terça-feira, 14 de julho de 2009

I'll be wearing a river's disguise, the hyacinth wild on my shoulder, my mouth on the dew of your thighs

Faltam 16 dias (só!).

Coisas que eu não percebo: o advento da T-shirt


Por vezes, sinto-me uma dos Antigos a olhar para as invenções deste mundo.
Porém, há invenções que eu abomino ligeiramente. A começar pela roupa de Verão. Detesto as roupas que se usam no Verão; detesto aquelas cores que agridem, muito amarelo, muito verde, muito azul claro, muita alegria por todo lado que só usa quem for adolescente, porque quem não for faz figura de parva. Detesto o facto de não dar jeito usar preto porque faz calor. Detesto o facto de a roupa de Verão ser assim uma espécie de um farrapinho, quanto mais leve melhor, que serve apenas para cobrir impudicícias, e que não cumpre nenhum propósito estético. Tudo na vida deve cumprir um propósito estético, já dizia Oscar Wilde, e a roupa de Verão não apresenta este propósito nem tem nenhuma personalidade.
Porém, há uma peça de roupa em particular que eu não compreendo (deve ser muito sofisticada) e que, para mim, simboliza esta falta de carisma da roupa de Verão: a T-shirt. O que é isto? Quem é que usa isto? (sim, eu sei, usamos todos; eu própria tenho duas ou três). A T-shirt é um bocado de algodão, grosseiramente cortado em forma de T, com umas mangas feias, e que não dá para embelezar por mais bonecada que lá se estampe. Uma T-shirt de uma só cor é feia porque não tem personalidade; uma T-shirt com coisas escritas continua a ser feia porque é uma T-shirt; uma T-shirt com a marca das roupas é, além de piroso, feio porque se está a fazer publicidade de graça. Em resumo, a T-shirt não tem salvação possível.
Confesso que há T-shirts com escritos com que eu simpatizo. Estou há que tempos para comprar a que está aqui na foto ao lado porque a acho muito engraçada (mais ninguém com quem eu falei acha, mas a mim este "warn-a-brother" faz-me sempre rir); mas há que reconhecer que a T-shirt é a peça de roupa mais feiosa e mais deslavada que se pode usar. A T-shirt, quanto a mim, está para a roupa como o Tom Hanks está para o cinema: dá jeito, compõe durante uns tempos, mas chega a uma altura que já não dá para suportar o tédio e a pessoa precisa de uma coisa diferente (blusas, tops, túnicas, etc., é só ir à Zara, H&M e quejandos e escolher coisas a bom preço que não são T-shirts).
O apelo que eu aqui deixo é: não à T-shirt.
E, para terminar, este post confirma que o Verão é, de facto, a silly season, em que algumas pessoas muito "silly" se ocupam a escrever todo um texto dedicado a temas interessantíssimos como o concernente (bonita palavra) à T-shirt.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Qual é a diferença entre tristeza e depressão?
Não penso estar deprimida, mas ontem fiz uns dois ou três testes na internet e parece que tenho todos os sintomas de depressão menos dois. A internet disse-me que eu devia consultar um médico rapidamente.
Parece que, afinal, estou deprimida. E eu que nunca tinha dado por isso.

Tea and oranges, all the way from China

Faltam 17 dias.

O insustentável peso do ser


Vi ontem, na RTP2, um documentário surpreendente e estranho. Chamava-se Grey Gardens, e era sobre duas senhoras, mãe (Big 'Edie') e filha ('Little' Edie), que viviam isoladas, sem dinheiro e sem ajuda, num casarão nos Hamptons, uma zona chique perto de Nova Iorque onde os endinheirados vão passar férias. O pai, nos dias de opulência, tinha abandonado a mãe na mansão; esta tinha chamado a filha para viver consigo, e a filha acedera, abandonando a sua vida em Nova Iorque para fazer companhia à mãe. Envelheciam as duas numa mansão vazia e enorme, decadente e esquálida, cheia de sombras e uma estranha alegria amarga, ou pelo menos assim parecia, quando os documentaristas as filmaram. As duas senhoras tinham chamado a atenção por viverem numa casa decadente e mal cheirosa, cheia de gatos e ratos e outros animaizinhos, de tal modo que os vizinhos já se tinham queixado; por outro lado, o facto de serem tia e prima de Jackie Kennedy e/ou Onassis também não passava despercebido. Aliás, a Jackie K. e/ou O., ao saber da indigência das familiares, abriu os cordões à bolsa para limpar e fazer obras à casa, mas isso já não aparece no documentário.
O que aparece é uma vida bizarra, de completa isolação, em que duas mulheres vivem uma rotinha de uma estranheza absoluta, alimentando-se de memórias dos dias em que cantavam e dançavam e eram felizes. A lembrança dessa felicidade é aquilo que as sustém, é quase elástica - a mãe, Big Edie, fala do antigo marido, de como a sua vida foi preenchida, de como cantava belíssimamente, e como ainda hoje é feliz com os seus gatos e com as caganitas que estes lhe deixam no quarto; a filha, Little Edie, diz que as únicas coisas que gosta na vida são a Igreja Católica, dançar e nadar; fala constantemente do regresso a Nova Iorque, de como a sua vida está em standby para que a possa retomar na cidade, de como a sua mãe a irrita ao afastar todos os (poucos) pretendentes que foi encontrando. Little Edie parece não perceber que tem 56 anos. Para ela, viver naquela enorme casa assombrada é um sonho, um estado passageiro, que acabará em breve e lhe abrirá a porta para a felicidade esperada, cheia de dança, de canto e de homens de sonho (não ter um homem que nos peça em casamento é um nojo, diz ela).
Este documentário, que rapidamente faz lembrar obras de ficção sobre a solidão e seus terríveis sucedâneos (o grande Sunset Boulevard e Whatever Happened to Baby Jane vêm imediatamente à mente), é triste e bonito e engraçado, tudo ao mesmo tempo. Gostei mesmo muito do filme e das estranhas Edies, mas não deixa de ser um terrível retrato de uma solidão inexpugnável. É estranhíssimo perceber que, afinal, o ser humano precisa desesperadamente dos outros, precisa de pessoas que confirmem a sua "ligação à terra" (e a mim custa-me dizer isto, porque sempre fui de opinião que quanto menos pessoas houver a chatear a vida de alguém, melhor). No fundo, o ser humano precisa de ser recordado por alguém, precisa que os outros saibam que ele exista, para não se tornar num fantasma, que era quase o que esta mãe e filha eram, apesar de todo o seu encanto (pareciam muito engraçadas e queridas).
O ser humano não é leve, e se é, precisa de ser pesado; precisa de, como dizia Nietzche, "provar a sua fidelidade à terra", não através do niilismo, mas antes de amarras ao mundo real, amarras que nos tornam pesados, presos à terra. Estas amarras são as outras pessoas. E eram estas amarras que a Big Edie e a Little Edie não tinham.
Um belíssimo filme. Vale muito a pena ver, é o conselho que aqui deixo, esperando que a minha vã filosofia barata não tenha estragado o apetite para este belo Grey Gardens.

sábado, 11 de julho de 2009

I locked you in this body, I meant it as a kind of trial. You can use it for a weapon or to make some woman smile.

Faltam 19 dias.

Paixão

Há pouco tempo, falava com umas amigas (ou melhor: falavam elas comigo) acerca de personagens literárias por quem nos poderíamos apaixonar.
Depois de encetado este tema de conversa, eu cheguei muito rapidamente à conclusão de que sou uma pessoa muito pouco original. As personagens literárias que aceleram o meu coração são, dos estrangeiros, Corto Maltese, em primeiríssimo lugar; Heathcliff, do Monte dos Vendavais, por ser um daqueles homens "difíceis" e intensos, que a gente pensa sempre ter um coração de manteiga escondido por baixo de todas aquelas camadas de malvadez que só nós poderemos descobrir, e assim sentirmo-nos muitíssimo importantes. Dos nacionais, a personagem literária por quem me apaixonei é Carlos da Maia. Também é uma escolha muito pouco original, porque para ser a mulher da vida do Carlos da Maia basta apenas não ser irmã dele, o que é facto muitíssimo fácil de se conseguir. Adoro o Carlos, porque é boa pessoa, bonito, moreno, tem os olhos "negro líquido", os cabelos escuros anelados dos Maias, o que me parece bem - embora seja desempregado, o que não é bom (Carlos da Maia não desenvolve nenhuma actividade de jeito durante todo o livro; ele próprio se irrita com o seu lado excessivamente diletante). Mas enfim, com um namorado desempregado a viver num casarão, com uma charrete a seu dispor e rendimentos anuais posso eu bem.
Acho que nunca me apaixonei por mais nenhuma personagem. Gosto muito do Jay Gatsby, por exemplo, mas não me parece que seja amor. Não ainda, pelo menos - o amor, mesmo o literário, é uma coisa complexa que não acontece sempre e não se consegue explicar porquê. Não dá para forçar, é mesmo assim.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

You're living for nothing now. I hope you're keeping some kind of record.

Faltam 22 dias.

Os frisos da ira




...consider this: the body of the goddess Iris is at present in London, while her head is in Athens. The front part of the torso of Poseidon is in London, and the rear part is in Athens. And so on. This is grotesque.


To that essentially aesthetic objection the British establishment has made three replies. The first is, or was, that return of the marbles might set a “precedent” that would empty the world’s museum collections. The second is that more people can see the marbles in London. The third is that the Greeks have nowhere to put or display them. The first is easily disposed of: The Greeks don’t want anything else returned to them and indeed hope to have more, rather than less, Greek sculpture displayed in other countries. And there is in existence no court or authority to which appeals on precedent can be made. (Anyway, who exactly would be making such an appeal? The Aztecs? The Babylonians? The Hittites? Greece’s case is a one-off—quite individual and unique.) As to the second: Melina Mercouri’s husband, the late movie director and screenwriter Jules Dassin, told a British parliamentary committee in 2000 that by the standard of mass viewership the sculptures should all be removed from Athens and London and exhibited in Beijing. (novamente retirado daqui).

Eu, sinceramente, não sei que opinião ter relativamente a este assunto. O meu coração, que gosta muito da Grécia, é de opinião que os frisos do Partenon devem ser devolvidos ao país de origem, já que Atenas tem agora um novo, e pelos vistos belíssimo, museu aos pés da Acrópole onde pode acolher e tratar da sua arqueologia; por outro lado, os frisos estão já há séculos em Inglaterra; é verdade que lá foram parar por grosserias históricas, mas aconteceu o mesmo a centenas de outras peças de arte. E o argumento do Museu Britânico (obras de arte da categoria dos frisos não são apenas da Grécia, mas sim de toda a Humanidade), não deixa de fazer sentido. Ao mesmo tempo, ninguém pode discordar dos Gregos quando estes reclamam as suas insuperáveis esculturas de volta, já que estas fazem parte da sua história, do seu património, e já que agora têm condições para as resguardar da poluição e para lhes dar um lar confortável e digno do seu esplendor. Também é verdade que, como diz o meu pai, o Museu Britânico é o museu da "roubalheira internacional", mas, como também admite o progenitor, é igualmente um museu de cortar a respiração, tal a grandiosidade do seu espólio. É um privilégio ver tanta herança da Humanidade ali toda junta; os frisos fazem parte dessa herança, e o facto de estarem no Museu Britânico dá muito jeito ao visitante, que fica com uma ideia geral das coisas, e sai de lá com o olhar e a mente regalados, sem ter de ir a Londres, e depois à Grécia, e depois à Síria, e depois ao Egipto, etc. Vai ao Museu Britânico e fica logo despachado numa viagem.
Mas enfim. Se os frisos forem devolvidos, e se o espólio de Londres se juntar ao de Atenas, para que se possa reconstituir todo o desfile de esculturas, a Humanidade também tem muito a ganhar com isso.
Portanto, não sei. Entre a Inglaterra e a Grécia, quero que ganhem as duas.

Different Class


A classe social é uma eminência parda, mas verdadeiramente uma eminência, na velha Albion. A sensação que tenho é que toda a gente que vive em Inglaterra sabe exactamente a que classe pertence - upper, middle or working, sendo que nos interstícios há lugar para alguma variação; por exemplo, a working class é distinta de uma outra classe (a chamada "underclass") que não é "working" porque não tem emprego e vive de constantes subsídios estatais; as classes upper, middle e working não gostam deles porque acham que são todos imigrantes que lhes roubam o dinheiro dos impostos. Também há uma outra classe, mais associada à working class, que são os chamados "chavs" (ignoro a etimologia do termo); estes chavs, por sua vez, associam-se a uma outra classe designada por "asbos" (que vem de "anti-social behaviour"). Caracterizam-se por comerem muitas batatas fritas, usarem bonés foleiros a imitar Burberry's, falarem muito alto e meterem medo às classes upper e middle; as raparigas chavs usam muita maquilhagem, unhas de plástico, também falam alto, e andam sempre a engravidar clandestinamente. Em geral, os "chavs" não se dão bem com a "upper class" porque acham que estes últimos falam com um sotaque irritante, de quem tem a mania que é bom; a upper class não gosta dos chavs porque diz não perceber sequer a forma como eles falam; os chavs também não gostam da middle class porque esta tem a mania de ir à universidade e também achar que é boa; a middle class não gosta dos chavs porque, igualmente, não percebe o que eles dizem e têm medo que haja um qualquer que lhes engravide a filha, e depois esta já não pode ir para Oxford nem para Cambridge, ou para uma universidade no resto do país que seja, e vai a família toda escala social abaixo, com uma mãe solteira ali a estragar tudo.
De modo que é complicado. E não há lugar mais priviliegiado para observar o complexo escalonamento social britânico do que determinados eventos-chave, como por exemplo a regata de Henley (ou por outra: a Real Regata de Henley), que é o equivalente às corridas de cavalos de Ascot, mas com barcos. Em primeiro lugar, para ir ver a regata, tem de se ter um "passe" e só se pode entrar com vestido abaixo do joelho, regra que só se aplica às senhoras; os senhores devem ir bem vestidos, de preferência com o blaser do seu clube de remo. As senhoras podem e devem usar aqueles lindíssimos chapéus muito complicados com metros de tecido, e os senhores não podem tirar o casaco, porque não se deve andar em mangas de camisa que nem um moço de estrebaria (que, como todos sabemos, é um emprego muito comum e que paga bem). Acontece que este ano fez um calor imenso e insuportável, de modo que alguém decidiu que os senhores poderiam, excepcionalmente, despir o blaser. Alguns optaram por o fazer, outros acharam que era uma escandaleira, porque desde o século XIX que não é permitido tirar o casaco na Regata de Henley.
E isto é a parte composta e civilizada de Henley, em que, tal como cantava John Lennon em Glass Onion no White Album, se constata " how the other half lives". Mas, uma vez que é possível comprar bilhetes para ir ver a regata, esta é invadida por hordas temíveis de working class, chavs, asbos, que se apressam a tirar a camisa e andar por ali de tronco nu e chinelos, sentando-se na relva a comer fish and chips. É um contraste prodigioso entre esta descontracção e as compostas senhoras de longo vestido e ainda mais longo chapéu. No entanto, quem tiver o passe para a chamada "stewards enclosure", um recanto delimitado por vedações, com grandes pavilhões brancos que protegem do sol e onde não se pode sequer usar telemóvel, vê-se rodeado do grande sentido de classe e civilidade britânicos.
No entanto, quem é estrangeiro, como eu, limita-se a apreciar o bom tempo, os rápidos barcos, os esbeltos remadores, a bonita e verde paisagem rural inglesa, segura de que uma nacionalidade mais confortável, como a portuguesa, permite uma feliz distância das complexidades do classismo. Embora me pareça que Portugal é também um país flagelado por uma enorme e notória estratiticação social - o que ficará, possivelmente, para outro post.

Este blog é, definitivamente, para velhos


Tive a grande sorte, oportunidade e tempo para ir ver Neil Young ao vivo em Hyde Park, a semana passada. Foi um gosto, um concerto maravilhoso. Mal entra em palco, o velhote e roqueiro Neil, de longos cabelos grisalhos e T-shirt descomposta, pega na guitarra e arranca com os acordes de Hey,Hey, My, My ("rock and roll will never die!", gritava toda a gente, porque a canção assim o exigia), num rock absolutamente desenfreado. Uma maravilha. Tinham-me dito que o Neil era o pai do grunge, e fiquei a perceber porquê. Depois, todos os músicos que o rodeavam eram igualmente velhos. Até a menina do coro, de mini-saia e rabo-de-cavalo, era velha. E tocavam, tocavam, tocavam, sem parar e impecavelmente - o espectáculo deve ter durado duas horas e tal, compensando, e mais que recompensando, cada cêntimo (ou melhor, "penny") que se pagou.
No final, depois de ter atacado soberbamente o imprescindível "rockin' in the free world", e quando eu já pensava que o Neil se ia deitar, este último, ao invés de se retirar, começa a tocar os acordes de A Day in the Life, fundamental canção do fundamental Sargeant Pepper's. Começa tudo a cantar desenfreadamente, e eu muitíssimo empenhada a competir com as gargantas inglesas, que, há que reconhecer, sabem os Beatles de cor e salteado, e ainda bem. Ora, acontece que esta canção tem dois "momentos" - um primeiro "momento", escrito por John Lennon, que dá lugar a um segundo "momento", bastante diferente, escrito por Paul McCartney. Quando Neil se aproxima do tal segundo "momento" ("woke up, got outta of bed, dragged a comb acrossed my head..."), surge uma figurinha à boca de cena, vestida de cinzento. A princípio, ninguém sabe quem ele é. Depois, a figurinha aproxima-se do Neil e começa a cantar com ele. Nada mais nada menos do que o próprio Paul McCartney. Ao vivo. A cores. Em palco. A cantar a sua linda canção. Com o Neil.
Bem. Não há palavras que descrevam isto. Não posso evitar soar como uma adolescente e dizer que foi, verdadeiramente, o "delírio", porque ninguém sabia que o Paul ia fazer esta surpresa. Dois velhadas a rockar, magnificamente.
E eu, que nunca gostei muito, muito, do Paul McCartney a solo, eu que dizia que vê-lo ao vivo não era verdadeiramente importante, eu que dizia isto e aquilo, ao vê-lo ali, tão surpreendentemente, a cantar Beatles, foi de estarrecer. Só não chorei porque enfim, chorar não é o meu estilo.
Impecável. Grande Neil Young. Querido Paul McCartney. Este blog é, definitivamente, para velhos.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Beauty queen from a movie scene

É claro que, no dia de hoje, teria de escrever sobre a morte de Michael Jackson.
Eu gostava, e gosto, de Michael Jackson. Acho que qualquer pessoa da minha geração viu, pelo menos uma vez, o vídeo Thriller e ficou de boca aberta aberta a olhar para o rapazinho que se transformava em lobisomem e se punha a dançar com zombies. Quando Thriller saiu, eu era tão pequena que nem sequer andava na escola, mas lembro-me bem do meu primeiro contacto com a música pop - o rapazito de voz suave que dançava com zombies e se tornava fantasma, deixando apenas blocos de luz no passeio (também um grande vídeo, este Billie Jean). Aliás, o primeiro disco que tive, o primeiro disco que foi verdadeiramente meu, foi o Bad. Ainda antes dos Beatles, os amores da minha vida cujo génio só descobri mais tarde, a música pop entrou na minha vida com Michael Jackson, e há coisas que nunca esquecerei, como por exemplo a primeira vez que ouvi o Smooth Criminal, música que ainda hoje adoro, e que foi fascínio à primeira audição. Havia, porém, outras coisas que até a minha tenra idade me permitia perceber serem meio ridículas, como por exemplo o vídeo do Bad, em que Jacko se arma em mau e se põe a gritar para o ar. Mas fazia tudo parte do espectáculo.
Sempre tive a secreta esperança de que Michael Jackson se recompusesse destes tristes últimos anos, que deixasse de andar de tribunal em tribunal acusado de dormir com criancinhas, por quem parecia nutrir um fascínio, no mínimo, bizarro; que conseguisse modificar o seu semblante plástico e maquilhado para se tornar mais humano, e voltasse a cantar, em toda a glória verdadeiramente pop que atingiu com Thriller e até Bad. Mas nunca conseguiu, e a sua morte é amarga, não apenas porque é uma morte, mas porque está rodeada de um elemento grotesco que era aquilo que mais se associava ao Michael ultimamente. Agora que morreu, as notícias chamam-lhe génio da pop, os jornais dizem que a mistura impressionante de pop, rock, funk e soul que cantava era brilhante, e que a indumentária e a ágil coreografia faziam dele um insuperável ícone. Ok.
Penso também na herança de Michael Jackson. Designá-lo por ícone pop tanto dá para o associar ao Elvis e aos Beatles como a Britney Spears e Justin Timberlake, como ouvi hoje na rádio. A pop absolutamente plástica destes últimos, as coreografias planeadas, a imagem de verdadeiras stars parece-me ser herdeira, em linha directa, de Michael Jackson. Mas este último tinha talento; além de uma grande máquina que escrevia e produzia as suas canções e realizava os seus vídeos, parece-me inegável que Jackson era um show man (nem sabia viver de outro modo, a cantar desde os 5 anos), criativo, com talento. Bizarro e estranhíssimo, é certo, mas com talento, o que lhe dá um valor qualitativo acrescentado e superior a produtos absolutamente pré-produzidos e fabricados como as Britney Spears deste mundo.
Mas enfim. Talvez eu seja desta opinião apenas porque gosto do Michael desde a infância. É o peso do passado.

Problemas de adjectivação


A cena mais cool do cinema talvez seja esta, de North by Northwest, do grande Hitchcock. É um grande filme, e a cena do avião é extraordinária. No entanto, e sendo grande admiradora de Cary Grant a fugir do avião sanguinário, o que queria verdadeiramente confessar é este imenso lugar-comum de considerar Cary Grant um doce, um gentleman, tão elegante, tão chique, como diria Dâmaso Salcede. É mesmo o homem ideal para a pessoa ir ao restaurante, um homem tão distinto, tão fino. Tornei-me fã depois de ter visto Notorious, também de Hitchock, em que o Cary entra pela casa do mau adentro e resgata a sua Ingrid Bergman, que lá estava aprisionada. Ela está doente, ou meio drogada, e não se consegue mexer, e portanto Cary pega-lhe ao colo, ignora as ameaças do mau, e salva-a. É a Cinderela dos tempos modernos, uma coisa linda.

Ainda por cima, e ao que tudo indica, Cary Grant era um bom homem; eu sou aquele tipo de pessoa que se vai informar, e as informações que me constam é que o Cary casou com a Barbara Hutton, uma milionária abandonada e infeliz, que teve uma série de maridos, entre os quais Cary Grant, e que este foi o único que se preocupou com ela e a tratou bem(isto são, obviamente, informações muito fidedignas e que nada têm a ver com coscuvilhice). Pois é.


Ai, ai... suspiro. Após escrever este post, com respectivas fotografias, a questão que agora me ocupa a mente é: era Cary Grant um bom homem, ou um homem bom?

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Senhora Nagonia ! Que linda que vai com seu erro de ortografia


As minhas insónias estão pior do que nunca.
Esta semana, não consegui ainda dormir mais de quatro horas por noite, e nunca seguidas. Por mais desagradável que seja esta situação, não deixa de ter uma vantagem, que é a pessoa ter tempo para pensar e reler livros que já não líamos há muito. Ainda ontem estive a reler António Nobre. Gosto de António Nobre porque me faz lembrar Cesário Verde, e eu gosto muito do louro e doce Cesário. Mas continuando.
Ao ler António Nobre, cheguei à conclusão que, de facto, envelheço e envelheci bastante. Agora compreendo melhor aquela tristeza toda acerca dos pescadores, das romarias, das procissões. Sempre abominei procissões. Agora até acho piada. Mas, fundamentalmente, também acho tudo muito triste. Portugal é um país triste, onde até a alegria é melancólica. Faz parte do nosso charme - habituei-me a pensar assim.
E depois a obsessão com o "Doutor" e a "Doutora" (disto António Nobre não falou, que eu saiba, mas se escrevesse hoje talvez falasse). As pessoas acham que isso é tão importante. O meu cartão multibanco tem "doutora". A culpa não é minha, foi o banco que pôs, mas sinceramente também não estou para ter o trabalho de lhes pedir para tirar. Quando vou à bomba de gasolina, a senhora que lá costuma estar pergunta sempre: "mais alguma coisa, sôtora?". E enceta-se ali um diálogo estranhíssimo, em que eu me encolho e só penso em fugir rapidamente, porque aquele "sôtora" me arrasa, não dá com as minhas calças de ganga, a minha T-shirt, os meus furos na orelha, os chinelos, não dá com o facto de ela ser mais velha do que eu, de eu ser apenas cliente, de um simples "bom dia" e "boa tarde" chegar. Naquele momento, o "sôtora" é como diz o título deste post roubado a António Nobre, um erro de ortografia. E é assim a vida neste país, tão mimosa e pequenina, e tão cheia de erros de ortografia. E talvez se passe o mesmo nos outros países, mas eu vivo neste, e portanto reflicto sobre este (país).
E faço a mim própria a mesma bela e melancólica pergunta com que António (primeiro nome dá mais jeito, é mais intimista) se interroga: Que é dos pintores do meu país estranho, onde estão eles que não vêm pintar?

terça-feira, 23 de junho de 2009

Os outros


Sou fã da figura do vampiro, como já escrevi antes. Ainda não me decidi a ver os blockbusters que de vez em quando pululam por aí acerca de vampiros, Crepúsculos, Underworlds, Blades, mas talvez veja, qualquer dia (quero muito ir ver o Deixa-me Entrar, por acaso, e fá-lo-ei assim que tiver tempo). Interessa-me a complexidade do vampiro (sim, é uma figura complexa, não se limita a andar por aí a rasgar veias), a sua marginalidade flagrante e notória rebeldia. Se há figura que vai contra tudo o que é benéfico à sociedade, é o vampiro. Não acho agradável, mas acho interessante.
O zombie é o sucedâneo mais animalesco do vampiro. É, claramente, muitíssimo menos agradável por ser feio e burro, e também por ter muito poucas características humanas, o que torna um bocado impossível que, à semelhança do que fez a Annie Lennox, que escreveu Love Song for a Vampire, nos apaixonemos por um zombie. Mas há gente para tudo.
De qualquer forma, e por falar em zombies, personagens mais aborrecidas do que os vampiros porque mais animalescas, há um filme de zombies que me encanta solenemente, que é The Night of the Living Dead, de George Romero. Em primeiro lugar, é descarada e imediatamente assustador. É assustador desde o primeiro minuto, o que em mim criou uma predisposição para gostar do resto do filme. Há uma cena, logo no princípio, em que o casal que pensamos ser o protagonista vê um homem lento, alto e estranho, aproximar-se vagarosamente. Nós sabemos de imediato que o tal homem é um zombie, e sabemos que o casal, se fugir naquele momento, ainda tem tempo de se salvar, mas como eles não sabem de nada, ficam especados e com a vida desgraçada, porque o zombie não tarda a apanhá-los. E sente-se, assim, o peso da tragédia, em que há uma altura em que é dada a hipótese às personagens de salvarem a própria vida e, estupidamente, acabam por a arruinar.
Tenho alguma consciência de que a forma como estou a descrever Night of the Living Dead faz com que o filme pareça incrivelmente estúpido. Também admito que, em princípio, só terá interesse para alguém que goste do género de terror. Mas The Night... tem coisas verdadeiramente interessantes - um sub-texto, que acaba por tornar-se muito evidente, sobre a cortina de ferro, a paranóia anti-comunista nos Estados Unidos, e, acima de tudo, o medo incontrolável do outro, reflectido externamente pela ameaça da União Soviética, e internamente pelos conflitos raciais violentíssimos que afligiam o país na década de 60. É isso que representam os zombies - o medo, a ameaça irracional, que nós pensamos que os outros constituem.
Não sei porque me lembrei disto agora. Mas lembrei-me e pronto.
É um belo filmito. Eu acho que vale muito a pena ver porque, mesmo que não se goste de filmes de terror, este Living Dead é um clássico.

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Gaja que faz muitíssimo o meu estilo: Marjane Satrapi


Adorei o Persepolis, livro, e também o filme, quando saiu. Como o meu primeiro contacto com a obra de Marjane foi através do livro, gostei mais do livro - tão doce e sensível, e ao mesmo tempo duro e cheio de um humor sem condescendências. Visualmente, muito expressivo e engraçado. E toda a proeminência que a família tem na vida de Marjane (os pais, a fantástica avó, o tio) é comovente.
Acho que faz sentido ler, ou voltar a ler, Persepolis especialmente agora, nos dias de hoje. Marjane não esconde a dificuldade de carregar uma nacionalidade como a sua, mas, pelo que consegui perceber no final do livro, ela consegue alguma reconciliação com as suas origens. E, tal como se lê aqui, continua a lutar pelo Irão, embora no exílio.
É sempre complicado saber que pertencemos a um país, e perceber o que isso significa. Pelo menos, para mim, é. Deve haver determinados países que tornam esta tarefa ainda mais complicada. Não me parece fácil ser iraniano, ou afegão, ou até cipriota (com as devidas distâncias), por exemplo. A Marjane fala disso no seu livro. E, porque a chamada "actualidade internacional" não dá descanso a quem nasceu no Irão, e porque a Marjane ilustrou isso tão bem, é definitivamente uma grande gaja.

Bola


Sendo uma pessoa que não gosta de futebol nem percebe claramente as regras do jogo, gosto de falar de futebol, e mais, gosto de ir ao estádio (que, para mim, é a Luz, isto é, a Catedral). É uma idiossincrasia contraditória que eu tenho, mas o ser humano é mesmo assim, tem de viver com as suas contradições.
Ora, se há coisa que eu gosto na Luz (sou do Benfica, convém que fique claro desde já), é, em primeiro lugar, da cor. Gosto de vermelho, é uma cor quente; o verde é mais frio. Também gosto de verde, atenção, mas gosto mais de vermelho. Depois, gosto da alegria das pessoas. As pessoas estão sempre tão impossivelmente alegres na Luz que é uma alegria. Em seguida, gosto de cantar aqueles hinos todos, porque é o que de mais próximo eu encontrei de viver algo parecido com aquela série antiga, a Fama, em que as pessoas iam todas para a rua dançar e cantar, com a coreografia certinha e tudo. No estádio também é assim, as pessoas cantam, fazem a onda (sentam-se e levantam-se) a um ritmo impecável e quase musical, e aquilo é uma lindeza. Sai sempre bem sem ninguém ter ensaiado antes, o que só prova que o ser humano, de facto, é intrinsecamente um artista.
Finalmente, aquilo que arrasa quando se vai à Luz é o começo épico do jogo. Eu sinto que, na minha vida, tenho poucos momentos épicos. Aliás, a razão de ter um ipod prende-se com isso, porque se vou entretida a ouvir música, posso sempre imaginar que estou a viver um momento importantíssimo; tudo à minha volta se torna cinematográfico, e a cada passo que dou penso sempre que sou como a Norma Desmond do Sunset Boulevard e que me aproximo, cada vez mais, da câmara de Cecil B. de Mille. Mas, na vida real, não há, verdadeiramente, nenhum close-up nem momentos épicos nenhuns; no entanto, ver a águia (disseram-me uma vez que era um milhafre, e também se for não vejo problema nenhum; os milhafres também têm a sua nobreza), dizia, ver a águia Vitória a sobrevoar o estádio ao som da música, com as fitinhas vermelhas e brancas a esvoaçar, tem a sua grandeza. É bonito de se ver, entusiasma.
De modo que, mesmo que o Benfica perca (o que nunca aconteceu das vezes que fui à Luz; sou uma pessoa que dá sorte ao seu clube), eu fico sempre contente, ou por outra, presumo que fique contente, porque, como disse, sempre que fui à Catedral, o Benfica ganhou; não sei o que é ir à Luz e ver a equipa a perder.
Se eu pudesse andar sempre com colunas de som atrás e ir mudando a música em função dos diferentes momentos da vida, talvez não precisasse de ir ao estádio. Mas, como isso não acontece, vou, de vez em quando, de alegre cachecol, o único atavio a que me permito, fazer a onda, cantar, alegrar-me um bocadinho.
É para isso que o futebol serve, quanto a mim.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

A Condessa Sanguinária


Há, de facto, uma aura sanguinolenta a pairar sobre a cabeça de certas condessas. Além da Erzsebeth Bathory, a condessa-vampira sobre a qual escrevi aqui, também temos a Condessa de Ségur, que igualmente exerce em mim uma espécie de fascinação. Lembrei-me disto hoje à tarde, em que conversava com uma amiga minha e, entretidas na Fnac a olhar para os livros, nos deparámos com um exemplar do General Dourakine, da Condessa de Ségur. Deve ter sido dos livros desta senhora que mais li. Não me lembro bem, bem da história, mas tenho uma imagem algo vívida de que as cenas de chicotada (chicotada literal, isto é, pancada efectuada recorrendo ao uso de um chicote) eram inúmeras. Quando alguém fazia uma coisa mal (criança, criado, a má da fita), pimba, o castigo era chicotada de arrancar a pele. Depois havia a personagem do General Dourakine, que era apresentado como homem de grande coração, embora o adjectivo que mais se utilizasse para o descrever fosse "colérico"; era daquelas personagens de quem as criancinhas deveriam gostar porque, apesar de andar sempre aos gritos e desancar quem não fazia exactamente o que ele queria, era uma boa pessoa. Tenebroso.

Também me lembro do Bom Diabrete (acho que era assim que se chamava) e da Irmã do Inocente, este último uma coisa crudelíssima, de faca e alguidar, em que um pobre idiota de bom coração faz disparate atrás de disparate, é troçado por todos e amado por ninguém, a não ser a irmã, e no fim morre. Já não me lembro exactamente de qual a pedagógica mensagem que eu deveria ter aprendido com esta história, mas haveria uma, com certeza.

Não tendo evidência nenhuma do que vou dizer a seguir, a minha teoria é, porém, que a Condessa de Ségur tinha um pendor para a crueldade que seria talvez interessante estudar psicologicamente. Nem tudo é negativo, no entanto; lembro-me de que, no General Dourakine, aparecia às tantas uma certa personagem, pobre e entristecida, mas muito bondosa, que tinha fugido à Sibéria e era uma espécie de refugiado político, a quem o General dá abrigo, permitindo até que case com a neta, apesar da penúria do tal refugiado. Isto é edificante, há que admitir.

E há também que admitir que não é apenas a Condessa de Ségur que evidencia um certo comprazimento com a faca e alguidar; ainda no outro dia estava a reler uma edição de contos infantis de que gosto muito, porque tem ilustrações do Gustave Doré (vide imagenzinha) - adoro o desenho a carvão, cheio de pormenor e expressividade, deste senhor. E, dizia, estava entretida a ler os contos infantis e a constatar a sua violência incontida - o pai do Polegarzinho que abandona os filhos na floresta, para morrerem à fome ou comidos por uma fera; o gigante que quer comer os meninos; a bruxa da casinha de chocolate que mantém o Joãozinho preso numa jaula, na engorda, para o assar e comer; o temível, absolutamente criminoso Barba-Azul, que tem uma sala ensaguentada em casa onde guarda os cadáveres sanguinolentos das suas ex-mulheres, que ele próprio matou(!). Sinceramente, isto dito assim parece mais digno do jornal O Crime do que outra coisa.

E, no entanto, é engraçado como sou muito mais sensível a esta tal violência agora, na idade adulta, do quando lia estas histórias quando era pequena, em que o mundo maniqueísta onde Bem e Mal se digladiavam com toda esta intensidade fazia sentido.
Por isso é que me parece uma estupidez que se amenizem as histórias infantis (o Lobo Mau que não morre no fim nem come a Avózinha porque esta se esconde no armário, por exemplo); acho que faz parte da infância ver o Bem a vencer o Mal, violentamente, e ainda que seja apenas nas histórias.

Mas enfim, nada disto diminui a minha perplexidade relativamente à crueldade e chicotada e pancada e tortura de animais e quejandos que podemos ler nos livros da Condessa. Embora, entre esta última e a asséptica e querida Anita, eu prefira sem dúvida a Condessa sanguinária.

quinta-feira, 18 de junho de 2009