terça-feira, 8 de setembro de 2009

Historia do olho


Continuo sem acentos - aviso a navegacao.
O meu pai diz que ha duas maneiras de se ver um filme: com os olhos da cara ou com o olho do cu (o meu pai inventou esta teoria quando eu lhe disse que nao tinha gostado de um filme que ele, por acaso, tinha apreciado muito. E claro que, segundo ele, quem nao tinha visto o filme com os olhos da cara era eu). Adiante. Aquilo que o meu pai diz dos filmes tambem se aplica aos livros, que podem ser lidos com os olhos da cara ou com o do traseiro (sejamos um tanto ou quanto delicados relativamente a designacao de determinadas partes da anatomia humana que, por muito alivio que possam trazer, arriscam igualmente alguma deselegancia). Por exemplo, um livro que eu adoro, adoro, adoro e li repetidas vezes e Rebecca, de Daphne du Maurier. Na edicao inglesa, pode ler-se na afterword de Sally Beauman:
Rebecca, from the time of first publication, has been woefully and wilfully underestimated. It has been dismissed as a gothic romance, as "women's fiction" - with such prejudicial terms giving clues as to why the novel has been so unthinkingly misinterpreted. Re-examination of this strange, angry and prescient novel is long overdue.
Eu propria, numa primeira e superficial leitura de Rebecca, pensei tambem tratar-se de um pequeno romance-pipoca, ainda que muitissimo atraente. Talvez por ser um livro tao facil de ler, e este e um erro que, quanto a mim, se comete amiude - quando algo e facil de ler, o leitor mais intelectualoide e inseguro, que usa o olhinho do rabiosque quando deveria usar os dois que tem na cara, torce o nariz. E mais compensador ler Wasteland e perceber alguma coisa daquilo, a todos os niveis (socialmente, fica melhor poder anunciar publicamente que lemos TS Eliot, ao inves de Daphne du Maurier).
Longe de mim querer comparar Rebecca e Wasteland. O que afirmo e que ambos sao igualmente bons, em patamares diferentes. Nao se deve ter medo daquilo que e facil, ou banal. Um livro facil nao tem de ser mau, um livro dificil nao e necessariamente bom (se a leitura se tornar impossivel, o livro sera ate, pura e simplesmente, mau). Ainda recentemente vi uma exposicao de Jeff Koons (vide foto), onde se informava o espectador que o "artista" gostava de obrigar as pessoas a reflectir sobre a arte e sobre o preconceito que o mundo artistico dissemina em relacao a fruicao daquilo que e banal. O que e banal esta mal.
Nem sempre. O facil, o banal, a simplicidade, podem encerrar tanta beleza como a sofisticacao e a complexidade do que e dificil. Apenas temos de usar os olhos da cara mais do que o do cu, como diz o meu pai, que tem sempre muita razao. A arte e como o sol, quando nasce e para todos.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

The Dude abides



Gosto tanto, tanto, tanto, tanto, tanto deste filme que nao sou capaz de escrever muito sobre ele sem me entusiasmar.
Primeiro, a personagem principal, o "Dude" (traduzido algumas vezes por "Coiso" em Portugal, e desde ja envio muitos parabens ao tradutor/a que optou por este belissimo e comico termo), e das minhas personagens cinematograficas absolutamente favoritas. Muitissimo bem representado por Jeff Bridges.
Segundo, o uso da lingua neste filme e uma perola. Usam-se palavroes a torto e a direito (penso, ate, que Big Lebowski encabeca a lista de filmes onde se dizem mais palavroes, a par de Good Fellas ou algo parecido), e, como ja escrevi quase ate a exaustao, ilustra perfeitamente como a linguagem "feia" e "tabu" pode, tantas vezes, ser estilisticamente tao rica (este interessante artigo da BBC refere, ate, "the power of quotability" do filme).
Terceiro, o pequeno "cameo", se lhe posso chamar assim, de John Turturro, no seu estranho "The Jesus".
Quarto, linda cinematografia, sequencias oniricas impecaveis (tanto quanto consigo perceber, os irmaos Cohen gostam muito de introduzir onirismo nos seus filmes, e conseguindo cenas visualmente muito interessantes). Exemplo:




Um deleite.
Por ultimo, este filme lembra-me muitos e queridos amigos. E faz-me rir muito, que e tudo o que se pode pedir na vida, amigos e gargalhadas. Hoje estou poetica-lamecha, a idade pesa, I grow old, I shall wear the bottom of my trousers rolled, bla, bla, bla.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Other Voices, Other Rooms


A infancia e a idade mais estranha das nossas vidas. Nao tenho saudades nenhumas da infancia, apenas porque a ignorancia e a dependencia dos adultos me deixam poucas saudades.
Este pensamento ocorre-me devido a ter acabado de ler Other Voices, Other Rooms, o primeiro romance que Truman Capote publicou. Numa escrita muito lirica, cheia de colorido e comparacoes exuberantes, Other Voices... e sobre a solidao da infancia e do crescimento, ou, pelo menos, e um pouco sobre isso.
Adorei o livro, principalmente porque tinha acabado de ler um livro de contos de Fitzgerald que, surpreendentemente, nao me agradou nada. Ha algo na escrita do F. Scott que, resultando tao bem no Gatsby, nao resulta nada nos contos, pelo menos quanto a mim, naqueles que li. Os temas sempre presentes da juventude desperdicada, sem futuro, vacuo, futilidade, a procura constante de algo que justifique a vidinha, pareceram-me condensados demais nas historias. A intensidade das personagens era quase desperdicada, e a escrita vigorosa, mas ao mesmo tempo psicologica, de Fitzgerald nao me seduziu nos contos que li. Nao sei explicar melhor.
Other Voices, Other Rooms e um luxo, muito southern gothic, quase impressionista (as vivas descricoes da densa vegetacao sulista sao uma explosao de cores e sentidos), e muito, muito melancolico, porque fala de memorias. Tambem muito emocional. Tambem um livro onde a figura masculina tradicional, brutal e viril, e uma perpetua fonte de desgosto, miseria, sofrimento. As personagens femininas sao estranhas e submissas, ou carismaticas mas vencidas pelo mundo. Os homens sao feios, porcos e maus, a nao ser que, como o "Cousin Randolph", se distanciem do tradicional papel masculino e optem por uma vida alternativa a todos os niveis, inclusive o da sexualidade.

But we are alone, darling child, terribly, isolated from each other; so fierce is the world's ridicule we cannot speak or show our tenderness; for us, death is stronger than life, it pulls like a wind through the dark, all our cries burlesqued in joyless laughter; and with the garbage of loneliness stuffed down us until our guts burst bleeding green, we go screaming round the world, dying in our rented rooms, nightmare hotels, eternal homes of the transient heart.

Este Capote nunca desilude.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Eusebiozinho


Fico sempre abismada com a quantidade de parques que ha em Londres e, para alem disso, fico ainda mais abismada com o facto de estes imensos, lindos parques, espalhados por toda a cidade (nao e so Hyde Park) terem sempre gente, faca chuva ou sol. Ingleses e estrangeiros, velhos e criancas, caes, gatos, passaros, esquilos, patos e gansos, pululam nos parques londrinos. Bicicletas, triciclos, trotinetes; meninos de tres anos que pedalam sem a ajuda das rodinhas, calmeiroes de T-shirt que treinam o ciclismo avidamente; donas de casa de maquilhagem e calcoes que vao a andar, e adolescentes de fatos de treino da moda cujo jogging energico ultrapassa a dona de casa; familias inteiras de bicicleta, a chuva, o aspirante a poeta que escrevinha a moleskin ao pe do lago, quando faz sol; o casal de namorados que traz o picnic e ensaia o esplendor na relva; o grupo de amigos barulhentos que se alegra com vinho barato em copos de plastico ao fim de semana. Toda a gente aproveita todos os parques.
Ve-se mais natureza e faz-se mais vida exterior em Londres do que em Lisboa, cidade mais pequena, mais agradavel, mais simpatica, menos agressiva, mais soalheira, onde no entanto, e infelizmente, nao sei se pelos dificeis acessos a Monsanto, nao sei se por vergonha, nao sei se pelo apego aos carros, nao sei se pela dificuldade das colinas, enfim, nao sei, toda a gente ainda vive naquela modorra domestica que Eca ridicularizava com o seu Eusebiozinho, que sabia poemas de cor mas morria com as correntes de ar.
Ve-se pouca gente a almocar nas (poucas) areas verdes de Lisboa, por exemplo. Eu acho que e por vergonha. Se calhar, temos medo que os outros pensem que somos pobres e que por isso trouxemos a sandocha de casa. No sitio onde trabalho, nao ha sitio algum onde se possa comer, muito menos aquecer, qualquer refeicao que tentemos trazer de casa, por exemplo, e ninguem aproveita os espacos relvados do exterior para comer um lanchinho que se traz na mala. Toda a gente vai ao cafe gastar dinheiro, e eu propria ja desisti de trazer almoco de casa, porque me sinto ave rara envergonhada, e portanto faco o que os outros fazem, o que tambem e uma vergonha. Nao ha solucao.
Por outro lado, e tambem verdade que os londrinos aproveitam os espacos verdes e a hora de almoco para comer junk da loja da esquina, batatas fritas de pacote, tudo o que seja rapido e barato. Os portugueses ainda conseguem uma sopinha e um croquete por menos de cinco euros. Entre a sopa e o pacote de batata frita, eu, de facto, prefiro a sopa. No entanto, a figura assustadora do domestico, ensaboado, viuvo, mole Eusebiozinho e ainda omnipresente no nosso pequeno Portugal. Somos tao domesticos.
Comeco a pensar que a "domesticidade" e um grave defeito. Qualquer dia, escreverei mais sobre isto.

Misoginia



Ha muita coisa que quero escrever, mas nao ter acesso a um teclado portugues enerva-me solenemente; por outro lado, nao escrever nada tambem me enerva, de modo que vou tentar um qualquer equilibrio, escrevendo posts pequenos e sucintos. A minha vontade e escrever tudo em ingles enquanto nao regressar ao teclado com todos os acentos devidos, mas nao vou deixar que isso aconteca; ja bem basta ter cedido ao estilo piroso de intercalar frases ou palavras em ingles nos posts, portanto era so o que faltava comecar a escrever em ingles apenas devido a falta de teclado decente.
Bom. Esta extensa introducao nao faz grande jus ao meu desiderato inicial, que era, como eventualmente se poderao lembrar, escrever posts sucintos. Assim sendo, e tentando cumprir a minha va promessa (quanto menos escrever, menos necessidade tenho de acentos), o principal objectivo deste post e dizer que cheguei a conclusao de que, nao gostando de misoginia, ha certos misoginos de quem gosto bastante. Ou por outra, ha certos homens, injustamente, quanto a mim, denominados misoginos, de quem gosto muitissimo e que nao merecem a injustica de tal insulto.
Exemplo paradigmatico e D.H Lawrewce, o meu querido D.H., que, ao que parece, nao escrevendo sobre a sexualidade feminina tal como esta e retratada no Sexo e a Cidade, e portanto submetendo as suas heroinas aos desejos carnais de "faunos inquietantes" e muito masculinos (palavras de Simone de Beuvoir no Segundo Sexo, favor confirmar), ao inves de apresentar a mulher como fonte de jurisdicao, desde que roupa vestir a quem levar para a cama, dizia eu, como D.H. Lawrence nao apresentou a mulher assim, pumba, levou com o desagradavel epiteto de "misogino" em muita da meta-literatura que discutiu as suas obras. Sobre isto, tenho uma palavra a dizer: injusto. E mais nao digo, que as obras do querido D.H. explicam tudo e falam por si.
O outro exemplo, que pelos vistos tambem foi apelidado de misogino, e este magnifico J. W. Waterhouse, pintor pre-rafaelita competentissimo e lindo (ou por outra, os quadros sao lindos). Tambem ele foi acusado de misoginia - a mulher e sempre uma forca malefica, que destroi a vida do homem com a sua perfidia. No entanto, parece que uma voz se ergueu em defesa do pintor, chamando a atencao para varios quadros que Waterhouse pintara, nao apenas a pobre sereia indefesa ou a demoniaca Circe, mas tambem a sabia Medeia de quem Jasao depende, ou a sabedoria e poder atribuidos, efectivamente, a Circe, figura que Waterhouse admirava e em que condensa a importancia e o poder femininos. Pronto. Portanto, Waterhouse nao e necessariamente misogino.
Atribuir misoginia a alguem preocupa-me sempre muito, porque me parece que a dita misoginia e grave e perigosa demais para ser mal atribuida, o que muitas vezes acontece. Perde-se energia a vilipendiar artistas que, como diria o Diacono Remedios, sao bons artistas, em vez de canalizar energia para lutar contra a verdadeira misoginia.
E e este o meu pensamento do dia, que formulo com pesar por nao ter conseguido condensa-lo num post mais pequenito. Quem puder ir ver a exposicao do Waterhouse em Londres, que o faca asinha asinha, pois vale muito a pena.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Sera seguro nao ter seguro?

Ha duas noticias que tem tomado grande parte da energia dos jornalistas aqui no UK. Uma e a subida do desemprego, e a outra e a validade/futuro/sustentabilidade do NHS, national health service ou, para nos, o servico nacional de saude.
Comecou com declaracoes (ai os acentos, peco tanta desculpa, mas este teclado nao da para mais), dizia, comecou a "polemica" com declaracoes do Partido Republicano de que o NHS, importacao britanica que Obama quer instalar no pais, era "evil" (e, numa versao mais intelectual e sofistificada, "orwelliano") e que deixava hordas de pessoas as portas da morte, em listas de espera, ou recusando-lhes tratamento. Depois, um deputado do Partido Conservador deu umas quantas entrevistas nos Estados Unidos, em que abertamente desvalorizava a existencia de um servico nacional de saude. Resultado: os ingleses foram para o twitter defender o seu bem amado NHS, de tal modo que o sistema foi abaixo (Stephen Hawkings tambem participou, afirmando que o NHS lhe salvara a vida e, aproveitando o "momentum", muitos membros do Partido Trabalhista, nomeadamente Gordon Brown, participaram activamente nas maravilhas da internet, juntado a sua voz a dos outros britanicos que elogiavam o NHS. Os conservadores foram, como o nome indica, mais conservadores e comedidos, e preferiram anunciar em conferencias de imprensa o seu total apoio a instituicao do servico nacional de saude, apesar do colega rebelde ter ido aos States vilipendiar o querido NHS).
Esta historia revela, de imediato, um aspecto periferico mas importante, que e a forma como a internet muda a actividade politica - estou neste momento a ouvir John Prescott na televisao a dizer que fez um discurso no youtube ao povo dos Estados Unidos, para explicar e defender o NHS. Os youtubes e os twitters sao instrumentos rapidos e praticos para o politico estender a sua propaganda e amancebar-se com o "povao".
O mais relevante nesta historia e a discussao da manutencao de um servico nacional de saude e a necessidade extrema, quanto a mim, da sua existencia. Os Republicanos dizem que a "socializacao" da saude e demoniaca, e que condena o Estado a falencia e os doentes a filas de espera. No Reino Unido, muitos dizem ja que o NHS, apesar do emprego que cria, esta perto de se tornar financeiramente incomportavel, principalmente porque se gastam rios de dinheiro em pequenas operacoes que nao sao verdadeiramente relevantes.
O chamado "Estado social" tem sofrido ataques constantes, agudizados pela crise financeira, que nos convence que vamos todos morrer falidos e sem tecto. No entanto, tem de ser possivel uma racionalizacao de custos e a manutencao de um Estado que, no minimo, de educacao e saude de qualidade aos cidadaos. O modelo americano das seguradoras de saude e, para mim, aterrador, e, se por um lado compreendo a falta de dinheiro geral e o envelhecimento da populacao, por outro parece-me que os paises escandinavos, apesar dos impostos altissimos que pagam, dao um bom exemplo. E digo isto enquanto reflicto se investir num seguro de saude sera, ou nao, uma boa ideai.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

A policeman held up the traffic, the band walked back and forth a few times and that was that.

Estava a esquecer-me, imperdoavelmente, deste evento importantissimo que, como se compreende, tem de ser enfatizado aqui na Rua, por se tratar do aniversario da foto que da o emblema aqui ao bloguezito.


40 anos e ninguem diria que tem mais de dez, nao e? Cheia de historia, esta fotografia, a comecar nos boatos de que Paul McCartney morrera, a passar pelo magnifico album apropriadamente entitulado "Abbey Road", e a terminar sabe-se la quando e onde. Ja atravessei esta rua algumas vezes e quero continuar a atravessar.

Ferias, ou: o post que nao vou escrever


O blog, e eu, tem andado adormecido na habitual modorra do Verao, em que a mente lentamente se apaga, tal como os acentos desaparecem deste post, porque, mais uma vez, o meu teclado portugues nao esta disponivel. Saber que nao tenho acentos nao torna a escrita nada aprazivel, o que, a juntar a minha preguica, resulta numa indolencia insuperavel. E dai o blog ter andado tao parado, e dai eu nao ter nada na cabeca que permita um post minimamente interessante. A unica ideia que tive ate agora prendia-se com a problematica das unhas, em particular as unhas das senhoras.
O post que me ocorreu escrever, mas que nao vou escrever porque e futil, centra-se na questao de saber se devem as senhoras arranjar as suas unhas. E um problema, porque se nao se arranjar as unhas corre-se o risco de andar por ai com unhas feias, o que e algo repugnante; por outro lado, arranjar as unhas pode dar um ar um tanto ou quanto bimbo, estilo Carmela Soprano, o que tambem nao e o que se quer. Antes de se arranjar a unhaca, ha que considerar o comprimento da unha, que, se muito longo, e de facto bimbo e, se muito curto, fica feio com qualquer tipo de verniz; depois, temos tambem de considerar o tipo de arranjo que se vai fazer, porque se se pintar a unha de preto fica muito gotico, e se se optar pela sofisticada manicura francesa, pode ficar arranjado de mais e inevitavelmente, la esta, exibir umas unhas tipo gel, tipo Carmela Soprano, tipo pessoa que passa a vida no Colombo e sabe as lojas de cor e depila as sobrancelhas ate ficar com duas cruzes ridiculas por cima dos olhos, o que nao e ideal.
De modo que, se eu por acaso escrevesse um post sobre unhas, era neste tipo de questoes que me concentraria. E, como se demonstrou, mais vale nao escrever nada enquanto nao tiver nada de interessante para escrever.
Assim sendo, continuara o blog em banho-maria, esperando eu que, la mais para o fim do Verao, se consiga uma ebulicaozita, uma efeverscencia ligeiramente mais inteligente.

sábado, 1 de agosto de 2009

He's my man


E pronto, acabou a minha contagem decrescente, com toda a glória e pompa, porque ontem fui finalmente ver o grande Leonard Cohen no Atlântico. Queria deixar, ainda na ressaca de o ter visto ao vivo, as seguintes notas:
- Cohen, visivelmente frágil e envelhecido, tocou três horas (três), das 21h às 0h, com um intervalo de 15 mins (? - não me lembro exactamente). Cantou impecavelmente. A voz permanece dura e profunda, irrepreensível, indiferente ao envelhecer do trovador. Um fartote, uma beleza, pagou e recompensou o dinheirinho do bilhete.
- Fundamentalmente um poeta, Leonard cantou e falou com o público, num espectáculo muitíssimo bem organizado e preparado, com grandes músicos, mas ao qual, como seria de esperar, faltou o intimismo. O Atlântico é uma sala enorme, e a sensação de que se estava a ver um espectáculo algo formatado foi mais ou menos óbvia (muito parecido com o concerto de Londres do ano passado, em CD; ao que parece, também quase igual ao de Lisboa do ano passado, a que não assisti).
- grandes músicos a acompanhar o grande Cohen, verdadeiramente excelentes
- Famous Blue Raincoat, Famous Blue Raincoat, Famous Blue Raincoat! (não estava à espera que cantasse, mas cantou, num dos encores - oh meu Deus, oh meu Deus, que beleza assustadora).
- o artista é, de facto, um grande, imenso artista.
- um dos meus sonhos musicais está já concretizado - já vi o grande Cohen ao vivo. Visto que o outro sonho musical que eu acalentava era ver Beatles ao vivo, e uma vez que isso nunca foi possível, terei, rapidamente, de encontrar outro objectivo.
- grande L. Cohen.

sexta-feira, 31 de julho de 2009

Por mim, ninguém já se detém na estrada


Eu sei que esta história facilmente se encaixa numa dessas tragédias do quotidiano que gostamos de ignorar por nos sentirmos superiores aos tabloids: mãe e filha que apanham um táxi para junto da linha ferroviária, põem a cabeça nos carris e esperam pacientemente pelo comboio que as irá decapitar. E eu poderia dizer que esta tragédia do quotidiano me arrepia, e como é terrível que isto aconteça, e etc. e tal. E de facto todos estes lugares-comuns são verdadeiros. É arrepiante, e todos os pormenores desta tragédia do quotiano são arrepiantes e gélidos, o pormernor do táxi, o pormenor de sairem de casa para apanharem o táxi para a morte. Tudo o que escrevo é um imenso lugar comum, e no entanto tão perturbador.
Não sei por que se mataram as senhoras, mas o que a mim me parece certo, de relevo, nesta tragédia do quotidiano, tão pronta a alimentar a avidez do tabloid e pasquim, é a solidão. "Não têm nenhum familiar próximo". "Os corpos ainda não foram reclamados".
No excelente concerto de ontem, Leonard Cohen, nas suas palavras de despedida, disse ao público que esperava reencontrá-lo na companhia de familiares e amigos, mas que, se não fosse essa a sua situação, então que estivesse em paz com a sua solidão. E, de facto, a solidão, tão primordial no ser humano, é também a sua grande tragédia. Os outros são a nossa única hipótese de uma escassa salvação possível. E quando não temos os "outros" na nossa vida?
Uma coisa é estar só. Outra é estar desamparado. Ainda outra, provavelmente desesperante, é estar só e desamparado. A solidão suporta-se. Penso até que a solidão é incompreendida - toda a gente a encara como uma tragédia, quando pode ser um benefício. Mas o desamparo é irredutível, trágico.
A minha mãe diz-me que a Hannah Arendt escreveu sobre isto. Tenho de ir ler.

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Dance me to your beauty with a burning violin

E faltam apenas 6 dias.

Love Story?

Sem querer desmerecer Ryan O'Neil, um actor que eu respeito por ter entrado no Barry Lyndon, que eu por acaso nunca vi mas quero muito ver, e que além disso perdeu a mulher há pouco tempo, e portanto coitado, dizia, sem querer desmerecer Ryan O'Neil, gostaria que alguém me explicasse um dia o apelo de Love Story.
A minha resposta imediata a isto é que o filme não tem apelo nenhum, e destina-se apenas a deleitar senhoras já entradotas, que o foram ver ao cinema na falta de Patrick Swayze e Dirty Dancing, ou Tom Cruise e Top Gun, filmes mais tardios e de uma geração mais recente. Porém, Dirty Dancing e Top Gun são sofríveis e olvidáveis, ao passo que este Love Story parece, estranhamente, permanecer na memória colectiva. Quem é mais velho elogia-o constantemente, quem é mais novo e o vê, diz que gosta muito. Se formos à IMDB, verificamos que, na entrada para Love Story, se recomendam outras xaropadas de amor, como por exemplo O Gigante, E Tudo o Vento Levou, etc., deixando transparecer a ideia, quanto a mim errónea, de que Love Story se equipara aos grandes clássicos românticos.
Um momento. Sim, O Gigante é interminável e uma estucha, Gone with the Wind é uma xaropada, mas tanto um como outro têm, quer queiramos quer não, grande qualidade. Ambos contam com excelentes, excelentes actores: a grande Elizabeth Taylor, James Dean, Rock Hudson para o Gigante, e em Gone in the Wind a lendária Vivien Leigh, o lendário Clark Gable (canastrão ou não, é lendário), além de que este último filme tem uma produção épica e exímia, cenas bem filmadas, guarda-roupa impecável, technicolor vibrante, enfim, é um filme de antologia (fui, durante muito tempo, fã absoluta deste filme, devo confessar). São xaropadas, mas enchem o olho.
Love Story não tem nada disto. Tem um bom actor, o Ryan O'Neil, uma actriz mais ou menos, a Ali McGraw, um enredo pobrezinho, pobrezinho, mesmo paupérrimo, que culmina, de forma pouco original, com a morte da pobrezinha Ali, qual Julieta shakesperiana, mas sem a grande escrita de Shakespeare. No fundo, é o batido enredo do Amor de Perdição mas transformado em filme americano. Assim como assim, prefiro o Amor de Perdição.
Há, porém, um grande ponto a favor deste Love Story, que é a banda sonora. Aliás, estou a escrever este post porque hoje o ipod brindou-me com a versão de Astrud Gilberto, que canta a melodia do filme com uma letra em espanhol, o que me fez lembrar este filmito. Se calhar, é a banda sonora a responsável por esta resistência ao tempo deste filme sofrível. De outra forma, a razão pela qual Love Story ainda é conhecido é um mistério para mim, já que não percebo porque não se afundou, perdendo-se para sempre por entre aquilo que o tempo gosta de apagar. É, de facto, curioso como há filmes maus que, por uma razão ou outra, continuam a agradar a tanta gente. Às vezes, começo a não perceber o que determina a qualidade cinematográfica, ou a falta dela.
Enfim. Mistérios desta vida. Quem ainda não viu o Gone With the Wind não sabe o que está a perder, é o que digo.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Guilty pleasure

A minha actividade de lazer, ontem, foi ver o Crepúsculo, vulgo Twilight, uma vez que é um filme de vampiros (como já escrevi, simpatizo com vampiros); queria também saber o que justificaria toda a comoção que tem envolvido o tal filme, e já agora compreender porque é que os vampiros, subitamente, têm atraído tanta atenção por parte da indústria de entretenimento. A comoção é fácil de explicar, aliás, nem sequer é preciso ver o filme para perceber - dois jovens muito sérios e ensimesmados, com ar de novo-gótico, ambos muito bonitos. O suficiente para derrear qualquer adolescente.
O filme em si, como seria de esperar, não é grande coisa. Os actores não são bons (mas os que fazem de vampiros são todos lindos, o que, presumo, será o mais importante), o enredo é simplista e limita-se a criar desculpas para que os vampiros possam exibir os seus dotes sobre-humanos, e a história de amor entre o vampiro Edward e a humana Bella é algo, como direi, surpreendente, no sentido em que estes dois, embora mal consigam completar uma conversa de cinco minutos, conseguem estar apaixonadíssimos.
Porém. Há que dar a mão à palmatória e perceber que a indústria de cinema norte-americana sabe o que faz. Este rapaz que faz de vampiro Edward Cullen, um tal de Robert Pattinson, muito pálido, com um olhar muito intenso, sempre com cara sofredora, de grande conflito interior, resulta em cheio. Até eu fiquei com um ligeiro aperto no estômago ao vê-lo proteger a pobre namorada, e a dizer-lhe que seria melhor se se separassem, para que a pobre Bella viva em segurança. Felizmente, isso não acontece e ficam juntos no fim.
De modo que o filme não presta. Mas este vampiro Edward, com aquela palidez, aquela força sobre-humana, aquela intensidade (muito mal representada, mas enfim) está muito bem "esgalhado" (detesto esta palavra; no entanto, aplica-se bem aqui). Contra mim própria falo, mas gostei de o ver a trabalhar.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Composição

Eu gosto muito da Beth Ditto, ela nesta capa está linda, linda, e acho que é muito positivo as pessoas acharem-na super linda, porque assim destroem-se muitos estereótipos negativos para a imagem das mulheres, nomeadamente o serem gordas, porque está muito mal achar que as mulheres gordas são feias, porque ser escanzelada como as super-modelos é que está mal, e portanto eu acho que a Beth Ditto dá um bom exemplo porque mostra que é possível ser linda e ser gorda, tudo ao mesmo tempo, e isso é positivo e bom para a sociedade em geral, e assim os homens podem passar a olhar para mulheres normais e achá-las bonitas, porque hoje em dia isso não acontece, e depois as mulheres começam a ficar anorécticas para arranjar namorado e é um problema porque se ficam anorécticas não arranjam namorado nem têm filhos porque estão fracas, e se ninguém tiver filhos a sociedade não progride, e portanto se todas as mulheres forem como a Beth Ditto os homens têm de namorar com elas e têm todos filhos e a sociedade fica a ganhar, e portanto eu gosto da Beth Ditto, e além disso ela é amiga da Kate Moss, o que prova que ela é bonita, porque se fosse feia a Kate Moss não andava na rua com ela.
E canta bem.

Love affair #2, ou: lei da relatividade


Realmente, como mudam as pessoas. A primeira vez que olhei para umas Birkenstock, achei-as horrendas e pensei de mim para mim que nunca as usaria, a não ser que me transformasse num turista alemão com meias. Ora, acontece que sou muito influenciável, em primeiro lugar, pelo poder da cor, e agora há modelos Birkenstock em todas as cores do arco-íris e mais alguma, o que faz delas uma delícia. Em segundo lugar, sou influenciada pelo conforto dos meus pezinhos, e o conforto deste chinelo é incomparável. Visto isto, passei a usar Birken, solidamente, todo o Verão, sem qualquer arrependimento.
A beleza, de facto, é muito relativa, é a conclusão que eu retiro de tudo isto. Eu, que considerava um par de Birkens como o mais inestético que se pode exibir nos pés, acho, nos dias de hoje, que estas sandálias são, como determinadas pessoas diriam, "uma graça". Só é comparável a achar o Serge Gainsbourg feio com o trovão, e depois vê-lo a cantar e achá-lo lindo, o que também já me aconteceu.

terça-feira, 21 de julho de 2009

Love affair


Há quinze anos, e ainda continua. Tão in love como no primeiro dia.

Melhor Blogger Hipotético: Michelangelo Merisi da Caravaggio


Há bar e bar, há ir e voltar
Blog arrependido de um pintor incompreendido

Julho, 1592
Portanto, eu fugi, né. Tinha a polícia toda à perna, eh pá, pronto, tive mesmo de fugir, né. Acho que matei um gajo qualquer lá no bar, bem, que azar do caraças, mas isto também só me acontece a mim!
Mas vá lá, consegui trazer cesto da fruta. Sem ele, nunca mais pintava nada, nada, nada!

Agosto, 1594
Ai a minha vida, acho que matei outro gajo. Tenho de mudar esta vida, já tenho outra vez a polícia atrás de mim, que chatice!
Bom, mas ontem conheci um tipo, uma coisa linda, um rapazinho impecável. Acho que o vou pôr ao pé do cesto da fruta, e pintá-lo assim. Ficava muita bem, o rapaz e o cesto da fruta.
É preciso é que a bófia não me apanhe.

Julho, 1601
Pumba, matei outro gajo. Eu qualquer dia vou preso. E ainda por cima pintei um quadro, mas um quadro muita giro, com um rapazinho muita bonito, a fazer de Dioniso, uma coisa linda. Mas começaram-me a chatear, "eh pá, ó Michelangelo, então tu pintas o Baco sentado em cima dum colchão, com as unhas todas sujas, então mas o que é isso, então mas tu parece que nem és pintor a sério nem nada" ... bem... não há paciência para estes ignorantes, né.
A ver se eu agora não mato ninguém, eu agora a ver se não mato ninguém!

Julho, 1610
Ai, ai, ai, que eu desta não me safo, ai que já matei outro gajo, ai a minha vida, ai a minha vida, mas a culpa não é minha, pois se eu nem me lembro de nada, entretido como estava lá no bar do Rubirosa, o tintol, o apelo daquele Dioniso que eu pintei, uma coisa linda... mas pronto, acho que já despachei mais uma alminha. Que mau. Desta é que vou fugir de vez, nem Roma nem nada, vou-me embora daqui, tou farto de me dizerem que não conseguem ver o que eu pinto, que é tudo escuro, ou então que é feio, e que eu pinto Nossas Senhoras feias, qué aquilo, tão gorda, e que não sei pintar a Ceia em Emaús, e a mão do discípulo tá muito grande, e não sei nada de perspectiva, bem! Que ignorantes! E depois admiram-se de eu andar por aí a matar gente.
Ah, pronto.
Diz que sim, diz que John Cheever vale, de facto, a pena.

Tempo que passa

Pela primeira vez desde há meses e meses e meses, tantos que nem consigo contar, dou por mim a chegar a casa e - a não ter nada para fazer.
Nada para fazer.
Quando Seinfeld decidiu acabar com a sua muitíssimo bem sucedida e muitíssimo engraçada sit-com, deu uma entrevista. Nessa entrevista, explicou que uma coisa que as pessoas lhe perguntavam muito era "Então agora que já não tem o programa, o que é que faz?". E Seinfeld responde - "Eu digo-vos o que faço. Não faço nada".
Eu, preguiçosa por natureza, sempre percebi este apego ao "nada" de Seinfeld (um homem que desiste da TV para não fazer nada, quando o seu programa de TV era, precisamente, sobre nada), e isto porque eu costumava considerar o meu "nada" como algo extremamente produtivo, em que lia, desenhava, ouvia música, escrevia. Mas depois de tempos infindos habituada a viver sem este "nada", agora que ele reaparece na minha vida, fico sem jeito a olhar. Não sei o que fazer ao tempo livre, da mesma forma que um ex-fumador não sabe o que há-de fazer às mãos. E também não sei o que fazer a esta terrível sensação de ter de aproveitar bem o tempo, tic-tac, tic-tac, não desperdiçar o tempo, o tempo escasseia, ai que vergonha não saber o que fazer ao tempo livre. Mas a verdade é que viver em sociedade é assim, a gente habitua-se ao tempo fragmentado, curto, a correr, compartimentado em horários e gavetas, e quando o tempo salta das gavetas para a nossa vida, ficamos abismados. Eu, pelo menos, fico.
Mas, por favor, não tomem atenção ao que escrevo. Já alguém, nome próprio Chico, apelido Buarque, descreveu tudo isto de forma tão bonita e tão superior à minha:

Vou
Uma vez mais
Correr atrás
De todo o meu tempo perdido
Quem sabe, está guardado
Num relógio escondido por quem
Nem avalia o tempo que tem

Ou
Alguém o achou
Examinou
Julgou um tempo sem sentido
Quem sabe, foi usado
E está arrependido o ladrão
Que andou vivendo com o meu quinhão
Ou dorme num arquivo
Um pedaço de vida, vida
A vida que eu não gozei
Eu não respirei
Eu não existia
Mas eu estava vivo
Vivo, vivo
O tempo escorreu
O tempo era meu
E apenas queria
Haver de volta
Cada minuto que passou sem mim

Sim
Encontro enfim
Iguais a mim
Outras pessoas aturdidas
Descubro que são muitas
As horas dessas vidas que estão
Talvez postas em leilão

São
Mais de um milhão
Uma legião
Um carrilhão de horas vivas
Quem sabe, dobram juntas
As dores coletivas, quiçá
No canto mais pungente que há

Ou dançam numa torre
As nossas sobrevidas
Vidas, vidas
A se encantar
A se combinar
Em vidas futuras
E vão tomando porres
Porres, porres
Morrem de rir
Mas morrem de rir
Naquelas alturas
Pois sabem que não volta jamais
Um tempo que passou


Oh, que belo poema.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Ler ou não ler

Ando há algum tempo para ler algo deste autor, John Cheever. Parece que era amigo de Truman Capote, e que escreveu muito sobre aquilo que esconde a vida asséptica dos subúrbios americanos. Uma vez li um artigo que designava John Cheever pelo escritor "da classe média americana". Não sei se isto será interessante, se não.
À medida que envelheço, sofro cada vez mais a angústia, não da influência, mas da selecção. Sinto que cada vez tenho menos tempo para perder com livros que não valem a pena. E receio que este escritor da classe média americana não valha muito a pena, embora também tenha receio de que valha e depois quem fica a perder sou eu. Basta lembrar-me dos anos que perdi a não gostar do Great Gatsby, apenas para o reler no ano passado e me ter apaixonado por Fitzgerald. Mas, ao mesmo tempo, pôr-me a ler este indivíduo, este Cheever, e depois descobrir que ele é uma espécie de Charles Bukowski da burguesia, seria uma desilusão e uma perda de tempo, tempo que poderia estar a aproveitar a ler coisas decentes.
Por exemplo, tenho um projecto de leitura que tem sido adiado, e que é o de ler as tragédias gregas todas que conseguir apanhar, as que já li e as que ainda não li. Ainda não o concretizei, mas quero concretizá-lo, um dia, e para isso vou precisar de tempo (e também de encontrar tragédias gregas, traduzidas, nas livrarias deste país, o que nem sempre é fácil, infelizmente). Tempo que não pode ser desperdiçado a ler John Cheever se este não passar da narrativa do desespero das donas de casa.
Portanto, a questão que eu levanto a quem tiver a enorme e muito apreciada gentileza de me responder, e que desde já agradeço, é: já alguém leu este John Cheever e, por favor, informavam-me num comentariozinho de mais ou menos cinco linhas se vale ou não a pena lê-lo?
Um sentido bem-haja.