
Venho por este meio dar conta, denunciar, até, a discriminação de que sou alvo por gostar muito de filmes de terror. Vou "elencar" (palavra maravilhosa) os focos discriminatórios que todos os dias me atingem:
- insultos constantes ao meu gosto cinematográfico ("um nojo", é o que me dizem)
- isolamento social como se fosse leprosa (nunca ninguém quer vir ao cinema comigo para ver um filmito de terror; nunca ninguém toca à minha campainha para me acompanhar num DVDzito)
- olhares paternalistas e sobranceiros quando se fala de filmes ("pois, o filme é muito mau, mas a Rita gostou porque ela gosta de gore, ela tem este mau gosto, ela é horrível, nem sei como é que sou amiga/o dela, pensando bem, vou deixar de ser")
- conselhos constantes, que eu não pedi, sobre como me tornar melhor cidadã, passando todos eles por deixar de gostar do chamado gore (do qual, aliás, não gosto assim tanto).
E por aí fora. Podia elencar mais coisas, mas não o vou fazer. Elencar cansa. Queria só uma desculpa para voltar a usar "elencar". É uma palavra curiosa, "elencar". Tinha um professor que dizia que "elencar" e "no que concerne" nunca se deviam usar por serem muitíssimo pirosos.
Mas voltando ao tema aqui do post. Segundo tenho observado, há um grande preconceito contra o género do terror por parte de muitas pessoas que gostam de cinema, e arrisco-me a dizer que será porque a maioria dos filmes de terror a que temos acesso não prestarem, de facto. E quando digo que não prestam não é pelo sangue a jorros, pelos gritos, pelos esgares desvairados, pelo gore (isto pode fazer parte do filme, e não o torna mau, quanto a mim); não prestam porque são estúpidos, têm maus actores e histórias paupérrimas. Mas o bom cinema de terror, aquele que, além do gore, do sangue e dos gritos (e não "apesar" do gore, do sangue e dos gritos), consegue provocar um medo avassalador, é do melhor que há. É difícil conseguir uma ficção que provoque medo. Eu, pelo menos, acho que deve ser muito difícil conseguir que a audiência (o espectador, e também o leitor) sinta verdadeiramente medo (não estou a falar de uns quantos sustos aqui e ali, que é o que a maioria dos Saws e restantes blockbusters de terror fazem; estou a falar dessa emoção mais profunda que é o medo). É relativamente mais fácil, no sentido em que é muito mais comum, conseguir a comoção e a ternura, mas o medo está a outro nível.
Não sendo, com muita pena minha, especialista em filmes de terror, aquilo que eu gosto neste género é a forma como nos faz lidar com o medo e com o obscuro de uma forma racional. Escrevi uma vez no Nascer do Sol que, por mais ridículo que pareça, um dos filmes mais educativos que vi quando era pequena foi o primeiro Pesadelo em Elm Street (não dormi uma semana; vi-o à socapa sem a minha mãe saber, claro, e paguei bem caro, e com muita insónia, o meu atrevimento), em que se descobre, no fim, que Freddy Krueger, o temível assassino calcinado, é uma ficção que só consegue espalhar o mal enquanto acreditarmos nele; se deixarmos de acreditar, ele deixa de existir e não nos pode fazer mal, isto é, quando percebemos que é tudo a fingir, ultrapassamos o medo. É por isso que gosto de sentir muito medo com filmes de terror e ver sempre mais e mais, num constante jogo de resistência, em que me obrigo a pensar "isto não existe, isto não existe". Assim, consigo aproveitar o filme, passar um bom bocado a vê-lo, e a ultrapassar os meus medos e fantasmas. Mais pedagógico que isto, não há.
Pais, deixem os vossos filhos ver filmes de terror, é o que tenho a dizer.
E pronto, é esta a minha clamorosa defesa do terror.
















