sexta-feira, 19 de junho de 2009

A Condessa Sanguinária


Há, de facto, uma aura sanguinolenta a pairar sobre a cabeça de certas condessas. Além da Erzsebeth Bathory, a condessa-vampira sobre a qual escrevi aqui, também temos a Condessa de Ségur, que igualmente exerce em mim uma espécie de fascinação. Lembrei-me disto hoje à tarde, em que conversava com uma amiga minha e, entretidas na Fnac a olhar para os livros, nos deparámos com um exemplar do General Dourakine, da Condessa de Ségur. Deve ter sido dos livros desta senhora que mais li. Não me lembro bem, bem da história, mas tenho uma imagem algo vívida de que as cenas de chicotada (chicotada literal, isto é, pancada efectuada recorrendo ao uso de um chicote) eram inúmeras. Quando alguém fazia uma coisa mal (criança, criado, a má da fita), pimba, o castigo era chicotada de arrancar a pele. Depois havia a personagem do General Dourakine, que era apresentado como homem de grande coração, embora o adjectivo que mais se utilizasse para o descrever fosse "colérico"; era daquelas personagens de quem as criancinhas deveriam gostar porque, apesar de andar sempre aos gritos e desancar quem não fazia exactamente o que ele queria, era uma boa pessoa. Tenebroso.

Também me lembro do Bom Diabrete (acho que era assim que se chamava) e da Irmã do Inocente, este último uma coisa crudelíssima, de faca e alguidar, em que um pobre idiota de bom coração faz disparate atrás de disparate, é troçado por todos e amado por ninguém, a não ser a irmã, e no fim morre. Já não me lembro exactamente de qual a pedagógica mensagem que eu deveria ter aprendido com esta história, mas haveria uma, com certeza.

Não tendo evidência nenhuma do que vou dizer a seguir, a minha teoria é, porém, que a Condessa de Ségur tinha um pendor para a crueldade que seria talvez interessante estudar psicologicamente. Nem tudo é negativo, no entanto; lembro-me de que, no General Dourakine, aparecia às tantas uma certa personagem, pobre e entristecida, mas muito bondosa, que tinha fugido à Sibéria e era uma espécie de refugiado político, a quem o General dá abrigo, permitindo até que case com a neta, apesar da penúria do tal refugiado. Isto é edificante, há que admitir.

E há também que admitir que não é apenas a Condessa de Ségur que evidencia um certo comprazimento com a faca e alguidar; ainda no outro dia estava a reler uma edição de contos infantis de que gosto muito, porque tem ilustrações do Gustave Doré (vide imagenzinha) - adoro o desenho a carvão, cheio de pormenor e expressividade, deste senhor. E, dizia, estava entretida a ler os contos infantis e a constatar a sua violência incontida - o pai do Polegarzinho que abandona os filhos na floresta, para morrerem à fome ou comidos por uma fera; o gigante que quer comer os meninos; a bruxa da casinha de chocolate que mantém o Joãozinho preso numa jaula, na engorda, para o assar e comer; o temível, absolutamente criminoso Barba-Azul, que tem uma sala ensaguentada em casa onde guarda os cadáveres sanguinolentos das suas ex-mulheres, que ele próprio matou(!). Sinceramente, isto dito assim parece mais digno do jornal O Crime do que outra coisa.

E, no entanto, é engraçado como sou muito mais sensível a esta tal violência agora, na idade adulta, do quando lia estas histórias quando era pequena, em que o mundo maniqueísta onde Bem e Mal se digladiavam com toda esta intensidade fazia sentido.
Por isso é que me parece uma estupidez que se amenizem as histórias infantis (o Lobo Mau que não morre no fim nem come a Avózinha porque esta se esconde no armário, por exemplo); acho que faz parte da infância ver o Bem a vencer o Mal, violentamente, e ainda que seja apenas nas histórias.

Mas enfim, nada disto diminui a minha perplexidade relativamente à crueldade e chicotada e pancada e tortura de animais e quejandos que podemos ler nos livros da Condessa. Embora, entre esta última e a asséptica e querida Anita, eu prefira sem dúvida a Condessa sanguinária.

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Coisas que o meu pobre ipod já não aguenta


Como se diz na Radar, para ouvir em repeat. Muito repeat mesmo. Em excelente forma, tanto a Marianne como o grande Len.

And the winner is...

Depois de muita reflexão, e após o episódio de ontem (onde ele, por acaso e com grande pena minha, não apareceu), o vencedor só podia, claramente, ser um:

Mudei a foto porque as coisas de grande valor estético têm de ser apreciadas sob vários ângulos, e há que examinar cuidadosamente para se ter bem, bem a certeza do tal valor estético.

Singularidades de um ipod


Cheguei a um momento chave da vida, que é aquele em que o ipod se enche por completo e não há espaço para apertar nem mais uma musiquinha que seja. É, portanto, hora de "manually manage songs and playlists on this ipod", ou lá como se diz no itunes, e seleccionar as músicas que se mantêm neste magnífico aparelhinho e as que ficam de fora. O que é um dilema espinhoso que me faz sentir uma grande traidora. Por exemplo, tenho muitas músicas do grande Leonard Cohen. Penso, "bom, se calhar posso prescindir de uma ou duas; ouço as que mais gosto no ipod, e as outras todas posso ouvir em casa". Mas as coisas não funcionam assim, porque a grandeza vem em bloco, e não pode ser tomada em avulso, de modo que, ou ouço o Leonard todo, ou não ouço nada; e assim, ocupo logo uma data de GBs só com o querido LC, ao qual tenho necessariamente de acrescentar os Beatles, porque o meu panteão musical não funciona sem eles. Nem sequer conseguiria ligar o ipod se não soubesse que os Fab Four estão lá todinhos, apenas à distância de um insignificante clique. E mais uns quantos GBs que se gastam nesta conversa.
E depois dou por mim a pensar no ipod como uma biblioteca ou uma livraria - o ipod deve ter sempre determinadas bandas obrigatórias, da mesma forma que uma biblioteca tem de ter sempre os grandes clássicos. O meu ipod tem de ter o seu Dostoevski, de modo que não posso prescindir dos Rolling Stones, dos Doors, do Tom Waits, Muddy Waters, Ray Charles e quejandos; e, claramente, uma biblioteca não pode passar sem as irmãs Brontë e as grandes escritoras femininas em geral, de modo que me parece também imperativo que o ipod contemple as Ute Lempers, Marianne Faithfulls, Janis Joplins e Piafs deste mundo. E mais uns quantos Gbzitos.
É também óbvio que uma boa biblioteca tem de ter um toque de modernidade, umas coisas menos clássicas e mais cruas, tipo Bukowski ou Sarah Kane, e daí eu também ter de ocupar espaço com indie épico, Arcade Fire, Pixies, PJ, Nick Cave.
O resto dos GB tenho de ocupar com coisas de que eu goste e conheça mas que, esperançosamente, os meus amigos não conheçam, para eu poder fazer figura de cool, o que raríssimamente acontece. Aliás, que eu me lembre, nunca aconteceu, de facto. E como agora já preenchi os GBs todos, não vai mesmo acontecer.
De modo que a tão almejada selecção, aquela que me permitirá ter apenas no ipod as músicas que mais ouço, é apenas uma miragem. Se ponho uma música e não ponho outra, a que mais tenho vontade de ouvir no dia seguinte é, precisamente, a que o ipod não tem. Que parvoíce.
E com tudo isto se conclui que tudo o que é demais é, efectiva e verdadeiramente, moléstia. Milhares de canções num ipod, e sempre a ânsia de querer mais e mais e mais e mais. É, realmente, nas palavras do grande Variações, por acaso bem presente na minha biblioteca, uma insatisfação que não consigo compreender; por mais música que ouça, sempre esta sensação de que estou a perder. Vou continuar a procurar a música que eu quero ouvir, porque até aqui eu só quero ouvir o que eu nunca ouvi, quero a banda que ainda não conheci (excepção feita aos Beatles).

terça-feira, 16 de junho de 2009

Este post é para "gajas"

Estou ocupadíssima, com imensas questões a resolver. A mais importante de todas elas, assunto capital de grande filosofia, e que ocupará o meu serão, é a de saber se escolho o primeiro ou o segundo:




Todas as terças-feiras, por volta das 10 da noite, esta questão paira na minha mente, e nunca a consigo resolver.
O primeiro deve saber arranjar muitas coisas em casa, mas, por outro lado, é um assassino profissional.
O segundo é médico.
E configura-se assim um caso clássico de se saber racionalmente que a escolha mais acertada é o segundo, e não se fica nada mal servida, mas de o coração pender para o que está por cima. Mente vs coração.
Este Saiyd, pá.
Quando esta série acabar, não sei o que faço à minha vida.


"Pre-Raphs"


Na vida das pessoas, os "pormenores" assumem uma grande importância.
Estava aqui a pensar nos Pré-Rafaelitas, e como gosto deste movimento, principalmente do impacto que teve na pintura; e depois lembrei-me das regras da atracção e de como, tantas vezes, há decisões importantes da vida que dependem muito de coisas aparentemente insignificantes. Ou talvez isso apenas se passe com pessoas superficiais como eu; mas o que é certo é que se passa.
E, por me ter lembrado dos Pré-Rafaelitas, da Ofélia desvanecida nas águas, na sofredora Lady of Shallot sem o seu Lancelot (rima), dos longos cabelos fulvos (como, penso eu, Mário de Cesariny se referia às mulheres pré-rafaelitas), lembrei-me também de, há muitos anos, em Inglaterra, ter tido uma conversa sobre, precisamente, Rossetti e sobretudo a sua irmã, Christina Rossetti, de quem gosto muito. E replica o meu interlocutor que também achava muita piada aos "Pre-Raphs" - não "Pre-Raphaelites", atenção - "Pre-Raphs", que tem muito mais estilo. É claro que foi encantamento à primeira palavra.
E pode pensar-se que esta futilidade de achar piada a alguém porque ele tem à-vontade para dizer Pre-Raphs em vez de Pre-Raphaelites é coisa episódica e rara, mas na verdade não é. Na verdade, há imensa gente que entra e sai da nossa vida devido a esta pré-selecção que assenta basicamente em pormenores. Sapatos com berloque determinam a saída; dizer que se gostou tanto do Tomb Raider que até se foi ver duas vezes ao cinema ("e eu nem sou pessoa para ver um filme duas vezes", dizia ele, para me convencer da qualidade do filme e sem perceber que só piorava, e muito, a situação) também determina, com altíssimo grau de probabilidade, a saída. Isto é um processo injusto e fútil, mas no entanto é um facto.
De modo que vamos seleccionando e seleccionando e seleccionando, e no meu caso estou bastante contente com este processo de apuramento, porque quanto menos pessoas conhecer, melhor as coisas me correm. O meu objectivo é mesmo esse, conhecer o menor número de pessoas possível, como acho que também já aqui escrevi. O ser humano só sabe dar chatices.
Acontece que, magicamente, quando há alguém que perfura a dura parede que este processo de selecção impôs, percebemos que temos um imenso problema. Porque quem passou a pré-selecção não é perfeito, aliás, vem cheio de defeitos, e nós mesmo assim não o chumbámos. E, horror dos horrores, aqueles pormenores que deveríamos imediatamente renegar passam a ser... queridos. Docinhos, mesmo. De repente, até usar meias brancas se torna aceitável. Não dá direito a saída nenhuma, é apenas uma fofa "idiossincrasia". Iic. É, de facto, um enorme problema.
E, portanto, as coisas mudam. Dizia-me uma amiga que está muito contente com o novo namorado. Há um pequeno problema, que é ele gostar tanto do Senhor dos Anéis. "É que é o livro preferido dele!", dizia ela, quando seria tão mais conveniente que a escolha recaísse, sei lá, numa coisa mais clássica, que a pessoa pudesse dizer à boca-cheia, um Beckettzito, ou talvez até um Bret Easton Ellis, acredito que a minha amiga pudesse aceitar isso. Mas o Senhor dos Anéis, livro, e ainda por cima a trilogia interminável de filmes, é que era pior. E qual foi a minha sapiente resposta? "Olha, pelo menos não é Paulo Coelho, portanto se ele for bom rapaz, não te queixes". E ela concordou.
O amor é mesmo uma estupidez.

sexta-feira, 12 de junho de 2009


Eu chamo a isto um corte de cabelo muitíssimo bem conseguido.
Dizer, apenas, que apesar de tudo ninguém me confunde com a Jean Seberg, que também já morreu, e que a cabeleireira estava toda contente a cantar, do princípio ao fim, o Aleluia do Leonard Cohen, versão Alexandra. Iic.

Well, do ya, punk!



Como já tive oportunidade de dizer aqui, sou uma pessoa que vê séries de televisão. Normalmente, procuro ver séries muito boas, como os grandes Sopranos, que felizmente a FoxCrime está a repetir; por vezes, vejo séries que não são assim muito boas, nomeadamente CSI, Mentes Criminosas, Sem Rasto, Lei e Ordem. Fico sempre abismada, mas mesmo de boca aberta, com o conservadorismo extremo destas séries. Primeiro, partem sempre do princípio que os suspeitos são culpados. Levam-nos para a sala de interrogatórios, apertam com ele ou ela, insultam-no, e quando verificam que não são culpados (não podem ser, porque senão cada episódio só tinha 5 minutos), não pedem desculpa; encolhem os ombros e ficam muito zangados, porque ainda não apanharam o criminoso. Quando, efectivamente, apanham o criminoso, dizem que ele é "escumalha" e vai para a prisão por tanto tempo quanto o conseguirem lá pôr. Na Lei & Ordem, vi um episódio em que o procurador dizia que só não pedia pena capital para o arguido porque a lei daquele estado não permitia (olha que pena); no Mentes Criminosas, o investigador-chefe conseguia a confissão do grande criminoso; encostava-o à parede, "maniatava-o" e gritava-lhe ao ouvido algo como "quando te derem a injecção letal, vou estar lá coladinho ao vidro para me assegurar que morres mesmo, e que te vais juntar ao teu scumbag brother" (o irmão deste criminoso era outro criminoso que já tinha morrido). É mesmo a moderação e presença de espírito que nós, cidadãos do mundo ocidental, esperamos das forças de autoridade, não é?
Bom. Eu percebo que, nestes tempos conturbados, todos tenhamos sede de justiça, de disciplina, de autoridade. Eu própria sinto grande satisfação quando o polícia da série consegue apanhar o criminoso e o castiga merecidamente. E também percebo que estas séries de TV são apenas isso, séries de TV. Mas, numa altura em que se fala tanto da influência nefasta de jogos de computador, violência nos filmes e na TV, porque é que ninguém fala nestas séries, que, pelos vistos, apoiam abertamente a pena de morte, divulgam à exaustão a ideia de que todos os cidadãos são culpados até prova em contrário e vêem na prisão perpétua a solução para todos os crimes da Humanidade? Sinceramente, acho que mais facilmente deixaria um filho meu jogar GTA (e, já agora, aproveitava e jogava com ele também) do que ver uma série destas.
No entanto, não quero aqui exagerar. Quando saiu o Dirty Harry, do Clint Eastwood (ou apenas "com" Clint Eastwood?) também houve muito protesto, que aquilo era violento, de extrema-direita, que glorificava um polícia brutal a maltratar criminosos, etc. e tal. Eu devo admitir que gosto muito do Dirty Harry, e aque aquele diálogo icónico entre o Dirty Harry e o criminoso (do I feel lucky?) é memorável. Mas há uma diferença importante - o Dirty Harry é um filme e, conservador ou não, é um produto coerente e pensado. Estas séries são empacotadas para consumo rápido, e não têm, por isso, o mesmo nível de seriedade que um filme, conservador ou não.
Na verdade, é-me um tanto ou quanto indiferente o que estas séries, que se vendem aos pacotes, baratuchas, para serem distribuídas no mundo inteiro, dizem ou deixam de dizer. Duvido, até, que quem escreve as tais séries pense seriamente naquilo que está a produzir. Umas quantas linhas retumbantas para agradar ao povo e já está. No entanto, não deixa de ser um tanto ou quanto assustador. Para mim, pelo menos.

Beneficência

Quando se escreve uma tese, e tem se de ler a mesma tese vezes sem conta até se saber cada página de cor, há, como facilmente se calcula, alguns momentos de grande, incomensurável tédio. Alguns momentos, não muitos (pausa para absorver a ironia aqui contida). Outra consequência, além do tédio, é começar a reparar na forma como as pessoas falam, isto é, em qualquer pormenor que abstraia da tese.
Reparei que há pessoas que gostam muito, adoram, falar bom português. É uma idiossincrasia que têm. E, normalmente, estas pessoas gostam de partilhar o seu apreço pela língua com os outros, corrigindo-os amiúde, porque não suportam que a língua portuguesa seja maltratada, coisa que eu respeito e até apoio. Deste modo, quando dizemos, à frente de uma destas pessoas, "obrigado por teres aceitado", rapidamente recebemos a correcção "teres aceite! É 'teres aceite' que se diz!". Quando dizemos "isto está mais bem conseguido", outra útil chamada de atenção: "melhor conseguido! é 'melhor conseguido' que se diz!". De onde se conclui que, talvez, investir na aquisição da Gramática do Português Contemporâneo, de Celso Cunha eLindley Cintra, não seja má ideia - é a humilde recomendação que faço a este tipo de pessoas.
Também há outra conclusão a tirar daqui, que é o facto de as pessoas com esse hábito terrível de "corrigir" os outros serem algo insuportáveis Eu sei que o fazem por caridade; eu sei que há pessoas dotadas de conhecimento inabalável e inegável sagacidade intelectual, e que portanto encaram como um dever e sacrifício pessoais, e até sociais, corrigir a ignorância dos restantes miseráveis. Eu sei que estas pessoas que corrigem os outros apresentam um móbil extremamente altruísta, imbuído de grande generosidade. O meu apelo, porém, é que sejam um tanto ou quanto mais egoístas e refreiem este impulso de abnegação e amor ao outro, passando a corrigir menos. E o meu apelo deve-se a duas ordens de razões, sendo a primeira que quem passa a vida a corrigir os outros está, normalmente, errado e acaba por dar informações erradas, dando um triste e embaraçoso espectáculo; a segunda ordem de razões é que não enganam ninguém, meus amigos. Como disse o Marquês de Sade, homem que obviamente sabia do que falava, numa afirmação da Filosofia da Alcova que volto a citar, a beneficência é mais um vício do orgulho do que uma verdadeira ostentação da alma; é por ostentação que se dão alívio aos semelhantes, nunca é com a pura intenção de praticar um acto bom.

Pensar nisto.

Janeca Limão


Este homem é quase um Chaplin. Vi-o em O Apartamento, com Shirley McLaine, e adorei-o. Jack Lemmon é agridoce na perfeição; consegue o equilíbrio perfeito. Tem uma expressividade que me parece rara - todos os seus movimentos acompanham o sorriso, ou a tristeza. Faz-me mesmo lembrar o Chaplin. Muito, muito bom. Quase tão bom como o seu diálogo final, em Quanto mais quente melhor, em que Jack Lemmon diz ao seu incauto pretendente, Osgood, I'm a man!, apenas para receber como resposta well, nobody's perfect.
Um doce, este homem.

terça-feira, 9 de junho de 2009

Splendour in the Grass



Esquecera-me de como este filme é bonito e triste. Esquecera-me de como Warren Beatty e Natalie Wood são tão doces, belos e jovens, neste filme. Mas hoje à tarde lembrei-me, porque Splendour in the Grass estava a dar num qualquer canal, e vi um bocadinho, antes de ter de interromper para honrar um chamado "compromisso profissional".

A cena em que Natalie Wood lê o poema de Wordsworth e não consegue terminar (nothing can bring back the hour of splendour in the grass, glory in the flower - estes versos são retumbantes), sufocada pelas lágrimas, é angustiante. É angustiante porque é a juventude perdida que ali está, numa rapariga ainda tão nova. E, se há coisa que este Splendour mostra bem, é a completa ditadura da chamada "sociedade", de um bafiento moralismo quezilento personificado nas personagens adultas do filme (padres, médicos, professores, e sobretudo os terríveis pais de Bud e Deannie, as personagens encarnadas por Beatty e Wood, respectivamente). Todo o mundo adulto, todo o rígido acervo de "bons princípios" instituidos se conjuga para destruir o mundo interior da juventude, da força e do ideal: o pai de Bud, que quer que ele desista de ser agricultor porque tem de ir à força para Yale, para que o seu muito redneck e brutal pai se possa orgulhar; a mãe de Deannie, uma dona de casa conformada e assexuada, que quer que a filha siga as mesmas infelizes pisadas.

É claro que as coisas mudaram desde então. Até em Portugal, este pequeno canto tão conservadorzinho. Mas terão mudado assim tanto? Não sei. Sei que o inabalável princípio da menina-bem-comportada ainda se mantinha quando eu era pequena, e o freio que impunha às acções da adolescência era bem presente. E vejo, pelas escolhas das pessoas à minha volta, que o caminho tradicional, da vida "decente", ainda dá frutos imensos. Não penso que as pessoas devam optar por uma vida indecente. Não se trata disso. Mas Splendour in the Grass fez-me pensar em falsos moralismos, ou pelo menos moralismos severos e castigadores, que ditam que a vida só se pode viver de uma determinada maneira, que não é necessariamente a melhor para nós. E são esses moralismos, esse peso imenso das instituições sociais velhinhas, quase do Restelo, ou até mesmo do Restelo, porque não, que sinto ainda muito presentes neste país. Ou talvez não, talvez seja apenas o meu, esse sim quezilento, pessimismo a falar e a levar-me a melhor.
Nota para dizer que cheguei à conclusão que Elia Kazan realizou pelo menos dois filmes de que gosto muitíssimo, este Splendour e o Eléctrico Chamado Desejo (podia ter dito apenas "Streetcar", que era bem mais cool, mas enfim, decidi-me pela modéstia). Quando era adolescente, eu até gostava de dizer que o meu realizador preferido era Elia Kazan porque, lá está, achava que isso fazia de mim um ser incomensuravelmente cool. Depois, descobri a questão da lista negra e as denúncias de Kazan para não integrar a mesma lista, durante a época da caça às bruxas aka comunistas em Hollywood. Foi um dilema que me partiu o coração, mas hoje em dia ultrapassei isso. Prefiro pensar que nunca seria amiga de Elia Kazan, mas que tal não me impede de apreciar muitíssimo os seus filmes.

E outra nota, finalíssima, para dizer que, meu Deus, estes Warren Beatty e Natalie Wood são impossivelmente bonitos e doces. Impossivelmente. A cena em que atravessam os dois o corredor da escola, e Bud tem o braço à volta da cintura de Deannie, enquanto esta lhe lança meigos olhares de corça em estado de adoração e ele lhe carrega os livros, e o mundo exterior se desvanece, merece ser vista. É comovente. Se, por um lado, mantenho que este blog é para velhos, por outro afirmo que nem Wood nem Beattie deveriam, alguma vez, ter envelhecido.

Frase batida

Por vezes, tenho a grande capacidade de olhar para a minha vida externamente, como se fosse outra pessoa. E vem-me à memória uma frase batida, que é "ai que pena, que promessa tão pouco cumprida".
Embora eu não me lembre de alguma vez ter prometido o que quer que fosse a alguém. Mas, de qualquer modo, é esta frase batida que me vem à memória.
E, a propósito, hoje sonhei que tinha uma coisa sobre a qual queria escrever aqui no blog. Mas esqueci-me dela, enterrada no meu sonho.

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Faz-me uma ligeira espécie que o designem constantemente por livro de adolescentes. Da mesma forma que me faz uma ligeira espécie que a adolescência seja tão sobrevalorizada. Este livro não é só sobre a adolescência, pois não? Diz mais qualquer coisa, não diz? A mim, parece-me que sim.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Lugares comuns

Não faz, nem nunca fez, parte dos meus desideratos bloguisticos escrever sobre a actualidade. Não o faço porque me parece desnecessário - há muitos blogues com muitos leitores que se dedicam a isso, e portanto a minha contribuição será espúria. Mas hoje apetece-me, de facto, escrever algo que constatei e que também não passará do lugar-comum, mas enfim, vou tentar lidar com isso.

Com a aproximação das eleições europeias, fala-se das previsões de avassaladora abstenção, do divórcio entre o cidadão comum e os políticos, especialmente se estes prestarem aos seus serviços a essa instituição longínqua e ausente que é "a Europa", do défice democrático que afecta Portugal, e que é endémico, não transparecendo apenas quando se tem de votar nuns quantos para o Parlamento Europeu. Fala-se nisto tudo. São grandes problemas. E foi com consciência destes problemas que vi ontem, por acaso, uma pequena parte do programa Clube de Jornalistas, em que se discutiu o caso de verborreia agressiva entre Manuela Moura Guedes e Marinho Pinto, na presença deste último. O Bastonário mostrou-se agastado com o facto de os jornalistas não fazerem trabalho de casa, investigarem pouquíssimo, ou até mesmo zero. João Miguel Tavares replicou que criticar os jornalistas era muito bonito, mas que este país ainda vivia subordinado à lei do silêncio e da autoridade pesada do Estado, e que, por exemplo, conseguir a mínima e mais insignificante informação por parte do Ministério de Educação era tarefa hercúlea, senão impossível, porque o tal défice democrático ditava que o público não tem de saber o que não lhe diz respeito, de modo que o poder se recusa a falar com os cidadãos que governa; Francisco Sarsfield Cabral lembrou que, de facto, as redacções dos jornais estão "esqueléticas", e que a questão que se levanta é a da sua sobrevivência; investigar está, infelizmente, fora de questão. Mencionou até o caso Watergate, em que os dois jornalistas que desmascararam o escândalo estiveram meses a investigar, exclusivamente, uma única matéria.

O exemplo do Watergate fez-me pensar. Sabe-se que é o exemplo dos media como verdadeiro quarto poder, em que o trabalho jornalístico conduziu directamente ao impeachment de Richard Nixon, e que demonstra também o papel essencial do jornalista na democracia. Hoje em dia, e não só em Portugal, os jornais cortam no pessoal que empregam, cortam em revisores e fotógrafos, e têm sorte se não fecharem as portas, como tem acontecido a vários broadsheets americanos. Não parece haver, efectivamente, margem para grande investigação, que exige recursos humanos e dinheiro. Isto relaciona-se intimamente, penso eu, com o tal défice democrático (expressão bonita) que flagela tão castigadoramente todó Portugal. Se, por um lado, os media nos fazem lavagens ao cérebro e nos bombardeiam com propaganda (toda a gente se queixa da RTP e da sua subserviência ao Governo, por exemplo, e em Inglaterra a posição política dos jornais é assumida; gosto bastante do Sunday Times, mas não deixo de me arrepiar com o pendor ultra-conservador que muitas vezes reflecte - os cronistas do Times, meu Deus, alguns dão-me, de facto, verdadeiros arrepios); no entanto, também é verdade que a independência e o trabalho jornalísticos são essenciais em democracia. Pelo menos, a mim parece-me que sim. Parece-me que a investigação jornalística é imprescindível à escolha informada de partidos e programas políticos e sociais por parte do cidadão. Diz-se que o caminho agora é jornais online, que vão cada vez mais desempenhando o papel do jornal tradicional. Mas as publicações online, algumas pequenas e com poucos meios, não têm recursos para grande investigação, e mais, não têm pessoal especializado que seja jornalista de profissão. Os jornalistas profissionais são cada vez mais relegados, tanto quanto sei, para o desemprego ou para o recibo verde. Acho muito interessante ler blogs e outros sites que comentem a actualidade, mas o jornalismo é mais do que o artigo de opinião - é investigação, também, e para isso é preciso dinheiro e qualificações, e pelos vistos dinheiro não há.

O divórcio que anda por aí nas bocas do mundo não é só entre cidadãos e políticos, também é entre cidadãos e informação. Isto parece-me gravíssimo, porque ninguém vive de forma consciente em sociedade alimentado a tabloides, artigos de dez linhas e telejornais que, ainda que longos, se revelam um tanto ou quanto indiferentes e ocos.

E pronto, este post foi o meu lugar-comum do dia. Triste e pesarosamente, não me surpreende que a abstenção se agrave com cada eleição. Eu, porém, faço todas as tenções de ir votar. Ainda não sei em quem nem em quê, mas sei que vou votar.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Clandestino

Este post deve-se ao facto de ter ido ao youtube procurar uma certa entrevista com Charles Bukowski de que um amigo me tinha falado. Encontrei algumas entrevistas, mas não a tal que procurava; pedi o link exacto ao meu amigo, que constatou que terem sido retiradas do youtube, e que depois me mandou um email indignado a relatar-me isso mesmo.

Partilho inteiramente a sua indignação. Levo muito a peito, e com muita ofensa, as constantes leis e ameaças das indústrias fonográfica e cinematográfica em relação a quem partilha ou faz download de música, séries e filmes. Levo tanto a peito que raríssimamente compro CDs e DVDs, a não ser que os encontre a um preço razoável, o que se vai tornando raro. E não compro CDs por não gostar de música - gosto muito. Se não compro DVDs, não é por não gostar de filmes - adoro. Não os compro porque é a minha forma de castigar quem não parece ter grande respeito pelos consumidores de música e de cinema. Se querem fazer lucro desmesurado, que o façam, mas não à minha custa (atenção - não critico que a indústria queira fazer lucro, só não aceito que o queiram fazer, como disse, desmesuradamente).

Eu respeito inteira e primordialmente os direitos de autor. Mas há razões claras para que se recorram aos downloads e à Internet. Quanto a mim, são elas:

a) quem quer seguir uma série de TV em particular, que o tente fazer pela televisão e veja no que dá. Se tiver canais por cabo, a coisa corre melhorzinha, mas os canais generalistas são para esquecer: horários trocados, atrasos, ou pura e simplesmente deixar a série desaparecer da grelha sem qualquer explicação. Senti isto na pele quando tentei ver as temporadas 3 e 4 do Lost, que aprecio muitíssimo, e em que faz imensa diferença perder um episódio que seja, na RTP. As opções, portanto, são duas: paga-se TV cabo, ou recorre-se à net, que, diga-se, também é paga pelo (detesto esta palavra) "utente"(e isto para não falar das séries que nem sequer passam em Portugal, ponto).

b) o youtube está a tornar-se insuportável com a porcaria da protecção, retirando vídeos e entrevistas à toa, quando estes suportes contribuem muitíssimo, mais do que para a pirataria, para a promoção e divulgação de bandas, filmes, séries, escritores, artistas em geral. É uma burrice, e até uma desvantagem para a indústria, perseguir o material que está no youtube e sites similares. Aconteceu-me imensas vezes ver coisas nestes sites e depois acabar por adquirir o CD, ou o DVD ou o que seja (apesar de, como digo, acabar por comprar poucos CDs ou DVDs)

c) quem gosta verdadeiramente de cinema sabe a diferença entre ver um filme no cinema e vê-lo numa cópia pirata. O que há a fazer é incentivar os amantes de cinema a irem às salas, e dar-lhes escolha, ao invés de os perseguir quando tentam encontrar material na net que, muitas vezes, não se encontra em mais lado nenhum. O que me leva ao próximo argumento:

d) de facto, há imenso material disponível na net que não pode ser adquirido nas lojas, até mesmo em lojas online. É material raro, antigo, e que deveria estar à disposição de quem o quer ver. A indústria quer negar o acesso a estes documentos, sem ter a preocupação de, pelo menos, os tornar disponíveis (lembro-me do exemplo flagrante de Seinfeld, que esteve anos indisponível - a série tinha acabado, a edição em DVD não existia. Porque é que alguém se deveria coibir de ir à net descarregar episódios? Outros exemplos há de material bem mais raro e antigo - as entrevistas de Bukowski de que falei no início deste post - que, não estando na net, dificilmente se podem encontrar e/ou comprar. Monetariamente. Usando cartões de crédito ou numerário, como a indústria gosta). A propósito deste ponto, ler aqui esta interessante crónica do Guardian - If you can't buy it legally, of course you'll download it. Exactamente.

e) que tal começar por baixar o preço, mais do que dos DVDs, dos CDs? Como consumidora de música, o mais possível, terei todo o gosto em pagar um preço razoável e justo por um Cd de uma banda que gosto. Mas, para mim, e lamento dizê-lo, €20 por um CD com dez músicas não é, pura e simplesmente, razoável - mesmo que o CD seja dos Beatles, o que é a afirmação mais forte e convincente que posso fazer em relação a este assunto. De qualquer modo, se a indústria e as editoras baixassem preços, dariam, pelo menos, sinal de algum respeito pelos ouvintes e algum incentivo para que se deixe de recorrer ao download. O mesmo se aplica a DVDs (gostaria muito de considerar razoável o preço que pedem por uma temporada do Lost, recorrendo ao mesmo exemplo, mas não considero. Sei que o DVD tem imensos extras, mas mesmo assim).

f) Decisões, ou embriões de decisões como esta revoltam-me um bocadinho. Cortar a internet a quem faz pirataria. Por um lado, e apesar da crise financeira, apregoa-se o mercado liberal e capitalista, em que se pode livremente comprar acesso à internet de grande velocidade, dando dinheiro às PTs deste mundo (no meu caso, é à PT), e recebendo um bem em troca. Uma transacção normal em regime de mercado livre, em que, com o meu capital, adquiro internet. No entanto, se eu me atrever a usar o bem pelo qual paguei para prejudicar, ou beliscar que seja, os editoras e produtoras, vejo-me vedade de usufruir do bem que eu paguei com dinheiro meu. Levem-me a tribunal, seja. Cortar o acesso à internet? Tenham juízo.

g) há bandas e artistas independentes que se tornaram conhecidos e populares, precisamente, por terem usado a Internet a seu favor (e.g. Artic Monkeys, exemplo típico), o que demonstra como a Net pode ser um instrumento não contra as editoras, mas agindo em benefício delas. Os Radiohead também perceberam isso quando lançaram o seu álbum na net - cada um pagava o que queria. É claro que os Radiohead estavam em posição de tomar esta decisão, mas a Net é também útil como meio de promoção da bandas novas que, e é importante dizê-lo, não teriam o aval das editoras para começarem a sua carreira, encontrando na Net uma forma de o fazer (os Beatles foram recusados por 4 editoras antes de George Martin os ter aceitado na EMI; se fosse hoje, provavelmente recorreriam à net, e bem). Convém notar que a internet vai destruindo o monopólio das grandes editoras relativamente às bandas que se podem ouvir e que passam, ou não, na rádio. Neste sentido, a net cria um espaço de liberdade importante que as editoras não controlam e que lhes custa caro. Mas paciência - habituem-se e procurem alternativas. A este propósito, pode ler-se no Guardian: Many artists want a record deal. What the net has done is allow new people to be recognised, but once established they don't want the hassle of marketing and distribution, which are the core strengths of the companies. O que me conduz ao próximo argumento, que é mais uma pequena conclusão:

h) o papel das editoras mudou. É triste vê-las ameaçar tudo e todos com processos em tribunal, multas, prisões, cartas de ameaça, sem perceber que isso não revela grande respeito por quem gosta de cinema e quer ir ao cinema, e quem gosta de música e quer ouvir música. Como se diza no artigo sobre os Radiohead linkado acima, talvez o papel das editoras passe mais por divulgar, promover, distribuir o trabalho das bandas ao invés de tentar recuperar lucro perdido que nunca irão reaver. A sua batalha contra a internet é inglória, e seria bom que se apercebessem disso, dando incentivos aos amantes de música e cinema para trilharem o caminho da legalidade (que bonito).

Este post não se destina a apregoar o desrespeito por direitos de autor, nem negar o direito ao lucro justo por parte de bandas, editoras e produtoras. Mas não me parece que estas editoras e produtoras se encaminhem para grandes lucros enquanto persistirem na perseguição, ou tanto ou quanto cega, daqueles que consomem música, cinema e TV. O itunes, por exemplo, parece-me um sistema mais justo, em que se paga uma quantia mais razoável por música e séries. Talvez o caminho seja por aí, algum ponto de encontro ou equilíbrio entre preços desajustados que ninguém quer pagar e o download ilegal e irrefreado.

terça-feira, 2 de junho de 2009

Crise existencial


Só li um livro de Charles Bukowski, chamado Mulheres. Detestei, não percebi qual era a ideia daquilo (quer dizer, percebi a ideia, mas achei-a entediante).
No entanto, agora acho que gosto mais de Bukowski. Li alguma poesia sua, e gostei, e tenho novamente vontade de ler os seus romances.
Ao ver as entrevistas de Bukowski no youtube, desenvolve-se uma certa aversão à vida de classe média, que é a minha vida, e a da esmagadora maioria das pessoas que conheço. Não que eu queira andar em bares à pancada, ou a achar que ou me embebedo todos os dias, ou suicido-me, porque é a única forma de aguentar um trabalho da treta que paga $1,5 à hora, mas ao mesmo tempo há um enorme enjoo, impossível de conter, em relação a um certo conforto material, à estabilidadezinha. Não sei bem explicar isto sem parecer hipócrita.
As hipóteses que vejo delineadas são duas: indigência, pouco dinheiro, mas mais arrojo; conforto, algum dinheiro, pança gorda e procriar.
Tem de haver, entre estas duas possibilidades, algum meio termo. Tem de haver. Estou há anos para perceber onde está o meio termo, mas tem de haver.
O LB, quando ainda escrevia n'O Nascer do Sol, captou bem este drama das opções neste post, em que a opção A é uma perfeita família loura de olhos azuis, com um qualquer monovolume na garagem (peço por tudo que nunca por nunca venha a ser o tipo de pessoa que conduz um "monovolume"), e a opção B é, precisamente, o esquálido e batido Bukowski, com uma desmazelada pelo braço, e o perturbado Faulkner de meias, no jardim, a apanhar sol (acho que era o Faulkner). Os meus instintos gritam "opção B". A minha mais racional mente age como uma mãe zangada, de dedo em riste, e grita, "opção B? Está maluca? Depois destes anos todos a estudar? A menina vai é para a opção A e não há mais conversa". E eu, entre instinto e racionalidade, fico sem saber o que escolher, ou o que fazer.
Mais uma vez me rendo às evidências dos filósofos, principalmente as do grande Kierkegaard, que quando falava do drama das opções, sabia bem do que falava.
E ontem, no supermercado, vi uma senhora a fazer compras com um vestido vermelho e uma mal preta brilhante. Os sapatos era também pretos de verniz, para condizer, pateticamente, com a mala. Não valia a pena o esforço. A senhora não era bonita nem estava bem vestida, e aquela tentativa triste de exibir sapatos a condizer com a mala era apenas um sinal flagrante de que nunca seria bonita, nem bem vestida. Mais valia desistir. Se formos ao supermercado e olharmos para as pessoas, constatamos que muitas delas fazem este esforço patético, de roupa a condizer, ou óculos de sol de marca, ou unhas arranjadas, ou um relógio mais espampanante, qualquer coisa que seja para demonstrar ao mundo de que eles se mantêm à superfície e que a vida não os derrotou. Mas o seu cansaço enquanto pagam comprar inúteis de quem tem de alimentar um regimento é já uma derrota. Como o Bukowski a dar pontapés à parva da namorada, que também se pode ver no youtube, é uma derrota. Talvez opção A e B sejam ambas uma derrota.
Realmente, não se pode ganhar à vida.
As terças-feiras são assim, deixam-me sempre num estado miserável.

domingo, 31 de maio de 2009

Álbum das Glórias


Parece que a música dos Xutos, Sr. Engenheiro, não passa nas rádios portuguesas. Os argumentos são vários - a música não tem suporte em vídeo, o papel das rádios não é intervenção, muito menos intervenção política (este argumento, dado pela Mega, irrita-me um bocadinho, devo confessar). Mais triste, ou interessante, dependendo do ponto de vista, é alguém como Pedro Abrunhosa, que teve uma entrada fulgurante na música portuguesa por, precisamente, e nas suas próprias palavras, "intervir com a música", não ter nada a dizer. Lembro-me agora de que a última vez que ouvi Pedro Abrunhosa a cantar deve ter sido no anúncio, já algo longínquo, do BCP. Mudam-se os tempos e, de facto, também as vontades, sem dúvida alguma.

Mas enfim. Houve censura à música dos Xutos? Não sei. Mas sei que os representantes das rádios mencionados pelo Expresso me pareceram demasiadamente evasivos sobre um assunto que deveriam levar muito a peito. E tudo isto me fez pensar noutras coisas. Lembro-me, por exemplo, do Álbum das Glórias, de Rafael Bordalo Pinheiro, e da sátira demolidora e hilariante à sociedade e à política portuguesas da altura (século XIX, recorde-se). De Sua Alteza, o Infante Augusto Fernando Miguel Luís Tiago Rafael de Gonzaga e Bragança e Albuquerque de Fonseca e Vasconcellos Boto Mello (estou a inventar os nomes, é claro), Rafael Bordalo Pinheiro indica o nome e depois diz apenas que nasceu. É este o único acontecimento digno de nota na vida de S. Alteza.

Gosto de pensar, em alturas como esta, como seria recebido o Álbum das Glórias no Portugal de 2009. Se seria tolerado, se as pessoas o leriam para se rirem com ele, ou se saberíamos da existência do Álbum apenas por uma breve notícia no Expresso: "livrarias não põem à venda Álbum das Glórias, de Rafael Bordalo Pinheiro. Bordalo Pinheiro diz que parece um complô, livreiros não comentam, escritores não comentam, leitores não comentam, ninguém comenta".

Afasto rapidamente este pensamento da minha mente, primeiro porque os Contemporâneos estão a começar, segundo porque Bordalo Pinheiro censurado em Portugal, em 2009, é assim orwelliano demais. Nunca aconteceria. Acho mesmo que não.

sexta-feira, 29 de maio de 2009

O meu moinho


Hoje tenho muito para fazer, embora não pareça, pois estou aqui a escrever. A verdade, porém, é que estou efectivamente muitíssimo ocupada. No entanto, decidi fazer uma pausa não com Kit-Kat, mas antes com a memória de um livro que li imensas vezes quando era mais pequena, Cartas do Meu Moinho, de Alphonse Daudet. É uma colecção de histórias, ou cartas, sobre as personagens e a vida rural francesa que o narrador envia aos seus amigos da cidade, depois de ter decidido mudar-se para um moinho desabitado. A maior parte das histórias, pelo menos aquelas que eu me lembro, são melancólicas e tristes, ainda que, como diria Herman José a imitar Carlos do Carmo, tenham alguns "apontamentos de humor". Alguns destes contos permanecem ainda muito vívidos na minha memória, mormente (adoro este advérbio) A Cabrinha do Senhor Seguin e O Moinho do Tio Corneille (não sei se é exactamente assim que se chama este último conto, mas partamos do princípio que sim).
Vou deixar a história da cabrinha para outro dia e concentrar-me apenas no Tio Corneille, que é mais relevante para dias de trabalho como o de hoje. O Tio Corneille era um moleiro simpático que vê a sua actividade desprezada e os seus colegas transformados em peças de motor após a proliferação de fábricas e máquinhas que moem cereais mais eficazmente e fazem farinha mais branca. Todos os moinhos da região fecham, desmoronam-se em ruínas ou são invadidos por ratos e bicharada, mas o do Tio Corneille não. Todos os dias, os habitantes da região viam as velas do seu moinho enfunadas, a enfrentar vitoriosamente o vento, a rodar, a rodar, enfim, a moer grãos e a trabalhar. Ninguém sabia onde ia o Tio Corneille buscar clientes e trabalho, mas a verdade é que, dia após dia, lá se afadigava ele no seu moinho, sob as grandes velas sempre em orgulhosa circulação.
Até que um dia a neta do velhote, que saíra de casa já não sei porquê, volta para que o avô conheça o seu noivo, com quem tem casamento marcado para breve. Quando os jovens chegam ao moinho, não encontram o Tio Corneille, e decidem entrar. O que vêem é a mó em movimento, não triturando alegres grãozinhos de cereais, mas antes a moer, pobre e esforçadamente, pedra e cascalho. À falta de trabalho, mas recusando condenar o seu moinho à morte e à inutilidade, era assim, com pedra e lixo, que o Tio Corneille salvava a dignidade das suas velas enfunadas. Não me lembro como acaba - acho que o Tio Corneille regressa, vê o seu segredo desvelado, e chora muito e zanga-se. Penso que há algum final feliz para esta história, mas o que é certo é que não me lembro, só me lembro disto, do Tio Corneille deseperadamente salvando a glória do seu moinho e do seu trabalho.
O que adoro nesta história é o facto de o Tio Corneille gostar tanto do seu moinho e do seu trabalho. Do pouco que percebo de Hegel e Marx, o que me parece é que a questão da dialéctica senhor/escravo está muito bem vista - quando transformamos o mundo com o nosso trabalho, somos livres; quando deixamos que alguém o faça por nós, dependemos do trabalho alheio e somos nós os verdadeiros escravos. O Tio Corneille não queria ser escravo, e por isso sabia que o seu querido moinho era a sua salvação.
Acontece que hoje tenho pilhas de trabalho, mas nenhum deste trabalho serve para salvar o meu moinho. Não tenho nenhum moinho para salvar, com alguma pena minha. E por isso gosto tanto do Tio Corneille, apesar de a sua história me entristecer. Mas enfim, como me disse o meu pai quando lhe contei que as Cartas do Meu Moinho me davam para a melancolia, "pões-te a ler literatura, ainda por cima francesa, ainda por cima romântica, e é no que dá".

quinta-feira, 28 de maio de 2009

But you don't really care for music, do you?

Este post não dirá nada de novo, mas mesmo assim tenho de o escrever.
Ouvi recentemente uma versão absurda, pavorosa, feia, feia, feia, de Aleluia (a canção de Leonard Cohen -prometo que vou deixar de falar dele depois de 30 de Julho, em que finalmente o vou ver e ouvir ao vivo e a cores; até lá, o Leonard será presença um bocadinho constante neste blog, porque também estará muito constante nos meus pensamentos). Adiante. Ouvi uma versão horripilante do Aleluia por uma cidadã que vim a descobrir ser uma tal Alexandra Burke; esta Alexandra é uma nacional-cançonetista que resulta de um cruzamento de Rhiannas, Cristinas Aguileras, Mariahs Careys e outras que tais. Decidiu a Alexandra, então, cantar alegremente o Aleluia de Leonard Cohen numas entoações de pop de plástico, meio R&B, meio foleirada, com muitos gritinhos e suspiros e arrebatamentos vocais para compor a canção. Deve ter achado que o Aleluia era uma composição um bocadinho simples, um bocadinho básica, e que as trezentas mil versões que já se fizeram da mesma música eram também um bocadinho simples, um bocadinho básicas, com poucos devaneios estridentes, ainda que afinados.
Resumindo: foi a coisa mais horrível que eu já ouvi, porque, além de ser uma versão feia, é uma versão que entristece e perturba. Uma Alexandra Burke a cantar Leonard Cohen? Além do L, não estou a ver o que mais têm em comum.
No entanto, o que realmente me fez reflectir não foi exactamente que alguém como a Alexandra cante alguém como o Leonard, mas antes o facto de alguém, quem quer que seja, se dar ao trabalho de entoar uma versão de uma canção que já conta com inúmeras versões prévias. Só de cabeça, sem sequer ir pesquisar ao Google, lembro-me de três artistas que cantaram Aleluia - Jeff Buckely, Rufus Wainwright e KD Lang. Assim só de cabeça. De certeza que haverá mais, e que não houvesse, estes já chegam e sobejam (gosto de dizer "sobejar" ao invés de "sobrar"). Qual é a piada, para um artista, ainda por cima recente e jovem, de ir bater outra vez no ceguinho e perder toda a réstia de originalidade ao escolher Aleluia, ou o Yesterday dos Beatles, ou o Downtown Train do Tom Waits, numa tentativa vã de afirmar que é uma pessoa com algum gosto?
Sei que no Facebook há um grupo que se chama qualquer coisa como "If I'm going to listen to anyone singing Aleluia, it'll be Leonard Cohen". Tem muita razão de ser. Aquilo que, quanto a mim, se procura numa banda nova, ou num artista novo, é precisamente isso, a novidade, uma forma nova e inaudita de dizer, ou cantar, qualquer coisa. Fazer uma versão de uma canção magnífica é ser perdedor logo à partida, porque o original nunca será superado. Mais vale fazer o que os Travis fizeram - uma versão boa de uma música má (Hit me baby one more time, da Britney Spears - eu gosto imenso desta versão, tanto mais que me faz sempre rir imenso). Ou então, puxar pela cabeça e investir num som novo, bonito, uma coisa que dê vontade de ouvir.
Mas a Alexandra é, com certeza, superior a todas estas pequenas considerações.


Baby One More Time - Travis

Este blog é para velhos


Tenho pensado na velhice, e deve-se este facto não à minha idade (apesar desta começar já a ser para o avançada), mas à constatação de que a juventude nunca me atraiu muito. Não tenho saudades nenhumas da adolescência, por exemplo, que para mim não passa da saída atordoada de um desconfortável casulo. É bem melhor viver livre e estender longas asas de borboleta fora do tal casulo (estou poética, hoje); também tenho pouquíssimas saudades dos vinte e picos anos, prolongamento da adolescência, em que ainda se vive com incertezas em relação a tudo e todos. É preciso chegar a uma certa idade para mandar a incerteza passear, acho eu, e é por isso que a velhice tem um carisma interessante. Quanto mais velho se é, mais coisas e mais pessoas podemos mandar passear, o que me parece extremamente conveniente e até atraente.
A juventude tal como é personificada em fáceis e rebeldes personagens do cinema, aka James Dean, não deixa de ter os seus aspectos sedutores. James Dean e seus sucedâneos são bonitos, não têm rugas, e encarnam uma certa liberdade incontida que talvez possa ser também designada por rebeldia. Gosto muito de rebeldes, com ou sem causa, mas prefiro, sem dúvida, o rebelde velho ao novo. O rebelde velho teve tempo para amadurecer a rebeldia no Fiat Punto; o rebelde novo estampa-se num Porsche prateado. A diferença é essa.
Esteticamente, a velhice também bate a juventude aos pontos porque, sejamos francos, rostos imberbes de sorriso perfeito como o Leonardo DiCaprio, que não consegue perder o ar de rapazinho de calções por mais papéis de polícia que faça, já deram o que tinham a dar. São chatos, entediantes, todos iguais, como os quadros do Andy Warhol. O mesmo não se poderá dizer de gente mais velha, com mais marcas e rugas na pele, sorrisos mais pesados, um olhar mais cheio. São mais feios, mas mais interessantes, como o Leonard Cohen, com quem eu casava já hoje se ele me pedisse.
O Sylvain Chomet, que fez Les Triplettes de Belleville, um filme de que gosto muitíssimo, explicou numa entrevista que tinha decidido que a sua protagonista fosse velha porque, como desenhador, lhe interessava muito mais o desafio das rugas, das manchas, dos cabelos brancos, do andar, enfim, das características físicas da velhice, do que a perfeição limpa da juventude. Gostei muitíssimo deste comentário.
Quem é jovem, que aproveite; a força e a criatividade da juventude são inegáveis. A velhice, porém, traz consigo uma determinada pinta, uma determinada coolness que é de apreciar (os exemplos óbvios de George Clooney, Cary Grant, Fanny Ardant, L. Cohen - nunca é demais reiterar o Leonard- e outros de que não me lembro, mostram bem isto). Inegavelmente.

A angústia da incompetência

Bem, quando uma pessoa se põe a "esquadrinhar" (isto existe?) o que já escreveu, a única coisa que sobressai é erro atrás de erro. Nos últimos dois minutos da minha vida, li dois textos deste blog e encontrei inúmeros erros, não ortográficos, felizmente, mas de concordância e preposições e quejandos.
Que pavor. Sinto com grande intensidade pavor semelhante quando leio a Tese, esse ente que paira na minha vida e que funciona como constante "lembrete" (outro belíssimo vocábulo) das minhas intransponíveis limitações. Não percebo por que é que as pessoas se lembram de escrever Teses. São baluartes permanentes de incompetência. Servem para as lermos passado um ror de anos e rir da nossa ingenuidade e ignorância.
A angústia, angústia.

terça-feira, 19 de maio de 2009

A menina sem qualidades e sem tempo

A mulher (prefiro "a menina) acorda, estremunhada.
São seis e meia da manhã. O Kafka disse que não há nada de mais degradante do que acordar cedo, e tem razão, aliás, até já escrevi isto no blog, pensa a mulher (prefiro "a menina").
Duche, a correr, cabelo, a correr, carinha, que se quer laroca na medida do possível, a correr, carro, a correr, portagens, a correr, trabalho, a correr, angústia enquanto o tempo se escoa e as coisas cada vez menos feitas, a correr, sentimento de frustração e de incompetência porque o tempo se escoa e as coisas cada vez menos feitas, a correr, carro, a correr, portagens, a correr, casa, a correr, iogurte e sandes de atum, a correr, novamente trabalho, a correr.
Blog, a correr.
Vida, a correr.
Pedir desculpa, a correr, quando tiver mais tempo e mais qualidades a mulher (prefiro "a menina") voltará, esperançosamente, à postagem diária, por enquanto, a correr, a postagem é episódica, o que não se quer de um blog, mas, a correr, é o melhor que a menina tem conseguido fazer embora sempre, a correr, com um grande gosto que isto de escrever, ainda que a correr, ainda que inconsequentemente, é, a correr, muitíssimo giro.
Esta altura do ano é sempre, sempre a correr, é o mundo todo a desabar nas costas da menina.
Chuif, chuif.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Deixai vir a mim as criancinhas, mas a cantar é que não





Motivada, talvez, pelos Contemporâneos de hoje, que gozaram com aquele programa inenarrável e tenebroso da TVI em que as criancinhas aparecem a cantar, decidi escrever sobre uma certa perspectiva que tenho sobre as ditas criancinhas, e que é: a culpa não é das ditas criancinhas, mas vê-las na televisão ou em filmes a fazer papel de queridinhas e engraçadinhas é das coisas mais terríveis que existe, e que dispensa os amorosos "inhos" que normalmente gostamos de usar quando falamos de crianças.



Elas, de facto, coitaditas, não têm culpa. Não têm culpa de ter pais e um país inteiro que acha que elas estão bem não a dormir e a descansar porque no outro dia têm escola, mas antes a fazer papel de macacos amestrados na televisão. Não têm culpa de que as pessoas achem muita gracinha à sua mãozinha na anca, a bambolearem-se ao som sofrível de músicas sofríveis, não têm culpa de que as pessoas gostem de as ver com o cabelo empastado em gel de poupa ridícula, não têm culpa que as pessoas se emocionem ao vê-las rebentar a garganta quando cantam bem, sendo que se considera que as crianças cantam tanto melhor quanto a sua voz se aproxima do timbre de um adulto, e que são um portento sempre que, artificialmente, o seu comportamento imita o dos adultos. É terrível e embaraçoso, ver este tipo de espectáculo, e por isso eu normalmente não vejo - não vejo Sequins d'Ouros, talvez o programa que mais abomino e me faz bocejar de pavor e tédio, não vejo a porcaria do programa dos miúdos a cantar na TVI, não vejo filmes com criancinhas queridinhas, em que se lhes exige bochechas coradas e bem areadas como cobre, olhos esbulhados e de preferência azuis, ou então um toque exótico e enternecedor, como o miúdo da Austrália (o filme), não ouço música cantada por criancinhas, nomeadamente aqueles da Kelly Family, que, a culpa com certeza também não era deles, mas eram assim um bocado para o mutante, cada um uma versão ligeiríssimamente diferente do outro, tipo o lábio descaído e a narigueta dos Habsburgo ou isso, primos a casar com primos, sei lá o que era aquilo. Até os próprios Von Trapp me estão a parecer, neste momento, muito tenebrosos. Mas enfim, para os Von Trapp terei de abrir uma excepção, porque se há filme que eu adoro desde pequena é o Música no Coração, e contra isso nada a fazer, ou pelo menos nada que eu queira fazer.



Enfim. Ver crianças exploradas desta maneira faz-me uma espécie avassaladora. Noutro dia, no café, estava a ler uma revista muitíssimo interessante e formativa que o café lá tinha. Esta revista tinha uma mini-entrevista com um pai de um desses miúdos da TVI. O pai reconhecia que o filho, ou a filha, ia ter de faltar à escola e às aulas em geral, mas ele contava com a compreensão dos professores. Claro que sim, é claro que qualquer professor compreenderá esta compreensível situação - entre estar na escola a tentar aprender, ou pelo menos a tentar passar de ano, e ir fazer de macaquinho à gala da TVI, todos sabemos o que é verdadeiramente importante para a criança. A criança não sabe o que é o melhor para a sua vida, não é? Tem de confiar nos pais, não é? E os pais dizem que não há nada de mal em deixar o miúdo divertir-se um bocado, ali com as câmaras e as luzes, e os fatos espampanantes e revistas e tudo a desfazer-se em lágrimas que o menino canta um fado que é uma coisa formidável. Perante isto, os professores compreendem, pois claro, que a escola fica reduzida a um pequeno grão de areia. Assim como assim, maior parte dos desempregados deste país são licenciados, escola para quê, não é? De certeza que os pais destas crianças têm isto em mente. De certeza que não são os 15 minutos de fama que eles querem para os filhos. De certeza que os expõem desta forma tão descarada porque estão a pensar no seu futuro, têm uma estratégia pensada, é a educação e a formação da criancinha que está em causa, com certeza que sim.




Ai, ai. Crianças deste país, não se deixem assim vestir. Ou que haja alguém (pelos vistos, e infelizmente, não os vossos pais) que tenha algum bom senso.

Considerações inúteis

Realmente, quanto menos se escreve, menos se tem para escrever. Os escritores dizem que a escrita é um trabalho como qualquer outro - é preciso prática e disciplina, que isso da musa inspiradora é fogo fátuo que rapidamente se desvanece e quase nunca se materializa, de modo que o melhor é não se contar com isso, e é também muito importante "não perder a mão". Com grande pena minha, não sou escritora, mas percebo o que os escritores querem dizer com isto, com a importância de não perder a mão.
Igualmente com grande pena minha, cheguei a um ponto em que nem tempo tenho para me coçar, como se costuma dizer, o que raramente me acontece. Costumo ter imenso tempo para fazer tudo, inclusivamente coçar-me quando assim é necessário, embora o faça às escondidas por considerar ser um gesto deselegante. Mas constato que tenho andado numa vida impossível de evitar, e numa azáfama que me faz perder tempo e disponibilidade mental, de modo que passo a maior parte dos dias entupida de coisas inúteis que preciso, porém, de resolver e que me impedem de vir aqui divertir-me e escrever.
De modo que me sinto uma tristeza, sempre com a cabeça a doer e embrenhada na azáfama.
Tenho ido pouco ao cinema, e noutro dia fui ao Corte Ingles e fiz outra constatação, que foi a de que não me apetecia verdadeiramente ver nenhum filme. Quer dizer, por razões estéticas, talvez o Wolverine, mas não consegui (e isto apesar da enormíssima tentação, que os bíceps do Wolverine e o sobrolho franzido e ar de mau funcionam como o cheiro a pão quente, quanto a mim), não consegui, dizia, dar dinheiro para ir ver o Wolverine. Não consegui. Talvez tenha preconceitos a mais, mas a verdade é esta. Fiquei surpresa por o Let the Right One In não estar nas salas (espero que não se tenha dado o caso de já ter até saído de sala sem eu sequer reparar), fiquei igualmente desapontada, e como também não posso dar dinheiro para ver o Anjos e Demónios e quejandos, fui-me embora. Mas como é que é possível não haver nenhum filme para eu ver?! O Corte Inglês não é uma má sala, até costumam ter uma selecção muito razoável.
Ai. De modo que este post confirma que, quanto menos se escreve, menos se tem para escrever.
Peço desculpa, isto ficou, como diriam os Gato Fedorento, mesmo fraquinho.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

À espera de Godot?

Uma vez, fui ver esta peça no CCB. Saí de lá muito deprimida. Pensei que a vida, de facto, era um absurdo sem fundo, e que, tal como os outros dois indivíduos especados no palco à espera, eu própria me encontrava a aguardar pelo tal Godot, que, ficara a saber, nunca por nunca chegaria. E que percebia, de facto, porque é que À Espera de Godot podia ser entendida como uma tragédia. Eu, que sempre pensei que a vida era uma espécie de início de festa à qual acabámos de chegar, e em que aguardamos ansiosamente pelo momento em que nos vamos começar a divertir, apenas para acabar tudo e ficarmos a olhar para os copos vazios e perceber que esse momento nunca chegou, eu, dizia, identifiquei-me um bocado com os dois indíviduos à espera de Godot.
Voltei a pensar no tal Godot esta manhã. Chovia, conseguia ouvir o barulho da chuva, e ao contrário do que as pessoas me dizem, não acho o som do matraquear da chuva nada reconfortante quando se está deitado, especialmente se se está em Maio e se vive em Portugal (qualquer dia, nem o clima é justificação de jeito para viver aqui). Fazia vento, também, e ouvia o vento uivante, como diriam as irmãs Brontë, e pensei que a última coisa que queria era levantar-me, a última coisa que queria era ir trabalhar, e também pensei que, se ao menos eu me levantasse e tivesse a garantia de que encontraria o Godot, ainda vá que não vá, mas levantar-me e ficar na mesma, sem encontrar o tal Godot, qual o sentido, porquê, para quê, porquê?!
De modo que estava um bocado deprimida. Talvez por ser segunda-feira, que, a par das terríveis terças-feiras, é dia que me provoca alergia. Mas enfim.
Depois, falei com uma alma amiga que discordou inteiramente da minha opinião depressiva sobre À Espera de Godot. Achou muito estranho eu ter ficado tão angustiada com a peça. "Não percebes que a peça é sobre o optimismo?" Não, realmente não percebo. "Sim, a peça é um aviso para tu levantares o rabo e ires à tua vida como entenderes, em vez de ficares feita parva à espera do Godot. O Godot é um idiota, e os outros ainda mais idiotas são por terem ficado à espera. Como é que não percebeste isso?!"
Realmente. Como é que eu não percebi. A verdade é que nunca tinha percebido, que o meu apego ao pessimismo impede-me de lobrigar certas evidências.
E, assim, talvez À Espera de Godot seja uma peça alegre, e, de cada vez que me lembro dela, deverei, quiçá, mandar o Godot, alegre e optimisticamente, à merda, que eu tenho mais do que fazer do que ficar à espera.
Mas e se qualquer dia chega o Godot e não me encontra, depois como é que é?

sexta-feira, 8 de maio de 2009

The Bonfire of the Vanities



Este livro é fabulosamente bom. Estou "maravilhada", como dizia o outro.


Passa-se na Nova Iorque dos anos 80, numa cidade que já não existe. Para já, o World Trade Center, ainda na glória das torres gémeas, a fervilhar de genuínos yuppies, na flor da idade e já a fazer milhões ao ano, a comprar apartamentos de 300 assoalhadas em Park Avenue; Nova Iorque é ainda uma cidade suja, oleosa, perigosa e insegura, onde tudo fora de Manhattan é um mar de crime e ilegalidade. Não conheço Nova Iorque, mas sei que já não é completamente assim - tornou-se numa das cidades mais seguras do mundo; zonas anteriormente marginais e sujas como Brooklyn e o Bronx tornam-se, cada vez mais, áreas "da moda", onde as rendas aumentam de ano para ano; até TriBeCa, que agora é uma zona toda in, é descrita neste livro como deprimente e esquálida. Enfim, qualquer um percebe bem que as coisas mudaram bastante desde os anos 80, e por isso podia afirmar-se que este Fogueira das Vaidades é um livro datado.


Mas não é. Arrepia ler o retrato incrivelmente bem escrito de uma ganância sem limites, de uma verdadeira máquina destinada pura e simplesmente a fazer dinheiro, onde o infeliz Sherman McCoy, uma das personagens mais importantes do livro, descobre com sofrimento, após uma década de glória como investment banker, não ser mais do que uma dispensável peça. Ele que pensava ser o dono do Universo... ooooh.


Nenhuma das personagens deste livro, nem o impecável Sherman McCoy de Park Avenue, nem o judeu complexado e procurador público Kramer, nem o pusilânime e bêbedo jornalista Peter Fallow, é boa pessoa. Nenhum ser ou entidade que povoa o mundo nova-iorquino apresenta qualquer réstia de moral, bons princípios ou o que quer que se pareça com altruísmo.


O que estou verdadeiramente a gostar é a forma como o narrador é tão duro com as personagens, como as desmascara sem piedade, até cruelmente, mas sem nunca perder o sentido de humor. As personagens são julgadas e castigadas porque o narrador goza literalmente com elas e desmascara o seu ridículo - é cruel, mas muitíssimo engraçado.


Vale muito a pena, este livrinho. Talvez escreva mais sobre ele quando acabar de ler. Quem já tiver visto o filme e pensar que o livro não presta por o filme ser execrável, saibam que não é verdade. Eu vi o filme há anos e detestei, e à partida não queria ler o livro, mas houve uma alma caridosa que me disse que, se não lesse, era parva. E ainda bem que mudei de ideias, pois este Bonfire of the Vanities é mesmo do melhor. Principalmente agora, nestes tempos de crise e de derrocada de bancos, seguradoras e quejandos guardiões do nosso capital, vale mesmo muito a pena ler este livro e perceber que não está assim tão datado.

O gosto dos outros


Como dizia John Cusack no filme Alta Fidelidade (gosto muito deste filmito), "what really matters is what you like, not what you are like". De certa forma, esta afirmação é muito verdadeira - quem conseguir casar com alguém que ouve Britney Spears, ponha o dedo no ar. Ninguém põe, não é? Pois é...
Bom, partindo, então, do princípio (superficial, fútil, eu sei...) que esta afirmação de John Cusack é certa, os gostos das pessoas dizem muito daquilo que elas são. Acho que todos, de uma forma ou de outra, sentimos sempre a pressão para gostar das coisas certas e evitar que o mundo descubra os nossos terríveis "guilty pleasures", como, precisamente, gostar da Britney Spears (devo confessar que gosto muito da versão acústica que os Travis fizeram de "Hit me baby one more time"; gosto mesmo). Temos muita vergonha de admitir que o nosso filme preferido não é propriamente a Laranja Mecânica, é mais o Desafio Total.

Gosto das pessoas que não têm este tipo de vergonhas. Por exemplo, há uma querida, querida amiga minha que tanto gosta de Lady Gaga como de Alicia Keys, como de Tom Waits e de Ute Lemper. Lê o Arthur Miller e muda para o Código Da Vinci sem problema nenhum, sabendo muito bem distinguir uma coisa da outra, e sem quaisquer preconceitos intelectuais. Gosto desta atitude, porque me parece livre daquela arrogância constrangedora de quem, talvez por insegurança, tem medo de fazer figura de estúpido só por, de vez em quando, chafurdar na cultura pop.
Mas enfim, cada um é que sabe de si, como se costuma dizer; no entanto, há pessoas que, não sendo muito elevadas nem muito popularuchas, se tornam extremamente chatas e aborrecidas ao querer convictamente convencer os outros da sua grande inteligência, e que têm a mania de que são espertas e requintadas por, em vez de Britney Spears, ouvirem, talvez, uma Nora Jones. São as pessoas-Tom-Hanks, e era aqui que eu queria chegar (finalmente, depois de tanta conversa inútil, consegui). Gostar de Tom Hanks é a mesma coisa que tentar saborear um pão sem sal. O Tom Hanks é aquele tipo de actor que é pau para toda a obra. Faz tudo relativamente bem, ou até muito bem, sempre com uma competênciazinha certinha, limpinha, deslavadinha, sem nunca chegar ao arrebatador. É aquele actor de que as pessoas que estão no meio, que ouvem Nora Jones apenas porque ouvir Britney Spears dá mau aspecto, gostam, porque tudo o que seja insípido e inofensivo, elas acham automaticamente que é muito bom.

Há uma diferença entre a competênciazinha e o ser bom. E essa diferença não está no Tom Hanks. De modo que, quando conhecemos alguém que diz que tem por actor preferido o Tom Hanks, aquilo que a mesma pessoa nos transmite é, inevitavelmente, um imenso tédio. O melhor que se consegue arranjar, com toda a panóplia de actores e actrizes que andam por aí, é o limpinho Tom Hanks? Não é grande esforço. Há que ir mais ao cinema.

E aqui concluo os meus 15 minutos de intensa explanação dos meus respeitáveis preconceitos sobre o gosto dos outros.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

These are a few of my favourite things

Estes são dois dos meus vídeos preferidos do YouTube.
Gosto muito do trailer do Lost, que já é antigo mas tem um estilo incontornável e inegável, e uma impecabilíssima canção dos Portishead (é que é mesmo irrepreensível, adoro a canção, é a minha preferida). Além disso, também gosto muito do Lost. Dentro do Lost, o que eu prefiro é o Sahid. Disseram-me que ela já saiu da série, ou vai sair. Quando o Sahid sair, eu deixo de ver.
Gosto muito do Rei, também, e acho que ele está o máximo aqui no clip - kitsch a valer, como diria Dâmaso Salsede dos grandes Maias, que é o meu livro preferido.




Não acho bem


Há uma coisa que eu faço bem na vida, e que é: empatar tempo. Por exemplo, neste preciso momento, a Tese grita por mim, e eu respondo-lhe, "agora espera, que eu estou no blog". No outro dia, estava também a Tese a gritar desalmadamente por mim, e eu gritei-lhe de volta "agora espera, que eu estou a ver televisão". E de facto estava. Acontece que o programa a que eu assistia (foi só uma vez, e mesmo assim é uma grande vergonha) era sobre um gordo chamado Jim, e era daquelas sit-com americanas sem salvação possível e, pior, sem graça absolutamente nenhuma. Nesta série, este Jim é casado com uma loura toda gira e bimba (a mesma do Melrose Place - sim, eu tenho boa memória, e uma gravíssima tendência para má televisão americana), que passa a vida em casa, enquanto ele vai trabalhar. No episódio que eu vi, a loura acusava-o de não lhe prestar atenção nenhuma, de não a conhecer suficientemente bem, etc. E que exemplo é que ela arranja para ilustrar o facto de o marido não querer saber dela? Decide perguntar-lhe se ele sabe qual é a sua banda preferida. Ele diz que não, ou então dá uma resposta qualquer errada. Ela amua e diz, "são os Beatles, vês, tu não sabes!".

Acontece que este tipo de incidentes é um tanto ou quanto ofensivo para as pessoas que gostam e ouvem os Beatles. Por um lado, sabe-se que os Beatles são universais, e à partida toda a gente gosta deles. Isto é saudável e positivo. Por outro lado, ver o nome dos Beatles assim achincalhado como o tipo de banda que se presta a ser mencionada numa sit-com fraquinha e pobre de espírito, custa um bocadinho. Os Beatles tornaram-se tão universais que, sempre que alguém quer dar um exemplo de uma banda qualquer, escolhe-os a eles, não por serem bons, mas, provavelmente, por serem conhecidos e "clássicos" - quase banais, quando a discografia dos Beatles mostra claramente que banais é coisa que nunca foram.

Disseram-me noutro dia que os Portishead, no auge da sua popularidade, se chegaram a queixar devido ao facto de toda a gente ouvir a sua música, que se assemelhava, por se ter tornado de tal forma "moda", a música de elevador. Não sei se é verdade e se os Portishead se queixaram de facto, mas, assumindo que sim, por um lado acho que é uma atitude de terrível estupidez (querem vender discos ou não?), por outro até percebo. Se o artista que é bom artista se esforça por fazer um trabalho com dignidade, é natural que não o queira ver devassado. Talvez os Portishead estivessem a reagir a isso, ao facto de não verem o seu trabalho respeitado, não sei. De qualquer forma, a questão é semelhante ao caso dos Beatles. É bom serem tão universais e saber que o mundo reconhece o seu génio. Mas banalizá-los por dá cá aquela palha e porem uma pobre de espírito na televisão a dizer que os Beatles são a sua banda favorita (como quem diz Abba, por exemplo), é uma coisa que uma pessoa como eu, que claramente não tem mais nada em que pensar e que se ocupa destes preciosismo, acha mal.

Respeito pelos Fab Four, é só isso que eu peço.

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Cunhado

Um breve post para indagar, e também para me interrogar, sobre a condição de "cunhado". Não sei porquê, mas a mim um "cunhado" faz-me sempre lembrar alguém da máfia, do estilo "eu e o meu cunhado temos aí um negociozito de lavagem de dinheiro que está a correr muito bem; vamos expandir para offshore e isso". Não consigo imaginar um outro membro da "família" que não seja o cunhado para se ter um honesto e lucrativo negócio de lavandaria.

Um outro facto que constato é que os cunhados são um tanto ou quanto omnipresentes. As pessoas dizem muito "estava a falar com o meu cunhado e ele disse-me que isso é mentira", ou "tenho um cunhado que foi de férias a Cuba e não gostou nada daquilo, que ele é do PP", ou ainda "nesta fotografia estou eu, os meus filhos, a minha irmã e o meu cunhado, que trabalha no stand da Seat".

Para mim, os cunhados são personagens perfeitas ou dos Sopranos (o cunhado que vem de Itália para ajudar o Tony nos seus afazeres diários, chantagens, lavandarias, espancamentos e quejandos) ou das crónicas do Lobo Antunes (o cunhado a comer frango assado, de fato de treino no centro comercial e a mostrar fotografias de férias a Cuba, ou República Dominicana, ou sul de Espanha). Talvez isto se deva ao papel ambíguo e vago dos cunhados, que servem para dar paternidade aos nossos sobrinhos, e depois pairam sobre a família, vindos sabe-se lá de onde. A complicada patronímia de parentescos na língua portuguesa também não ajuda - sogra, sogro, genro, nora e finalmente cunhado, como seria de esperar.
Realmente, "cunhado". Quem é que teve ideia de inventar "cunhados"? Esta questão intriga-me. Quando tiver resposta, escrevo aqui no blog. Até lá, remeto-me ao silêncio, porque, seguindo Salvatore Rosa que está no post ali em baixo "fala melhor do que o silêncio, ou então cala-te".

quinta-feira, 30 de abril de 2009

La Haine, aka: Personagens literárias detestáveis


Realmente, há personagens (prefiro mesmo chamar-lhes pessoas) insuportáveis, odiosas, venenosas e terríveis. Personagens que povoam livros que adoramos e que nos põem o sistema nervoso acelerado, o coração a bater de raiva, de tão efectivamente más que são. Ou então, são apenas personagenzinhas deslavadas, coitadinhas, anódinas, que se tornam também insuportáveis por isso, pela sua desavergonhada falta de carisma.

Tenho uma relação amor-ódio com algumas destas personagens porque, se por um lado as detesto, por outro sei que a sua força odiosa é tão grande que vale a pena ler um livro só por causa disso, por causa deste poder envenenado. Aqui vai a listinha das personagens que me vêm imediatamente à cabeça por serem tão terríveis:


Daisy, Great Gatsby - esta Daisy teria sempre de encabeçar a minha lista. Adorando o Great Gatsby (livro e personagem), e simpatizando com este "poor son-of-a-bitch", detesto esta Daisy, pusilânime, obtusa, vaidosa, egocêntrica, manipuladora, falsamente frágil, egoísta, fraca, preguiçosa, burguesa, injustamente opulenta e confortável, que vive a vida tratando o pobre e querido Gatsby como um objecto pessoal. O problema não era Gatsby ser pobre, o problema é que a Daisy não estava para ter trabalho a apaixonar-se por ele, nem por ninguém, aliás.

No entanto, a Daisy serve para uma coisa, e que é revelar o talento de Fitzgerald, que descreve a intensidade subtil das suas personagens magistralmente. Mas a Daisy não deixa de ser uma indesculpável e terrível bitch, na minha opinião, e ainda por cima sob uma capa de inocência e docilidade terrivelmente cruel.

Vou passar à próxima personagem, que esta Daisy deixa-me alterada.


Frodo, Senhor dos Anéis - coitado do Frodo. Ele não é propriamente uma personagem que valha a pena "odiar", porque é demasiado bonzinho para isso, mas é tão deslavado que enerva um bocadinho. Não posso falar muito, porque li apenas o primeiro livro desta trilogia, e com muito esforço. Não sou grande fã do Senhor dos Anéis; no entanto, percebi rapidamente que o tal Aragon é que é o herói interessante, ao passo que Frodo é aquele tipo de personagem semelhante à falsa heroína do Psycho, que morre nos primeiros 15 minutos do filme e não interessa para nada, defraudando o público, que pensa que o filme vai ser sobre ela e que, portanto, ela não poderá morrer. O Frodo é a mesma coisa, a diferença é que ele nunca morre, anda sempre a palmilhar a Terra do Nunca ou Middle Earth ou lá como aquilo se chamava para destruir o anel, mas a gente esquece-se dele à mesma. Como personagem, sempre me enervou o Frodo ser tão fraquinho. Justiça seja feita ao filme, pelo menos acertaram com o actor para desempenhar este papel. Não imagino actor mais mole, mais irritantemente ingénuo, e mais anódino do que Elijah Wood, com os seus esbugalhados e fofinhos olhos azuis. É um ponto a favor do filme, terem conseguido um tão belo actor que respeita tanto a personagem, lá isso é verdade.


Juliana, Primo Basílio - sem comentários, não é? Uma das razões para O Primo Basílio ser, dos livros do Eça, o que menos vezes li prende-se precisamente com esta terrível e chantageadora Juliana, a criada malévola, viperina, biliosa, verde de inveja, poço de fel. A partir do momento em que a Juliana apanha as cartas da pobre Luísa (mas também, esta burguesinha arrasada de romance não devia estar a pensar bem, enviar cartas de amor adúltero pela criada!), deixo de conseguir ler o livro. Fico cheia de pena da Luísa e a tremer de raiva contra a velha, feia, insolente Juliana. Odiosa, sem dúvida.


Mrs Danvers, Rebecca - gosto muitíssimo deste livro. Li-o quando era pequena, e nessa altura a Rebecca tinha tudo o que eu queria numa história - amores, desamores, traições, muito mistério, e acima de tudo Inglaterra. Bastava-me. Bom, mas esta Mrs Danvers, a personificação da temível, omnipresente e até omnisciente governanta, é aterradora. Uma imutável e empedernida bruxa. É uma personagem estranha, próxima de um fantasma, e, na minha opinião, tão triste que se torna maléfica. A figura da governanta, de facto, tem muito que se lhe diga. Hei-de escrever sobre isso um dia, sem me esquecer das minhas queridas Brontë, que ganhavam a vida nessa actividade, e bem lhes custava. Mas, para rematar, esta Mrs Danvers é o azedume e a maldade em pessoa. Só por ela, vale a pena ler o livro.
E chego novamente à conclusão de que estas personagens maléficas, que odiamos, são realmente muito interessantes. O que seria da literatura sem elas, é a questão que eu levanto.

Silêncio


Cheguei à conclusão de que a filosofia de café, ou filosofia barata, é das piores coisas da vida. É que é insuportável.

Não gosto muito de verdades. Não gosto muito de textos e pessoas que se levam tão a sério que pensam que têm que dizer verdades em sentenças e aforismos, e abençoar-nos com a sua inteligência.

O Kierkegaard, por exemplo, disse o que tinha a dizer sem chatear ninguém e sem assumir aquele tom sentencioso das pessoas que pensam que têm verdades para dizer. As verdades não servem para nada, e da verdade dos outros não preciso - pelo menos, não me parece.

Estou como Salvatore Rosa, neste auto-retrato de que gosto muitíssimo, em que o pintor mostra uma nota com o seguinte dizer - "reduz-te ao silêncio, a não ser que fales melhor de que o silêncio".

(isto também se aplica a mim e aqui ao bloguezito, eu sei, mas pronto, vivo com isso; além disso, também eu me calarei, qualquer dia).

Nota mental: habituar-me ao Facebook, habituar-me ao Facebook, habituar-me ao Facebook

Decididamente, não sou uma pessoa que deva estar no Facebook.
Não percebo para que é que aquilo serve, nem o que lá deverei escrever, nem se hei-de comentar no chamado "wall" dos outros, nem nada. Até agora, o que fiz foi aqueles quizzes paravalhões e pus os resultados no meu wall, com uns comentários meio idiotas. Pronto.
Prefiro ver os meus amigos a cores e ao vivo.
Prefiro ver os meus amigos que infelizmente estão longe também a cores e ao vivo, ou então mando um email e eles depois respondem. Não preciso do feisbuk.
O Facebook faz-me sentir uma Oliver Twist. O Oliver Twist olhava para os meninos à lareira, a comer frango assado, e ele ali a espreitar à janela, triste; eu, no Facebook, sou a mesma coisa. Ponho-me a olhar à janela para o facebook dos outros, com as suas fotografias, a sua repleta vida onde as coisas acontecem minuto a minuto, e eu ali especada, a ver. O Facebook está pensado para as pessoas se sentirem mal com a vida, para depois andarem a arranjar muitos amigos e conseguirem ter 528 amigos e dormirem descansadas, pois isso quer dizer que são boas pessoas.
Eu sou uma péssima pessoa, e por isso o Facebook não é para mim, e, tal como o Oliver Twist, vou espreitar à janela dos outros e ver os seus belos profiles no Facebook, e eu sem saber o que fazer ao meu, e a bílis cresce, e cresce, e cresce!
Não é saudável.

Gaja que devia fazer o meu estilo mas não faz: Tori Amos


Não gosto nada dela. Não tenho nada contra, mas não gosto.

A razão é clara: esta Tori fez um disco de covers, ou pelo menos fez muitas covers de muitas músicas de que eu gosto, cada uma pior que a outra. É que, ainda por cima, ela cobriu mesmo muitos indivíduos de quem gosto muitíssimo a sério, nomeadamente Leonard Cohen, Lloyd Cole e Purple Rain, do Prince (canção e não indivíduo, neste caso).

Famous Blue Raincoat, do grande e bonito Leonard, transforma-se numa coisa monótona e entediante na voz da Tori. Mesmo chata. O grande e bonito Leonard consegue aguentar a monotonia com aquela voz por vezes monocórdica, mas ele fá-lo bem; faz parte da música, não é aborrecido. Agora a Tori, meu Deus, que seca.

Quanto a Purple Rain, o grito final, que é a parte que eu mais gosto da canção, torna-se num miar de gato um tanto ou quanto insuportável na voz desta senhora, o que é uma imensa desilusão. Quando ouvi a versão de Purple Rain da Tori Amos, pensei que fosse uma brincadeira, de tão má a achei. A seca do costume, tudo muito paradinho e piano deslavado, e depois um miar de gato no fim. Mas no que é que ela estava a pensar?! Assassinar assim estas grandes músicas, sem respeito nenhum?

Isto levou-me a concluir que a Tori não sabe os seus limites, pois, se os soubesse, mostrava algum respeito, e pensava, "espera, eu antes de me pôr a cantar L. Cohen, vou ver se sou boa o suficiente para o fazer, de modo a conseguir uma cover original e bonita; antes de me pôr a cantar Purple Rain, vou ver se consigo uma versão bonita do fabuloso grito final"; mas não. Cantou e pronto.

Grande desilusão.

Não faz o meu estilo. Dou-lhe pontos pelo cabelo impecável, mas fico por aqui. De qualquer modo, deixo a tal versão do Prince, pode ser que alguém goste e que me faça mudar de opinião.







Tori Amos - Purple Rain (Live Prince Cover).mp3 -