quarta-feira, 3 de junho de 2009

Clandestino

Este post deve-se ao facto de ter ido ao youtube procurar uma certa entrevista com Charles Bukowski de que um amigo me tinha falado. Encontrei algumas entrevistas, mas não a tal que procurava; pedi o link exacto ao meu amigo, que constatou que terem sido retiradas do youtube, e que depois me mandou um email indignado a relatar-me isso mesmo.

Partilho inteiramente a sua indignação. Levo muito a peito, e com muita ofensa, as constantes leis e ameaças das indústrias fonográfica e cinematográfica em relação a quem partilha ou faz download de música, séries e filmes. Levo tanto a peito que raríssimamente compro CDs e DVDs, a não ser que os encontre a um preço razoável, o que se vai tornando raro. E não compro CDs por não gostar de música - gosto muito. Se não compro DVDs, não é por não gostar de filmes - adoro. Não os compro porque é a minha forma de castigar quem não parece ter grande respeito pelos consumidores de música e de cinema. Se querem fazer lucro desmesurado, que o façam, mas não à minha custa (atenção - não critico que a indústria queira fazer lucro, só não aceito que o queiram fazer, como disse, desmesuradamente).

Eu respeito inteira e primordialmente os direitos de autor. Mas há razões claras para que se recorram aos downloads e à Internet. Quanto a mim, são elas:

a) quem quer seguir uma série de TV em particular, que o tente fazer pela televisão e veja no que dá. Se tiver canais por cabo, a coisa corre melhorzinha, mas os canais generalistas são para esquecer: horários trocados, atrasos, ou pura e simplesmente deixar a série desaparecer da grelha sem qualquer explicação. Senti isto na pele quando tentei ver as temporadas 3 e 4 do Lost, que aprecio muitíssimo, e em que faz imensa diferença perder um episódio que seja, na RTP. As opções, portanto, são duas: paga-se TV cabo, ou recorre-se à net, que, diga-se, também é paga pelo (detesto esta palavra) "utente"(e isto para não falar das séries que nem sequer passam em Portugal, ponto).

b) o youtube está a tornar-se insuportável com a porcaria da protecção, retirando vídeos e entrevistas à toa, quando estes suportes contribuem muitíssimo, mais do que para a pirataria, para a promoção e divulgação de bandas, filmes, séries, escritores, artistas em geral. É uma burrice, e até uma desvantagem para a indústria, perseguir o material que está no youtube e sites similares. Aconteceu-me imensas vezes ver coisas nestes sites e depois acabar por adquirir o CD, ou o DVD ou o que seja (apesar de, como digo, acabar por comprar poucos CDs ou DVDs)

c) quem gosta verdadeiramente de cinema sabe a diferença entre ver um filme no cinema e vê-lo numa cópia pirata. O que há a fazer é incentivar os amantes de cinema a irem às salas, e dar-lhes escolha, ao invés de os perseguir quando tentam encontrar material na net que, muitas vezes, não se encontra em mais lado nenhum. O que me leva ao próximo argumento:

d) de facto, há imenso material disponível na net que não pode ser adquirido nas lojas, até mesmo em lojas online. É material raro, antigo, e que deveria estar à disposição de quem o quer ver. A indústria quer negar o acesso a estes documentos, sem ter a preocupação de, pelo menos, os tornar disponíveis (lembro-me do exemplo flagrante de Seinfeld, que esteve anos indisponível - a série tinha acabado, a edição em DVD não existia. Porque é que alguém se deveria coibir de ir à net descarregar episódios? Outros exemplos há de material bem mais raro e antigo - as entrevistas de Bukowski de que falei no início deste post - que, não estando na net, dificilmente se podem encontrar e/ou comprar. Monetariamente. Usando cartões de crédito ou numerário, como a indústria gosta). A propósito deste ponto, ler aqui esta interessante crónica do Guardian - If you can't buy it legally, of course you'll download it. Exactamente.

e) que tal começar por baixar o preço, mais do que dos DVDs, dos CDs? Como consumidora de música, o mais possível, terei todo o gosto em pagar um preço razoável e justo por um Cd de uma banda que gosto. Mas, para mim, e lamento dizê-lo, €20 por um CD com dez músicas não é, pura e simplesmente, razoável - mesmo que o CD seja dos Beatles, o que é a afirmação mais forte e convincente que posso fazer em relação a este assunto. De qualquer modo, se a indústria e as editoras baixassem preços, dariam, pelo menos, sinal de algum respeito pelos ouvintes e algum incentivo para que se deixe de recorrer ao download. O mesmo se aplica a DVDs (gostaria muito de considerar razoável o preço que pedem por uma temporada do Lost, recorrendo ao mesmo exemplo, mas não considero. Sei que o DVD tem imensos extras, mas mesmo assim).

f) Decisões, ou embriões de decisões como esta revoltam-me um bocadinho. Cortar a internet a quem faz pirataria. Por um lado, e apesar da crise financeira, apregoa-se o mercado liberal e capitalista, em que se pode livremente comprar acesso à internet de grande velocidade, dando dinheiro às PTs deste mundo (no meu caso, é à PT), e recebendo um bem em troca. Uma transacção normal em regime de mercado livre, em que, com o meu capital, adquiro internet. No entanto, se eu me atrever a usar o bem pelo qual paguei para prejudicar, ou beliscar que seja, os editoras e produtoras, vejo-me vedade de usufruir do bem que eu paguei com dinheiro meu. Levem-me a tribunal, seja. Cortar o acesso à internet? Tenham juízo.

g) há bandas e artistas independentes que se tornaram conhecidos e populares, precisamente, por terem usado a Internet a seu favor (e.g. Artic Monkeys, exemplo típico), o que demonstra como a Net pode ser um instrumento não contra as editoras, mas agindo em benefício delas. Os Radiohead também perceberam isso quando lançaram o seu álbum na net - cada um pagava o que queria. É claro que os Radiohead estavam em posição de tomar esta decisão, mas a Net é também útil como meio de promoção da bandas novas que, e é importante dizê-lo, não teriam o aval das editoras para começarem a sua carreira, encontrando na Net uma forma de o fazer (os Beatles foram recusados por 4 editoras antes de George Martin os ter aceitado na EMI; se fosse hoje, provavelmente recorreriam à net, e bem). Convém notar que a internet vai destruindo o monopólio das grandes editoras relativamente às bandas que se podem ouvir e que passam, ou não, na rádio. Neste sentido, a net cria um espaço de liberdade importante que as editoras não controlam e que lhes custa caro. Mas paciência - habituem-se e procurem alternativas. A este propósito, pode ler-se no Guardian: Many artists want a record deal. What the net has done is allow new people to be recognised, but once established they don't want the hassle of marketing and distribution, which are the core strengths of the companies. O que me conduz ao próximo argumento, que é mais uma pequena conclusão:

h) o papel das editoras mudou. É triste vê-las ameaçar tudo e todos com processos em tribunal, multas, prisões, cartas de ameaça, sem perceber que isso não revela grande respeito por quem gosta de cinema e quer ir ao cinema, e quem gosta de música e quer ouvir música. Como se diza no artigo sobre os Radiohead linkado acima, talvez o papel das editoras passe mais por divulgar, promover, distribuir o trabalho das bandas ao invés de tentar recuperar lucro perdido que nunca irão reaver. A sua batalha contra a internet é inglória, e seria bom que se apercebessem disso, dando incentivos aos amantes de música e cinema para trilharem o caminho da legalidade (que bonito).

Este post não se destina a apregoar o desrespeito por direitos de autor, nem negar o direito ao lucro justo por parte de bandas, editoras e produtoras. Mas não me parece que estas editoras e produtoras se encaminhem para grandes lucros enquanto persistirem na perseguição, ou tanto ou quanto cega, daqueles que consomem música, cinema e TV. O itunes, por exemplo, parece-me um sistema mais justo, em que se paga uma quantia mais razoável por música e séries. Talvez o caminho seja por aí, algum ponto de encontro ou equilíbrio entre preços desajustados que ninguém quer pagar e o download ilegal e irrefreado.

terça-feira, 2 de junho de 2009

Crise existencial


Só li um livro de Charles Bukowski, chamado Mulheres. Detestei, não percebi qual era a ideia daquilo (quer dizer, percebi a ideia, mas achei-a entediante).
No entanto, agora acho que gosto mais de Bukowski. Li alguma poesia sua, e gostei, e tenho novamente vontade de ler os seus romances.
Ao ver as entrevistas de Bukowski no youtube, desenvolve-se uma certa aversão à vida de classe média, que é a minha vida, e a da esmagadora maioria das pessoas que conheço. Não que eu queira andar em bares à pancada, ou a achar que ou me embebedo todos os dias, ou suicido-me, porque é a única forma de aguentar um trabalho da treta que paga $1,5 à hora, mas ao mesmo tempo há um enorme enjoo, impossível de conter, em relação a um certo conforto material, à estabilidadezinha. Não sei bem explicar isto sem parecer hipócrita.
As hipóteses que vejo delineadas são duas: indigência, pouco dinheiro, mas mais arrojo; conforto, algum dinheiro, pança gorda e procriar.
Tem de haver, entre estas duas possibilidades, algum meio termo. Tem de haver. Estou há anos para perceber onde está o meio termo, mas tem de haver.
O LB, quando ainda escrevia n'O Nascer do Sol, captou bem este drama das opções neste post, em que a opção A é uma perfeita família loura de olhos azuis, com um qualquer monovolume na garagem (peço por tudo que nunca por nunca venha a ser o tipo de pessoa que conduz um "monovolume"), e a opção B é, precisamente, o esquálido e batido Bukowski, com uma desmazelada pelo braço, e o perturbado Faulkner de meias, no jardim, a apanhar sol (acho que era o Faulkner). Os meus instintos gritam "opção B". A minha mais racional mente age como uma mãe zangada, de dedo em riste, e grita, "opção B? Está maluca? Depois destes anos todos a estudar? A menina vai é para a opção A e não há mais conversa". E eu, entre instinto e racionalidade, fico sem saber o que escolher, ou o que fazer.
Mais uma vez me rendo às evidências dos filósofos, principalmente as do grande Kierkegaard, que quando falava do drama das opções, sabia bem do que falava.
E ontem, no supermercado, vi uma senhora a fazer compras com um vestido vermelho e uma mal preta brilhante. Os sapatos era também pretos de verniz, para condizer, pateticamente, com a mala. Não valia a pena o esforço. A senhora não era bonita nem estava bem vestida, e aquela tentativa triste de exibir sapatos a condizer com a mala era apenas um sinal flagrante de que nunca seria bonita, nem bem vestida. Mais valia desistir. Se formos ao supermercado e olharmos para as pessoas, constatamos que muitas delas fazem este esforço patético, de roupa a condizer, ou óculos de sol de marca, ou unhas arranjadas, ou um relógio mais espampanante, qualquer coisa que seja para demonstrar ao mundo de que eles se mantêm à superfície e que a vida não os derrotou. Mas o seu cansaço enquanto pagam comprar inúteis de quem tem de alimentar um regimento é já uma derrota. Como o Bukowski a dar pontapés à parva da namorada, que também se pode ver no youtube, é uma derrota. Talvez opção A e B sejam ambas uma derrota.
Realmente, não se pode ganhar à vida.
As terças-feiras são assim, deixam-me sempre num estado miserável.

domingo, 31 de maio de 2009

Álbum das Glórias


Parece que a música dos Xutos, Sr. Engenheiro, não passa nas rádios portuguesas. Os argumentos são vários - a música não tem suporte em vídeo, o papel das rádios não é intervenção, muito menos intervenção política (este argumento, dado pela Mega, irrita-me um bocadinho, devo confessar). Mais triste, ou interessante, dependendo do ponto de vista, é alguém como Pedro Abrunhosa, que teve uma entrada fulgurante na música portuguesa por, precisamente, e nas suas próprias palavras, "intervir com a música", não ter nada a dizer. Lembro-me agora de que a última vez que ouvi Pedro Abrunhosa a cantar deve ter sido no anúncio, já algo longínquo, do BCP. Mudam-se os tempos e, de facto, também as vontades, sem dúvida alguma.

Mas enfim. Houve censura à música dos Xutos? Não sei. Mas sei que os representantes das rádios mencionados pelo Expresso me pareceram demasiadamente evasivos sobre um assunto que deveriam levar muito a peito. E tudo isto me fez pensar noutras coisas. Lembro-me, por exemplo, do Álbum das Glórias, de Rafael Bordalo Pinheiro, e da sátira demolidora e hilariante à sociedade e à política portuguesas da altura (século XIX, recorde-se). De Sua Alteza, o Infante Augusto Fernando Miguel Luís Tiago Rafael de Gonzaga e Bragança e Albuquerque de Fonseca e Vasconcellos Boto Mello (estou a inventar os nomes, é claro), Rafael Bordalo Pinheiro indica o nome e depois diz apenas que nasceu. É este o único acontecimento digno de nota na vida de S. Alteza.

Gosto de pensar, em alturas como esta, como seria recebido o Álbum das Glórias no Portugal de 2009. Se seria tolerado, se as pessoas o leriam para se rirem com ele, ou se saberíamos da existência do Álbum apenas por uma breve notícia no Expresso: "livrarias não põem à venda Álbum das Glórias, de Rafael Bordalo Pinheiro. Bordalo Pinheiro diz que parece um complô, livreiros não comentam, escritores não comentam, leitores não comentam, ninguém comenta".

Afasto rapidamente este pensamento da minha mente, primeiro porque os Contemporâneos estão a começar, segundo porque Bordalo Pinheiro censurado em Portugal, em 2009, é assim orwelliano demais. Nunca aconteceria. Acho mesmo que não.

sexta-feira, 29 de maio de 2009

O meu moinho


Hoje tenho muito para fazer, embora não pareça, pois estou aqui a escrever. A verdade, porém, é que estou efectivamente muitíssimo ocupada. No entanto, decidi fazer uma pausa não com Kit-Kat, mas antes com a memória de um livro que li imensas vezes quando era mais pequena, Cartas do Meu Moinho, de Alphonse Daudet. É uma colecção de histórias, ou cartas, sobre as personagens e a vida rural francesa que o narrador envia aos seus amigos da cidade, depois de ter decidido mudar-se para um moinho desabitado. A maior parte das histórias, pelo menos aquelas que eu me lembro, são melancólicas e tristes, ainda que, como diria Herman José a imitar Carlos do Carmo, tenham alguns "apontamentos de humor". Alguns destes contos permanecem ainda muito vívidos na minha memória, mormente (adoro este advérbio) A Cabrinha do Senhor Seguin e O Moinho do Tio Corneille (não sei se é exactamente assim que se chama este último conto, mas partamos do princípio que sim).
Vou deixar a história da cabrinha para outro dia e concentrar-me apenas no Tio Corneille, que é mais relevante para dias de trabalho como o de hoje. O Tio Corneille era um moleiro simpático que vê a sua actividade desprezada e os seus colegas transformados em peças de motor após a proliferação de fábricas e máquinhas que moem cereais mais eficazmente e fazem farinha mais branca. Todos os moinhos da região fecham, desmoronam-se em ruínas ou são invadidos por ratos e bicharada, mas o do Tio Corneille não. Todos os dias, os habitantes da região viam as velas do seu moinho enfunadas, a enfrentar vitoriosamente o vento, a rodar, a rodar, enfim, a moer grãos e a trabalhar. Ninguém sabia onde ia o Tio Corneille buscar clientes e trabalho, mas a verdade é que, dia após dia, lá se afadigava ele no seu moinho, sob as grandes velas sempre em orgulhosa circulação.
Até que um dia a neta do velhote, que saíra de casa já não sei porquê, volta para que o avô conheça o seu noivo, com quem tem casamento marcado para breve. Quando os jovens chegam ao moinho, não encontram o Tio Corneille, e decidem entrar. O que vêem é a mó em movimento, não triturando alegres grãozinhos de cereais, mas antes a moer, pobre e esforçadamente, pedra e cascalho. À falta de trabalho, mas recusando condenar o seu moinho à morte e à inutilidade, era assim, com pedra e lixo, que o Tio Corneille salvava a dignidade das suas velas enfunadas. Não me lembro como acaba - acho que o Tio Corneille regressa, vê o seu segredo desvelado, e chora muito e zanga-se. Penso que há algum final feliz para esta história, mas o que é certo é que não me lembro, só me lembro disto, do Tio Corneille deseperadamente salvando a glória do seu moinho e do seu trabalho.
O que adoro nesta história é o facto de o Tio Corneille gostar tanto do seu moinho e do seu trabalho. Do pouco que percebo de Hegel e Marx, o que me parece é que a questão da dialéctica senhor/escravo está muito bem vista - quando transformamos o mundo com o nosso trabalho, somos livres; quando deixamos que alguém o faça por nós, dependemos do trabalho alheio e somos nós os verdadeiros escravos. O Tio Corneille não queria ser escravo, e por isso sabia que o seu querido moinho era a sua salvação.
Acontece que hoje tenho pilhas de trabalho, mas nenhum deste trabalho serve para salvar o meu moinho. Não tenho nenhum moinho para salvar, com alguma pena minha. E por isso gosto tanto do Tio Corneille, apesar de a sua história me entristecer. Mas enfim, como me disse o meu pai quando lhe contei que as Cartas do Meu Moinho me davam para a melancolia, "pões-te a ler literatura, ainda por cima francesa, ainda por cima romântica, e é no que dá".

quinta-feira, 28 de maio de 2009

But you don't really care for music, do you?

Este post não dirá nada de novo, mas mesmo assim tenho de o escrever.
Ouvi recentemente uma versão absurda, pavorosa, feia, feia, feia, de Aleluia (a canção de Leonard Cohen -prometo que vou deixar de falar dele depois de 30 de Julho, em que finalmente o vou ver e ouvir ao vivo e a cores; até lá, o Leonard será presença um bocadinho constante neste blog, porque também estará muito constante nos meus pensamentos). Adiante. Ouvi uma versão horripilante do Aleluia por uma cidadã que vim a descobrir ser uma tal Alexandra Burke; esta Alexandra é uma nacional-cançonetista que resulta de um cruzamento de Rhiannas, Cristinas Aguileras, Mariahs Careys e outras que tais. Decidiu a Alexandra, então, cantar alegremente o Aleluia de Leonard Cohen numas entoações de pop de plástico, meio R&B, meio foleirada, com muitos gritinhos e suspiros e arrebatamentos vocais para compor a canção. Deve ter achado que o Aleluia era uma composição um bocadinho simples, um bocadinho básica, e que as trezentas mil versões que já se fizeram da mesma música eram também um bocadinho simples, um bocadinho básicas, com poucos devaneios estridentes, ainda que afinados.
Resumindo: foi a coisa mais horrível que eu já ouvi, porque, além de ser uma versão feia, é uma versão que entristece e perturba. Uma Alexandra Burke a cantar Leonard Cohen? Além do L, não estou a ver o que mais têm em comum.
No entanto, o que realmente me fez reflectir não foi exactamente que alguém como a Alexandra cante alguém como o Leonard, mas antes o facto de alguém, quem quer que seja, se dar ao trabalho de entoar uma versão de uma canção que já conta com inúmeras versões prévias. Só de cabeça, sem sequer ir pesquisar ao Google, lembro-me de três artistas que cantaram Aleluia - Jeff Buckely, Rufus Wainwright e KD Lang. Assim só de cabeça. De certeza que haverá mais, e que não houvesse, estes já chegam e sobejam (gosto de dizer "sobejar" ao invés de "sobrar"). Qual é a piada, para um artista, ainda por cima recente e jovem, de ir bater outra vez no ceguinho e perder toda a réstia de originalidade ao escolher Aleluia, ou o Yesterday dos Beatles, ou o Downtown Train do Tom Waits, numa tentativa vã de afirmar que é uma pessoa com algum gosto?
Sei que no Facebook há um grupo que se chama qualquer coisa como "If I'm going to listen to anyone singing Aleluia, it'll be Leonard Cohen". Tem muita razão de ser. Aquilo que, quanto a mim, se procura numa banda nova, ou num artista novo, é precisamente isso, a novidade, uma forma nova e inaudita de dizer, ou cantar, qualquer coisa. Fazer uma versão de uma canção magnífica é ser perdedor logo à partida, porque o original nunca será superado. Mais vale fazer o que os Travis fizeram - uma versão boa de uma música má (Hit me baby one more time, da Britney Spears - eu gosto imenso desta versão, tanto mais que me faz sempre rir imenso). Ou então, puxar pela cabeça e investir num som novo, bonito, uma coisa que dê vontade de ouvir.
Mas a Alexandra é, com certeza, superior a todas estas pequenas considerações.


Baby One More Time - Travis

Este blog é para velhos


Tenho pensado na velhice, e deve-se este facto não à minha idade (apesar desta começar já a ser para o avançada), mas à constatação de que a juventude nunca me atraiu muito. Não tenho saudades nenhumas da adolescência, por exemplo, que para mim não passa da saída atordoada de um desconfortável casulo. É bem melhor viver livre e estender longas asas de borboleta fora do tal casulo (estou poética, hoje); também tenho pouquíssimas saudades dos vinte e picos anos, prolongamento da adolescência, em que ainda se vive com incertezas em relação a tudo e todos. É preciso chegar a uma certa idade para mandar a incerteza passear, acho eu, e é por isso que a velhice tem um carisma interessante. Quanto mais velho se é, mais coisas e mais pessoas podemos mandar passear, o que me parece extremamente conveniente e até atraente.
A juventude tal como é personificada em fáceis e rebeldes personagens do cinema, aka James Dean, não deixa de ter os seus aspectos sedutores. James Dean e seus sucedâneos são bonitos, não têm rugas, e encarnam uma certa liberdade incontida que talvez possa ser também designada por rebeldia. Gosto muito de rebeldes, com ou sem causa, mas prefiro, sem dúvida, o rebelde velho ao novo. O rebelde velho teve tempo para amadurecer a rebeldia no Fiat Punto; o rebelde novo estampa-se num Porsche prateado. A diferença é essa.
Esteticamente, a velhice também bate a juventude aos pontos porque, sejamos francos, rostos imberbes de sorriso perfeito como o Leonardo DiCaprio, que não consegue perder o ar de rapazinho de calções por mais papéis de polícia que faça, já deram o que tinham a dar. São chatos, entediantes, todos iguais, como os quadros do Andy Warhol. O mesmo não se poderá dizer de gente mais velha, com mais marcas e rugas na pele, sorrisos mais pesados, um olhar mais cheio. São mais feios, mas mais interessantes, como o Leonard Cohen, com quem eu casava já hoje se ele me pedisse.
O Sylvain Chomet, que fez Les Triplettes de Belleville, um filme de que gosto muitíssimo, explicou numa entrevista que tinha decidido que a sua protagonista fosse velha porque, como desenhador, lhe interessava muito mais o desafio das rugas, das manchas, dos cabelos brancos, do andar, enfim, das características físicas da velhice, do que a perfeição limpa da juventude. Gostei muitíssimo deste comentário.
Quem é jovem, que aproveite; a força e a criatividade da juventude são inegáveis. A velhice, porém, traz consigo uma determinada pinta, uma determinada coolness que é de apreciar (os exemplos óbvios de George Clooney, Cary Grant, Fanny Ardant, L. Cohen - nunca é demais reiterar o Leonard- e outros de que não me lembro, mostram bem isto). Inegavelmente.

A angústia da incompetência

Bem, quando uma pessoa se põe a "esquadrinhar" (isto existe?) o que já escreveu, a única coisa que sobressai é erro atrás de erro. Nos últimos dois minutos da minha vida, li dois textos deste blog e encontrei inúmeros erros, não ortográficos, felizmente, mas de concordância e preposições e quejandos.
Que pavor. Sinto com grande intensidade pavor semelhante quando leio a Tese, esse ente que paira na minha vida e que funciona como constante "lembrete" (outro belíssimo vocábulo) das minhas intransponíveis limitações. Não percebo por que é que as pessoas se lembram de escrever Teses. São baluartes permanentes de incompetência. Servem para as lermos passado um ror de anos e rir da nossa ingenuidade e ignorância.
A angústia, angústia.

terça-feira, 19 de maio de 2009

A menina sem qualidades e sem tempo

A mulher (prefiro "a menina) acorda, estremunhada.
São seis e meia da manhã. O Kafka disse que não há nada de mais degradante do que acordar cedo, e tem razão, aliás, até já escrevi isto no blog, pensa a mulher (prefiro "a menina").
Duche, a correr, cabelo, a correr, carinha, que se quer laroca na medida do possível, a correr, carro, a correr, portagens, a correr, trabalho, a correr, angústia enquanto o tempo se escoa e as coisas cada vez menos feitas, a correr, sentimento de frustração e de incompetência porque o tempo se escoa e as coisas cada vez menos feitas, a correr, carro, a correr, portagens, a correr, casa, a correr, iogurte e sandes de atum, a correr, novamente trabalho, a correr.
Blog, a correr.
Vida, a correr.
Pedir desculpa, a correr, quando tiver mais tempo e mais qualidades a mulher (prefiro "a menina") voltará, esperançosamente, à postagem diária, por enquanto, a correr, a postagem é episódica, o que não se quer de um blog, mas, a correr, é o melhor que a menina tem conseguido fazer embora sempre, a correr, com um grande gosto que isto de escrever, ainda que a correr, ainda que inconsequentemente, é, a correr, muitíssimo giro.
Esta altura do ano é sempre, sempre a correr, é o mundo todo a desabar nas costas da menina.
Chuif, chuif.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Deixai vir a mim as criancinhas, mas a cantar é que não





Motivada, talvez, pelos Contemporâneos de hoje, que gozaram com aquele programa inenarrável e tenebroso da TVI em que as criancinhas aparecem a cantar, decidi escrever sobre uma certa perspectiva que tenho sobre as ditas criancinhas, e que é: a culpa não é das ditas criancinhas, mas vê-las na televisão ou em filmes a fazer papel de queridinhas e engraçadinhas é das coisas mais terríveis que existe, e que dispensa os amorosos "inhos" que normalmente gostamos de usar quando falamos de crianças.



Elas, de facto, coitaditas, não têm culpa. Não têm culpa de ter pais e um país inteiro que acha que elas estão bem não a dormir e a descansar porque no outro dia têm escola, mas antes a fazer papel de macacos amestrados na televisão. Não têm culpa de que as pessoas achem muita gracinha à sua mãozinha na anca, a bambolearem-se ao som sofrível de músicas sofríveis, não têm culpa de que as pessoas gostem de as ver com o cabelo empastado em gel de poupa ridícula, não têm culpa que as pessoas se emocionem ao vê-las rebentar a garganta quando cantam bem, sendo que se considera que as crianças cantam tanto melhor quanto a sua voz se aproxima do timbre de um adulto, e que são um portento sempre que, artificialmente, o seu comportamento imita o dos adultos. É terrível e embaraçoso, ver este tipo de espectáculo, e por isso eu normalmente não vejo - não vejo Sequins d'Ouros, talvez o programa que mais abomino e me faz bocejar de pavor e tédio, não vejo a porcaria do programa dos miúdos a cantar na TVI, não vejo filmes com criancinhas queridinhas, em que se lhes exige bochechas coradas e bem areadas como cobre, olhos esbulhados e de preferência azuis, ou então um toque exótico e enternecedor, como o miúdo da Austrália (o filme), não ouço música cantada por criancinhas, nomeadamente aqueles da Kelly Family, que, a culpa com certeza também não era deles, mas eram assim um bocado para o mutante, cada um uma versão ligeiríssimamente diferente do outro, tipo o lábio descaído e a narigueta dos Habsburgo ou isso, primos a casar com primos, sei lá o que era aquilo. Até os próprios Von Trapp me estão a parecer, neste momento, muito tenebrosos. Mas enfim, para os Von Trapp terei de abrir uma excepção, porque se há filme que eu adoro desde pequena é o Música no Coração, e contra isso nada a fazer, ou pelo menos nada que eu queira fazer.



Enfim. Ver crianças exploradas desta maneira faz-me uma espécie avassaladora. Noutro dia, no café, estava a ler uma revista muitíssimo interessante e formativa que o café lá tinha. Esta revista tinha uma mini-entrevista com um pai de um desses miúdos da TVI. O pai reconhecia que o filho, ou a filha, ia ter de faltar à escola e às aulas em geral, mas ele contava com a compreensão dos professores. Claro que sim, é claro que qualquer professor compreenderá esta compreensível situação - entre estar na escola a tentar aprender, ou pelo menos a tentar passar de ano, e ir fazer de macaquinho à gala da TVI, todos sabemos o que é verdadeiramente importante para a criança. A criança não sabe o que é o melhor para a sua vida, não é? Tem de confiar nos pais, não é? E os pais dizem que não há nada de mal em deixar o miúdo divertir-se um bocado, ali com as câmaras e as luzes, e os fatos espampanantes e revistas e tudo a desfazer-se em lágrimas que o menino canta um fado que é uma coisa formidável. Perante isto, os professores compreendem, pois claro, que a escola fica reduzida a um pequeno grão de areia. Assim como assim, maior parte dos desempregados deste país são licenciados, escola para quê, não é? De certeza que os pais destas crianças têm isto em mente. De certeza que não são os 15 minutos de fama que eles querem para os filhos. De certeza que os expõem desta forma tão descarada porque estão a pensar no seu futuro, têm uma estratégia pensada, é a educação e a formação da criancinha que está em causa, com certeza que sim.




Ai, ai. Crianças deste país, não se deixem assim vestir. Ou que haja alguém (pelos vistos, e infelizmente, não os vossos pais) que tenha algum bom senso.

Considerações inúteis

Realmente, quanto menos se escreve, menos se tem para escrever. Os escritores dizem que a escrita é um trabalho como qualquer outro - é preciso prática e disciplina, que isso da musa inspiradora é fogo fátuo que rapidamente se desvanece e quase nunca se materializa, de modo que o melhor é não se contar com isso, e é também muito importante "não perder a mão". Com grande pena minha, não sou escritora, mas percebo o que os escritores querem dizer com isto, com a importância de não perder a mão.
Igualmente com grande pena minha, cheguei a um ponto em que nem tempo tenho para me coçar, como se costuma dizer, o que raramente me acontece. Costumo ter imenso tempo para fazer tudo, inclusivamente coçar-me quando assim é necessário, embora o faça às escondidas por considerar ser um gesto deselegante. Mas constato que tenho andado numa vida impossível de evitar, e numa azáfama que me faz perder tempo e disponibilidade mental, de modo que passo a maior parte dos dias entupida de coisas inúteis que preciso, porém, de resolver e que me impedem de vir aqui divertir-me e escrever.
De modo que me sinto uma tristeza, sempre com a cabeça a doer e embrenhada na azáfama.
Tenho ido pouco ao cinema, e noutro dia fui ao Corte Ingles e fiz outra constatação, que foi a de que não me apetecia verdadeiramente ver nenhum filme. Quer dizer, por razões estéticas, talvez o Wolverine, mas não consegui (e isto apesar da enormíssima tentação, que os bíceps do Wolverine e o sobrolho franzido e ar de mau funcionam como o cheiro a pão quente, quanto a mim), não consegui, dizia, dar dinheiro para ir ver o Wolverine. Não consegui. Talvez tenha preconceitos a mais, mas a verdade é esta. Fiquei surpresa por o Let the Right One In não estar nas salas (espero que não se tenha dado o caso de já ter até saído de sala sem eu sequer reparar), fiquei igualmente desapontada, e como também não posso dar dinheiro para ver o Anjos e Demónios e quejandos, fui-me embora. Mas como é que é possível não haver nenhum filme para eu ver?! O Corte Inglês não é uma má sala, até costumam ter uma selecção muito razoável.
Ai. De modo que este post confirma que, quanto menos se escreve, menos se tem para escrever.
Peço desculpa, isto ficou, como diriam os Gato Fedorento, mesmo fraquinho.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

À espera de Godot?

Uma vez, fui ver esta peça no CCB. Saí de lá muito deprimida. Pensei que a vida, de facto, era um absurdo sem fundo, e que, tal como os outros dois indivíduos especados no palco à espera, eu própria me encontrava a aguardar pelo tal Godot, que, ficara a saber, nunca por nunca chegaria. E que percebia, de facto, porque é que À Espera de Godot podia ser entendida como uma tragédia. Eu, que sempre pensei que a vida era uma espécie de início de festa à qual acabámos de chegar, e em que aguardamos ansiosamente pelo momento em que nos vamos começar a divertir, apenas para acabar tudo e ficarmos a olhar para os copos vazios e perceber que esse momento nunca chegou, eu, dizia, identifiquei-me um bocado com os dois indíviduos à espera de Godot.
Voltei a pensar no tal Godot esta manhã. Chovia, conseguia ouvir o barulho da chuva, e ao contrário do que as pessoas me dizem, não acho o som do matraquear da chuva nada reconfortante quando se está deitado, especialmente se se está em Maio e se vive em Portugal (qualquer dia, nem o clima é justificação de jeito para viver aqui). Fazia vento, também, e ouvia o vento uivante, como diriam as irmãs Brontë, e pensei que a última coisa que queria era levantar-me, a última coisa que queria era ir trabalhar, e também pensei que, se ao menos eu me levantasse e tivesse a garantia de que encontraria o Godot, ainda vá que não vá, mas levantar-me e ficar na mesma, sem encontrar o tal Godot, qual o sentido, porquê, para quê, porquê?!
De modo que estava um bocado deprimida. Talvez por ser segunda-feira, que, a par das terríveis terças-feiras, é dia que me provoca alergia. Mas enfim.
Depois, falei com uma alma amiga que discordou inteiramente da minha opinião depressiva sobre À Espera de Godot. Achou muito estranho eu ter ficado tão angustiada com a peça. "Não percebes que a peça é sobre o optimismo?" Não, realmente não percebo. "Sim, a peça é um aviso para tu levantares o rabo e ires à tua vida como entenderes, em vez de ficares feita parva à espera do Godot. O Godot é um idiota, e os outros ainda mais idiotas são por terem ficado à espera. Como é que não percebeste isso?!"
Realmente. Como é que eu não percebi. A verdade é que nunca tinha percebido, que o meu apego ao pessimismo impede-me de lobrigar certas evidências.
E, assim, talvez À Espera de Godot seja uma peça alegre, e, de cada vez que me lembro dela, deverei, quiçá, mandar o Godot, alegre e optimisticamente, à merda, que eu tenho mais do que fazer do que ficar à espera.
Mas e se qualquer dia chega o Godot e não me encontra, depois como é que é?

sexta-feira, 8 de maio de 2009

The Bonfire of the Vanities



Este livro é fabulosamente bom. Estou "maravilhada", como dizia o outro.


Passa-se na Nova Iorque dos anos 80, numa cidade que já não existe. Para já, o World Trade Center, ainda na glória das torres gémeas, a fervilhar de genuínos yuppies, na flor da idade e já a fazer milhões ao ano, a comprar apartamentos de 300 assoalhadas em Park Avenue; Nova Iorque é ainda uma cidade suja, oleosa, perigosa e insegura, onde tudo fora de Manhattan é um mar de crime e ilegalidade. Não conheço Nova Iorque, mas sei que já não é completamente assim - tornou-se numa das cidades mais seguras do mundo; zonas anteriormente marginais e sujas como Brooklyn e o Bronx tornam-se, cada vez mais, áreas "da moda", onde as rendas aumentam de ano para ano; até TriBeCa, que agora é uma zona toda in, é descrita neste livro como deprimente e esquálida. Enfim, qualquer um percebe bem que as coisas mudaram bastante desde os anos 80, e por isso podia afirmar-se que este Fogueira das Vaidades é um livro datado.


Mas não é. Arrepia ler o retrato incrivelmente bem escrito de uma ganância sem limites, de uma verdadeira máquina destinada pura e simplesmente a fazer dinheiro, onde o infeliz Sherman McCoy, uma das personagens mais importantes do livro, descobre com sofrimento, após uma década de glória como investment banker, não ser mais do que uma dispensável peça. Ele que pensava ser o dono do Universo... ooooh.


Nenhuma das personagens deste livro, nem o impecável Sherman McCoy de Park Avenue, nem o judeu complexado e procurador público Kramer, nem o pusilânime e bêbedo jornalista Peter Fallow, é boa pessoa. Nenhum ser ou entidade que povoa o mundo nova-iorquino apresenta qualquer réstia de moral, bons princípios ou o que quer que se pareça com altruísmo.


O que estou verdadeiramente a gostar é a forma como o narrador é tão duro com as personagens, como as desmascara sem piedade, até cruelmente, mas sem nunca perder o sentido de humor. As personagens são julgadas e castigadas porque o narrador goza literalmente com elas e desmascara o seu ridículo - é cruel, mas muitíssimo engraçado.


Vale muito a pena, este livrinho. Talvez escreva mais sobre ele quando acabar de ler. Quem já tiver visto o filme e pensar que o livro não presta por o filme ser execrável, saibam que não é verdade. Eu vi o filme há anos e detestei, e à partida não queria ler o livro, mas houve uma alma caridosa que me disse que, se não lesse, era parva. E ainda bem que mudei de ideias, pois este Bonfire of the Vanities é mesmo do melhor. Principalmente agora, nestes tempos de crise e de derrocada de bancos, seguradoras e quejandos guardiões do nosso capital, vale mesmo muito a pena ler este livro e perceber que não está assim tão datado.

O gosto dos outros


Como dizia John Cusack no filme Alta Fidelidade (gosto muito deste filmito), "what really matters is what you like, not what you are like". De certa forma, esta afirmação é muito verdadeira - quem conseguir casar com alguém que ouve Britney Spears, ponha o dedo no ar. Ninguém põe, não é? Pois é...
Bom, partindo, então, do princípio (superficial, fútil, eu sei...) que esta afirmação de John Cusack é certa, os gostos das pessoas dizem muito daquilo que elas são. Acho que todos, de uma forma ou de outra, sentimos sempre a pressão para gostar das coisas certas e evitar que o mundo descubra os nossos terríveis "guilty pleasures", como, precisamente, gostar da Britney Spears (devo confessar que gosto muito da versão acústica que os Travis fizeram de "Hit me baby one more time"; gosto mesmo). Temos muita vergonha de admitir que o nosso filme preferido não é propriamente a Laranja Mecânica, é mais o Desafio Total.

Gosto das pessoas que não têm este tipo de vergonhas. Por exemplo, há uma querida, querida amiga minha que tanto gosta de Lady Gaga como de Alicia Keys, como de Tom Waits e de Ute Lemper. Lê o Arthur Miller e muda para o Código Da Vinci sem problema nenhum, sabendo muito bem distinguir uma coisa da outra, e sem quaisquer preconceitos intelectuais. Gosto desta atitude, porque me parece livre daquela arrogância constrangedora de quem, talvez por insegurança, tem medo de fazer figura de estúpido só por, de vez em quando, chafurdar na cultura pop.
Mas enfim, cada um é que sabe de si, como se costuma dizer; no entanto, há pessoas que, não sendo muito elevadas nem muito popularuchas, se tornam extremamente chatas e aborrecidas ao querer convictamente convencer os outros da sua grande inteligência, e que têm a mania de que são espertas e requintadas por, em vez de Britney Spears, ouvirem, talvez, uma Nora Jones. São as pessoas-Tom-Hanks, e era aqui que eu queria chegar (finalmente, depois de tanta conversa inútil, consegui). Gostar de Tom Hanks é a mesma coisa que tentar saborear um pão sem sal. O Tom Hanks é aquele tipo de actor que é pau para toda a obra. Faz tudo relativamente bem, ou até muito bem, sempre com uma competênciazinha certinha, limpinha, deslavadinha, sem nunca chegar ao arrebatador. É aquele actor de que as pessoas que estão no meio, que ouvem Nora Jones apenas porque ouvir Britney Spears dá mau aspecto, gostam, porque tudo o que seja insípido e inofensivo, elas acham automaticamente que é muito bom.

Há uma diferença entre a competênciazinha e o ser bom. E essa diferença não está no Tom Hanks. De modo que, quando conhecemos alguém que diz que tem por actor preferido o Tom Hanks, aquilo que a mesma pessoa nos transmite é, inevitavelmente, um imenso tédio. O melhor que se consegue arranjar, com toda a panóplia de actores e actrizes que andam por aí, é o limpinho Tom Hanks? Não é grande esforço. Há que ir mais ao cinema.

E aqui concluo os meus 15 minutos de intensa explanação dos meus respeitáveis preconceitos sobre o gosto dos outros.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

These are a few of my favourite things

Estes são dois dos meus vídeos preferidos do YouTube.
Gosto muito do trailer do Lost, que já é antigo mas tem um estilo incontornável e inegável, e uma impecabilíssima canção dos Portishead (é que é mesmo irrepreensível, adoro a canção, é a minha preferida). Além disso, também gosto muito do Lost. Dentro do Lost, o que eu prefiro é o Sahid. Disseram-me que ela já saiu da série, ou vai sair. Quando o Sahid sair, eu deixo de ver.
Gosto muito do Rei, também, e acho que ele está o máximo aqui no clip - kitsch a valer, como diria Dâmaso Salsede dos grandes Maias, que é o meu livro preferido.




Não acho bem


Há uma coisa que eu faço bem na vida, e que é: empatar tempo. Por exemplo, neste preciso momento, a Tese grita por mim, e eu respondo-lhe, "agora espera, que eu estou no blog". No outro dia, estava também a Tese a gritar desalmadamente por mim, e eu gritei-lhe de volta "agora espera, que eu estou a ver televisão". E de facto estava. Acontece que o programa a que eu assistia (foi só uma vez, e mesmo assim é uma grande vergonha) era sobre um gordo chamado Jim, e era daquelas sit-com americanas sem salvação possível e, pior, sem graça absolutamente nenhuma. Nesta série, este Jim é casado com uma loura toda gira e bimba (a mesma do Melrose Place - sim, eu tenho boa memória, e uma gravíssima tendência para má televisão americana), que passa a vida em casa, enquanto ele vai trabalhar. No episódio que eu vi, a loura acusava-o de não lhe prestar atenção nenhuma, de não a conhecer suficientemente bem, etc. E que exemplo é que ela arranja para ilustrar o facto de o marido não querer saber dela? Decide perguntar-lhe se ele sabe qual é a sua banda preferida. Ele diz que não, ou então dá uma resposta qualquer errada. Ela amua e diz, "são os Beatles, vês, tu não sabes!".

Acontece que este tipo de incidentes é um tanto ou quanto ofensivo para as pessoas que gostam e ouvem os Beatles. Por um lado, sabe-se que os Beatles são universais, e à partida toda a gente gosta deles. Isto é saudável e positivo. Por outro lado, ver o nome dos Beatles assim achincalhado como o tipo de banda que se presta a ser mencionada numa sit-com fraquinha e pobre de espírito, custa um bocadinho. Os Beatles tornaram-se tão universais que, sempre que alguém quer dar um exemplo de uma banda qualquer, escolhe-os a eles, não por serem bons, mas, provavelmente, por serem conhecidos e "clássicos" - quase banais, quando a discografia dos Beatles mostra claramente que banais é coisa que nunca foram.

Disseram-me noutro dia que os Portishead, no auge da sua popularidade, se chegaram a queixar devido ao facto de toda a gente ouvir a sua música, que se assemelhava, por se ter tornado de tal forma "moda", a música de elevador. Não sei se é verdade e se os Portishead se queixaram de facto, mas, assumindo que sim, por um lado acho que é uma atitude de terrível estupidez (querem vender discos ou não?), por outro até percebo. Se o artista que é bom artista se esforça por fazer um trabalho com dignidade, é natural que não o queira ver devassado. Talvez os Portishead estivessem a reagir a isso, ao facto de não verem o seu trabalho respeitado, não sei. De qualquer forma, a questão é semelhante ao caso dos Beatles. É bom serem tão universais e saber que o mundo reconhece o seu génio. Mas banalizá-los por dá cá aquela palha e porem uma pobre de espírito na televisão a dizer que os Beatles são a sua banda favorita (como quem diz Abba, por exemplo), é uma coisa que uma pessoa como eu, que claramente não tem mais nada em que pensar e que se ocupa destes preciosismo, acha mal.

Respeito pelos Fab Four, é só isso que eu peço.

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Cunhado

Um breve post para indagar, e também para me interrogar, sobre a condição de "cunhado". Não sei porquê, mas a mim um "cunhado" faz-me sempre lembrar alguém da máfia, do estilo "eu e o meu cunhado temos aí um negociozito de lavagem de dinheiro que está a correr muito bem; vamos expandir para offshore e isso". Não consigo imaginar um outro membro da "família" que não seja o cunhado para se ter um honesto e lucrativo negócio de lavandaria.

Um outro facto que constato é que os cunhados são um tanto ou quanto omnipresentes. As pessoas dizem muito "estava a falar com o meu cunhado e ele disse-me que isso é mentira", ou "tenho um cunhado que foi de férias a Cuba e não gostou nada daquilo, que ele é do PP", ou ainda "nesta fotografia estou eu, os meus filhos, a minha irmã e o meu cunhado, que trabalha no stand da Seat".

Para mim, os cunhados são personagens perfeitas ou dos Sopranos (o cunhado que vem de Itália para ajudar o Tony nos seus afazeres diários, chantagens, lavandarias, espancamentos e quejandos) ou das crónicas do Lobo Antunes (o cunhado a comer frango assado, de fato de treino no centro comercial e a mostrar fotografias de férias a Cuba, ou República Dominicana, ou sul de Espanha). Talvez isto se deva ao papel ambíguo e vago dos cunhados, que servem para dar paternidade aos nossos sobrinhos, e depois pairam sobre a família, vindos sabe-se lá de onde. A complicada patronímia de parentescos na língua portuguesa também não ajuda - sogra, sogro, genro, nora e finalmente cunhado, como seria de esperar.
Realmente, "cunhado". Quem é que teve ideia de inventar "cunhados"? Esta questão intriga-me. Quando tiver resposta, escrevo aqui no blog. Até lá, remeto-me ao silêncio, porque, seguindo Salvatore Rosa que está no post ali em baixo "fala melhor do que o silêncio, ou então cala-te".

quinta-feira, 30 de abril de 2009

La Haine, aka: Personagens literárias detestáveis


Realmente, há personagens (prefiro mesmo chamar-lhes pessoas) insuportáveis, odiosas, venenosas e terríveis. Personagens que povoam livros que adoramos e que nos põem o sistema nervoso acelerado, o coração a bater de raiva, de tão efectivamente más que são. Ou então, são apenas personagenzinhas deslavadas, coitadinhas, anódinas, que se tornam também insuportáveis por isso, pela sua desavergonhada falta de carisma.

Tenho uma relação amor-ódio com algumas destas personagens porque, se por um lado as detesto, por outro sei que a sua força odiosa é tão grande que vale a pena ler um livro só por causa disso, por causa deste poder envenenado. Aqui vai a listinha das personagens que me vêm imediatamente à cabeça por serem tão terríveis:


Daisy, Great Gatsby - esta Daisy teria sempre de encabeçar a minha lista. Adorando o Great Gatsby (livro e personagem), e simpatizando com este "poor son-of-a-bitch", detesto esta Daisy, pusilânime, obtusa, vaidosa, egocêntrica, manipuladora, falsamente frágil, egoísta, fraca, preguiçosa, burguesa, injustamente opulenta e confortável, que vive a vida tratando o pobre e querido Gatsby como um objecto pessoal. O problema não era Gatsby ser pobre, o problema é que a Daisy não estava para ter trabalho a apaixonar-se por ele, nem por ninguém, aliás.

No entanto, a Daisy serve para uma coisa, e que é revelar o talento de Fitzgerald, que descreve a intensidade subtil das suas personagens magistralmente. Mas a Daisy não deixa de ser uma indesculpável e terrível bitch, na minha opinião, e ainda por cima sob uma capa de inocência e docilidade terrivelmente cruel.

Vou passar à próxima personagem, que esta Daisy deixa-me alterada.


Frodo, Senhor dos Anéis - coitado do Frodo. Ele não é propriamente uma personagem que valha a pena "odiar", porque é demasiado bonzinho para isso, mas é tão deslavado que enerva um bocadinho. Não posso falar muito, porque li apenas o primeiro livro desta trilogia, e com muito esforço. Não sou grande fã do Senhor dos Anéis; no entanto, percebi rapidamente que o tal Aragon é que é o herói interessante, ao passo que Frodo é aquele tipo de personagem semelhante à falsa heroína do Psycho, que morre nos primeiros 15 minutos do filme e não interessa para nada, defraudando o público, que pensa que o filme vai ser sobre ela e que, portanto, ela não poderá morrer. O Frodo é a mesma coisa, a diferença é que ele nunca morre, anda sempre a palmilhar a Terra do Nunca ou Middle Earth ou lá como aquilo se chamava para destruir o anel, mas a gente esquece-se dele à mesma. Como personagem, sempre me enervou o Frodo ser tão fraquinho. Justiça seja feita ao filme, pelo menos acertaram com o actor para desempenhar este papel. Não imagino actor mais mole, mais irritantemente ingénuo, e mais anódino do que Elijah Wood, com os seus esbugalhados e fofinhos olhos azuis. É um ponto a favor do filme, terem conseguido um tão belo actor que respeita tanto a personagem, lá isso é verdade.


Juliana, Primo Basílio - sem comentários, não é? Uma das razões para O Primo Basílio ser, dos livros do Eça, o que menos vezes li prende-se precisamente com esta terrível e chantageadora Juliana, a criada malévola, viperina, biliosa, verde de inveja, poço de fel. A partir do momento em que a Juliana apanha as cartas da pobre Luísa (mas também, esta burguesinha arrasada de romance não devia estar a pensar bem, enviar cartas de amor adúltero pela criada!), deixo de conseguir ler o livro. Fico cheia de pena da Luísa e a tremer de raiva contra a velha, feia, insolente Juliana. Odiosa, sem dúvida.


Mrs Danvers, Rebecca - gosto muitíssimo deste livro. Li-o quando era pequena, e nessa altura a Rebecca tinha tudo o que eu queria numa história - amores, desamores, traições, muito mistério, e acima de tudo Inglaterra. Bastava-me. Bom, mas esta Mrs Danvers, a personificação da temível, omnipresente e até omnisciente governanta, é aterradora. Uma imutável e empedernida bruxa. É uma personagem estranha, próxima de um fantasma, e, na minha opinião, tão triste que se torna maléfica. A figura da governanta, de facto, tem muito que se lhe diga. Hei-de escrever sobre isso um dia, sem me esquecer das minhas queridas Brontë, que ganhavam a vida nessa actividade, e bem lhes custava. Mas, para rematar, esta Mrs Danvers é o azedume e a maldade em pessoa. Só por ela, vale a pena ler o livro.
E chego novamente à conclusão de que estas personagens maléficas, que odiamos, são realmente muito interessantes. O que seria da literatura sem elas, é a questão que eu levanto.

Silêncio


Cheguei à conclusão de que a filosofia de café, ou filosofia barata, é das piores coisas da vida. É que é insuportável.

Não gosto muito de verdades. Não gosto muito de textos e pessoas que se levam tão a sério que pensam que têm que dizer verdades em sentenças e aforismos, e abençoar-nos com a sua inteligência.

O Kierkegaard, por exemplo, disse o que tinha a dizer sem chatear ninguém e sem assumir aquele tom sentencioso das pessoas que pensam que têm verdades para dizer. As verdades não servem para nada, e da verdade dos outros não preciso - pelo menos, não me parece.

Estou como Salvatore Rosa, neste auto-retrato de que gosto muitíssimo, em que o pintor mostra uma nota com o seguinte dizer - "reduz-te ao silêncio, a não ser que fales melhor de que o silêncio".

(isto também se aplica a mim e aqui ao bloguezito, eu sei, mas pronto, vivo com isso; além disso, também eu me calarei, qualquer dia).

Nota mental: habituar-me ao Facebook, habituar-me ao Facebook, habituar-me ao Facebook

Decididamente, não sou uma pessoa que deva estar no Facebook.
Não percebo para que é que aquilo serve, nem o que lá deverei escrever, nem se hei-de comentar no chamado "wall" dos outros, nem nada. Até agora, o que fiz foi aqueles quizzes paravalhões e pus os resultados no meu wall, com uns comentários meio idiotas. Pronto.
Prefiro ver os meus amigos a cores e ao vivo.
Prefiro ver os meus amigos que infelizmente estão longe também a cores e ao vivo, ou então mando um email e eles depois respondem. Não preciso do feisbuk.
O Facebook faz-me sentir uma Oliver Twist. O Oliver Twist olhava para os meninos à lareira, a comer frango assado, e ele ali a espreitar à janela, triste; eu, no Facebook, sou a mesma coisa. Ponho-me a olhar à janela para o facebook dos outros, com as suas fotografias, a sua repleta vida onde as coisas acontecem minuto a minuto, e eu ali especada, a ver. O Facebook está pensado para as pessoas se sentirem mal com a vida, para depois andarem a arranjar muitos amigos e conseguirem ter 528 amigos e dormirem descansadas, pois isso quer dizer que são boas pessoas.
Eu sou uma péssima pessoa, e por isso o Facebook não é para mim, e, tal como o Oliver Twist, vou espreitar à janela dos outros e ver os seus belos profiles no Facebook, e eu sem saber o que fazer ao meu, e a bílis cresce, e cresce, e cresce!
Não é saudável.

Gaja que devia fazer o meu estilo mas não faz: Tori Amos


Não gosto nada dela. Não tenho nada contra, mas não gosto.

A razão é clara: esta Tori fez um disco de covers, ou pelo menos fez muitas covers de muitas músicas de que eu gosto, cada uma pior que a outra. É que, ainda por cima, ela cobriu mesmo muitos indivíduos de quem gosto muitíssimo a sério, nomeadamente Leonard Cohen, Lloyd Cole e Purple Rain, do Prince (canção e não indivíduo, neste caso).

Famous Blue Raincoat, do grande e bonito Leonard, transforma-se numa coisa monótona e entediante na voz da Tori. Mesmo chata. O grande e bonito Leonard consegue aguentar a monotonia com aquela voz por vezes monocórdica, mas ele fá-lo bem; faz parte da música, não é aborrecido. Agora a Tori, meu Deus, que seca.

Quanto a Purple Rain, o grito final, que é a parte que eu mais gosto da canção, torna-se num miar de gato um tanto ou quanto insuportável na voz desta senhora, o que é uma imensa desilusão. Quando ouvi a versão de Purple Rain da Tori Amos, pensei que fosse uma brincadeira, de tão má a achei. A seca do costume, tudo muito paradinho e piano deslavado, e depois um miar de gato no fim. Mas no que é que ela estava a pensar?! Assassinar assim estas grandes músicas, sem respeito nenhum?

Isto levou-me a concluir que a Tori não sabe os seus limites, pois, se os soubesse, mostrava algum respeito, e pensava, "espera, eu antes de me pôr a cantar L. Cohen, vou ver se sou boa o suficiente para o fazer, de modo a conseguir uma cover original e bonita; antes de me pôr a cantar Purple Rain, vou ver se consigo uma versão bonita do fabuloso grito final"; mas não. Cantou e pronto.

Grande desilusão.

Não faz o meu estilo. Dou-lhe pontos pelo cabelo impecável, mas fico por aqui. De qualquer modo, deixo a tal versão do Prince, pode ser que alguém goste e que me faça mudar de opinião.







Tori Amos - Purple Rain (Live Prince Cover).mp3 -

Mad about the Boy (ou: não se deve sentir pena)


E como eu estava a dizer, o filme Sunset Boulevard é dos meus preferidos. Neste filme, uma velha e decadente actriz, Norma Desmond, aka Gloria Swanson as herself, uma pobre criatura bela e esquecida, deselegante e demente na sua velhice precoce, apaixona-se por um inútil, no entanto jovem, escritor. Este último não tem grande paciência para a fragilíssima Norma, mas vê-se reduzido à evidência de ter de a aturar, uma vez que nem dinheiro tem para pagar a renda e "gasoil" para o carro, ao passo que a actriz tem dinheiro a jorros, e não se importa nada de lhe pagar tudo e mais alguma coisa. De modo que o escritor passa a ser propriedade de Norma, que remédio tem ele. Ora, a Norma não se apercebe disto - como passa a vida sozinha e louca, aparece-lhe um jovem no fulgor da idade e ela deslumbra-se e arrebata-se. Compra-lhe tudo para lhe demonstrar o seu amor, e a certa altura oferece-lhe uma pequena cigarreira (é assim que se diz "caixa para guardar cigarros"?) de prata, oferecida por Cole Porter, com a seguinte inscrição: Mad About the Boy (que é, diga-se, uma canção de Cole Porter, que a Billie Holliday até cantou - cantou, não cantou? Acho que sim).

Bom. Esta oferta da cigarreira não é terrivelmente importante no filme, mas eu acho que quer dizer muita coisa. O amor desta Norma foi completamente desperdiçado no jovem escritor, que não a suporta, apesar de não ser má pessoa. Quando a Norma lhe dá a cigarreira, com a declaração de amor "Mad About the Boy", é quase uma humilhação. É daqueles momentos do filme que eu vejo e não consigo evitar ficar envergonhada pela Norma. Sinto-me mesmo mal.

Isto faz-me pensar que o amor, de facto, é um sentimento terrível. Se é recíproco, belas e queridas confissões como "Mad about the Boy", I love you e quejandos enchem-nos de alegria, de uma felicidade profundíssima, inacreditável. Mas alguém a quem não conseguimos corresponder vem com estas coisas, Mad about the Boy, I love you e quejandos, e sentimo-nos tão mal, tão envergonhados, não por nós, mas pelo outro - quase com pena. Sentir pena de alguém é uma coisa abjecta, é o pior sentimento que se pode ter, pior que o ódio, acho eu. Acho que não odeio ninguém, mas entre odiar alguém e ter pena, preferia odiar.

E, portanto, quando a Norma oferece o tal Mad About the Boy inscrito na linda cigarreira de prata ao escritor que não quer saber dela, sentimos pena da pobre actriz. Aliás, o filme está muito bem conseguido porque, entre outras coisas, o espectador apercebe-se perfeitamente de que aquilo que o tal escritor sente por Norma não é nada mais do que pena, pena, pena, apenas acentuada com presentes e dinheiro e cigarreiras e Coles Porters.

Grande filme, Sunset Boulevard. Espero nunca sentir pena de ninguém. Batam-me na cabeça se isso acontecer.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

A importancia dos acentos

Nao posso escrever muito, porque nao tenho um teclado decente, e nao gosto de escrever sem acentos, de modo que serei breve. Mas o que sei, o que sei de facto, 'e que o meu querido Leonard Cohen sera muitissimo apreciado por mim em Julho, no Pavilhao Atlantico, o que me enche de grande alegria. Nao sera muito intimista, mas Leonard Cohen 'e Leonard Cohen, o Trovador absoluto, o poeta, o grande.
E tambem dizer que cheguei a conclusao de que nao gosto nada de Cole Porter, e que no filme Sunset Boulevard a actriz demente, Gloria Swanson, oferece ao seu toy boy uma caixa para cigarros (esqueci-me do nome) com 'Mad about the boy' inscrito na prata, o que 'e piroso e pouco proprio, e se calhar era por isso que o toy boy nao gostava nada da Gloria e queria apenas o dinheiro dela. To be continued, at a later stage, quando voltar ao esplendor do meu teclado portugues.

quarta-feira, 15 de abril de 2009

This is the end, of everything that stands, the end!

O fim das coisas, a mudança, enervam-me. Não lido nada bem com a mudança, especialmente se é para as coisas acabarem. Por exemplo, se estou na minha actividade preferida, que é tomar café, e se tenho a companhia de alguém, estou sempre a arranjar desculpas para a pessoa não se ir embora. A pessoa diz-me, imaginemos:

- Olha, gostei muito deste bocadinho, mas agora tenho de me ir embora.

E vou eu:

- Ah, e logo agora que eu tinha uma coisa importantíssima para discutir contigo!

- Ah, sim, o que era?

- Então, era aquilo, aquela coisa.

- Então mas é o quê? Não pode ficar para a próxima?

- Quer dizer, pode, mas ... era melhor ser agora.

- Oh pá, então mas é urgente? (olha para o relógio)

- Quer dizer, urgente não é... não é caso de vida ou morte, mas é muito importante (faço cara de preocupada, torço o nariz, assim como quem diz, 'se quiseres ir embora, vai, mas olha que o problema é teu')

- Pronto, diz lá.

- Olha, já que vais ficar mais um bocadinho, não queres pedir mais um cafezinho?

E pronto, já são mais dez minutinhos ali empatados e, se eu conseguir ser extra-eficiente naquilo que faço e arranjar tema de conversa interessante, ficamos ali mais uma meia-hora, mas é.
Isto tudo para dizer que há montes de blogues de que eu gosto a acabar. O Nascer do Sol, o blog onde me aventurei nestas andanças blogosféricas, também acabou. Maior parte dos blogues que eu aqui tenho linkados acabaram. Está bonito. Qualquer dia, não tenho nada para ler aqui na blogoesfera e não vale a pena ter um blog, porque não há reciprocidade.
Que chatice, pá. Detesto quando as coisas acabam. Mania de andar a ouvir Doors e aquela música toda cool do "The End" e tal, e depois dá nisto.
Não estou muito bem-disposta.

terça-feira, 14 de abril de 2009

Considerações sobre o guarda-chuva


A Inglaterra é um país de belíssimas contradições. Por um lado, em Londres, às 10 da noite, não há sítio para jantar, ou por outra, haver, há, mas a pessoa tem de se contentar com um hamburguer, ou um "kebab" a puxar ao manhoso. Por outro lado, caso nos aconteça qualquer coisa inesperada aos dentes, podemos sempre ir a uma clínica "24 hour dental care emergency clinic", a qualquer hora do dia ou da noite. Imaginemos que andamos à bulha e ficamos sem o dente da frente, por exemplo; não temos que nos preocupar, porque há quem nos resolva o problema, de modo que em Londres, uma coisa que já deixou de me incomodar é andar à batatada. Agora, comidinha da boa para acalentar o estômago se nos atrasamos e falhamos a hora sagrada do jantar às seis da tarde, isso é que é uma tragédia.
No entanto, há que louvar os ingleses. Chove a cântaros e por aí andam eles, nos seus intermináveis e verdes parques, no jogging ou a passear os cães. Nada da paranóia com guarda-chuvas como em Portugal. Os portugueses, aliás, têm uma relação com o seu guarda-chuva como nunca se viu. Cai um pinguinho e lá estamos nós, afincadamente a abrir os nossos grandes chapéus, orgulhosamente desafiando a bátega. Quem não tem guarda-chuva e se molha que nem um pinto, como a mim me aconteceu no outro dia, é olhado de lado. Vai ao café e toda a gente nos trata como um pobre sem-abrigo. Basta, até, o dia estar um bocadinho mais cinzento, e lá saem os portugueses, sempre tão prevenidos e pessimistas, a arrastar o guarda-chuva, a pedir, até, que chova, para que a sua prevenção seja compensada. No fundo, o nosso amor ao guarda-chuva é sinal inequívoco do nosso inamovível pessimismo - dia cinzento, chove de certeza.

Mas os ingleses, não. Desprezam chapéus de chuva. A chuva, para eles, não quer dizer nada. A nós, mete-nos medo. A eles, não. São mais bem dispostos.

Povo interessante.

quinta-feira, 9 de abril de 2009

A competência cansa

Será que vale a pena perder tempo com coisas que são meramente "competentes"? Lembrei-me disto por dois motivos:

1) este post do LB n'O Nascer do Sol, em que designa, e quanto a mim bem, porque concordo inteiramente, The Dying Animal, de Philip Roth, como meramente competente (e por isso, limitado)

2) programa acerca dos melhores álbuns de sempre (isto é, desde 1981, desde que se criou a MTV) que passou ontem, precisamente, na MTV (pois é, eu sou daquelas pessoas que, no que à televisão respeita, tem um gosto muitíssimo apurado e intelectual). A discussão foi muito fraquinha, mas pronto, eu tenho tendência para gostar destes countdowns e para gostar também de ouvir gente a discutir música, ainda que a discussão seja sofrível.

Ora, muitos dos discos que foram mencionados neste programa não eram propriamente maus, mas meramente competentes, isto é, bem feitos, bem produzidos, bons músicos, cançõezinhas sólidas, letras profundas q.b., mas sem rasgos de brilhantismo. Eu aceito perfeitamente que me digam, "ah, mas nem tudo tem de ser brilhante, brilhantes só os Beatles, os outros fazem o que podem e já não é mau". Eu aceito este argumento. No entanto, a "competência" é uma qualidade nefasta, porque, não sendo a mediocridade, é extremamente entediante. Eu, sinceramente, não sei se prefiro odiar uma coisa por ser medíocre, ou encher-me de tédio com algo que é "competente". Se calhar até prefiro odiar, mas isso sou eu, que sou má pessoa. Admito que não seja assim com toda a gente.

Voltando à questão da competência. Os discos que se discutiram neste programa da MTV, que vale o que vale, não eram maus - Joshua Tree dos U2, Automatic for the People, dos REM. Mas também não são bons-bons-bons, não têm grandes rasgos de brilhantismo, pois não? São competentes, pronto. São discos feitos para o comum dos mortais ouvir e pensar, "ora aqui está música como deve ser, nem muito avant-garde, nem muito pimba, mesmo na medida certa". Pelo menos, é o que me parece, e peço desculpa desde já se estou a ofender alguém, porque sei que há acérrimos seguidores de U2, e de REM também, e que estas bandas têm grande reputação e tal e coisa, mas enfim, não consigo escapar a este sentimento de que a competência é chata, fria, mecânica. Se compararmos Joshua Tree e Automatic... com outros álbuns mencionados no programa, por exemplo Thriller ou Purple Rain, podemos dizer que estes últimos são melhores do que os primeiros? Provavelmene, não. Mas o Thriller e o Purple Rain, talvez por serem menos perfeitos, mais pirosos, mais estridentes e garridos, têm algumas pérolas que ficam connosco e que gostamos de voltar a ouvir, ao passo que coisas como With or Without You, All I want is you ou Night Swimming (esta, em particular, é muito bonitinha) são lindas, perfeitinhas, sem dúvida alguma, mas e depois? A única coisa que me ocorre fazer depois de apreciar a audição destas três músicas, que dou aqui a título de exemplo, e das quais gosto, é encolher os ombros; aquilo que me apetece fazer depois de ouvir o Purple Rain do Prince, por exemplo, é voltar a ouvir aquele grito que ele dá no fim a acompanhar o solo de guitarra. Está giro, o que é que eu hei-de fazer.

O mesmo se passa com certos escritores, ou com certos livros. Há certos livros meramente competentes, que lemos, reconhecemos a (eventualmente grande) qualidade, mas acaba ali. Só me consigo lembrar do Dying Animal que o Lourenço refere no Nascer do Sol, mas há outros, com certeza, tipo Lídia Jorge ou isso. Bonitinho, arranjadinho, sim senhora, mas às vezes a grande marca da imperfeição é que dá o interesse , o "drama", à vida.

Já alguém escreveu sobre a beleza da imperfeição. Não me consigo lembrar quem, o quê. Mas quem quer que seja, concordo com ele/ela. A imperfeição consegue ser uma coisa muito bonita.

terça-feira, 7 de abril de 2009

One, two, Freddy's coming for you


Venho por este meio dar conta, denunciar, até, a discriminação de que sou alvo por gostar muito de filmes de terror. Vou "elencar" (palavra maravilhosa) os focos discriminatórios que todos os dias me atingem:

- insultos constantes ao meu gosto cinematográfico ("um nojo", é o que me dizem)

- isolamento social como se fosse leprosa (nunca ninguém quer vir ao cinema comigo para ver um filmito de terror; nunca ninguém toca à minha campainha para me acompanhar num DVDzito)

- olhares paternalistas e sobranceiros quando se fala de filmes ("pois, o filme é muito mau, mas a Rita gostou porque ela gosta de gore, ela tem este mau gosto, ela é horrível, nem sei como é que sou amiga/o dela, pensando bem, vou deixar de ser")

- conselhos constantes, que eu não pedi, sobre como me tornar melhor cidadã, passando todos eles por deixar de gostar do chamado gore (do qual, aliás, não gosto assim tanto).

E por aí fora. Podia elencar mais coisas, mas não o vou fazer. Elencar cansa. Queria só uma desculpa para voltar a usar "elencar". É uma palavra curiosa, "elencar". Tinha um professor que dizia que "elencar" e "no que concerne" nunca se deviam usar por serem muitíssimo pirosos.

Mas voltando ao tema aqui do post. Segundo tenho observado, há um grande preconceito contra o género do terror por parte de muitas pessoas que gostam de cinema, e arrisco-me a dizer que será porque a maioria dos filmes de terror a que temos acesso não prestarem, de facto. E quando digo que não prestam não é pelo sangue a jorros, pelos gritos, pelos esgares desvairados, pelo gore (isto pode fazer parte do filme, e não o torna mau, quanto a mim); não prestam porque são estúpidos, têm maus actores e histórias paupérrimas. Mas o bom cinema de terror, aquele que, além do gore, do sangue e dos gritos (e não "apesar" do gore, do sangue e dos gritos), consegue provocar um medo avassalador, é do melhor que há. É difícil conseguir uma ficção que provoque medo. Eu, pelo menos, acho que deve ser muito difícil conseguir que a audiência (o espectador, e também o leitor) sinta verdadeiramente medo (não estou a falar de uns quantos sustos aqui e ali, que é o que a maioria dos Saws e restantes blockbusters de terror fazem; estou a falar dessa emoção mais profunda que é o medo). É relativamente mais fácil, no sentido em que é muito mais comum, conseguir a comoção e a ternura, mas o medo está a outro nível.

Não sendo, com muita pena minha, especialista em filmes de terror, aquilo que eu gosto neste género é a forma como nos faz lidar com o medo e com o obscuro de uma forma racional. Escrevi uma vez no Nascer do Sol que, por mais ridículo que pareça, um dos filmes mais educativos que vi quando era pequena foi o primeiro Pesadelo em Elm Street (não dormi uma semana; vi-o à socapa sem a minha mãe saber, claro, e paguei bem caro, e com muita insónia, o meu atrevimento), em que se descobre, no fim, que Freddy Krueger, o temível assassino calcinado, é uma ficção que só consegue espalhar o mal enquanto acreditarmos nele; se deixarmos de acreditar, ele deixa de existir e não nos pode fazer mal, isto é, quando percebemos que é tudo a fingir, ultrapassamos o medo. É por isso que gosto de sentir muito medo com filmes de terror e ver sempre mais e mais, num constante jogo de resistência, em que me obrigo a pensar "isto não existe, isto não existe". Assim, consigo aproveitar o filme, passar um bom bocado a vê-lo, e a ultrapassar os meus medos e fantasmas. Mais pedagógico que isto, não há.

Pais, deixem os vossos filhos ver filmes de terror, é o que tenho a dizer.

E pronto, é esta a minha clamorosa defesa do terror.

Criptonite


A minha relação com a comida não é pacífica porque, se por um lado adoro comer (tornar-me anoréctica ou bulímica é uma impossibilidade lógica), por outro detesto cozinhar e pensar, sequer, em comida para cozinhar. Tudo aquilo em que toco tem o efeito contrário ao toque de Midas - não reluz como ouro, mas torna-se, antes, numa massa deslavada e sem brilho. Sem qualquer gosto, por mais sal ou especiarias que acrescente. Tenho uma criptonite intrínseca no que a comida crua respeita, e uma capacidade tremenda para retirar, por artes mágicas, o sabor a qualquer especialidade culinária.

Ainda no outro dia, por exemplo, comi num restaurantezinho uma deliciosa e simples saladinha de espinafres, tomate e courgettes. Uma coisa simples mas que me soube muito bem. Pensei, "vou fazer isto em casa, afinal não há aqui nada que possa correr mal". Ai não que não havia. Primeiro, rodelas de courgette a mais, tantas que enjoavam. Depois, vinagre a mais; lembrei-me que seria muito bom exagerar no balsâmico, afinal é o vinagre da moda, e depois juntar pimenta e orégãos, de modo que o que resultou foi uma mistela de espinafre ensopado em vinagre, courgette carregada de coisas verdes acastanhadas que eram os orégãos também ensopados em vinagre, e os tomates igualmente em mísero estado. Não se aproveitou nada. As minhas mãos dão cabo até de uma simples salada.

Visto isto, estou absolutamente convencida de que possuo uma criptonite avassaladora, que afectará não só o Super-Homem, mas também a comida que tento cozinhar e, já agora, a tecnologia que tento usar, como já antes escrevi. Não é bom viver assim, sinto-me sempre tão limitada. Vejo as pessoas a comer bem, a viver melhor com os seus belos gadgets, os seus telemóveis, os seus Meos, os seus plasmas, os seus carros que não se estampam, e a exibir todas estas coisas como reconfortantes símbolos da sua integração na chamada "sociedade". Ora, eu sinto-me um tanto um quanto excluída, devido a esta tal criptonite que é uma barreira à minha interacção com a chamada "sociedade", não consigo cozinhar bem, todas as máquinas e maquinetas que tenho se estragam, não as sei pôr a funcionar, nunca estou informada dos planos dos telemóveis com chamadas mais baratas, ando sempre a pagar mais do que os outros por tudo, pelo menos é o que me dizem, e depois sinto-me mal, eu que devia estar sempre tão informada, tão informada como os outros todos.

Mas não estou. É assim, a vida é assim.

De modo que a minha conclusão de hoje é que eu percebo muito bem o Super-Homem, estou muito solidária com ele, e penso que é recíproco.

segunda-feira, 6 de abril de 2009

I grow old. I shall wear the bottom of my trousers rolled. - parte II


Hoje é segunda-feira, não é?

É.

A Páscoa está quase aí, e eu começo a perder a noção do tempo, e mais, como dizia o querido T.S., I grow old. I shall wear the bottom of my trousers rolled.

E ter um jardim e um cão e quem sabe crianças, que vão bem com o jardim e com o cão.

Fazer papa Cerelac e guisados, e quem sabe começar a gostar de ensopado de borrego.

De certeza que o querido TS pensou nisto tudo, quando escreveu I grow old. I shall wear the bottom of my trousers rolled.

Nisto tudo e muito mais.

As segundas-feiras custam tanto a passar.

sexta-feira, 3 de abril de 2009

João Gobern

Ouvi ontem uma entrevista a João Gobern na Radar, e gostei bastante, em primeiro lugar porque costumo gostar do que João Gobern diz (ouço afincadamente as suas crónicas na Antena 1, a não ser quando não estou acordada a essa hora, ou quando o João está doente, o que de vez em quando acontece, e eu percebo, porque se eu tivesse todos os dias de estar a produzir àquela infame hora matutina, também ficaria doente muitas vezes, quiçá todos os dias), e em segundo lugar porque, para não destoar, ontem concordei com tudo o que João Gobern disse na entrevista (a parte que ouvi; não ouvi até ao fim). Ao que mais prestei atenção foi quando se falou no desaparecimento do Sete e de como não tinha havido, até hoje, uma verdadeira tentativa de fazer sair um jornal equivalente, e mais, como até hoje nem sequer voltou a existir jornalismo daquele calibre em Portugal. João Gobern deu como exemplo uma edição temática do Sete sobre o terceiro Padrinho, em que esmiuçavam o filme de uma ponta à outra, faziam o historial das personagens mais ínfimas e dos actores todos, o seu papel no enredo e na família, etc. De facto, não sei de nenhuma publicação em Portugal que, hoje em dia, se desse ao trabalho de fazer isso, a não ser que publicasse um artigozinho traduzido e pronto a comer de uma outra revista estrangeira.

Em relação a cinema e música (não vou falar de livros; há a revista LER, o Jornal de Letras que, enfim, sempre são qualquer coisa), as publicações em Portugal são paupérrimas (a não ser que haja por aí uma que eu não conheço, o que admito ser possível), o que é uma tristeza. Adorava ter uma revista com boa investigação e, acima de tudo, bem escrita, acerca de filmes, bandas e música, uma revista que não tivesse medo de dizer mal quando é para dizer mal nem de dizer bem quando é para dizer bem, ao contrário do que em geral me parece acontecer com a crítica portuguesa, em que a gente já adivinha que filmes é que vão ter boas ou más críticas, e porquê, antes sequer de ir ler as ditas críticas. Depois, gostava de poder contar com uma publicação que se centrasse na sua própria investigação e conseguisse fazer reportagens autónomas de jeito, em vez de andar a traduzir coisas de revistas estrangeiras, o que se torna pior quando não se indica que é uma tradução, e se assume que o público português é estúpido, pouco exigente e não vai perceber. Isto entristece-me, porque gostava que, na imprensa portuguesa, houvesse debates engraçados, estimulantes e que nos fizessem saber mais sobre cinema, sobre música, sobre coisas que nos fazem bem e que alegram a nossa vida, e não há.

Talvez esteja a ser injusta, e ande por aí uma maravilhosa publicação que corresponda a todos os requisitos e muito mais. Talvez.

E, já agora, deixo um apelo à Radar (que, diga-se, em termos de estações de rádio, ainda bem que existe e que é uma verdadeira salvação) para pôr o Fala Com Ela com João Canijo em podcast, que quando passou não ouvi e queria tanto ouvir, tanto, tanto. Vejam lá isso, ó pessoal da Radar, se faz favor, obrigadinha.

Pilha Duracel


Vale muito, muito, muitíssimo a pena, este espectáculo, o que não surpreende, porque normalmente a Cornucópia arrasa. Só hoje descobri que A Tempestade sobe à cena no Teatro do Bairro Alto como parte de um ciclo apropriadamente chamado "A Caverna do Mágico" e convenientemente iniciado com a peça de Pirandello "Os Gigantes da Montanha", que também tive a sorte de ver, e que é um ciclo dedicado às relações da arte com a vida, ou à reflexão sobre o Teatro como forma de conhecer e transformar a realidade, como se explica no site da Cornucópia. Portanto, é aproveitar e ir ver, que é um grande espectáculo.

O que me deslumbra sempre é a maravilha do texto de Shakespeare. Dura, dura, e dura e não há tempo que consiga causar erosão, embora para isso também tenha ajudado a excelente tradução. A mim, pelo menos, pareceu-me muitíssimo boa, apesar de já ter lido A Tempestade há não sei quantos anos e não me lembrar bem do texto. Lembro-me, porém, que é um texto com deslumbres tais como o lindo "we are such stuff as dreams are made on" e o discurso final de Prospero, em que a ilusão do teatro e da ficção se confunde com a vida, e em que Prospero se dirige directamente à audiência, pedindo a redenção do aplauso, que acaba por servir os dois lados - As you from crimes would pardon'd be, let your indulgence set me free.

Resta-me averiguar a questão da Miranda, que na peça está muito ingenuazinha e pequenina, e eu tinha ideia de ser uma personagem mais intelectualmente forte, mais independente e conhecedora, na peça.

De resto, lin-do.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Já tenho muitos anos, que os fiz por Janeiro, madrinha casai-me com Leonard Gaiteiro


Penso, às vezes, numa coisa muitíssimo importante e realista que é: se tivesse de escolher entre Corto Maltese e Leonard Cohen, quem escolheria?

O meu homem de sonho é Corto Maltese, mas, por razões óbvias, não é o meu namorado de sonho.

O meu namorado de sonho é Leonard Cohen (e também homem de sonho a seguir ao Corto, mas, uma vez que o L. Cohen envelhece e o Corto não, enfim, o Corto aqui tem vantagem, não é, não posso fazer nada). Este homem é o meu namorado de sonho. Bonito (que dizer, não é propriamente bonito, o Leonard; é melhor ainda, diria eu, é o chamado "interessante"), inteligente, voz calma e profunda, canta bem, sensível, poeta, politicamente empenhado, do lado certo da história, bonito, de certeza que é bem-educado, bonito, já disse bonito, não já?

Tenho uma visão frequente, que é eu estar sentada no sofá e o L. Cohen à guitarra a compor canções para mim, a dizer que eu lhe dou chá e laranjas da China, a dizer que eu sou o Steve McQueen e ele é o Rin-Tin-Tin, porque rima e é engraçado, a perguntar-me "do you need to hold a leash to be a lady?", e eu a responder, "não!", a dar-me uma linda gabardina azul para eu vestir todos os dias em que chova. Que famosa gabardina (ou gabardine?) azul que o Leonard me daria.

O Leonard é um trovador. Nunca me vou recompor de ter perdido o seu concerto em Lisboa, nunca, nunca, nunca. Ainda nem o conheci, e já tenho o coração partido. Se calhar, não é bom sinal.










Hey, Thats No Way to Say Goodbye - Leonard Cohen

Bem.

As finanças agora contactam a gente (gosto de usar "a gente" como verdadeiro pronome em vez dos clíticos, acho muito cómico) por email.
Bem. Estou impressionadíssima. Também devem ter recebido um Magalhães, ah ah ah ah! Esta piada era mesmo só para mim, para gratificação pessoal, portanto quem ler, se fizer o favor de ignorar, eu agradeço.
A minha pergunta é: estes emails das finanças são para acreditar ou é treta? Quer dizer, a gente recebe um email, mas depois acontece qualquer coisa, vai-se à elegante repartição com uma cópia (um "print", como agora se diz) do email, e depois dizem-nos, "ah, não, nós não andamos aí a mandar emails para os contribuintes, acha que não temos mais nada para fazer, então recebe um email das finanças e acha mesmo, acha mesmo, vivendo em Portugal, que é para acreditar?!, deve estar a gozar comigo, bem podia ter arranjado desculpa menos esfarrapada, se faz favor vai abrir os cordões à bolsa e é já".
De modo que não sei. Recebi um email das finanças e, se por um lado estou tentada a acreditar, por outro também estou tentada a não o fazer. Tanta decisão, tão pouco tempo.
Mais alguém recebe emails das finanças, ou sou só eu?

A rapariga que não sabe contar histórias


O que eu queria fazer hoje aqui no blog era contar qualquer coisa, uma história, uma anedota, que fizesse rir. Que fizesse rir mesmo, que fizesse as pessoas voltar ao post para ler outra vez e para se rirem. Mas não consigo, nem nunca conseguirei. Eu sou daquelas pessoas que não sabe contar histórias. Mesmo que a narrativa vá encarrilada, chega a parte do fim e estrago sempre tudo, ou pior, nunca encontro nenhum fim. E por isso não conto histórias, muito menos histórias que façam rir, dada a importância fundamental da punchline (sim, eu sei, os Monty Python desprezavam-na, mas eu não sou propriamente os Monthy Python, não é, não me posso dar ao luxo de contar anedotas sem punchline e esperar que as pessoas achem graça), dizia, dada a importância da punchline, e dado a minha enorme incompetência para fins, opto por não contar histórias.

É, então, por não saber contar histórias que adoro que me contem histórias a mim. Acho que ainda hoje a melhor forma de resolver as minhas insónias seria ter novamente a minha mãe à cabeceira a contar-me uma história. A minha mãe sabe as melhores histórias do mundo. Uma vez que a idade adulta dificulta que se adormeça com a voz da mãe a contar histórias, comecei a despertar para a beleza da narrativa não-ficcional, e para géneros como a crónica, ou romances "arraçados" como o In Cold Blood ou o magnífico Adivinhas de Pedro e Inês, da Agustina (que se calhar não pode ser designado por romance, mas eu designo, porque sou dada a designações. Gosto de não só designar, como de conjugar o verbo designar), enfim, a escrita que exige que pensemos noutras coisas que não consistam apenas em contar uma história. Com grande pena minha, eu não sei contar histórias. E digo isto com tristeza, porque um dos livros que eu gostava mais de ler quando era pequena chamava-se, precisamene, "O senhor que não sabia contar histórias", de Carlos Pinhão, e eu adorava gozar com esta personagem, dizendo, de mim para mim, de forma absolutamente sobranceira "o senhor não sabe contar histórias, como é que é possível não se saber contar histórias, eh eh!". Era tão giro, este livro.

E aqui estou eu, anos depois, sem saber contar uma história. E, mais do que isso, a sujeitar-me a olhares estranhos e caretas quando peço que me contem uma história. Às vezes, gostava de estar a falar com alguém e que esse alguém, pura e simplesmente, me dissesse, "agora vou contar-te uma história, uma história a sério, cheia de coisas que acontecem e peripécias", e ficaríamos ali, à mesa de café, eu a ouvir a história, o alguém a contar.

Uma história à mesa de café - que bonito.

Estou lamechas, hoje.

terça-feira, 31 de março de 2009

Gosto de Saramago


Gosto de Saramago, ou melhor - gostei de todos os livros que li de Saramago, que não foram muitos. Gosto das histórias que Saramago conta, gosto da forma como trabalha a linguagem, como a torna bonita, como a sua famosa pontuação dá um ritmo bonito, fluido, uma respiração, ao que a história conta. Gostei muito, muito, muito do Nobel, claro, mas ficaria feliz por qualquer escritor português que tivesse recebido o Nobel.

Não percebo a razão de Saramago ser constantemente julgado por ser comunista, ou por ser desagradável, como às vezes se diz que ele é, ou por ainda andar a falar da questão com o Sousa Lara (o caso foi uma vergonha, o homem foi ofendido, e se optou por permanecer ofendido, paciência; Saramago ofendido tem direito a ser respeitado, já o mesmo não se podendo dizer de quem perpretou a ofensa), ou assim ou assado. Já escrevi aqui sobre o que penso acerca do lado certo da história, das opções políticas do artista, e se isso se relaciona ou não com a literatura. Na minha humilde, humildezinha mesmo, opinião, acho que se relaciona se for um bónus, caso contrário deve ignorar-se. Portanto, não percebo tanto afinco em criticar as opções políticas, ou de vida pessoal, de Saramago; ele que faça o que entender, que pertença ao partido que quiser. Escreve bem - e a discussão deveria ficar por aqui.

Ainda há pouco tempo ouvi alguém queixar-se do facto de as pessoas, hoje em dia, não saberem escrever, de fazerem pontuação "à Saramago". Não consigo ouvir isto. Sei que é um exagero, mas parte-me o coração, verdadeiramente.

Queria eu conseguir fazer pontuação à Saramago. Queria eu.

Será que dá para aprender e depois ganhar o Nobel? É um sonho que acalento.