. Se as recordações forem más, alegramo-nos por serem já passado irrecuperável que não voltaremos a viver; se forem boas, não precisamos de ter saudades porque o que se perdeu está perdido, o que foi ao ar perdeu o lugar e já não vale a pena pensar mais nisso.
A recordação de tempos felizes é, como TS Eliot dizia do mês de Abril, uma coisa crudelíssima. Conseguem ser uma verdadeira tortura para a mente. Sei que isto é novamente o meu desgastante pessimismo a falar, mas não deixa de ser verdade.
Tenho de deixar de ver tanto Woody Allen, que, com a mania que é sueco, é bem capaz de ser responsável pela depressão que a internet, aparentemente, me diagnosticou.

I'll be wearing a river's disguise, the hyacinth wild on my shoulder, my mouth on the dew of your thighs

Faltam 16 dias (só!).

Coisas que eu não percebo: o advento da T-shirt


Por vezes, sinto-me uma dos Antigos a olhar para as invenções deste mundo.
Porém, há invenções que eu abomino ligeiramente. A começar pela roupa de Verão. Detesto as roupas que se usam no Verão; detesto aquelas cores que agridem, muito amarelo, muito verde, muito azul claro, muita alegria por todo lado que só usa quem for adolescente, porque quem não for faz figura de parva. Detesto o facto de não dar jeito usar preto porque faz calor. Detesto o facto de a roupa de Verão ser assim uma espécie de um farrapinho, quanto mais leve melhor, que serve apenas para cobrir impudicícias, e que não cumpre nenhum propósito estético. Tudo na vida deve cumprir um propósito estético, já dizia Oscar Wilde, e a roupa de Verão não apresenta este propósito nem tem nenhuma personalidade.
Porém, há uma peça de roupa em particular que eu não compreendo (deve ser muito sofisticada) e que, para mim, simboliza esta falta de carisma da roupa de Verão: a T-shirt. O que é isto? Quem é que usa isto? (sim, eu sei, usamos todos; eu própria tenho duas ou três). A T-shirt é um bocado de algodão, grosseiramente cortado em forma de T, com umas mangas feias, e que não dá para embelezar por mais bonecada que lá se estampe. Uma T-shirt de uma só cor é feia porque não tem personalidade; uma T-shirt com coisas escritas continua a ser feia porque é uma T-shirt; uma T-shirt com a marca das roupas é, além de piroso, feio porque se está a fazer publicidade de graça. Em resumo, a T-shirt não tem salvação possível.
Confesso que há T-shirts com escritos com que eu simpatizo. Estou há que tempos para comprar a que está aqui na foto ao lado porque a acho muito engraçada (mais ninguém com quem eu falei acha, mas a mim este "warn-a-brother" faz-me sempre rir); mas há que reconhecer que a T-shirt é a peça de roupa mais feiosa e mais deslavada que se pode usar. A T-shirt, quanto a mim, está para a roupa como o Tom Hanks está para o cinema: dá jeito, compõe durante uns tempos, mas chega a uma altura que já não dá para suportar o tédio e a pessoa precisa de uma coisa diferente (blusas, tops, túnicas, etc., é só ir à Zara, H&M e quejandos e escolher coisas a bom preço que não são T-shirts).
O apelo que eu aqui deixo é: não à T-shirt.
E, para terminar, este post confirma que o Verão é, de facto, a silly season, em que algumas pessoas muito "silly" se ocupam a escrever todo um texto dedicado a temas interessantíssimos como o concernente (bonita palavra) à T-shirt.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Qual é a diferença entre tristeza e depressão?
Não penso estar deprimida, mas ontem fiz uns dois ou três testes na internet e parece que tenho todos os sintomas de depressão menos dois. A internet disse-me que eu devia consultar um médico rapidamente.
Parece que, afinal, estou deprimida. E eu que nunca tinha dado por isso.

Tea and oranges, all the way from China

Faltam 17 dias.

O insustentável peso do ser


Vi ontem, na RTP2, um documentário surpreendente e estranho. Chamava-se Grey Gardens, e era sobre duas senhoras, mãe (Big 'Edie') e filha ('Little' Edie), que viviam isoladas, sem dinheiro e sem ajuda, num casarão nos Hamptons, uma zona chique perto de Nova Iorque onde os endinheirados vão passar férias. O pai, nos dias de opulência, tinha abandonado a mãe na mansão; esta tinha chamado a filha para viver consigo, e a filha acedera, abandonando a sua vida em Nova Iorque para fazer companhia à mãe. Envelheciam as duas numa mansão vazia e enorme, decadente e esquálida, cheia de sombras e uma estranha alegria amarga, ou pelo menos assim parecia, quando os documentaristas as filmaram. As duas senhoras tinham chamado a atenção por viverem numa casa decadente e mal cheirosa, cheia de gatos e ratos e outros animaizinhos, de tal modo que os vizinhos já se tinham queixado; por outro lado, o facto de serem tia e prima de Jackie Kennedy e/ou Onassis também não passava despercebido. Aliás, a Jackie K. e/ou O., ao saber da indigência das familiares, abriu os cordões à bolsa para limpar e fazer obras à casa, mas isso já não aparece no documentário.
O que aparece é uma vida bizarra, de completa isolação, em que duas mulheres vivem uma rotinha de uma estranheza absoluta, alimentando-se de memórias dos dias em que cantavam e dançavam e eram felizes. A lembrança dessa felicidade é aquilo que as sustém, é quase elástica - a mãe, Big Edie, fala do antigo marido, de como a sua vida foi preenchida, de como cantava belíssimamente, e como ainda hoje é feliz com os seus gatos e com as caganitas que estes lhe deixam no quarto; a filha, Little Edie, diz que as únicas coisas que gosta na vida são a Igreja Católica, dançar e nadar; fala constantemente do regresso a Nova Iorque, de como a sua vida está em standby para que a possa retomar na cidade, de como a sua mãe a irrita ao afastar todos os (poucos) pretendentes que foi encontrando. Little Edie parece não perceber que tem 56 anos. Para ela, viver naquela enorme casa assombrada é um sonho, um estado passageiro, que acabará em breve e lhe abrirá a porta para a felicidade esperada, cheia de dança, de canto e de homens de sonho (não ter um homem que nos peça em casamento é um nojo, diz ela).
Este documentário, que rapidamente faz lembrar obras de ficção sobre a solidão e seus terríveis sucedâneos (o grande Sunset Boulevard e Whatever Happened to Baby Jane vêm imediatamente à mente), é triste e bonito e engraçado, tudo ao mesmo tempo. Gostei mesmo muito do filme e das estranhas Edies, mas não deixa de ser um terrível retrato de uma solidão inexpugnável. É estranhíssimo perceber que, afinal, o ser humano precisa desesperadamente dos outros, precisa de pessoas que confirmem a sua "ligação à terra" (e a mim custa-me dizer isto, porque sempre fui de opinião que quanto menos pessoas houver a chatear a vida de alguém, melhor). No fundo, o ser humano precisa de ser recordado por alguém, precisa que os outros saibam que ele exista, para não se tornar num fantasma, que era quase o que esta mãe e filha eram, apesar de todo o seu encanto (pareciam muito engraçadas e queridas).
O ser humano não é leve, e se é, precisa de ser pesado; precisa de, como dizia Nietzche, "provar a sua fidelidade à terra", não através do niilismo, mas antes de amarras ao mundo real, amarras que nos tornam pesados, presos à terra. Estas amarras são as outras pessoas. E eram estas amarras que a Big Edie e a Little Edie não tinham.
Um belíssimo filme. Vale muito a pena ver, é o conselho que aqui deixo, esperando que a minha vã filosofia barata não tenha estragado o apetite para este belo Grey Gardens.

sábado, 11 de julho de 2009

I locked you in this body, I meant it as a kind of trial. You can use it for a weapon or to make some woman smile.

Faltam 19 dias.

Paixão

Há pouco tempo, falava com umas amigas (ou melhor: falavam elas comigo) acerca de personagens literárias por quem nos poderíamos apaixonar.
Depois de encetado este tema de conversa, eu cheguei muito rapidamente à conclusão de que sou uma pessoa muito pouco original. As personagens literárias que aceleram o meu coração são, dos estrangeiros, Corto Maltese, em primeiríssimo lugar; Heathcliff, do Monte dos Vendavais, por ser um daqueles homens "difíceis" e intensos, que a gente pensa sempre ter um coração de manteiga escondido por baixo de todas aquelas camadas de malvadez que só nós poderemos descobrir, e assim sentirmo-nos muitíssimo importantes. Dos nacionais, a personagem literária por quem me apaixonei é Carlos da Maia. Também é uma escolha muito pouco original, porque para ser a mulher da vida do Carlos da Maia basta apenas não ser irmã dele, o que é facto muitíssimo fácil de se conseguir. Adoro o Carlos, porque é boa pessoa, bonito, moreno, tem os olhos "negro líquido", os cabelos escuros anelados dos Maias, o que me parece bem - embora seja desempregado, o que não é bom (Carlos da Maia não desenvolve nenhuma actividade de jeito durante todo o livro; ele próprio se irrita com o seu lado excessivamente diletante). Mas enfim, com um namorado desempregado a viver num casarão, com uma charrete a seu dispor e rendimentos anuais posso eu bem.
Acho que nunca me apaixonei por mais nenhuma personagem. Gosto muito do Jay Gatsby, por exemplo, mas não me parece que seja amor. Não ainda, pelo menos - o amor, mesmo o literário, é uma coisa complexa que não acontece sempre e não se consegue explicar porquê. Não dá para forçar, é mesmo assim.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

You're living for nothing now. I hope you're keeping some kind of record.

Faltam 22 dias.

Os frisos da ira




...consider this: the body of the goddess Iris is at present in London, while her head is in Athens. The front part of the torso of Poseidon is in London, and the rear part is in Athens. And so on. This is grotesque.


To that essentially aesthetic objection the British establishment has made three replies. The first is, or was, that return of the marbles might set a “precedent” that would empty the world’s museum collections. The second is that more people can see the marbles in London. The third is that the Greeks have nowhere to put or display them. The first is easily disposed of: The Greeks don’t want anything else returned to them and indeed hope to have more, rather than less, Greek sculpture displayed in other countries. And there is in existence no court or authority to which appeals on precedent can be made. (Anyway, who exactly would be making such an appeal? The Aztecs? The Babylonians? The Hittites? Greece’s case is a one-off—quite individual and unique.) As to the second: Melina Mercouri’s husband, the late movie director and screenwriter Jules Dassin, told a British parliamentary committee in 2000 that by the standard of mass viewership the sculptures should all be removed from Athens and London and exhibited in Beijing. (novamente retirado daqui).

Eu, sinceramente, não sei que opinião ter relativamente a este assunto. O meu coração, que gosta muito da Grécia, é de opinião que os frisos do Partenon devem ser devolvidos ao país de origem, já que Atenas tem agora um novo, e pelos vistos belíssimo, museu aos pés da Acrópole onde pode acolher e tratar da sua arqueologia; por outro lado, os frisos estão já há séculos em Inglaterra; é verdade que lá foram parar por grosserias históricas, mas aconteceu o mesmo a centenas de outras peças de arte. E o argumento do Museu Britânico (obras de arte da categoria dos frisos não são apenas da Grécia, mas sim de toda a Humanidade), não deixa de fazer sentido. Ao mesmo tempo, ninguém pode discordar dos Gregos quando estes reclamam as suas insuperáveis esculturas de volta, já que estas fazem parte da sua história, do seu património, e já que agora têm condições para as resguardar da poluição e para lhes dar um lar confortável e digno do seu esplendor. Também é verdade que, como diz o meu pai, o Museu Britânico é o museu da "roubalheira internacional", mas, como também admite o progenitor, é igualmente um museu de cortar a respiração, tal a grandiosidade do seu espólio. É um privilégio ver tanta herança da Humanidade ali toda junta; os frisos fazem parte dessa herança, e o facto de estarem no Museu Britânico dá muito jeito ao visitante, que fica com uma ideia geral das coisas, e sai de lá com o olhar e a mente regalados, sem ter de ir a Londres, e depois à Grécia, e depois à Síria, e depois ao Egipto, etc. Vai ao Museu Britânico e fica logo despachado numa viagem.
Mas enfim. Se os frisos forem devolvidos, e se o espólio de Londres se juntar ao de Atenas, para que se possa reconstituir todo o desfile de esculturas, a Humanidade também tem muito a ganhar com isso.
Portanto, não sei. Entre a Inglaterra e a Grécia, quero que ganhem as duas.

Different Class


A classe social é uma eminência parda, mas verdadeiramente uma eminência, na velha Albion. A sensação que tenho é que toda a gente que vive em Inglaterra sabe exactamente a que classe pertence - upper, middle or working, sendo que nos interstícios há lugar para alguma variação; por exemplo, a working class é distinta de uma outra classe (a chamada "underclass") que não é "working" porque não tem emprego e vive de constantes subsídios estatais; as classes upper, middle e working não gostam deles porque acham que são todos imigrantes que lhes roubam o dinheiro dos impostos. Também há uma outra classe, mais associada à working class, que são os chamados "chavs" (ignoro a etimologia do termo); estes chavs, por sua vez, associam-se a uma outra classe designada por "asbos" (que vem de "anti-social behaviour"). Caracterizam-se por comerem muitas batatas fritas, usarem bonés foleiros a imitar Burberry's, falarem muito alto e meterem medo às classes upper e middle; as raparigas chavs usam muita maquilhagem, unhas de plástico, também falam alto, e andam sempre a engravidar clandestinamente. Em geral, os "chavs" não se dão bem com a "upper class" porque acham que estes últimos falam com um sotaque irritante, de quem tem a mania que é bom; a upper class não gosta dos chavs porque diz não perceber sequer a forma como eles falam; os chavs também não gostam da middle class porque esta tem a mania de ir à universidade e também achar que é boa; a middle class não gosta dos chavs porque, igualmente, não percebe o que eles dizem e têm medo que haja um qualquer que lhes engravide a filha, e depois esta já não pode ir para Oxford nem para Cambridge, ou para uma universidade no resto do país que seja, e vai a família toda escala social abaixo, com uma mãe solteira ali a estragar tudo.
De modo que é complicado. E não há lugar mais priviliegiado para observar o complexo escalonamento social britânico do que determinados eventos-chave, como por exemplo a regata de Henley (ou por outra: a Real Regata de Henley), que é o equivalente às corridas de cavalos de Ascot, mas com barcos. Em primeiro lugar, para ir ver a regata, tem de se ter um "passe" e só se pode entrar com vestido abaixo do joelho, regra que só se aplica às senhoras; os senhores devem ir bem vestidos, de preferência com o blaser do seu clube de remo. As senhoras podem e devem usar aqueles lindíssimos chapéus muito complicados com metros de tecido, e os senhores não podem tirar o casaco, porque não se deve andar em mangas de camisa que nem um moço de estrebaria (que, como todos sabemos, é um emprego muito comum e que paga bem). Acontece que este ano fez um calor imenso e insuportável, de modo que alguém decidiu que os senhores poderiam, excepcionalmente, despir o blaser. Alguns optaram por o fazer, outros acharam que era uma escandaleira, porque desde o século XIX que não é permitido tirar o casaco na Regata de Henley.
E isto é a parte composta e civilizada de Henley, em que, tal como cantava John Lennon em Glass Onion no White Album, se constata " how the other half lives". Mas, uma vez que é possível comprar bilhetes para ir ver a regata, esta é invadida por hordas temíveis de working class, chavs, asbos, que se apressam a tirar a camisa e andar por ali de tronco nu e chinelos, sentando-se na relva a comer fish and chips. É um contraste prodigioso entre esta descontracção e as compostas senhoras de longo vestido e ainda mais longo chapéu. No entanto, quem tiver o passe para a chamada "stewards enclosure", um recanto delimitado por vedações, com grandes pavilhões brancos que protegem do sol e onde não se pode sequer usar telemóvel, vê-se rodeado do grande sentido de classe e civilidade britânicos.
No entanto, quem é estrangeiro, como eu, limita-se a apreciar o bom tempo, os rápidos barcos, os esbeltos remadores, a bonita e verde paisagem rural inglesa, segura de que uma nacionalidade mais confortável, como a portuguesa, permite uma feliz distância das complexidades do classismo. Embora me pareça que Portugal é também um país flagelado por uma enorme e notória estratiticação social - o que ficará, possivelmente, para outro post.

Este blog é, definitivamente, para velhos


Tive a grande sorte, oportunidade e tempo para ir ver Neil Young ao vivo em Hyde Park, a semana passada. Foi um gosto, um concerto maravilhoso. Mal entra em palco, o velhote e roqueiro Neil, de longos cabelos grisalhos e T-shirt descomposta, pega na guitarra e arranca com os acordes de Hey,Hey, My, My ("rock and roll will never die!", gritava toda a gente, porque a canção assim o exigia), num rock absolutamente desenfreado. Uma maravilha. Tinham-me dito que o Neil era o pai do grunge, e fiquei a perceber porquê. Depois, todos os músicos que o rodeavam eram igualmente velhos. Até a menina do coro, de mini-saia e rabo-de-cavalo, era velha. E tocavam, tocavam, tocavam, sem parar e impecavelmente - o espectáculo deve ter durado duas horas e tal, compensando, e mais que recompensando, cada cêntimo (ou melhor, "penny") que se pagou.
No final, depois de ter atacado soberbamente o imprescindível "rockin' in the free world", e quando eu já pensava que o Neil se ia deitar, este último, ao invés de se retirar, começa a tocar os acordes de A Day in the Life, fundamental canção do fundamental Sargeant Pepper's. Começa tudo a cantar desenfreadamente, e eu muitíssimo empenhada a competir com as gargantas inglesas, que, há que reconhecer, sabem os Beatles de cor e salteado, e ainda bem. Ora, acontece que esta canção tem dois "momentos" - um primeiro "momento", escrito por John Lennon, que dá lugar a um segundo "momento", bastante diferente, escrito por Paul McCartney. Quando Neil se aproxima do tal segundo "momento" ("woke up, got outta of bed, dragged a comb acrossed my head..."), surge uma figurinha à boca de cena, vestida de cinzento. A princípio, ninguém sabe quem ele é. Depois, a figurinha aproxima-se do Neil e começa a cantar com ele. Nada mais nada menos do que o próprio Paul McCartney. Ao vivo. A cores. Em palco. A cantar a sua linda canção. Com o Neil.
Bem. Não há palavras que descrevam isto. Não posso evitar soar como uma adolescente e dizer que foi, verdadeiramente, o "delírio", porque ninguém sabia que o Paul ia fazer esta surpresa. Dois velhadas a rockar, magnificamente.
E eu, que nunca gostei muito, muito, do Paul McCartney a solo, eu que dizia que vê-lo ao vivo não era verdadeiramente importante, eu que dizia isto e aquilo, ao vê-lo ali, tão surpreendentemente, a cantar Beatles, foi de estarrecer. Só não chorei porque enfim, chorar não é o meu estilo.
Impecável. Grande Neil Young. Querido Paul McCartney. Este blog é, definitivamente, para velhos.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Beauty queen from a movie scene

É claro que, no dia de hoje, teria de escrever sobre a morte de Michael Jackson.
Eu gostava, e gosto, de Michael Jackson. Acho que qualquer pessoa da minha geração viu, pelo menos uma vez, o vídeo Thriller e ficou de boca aberta aberta a olhar para o rapazinho que se transformava em lobisomem e se punha a dançar com zombies. Quando Thriller saiu, eu era tão pequena que nem sequer andava na escola, mas lembro-me bem do meu primeiro contacto com a música pop - o rapazito de voz suave que dançava com zombies e se tornava fantasma, deixando apenas blocos de luz no passeio (também um grande vídeo, este Billie Jean). Aliás, o primeiro disco que tive, o primeiro disco que foi verdadeiramente meu, foi o Bad. Ainda antes dos Beatles, os amores da minha vida cujo génio só descobri mais tarde, a música pop entrou na minha vida com Michael Jackson, e há coisas que nunca esquecerei, como por exemplo a primeira vez que ouvi o Smooth Criminal, música que ainda hoje adoro, e que foi fascínio à primeira audição. Havia, porém, outras coisas que até a minha tenra idade me permitia perceber serem meio ridículas, como por exemplo o vídeo do Bad, em que Jacko se arma em mau e se põe a gritar para o ar. Mas fazia tudo parte do espectáculo.
Sempre tive a secreta esperança de que Michael Jackson se recompusesse destes tristes últimos anos, que deixasse de andar de tribunal em tribunal acusado de dormir com criancinhas, por quem parecia nutrir um fascínio, no mínimo, bizarro; que conseguisse modificar o seu semblante plástico e maquilhado para se tornar mais humano, e voltasse a cantar, em toda a glória verdadeiramente pop que atingiu com Thriller e até Bad. Mas nunca conseguiu, e a sua morte é amarga, não apenas porque é uma morte, mas porque está rodeada de um elemento grotesco que era aquilo que mais se associava ao Michael ultimamente. Agora que morreu, as notícias chamam-lhe génio da pop, os jornais dizem que a mistura impressionante de pop, rock, funk e soul que cantava era brilhante, e que a indumentária e a ágil coreografia faziam dele um insuperável ícone. Ok.
Penso também na herança de Michael Jackson. Designá-lo por ícone pop tanto dá para o associar ao Elvis e aos Beatles como a Britney Spears e Justin Timberlake, como ouvi hoje na rádio. A pop absolutamente plástica destes últimos, as coreografias planeadas, a imagem de verdadeiras stars parece-me ser herdeira, em linha directa, de Michael Jackson. Mas este último tinha talento; além de uma grande máquina que escrevia e produzia as suas canções e realizava os seus vídeos, parece-me inegável que Jackson era um show man (nem sabia viver de outro modo, a cantar desde os 5 anos), criativo, com talento. Bizarro e estranhíssimo, é certo, mas com talento, o que lhe dá um valor qualitativo acrescentado e superior a produtos absolutamente pré-produzidos e fabricados como as Britney Spears deste mundo.
Mas enfim. Talvez eu seja desta opinião apenas porque gosto do Michael desde a infância. É o peso do passado.

Problemas de adjectivação


A cena mais cool do cinema talvez seja esta, de North by Northwest, do grande Hitchcock. É um grande filme, e a cena do avião é extraordinária. No entanto, e sendo grande admiradora de Cary Grant a fugir do avião sanguinário, o que queria verdadeiramente confessar é este imenso lugar-comum de considerar Cary Grant um doce, um gentleman, tão elegante, tão chique, como diria Dâmaso Salcede. É mesmo o homem ideal para a pessoa ir ao restaurante, um homem tão distinto, tão fino. Tornei-me fã depois de ter visto Notorious, também de Hitchock, em que o Cary entra pela casa do mau adentro e resgata a sua Ingrid Bergman, que lá estava aprisionada. Ela está doente, ou meio drogada, e não se consegue mexer, e portanto Cary pega-lhe ao colo, ignora as ameaças do mau, e salva-a. É a Cinderela dos tempos modernos, uma coisa linda.

Ainda por cima, e ao que tudo indica, Cary Grant era um bom homem; eu sou aquele tipo de pessoa que se vai informar, e as informações que me constam é que o Cary casou com a Barbara Hutton, uma milionária abandonada e infeliz, que teve uma série de maridos, entre os quais Cary Grant, e que este foi o único que se preocupou com ela e a tratou bem(isto são, obviamente, informações muito fidedignas e que nada têm a ver com coscuvilhice). Pois é.


Ai, ai... suspiro. Após escrever este post, com respectivas fotografias, a questão que agora me ocupa a mente é: era Cary Grant um bom homem, ou um homem bom?

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Senhora Nagonia ! Que linda que vai com seu erro de ortografia


As minhas insónias estão pior do que nunca.
Esta semana, não consegui ainda dormir mais de quatro horas por noite, e nunca seguidas. Por mais desagradável que seja esta situação, não deixa de ter uma vantagem, que é a pessoa ter tempo para pensar e reler livros que já não líamos há muito. Ainda ontem estive a reler António Nobre. Gosto de António Nobre porque me faz lembrar Cesário Verde, e eu gosto muito do louro e doce Cesário. Mas continuando.
Ao ler António Nobre, cheguei à conclusão que, de facto, envelheço e envelheci bastante. Agora compreendo melhor aquela tristeza toda acerca dos pescadores, das romarias, das procissões. Sempre abominei procissões. Agora até acho piada. Mas, fundamentalmente, também acho tudo muito triste. Portugal é um país triste, onde até a alegria é melancólica. Faz parte do nosso charme - habituei-me a pensar assim.
E depois a obsessão com o "Doutor" e a "Doutora" (disto António Nobre não falou, que eu saiba, mas se escrevesse hoje talvez falasse). As pessoas acham que isso é tão importante. O meu cartão multibanco tem "doutora". A culpa não é minha, foi o banco que pôs, mas sinceramente também não estou para ter o trabalho de lhes pedir para tirar. Quando vou à bomba de gasolina, a senhora que lá costuma estar pergunta sempre: "mais alguma coisa, sôtora?". E enceta-se ali um diálogo estranhíssimo, em que eu me encolho e só penso em fugir rapidamente, porque aquele "sôtora" me arrasa, não dá com as minhas calças de ganga, a minha T-shirt, os meus furos na orelha, os chinelos, não dá com o facto de ela ser mais velha do que eu, de eu ser apenas cliente, de um simples "bom dia" e "boa tarde" chegar. Naquele momento, o "sôtora" é como diz o título deste post roubado a António Nobre, um erro de ortografia. E é assim a vida neste país, tão mimosa e pequenina, e tão cheia de erros de ortografia. E talvez se passe o mesmo nos outros países, mas eu vivo neste, e portanto reflicto sobre este (país).
E faço a mim própria a mesma bela e melancólica pergunta com que António (primeiro nome dá mais jeito, é mais intimista) se interroga: Que é dos pintores do meu país estranho, onde estão eles que não vêm pintar?

terça-feira, 23 de junho de 2009

Os outros


Sou fã da figura do vampiro, como já escrevi antes. Ainda não me decidi a ver os blockbusters que de vez em quando pululam por aí acerca de vampiros, Crepúsculos, Underworlds, Blades, mas talvez veja, qualquer dia (quero muito ir ver o Deixa-me Entrar, por acaso, e fá-lo-ei assim que tiver tempo). Interessa-me a complexidade do vampiro (sim, é uma figura complexa, não se limita a andar por aí a rasgar veias), a sua marginalidade flagrante e notória rebeldia. Se há figura que vai contra tudo o que é benéfico à sociedade, é o vampiro. Não acho agradável, mas acho interessante.
O zombie é o sucedâneo mais animalesco do vampiro. É, claramente, muitíssimo menos agradável por ser feio e burro, e também por ter muito poucas características humanas, o que torna um bocado impossível que, à semelhança do que fez a Annie Lennox, que escreveu Love Song for a Vampire, nos apaixonemos por um zombie. Mas há gente para tudo.
De qualquer forma, e por falar em zombies, personagens mais aborrecidas do que os vampiros porque mais animalescas, há um filme de zombies que me encanta solenemente, que é The Night of the Living Dead, de George Romero. Em primeiro lugar, é descarada e imediatamente assustador. É assustador desde o primeiro minuto, o que em mim criou uma predisposição para gostar do resto do filme. Há uma cena, logo no princípio, em que o casal que pensamos ser o protagonista vê um homem lento, alto e estranho, aproximar-se vagarosamente. Nós sabemos de imediato que o tal homem é um zombie, e sabemos que o casal, se fugir naquele momento, ainda tem tempo de se salvar, mas como eles não sabem de nada, ficam especados e com a vida desgraçada, porque o zombie não tarda a apanhá-los. E sente-se, assim, o peso da tragédia, em que há uma altura em que é dada a hipótese às personagens de salvarem a própria vida e, estupidamente, acabam por a arruinar.
Tenho alguma consciência de que a forma como estou a descrever Night of the Living Dead faz com que o filme pareça incrivelmente estúpido. Também admito que, em princípio, só terá interesse para alguém que goste do género de terror. Mas The Night... tem coisas verdadeiramente interessantes - um sub-texto, que acaba por tornar-se muito evidente, sobre a cortina de ferro, a paranóia anti-comunista nos Estados Unidos, e, acima de tudo, o medo incontrolável do outro, reflectido externamente pela ameaça da União Soviética, e internamente pelos conflitos raciais violentíssimos que afligiam o país na década de 60. É isso que representam os zombies - o medo, a ameaça irracional, que nós pensamos que os outros constituem.
Não sei porque me lembrei disto agora. Mas lembrei-me e pronto.
É um belo filmito. Eu acho que vale muito a pena ver porque, mesmo que não se goste de filmes de terror, este Living Dead é um clássico.

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Gaja que faz muitíssimo o meu estilo: Marjane Satrapi


Adorei o Persepolis, livro, e também o filme, quando saiu. Como o meu primeiro contacto com a obra de Marjane foi através do livro, gostei mais do livro - tão doce e sensível, e ao mesmo tempo duro e cheio de um humor sem condescendências. Visualmente, muito expressivo e engraçado. E toda a proeminência que a família tem na vida de Marjane (os pais, a fantástica avó, o tio) é comovente.
Acho que faz sentido ler, ou voltar a ler, Persepolis especialmente agora, nos dias de hoje. Marjane não esconde a dificuldade de carregar uma nacionalidade como a sua, mas, pelo que consegui perceber no final do livro, ela consegue alguma reconciliação com as suas origens. E, tal como se lê aqui, continua a lutar pelo Irão, embora no exílio.
É sempre complicado saber que pertencemos a um país, e perceber o que isso significa. Pelo menos, para mim, é. Deve haver determinados países que tornam esta tarefa ainda mais complicada. Não me parece fácil ser iraniano, ou afegão, ou até cipriota (com as devidas distâncias), por exemplo. A Marjane fala disso no seu livro. E, porque a chamada "actualidade internacional" não dá descanso a quem nasceu no Irão, e porque a Marjane ilustrou isso tão bem, é definitivamente uma grande gaja.

Bola


Sendo uma pessoa que não gosta de futebol nem percebe claramente as regras do jogo, gosto de falar de futebol, e mais, gosto de ir ao estádio (que, para mim, é a Luz, isto é, a Catedral). É uma idiossincrasia contraditória que eu tenho, mas o ser humano é mesmo assim, tem de viver com as suas contradições.
Ora, se há coisa que eu gosto na Luz (sou do Benfica, convém que fique claro desde já), é, em primeiro lugar, da cor. Gosto de vermelho, é uma cor quente; o verde é mais frio. Também gosto de verde, atenção, mas gosto mais de vermelho. Depois, gosto da alegria das pessoas. As pessoas estão sempre tão impossivelmente alegres na Luz que é uma alegria. Em seguida, gosto de cantar aqueles hinos todos, porque é o que de mais próximo eu encontrei de viver algo parecido com aquela série antiga, a Fama, em que as pessoas iam todas para a rua dançar e cantar, com a coreografia certinha e tudo. No estádio também é assim, as pessoas cantam, fazem a onda (sentam-se e levantam-se) a um ritmo impecável e quase musical, e aquilo é uma lindeza. Sai sempre bem sem ninguém ter ensaiado antes, o que só prova que o ser humano, de facto, é intrinsecamente um artista.
Finalmente, aquilo que arrasa quando se vai à Luz é o começo épico do jogo. Eu sinto que, na minha vida, tenho poucos momentos épicos. Aliás, a razão de ter um ipod prende-se com isso, porque se vou entretida a ouvir música, posso sempre imaginar que estou a viver um momento importantíssimo; tudo à minha volta se torna cinematográfico, e a cada passo que dou penso sempre que sou como a Norma Desmond do Sunset Boulevard e que me aproximo, cada vez mais, da câmara de Cecil B. de Mille. Mas, na vida real, não há, verdadeiramente, nenhum close-up nem momentos épicos nenhuns; no entanto, ver a águia (disseram-me uma vez que era um milhafre, e também se for não vejo problema nenhum; os milhafres também têm a sua nobreza), dizia, ver a águia Vitória a sobrevoar o estádio ao som da música, com as fitinhas vermelhas e brancas a esvoaçar, tem a sua grandeza. É bonito de se ver, entusiasma.
De modo que, mesmo que o Benfica perca (o que nunca aconteceu das vezes que fui à Luz; sou uma pessoa que dá sorte ao seu clube), eu fico sempre contente, ou por outra, presumo que fique contente, porque, como disse, sempre que fui à Catedral, o Benfica ganhou; não sei o que é ir à Luz e ver a equipa a perder.
Se eu pudesse andar sempre com colunas de som atrás e ir mudando a música em função dos diferentes momentos da vida, talvez não precisasse de ir ao estádio. Mas, como isso não acontece, vou, de vez em quando, de alegre cachecol, o único atavio a que me permito, fazer a onda, cantar, alegrar-me um bocadinho.
É para isso que o futebol serve, quanto a mim.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

A Condessa Sanguinária


Há, de facto, uma aura sanguinolenta a pairar sobre a cabeça de certas condessas. Além da Erzsebeth Bathory, a condessa-vampira sobre a qual escrevi aqui, também temos a Condessa de Ségur, que igualmente exerce em mim uma espécie de fascinação. Lembrei-me disto hoje à tarde, em que conversava com uma amiga minha e, entretidas na Fnac a olhar para os livros, nos deparámos com um exemplar do General Dourakine, da Condessa de Ségur. Deve ter sido dos livros desta senhora que mais li. Não me lembro bem, bem da história, mas tenho uma imagem algo vívida de que as cenas de chicotada (chicotada literal, isto é, pancada efectuada recorrendo ao uso de um chicote) eram inúmeras. Quando alguém fazia uma coisa mal (criança, criado, a má da fita), pimba, o castigo era chicotada de arrancar a pele. Depois havia a personagem do General Dourakine, que era apresentado como homem de grande coração, embora o adjectivo que mais se utilizasse para o descrever fosse "colérico"; era daquelas personagens de quem as criancinhas deveriam gostar porque, apesar de andar sempre aos gritos e desancar quem não fazia exactamente o que ele queria, era uma boa pessoa. Tenebroso.

Também me lembro do Bom Diabrete (acho que era assim que se chamava) e da Irmã do Inocente, este último uma coisa crudelíssima, de faca e alguidar, em que um pobre idiota de bom coração faz disparate atrás de disparate, é troçado por todos e amado por ninguém, a não ser a irmã, e no fim morre. Já não me lembro exactamente de qual a pedagógica mensagem que eu deveria ter aprendido com esta história, mas haveria uma, com certeza.

Não tendo evidência nenhuma do que vou dizer a seguir, a minha teoria é, porém, que a Condessa de Ségur tinha um pendor para a crueldade que seria talvez interessante estudar psicologicamente. Nem tudo é negativo, no entanto; lembro-me de que, no General Dourakine, aparecia às tantas uma certa personagem, pobre e entristecida, mas muito bondosa, que tinha fugido à Sibéria e era uma espécie de refugiado político, a quem o General dá abrigo, permitindo até que case com a neta, apesar da penúria do tal refugiado. Isto é edificante, há que admitir.

E há também que admitir que não é apenas a Condessa de Ségur que evidencia um certo comprazimento com a faca e alguidar; ainda no outro dia estava a reler uma edição de contos infantis de que gosto muito, porque tem ilustrações do Gustave Doré (vide imagenzinha) - adoro o desenho a carvão, cheio de pormenor e expressividade, deste senhor. E, dizia, estava entretida a ler os contos infantis e a constatar a sua violência incontida - o pai do Polegarzinho que abandona os filhos na floresta, para morrerem à fome ou comidos por uma fera; o gigante que quer comer os meninos; a bruxa da casinha de chocolate que mantém o Joãozinho preso numa jaula, na engorda, para o assar e comer; o temível, absolutamente criminoso Barba-Azul, que tem uma sala ensaguentada em casa onde guarda os cadáveres sanguinolentos das suas ex-mulheres, que ele próprio matou(!). Sinceramente, isto dito assim parece mais digno do jornal O Crime do que outra coisa.

E, no entanto, é engraçado como sou muito mais sensível a esta tal violência agora, na idade adulta, do quando lia estas histórias quando era pequena, em que o mundo maniqueísta onde Bem e Mal se digladiavam com toda esta intensidade fazia sentido.
Por isso é que me parece uma estupidez que se amenizem as histórias infantis (o Lobo Mau que não morre no fim nem come a Avózinha porque esta se esconde no armário, por exemplo); acho que faz parte da infância ver o Bem a vencer o Mal, violentamente, e ainda que seja apenas nas histórias.

Mas enfim, nada disto diminui a minha perplexidade relativamente à crueldade e chicotada e pancada e tortura de animais e quejandos que podemos ler nos livros da Condessa. Embora, entre esta última e a asséptica e querida Anita, eu prefira sem dúvida a Condessa sanguinária.

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Coisas que o meu pobre ipod já não aguenta


Como se diz na Radar, para ouvir em repeat. Muito repeat mesmo. Em excelente forma, tanto a Marianne como o grande Len.

And the winner is...

Depois de muita reflexão, e após o episódio de ontem (onde ele, por acaso e com grande pena minha, não apareceu), o vencedor só podia, claramente, ser um:

Mudei a foto porque as coisas de grande valor estético têm de ser apreciadas sob vários ângulos, e há que examinar cuidadosamente para se ter bem, bem a certeza do tal valor estético.

Singularidades de um ipod


Cheguei a um momento chave da vida, que é aquele em que o ipod se enche por completo e não há espaço para apertar nem mais uma musiquinha que seja. É, portanto, hora de "manually manage songs and playlists on this ipod", ou lá como se diz no itunes, e seleccionar as músicas que se mantêm neste magnífico aparelhinho e as que ficam de fora. O que é um dilema espinhoso que me faz sentir uma grande traidora. Por exemplo, tenho muitas músicas do grande Leonard Cohen. Penso, "bom, se calhar posso prescindir de uma ou duas; ouço as que mais gosto no ipod, e as outras todas posso ouvir em casa". Mas as coisas não funcionam assim, porque a grandeza vem em bloco, e não pode ser tomada em avulso, de modo que, ou ouço o Leonard todo, ou não ouço nada; e assim, ocupo logo uma data de GBs só com o querido LC, ao qual tenho necessariamente de acrescentar os Beatles, porque o meu panteão musical não funciona sem eles. Nem sequer conseguiria ligar o ipod se não soubesse que os Fab Four estão lá todinhos, apenas à distância de um insignificante clique. E mais uns quantos GBs que se gastam nesta conversa.
E depois dou por mim a pensar no ipod como uma biblioteca ou uma livraria - o ipod deve ter sempre determinadas bandas obrigatórias, da mesma forma que uma biblioteca tem de ter sempre os grandes clássicos. O meu ipod tem de ter o seu Dostoevski, de modo que não posso prescindir dos Rolling Stones, dos Doors, do Tom Waits, Muddy Waters, Ray Charles e quejandos; e, claramente, uma biblioteca não pode passar sem as irmãs Brontë e as grandes escritoras femininas em geral, de modo que me parece também imperativo que o ipod contemple as Ute Lempers, Marianne Faithfulls, Janis Joplins e Piafs deste mundo. E mais uns quantos Gbzitos.
É também óbvio que uma boa biblioteca tem de ter um toque de modernidade, umas coisas menos clássicas e mais cruas, tipo Bukowski ou Sarah Kane, e daí eu também ter de ocupar espaço com indie épico, Arcade Fire, Pixies, PJ, Nick Cave.
O resto dos GB tenho de ocupar com coisas de que eu goste e conheça mas que, esperançosamente, os meus amigos não conheçam, para eu poder fazer figura de cool, o que raríssimamente acontece. Aliás, que eu me lembre, nunca aconteceu, de facto. E como agora já preenchi os GBs todos, não vai mesmo acontecer.
De modo que a tão almejada selecção, aquela que me permitirá ter apenas no ipod as músicas que mais ouço, é apenas uma miragem. Se ponho uma música e não ponho outra, a que mais tenho vontade de ouvir no dia seguinte é, precisamente, a que o ipod não tem. Que parvoíce.
E com tudo isto se conclui que tudo o que é demais é, efectiva e verdadeiramente, moléstia. Milhares de canções num ipod, e sempre a ânsia de querer mais e mais e mais e mais. É, realmente, nas palavras do grande Variações, por acaso bem presente na minha biblioteca, uma insatisfação que não consigo compreender; por mais música que ouça, sempre esta sensação de que estou a perder. Vou continuar a procurar a música que eu quero ouvir, porque até aqui eu só quero ouvir o que eu nunca ouvi, quero a banda que ainda não conheci (excepção feita aos Beatles).

terça-feira, 16 de junho de 2009

Este post é para "gajas"

Estou ocupadíssima, com imensas questões a resolver. A mais importante de todas elas, assunto capital de grande filosofia, e que ocupará o meu serão, é a de saber se escolho o primeiro ou o segundo:




Todas as terças-feiras, por volta das 10 da noite, esta questão paira na minha mente, e nunca a consigo resolver.
O primeiro deve saber arranjar muitas coisas em casa, mas, por outro lado, é um assassino profissional.
O segundo é médico.
E configura-se assim um caso clássico de se saber racionalmente que a escolha mais acertada é o segundo, e não se fica nada mal servida, mas de o coração pender para o que está por cima. Mente vs coração.
Este Saiyd, pá.
Quando esta série acabar, não sei o que faço à minha vida.


"Pre-Raphs"


Na vida das pessoas, os "pormenores" assumem uma grande importância.
Estava aqui a pensar nos Pré-Rafaelitas, e como gosto deste movimento, principalmente do impacto que teve na pintura; e depois lembrei-me das regras da atracção e de como, tantas vezes, há decisões importantes da vida que dependem muito de coisas aparentemente insignificantes. Ou talvez isso apenas se passe com pessoas superficiais como eu; mas o que é certo é que se passa.
E, por me ter lembrado dos Pré-Rafaelitas, da Ofélia desvanecida nas águas, na sofredora Lady of Shallot sem o seu Lancelot (rima), dos longos cabelos fulvos (como, penso eu, Mário de Cesariny se referia às mulheres pré-rafaelitas), lembrei-me também de, há muitos anos, em Inglaterra, ter tido uma conversa sobre, precisamente, Rossetti e sobretudo a sua irmã, Christina Rossetti, de quem gosto muito. E replica o meu interlocutor que também achava muita piada aos "Pre-Raphs" - não "Pre-Raphaelites", atenção - "Pre-Raphs", que tem muito mais estilo. É claro que foi encantamento à primeira palavra.
E pode pensar-se que esta futilidade de achar piada a alguém porque ele tem à-vontade para dizer Pre-Raphs em vez de Pre-Raphaelites é coisa episódica e rara, mas na verdade não é. Na verdade, há imensa gente que entra e sai da nossa vida devido a esta pré-selecção que assenta basicamente em pormenores. Sapatos com berloque determinam a saída; dizer que se gostou tanto do Tomb Raider que até se foi ver duas vezes ao cinema ("e eu nem sou pessoa para ver um filme duas vezes", dizia ele, para me convencer da qualidade do filme e sem perceber que só piorava, e muito, a situação) também determina, com altíssimo grau de probabilidade, a saída. Isto é um processo injusto e fútil, mas no entanto é um facto.
De modo que vamos seleccionando e seleccionando e seleccionando, e no meu caso estou bastante contente com este processo de apuramento, porque quanto menos pessoas conhecer, melhor as coisas me correm. O meu objectivo é mesmo esse, conhecer o menor número de pessoas possível, como acho que também já aqui escrevi. O ser humano só sabe dar chatices.
Acontece que, magicamente, quando há alguém que perfura a dura parede que este processo de selecção impôs, percebemos que temos um imenso problema. Porque quem passou a pré-selecção não é perfeito, aliás, vem cheio de defeitos, e nós mesmo assim não o chumbámos. E, horror dos horrores, aqueles pormenores que deveríamos imediatamente renegar passam a ser... queridos. Docinhos, mesmo. De repente, até usar meias brancas se torna aceitável. Não dá direito a saída nenhuma, é apenas uma fofa "idiossincrasia". Iic. É, de facto, um enorme problema.
E, portanto, as coisas mudam. Dizia-me uma amiga que está muito contente com o novo namorado. Há um pequeno problema, que é ele gostar tanto do Senhor dos Anéis. "É que é o livro preferido dele!", dizia ela, quando seria tão mais conveniente que a escolha recaísse, sei lá, numa coisa mais clássica, que a pessoa pudesse dizer à boca-cheia, um Beckettzito, ou talvez até um Bret Easton Ellis, acredito que a minha amiga pudesse aceitar isso. Mas o Senhor dos Anéis, livro, e ainda por cima a trilogia interminável de filmes, é que era pior. E qual foi a minha sapiente resposta? "Olha, pelo menos não é Paulo Coelho, portanto se ele for bom rapaz, não te queixes". E ela concordou.
O amor é mesmo uma estupidez.

sexta-feira, 12 de junho de 2009


Eu chamo a isto um corte de cabelo muitíssimo bem conseguido.
Dizer, apenas, que apesar de tudo ninguém me confunde com a Jean Seberg, que também já morreu, e que a cabeleireira estava toda contente a cantar, do princípio ao fim, o Aleluia do Leonard Cohen, versão Alexandra. Iic.

Well, do ya, punk!



Como já tive oportunidade de dizer aqui, sou uma pessoa que vê séries de televisão. Normalmente, procuro ver séries muito boas, como os grandes Sopranos, que felizmente a FoxCrime está a repetir; por vezes, vejo séries que não são assim muito boas, nomeadamente CSI, Mentes Criminosas, Sem Rasto, Lei e Ordem. Fico sempre abismada, mas mesmo de boca aberta, com o conservadorismo extremo destas séries. Primeiro, partem sempre do princípio que os suspeitos são culpados. Levam-nos para a sala de interrogatórios, apertam com ele ou ela, insultam-no, e quando verificam que não são culpados (não podem ser, porque senão cada episódio só tinha 5 minutos), não pedem desculpa; encolhem os ombros e ficam muito zangados, porque ainda não apanharam o criminoso. Quando, efectivamente, apanham o criminoso, dizem que ele é "escumalha" e vai para a prisão por tanto tempo quanto o conseguirem lá pôr. Na Lei & Ordem, vi um episódio em que o procurador dizia que só não pedia pena capital para o arguido porque a lei daquele estado não permitia (olha que pena); no Mentes Criminosas, o investigador-chefe conseguia a confissão do grande criminoso; encostava-o à parede, "maniatava-o" e gritava-lhe ao ouvido algo como "quando te derem a injecção letal, vou estar lá coladinho ao vidro para me assegurar que morres mesmo, e que te vais juntar ao teu scumbag brother" (o irmão deste criminoso era outro criminoso que já tinha morrido). É mesmo a moderação e presença de espírito que nós, cidadãos do mundo ocidental, esperamos das forças de autoridade, não é?
Bom. Eu percebo que, nestes tempos conturbados, todos tenhamos sede de justiça, de disciplina, de autoridade. Eu própria sinto grande satisfação quando o polícia da série consegue apanhar o criminoso e o castiga merecidamente. E também percebo que estas séries de TV são apenas isso, séries de TV. Mas, numa altura em que se fala tanto da influência nefasta de jogos de computador, violência nos filmes e na TV, porque é que ninguém fala nestas séries, que, pelos vistos, apoiam abertamente a pena de morte, divulgam à exaustão a ideia de que todos os cidadãos são culpados até prova em contrário e vêem na prisão perpétua a solução para todos os crimes da Humanidade? Sinceramente, acho que mais facilmente deixaria um filho meu jogar GTA (e, já agora, aproveitava e jogava com ele também) do que ver uma série destas.
No entanto, não quero aqui exagerar. Quando saiu o Dirty Harry, do Clint Eastwood (ou apenas "com" Clint Eastwood?) também houve muito protesto, que aquilo era violento, de extrema-direita, que glorificava um polícia brutal a maltratar criminosos, etc. e tal. Eu devo admitir que gosto muito do Dirty Harry, e aque aquele diálogo icónico entre o Dirty Harry e o criminoso (do I feel lucky?) é memorável. Mas há uma diferença importante - o Dirty Harry é um filme e, conservador ou não, é um produto coerente e pensado. Estas séries são empacotadas para consumo rápido, e não têm, por isso, o mesmo nível de seriedade que um filme, conservador ou não.
Na verdade, é-me um tanto ou quanto indiferente o que estas séries, que se vendem aos pacotes, baratuchas, para serem distribuídas no mundo inteiro, dizem ou deixam de dizer. Duvido, até, que quem escreve as tais séries pense seriamente naquilo que está a produzir. Umas quantas linhas retumbantas para agradar ao povo e já está. No entanto, não deixa de ser um tanto ou quanto assustador. Para mim, pelo menos.

Beneficência

Quando se escreve uma tese, e tem se de ler a mesma tese vezes sem conta até se saber cada página de cor, há, como facilmente se calcula, alguns momentos de grande, incomensurável tédio. Alguns momentos, não muitos (pausa para absorver a ironia aqui contida). Outra consequência, além do tédio, é começar a reparar na forma como as pessoas falam, isto é, em qualquer pormenor que abstraia da tese.
Reparei que há pessoas que gostam muito, adoram, falar bom português. É uma idiossincrasia que têm. E, normalmente, estas pessoas gostam de partilhar o seu apreço pela língua com os outros, corrigindo-os amiúde, porque não suportam que a língua portuguesa seja maltratada, coisa que eu respeito e até apoio. Deste modo, quando dizemos, à frente de uma destas pessoas, "obrigado por teres aceitado", rapidamente recebemos a correcção "teres aceite! É 'teres aceite' que se diz!". Quando dizemos "isto está mais bem conseguido", outra útil chamada de atenção: "melhor conseguido! é 'melhor conseguido' que se diz!". De onde se conclui que, talvez, investir na aquisição da Gramática do Português Contemporâneo, de Celso Cunha eLindley Cintra, não seja má ideia - é a humilde recomendação que faço a este tipo de pessoas.
Também há outra conclusão a tirar daqui, que é o facto de as pessoas com esse hábito terrível de "corrigir" os outros serem algo insuportáveis Eu sei que o fazem por caridade; eu sei que há pessoas dotadas de conhecimento inabalável e inegável sagacidade intelectual, e que portanto encaram como um dever e sacrifício pessoais, e até sociais, corrigir a ignorância dos restantes miseráveis. Eu sei que estas pessoas que corrigem os outros apresentam um móbil extremamente altruísta, imbuído de grande generosidade. O meu apelo, porém, é que sejam um tanto ou quanto mais egoístas e refreiem este impulso de abnegação e amor ao outro, passando a corrigir menos. E o meu apelo deve-se a duas ordens de razões, sendo a primeira que quem passa a vida a corrigir os outros está, normalmente, errado e acaba por dar informações erradas, dando um triste e embaraçoso espectáculo; a segunda ordem de razões é que não enganam ninguém, meus amigos. Como disse o Marquês de Sade, homem que obviamente sabia do que falava, numa afirmação da Filosofia da Alcova que volto a citar, a beneficência é mais um vício do orgulho do que uma verdadeira ostentação da alma; é por ostentação que se dão alívio aos semelhantes, nunca é com a pura intenção de praticar um acto bom.

Pensar nisto.

Janeca Limão


Este homem é quase um Chaplin. Vi-o em O Apartamento, com Shirley McLaine, e adorei-o. Jack Lemmon é agridoce na perfeição; consegue o equilíbrio perfeito. Tem uma expressividade que me parece rara - todos os seus movimentos acompanham o sorriso, ou a tristeza. Faz-me mesmo lembrar o Chaplin. Muito, muito bom. Quase tão bom como o seu diálogo final, em Quanto mais quente melhor, em que Jack Lemmon diz ao seu incauto pretendente, Osgood, I'm a man!, apenas para receber como resposta well, nobody's perfect.
Um doce, este homem.

terça-feira, 9 de junho de 2009

Splendour in the Grass



Esquecera-me de como este filme é bonito e triste. Esquecera-me de como Warren Beatty e Natalie Wood são tão doces, belos e jovens, neste filme. Mas hoje à tarde lembrei-me, porque Splendour in the Grass estava a dar num qualquer canal, e vi um bocadinho, antes de ter de interromper para honrar um chamado "compromisso profissional".

A cena em que Natalie Wood lê o poema de Wordsworth e não consegue terminar (nothing can bring back the hour of splendour in the grass, glory in the flower - estes versos são retumbantes), sufocada pelas lágrimas, é angustiante. É angustiante porque é a juventude perdida que ali está, numa rapariga ainda tão nova. E, se há coisa que este Splendour mostra bem, é a completa ditadura da chamada "sociedade", de um bafiento moralismo quezilento personificado nas personagens adultas do filme (padres, médicos, professores, e sobretudo os terríveis pais de Bud e Deannie, as personagens encarnadas por Beatty e Wood, respectivamente). Todo o mundo adulto, todo o rígido acervo de "bons princípios" instituidos se conjuga para destruir o mundo interior da juventude, da força e do ideal: o pai de Bud, que quer que ele desista de ser agricultor porque tem de ir à força para Yale, para que o seu muito redneck e brutal pai se possa orgulhar; a mãe de Deannie, uma dona de casa conformada e assexuada, que quer que a filha siga as mesmas infelizes pisadas.

É claro que as coisas mudaram desde então. Até em Portugal, este pequeno canto tão conservadorzinho. Mas terão mudado assim tanto? Não sei. Sei que o inabalável princípio da menina-bem-comportada ainda se mantinha quando eu era pequena, e o freio que impunha às acções da adolescência era bem presente. E vejo, pelas escolhas das pessoas à minha volta, que o caminho tradicional, da vida "decente", ainda dá frutos imensos. Não penso que as pessoas devam optar por uma vida indecente. Não se trata disso. Mas Splendour in the Grass fez-me pensar em falsos moralismos, ou pelo menos moralismos severos e castigadores, que ditam que a vida só se pode viver de uma determinada maneira, que não é necessariamente a melhor para nós. E são esses moralismos, esse peso imenso das instituições sociais velhinhas, quase do Restelo, ou até mesmo do Restelo, porque não, que sinto ainda muito presentes neste país. Ou talvez não, talvez seja apenas o meu, esse sim quezilento, pessimismo a falar e a levar-me a melhor.
Nota para dizer que cheguei à conclusão que Elia Kazan realizou pelo menos dois filmes de que gosto muitíssimo, este Splendour e o Eléctrico Chamado Desejo (podia ter dito apenas "Streetcar", que era bem mais cool, mas enfim, decidi-me pela modéstia). Quando era adolescente, eu até gostava de dizer que o meu realizador preferido era Elia Kazan porque, lá está, achava que isso fazia de mim um ser incomensuravelmente cool. Depois, descobri a questão da lista negra e as denúncias de Kazan para não integrar a mesma lista, durante a época da caça às bruxas aka comunistas em Hollywood. Foi um dilema que me partiu o coração, mas hoje em dia ultrapassei isso. Prefiro pensar que nunca seria amiga de Elia Kazan, mas que tal não me impede de apreciar muitíssimo os seus filmes.

E outra nota, finalíssima, para dizer que, meu Deus, estes Warren Beatty e Natalie Wood são impossivelmente bonitos e doces. Impossivelmente. A cena em que atravessam os dois o corredor da escola, e Bud tem o braço à volta da cintura de Deannie, enquanto esta lhe lança meigos olhares de corça em estado de adoração e ele lhe carrega os livros, e o mundo exterior se desvanece, merece ser vista. É comovente. Se, por um lado, mantenho que este blog é para velhos, por outro afirmo que nem Wood nem Beattie deveriam, alguma vez, ter envelhecido.

Frase batida

Por vezes, tenho a grande capacidade de olhar para a minha vida externamente, como se fosse outra pessoa. E vem-me à memória uma frase batida, que é "ai que pena, que promessa tão pouco cumprida".
Embora eu não me lembre de alguma vez ter prometido o que quer que fosse a alguém. Mas, de qualquer modo, é esta frase batida que me vem à memória.
E, a propósito, hoje sonhei que tinha uma coisa sobre a qual queria escrever aqui no blog. Mas esqueci-me dela, enterrada no meu sonho.

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Faz-me uma ligeira espécie que o designem constantemente por livro de adolescentes. Da mesma forma que me faz uma ligeira espécie que a adolescência seja tão sobrevalorizada. Este livro não é só sobre a adolescência, pois não? Diz mais qualquer coisa, não diz? A mim, parece-me que sim.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Lugares comuns

Não faz, nem nunca fez, parte dos meus desideratos bloguisticos escrever sobre a actualidade. Não o faço porque me parece desnecessário - há muitos blogues com muitos leitores que se dedicam a isso, e portanto a minha contribuição será espúria. Mas hoje apetece-me, de facto, escrever algo que constatei e que também não passará do lugar-comum, mas enfim, vou tentar lidar com isso.

Com a aproximação das eleições europeias, fala-se das previsões de avassaladora abstenção, do divórcio entre o cidadão comum e os políticos, especialmente se estes prestarem aos seus serviços a essa instituição longínqua e ausente que é "a Europa", do défice democrático que afecta Portugal, e que é endémico, não transparecendo apenas quando se tem de votar nuns quantos para o Parlamento Europeu. Fala-se nisto tudo. São grandes problemas. E foi com consciência destes problemas que vi ontem, por acaso, uma pequena parte do programa Clube de Jornalistas, em que se discutiu o caso de verborreia agressiva entre Manuela Moura Guedes e Marinho Pinto, na presença deste último. O Bastonário mostrou-se agastado com o facto de os jornalistas não fazerem trabalho de casa, investigarem pouquíssimo, ou até mesmo zero. João Miguel Tavares replicou que criticar os jornalistas era muito bonito, mas que este país ainda vivia subordinado à lei do silêncio e da autoridade pesada do Estado, e que, por exemplo, conseguir a mínima e mais insignificante informação por parte do Ministério de Educação era tarefa hercúlea, senão impossível, porque o tal défice democrático ditava que o público não tem de saber o que não lhe diz respeito, de modo que o poder se recusa a falar com os cidadãos que governa; Francisco Sarsfield Cabral lembrou que, de facto, as redacções dos jornais estão "esqueléticas", e que a questão que se levanta é a da sua sobrevivência; investigar está, infelizmente, fora de questão. Mencionou até o caso Watergate, em que os dois jornalistas que desmascararam o escândalo estiveram meses a investigar, exclusivamente, uma única matéria.

O exemplo do Watergate fez-me pensar. Sabe-se que é o exemplo dos media como verdadeiro quarto poder, em que o trabalho jornalístico conduziu directamente ao impeachment de Richard Nixon, e que demonstra também o papel essencial do jornalista na democracia. Hoje em dia, e não só em Portugal, os jornais cortam no pessoal que empregam, cortam em revisores e fotógrafos, e têm sorte se não fecharem as portas, como tem acontecido a vários broadsheets americanos. Não parece haver, efectivamente, margem para grande investigação, que exige recursos humanos e dinheiro. Isto relaciona-se intimamente, penso eu, com o tal défice democrático (expressão bonita) que flagela tão castigadoramente todó Portugal. Se, por um lado, os media nos fazem lavagens ao cérebro e nos bombardeiam com propaganda (toda a gente se queixa da RTP e da sua subserviência ao Governo, por exemplo, e em Inglaterra a posição política dos jornais é assumida; gosto bastante do Sunday Times, mas não deixo de me arrepiar com o pendor ultra-conservador que muitas vezes reflecte - os cronistas do Times, meu Deus, alguns dão-me, de facto, verdadeiros arrepios); no entanto, também é verdade que a independência e o trabalho jornalísticos são essenciais em democracia. Pelo menos, a mim parece-me que sim. Parece-me que a investigação jornalística é imprescindível à escolha informada de partidos e programas políticos e sociais por parte do cidadão. Diz-se que o caminho agora é jornais online, que vão cada vez mais desempenhando o papel do jornal tradicional. Mas as publicações online, algumas pequenas e com poucos meios, não têm recursos para grande investigação, e mais, não têm pessoal especializado que seja jornalista de profissão. Os jornalistas profissionais são cada vez mais relegados, tanto quanto sei, para o desemprego ou para o recibo verde. Acho muito interessante ler blogs e outros sites que comentem a actualidade, mas o jornalismo é mais do que o artigo de opinião - é investigação, também, e para isso é preciso dinheiro e qualificações, e pelos vistos dinheiro não há.

O divórcio que anda por aí nas bocas do mundo não é só entre cidadãos e políticos, também é entre cidadãos e informação. Isto parece-me gravíssimo, porque ninguém vive de forma consciente em sociedade alimentado a tabloides, artigos de dez linhas e telejornais que, ainda que longos, se revelam um tanto ou quanto indiferentes e ocos.

E pronto, este post foi o meu lugar-comum do dia. Triste e pesarosamente, não me surpreende que a abstenção se agrave com cada eleição. Eu, porém, faço todas as tenções de ir votar. Ainda não sei em quem nem em quê, mas sei que vou votar.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Clandestino

Este post deve-se ao facto de ter ido ao youtube procurar uma certa entrevista com Charles Bukowski de que um amigo me tinha falado. Encontrei algumas entrevistas, mas não a tal que procurava; pedi o link exacto ao meu amigo, que constatou que terem sido retiradas do youtube, e que depois me mandou um email indignado a relatar-me isso mesmo.

Partilho inteiramente a sua indignação. Levo muito a peito, e com muita ofensa, as constantes leis e ameaças das indústrias fonográfica e cinematográfica em relação a quem partilha ou faz download de música, séries e filmes. Levo tanto a peito que raríssimamente compro CDs e DVDs, a não ser que os encontre a um preço razoável, o que se vai tornando raro. E não compro CDs por não gostar de música - gosto muito. Se não compro DVDs, não é por não gostar de filmes - adoro. Não os compro porque é a minha forma de castigar quem não parece ter grande respeito pelos consumidores de música e de cinema. Se querem fazer lucro desmesurado, que o façam, mas não à minha custa (atenção - não critico que a indústria queira fazer lucro, só não aceito que o queiram fazer, como disse, desmesuradamente).

Eu respeito inteira e primordialmente os direitos de autor. Mas há razões claras para que se recorram aos downloads e à Internet. Quanto a mim, são elas:

a) quem quer seguir uma série de TV em particular, que o tente fazer pela televisão e veja no que dá. Se tiver canais por cabo, a coisa corre melhorzinha, mas os canais generalistas são para esquecer: horários trocados, atrasos, ou pura e simplesmente deixar a série desaparecer da grelha sem qualquer explicação. Senti isto na pele quando tentei ver as temporadas 3 e 4 do Lost, que aprecio muitíssimo, e em que faz imensa diferença perder um episódio que seja, na RTP. As opções, portanto, são duas: paga-se TV cabo, ou recorre-se à net, que, diga-se, também é paga pelo (detesto esta palavra) "utente"(e isto para não falar das séries que nem sequer passam em Portugal, ponto).

b) o youtube está a tornar-se insuportável com a porcaria da protecção, retirando vídeos e entrevistas à toa, quando estes suportes contribuem muitíssimo, mais do que para a pirataria, para a promoção e divulgação de bandas, filmes, séries, escritores, artistas em geral. É uma burrice, e até uma desvantagem para a indústria, perseguir o material que está no youtube e sites similares. Aconteceu-me imensas vezes ver coisas nestes sites e depois acabar por adquirir o CD, ou o DVD ou o que seja (apesar de, como digo, acabar por comprar poucos CDs ou DVDs)

c) quem gosta verdadeiramente de cinema sabe a diferença entre ver um filme no cinema e vê-lo numa cópia pirata. O que há a fazer é incentivar os amantes de cinema a irem às salas, e dar-lhes escolha, ao invés de os perseguir quando tentam encontrar material na net que, muitas vezes, não se encontra em mais lado nenhum. O que me leva ao próximo argumento:

d) de facto, há imenso material disponível na net que não pode ser adquirido nas lojas, até mesmo em lojas online. É material raro, antigo, e que deveria estar à disposição de quem o quer ver. A indústria quer negar o acesso a estes documentos, sem ter a preocupação de, pelo menos, os tornar disponíveis (lembro-me do exemplo flagrante de Seinfeld, que esteve anos indisponível - a série tinha acabado, a edição em DVD não existia. Porque é que alguém se deveria coibir de ir à net descarregar episódios? Outros exemplos há de material bem mais raro e antigo - as entrevistas de Bukowski de que falei no início deste post - que, não estando na net, dificilmente se podem encontrar e/ou comprar. Monetariamente. Usando cartões de crédito ou numerário, como a indústria gosta). A propósito deste ponto, ler aqui esta interessante crónica do Guardian - If you can't buy it legally, of course you'll download it. Exactamente.

e) que tal começar por baixar o preço, mais do que dos DVDs, dos CDs? Como consumidora de música, o mais possível, terei todo o gosto em pagar um preço razoável e justo por um Cd de uma banda que gosto. Mas, para mim, e lamento dizê-lo, €20 por um CD com dez músicas não é, pura e simplesmente, razoável - mesmo que o CD seja dos Beatles, o que é a afirmação mais forte e convincente que posso fazer em relação a este assunto. De qualquer modo, se a indústria e as editoras baixassem preços, dariam, pelo menos, sinal de algum respeito pelos ouvintes e algum incentivo para que se deixe de recorrer ao download. O mesmo se aplica a DVDs (gostaria muito de considerar razoável o preço que pedem por uma temporada do Lost, recorrendo ao mesmo exemplo, mas não considero. Sei que o DVD tem imensos extras, mas mesmo assim).

f) Decisões, ou embriões de decisões como esta revoltam-me um bocadinho. Cortar a internet a quem faz pirataria. Por um lado, e apesar da crise financeira, apregoa-se o mercado liberal e capitalista, em que se pode livremente comprar acesso à internet de grande velocidade, dando dinheiro às PTs deste mundo (no meu caso, é à PT), e recebendo um bem em troca. Uma transacção normal em regime de mercado livre, em que, com o meu capital, adquiro internet. No entanto, se eu me atrever a usar o bem pelo qual paguei para prejudicar, ou beliscar que seja, os editoras e produtoras, vejo-me vedade de usufruir do bem que eu paguei com dinheiro meu. Levem-me a tribunal, seja. Cortar o acesso à internet? Tenham juízo.

g) há bandas e artistas independentes que se tornaram conhecidos e populares, precisamente, por terem usado a Internet a seu favor (e.g. Artic Monkeys, exemplo típico), o que demonstra como a Net pode ser um instrumento não contra as editoras, mas agindo em benefício delas. Os Radiohead também perceberam isso quando lançaram o seu álbum na net - cada um pagava o que queria. É claro que os Radiohead estavam em posição de tomar esta decisão, mas a Net é também útil como meio de promoção da bandas novas que, e é importante dizê-lo, não teriam o aval das editoras para começarem a sua carreira, encontrando na Net uma forma de o fazer (os Beatles foram recusados por 4 editoras antes de George Martin os ter aceitado na EMI; se fosse hoje, provavelmente recorreriam à net, e bem). Convém notar que a internet vai destruindo o monopólio das grandes editoras relativamente às bandas que se podem ouvir e que passam, ou não, na rádio. Neste sentido, a net cria um espaço de liberdade importante que as editoras não controlam e que lhes custa caro. Mas paciência - habituem-se e procurem alternativas. A este propósito, pode ler-se no Guardian: Many artists want a record deal. What the net has done is allow new people to be recognised, but once established they don't want the hassle of marketing and distribution, which are the core strengths of the companies. O que me conduz ao próximo argumento, que é mais uma pequena conclusão:

h) o papel das editoras mudou. É triste vê-las ameaçar tudo e todos com processos em tribunal, multas, prisões, cartas de ameaça, sem perceber que isso não revela grande respeito por quem gosta de cinema e quer ir ao cinema, e quem gosta de música e quer ouvir música. Como se diza no artigo sobre os Radiohead linkado acima, talvez o papel das editoras passe mais por divulgar, promover, distribuir o trabalho das bandas ao invés de tentar recuperar lucro perdido que nunca irão reaver. A sua batalha contra a internet é inglória, e seria bom que se apercebessem disso, dando incentivos aos amantes de música e cinema para trilharem o caminho da legalidade (que bonito).

Este post não se destina a apregoar o desrespeito por direitos de autor, nem negar o direito ao lucro justo por parte de bandas, editoras e produtoras. Mas não me parece que estas editoras e produtoras se encaminhem para grandes lucros enquanto persistirem na perseguição, ou tanto ou quanto cega, daqueles que consomem música, cinema e TV. O itunes, por exemplo, parece-me um sistema mais justo, em que se paga uma quantia mais razoável por música e séries. Talvez o caminho seja por aí, algum ponto de encontro ou equilíbrio entre preços desajustados que ninguém quer pagar e o download ilegal e irrefreado.

terça-feira, 2 de junho de 2009

Crise existencial


Só li um livro de Charles Bukowski, chamado Mulheres. Detestei, não percebi qual era a ideia daquilo (quer dizer, percebi a ideia, mas achei-a entediante).
No entanto, agora acho que gosto mais de Bukowski. Li alguma poesia sua, e gostei, e tenho novamente vontade de ler os seus romances.
Ao ver as entrevistas de Bukowski no youtube, desenvolve-se uma certa aversão à vida de classe média, que é a minha vida, e a da esmagadora maioria das pessoas que conheço. Não que eu queira andar em bares à pancada, ou a achar que ou me embebedo todos os dias, ou suicido-me, porque é a única forma de aguentar um trabalho da treta que paga $1,5 à hora, mas ao mesmo tempo há um enorme enjoo, impossível de conter, em relação a um certo conforto material, à estabilidadezinha. Não sei bem explicar isto sem parecer hipócrita.
As hipóteses que vejo delineadas são duas: indigência, pouco dinheiro, mas mais arrojo; conforto, algum dinheiro, pança gorda e procriar.
Tem de haver, entre estas duas possibilidades, algum meio termo. Tem de haver. Estou há anos para perceber onde está o meio termo, mas tem de haver.
O LB, quando ainda escrevia n'O Nascer do Sol, captou bem este drama das opções neste post, em que a opção A é uma perfeita família loura de olhos azuis, com um qualquer monovolume na garagem (peço por tudo que nunca por nunca venha a ser o tipo de pessoa que conduz um "monovolume"), e a opção B é, precisamente, o esquálido e batido Bukowski, com uma desmazelada pelo braço, e o perturbado Faulkner de meias, no jardim, a apanhar sol (acho que era o Faulkner). Os meus instintos gritam "opção B". A minha mais racional mente age como uma mãe zangada, de dedo em riste, e grita, "opção B? Está maluca? Depois destes anos todos a estudar? A menina vai é para a opção A e não há mais conversa". E eu, entre instinto e racionalidade, fico sem saber o que escolher, ou o que fazer.
Mais uma vez me rendo às evidências dos filósofos, principalmente as do grande Kierkegaard, que quando falava do drama das opções, sabia bem do que falava.
E ontem, no supermercado, vi uma senhora a fazer compras com um vestido vermelho e uma mal preta brilhante. Os sapatos era também pretos de verniz, para condizer, pateticamente, com a mala. Não valia a pena o esforço. A senhora não era bonita nem estava bem vestida, e aquela tentativa triste de exibir sapatos a condizer com a mala era apenas um sinal flagrante de que nunca seria bonita, nem bem vestida. Mais valia desistir. Se formos ao supermercado e olharmos para as pessoas, constatamos que muitas delas fazem este esforço patético, de roupa a condizer, ou óculos de sol de marca, ou unhas arranjadas, ou um relógio mais espampanante, qualquer coisa que seja para demonstrar ao mundo de que eles se mantêm à superfície e que a vida não os derrotou. Mas o seu cansaço enquanto pagam comprar inúteis de quem tem de alimentar um regimento é já uma derrota. Como o Bukowski a dar pontapés à parva da namorada, que também se pode ver no youtube, é uma derrota. Talvez opção A e B sejam ambas uma derrota.
Realmente, não se pode ganhar à vida.
As terças-feiras são assim, deixam-me sempre num estado miserável.

domingo, 31 de maio de 2009

Álbum das Glórias


Parece que a música dos Xutos, Sr. Engenheiro, não passa nas rádios portuguesas. Os argumentos são vários - a música não tem suporte em vídeo, o papel das rádios não é intervenção, muito menos intervenção política (este argumento, dado pela Mega, irrita-me um bocadinho, devo confessar). Mais triste, ou interessante, dependendo do ponto de vista, é alguém como Pedro Abrunhosa, que teve uma entrada fulgurante na música portuguesa por, precisamente, e nas suas próprias palavras, "intervir com a música", não ter nada a dizer. Lembro-me agora de que a última vez que ouvi Pedro Abrunhosa a cantar deve ter sido no anúncio, já algo longínquo, do BCP. Mudam-se os tempos e, de facto, também as vontades, sem dúvida alguma.

Mas enfim. Houve censura à música dos Xutos? Não sei. Mas sei que os representantes das rádios mencionados pelo Expresso me pareceram demasiadamente evasivos sobre um assunto que deveriam levar muito a peito. E tudo isto me fez pensar noutras coisas. Lembro-me, por exemplo, do Álbum das Glórias, de Rafael Bordalo Pinheiro, e da sátira demolidora e hilariante à sociedade e à política portuguesas da altura (século XIX, recorde-se). De Sua Alteza, o Infante Augusto Fernando Miguel Luís Tiago Rafael de Gonzaga e Bragança e Albuquerque de Fonseca e Vasconcellos Boto Mello (estou a inventar os nomes, é claro), Rafael Bordalo Pinheiro indica o nome e depois diz apenas que nasceu. É este o único acontecimento digno de nota na vida de S. Alteza.

Gosto de pensar, em alturas como esta, como seria recebido o Álbum das Glórias no Portugal de 2009. Se seria tolerado, se as pessoas o leriam para se rirem com ele, ou se saberíamos da existência do Álbum apenas por uma breve notícia no Expresso: "livrarias não põem à venda Álbum das Glórias, de Rafael Bordalo Pinheiro. Bordalo Pinheiro diz que parece um complô, livreiros não comentam, escritores não comentam, leitores não comentam, ninguém comenta".

Afasto rapidamente este pensamento da minha mente, primeiro porque os Contemporâneos estão a começar, segundo porque Bordalo Pinheiro censurado em Portugal, em 2009, é assim orwelliano demais. Nunca aconteceria. Acho mesmo que não.