terça-feira, 10 de março de 2009

Moda antiga


Há coisas que eu aprecio nesta vida. Uma delas prende-se com as boas maneiras. Acho delicioso, as boas maneiras. Ser agradável, simpático, deixar a senhora passar à frente (sim, eu sei muito bem que consigo abrir a porta com as minhas próprias mãos, mas não deixo de achar simpático e bem-educado quando os homens fazem isso. Aliás, acho bastante feio e mal-educado quando eles não o fazem e não quero saber), ou, no caso das senhoras, dizer obrigado se o homem deixa passar à frente (fica sempre bem reconhecer a boa-educação alheia), etc e tal. Sou uma pessoa conversadora, neste aspecto. E talvez seja conservadora em geral, embora goste de pensar que não sou. Aliás, alguém que me cole um papel nas costas a dizer "se eu for conservadora, batam-me na cabeça. Obrigada" (copiei isto de uma partida que uma amiga minha fez a outra rapariga, há muitos e muitos anos atrás, na escola - colou-lhe um papel nas costas que dizia "se eu for feia, batam-me na cabeça. Obrigada". Ainda hoje me rio imenso com isto, porque não teve consequências nocivas - a rapariga não era feia, ninguém lhe bateu na cabeça. Mas enfim, reconheço que é uma brincadeira de mau gosto).

Voltando à questão da boa-educação, uma das razões pelas quais aprecio White Stripes é que o Jack White, que escreve as músicas, parece ser um rapazinho com boas maneiras, com uma simplicidade honesta e que por isso acarreta muita delicadeza. Reparei nisto após ouvir atentamente o álbum Elephant, que sinceramente é o único que eu tenho da banda, e portanto o único que ouvi verdadeiramente com muita atenção. Por exemplo, em "Hypnotize", talvez a minha preferida (é fabulosa, esta cançãozinha), canta o Jack: I want to hypnotize you baby on the telephone, I want to hold your little hand, if I can be so bold - além de pedir permissão, descreve o seu desejo de dar a mão à menina como um "atrevimento". Há outros exemplos reveladores. Em "I want to be the boy to warm your mother's heart" (só o título já revela como Jack respeita a instituição familiar), pode ouvir-se: I'm inclined to go finish high school just to make her notice that I'm around. Faz o sacrifício de voltar à escola só para impressionar a mãe da namorada (nem sequer é a namorada em si que ele quer impressionar). Numa outra canção do disco, "There's no home for you here", o Jack quer dizer à rapariga que está farto dela, que não a pode nem ver, e que o melhor é ela pôr-se a milhas que ele até se enjoa de olhar para a cara dela. Como é que ele escolhe dizer isto? Assim a sangue-frio, sem freio? Não. O Jack conhece os limites que a boa educação impõe à comunicação humana, e opta por I'm only waiting for the proper time to tell you that it's impossible to get along with you. It's hard to look you in the face when we are talking, so it helps to have a mirror in the room. Isto é delicadíssimo, porque é uma forma muito indirecta e muito pouco agressiva de mandar o outro (a namorada, neste caso) passear.

Aprecio este cavalheirismo.

E, já agora, aproveito para dizer que os Beatles eram igualmente muitíssimo cavalheiros: "please, please me", "so pleeeeee-eee-eeeaaa-se, love me do", que banda tão bem-educada.

E afinal o Jack White foi casado com a Meg White, ou é apenas irmão dela? Não que isto interesse, mas a minha tendência para a coscuvilhice gostaria de saber.







Hypnotize - The White Strips

Alien


Como as terças-feiras são os dias malditos da minha semana, trabalho demais e verifico que penso, também, demais. Nesta terça-feira em particular, pus-me a pensar que, muitas vezes, sou verdadeiramente um fantasma, a flutuar por aí, sem nenhuma verdadeira relação com o mundo. No entanto, tenho, na verdade, uma imensa relação com o mundo, pois basta ter de trabalhar para viver para fazer de mim uma peça nessa grande engrenagem que é a vida na sociedade ocidental, trabalhar, trabalhar, pagar contas, etc. Como dizia Marx, de facto tudo depende das condições materiais das pessoas, e não controlar os meios de produção é terrível porque ficamos alienados. E é isso que me acontece, passo os dias alienada porque tenho de vender os meus meios de produção, e ainda não descobri como é que posso viver de forma independente sem os vender e sem ter de me sujeitar ao preço que o mercado me dá pelas minhas capacidades.

Dantes, tinha uma âncora que me ligava à terra, a minha querida amiga D., que teve de se mudar e foi viver para longe (mas a culpa não foi minha; ela não se mudou por minha causa, não tive nada a ver com isso, mudou-se porque teve de ser). A D. é que me informava das coisas que se iam passando na nossa terra, porque já sabia que eu nunca sabia nada ("olha que a loja tal já não é ali, olha que agora para tratares do assunto y tens de ir ao sítio x", etc.). Aliás, a D. continua a informar-me de tudo, porque, não sei bem como é que ela faz, mas consegue estar sempre informadíssima acerca do que se passa, apesar de estar a quilómetros e quilómetros de distância. Eu, porém, continuo a viver no mesmo sítio e passa-me sempre tudo ao lado. Leio o jornal sempre atrasado, nunca apanho nada a tempo, ando sempre a perder coisas interessantíssimas. Se não tivesse alguns amigos que se compadecem da minha situação, perdia mesmo tudo. Nem sei o que me restava, restar-me-ia apenas tempo para pensar em parvoíces.

Eu tento não ser assim, mas a verdade é que não sei como é que se consegue ser daquelas pessoas activas, que sabem sempre tudo, que no princípio da semana já têm a vida organizada até sexta-feira e que no Domingo, como canta o Jorge Palma, sabem de cor o que vão dizer segunda-feira. Eu nem me importava de saber de cor o que vou dizer segunda-feira. Era melhor do que ter aquela música cruel do Simon & Garfunkel, "I touch no one and no one touches me", a matraquear na cabecinha. Não é nada agradável.

Talvez a coisa se resolva se eu deixar de ler o jornal atrasado e passar a lê-lo actualizado, se eu prestar mais atenção aos anúncios, se ler os folhetos que às vezes se distribuem na rua, se, se, se. Mas para quê?

sábado, 7 de março de 2009

Fashion icon


Esta semana vi, pela primeira vez, um episódio de True Blood num canal que eu descobri que afinal tinha, o Mov. Este canal não presta para nada, exceptuando o facto de transmitir Entourage, de que sou fão absoluta, e este True Blood, que há muito despertava a minha curiosidade por saber que tratava de vampiros, embora nunca tivesse visto episódio nenhum.

Não adorei o episódio que vi, mas percebi que a "premissa" da série é que os vampiros andam à solta, são uma espécie de minoria étnica na sociedade, sofrem discriminação, mas podem casar com pessoas não-vampiras e ter uma vida mais ou menos normal. Fez-me lembrar o quanto gosto dessa magnífica personagem literária que é o Conde Drácula, e quantas teorias há por aí a interpretá-lo como personificações da sífilis, por um lado, ou para alertar para os supostos perigos da homossexualidade, que na altura se acreditavam ser muitos (o Drácula torna as pessoas iguais a ele através do sangue), por outro. Ou, para as mulheres, o Drácula pode significar os azares que andar de mão em mão como as pombinhas da Catrina, ao invés do seguro casamento, pode acarretar. É, de facto, uma personagem literária com muito que se lhe diga, e sem dúvida uma das minhas preferidas. Embora, para mim, o Conde Drácula se relacione fundamentalmente com o estilo. Os mal disfarçados dentes pontiagudos, a longa capa preta, o cabelo puxado para trás à Clark Gable, os olhos cansados e malévolos como os modelos Calvin Klein da onda heroin-chic, etc., gosto da iconografia toda. No fundo, o Drácula é um fashion icon, pelo menos para mim, é, de modo que deixo aqui a foto do meu Drácula preferido, que não é Bela Lugosi, nem Max Schrek (nota, porém, para dizer que Nosferatu é um grande, belíssimo filme e que vale muitíssimo a pena ser visto) nem Gary Oldman, mas o sempre grande e intocável Christopher Lee, que faz um Drácula cheio de classe e inimitável. Aliás, o Christopher Lee tem sempre a louvável capacidade de fazer de mau com uma classe impecável, tão impecável que é impossível não estar sempre do lado dele.

E outra coisa, de onde é que vem a ideia de que o Dracula de Bram Stoker é que é o filme mais fiel ao livro? Não é, pois o filme mais fiel ao livro é precisamente um em que Christopher Lee entra (ele fez de Drácula algumas vezes), mas cujo nome agora não me lembro.

Voltando a True Blood, em princípio vou continuar a ver, mas de facto nada destrona Entourage, série sobre a qual, não sendo sobre vampiros, ou pelo menos vampiros tão óbvios, hei-de escrever um dia, talvez, se a tanto me ajudar o engenho e a arte.

Deixo aqui o genérico de True Blood porque, se foi coisa de que eu gostei, além dos dentes afiados, foi o genérico desta série. Está bem "esgalhado", como se diz, embora seja uma expressão bem feia.


sexta-feira, 6 de março de 2009

Nota de quem está a procrastinar

Eu sou uma pessoa avessa à tecnologia e toda a minha casa é avessa à tecnologia. Tudo o que seja tecnologia encontra um veneno mortal, uma criptonite avassaladora, na casa onde vivo.
A televisão apanha mal os canais todos.
A internet volta não volta não liga.
A cafeteira eléctrica avariou-se e não funciona.
O telemóvel não dá sinal de chamada e depois tenho mensagens de pessoas que me insultam a dizer que eu nunca atendo chamadas.
No telefone de casa, as chamadas ouvem-se mal.
As luzes estão a fundir-se uma a uma.
A placa vitro-cerâmica só acende um círculo, e os outros permanecem frios e apagados por mais que eu pressione os tecnológicos botões (não são botões, são uns desenhos na placa onde a gente carrega).
A campainha da porta não funciona.
O leitor de DVDs risca os dvds todos e faz um barulho insuportável de sofrimento se tento ver algum filme.
No entanto, o Word do meu PC tem-se portado muito bem. O Word é a única coisa que preciso para trabalhar. De modo que não tenho desculpa nenhuma para não trabalhar. De modo que era o que eu devia estar a fazer precisamente agora. No entanto não estou. De modo que o título deste post é o que é.
Há dias em que o trabalho não puxa e a tecnologia não faz nada por nós.

Manual de instruções para conversas banais


Uma capacidade que eu admiro no ser humano é a de conseguir fazer conversa, mesmo quando não está minimamente interessado na mesma (conversa). Admiro as pessoas que conseguem arranjar sempre um tema de conversa, mesmo que seja só sobre o tempo, e daí eu gostar dos ingleses em geral, que falam muito sobre o tempo da ilha deles. Normalmente, diz-se que os anglo-saxões são distantes e reservados e só falam sobre o tempo, mas eu acho que isto, falar sobre o tempo, é uma qualidade muito louvável, e não é nada distante, pelo contrário, até indica simpatia. Indica simpatia porque, ao falarem sobre o clima, a chuva, o frio, os ingleses estão claramente a dizer-me "não te conheço de lado nenhum nem tenho nada para te dizer nem tu a mim, por isso vou falar sobre o tempo para ter oportunidade de ser minimamente simpático e termos os dois algum assunto de conversa sem nos sentirmos totalmente parvos". Eu acho que isto é ser simpático. Da mesma forma que também é simpático que em Portugal, por exemplo, se pergunte sobre a família, quando 90% das vezes queremos lá saber, mas como somos um povo que tem a reputação de ser afectuoso e hospitaleiro, e como queremos manter essa reputação, perguntamos mais sobre a família do que sobre opiniões climatéricas.

Ora, admirando esta capacidade humana para demonstrar interesse artificial pelo outro, e que alguns designariam por "boa-educação", aconteceu-me uma vez ficar sem nada, absolutamente nada, é que mesmo nada, para dizer. Foi num daqueles convívios de trabalho, há alguns anos, em que as pessoas vão porque convém que se conheçam e isso. Fomos a um chamado "pub" e ficámos lá sentados, e eu calhei ficar ao pé de um rapaz e de uma rapariga. Lembro-me de que o rapaz era muito moreno e a rapariga muito ruiva, e eu achei que estava ali bem encaixada, entre aqueles dois seres contrastantes. Ora acontece que, surpreendentemente, o rapaz perguntou-me o que é que eu fazia; perguntou à rapariga o que é que ela fazia; a rapariga perguntou ao rapaz o que é que ele fazia; e ficámos por ali. É que a nossa falta de interesse e curiosidade para ir além destas perguntas óbvias era tão flagrante que nenhum de nós foi capaz de dizer absolutamente mais nada, uma vez que seria embaraçoso, e nitidamente forçado, fingir uma qualquer aproximação. É que nem a conversa sobre o tempo nos poderia salvar. De modo que ficámos ali, calados, o rapaz muito moreno a beber cerveja, eu a beber talvez um Baileys, a rapariga ruiva a não beber nada e a ficar quieta a olhar para as mãos (lembro-me assustadoramente bem da cara dela, enfiada, meio envergonhada, a olhar para baixo para as mãos encolhidas), e a partilhar aquele momento estranhíssimo, evitando cruzar olhares. Nada. Não tínhamos nada, nada, nada para dizer ou conversar (chegara a hora de acabar, como cantaria Fernando Tordo se lá estivesse).

Que momento tão estranho. Nunca me tinha acontecido nada de semelhante, sentir que tinha um absoluto e redondo zero para dizer a alguém, e a partir daquele dia fiz questão de treinar umas quantas perguntas-chave que tenho engatilhadas, prontas a proferir, de cada vez que conheço alguém novo a quem não tenho muito que dizer, para que a situação não se repita. É um método que eu desenvolvi e que é parecido com aqueles livros de aventura role-play, divididos em parágrafos numerados ("se escolher matar o monstro, vá para 365; se escolher voltar à bifurcação, vá para 77", etc.). A pessoa diz-me o nome, pergunto-lhe o que faz; se é de uma área similar à minha - digo que é interessante, faço uma pergunta levemente relacionada com aquilo em que eu própria trabalho; se é de uma área que não tem nada a ver - digo que é interessante à mesma, que sempre quis saber do assunto mas que nunca tive tempo; a pessoa começa a explicar e ficam no mínimo uns dez minutos de conversa garantidos. Se a pessoa se entusiasmar, deixo-a falar; se não se entusiasmar e começar a esmorecer, pergunto onde vive; se for perto de mim, faço uma outra pergunta sobre a região; se for longe, digo que é um sítio interessante, que sempre quis lá ir mas nunca tive tempo, e já lá vão mais uns dez minutos, o que no mínimo perfaz já vinte minutos, limite de tempo mais do que socialmente aceitável para se falar com alguém que não se conhece, de modo que a partir daí já posso inventar uma qualquer desculpa e ir-me embora. E fica o caso resolvido.

Este útil método provém, assim, dessa verdade evidente que é aprendermos as nossas maiores lições com a escola da vida. E com esta frase poderia o Nicholas Sparks, talvez, terminar muitos romances, com umas estrelas e uns arco-íris à mistura.

quinta-feira, 5 de março de 2009

Massive morning

Depois de meses de prática e grande habituação a esse instrumento surpreendente que é o ipod, penso estar em condições de avaliar músicas segundo a altura do dia em que elas devem ser ouvidas. Há música excelente mas que, por exemplo, não dá para ser ouvida de manhã, por qualquer razão que não consigo decifrar. Tom Waits, por exemplo, não dá o seu melhor de manhã. É, definitivamente, para a noite, ou quanto muito para um entardecer mais chuvoso. As manhãs não se adequam à voz agreste, suja e forte do Tom; ele pede uma altura do dia mais alcoólica e mais dura. Já Chan Chan, por exemplo, da banda sonoroa do Buena Vista Social Club, é a mais perfeita música da manhã, seguida, e esta sim, a perfeição máxima da manhã urbana, trânsito, buzinas, escapes, de Unfinished Sympathy dos Massive Attack. Se quero começar o meu dia com qualidade de vida, é ouvir os Massive em altos berros com esta belíssima música. A batida adapta-se ao ritmo da manhã, ao dia de trabalho, querer despachar tudo à espera de uma coisa melhor que há-de chegar - e isto porque a senhora canta "like a soul without a mind, in a body without a heart, I'm missing every part, hey, hey, hey....", isto é, ficamos à espera que a tal parte que falta chegue. Dá um certo optimismo que calha bem de manhã bem cedinho. E o vídeo desta canção é um clássico. Gosto de me lembrar do vídeo quando ouço a canção. Dá um ar muito urbano a tudo e dispõe mais para o trabalho. Embora também seja ligeiramente deprimente, agora que penso nisso.

A oeste nada de novo

Às vezes fico fula com certas coisas. Há certos serviços e instituições, como bibliotecas, por exemplo, que deviam facilitar a vida aos leitores que precisam de as utilizar, e não dificultar. Por exemplo, preciso de certos livros que estão na biblioteca da minha antiga faculdade, onde estive 4 anos. Posso frequentar a biblioteca, mas não posso ter cartão de leitor nem levar nenhum livro para casa, independentemente de estar comprovadamente a fazer investigação, de me fazer muitíssimo jeito ter o cartão, e de, mais uma vez comprovadamente, ter sido aluna daquela instituição, de lá ter pagado propinas, volto a dizer, por quatro-anos-quatro.
Na universidade onde tirei o mestrado, continuo a poder utilizar a biblioteca perfeitamente à vontade, tirar fotocópias à vontade, levar livros para casa perfeitamente à vontade, por um período de dois meses. Tenho cartão de leitor vitalício, renovável de dez em dez anos, acesso a todo o acervo da biblioteca, que é precioso e que dá um grande jeito, e não pago um centavo. Resta dizer que, nesta universidade, estive muito menos de quatro anos. Já para não falar no facto de que, nesta universidade, se preciso de papelada, certificados, comprovativos e quejandos, mando um email e tenho tudo em casa, enviado por correio, numa semana, mais uma vez sem pagar um centavo. Já na minha antiga faculdade, onde passei quatro (quatro) anos, demoram meses, meses, a produzir um qualquer certificado, tem sempre de se pagar, e quem estiver com pressa paga um pequeno balúrdio para poder levantar o papel não no mesmo dia, mas no espaço de 48 horas.
Haja pachorra. Por mais apego e respeito que tenha à minha antiga faculdade, isto é uma completa falta de respeito e é uma vergonha. Deviam perceber que há pessoas que de facto precisam, por motivos profissionais e não por mero capricho, que os serviços funcionem com um mínimo de razoabilidade e eficiência. Tanta coisa com a Europa, a Europa - ponham, então, os olhos na Europa, vejam como funcionam as outras universidades e depois venham falar de Bolonha, de aumentar a competitividade dos nossos licenciados e da nossa investigação. Tudo fogo de vista, não passa disso, porque, e digo isto com sincera pena e grande irritação, tenho a plena consciência e a plena certeza de que não estaria hoje a fazer, ou a tentar fazer, qualquer tipo de investigação se não tivesse a sorte de poder contar com a instituição em que tirei o mestrado e que, mais uma vez com grande pena minha, não é em Portugal.
Para culminar, tento ir ao catálogo on-line da dita biblioteca da minha antiga faculdade e nem vê-lo, parece ter-se volatilizado no éter do ciberespaço. Só dá vontade de largar uma asneira. E não me venham dizer que as coisas estão a melhorar, porque não estão. Pelo menos, na área em que me movo, não estão. Há mais operações de cosmética, que são caras e embelezam, mas que não passam disso.
E mais uma vez escrevi um post cheio de bílis. Aqui fica a intenção de me retractar.

quarta-feira, 4 de março de 2009

Pensamentos telenovelísticos sobre o ciúme ou a falta dele


Acho que a televisão é tal e qual como diz Bruce Springstreen, 57 channels and nothing on.

No entanto, não é a televisão que me traz aqui a esta hora relativamente tardia. Estava entretida a pensar na questão do ciúme e, como consequência, a ter pensamentos bastante telenovelísticos devido a isso mesmo, à questão do ciúme. O ciúme destrói as relações humanas. Medeia torna-se infanticida por vingança e por ciúme, parece-me a mim. Pessoalmente, não consigo deixar de simpatizar com Medeia, embora também pense que o objectivo da peça, pelo menos a versão de Eurípides, que foi a única que eu li, visa precisamente isso. Mas simpatizo com Medeia porque acho que consigo compreender a sua revolta e o seu ciúme. Realmente, aquilo que Jasão fez, trocá-la por outra mais nova e mais parva, não se faz de forma alguma, sob pretexto algum e é imperdoável.


O ciúme é nefasto porque nada traz de bom à vida das pessoas e deve, portanto, ser evitado. Racionalmente, isto faz sentido. E o ciúme em excesso é o maior turn off de sempre - torna as pessoas desesperadas, patéticas, possessivas, tipo cãezinhos raivosos que não conseguimos repeitar, bleagh. Mas será legítimo, ou até desejável, não se sentir ciúme nenhum? Não é, de alguma forma, positivo sentir ciúme para manter acesa a chama, como se costuma dizer? Se o ciúme é assim tão baixo, tão aviltante, como de facto me parece ser, então porque é que essa grande personagem trágica, que é Medeia, fez o que fez e porque é que se escreveu tanto e tão bem sobre ela?

Talvez a resposta resida no facto de o ciúme apenas resultar na arte, e não na vida. Na vida real, o ciúme faz as pessoas vasculharem os bolsos e as gavetas do outro, inspeccionarem telemóvel e emails, procederem a interrogatórios acintosos, e, tristemente, fazerem uma grande figura de estúpidas. Chega a dar pena, é horrível, deve de facto evitar-se esta verdadeira baixeza.

Como tantas outras coisas na vida, e como dizia um antigo professor meu, tudo se encontra nos Gregos, que voltam a dar resposta a esta questão que eu aqui levanto. Quando Eros se enamorou de Psique, ia visitá-la todas as noites, e ela nunca lhe via a cara. As irmãs da menina, talvez invejosas da sua felicidade, começaram a espicaçá-la e a dizer-lhe que, se calhar, ela andava mas era a dormir com um grande monstro. Assustada, desconfiada, Psique espera que o namorado adormeça, no escuro, e acende uma vela para lhe ver a cara, apenas para se deslumbrar com a beleza de Eros e ficar largos minutos em reverente contemplação, de tal forma que acaba por cair um pingo de cera na pele de Eros. Este acorda, olha para Psique muito pesaroso e abandona-a, dizendo-lhe, tristemente, que "o amor não pode viver sem confiança". É claro que Psique vai à luta, acaba por comer o pão que o Diabo amassou, como se diz, para reconquistar o seu Eros, e lá o consegue novamente, mas aprendeu a sua lição - o amor não pode viver sem confiança.
E, com esta breve história, deveria estar para sempre arrumada a questão do ciúme e já mais ninguém para toda a eternidade precisaria de se preocupar com isso. Mas tal não acontece, e portanto voltamos à estaca zero.

Mais wrestling

Fica aqui a primeira parte do tal documentário, Beyond the Mat, que, tanto quanto sei, foi uma das fontes ou inspirações de Dan Aronofsky para The Wrestler. Ainda não vi as partes todas, mas vou ver, porque me parece interessante. E realmente tudo indica que se confirma que o wrestling é espectáculo e coreografia mas que faz, realmente, doer.
É pitoresco que a organização que controla todo o wrestling se auto-denomine World Wrestling Federation. A referência a "world" deve seguir a mesma lógica que faz com que o campeonato norte-americano de futebol ou basebol, ou lá o que é, também seja designado por "World Series", ou qualquer coisa world. Pitoresco, este raciocínio. E, já agora, atentar igualmente no excerto do filme de Woody Allen "Hannah and her Sisters", com Max von Sydow, mais ou menos ao minuto 1:25 (é nas alturas que me sinto uma grande croma geek, and proud. Eh, eh).
E pronto, continuação, bem-haja, até uma próxima, e também enjoy, como agora se diz.

Isn't it ironic

Lembrei-me de um possível verso para uma das canções mais parvas que já ouvi, Ironic, de Alanis Morrissette, o que também diz muito de mim, isto é, a canção é das mais parvas que já ouvi e eu ainda me dou ao trabalho de vir para aqui desfiar o possível verso que poderia figurar na canção.
Adiante, o verso é este:
It's like raaaaaaaiiiiiin, when-you're-ready-to-get-out-to-go-to-the-supermarket-because-if-you-don't-go-you-won't-eat-tonight-because-your-fridge-is-eeeeeeeemptyyyyyyy!
Lembrei-me disto agora porque quero sair para comprar comida, pois não tenho nada que se coma em casa, e está a cair uma bátega imensa. E agora bebia um leitinho com chocolate e estou aqui à míngua, a olhar para a chuva.
Parva da Alanis Morrissette, ou lá como é que se escreve o nome dela.

terça-feira, 3 de março de 2009

Ai, Sade, a falta que tu fazes, a falta que tu fazes

Há pessoas que passam a vida a falar delas. É doloroso assistir a isto. Pessoas que nos interrompem para falar, única e exclusivamente, dos problemas delas. Pessoas que, nós bem vemos, não conseguem produzir um único tópico de conversa que não gire à sua volta. Pessoas que, nós bem reparamos, ficam completamente à nora e sem saber o que dizer quando conseguimos alterar o rumo da conversa e falar sobre nós. É vê-las de sorriso parvo, desconfortável e solitário no rosto, é ver a sua cabecinha a andar à roda a pensar, "oh, ela está a falar dela própria e não de mim! Mas... eu não sei o que dizer, pois se eu sou incapaz de ver um palmo diante do nariz que não sejam os meus próprios problemas! E agora, como fingir que estou minimamente interessado no que ela está a dizer?" É um espectáculo, como disse, doloroso, mas que não deixa de ser engraçado, porque estas pessoas ficam mesmo sem nada para dizer, absolutamente nada, quando não podem falar delas próprias. São como a cortina de ferro. A gente diz coisas e, se não o assunto não versar sobre a vida delas, aquilo faz ricochete e o que nos acerta é somente um desajeitado "pois...". Que angústia, Deus meu.
Não percebo como é que pessoas assim têm amigos, mas o que é certo é que têm, ou pelo menos elas dizem que têm. Imagino-as num jantar de confraternização, várias pessoas à mesa e cada uma a falar desconexamente, sem ouvir os outros, a gritar o mais alto possível os problemas que têm, auto-elogios mal disfarçados, falsa modéstia entristecedora, e pronto, depois vão para casa. Só assim é que compreendo que estas pessoas que carregam consigo o centro do mundo tenham amigos.
Lembrei-me disto ao reler a Filosofia da Alcova, do divino Marquês, como às vezes o Sade é chamado, falando através de Dolmancé: ...não te deixes enganar, minha encantadora amiga: a beneficência é mais um vício do orgulho do que uma verdadeira ostentação da alma; é por ostentação que se dão alívio aos semelhantes, nunca é com a pura intenção de praticar um acto bom".
Aqui está, sem tirar nem pôr (este Marquês é que sabia tudo; queria tanto conseguir escrever como ele, sem entraves de qualquer espécie, uma escrita demolidora, avassaladora, sem respeito nenhum e ainda por cima cheia de humor). Voltando ao tema principal do post, reparo, normalmente, que as pessoas que pensam ser o sol à volta do qual a Terra gira estão, também, muitíssimo convencidas de que são belíssimas pessoas, de coração puro e generoso, porque nada pode haver na Terra que não seja para lhes dar mais uma razão de existir. Se há coisas boas, é para as fazer felizes; se há coisas más, é para elas as poderem remediar e mostrar que são boazinhas. Isto é atroz. Como diz a minha amiga S., não há nada pior do que más pessoas que pensam ser boas pessoas, e eu concordo inteiramente.
E agora termino, é terça-feira, o meu dia maldito, o cansaço pesa, de modo que vim para aqui livrar-me da bílis, destilar o meu rancor, o que é muito mal feito, mas o blogue é meu, portanto fica assim e desculpem qualquer coisinha.

O lado certo da história



Li uma vez qualquer coisa sobre Leni Reifenstahl onde se elogiavam os seus filmes, embora fosse uma pena e um obstáculo intransponível esta realizadora estar "do lado errado da história".
É verdade. Estar do lado certo, ou errado, da história, é importantíssimo. Concordo, como já disse muitas vezes, com Harold Bloom no "Cânone Ocidental" - é o valor estético da obra que interessa e que a define como obra de arte monumental, não a carga política ou histórica que ela contém. No entanto, o problema que vejo nesta posição de Bloom, e como muito bem discute o LB aqui, é que tende a obliterar este critério histórico/político como se fosse absolutamente irrelevante, quando todos sabemos que não é.

Leni Reifenstahl fez filmes de uma beleza assombrosa. Mas, por serem fiéis a uma estética e a uma ideologia nazis, estes filmes são também tenebrosos e profundamente errados. Será que este critério político e ideológico não interfere no próprio valor estético da obra de Reifenstahl? É evidente que interfere. A "politização" que Bloom considera irrelevante será, talvez, um tanto ou quanto irrelevante, de facto, no caso de Ezra Pound, por exemplo, que apoiava Mussolini e o fascismo, embora isso não se reflicta na sua tremenda poesia. Até direi que casos como Gunter Grass, que assumiu ter-se alistado nas SS, são também irrelevantes. Antes de se condenar Gunter Grass como escritor por uma opção polícia que tomou enquanto jovem, será talvez preciso tentar perceber as razões que o levaram a tomar tal decisão. Quanto a mim, devo dizer, não é isso que determina o maior ou menor valor deste escritor, e será provavelmente este tipo de casos que nos fará concordar com Bloom quando este defende, apenas e só, um valor estético sem história e sem ideologia como definidor da grande obra de arte.

Embora, reiterando mais uma vez o que já disse antes e com a consciência de que me estou a tornar uma grande chata, concorde com o critério proposto em "O Cânone Ocidental", não concordo em absoluto com este critério, porque há casos em que estar do lado certo da história engrandece a obra de arte, da mesma forma que estar do lado errado a pode diminuir. Não tenho dúvidas disto. Ter recusado o nazismo engrandece aqueles que já eram, objectivamente, maiores na sua arte, como o meu querido, adorado Kurt Weill (embora, sendo judeu, não tivesse grande escolha; no entanto, Weill foi sempre político e activista até à morte); ter resistido ao fascismo em Portugal apenas aumenta a grandeza de Zeca Afonso, assombroso compositor, que, por razões estúpidas e que não compreendo, me parece muito pouco ouvido nos dias de hoje; ter morrido ao opor-se a Franco, ainda por cima na sua Granada natal, apenas enobrece ainda mais a grandeza de um poeta maior e soberbo, por quem permaneço irremediavelmente apaixonada, Federico García Lorca, e que me conquistou à primeiríssima leitura daquele seu inesquecível poema "a las cinco en punto de la tarde", na minha ida adolescência.

A morte de Lorca, em particular, impressiona por ser a morte de um trovador, a morte da poesia, a morte do rouxinol do "Menina e Moça" do querido Bernardim, ou daquela ode do Keats, enfim, a morte daquilo que, como escreveu Ary dos Santos, "pensa a gente certa". Pelo menos, para mim, a morte de Lorca simboliza isto tudo, e fico sempre emocionada e com uma tristeza galopante ao pensar nisto. Saber que ele morreu por razões políticas e ideológicas interfere, quanto a mim, na grande poesia escrita por Lorca. Não quero dizer que não possamos apreciar a sua poesia desconhecendo este facto; quero apenas dizer que vamos, com certeza, apreciá-la ainda mais, e por isso o valor estético central e absoluto, a-histórico e apolítico, que Bloom propõe como único definidor da arte deverá, talvez, tornar-se mais relativo. É que saber que todos estes poetas maiores estiveram do lado certo da história engrandece, de facto, a sua arte, e isto para mim parece-me indisputável. A próxima vez que vir o Harold, hei-de lhe falar disto.

Para terminar, deixo aqui um poema de, precisamente, o grande Lorca, cantado por outro trovador que também me parece do lado certo da história - esse animal musical que é o maravilhoso Leonard Cohen. "Take This Waltz" é de ir às lágrimas de comoção. Ouçamos, pois, com toda a reverência, com todo o respeito, de todo o coração.




Take This Waltz - Leonard Cohen

domingo, 1 de março de 2009

(outra) Gaja que faz o meu estilo: Ute Lemper


Esta mulher faz completamente o meu estilo por inúmeras, mesmo inúmeras razões. É uma mistura de Marlene Dietrich, Edit Piaf, artista de cabaret, saltimbanco, tudo numa só performer. Depois, tem um grande estilo visual, vestida de preto e tal, loura, toda estilosa. Tem também, e talvez deva ser esta a razão mais importante, um grande repertório. Num álbum seu de que gosto muito, Punishing Kiss, canta, além do meu adorado Kurt Weill (que a Ute canta muito, não é só neste disco), outros que fazem parte do meu panteão, mormente Nick Cave, Tom Waits, Jacques Brel, e também Elvis Costello e o tipo dos Divine Comedy cujo nome me esqueci, mas que faz com a Ute um dueto de, precisamente, uma composição de Kurt Weill que ficou mesmo bem.
No disco a seguir (But One Day), canta coisas que ela própria escreveu e que são apenas assim assim, mas também canta muito Jacques Brel e coisas baseadas em composições de Piazolla que estão muito boas, acho eu.
Enfim, esta mulher tem, como daqui se depreende, um gosto irrepreensível. E tem um grande estilo, há que reiterar.
Deixo-a aqui a cantar aquela que posso apenas designar pela música mais bonita que alguma vez se fez: Youkali Tango, do grande Kurt Weill.

Ali G & Jarvis

Gosto de Ali G e Sacha Baron Cohen em geral.
Gosto de Jarvis Cocker.
Gosto, consequentemente, de ver Ali G a dizer a Jarvis Cocker que ele parece um "kiddie fiddler", e de os ver a cantar "Help the motherfucking aged". Acho graça à versão que fazem os dois, à hip-hop, apesar de já ter sido há uma data de anos, quando os Pulp lançaram o This is Hardcore.

A ambição é foleira

As pessoas falam de "ambição", assim em geral, como se fosse uma coisa boa.
Eu não acho que seja. Quando as pessoas me dizem ser "ambiciosas", ou que a "ambição" é uma qualidade que se deve ter e preservar nesta vida, eu fico sempre dividida relativamente à reacção que devo ter, porque por um lado a "ambição" dá-me vontade de rir, por outro dá-me alguma tristeza.
Dá-me vontade de rir, mesmo muita, às vezes incontrolável, porque a "ambição" lembra-me de pessoas tipo Donald Trump que, e basta olhar para o cabelo deste homem, podem ter contas bancárias recheadas, mas nada altera o profundo ridículo que os cobre. O Donald Trump deve ser o homem mais ridículo que eu já vi na televisão a seguir ao Emplastro ou ao Zé Cabra; não sei, o cabelo, aquele meio palmo de cara de meia idade muito franzida a fingir que é mau, a mulher-boazona-troféu pelo braço, a Trump Tower nova-rica, enfim, o estereótipo do ridículo. Mas depois dizem-me, "ah, mas o Donald Trump está cheio de dinheiro e tu não, ah, mas o Donald Trump tem uma mulher toda boa e tu não", e é verdade, embora esta última aspiração não me diga grande coisa.
A ambição também me dá, por outro lado, tristeza, que é um sentimento que é nefasto. Ouço, normalmente, "ambição" aliada a "sucesso", outro vocábulo que me confunde e que me arrepia, e isto vindo de pessoas que, podendo ser ambiciosas, não me parece que tenham grande sucesso, de modo que não sei de que lhes serve a tal "ambição".
A ambição é talvez um consolo para aqueles que querem ter "sucesso" mas não conseguem, e estão metidos num beco sem saída, porque não me parece que as pessoas preocupadas com o "sucesso" tenham de facto sucesso na vida. E isso acaba por ser triste, ver as pessoas convencidas que esta tal "ambição" lhes vai conquistar o tal "sucesso" que elas delinearam mentalmente, e depois não dá em nada.
Mas talvez seja a minha concepção de "sucesso" que falha, e não a destas pessoas tão ambiciosas.

sábado, 28 de fevereiro de 2009

Fobias

Não tenho medo das alturas.
Não tenho medo de espaços abertos.
Não tenho medo de espaços fechados.
Tenho medo de estacionar sem ser, para usar uma super-catita expressão, "em espinha de peixe".
Tenho medo de estacionar paralelo ao passeio porque demoro uma hora a fazer a porcaria da "manobra".
Tenho medo de estacionar paralelo ao passeio porque às vezes fica um carro atrás à espera e se eu demoro muito tempo começa a apitar e eu fico muito aborrecida e nervosa se isso acontece.
Tenho medo de estacionar paralelo ao passeio porque muitas vezes o carro não vai no ângulo certo, eu não sou boa com ângulos, e sobe o passeio, e atropela pessoas, ou então vai de encontro a postes que calha estarem no passeio e depois fico com o carro todo estragado, e o poste também fica em mau estado. As pessoas também se arriscam a ficar em mau estado se calha depararem com a traseira do meu veículo a vir com toda a convicção na direcção delas.
Tenho medo de estacionar em paralelo porque, mesmo nas raríssimas ocasiões em que eu consigo fazer "a manobra" toda certinha e como deve ser, há sempre, sempre alguém, normalmente homem, que pára para ficar ali especado a observar atentamente os meus esforços e a ver-me contorcer desesperadamente braços e volante na tentativa vã e angustiante de colocar uma máquina barulhenta com rodas num exíguo espaço entre outras duas máquinas de rodas.
Tenho medo de estacionar paralelo ao passeio porque nunca consegui descobrir os "pontos de orientação" do meu carro que toda a gente me disse que eu ia conseguir descobrir quando comecei a guiar o veículo que presentemente guio. E já tenho o dito veículo há alguns anos.
Tenho medo de estacionar paralelo ao passeio porque posso até conseguir que o carro fique paralelo, não sei é se é ao passeio, uma vez que normalmente o carro fica muito afastado do passeio.
Sei muito bem que vai toda a gente ler este post e pensar "é mesmo à gaja". A minha resposta é: sim, é à gaja, sim, o que é normal, visto eu ser uma. E também gosto de Baileys. Algum problema?

Afinal, o wrestling faz doer


Em primeiro lugar, este texto tem spoilers relativamente a The Wrestler.

Em segundo lugar, gostei muito deste filme. Gostei muito, embora só tenha dois grandes lugares-comuns para dizer, a saber: é um filme cru; é um filme honesto, principalmente pela interpetação de Mickey Rourke, que encarna de tal forma a vida de um homem absolutamente acabado, completamente sozinho (como é que será que ele conseguiu?!), que angustia.

Há pormenores no filme (que me disseram retirados de um documentário preexistente sobre os vencidos do wrestling e que se pode encontrar no youtube - também me disseram o nome do documentário e eu agora esqueci-me, mas hei-de investigar isso e postar aqui) que doem - a parte em Mickey Rourke, aka Randy The Ram, vai a uma decadentíssima e triste feira de antigos wrestlers, que se limita a uma desolada sala de ginásio com umas mesas e umas cadeiras solitárias, de saco às costas, com os seus VHS antiquíssimos, os seus posters, as suas T-shirts, à espera que alguém apareça para os comprar; os fregueses lá vão aparecendo, escassa, reduzidamente, e Mickey Rourke leva 8 dólares por uma fotografia. Põe o dinheiro numa "mariconera" (palavra fabulosa) à cintura, que o espectador vê bem, porque é filmada em grande plano. Depois, Rourke olha à sua volta e vê uns quantos outros wrestlers, absolutamente gatos pingados sem eira nem beira, acabados, com a pobre, a terrível merchandising velha, ali à espera de ser vendida. Uns estão de cadeiras de rodas, outros de bengala, todos absolutamente vencidos.

Esta cena, para mim, foi a melhor de todo o filme. Curta cena, mas de impacto fortíssimo. A mariconera é um pormenor inesquecível, aquela tristeza de ter de andar a vender coisas, de ter de andar a pedir 8 dólares às pessoas, de aquele dinheiro fazer falta, a desilusão, a pobreza que angustia. Nunca me vou esquecer da mariconera, que grande cena, de facto. Não me vou esquecer da mariconera nem deste comentário de Randy the Ram que me fez rir imenso, apesar do meu grande respeito por Kurt Cobain: Guns'n'Roses rules. Then that Cobain pussy had to come round and ruin it all. I fucking hated the 90s. ("Kobain pussy" está porreiro para definir Kurt Cobain, de quem volto a dizer que gosto muito, mas que de facto era assim a puxar para o drama queen).

Nota final para Mickey Rourke, feio (ele próprio diz, na cena final, uma desiludida e triste apoteose, se é que isso é possível, que sabe que não é tão bonito como dantes) e honesto e muito bom, e Marisa Tomei, batida, falhada, e linda, linda que ela está! Devia ter ganhado o Oscar em vez da Penélope, não tenho dúvidas.

Nota finalíssima para dizer que, nunca tendo gostado muito de Mickey Rourke porque só o tinha visto a fazer olhinhos e boquinhas para a câmara num qualquer Orquídea Selvagem, acho que gosto mesmo dele agora, e ainda por cima vi, no outro dia, um programa antigo de apanhados muito parvos na SicRadical, e aparecia Mickey Rourke de férias em Itália a aturar um guarda-costas igualmente italiano que lhe fazia de tudo (atirava-se para cima dele, não o deixava em paz) - fazia parte da "brincadeira". Mickey Rourke foi educado e simpático, e não gritou com o guarda-costas nem nada, nem lhe deu um murro nem nada, apesar do parvo do falso guarda-costas dos apanhados merecer, e portanto concluo que Mickey Rourke deve ser boa pessoa por não ter dado um murro neste tal falso guarda costas apesar de ele, reitero, merecer.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Ex

O prefixo ex- faz-me um tanto ou quanto de impressão. Ex-coisas, ex-objectos e, principalmente, ex-pessoas são entidades que eu não compreendo.

Noutro dia, a minha mãe trouxe-me uma boneca com que eu brincava muito quando era pequena. A minha ex-boneca estava intacta, há anos que ninguém lhe mexia, há anos que permanecia imóvel numa qualquer caixinha guardada lá de casa, conservando-se, inacreditavelmente, tal qual como no último dia em que brinquei com ela. Olhei-a e soube que aquela boneca conservava também um pedaço de vida igualmente intacto. Só que esta vida parecia ter sido vivida há tanto tempo que quase já não era minha, andava por aí, não era de ninguém.

Somos feitos das memórias que carregamos connosco, é o que se costuma dizer. Somos feito de passado. No filme Another Woman, Woody Allen interroga-se, através da personagem principal, se as memórias são algo que possuímos, ou algo que perdemos. Como penso que também já escrevi antes, estou convencida de que as memórias são fragmentos perdidos, mesmo muito perdidos. Podem sobreviver na nossa cabeça, mas de que é que servem? Apenas para nos lembrar do que perdemos, ou do que já não vivemos. O seu significado é tão escasso, quanto a mim. E por isso volto a evocar Marco Aurélio e os seus Pensamentos pela enésima vez neste blog: "o presente é igual para todos, o que se perde é, por isso mesmo, igual, e o que se perde surge como a perda de um segundo. Com efeito, não é o passado ou o futuro que perdemos; como poderia alguém arrebatar-nos o que não temos?"
E é igualmente escasso o valor das ex-pessoas na nossa vida. Esta é uma verdade que me surpreende sempre. Num determinado momento, aquela pessoa significa tudo. No minuto a seguir, é já uma ex-pessoa, a nossa afeição por ela torna-se subitamente incompreensível, verificamos que não precisamos dela, que ela já não quer dizer nada, pior (ou talvez melhor), que somos bem mais felizes sem ela. Que estranho. É tão estranho.
Mas enfim, ex são ex por alguma coisa. E termino atrevendo-me a fazer minhas as palavras do grande Leonard Cohen na grande canção que é Chelsea Hotel, that's all, I don't think of you that often.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Prémio de melhor blogger hipotético (II): Madame Bovary



Gostar de ser mulher

Um blog sobre o que é ser mulher nos dias de hoje, porque ser mulher é complicado

e difícil, e este blogue é sobre isso, é porque ser mulher é complicado, e também mostra que podemos casar com um médico mas isso não é tudo na vida, com este blogue pretendo ajudar muitas outras mulheres numa situação parecida à minha




Segunda-feira

Ai, hoje o Carlitos tava tão chato. Nem sei bem porqué que casei com ele. Para médico não ganha muito dinheiro nem nada. Que chatice ("que maçada", Ema, é "maçada" que se diz, as senhoras dizem "maçada", não é chatice)
Bom, tive de acordar cedo para dar-lhe um remédio qu'era para a dor de barriga. Tava nervoso, ia operar uma pessoa ou lá qué que era. Não sei, sei que tava muito bem a dormir e depois ele acordou-me.
É um bocado chato, ele, às vezes. Aborrece-me um bocado.

Terça-feira
Bom, hoje tava muito bem a ver a novela e vem o Carlitos do trabalho a interromper, não deu para ver se afinal a Lara é filha da Donatela ou da Floribela, fiquei sem saber.
O Carlitos é tão chato. É que nem faz muito dinheiro ao fim do mês nem nada. Nem nunca vamos a lado nenhum, eu a pensar que ia casar com um médico, um doutor, e nem Caraíbas, nem Brasil, nem Lisboa, nem nada.
Sempre aqui, a olhar para o ar. Tou sempre a dizer ao Carlitos, ó homem, tu vai para o privado, ó homem, tu arranja-me trabalho numa clínica (não é "tu", Ema, é "você", as senhoras finas tratam os marido por "você", "você" é que se diz, Ema). Mas ele nada. Sempre a mesma seca.
Ai...

Quarta-feira
Hoje tava a ver a novela. Há lá um actor mesmo giro. É tão bonito, o actor. É surfista. Vive numa mansão. Vai seis vezes por ano de férias com a mulher. A mulher dele tem mamas novas porque o marido é surfista e por isso é muito rico e por isso dá-lhe tudo.
E o Carlitos, sempre a mesma seca. Queria ir ao cinema ver o Austrália, já me disseram que é tão bonito, e ele nem isso consegue fazer, vem para casa, senta-se no sofá a dizer que tá cansado e de vez em quando chama-me "amor". Ai que seca. Suspiro.
Acho que vou mas é ver o Austrália sozinha, mas é.

Quinta-feira
!!!!!!
Hoje fui ver o Austrália! Sozinha! E tava lá um senhor! Também tava sozinho! E o senhor meteu conversa comigo! Disse que eu era muita bonita e tinha lábios bonitos e gostava dos meus olhos! E se não se importava que ele me desse a mão enquanto via o filme e pensava em levar-me lá onde eles fizeram o filme, à Austrália! O senhor era muita giro. Era moreno, com ar distinto.
Não me lembro bem do nome, acho que era Roby ou lá qué que era. Acho qu'ele é capitão, tão fino, um capitão, uma coisa chique...
Depois o Carlitos chegou a casa do trabalho e perguntou se o gás ainda tava ligado qu'era para ele ir tomar banho.

Sexta-feira
!!! O Robizinho disse que era para eu fazer as malas qu'era para a gente ir para a Austrália!
Ai. Tenho um amante. Acho que tenho um amante. Vou ser como a Floribela da novela. Ela tem amantes, não tem? Ou é a Donatela? Acho que são as duas, não interessa, tenho um amante e vou fugir para a Austrália!
Agora o que era giro era eu ir para lá e conhecer um cóboi, como aquele do filme. Era bem giro, o cóboi do filme.
O Robizinho disse qu'era para eu ir ao multibanco levantar dinheiro qu'é para lhe dar a ele para ir comprar os bilhetes. Ele não pode ir ao multibanco fazer nada, se a mulher descobre faz uma cena e foge com o dinheiro todo dele e depois já não vamos a lado nenhum. Se for eu ao multibanco, vamos os dois à Austrália, e depois o Robizinho paga-me a mim, qu'ele é um homem de posses, é capitão, é fino, não é como o Carlitos, que nem ao cinema me leva nem me dá nada.

Sábado
Já dei o dinheiro ao Robizinho, agora é só esperar qu'ele ligue a dizer ondé que a gente se encontra para ir para a Austrália.

Domingo
O Robizinho ainda não ligou, se calhar atrasou-se qué por causa da bruxa...bruza... brucha... brucha, Ema!, safa que é burra, da brucha da mulher.

Segunda-feira
Já tenho a mala feita.

Terça-feira
O Carlitos já me perguntou pa qué qué a mala.
Eu disse que era umas arrumações que eu tava a fazer.
Quarta-feira
A Donatela é mãe da Floribela.
Quinta-feira
Não, acho que a Floribela é qué mãe da Donatela.
Sexta-feira
A mala ainda tá feita. Tenho certeza que o Robizinho telefona, a brucha da mulher é que não tá a deixar.
O surfista divorciou-se da mulher com as mamas novas, mas agora também já lhe pagou as mamas, né.
Sábado
O Carlitos diz qu'a conta do banco tá a descoberto.
Diz que alguém levantou muito dinheiro. Diz que temos de pagar ao banco. Temos uma dívida.
Pode ser que desta vez ele vá para o privado.
Que seca.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Literatura de mulheres


Às vezes, acho que há algum preconceito contra a chamada "literatura de mulheres." Esta literatura de mulheres pode, infelizmente, querer dizer coisas que as mulheres normalmente lêem, o que, e mais uma vez infelizmente, significa maus livros. Imaginamos mais facilmente uma mulher a ler Nicholas Sparks do que um homem, não é? Isto é de uma extremada injustiça contra as mulheres.

Curiosamente, a expressão "literatura de homens" não existe. O que é "literatura de homens"? Livros que os homens normalmente lêem ou literatura escrita por homens? Penso que esta expressão não existe porque se parte do princípio que os homens lêem e escrevem de tudo, de modo que é um tanto ou quanto inútil e vão tentar agrupar toda essa panóplia sob uma qualquer nomenclatura.

De qualquer modo, a literatura de mulheres a que gostaria de me referir não é aquela que é normalmente lida por mulheres, mas antes a que é escrita por mulheres. É claro que há escritoras muito boas, que calha serem mulheres, da mesma forma que há escritores muito bons que calha serem homens. Há outras escritoras que são boas escritoras na sua esfera feminina, e são muitas vezes apregoadas como grandes escritoras por cultivarem, precisamente, um certo pendor feminino na sua escrita, que Harold Bloom designava pela "manta de retalhos feminista", talvez uma certa domesticidade, a luta por um lugar no mundo, não sei bem. Sei que uma dessas escritoras é Kate Chopin, americana do século XIX que, quanto a mim, mais valia ter estado quieta. Acho que já escrevi também sobre ela, ou aqui ou no Nascer do Sol, mas não tenho a certeza. A Kate Chopin é o exemplo perfeito de espécime escriba recuperado pelos famigerados "gender studies" que escreveu umas histórias passadas com mulheres no Golfo do México, umas coisas metiam a escravatura, outras não, a sua novela, The Awakening, presta para muito pouco e é completamente olvidável ao nível da qualidade da escrita, e mesmo assim pronto, é mulher, interessava-se um pouco pela emancipação, vamos todos achar que se trata de uma bela escritora.

Não é esse o caso, quanto a mim, e talvez a literatura de mulheres se revista de algum paternalismo e condescendência aos olhos da "literatura de homens", a literatura "à séria", precisamente por casos como este, da Kate Chopin, da Lídia Jorge (peço desculpa aos eventuais leitores desta escritora, não me consigo lembrar de outro exemplo; não acho que a Lídia Jorge seja muito interessante como escritora; acho que é exemplo de literatura de mulheres paternalista), de algumas coisas da própria Jane Austen, de algumas coisas de poetisas estilo Elizabeth Barret Browning. É claro que os homens também escrevem muita porcaria lamechas, e a eles ninguém lhes toca. O Camilo Castelo Branco, por exemplo, escreveu muita historieta que ele próprio dizia que não prestava para nada, mas escrevia para pagar as contas, e ainda hoje, e muito merecidamente, é reconhecido como um grande escritor da língua portuguesa. As mulheres, contudo, basta descambarem um pouco que seja para a literatura mais fraquinha, e são imediatamente ostracizadas.

Serve toda esta conversa para dizer que eu, pessoalmente, embirro com muita convicção e profundidade contra tudo o que seja gender studies, women studies, literatura de mulheres, manta de retalhos, etc. Acho que Harold Bloom tem razão, é o valor estético da obra que predomina e a torna num monumento, independentemente de o escritor ser homem ou mulher.

E serve igualmente este post para dizer que estou convencida de que as irmãs Bronte são um tanto ou quanto negligenciadas nos dias de hoje por causa destes rótulos de que tenho estado a falar - escrevem uma literatura "de damas", como diz o meu pai, lamechas, datada, etc. Eu acho que não escrevem nada disto. Acho que o o que escrevem (ou por outra, o que escreveram) é verdadeiramente bom, forte, sério, mormente Monte dos Vendavais (um livro violento e desbragado e incompreensível no bom sentido), mormente Jane Eyre. Não quer dizer que as Bronte não escrevam coisas que não se passem num universo feminino, nem que não se concentrem em histórias de mulheres. É um facto que o fazem, e isso não é problema nenhum, mas transcendem igualmente essa esfera para, como qualquer bom livro e qualquer boa história, atingirem algo universalmente bom, que interessa a toda a gente.

E portanto gostaria que este post fosse a minha singela homenagem a essas mulheraças que foram as Bronte. Dizer também que, quando era pequena, vi o filme de Téchiné, Les Soeurs Bronte, que figura na foto deste post, e nunca mais me esqueci dele, e desde essa altura, ou seja, há pelo menos uns vinte e tal anos, que ando à procura do filme em DVD e só o vi uma vez em Espanha, nem em Inglaterra o encontrei. Quando o vi em Espanha, parvamente convencida de que o iria encontrar na versão inglesa, não comprei. Agora não tenho o filme. Bem feita para não ser uma grande estúpida.
A Fnac espanhola, realmente, é muito melhor do que a portuguesa.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Em que se descobre que Kierkegaard e Rolling Stones têm, digamos que, tudo a ver


A minha canção favorita dos Rolling Stones é "Gimme Shelter", que reza assim: "war, children, is just a shot away, it's just a shot awaa-aay". Quando a ouço, penso que sou uma versão feminina do Mad Max, filme que nunca vi, ou do Jack Kerouac, e que preciso urgentemente de encontrar uma confortável, quentinha e acolhedora casa no meio da seara, ou de um deserto de pó, onde vou encontrar a felicidade e o refúgio eternos. Depois lembro-me de que não sou o Mad Max, que nem sequer vi o Mad Max e portanto nem sei bem do que trata, e de que já tenho uma querida e confortável casa, e que agora não me dá jeito largar tudo e pôr-me on the road.

No entanto, a música dos Rolling Stones serve para me lembrar sempre da solidão. Por mais pessoas que tenhamos à volta, amigos ou inimigos, por mais apaixonados que nos encontremos, com a pessoa amada sempre nos nossos pensamentos ou sempre connosco, estamos sozinhos, e a vida lembra-nos constantemente disso. Há sempre uma situação complicada que só nós podemos resolver e, pior, somos constantemente forçados a tomar decisões que têm apenas a ver connosco e que só nós podemos tomar. Consequentemente, a responsabilidade é apenas nossa (raio do Kierkegaard, como é possível alguém ter tanta razão?).

Sempre sozinhos, por mais gente, por mais multidão que tenhamos sempre à volta. Tal como Eurico, o Presbítero, pobre rapaz. Acho que o Eurico é uma grande personificação da condição humana, sempre a lutar contra o tal mar de dores de que também Hamlet falava, sempre atormentado, sempre com problemas, sempre com alguma dignidade mas sempre perdedor.

Portanto, os Rolling Stones cantam "Gimme Shelter", e talvez não saibam que encontrar um verdadeiro shelter é impossível; no entanto, é na verdade impossível, quer os Stones o saibam, quer não. Como igualmente canta esse trovador épico que é Sérgio Godinho, "cerrar os dois punhos e andou" é mais ou menos aquilo que podemos esperar da vida. Provavelmente, sentimentos como o amor, a amizade, o carinho, a ternura e a emoção em geral servem para criar a ilusão de que não estamos sozinhos, porque senão a vida seria impossível e insuportável. Temos a capacidade de gostar das coisas e dos outros para termos uma espécie de alívio que não resolve nada, mas de facto alivia, o que já não é mau

Portanto, a minha conclusão é: o melhor da vida, estes elevados sentimentos de amor e isso, são ilusões que servem para a gente se distrair dessa realidade inescapável que é o estarmos, irredutivelmente, sozinhos.

Agora que verbalizei isto, não me sinto assim muito bem. Na verdade, sinto-me bastante pior do que quando comecei a escrever este post.

Boa. Agora tenho de ir dormir para ir trabalhar amanhã e já sei que vou dormir mal. Mas porque é que eu venho para aqui escrever?

Se alguém quiser fazer o favor de ir ouvir a tal cançãozinha dos Rolling Stones, Gimme Shelter, pode ser que se sintam tão mal como eu, fazendo-me, deste modo, companhia.

Se alguém souber como é que eu posso pôr aqui no blog músicas que tenho no iTunes, também agradecia, porque estou farta de ir à procura de canções que quero postar aqui e só encontrar versões foleiras no imeem ou vídeos caseiros no youtube.

É isto, uma boa noite e boa sorte.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Despojos do dia


Realmente, nunca tendo lido o Ulysses, percebo porque é que um escritor portentoso como Joyce decidiu, e conseguiu, escrever um livro imenso que relata, ou esmiúça, ou analisa, ou não sei bem o que é que faz, apenas um dia na vida de um homem. De facto, num dia passa-se muita coisa, pelo menos muita coisa digna de observação, embora às vezes não nos afecte directamente.
Na minha manhã de hoje, passaram-se pelo menos três coisas dignas de nota.

Fui ao banco e estava lá uma senhora quarentona, no entanto de mini-saia, no entanto de top verde justo, no entanto de casaquinho de malha justo azul-forte, a levantar as poupanças. Não é nada comigo, mas não pude deixar de ouvir, e além disso a senhora não percebia como é que o processo se desenrolava, e se perdia juros ou não, e falava de um modo apressado, quase nervoso, ao passo que a senhora do banco, que a tratava por "tu", podendo eu apenas presumir que já se conheciam, a cliente e a bancária, explicava-lhe tudo pausadamente. A linguagem, de facto, diz muita coisa, e a crise, pelos vistos, está mesmo aqui, ao nosso lado, à vista desarmada, bastando para isso a gente ir ao banco. E também é incrível, quanto a mim, e este adjectivo assume aqui conotação fortemente negativa, que o banco obrigue os clientes a tratar de assuntos destes (o destino das suas poupanças) assim ao balcão, para toda a gente ouvir. Agora sinto-me um tanto ou quanto mal por ter descrito aqui este incidente, para toda a gente ler, mas não vou apagar nada.

Depois fui tomar café (e também um pequenino, mínimo pastelinho de nata) e constatei que havia dois écrãs plasma ligados, um na Sic, outro na Tvi. O som estava cortado, porque a rádio estava ligada, embora baixinho, para que as pessoas pudessem, por um lado, deliciar-se com a qualidade das imagens de pelo menos duas estações de televisão, e por outro arrebitar os ouvidos para decifrar, no incomodativo sussurro de fundo, a música carnavalesca que a rádio passava. Em geral, o ambiente daquele café era muitíssimo agradável e a música ambiente cumpria a sua função. A minha conclusão relativamente a este segundo incidente é que vivemos efectivamente numa sociedade de excessos, de tal modo que não só podemos comprar bicas, doces e bolos de todos os tamanhos e feitios num qualquer café, como apreciar duas emissões televisivas na qualidade do plasma, docemente acompanhados pela música da rádio. Impressionante.

Dirigi-me, em seguida, ao supermercado, onde precisava de adquirir leite e iogurtes, já que eu sem iogurtes caio na fraqueza, e, quando saía, reparei que o chão estava molhado. Havia uma senhora de esfregona na mão a limpar o chão, uma outra senhora a olhar para ela a agarrar o joelho, e uma outra senhora mais gorda a abrir a boca para falar. Esta senhora mais gorda ilustrou, efectivamente, uma característica que eu já há muito pensava ser bastante própria dos portugueses, que é a dissimulação. Mesmo quando estamos zangados, nunca temos a coragem de começar a partir tudo desde o início. Vamos a medo, sempre devagarinho, para ver se nos podemos aventurar, se não. Foi o que se passou com esta senhora gorda que, numa verdadeira escalada de verdadeira violência verbal, enceta e perpetua o seguinte diálogo com a senhora da limpeza:

- Olhe, desculpe lá, mas tem de pôr aqui um sinal a dizer que isto está molhado. Não vê que esta senhora ia caindo? (e aponta para a senhora agarrada ao joelho, que pelos vistos está mesmo magoada mas nada diz, limitando-se a assumir o confortável papel de transeunte curiosa)

- aaaah... não está assim tão molhado.... (resposta, de facto estúpida, da senhora da limpeza, que só tinha de pedir desculpa e ir buscar o tal sinal a dizer: atenção - piso molhado)

- Minha querida, tudo certo. Mas esta senhora magoou-se e podia ter sido eu, ou você!

Com este "minha querida", fiquei convencida que tudo teria uma solução pacífica, e afastei-me para me ir embora. Esqueci-me que um "minha querida" encerra muita mágoa, de modo que, depois de umas breves respostas da senhora da limpeza que não consegui perceber bem, ouço, audivelmente, a senhora gorda, já descomposta, indignada, e absolutamente esquecida do "minha querida":

- Você tá-se a rir! VOCÊ TÁ-SE A RIR?! Se fosse comigo, você não se ria, ouviu? Havia de ser você a cair aqui, havia de ser você, só queria tar aqui para ver, você não se ria, ouviu, VOCÊ NÃO SE RIA, SE FOSSE EU SUJAVA-LHE ISTO TUDO, HAVIA DE FICAR AQUI O RESTO DO DIA, VOCÊ IA VER!

Continuei no caminho de casa e deixei de a ouvir. Não sei se efectivamente a senhora gorda foi patinhar no chão que a senhora da limpeza tinha lavado, só por desfeita, mas sei que estas últimas palavras que ouvi da indignada senhora gorda já revelavam completo descontrolo e completa revolta. Devo dizer, no entanto, que estou do lado da senhora gorda. A senhora da limpeza parece-me um bocado parva, se efectivamente se pôs a rir da outra senhora agarrada ao joelho. Um bocado estúpida, de facto.

Há dias em nos acontece de tudo. Falta-me ser o James Joyce para transformar todos estes incidentes em livro e dar-lhe um título original, do estilo "As Ondas", ou um título mais longo como " Mrs F. said she would buy the flowers herself", qualquer coisa assim, muito original.

Porque é que eu ainda sou parva e vejo os Oscars?


Eu sei que os Oscars não interessam, e que olvidam sempre os filmes verdadeiramente bons, e isto e aquilo, mas eu, normalmente, costumo seguir a cerimónia dos Oscars e prestar atenção aos prémios. E costumo zangar-me quando os actores e os filmes que eu acho que merecem ganhar não ganham. De modo que me indignei muito quando Intervenção Divina, de Elia Suleiman, não apareceu na corrida a Melhor Filme Estrangeiro em 2003 porque "a Palestina não é uma nação"; achei uma injustiça sem nome que um filme anódino, de porcaria, como Crash, ganhasse ao lindo Brokeback Mountain; e este ano indignei-me com uma série de coisas, a começar logo pela carinha laroca da Penélope Cruz a ganhar o Oscar. Acho que esta actriz não esteve nada mal no Vicky Christina, mas meu Deus, este filme é indiferente, a interpretação da Penélope não é nada de especial, uma vez que o filme em si também não é - Oscar, a que propósito?

Falou-se muito do espantoso regresso desse valdevinos de cara à banda e estilhaçada que é Mickey Rourke, e bem, quanto a mim. Quero muito ir ver o Wrestler, e quem já viu diz-me que é um bom filme e que Rourke está muito bem. Falou-se pouco, ou não o suficiente, dessa underdog esquecida, provavelmente por culpa da mesma, que é Marisa Tomei, que nunca conseguiu fazer uma carreira de jeito, talvez por opções parvas em filmes sofríveis e papéis embaraçosos, mas que tem talento, e que, não tendo a cara à banda nem destruída pelo boxe, também conseguiu o seu comeback com o Wrestler. Eu, pelo menos, acho que sim. O Oscar que ganhou em O Meu Primo Vinnie foi merecido, quanto a mim; a sua interpretação em In the Bedroom foi óptima e sensível, e ainda não vi o Wrestler, mas não tenho dúvidas em acreditar que estará muito bem neste filme. Porque não valorizar este comeback de uma actriz que se anda a esforçar, pelos vistos, em vez de premiar a Penélope, que raramente faz coisas de jeito a não ser quando entra nos filmes do Almodovar? Não percebo.

Outra coisa que não me entra na cabeça é dar um Oscar a alguém que já morreu e que já não precisa deste tipo de reconhecimento para nada. Que lhe fizessem uma homenagem, pronto. Eu vi o Dark Knight e gostei muito de Heath Ledger. Mas também vi Tropic Thunder, que me fez quase chorar a rir, e adorei o Robert Downey Jr. Este sim, está vivo e se calhar um Oscarzito até lhe fazia jeito, para se esquecer dos tempos passados na prisão e tal (apesar de já ter saído da prisão há algum tempo). Fiquei um tanto ou quanto irada ao ver Downey Jr perder para Heath Ledger que, sim senhora, faz um grande Joker mas pronto, nada de épico, e além disso já morreu - vocábulo operativo, este "morreu"; Heath Ledger já não precisa do Oscar, há que reiterar. Que mania que os Oscars têm de desvalorizar a comédia, pá, e que mania que têm de se derreterem todos quando acontece alguma tragédia. Realmente, é uma infelicidade que um actor tão novo e tão talentoso como Heath Ledger tenha morrido, mas enfim, paciência, se há outro tipo melhor do que ele e que merece mais ganhar o Oscar, qual é o problema? Os Oscars têm de ser imunes a funerais. Se calhasse ter morrido o Downey Jr, tinham-lhe dado o Oscar a ele, independentemente da interpretação.

Quanto ao resto, nada a dizer, não quero saber. Gostei de Benjamin Button e gostei muito de Brad Pitt a fazer de Benjamin Button, mas pronto, o Sean Penn é muito bom actor, também. Não vi Slumdog Millionaire, não duvido que seja um bom filme, duvido apenas que seja assim tão bom que mereça um Oscar, mas também, nos dias de hoje, um Oscar já não quer dizer assim tanto. Hollywood, como o resto do mundo em geral, afunda-se na crise (ainda há poucos dias lia este artigo na Vanity Fair sobre isso - será que a crise significa o fim dos filmes indie, levando os estúdios a apostar apenas, de futuro, em produções mais comerciais sobre super heróis e blockbusters em geral, apostas de bilheteira seguras?). A modesta cerimónia de ontem, mais "toned down", por comparação com a grandiosidade exagerada dos anos anteriores, mostra isso, talvez. A crise tanto pode dar para fazer filmes com menos meios, mas muito melhores, como para que as pequenas produtoras fechem as portas, os grandes estúdios encerram as sucursais às quais dão dinheiro para produzir filmes mais interessantes, o que já está a acontecer, e para que os cinemas, consequentemente, só passem Batman e Iron Man e sei lá que mais. Eu gosto do Batman, mas tudo o que é demais é moléstia.

É o que eu tenho a dizer sobre os Oscars. Para quem diz, por ser mais estética e politicamente correcto, que os Oscars não são assim tão importantes, acho que já alonguei demasiadamente sobre este assunto.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Banda que eu não queria que fosse o meu estilo mas é: The Kills

Mas estes The Kills, quem é que são e de onde vêm?
Diz-me a Wikipedia que ela é americana, ele é inglês, e conheceram-se e depois formaram uma banda rock-indie-minimalista-anarca-punk-alternative-etc. Eu acho que esta banda é muito esquisita, porque comecei a ouvir falar deles de repente, a ouvir as canções deles de repente, participaram no álbum de homenagem a Serge Gainsbourg e tudo, Gainsbourg Revisited, de que já falei, está ali mais abaixo, o cantor desta banda parece que já vai casar com a Kate Moss e tudo, ou pelo menos ia, a rapariga desta banda tem um ar heroinómano mas no entanto saudável, fuma muito e no geral tem um ar "eu sou muita gira e tu não te metas comigo que eu não tenho medo de ninguém porque sou super-indie e cool e por isso é que fumo e tenho verniz preto descascado nas mãozinhas". É daquelas bandas que apareceu e de repente toda a gente se sente na obrigação de dizer que gosta, para se mostrarem actualizados e serem muito indie, também. O próprio nome da banda é esquisito e pede encarecidamente que o levem a sério, The Kills e tal, um nome à séria, meio violento, meio punk, pouco convencional (apesar de já haver uma banda chamada The Killers, o que está mal).
Os Kills, independentemente do que diz a Wikipedia, não me parecem lá muito independentes nem alternativos. Parecem-me um produto absolutamente estereotipado que quer desesperadamente que as pessoas pensem que é alternativo e indie. E eu gostaria, de facto, de poder dizer que não gosto dos Kills, que não caio que nem uma patinha em toda esta produção falsamente rock alternativo, rebelde, cigarros e verniz descascado. Mas a verdade é que caio, de facto, que nem uma pata. Gosto dos Kills, ou melhor, dos The Kills, porque não consigo evitar, este ar que eles têm de quem não quer saber, as guitarras, a voz entediada e sonolenta dela, o ar todo convencido, enfim, gosto.
Que chatice. Sou tão convencional.

Alergias

Sou uma pessoa hiper-sensível à linguagem, e em particular às formas de tratamento da língua portuguesa. Algumas pessoas fazem alergia ("há-lér-gia", como às vezes se ouve, apresentando grande comicidade, pelo menos quanto a mim) aos lacticínios, outras às nozes, outras aos morangos; eu faço "hálér-gia" às formas de tratamento, mormente a forma "tu" (para além, obviamente, do hediondo "você", mas sobre isso já escrevi aqui).
Faz-me impressão tratar por tu uma pessoa que não conheço bem. E ainda me faz mais impressão quando as pessoas me começam a dizer, "mas trata-me por tu, mas não faças cerimónia comigo, tu está à vontade". É normalmente nestas alturas que me apetece dizer, ponto um, faço cerimónia se eu quiser, ponto dois, consigo não quero estar à vontade. É que, de facto, há pessoas de quem não queremos ser amigos, não é? Há pessoas com que não queremos estar à vontade. Normalmente, estas pessoas que gostam, literalmente, do "tu-cá-tu-lá" não percebem que elas não nos estão a fazer favor nenhum quando, caridosa e generosamente, insistem em que as tratemos por"tu"; nós é que lhes estamos a tentar, delicadamente, dizer que a distância é sempre o melhor remédio e o melhor caminho, ao insistirmos na terceira pessoa do singular. Mas enfim, há certas pessoas, não percebo bem como, que querem, pelo menos ao nível da linguagem, mostrar que gostam de toda a gente e que são amigas de toda a gente, quando qualquer pessoa normal sabe muito bem que isso é impossível.
Assim sendo, eu geralmente desconfio sempre das pessoas que recorrem logo ao "tu" na ânsia de demonstrar que nos são próximas. Também desconfio das pessoas que são exageradamente simpáticas, e sorriem imenso, e insistem em cumprimentar-nos sempre, todos os dias sem falta, com dois beijinhos (oh pá, haja paciência para os beijinhos, tenho um colega que não falha com a porcaria dos beijinhos, qualquer dia digo-lhe, "olhe, hoje não vai dar, ok, olhe que eu estou com herpes mas não se nota, portanto veja lá", e ele assim fica assustado e deixa-me em paz). Conheço uma outra pessoa que é assim, sempre a sorrir imenso, sempre muito simpááááática, tanto beijinho, tanto que ela goooooosta de mim, e considerando que nunca falámos mais do que dez minutos seguidos, não tenho dúvidas de que todos os seus sentimentos e simpatia são absolutamente sinceros.
É neste aspecto que eu gosto dos ingleses em geral, pelo menos tomando em consideração aquilo que deles tenho observado. Os ingleses são distantes, são reservados e a gente nunca sabe bem em que é que eles estão a pensar, mas pelo menos nunca por nunca se armam em amigalhaços, nem desatam aos beijinhos e aos sorrisinhos. Aperto de mão e chega.
E esta atitude dos ingleses em particular é que está bem. Beijinhos é só para amiguinhos e namoradinhos, é o que tenho a dizer à sociedade portuguesa.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Gosto de Tim Robbins


Os Óscares aproximam-se, e deve ter sido por isso que me lembrei deste filme de Robert Altman, O Jogador, protagonizado por Tim Robbins, actor de quem, aliás, gosto bastante.
Não sei se o filme desmascara a charada e os meandros mesquinhos de Hollywood porque, não sendo frequentadora dos mesmo meandros, não estou em posição de julgar. Porém, The Player conta com vários actores playing as themselves (lembro-me do pequeno cameo de John Cusack, por exemplo, de quem gosto tanto que desculpo faux-pas como Serendipity e restantes porcarias que ele às vezes se lembra de fazer), e com Tim Robbins como executivo de um grande estúdio de produção que recebe cartas anónimas que o ameaçam de morte, sendo que toda a gente é mentirosa, falsa, manipuladora, egoísta, sem escrúpulos, gananciosa, e ainda por cima nem sequer tentam esconder semelhante catadupa de defeitos e imoralidades. Mesmo assim, o filme consegue ter sentido de humor devido, provavelmente, ao seu desavergonhado cinismo. E tem bons actores.
Ideal para ver antes desse espectáculo imenso de red carpet do princípio ao fim que são os Óscares, acho eu.
Nota para dizer que Tim Robbins escreveu, realizou e protagonizou também um dos filmes mais brilhantes e engraçados que já vi, Bob Roberts, em que encarna um político de extrema direita, oportunista, fundamentalista, red neck, e restantes adjectivos maléficos que possamos imaginar, e que ainda por cima gosta de andar de guitarra atrás a cantar "grandma felt guilty for being so rich/and it bothered her until the day she died/ But I will take my inheritance/ and invest it with pride/ invest it with pride", e que ainda por cima é filho de pais de esquerda que o criaram numa comunidade hippie. Ah, ah! Maravilhoso e premonitório, diria eu, considerando que Bob Roberts saiu em 1992.
Deixo um clip que demonstra bem o ideário destes Bob Roberts que por aí andam espalhados e que Tim Robbins satirizou tão eficazmente, para nos dar o conforto de podermos, ao menos, rirmo-nos dessa gentinha que anda por aí. A mensagem é clara e simples: "don't get caught.Make millions". E ainda por cima é uma versão de Subterranean Homesick Blues de Bob Dylan. Lindo. A ver, definitivamente.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Ai, eu sou tão proustiana, tão proustiana que eu sou, ai, sou tão proustiana, que maravilha...


O saco de água quente ainda vai demorar, a água está ao lume porque a porcaria da cafeteira eléctrica avariou-se, de modo que vim para aqui escrever enquanto espero que a água ferva.
A maior parte dos meus dias, e acho que isto acontece também com a maioria das pessoas, pelo menos as pessoas que eu conheço, são um bocado estúpidos. Há sempre tempo que se desperdiça. Há sempre lugar para algum tédio. Há sempre a sensação de não se estar a optimizar a capacidade de se ser produtivo. Há sempre a frustração de sabermos que, independentemente dos nossos esforços, não estamos a ir a grande lado. Ficamos sempre no mesmo sítio. Mesmo que nos pareça que as coisas estão a mudar, talvez até a progredir, o que acontece é que a vida tem uma capacidade assustadora de fazer com que tudo fique na mesma, de modo a reconduzir-nos sempre, inevitavelmente, ao mesmo sítio. Nunca vamos a lado nenhum. É como aqueles labirintos fascinantes do Escher, as pessoas parece que vão para sítios muito distintos, e depois vemos que o próprio labirinto não lhes dá hipótese absolutamente nenhuma de irem seja onde for.
É como eu à espera que a água ferva, ou as pessoas que ficam à porta do restaurante quando são as primeiras a chegar para uma festa de anos. Ainda há pouquíssimo tempo presenciei isso mesmo. Cheguei, com a aniversariante, ao local onde se tinha combinado o jantar, e já estava lá toda a gente, a entreolhar-se de forma suspeita, de sorriso desconfortável e polido no rosto. aguardando o momento em que finalmente se podiam começar a divertir. Eles não sabiam, mas aquela espera era digamos que uma metáfora da vida deles e da minha também. Estamos sempre à espera que a festa comece ("é agora que me vou divertir, é agora que me vou divertir?"), só que a festa nunca começa, e em vez de entrarmos no restaurante, ficamos sempre especados à porta, à espera.
Acho que o pouco consolo que esta historieta oferece é que nós não entramos no restaurante da mesma forma que ninguém entra, nem mesmo a Rainha de Inglaterra ou o Bill Gates. A nossa condição é esta, andar por aí a tentar, armados em parvos, a desejar que nos aconteça qualquer coisa e que, de preferência, seja uma coisa boa.
O Chico Buarque também canta mais ou menos sobre isto - "vou, uma vez mais, correr atrás de todo o meu tempo perdido. Quem sabe foi achado, e está arrependido o ladrão que andou vivendo com o meu quinhão..." Não é bem sobre isto, mas é mais ou menos, porque andamos todos a desperdiçar tempo enquanto esperamos, basicamente.
E termino aqui, porque por um lado até eu já começo a achar que este post está com cada vez menos pontas por onde se lhe pegue, e por outro lado a água quentinha já ferve. Pequenos prazeres da vida, enquanto espero para entrar no restaurante, ou que o labirinto me leve a algum lado, ou sei lá que mais.

Desabafo

Eu tinha uma coisa muitíssimo inteligente para dizer. Uma coisa tão inteligente que até exigiu, imperiosamente, que eu interrompesse o interessantíssimo trabalho que estava a fazer para vir para aqui escrever.
Mas esqueci-me.
Trabalhar é tão chato, pá.

Directa sim, eu declaro morte ao sol, directa não, e a quem o apoiar


Os dias de sol são tão nefastos e tão avessos à escrita.
Tudo reluz, tudo é bonito, as pessoas começam a fazer figura de parvas a usar T-shirts e sandálias em Fevereiro e andam de sorriso no rosto, os campos revestem-se de verde luxuriante, as azedas amarelinhas despontam por todo o lado (até em Lisboa), o trânsito parece que diminui, já todos pensam na praia e nas gambas, a vontade de trabalhar diminui, a preguiça e a languidez aumentam, a vontade de ficar na esplanada a olhar a calmaria do entardecer torna-se irresistível, as criancinhas jogam à bola no parque e riem daquela maneira que só as crianças sabem rir, e nós, os cotas, ficamos todos derretidos, que remédio, as pessoas que insistem em vestir-se de castanho, cor que eu pessoalmente não compreendo e que abomino, parecem menos feias, ficam quase bonitas, enfim, tudo parece bonito e bondoso, uma magnífica criação cuja perfeição nos contagia, como resistir ao optimismo, como resistir à alegria?
Não é possível.
O que coloca um grande problema na minha vida. Eu não me dou bem com a alegria. Sou uma pessoa para quem a alegria não é exactamente produtiva. Ou bem que passo o dia a esvaziar-me verbalmente de toda a bílis, como dizia o Eça, ou bem que não o faço e o melhor é calar-me, porque o discurso da felicidade não é para mim. Para coisas fofinhas e queridinhas já basta o dia de S. Valentim, talvez o dia mais ridículo do ano, e que foi este fim-de-semana, de modo que já tive dose suficiente de fofinho e queridinho e alegria.
Tenho de voltar ao meu querido, velho pessimismo, à soturnidade, à bílis, enfim. Sei que não é bonito de se dizer, mas é assim.
A questão, porém, que eu aqui levanto é esta: como voltar à amargura quando o sol brilha desta maneira? Como? Não sei. Mas que o sol não combina como o meu modus operandi nem com a minha personalidade, isso sei eu que não. E escolhi esta fotografia para ilustrar que o sol é lindo, saudável e faz bem, mas consegue ser muito piroso. É a minha opinião.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Mundo bizarro

Hoje aconteceu-me uma coisa estranha, estranha, estranha.
Acordei e fui trabalhar. Estava tudo dentro da pacata normalidade do costume, quando abri a boca para falar e ficou tudo a olhar para mim. Ouvi-me a mim própria a falar, e o que dizia fazia sentido dentro da minha cabeça, mas para os outros não. De facto, a língua que eu estava a usar não era português e, estranhamente, também não era nenhuma outra língua que eu conhecesse. Era uma série de sons pausados, uns mais guturais, outros mais agudos, outros mais graves, que ressoavam na minha cabeça e formavam as palavras que eu queria, mas que os outros não conseguiam perceber. Tentei, tentei a sério, voltar ao português, mas não me saía uma única palavra nesta língua, nem uma única.
Ficou toda a gente muito preocupada comigo, porque eu tentava desesperadamente fazer-me entender e não conseguia. Ainda por cima, o meu trabalho exige que se fale muito, o que até hoje sempre considerei como uma grande vantagem, já que, à partida, gosto de falar. Mas hoje não consegui, não consegui falarcom ninguém, tentava e as pessoas faziam esgares de pena, de esforço para me perceber, tudo em vão. Quiseram chamar uma ambulância e tudo, mas eu lá consegui acenar que não, não queria ambulância nenhuma.
Parecia aquele filme da rapariga que acorda de manhã, chega ao escritório, tenta falar pela primeira vez naquele dia e não lhe sai nada, apenas uma série de sons desarticulados à homem das cavernas, e quanto mais ela tenta falar inglês, menos consegue, até que acabam por a mandar para o hospital, onde não descobrem a origem da sua doença nem muito menos conseguem explicar a razão para a língua materna, subitamente, se ter evaporado do cérebro da rapariga, e ela acaba por ficar sozinha para o resto da vida internada num hospital de malucos; no entanto, torna-se numa grande escritora, pois no tal asilo psiquiátrico, descobre que ainda consegue escrever na sua língua, de modo que desata a escrever desenfreada e maravilhosamente; há um médico que lê os seus textos, envia para uma editora, e a rapariga publica livro atrás de livro, acabando sozinha mas em glória. Levaram-na de ombro em ombro, encheram-lhe de flores o quarto, mas ela morre sozinha e cínica, pois sabe que é sempre a mesma história, depois do primeiro assombro logo o corpo fica farto.
Não sei se há um filme assim, mas devia haver, porque me parece ser um bom filme.
De modo que foi isto que me aconteceu hoje, e fez-me lembrar o tal filme, porque, sabe-se lá porquê, não consigo falar português, nem inglês, nem nada que não seja um conjunto de sons irreconhecíveis, mas ainda consigo escrever.
Mas não me vou tornar numa desenfreada e maravilhosa escritora.
Talvez este malefício que me aflige já tenha passado amanhã de manhã.

The Lusiads - intróito à versão blockbuster


O que eu queria mesmo, mesmo, mesmo era conseguir escrever um post sobre uma possível versão-blockbuster-americano dos Lusíadas. Uma amiga minha dizia-me, há pouco tempo, que não é só o Eric, vulgo Eurico o Presbítero, que tem potencial para filme americano; os Lusíadas também têm e bem. E esta minha amiga tem igualmente toda a razão.

Imagino o seguinte, como introdução aos Lusíadas, versão blockbuster: Diogo do Couto chega à Índia, à procura do seu libertino amigo Luís Vaz de Camões. Trata o Camões por LC, porque são amigos há muito tempo e dá um ar moderno ao filme. Diogo do Couto chega à Índia, olha para aquilo, aquele pó todo, com um ar contrafeito, incomodado, quase altivo (mas não muito altivo, porque o Diogo do Couto é boa pessoa, pelo menos no filme é, e acho que na vida real também foi bom homem e um amigo dedicado). Vai andando pela Índia (convém que sejamos mais restritos e digamos, por exemplo, que está em Goa) e acaba por encontrar o LC numa tasca indiana, com uma rapariga meio oriental ao colo. E segue-se, na minha cabeça, um diálogo mais ou menos assim:

Diogo do Couto (doravante DC): LC, here you are, finally! I've been looking everywhere for you! Where have you been? I've come to take you back. You need to get your ass back in Lisbon. Everybody is asking about you there, even the king wants you to write something for him. You got your stride back. Everybody will know what a great poet you are.

LC (olha para Diogo do Couto, com um sorriso amargurado, os olhos húmidos, emocionado por voltar a ver o seu velho amigo. Olha para a rapariga chinesa ao seu colo e dirige-lhe um leve aceno de cabeça; ela percebe que é para se ir embora, dá um beijo ao poeta, levanta-se e desaparece não sei para onde; Camões detém o olhar nela por uns minutos, e volta-se depois para Diogo): D, it's great to see you. Isn't she lovely? I've met her in China a couple of months ago. She's called Barbara. Unusual, isn't it? She's the one, I can feel it.

DC (impaciente): LC, stop that, always with women on your mind! Yeah, right, she's the one. She's the one till the next one comes along. Forget about the dames. They ruin your poetry and they break your heart. What happened to you? I read the poems you sent me and quite frankly, I mean, all that verse about "the slave that has got me enslaved", really... what are you now, a teenager? You should be writing epic poetry, man. Epics - that's what you were born for. That's what the king wants. Not some good for nothing chit chat about women and how they move their eyes and how piteous they are... nobody cares about that. It's not manly.

LC (novamente com um sorriso amargurado): I'm sorry you feel that way, D. I really am. I prefer to think that my verses are honest. No more, no less. But I guess you'd be pleased to know that I'm working on a new piece. It's got nothing to do with the "dames", as you call them.

DC (entusiasmado): Really?! Do tell.

LC: Yeah... it's like... I don't know yet, but I'm thinking about writing something on Portugal's new business venture. You know, all the new lands and the discoveries and all the money we're making with buying and selling and all that. I'm thinking of including Vasco da Gama. I like him. I thought of Bartolomeu as well, but Bartolomeu, I don't know...his name is too long and he didn't quite make it to India. If I choose Vasco as the main character, I can talk about his trip to India. Maybe I'll throw in a couple of monsters. I can think of one in particular, Adamastor. A couple of Greek gods... all set in the sea... maybe a sex scene towards the end, of course. You know what they say, sex sells. Well, and that's it, basically.

DC: Man, that is great. That is amazing! That sounds a lot better than that good for nothing poetry you've been writing. So, what are you going to call this new poem?

LC: I don't know. Maybe the Lusiads, you know, to give it a traditional Portuguese flavour to please the King.

DC: Oh, the King will love it, he will love it. He's thinking of actually paying you if you do this, you know. He's just a kid, anyway, whatever you write, he'll love it.

LC: I know. That's why I'm doing this. I need the money. What can I say, I'm selling out.

DC: Stop that. We all need to make a living. What do you want to do, die in poverty and spend your last days going to the royal palace, slowly, to collect your fee? Letting our country kill you slowly, a country that will not ask you to sing, but will ask you to be patient? Forget about that. You're going to write the Lusiads, you're going to be rich, and the country will love you till you die.

LC (com um encolher de ombros desanimado): If you say so. But I'd much prefer that people remembered me years from now, maybe even centuries from now. At any rate, I don't think the King will be too please with what I'm going to write.

DC: Oh, stop that. I told you, the King is young and stupid, he'll love anything. And forget those dreams of immortality, you know very well you're not Homer. You're still great, don't get me wrong, but isn't it more important to earn good money instead of having a bunch of kids reading your books in school hundreds of years from now? I think the answer is quite obvious.

Fade out

E depois disto, o filme abre com uma cena mais que épica, a proa gigante de uma nau a cortar o oceano, ou coisa assim, e banda sonora ribombante.

Sei que é quase pecaminoso pôr o Camões a falar inglês. Mas isto seria apenas e só um estratagema para o tornar mais conhecido no mundo inteiro, para as pessoas terem muita curiosidade para depois aprenderem português e ler os Lusíadas em todo o esplendor da língua original.

Espero que resulte. Agora só me falta escrever o guião versão blockbuster americano adaptado dos Lusíadas. Vai ser fácil, fácil.