sexta-feira, 23 de janeiro de 2009
Massacre das Teclas
F. Scott, já te tenho dito que não é bonito andar a invejar
Gajo com pintarola: Johnny Cash
Também deixo aqui uma das minhas absolutas favoritas de Johnny; não deixo o vídeo porque é imensamente foleiro, cheio de celebridadezinhas a quererem ser "fixes" e a fingir que cantam a música, para ver o seu nome associado postumamente a Johnny Cash. Deixo só a lindíssima, épica canção que reza "tell them that God's gonna cut them down" (a letra é de uma sonoridade, de uma imagética espantosa, acho eu - I've been down on bended knee, talking to the man from Galilee, he called my name and my heart stood still, for he said, John, go do my will).
Gods Gonna Cut You Down - Johnny Cash
quarta-feira, 21 de janeiro de 2009
Hello Kitty vs Dartacão

DArtacao e os Tres Moscaoteiros -
I loooooove Serge

Conversas de café - II
- Ah, e como é que fez?
- Pois é, resolveu-se o problema.
Que giro, quando ouvi esta conversa percebi que há pessoas que não sabem para que servem autocarros. Devem olhar para eles e pensar "ah, lá vão aqueles veículos grandes, com tanta gente lá dentro, aquilo será para quê? Será que vão levar imigrantes até à fronteira com Espanha e deixá-los lá? Deve ser isso, deve"
Conversa de café
(esforçando-se por exarcebar a falsa modéstia, mas não enganando ninguém relativamente ao contentamento que o elogio lhe provocou) - Tou gira? Ai, não percebo como, o cabelo a precisar de ser arranjado, todo despenteado, com o vento... mas já é a segunda pessoa que me diz que eu tou gira, não sei com'isso é... (sorrisinho disfarçado)
- Pois. Também não vinha cá há tanto tempo, se calhar é isso...
- É, mas eu gosto de cá vir, vir cá ver vocês.
- Pois.
- Tive uma manhã tão complicada, ai.
- Ah...
- Então, convida-me uma colega para ir com ela ali à Junta de Freguesia, qu'ela tinha qu'ir tratar dum cartão pá filha. E eu disse, vamos lá, então. Chegamos cá abaixo, vai ela, vê que são horas de almoço, mete-se no carro e diz-me assim, ó X, olha, eu agora não te posso ir levar lá acima!
- Ah, teve de ficar cá em baixo... olha...
- Pois é, fiquei cá em baixo! Mas isto tem algum senso? É que eu acho que não, não tem senso! Para mim não tem senso, né.
-Pois. Oh, também deixe tar, fique aí a almoçar.
- Tá bem, mas agora tenho de ir a pé lá p'ra cima, vou chegar atrasada e tudo...
terça-feira, 20 de janeiro de 2009
Songs for Drella

E é isto, hoje não tenho grande coisa a dizer, nem a escrever e nem a pensar. As terças-feiras matam-me.
segunda-feira, 19 de janeiro de 2009
Personagens literárias mais cool de sempre - II
James Kaatz (aka Jay Gatsby), directed by F. Scott Fitzgerald in The Great GatsbyFor his brilliant rendering of a man torn between a shallow life of parties and public acknowledgement and a hidden, secret love which ultimately leads to his destruction and shatters his identity; for being mysterious, loyal, dedicated and ultimately a "poor son of a bitch", the Academy is proud to present the nominee for Best Male Character in a Leading Role: Jay Gatsby
Edmund, directed by William Shakespeare in King Lear
É só votar.
domingo, 18 de janeiro de 2009
Tempestade no Chapitô

Vale mesmo muito a pena. Grande encenação, grande trabalho de representação. O próprio Shakespeare gostaria deste espectáculo, acho eu. De facto, ver Shakespeare encenado é perceber verdadeiramente a razão pela qual este dramaturgo é grande (o maior) entre os grandes. A universalidade, a versatilidade, a beleza das peças são uma constatação, um sofisma inegável, e este espectáculo, visual, físico, é disso demonstração. Em Shakespeare, de facto, está tudo: o teatro, a ilusão, a vida (curiosamente, é em Tempest que Prospero declara o verdadeiro e belo we are such stuff as dreams are made on; and our little life is rounded with a sleep - estará ele a falar da vida, do teatro ou dos dois?).
sábado, 17 de janeiro de 2009
Exílio

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009
Duas coisas insignificantes que me irritaram levemente
quinta-feira, 15 de janeiro de 2009
The time has come to talk of many things: of shoes and ships and whether pigs have wings (post parvo)

E foi esta conclusão brilhante que retirei de um tão simples acto cometido num dia chuvoso, que foi ouvir Alice de Tom Waits, e que demonstra igualmente que, nos dias em que insistimos em escrever posts apesar de não termos nem uma única ideia de jeito nem nada para dizer, inventamos as parvoíces mais maribolantes para que saia qualquer coisa do teclado. Desculpe qualquer coisinha.
He's dreaming now,' said Tweedledee: `and what do you think he's dreaming about?'
Alice said `Nobody can guess that.'
`Why, about YOU!' Tweedledee exclaimed, clapping his hands triumphantly. `And if he left off dreaming about you, where do you suppose you'd be?'
`Where I am now, of course,' said Alice.
`Not you!' Tweedledee retorted contemptuously. `You'd be nowhere. Why, you're only a sort of thing in his dream!'
`If that there King was to wake,' added Tweedledum, `you'd go out -- bang! -- just like a candle!'
`I shouldn't!' Alice exclaimed indignantly. `Besides, if I'M only a sort of thing in his dream, what are YOU, I should like to know?'
`Ditto' said Tweedledum.
`Ditto, ditto' cried Tweedledee.
He shouted this so loud that Alice couldn't help saying, `Hush! You'll be waking him, I'm afraid, if you make so much noise.'
`Well, it's no use YOUR talking about waking him,' said Tweedledum, `when you're only one of the things in his dream. You know very well you're not real.' (rio-me sempre com esta afirmação peremptória de Tweedledum, como se estivesse a dizer uma coisa muito normal, do estilo, "sabes muito bem que tens de ir à escola" ou algo semelhante).
`I AM real!' said Alice and began to cry.
`You won't make yourself a bit realler by crying,' ("a bit realler", outra pérola) Tweedledee remarked: `there's nothing to cry about.'
`If I wasn't real,' Alice said -- half-laughing though her tears, it all seemed so ridiculous -- `I shouldn't be able to cry.'
`I hope you don't suppose those are real tears?' Tweedledum interrupted in a tone of great contempt.
`I know they're talking nonsense,' Alice thought to herself: `and it's foolish to cry about it.' So she brushed away her tears, and went on as cheerfully as she could. (aqui está, vontade indómita de existir; não há qualquer argumento racional e lógico para a existência, ou se há, Alice não o consegue encontrar. Descartes, dá cá um saltinho que tens de vir resolver isto).
Aproveito para dizer que a edição que tenho da Alice é muitíssimo boa, "The Annotated Alice", edição crítica de Martin Gardner, publicada pela Penguin, e com os lindíssimos desenhos originais de Tenniel. Vale muito a pena, para todos os fãs da querida Alice. A maravilha da Internet também me informou de que Tim Burton está a preparar a sua versão cinematográfica da obra de Lewis Carrol, o que me deixa em grande expectativa, uma vez que, fã de Burton que sou, não consigo lembrar-me de ninguém melhor para levar Alice ao silverscreen.
quarta-feira, 14 de janeiro de 2009
(outra) Gaja que faz o meu estilo: PJ Harvey
Hoje estou imensamente musical, e por isso não me posso esquecer de falar aqui da grande PJ, que eu adoro, adoro, adoro.Parabéns a você

Hoje, o shuffle também passou por eles (Contentores, Casinha, Homem do Leme. A minha preferida continua, porém, Circo de Feras, chique a valer, como se diria n'Os Maias).
Quando era pequena, não gostava assim muito de Xutos. O meu irmão é que gostava, e uma vez obrigou-me a ouvir a sua recitação da letra de "Chuva Dissolvente", uma música que, à semelhança das músicas de Frutuoso França que fizeram a infância de Lobo Antunes e sobre as quais o mesmo escritor escreveu no Primeiro Livro de Crónicas, tem muita moral, segundo o meu irmão. Mais tarde, fomos a um grande concerto chamado Portugal ao Vivo, onde os Xutos tocaram, e foi inesquecível. É claro que para isto também contribuiu o facto de, em vez de bailarinas, terem arranjado umas strippers para abrilhantar o show e deixar toda a gente siderada, mas a música em si (sim, que os Xutos também a tocaram) foi uma animação.
Pequenos, minúsculos, pormenores
É muito engraçado descobrirmos pormenores na música ou nos livros de que gostamos, e que nos fazem gostar ainda mais deles. Por exemplo, já escrevi antes de que uma das razões pelas quais gosto muito, muito, muito de Measure for Measure, de Shakespeare, é o facto de Claudio, condenado à morte, replicar à irmã com um simples "Death is a fearful thing", ao tomar conhecimento que Isabella, a sua irmã, tem hipótese de o salvar se se oferecer carnalmente ao governador da cidade.segunda-feira, 12 de janeiro de 2009
You're living for nothing now, I hope you're keeping some kind of record
Este post serve dois propósitos.I'm writing you now just to see if you're better
New York is cold, but I like where I'm living
There's music on Clinton Street all through the evening.
I hear that you're building your little house deep in the desert
You're living for nothing now, I hope you're keeping some kind of record.
Yes, and Jane came by with a lock of your hair
She said that you gave it to her
That night that you planned to go clear
Did you ever go clear?
Ah, the last time we saw you you looked so much older
Your famous blue raincoat was torn at the shoulder
You'd been to the station to meet every train
And you came home without Lili Marlene
And you treated my woman to a flake of your life
And when she came back she was nobody's wife.
Well I see you there with the rose in your teeth
One more thin gypsy thief
Well I see Jane's awake --
She sends her regards.
And what can I tell you my brother, my killer
What can I possibly say?
I guess that I miss you, I guess I forgive you
I'm glad you stood in my way.
If you ever come by here, for Jane or for me
Your enemy is sleeping, and his woman is free.
Yes, and thanks, for the trouble you took from her eyes
I thought it was there for good so I never tried.
And Jane came by with a lock of your hair
She said that you gave it to her
That night that you planned to go clear
Sincerely, L. Cohen
Saiba tudo o que sempre quis saber. Os Beatles respondem.
1. És homem ou mulher? Her Majesty
2. Descreve-te: I am the Walrus
3. O que as pessoas acham de ti? Lovely Rita (optimisticamente falando)
4. Como descreves o teu último relacionamento? A Hard Day's Night
5. Descreve o estado da tua actual relação: You never give me your money
6. Onde querias estar agora? Strawberry Fields (Forever)
7. O que pensas do amor? A Day in the Life
8. Como é a tua vida? Fool on the Hill
9. O que pedirias se pudesses ter um só desejo? Please please me
10. Escreve uma frase sábia: Tomorrow Never Knows
domingo, 11 de janeiro de 2009
Este post é um lugar comum (centros comerciais, consumismos e quejandos)
sexta-feira, 9 de janeiro de 2009
Personagens literárias mais cool de sempre e que eu não me importava de ser (num universo alternativo, talvez)
Holden Caulfied, Catcher in the Rye, evidentemente. A personagem mais cool de sempre. Se eu fosse o Holden, sei lá o que é que eu faria... fumava muitos cigarros, sentava-me à chuva a olhar para o meu irmãozinho mais novo e a sentir-me feliz apenas com isso. Saberia, amarga e sarcasticamente, que o mundo é hostil e sem esperança, era uma rebelde sem causa, mas, no entanto, correria sempre atrás de uma causa, a ajudar pessoas no centeio, a tentar que as coisas fizessem sentido, e mesmo que não fizessem, eu ficava ali no centeio, a fumar, a ser cool e a apanhar pessoas, logo, a ser útil.Há muitas mais personagens literárias que admiro e que não me importaria de ser (por alguns dias, para experimentar). Mas, por enquanto, consigo lembrar-me destes três grandes catitas.
Candle Chant, DJ Krush. Porreiro, pá.
quinta-feira, 8 de janeiro de 2009
Bataille, Fnac, coisas em geral
Este livro é estranhíssimo. Li-o há uns meses e ainda estou a decidir se gostei, se não. Há livros assim, que nos fazem demorar algum tempo a formarmos algo que se possa designar por "opinião". Agora, que a"História do Olho" tem partes que me interessaram muito ao nível da escrita, isso é inegável, principalmente aquelas descrições obsessivas e muito físicas de ovos e glóbulos... interessante, sem dúvida.quarta-feira, 7 de janeiro de 2009
Linha do horizonte

Há alguns dias, vi na televisão um documentário sobre John Ford, onde Steven Spielberg participava numa pequena entrevista. Disse Spielberg que conheceu Ford quando ainda era um adolescente já aspirante a realizador. John Ford concedera-lhe 1 minuto do seu precioso tempo e mandou Spielberg olhar para uma série de quadros (acho que de Turner, como um destes que pus aqui, mas não tenho a certeza; o outro quadro que figura aqui é de Renoir) e perguntar-lhe o que tinha a dizer daquilo. Spielberg fico algo atrapalhado, e Ford mandou-o olhar para a linha do horizonte em cada quadro que via. "Onde é que está a linha do horizonte neste quadro? Em cima, a meio ou em baixo?", perguntou o velho realizador, que já na altura, ao que parece, era irascível e intimidante. "Em baixo", respondia Spielberg, ou "em cima". Não havia nenhum quadro em que a linha do horizonte estivesse a meio."Quando souberes a diferença ente colocar a linha do horizonte em cima ou em baixo, e não ao meio, serás um grande realizador", foi a avisada e peremptória sentença de Ford a Spielberg. Está mesmo muito boa, esta, achei eu. Fui ver uma data de quadros, e tenho prestado atenção à linha do horizonte nos filmes que vejo, e de facto está mesmo bem visto.
Guns of Brixton (o título não tem nada a ver com o post, mas sinceramente este é o melhor título de canção de sempre)
Eu acho que as pessoas, às vezes, não gostam mesmo nada de mim.
Disse, há horas atrás, a uma amiga minha que em geral não costumo apreciar grandemente filmes sobre histórias de amor (excepção feita a Woody Allen). Ficou a olhar para mim, horrorizada. Também fica a olhar para mim com expressões de repulsa quando eu lhe repito que gosto muito do Exorcista. Uma vez disse a outra amiga que não tinha gostado nada d'As Horas, nem do filme, e muito menos do livro, e também lhe meti nojo. E outra vez também disse a uns amigos que não ia nada, mas é que mesmo nada, à bola com Sigur Rós e aí, bem, caiu literalmente o Carmo e a Trindade, e deixaram de me falar e ostracizaram-me e "baterem-me" (quer dizer, isto sou eu a exagerar, mas ficaram a olhar para mim como se eu fosse uma má pessoa).
A verdade é que as pessoas, todos nós, e eu também, temos ideias pré-concebidas e muito formatadas daquilo que se deve gostar e do que não se deve gostar. É algo semelhante às "duas culturas" que C.P. Snow distinguia - a científica e a humanista, sendo que os que pertencem a uma nada sabem da outra, e depois é um problema e uma vergonha. A nossa vida social também se divide em duas, ou talvez mais, culturas, a cultura caviar das coisas de que se deve gostar, e a cultura parola daquilo de que não se deve gostar (ou então, de que só se deve gostar de forma muito secreta, porque senão é uma vergonha. Os chamados "guilty pleasures"- o inglês dá tanto jeito, não consigo evitar) - como todos sabemos, esta cultura parola rege-se por estereótipos como ir a centros comerciais ao fim de semana, música pimba, Paulo Coelho, ao passo que os esterótipos que me ocorrem para a cultura caviar é dizer que se vai ao King três vezes por semana, ou, de forma mais extrema, descrever o "Branca de Neve" de João César Monteiro como um filme belíssimo (aqui, não posso mesmo concordar. Gosto de muitos filmes de João César Monteiro, mas ouvir as pessoas a dizer, ao sair de "Branca de Neve", que o filme era "extraordinário"... bem). Episodicamente, há elementos que passam de uma cultura para a outra, e, por exemplo, quando o filme português "Aquele querido mês de Agosto" saiu, de forma óbvia apelando à cultura caviar, havia muita gente da mesma cultura a dizer, condescendentemente, que achavam muita gracinha à música pimba.
terça-feira, 6 de janeiro de 2009
8 constantes da vida para 2009
A princípio pensei que não fosse capaz de responder ao desafio simpático da S.M., mas acho que afinal até consigo. Tenho de revelar oito sonhos para 2009, embora seja uma tarefa mais complicada do que parece. Mas vou tentar.Dias de cão
Sell out
segunda-feira, 5 de janeiro de 2009
Demonstração de como todos os livros nos fazem pensar, até mesmo aqueles que não são assim muito bons
domingo, 4 de janeiro de 2009
Saudades dessa minha biblioteca
Ó tempo, volta para trás. Volta lá. Volta lá.
Não estou a começar o ano lá muito bem.
sábado, 3 de janeiro de 2009
Relativizar
Emily Brontë tinha escrito O Monte dos Vendavais e já tinha morrido
Orson Wells já tinha escrito e realizado Citizen Kane
John Keats já tinha produzido toda a sua poesia e morrido
o Marquês de Sade já tinha blasfemado e sido preso um ror de vezes.
a pátria, os camões, os aviões, os gagos coutinhos, etc.
sexta-feira, 2 de janeiro de 2009
Prémio para Melhor Blogger Hipotético vai para: Marquês de Sade
17 Agosto 1768, 13h00
A rapariga de hoje teve piada. Era a Alphonsine, de lá debaixo, da aldeia. Girinha, saudavelzinha, rosadinha, porreirinha, correu tudo lindamente.
A rapariga de hoje teve piada. Era a Madame de Laclos, do castelo aqui ao lado. Girinha, cheia de rendas e laçarotes, perfumadinha, porreirinha, correu tudo lindamente.
17 Agosto 1768, 14h00m
A rapariga de hoje teve piada. Era uma criadinha aqui da minha casa. Girinha, gordinha, a cheirar a bolinhos, porreirinha, correu tudo lindamente.
17 Agosto 1768, 14h30m
A rapariga de hoje teve piada. Era a minha mulher, que vive aqui comigo e que descobriu da criada. Girinha, caladinha, acabou por ficar porreirinha, correu tudo lindamente.
17 Agosto 1768, 15h00
A minha mulher não me deixa em paz. Voltou a abrir a matraca para resmungar por causa da criada. Não sabe ela da missa a metade, e mesmo assim só sabe chatear um gajo. Eu já me fartei de lhe dizer, "Ó senhora, mas não vê que eu sou um libertino! Matai-me ou aceitai-me tal como sou, porque nunca mudarei!", e ela mesmo assim sempre a chatear. Anda por aí a falar, qualquer dia ainda vou mas é parar à Bastilha.
19 Agosto 1768, 10h00
Pronto, vim mesmo parar à Bastilha, estou aqui no PC da biblioteca deles a actualizar o blog, para ver se escrevo qualquer coisa. E agora, pá? Já tinha uma data de coisas acertadas com o Conde de Lacoste para a gente ir fazer uma ronda a uma aldeia que ele conhece, que era para depois levar o pessoal todo para aquele chateau que eu já aluguei, grande festarola já toda preparada, e é que ainda por cima tenho o aluguer pago e tudo, e à conta da festarola eu queria ver se escrevia um livo a contar tudo, pelo menos os primeiros 120 dias da festarola (dá jeito serem 120 dias, é o título do livro). Até já tinha uma editora em vista. Bem, isso também se resolve, se não escrever o livro pode ser que consiga publicar o que escrevi aqui no blog, os primeiros 120 posts.
20 Agosto 1768, 10h00
Bem, a minha sogra é uma bruxa do pior. Quer dizer, quando foi para casar com a filha dela, tudo bem, para isso eu era só Marquês e não era libertino (e eu sempre a avisá-la, "ó senhora, olhe que eu sou libertino", e ela a insistir, que fazia gosto que a filha se casasse com um marquês), e agora, que estou aqui na prisão, ela ainda a fazer pior, quer ver-me em tribunal, enxovalhado, quer que eu morra aqui. Queridos leitores, vocês que gostam do meu blog, apoiem-me se fazem favor, arranjem-me uma petição online que é para ver se eu ainda vou a tempo da tal festa no chateau, tanto trabalho a organizar aquilo...
Agora tenho de me ir embora, o guarda aqui da prisão diz que eu tenho de ir fazer a minha cama (enxerga, quer ele dizer) e limpar a minha cela. LOL! Ele ainda não percebeu bem quem eu sou. Ai se eu te apanho lá fora, filho...
14 Julho 1789, 19h37m
Bem, ó leitores, lá consegui sair da prisa, mas quer dizer, graças a vocês é que não foi! Mas agora também já não é preciso fazerem nada, porque estes revolucionários são do melhor e ficaram todos contentes com o meu apoio. Já não posso ser Marquês, tenho de ser só cidadão, mas tudo bem. Agora é que vai ser o deboche a valer! Para este pessoal da revolução, não há regras nenhumas. Nem a Maria Antonieta pouparam, e isso eu por acaso tive pena (tive pena, vocês acreditem que sim! Tive pena pela primeiríssima e única vez na vida), porque sempre achei que aquela Maria Antonieta tinha um je ne sais quoi que eu gostaria de levar para o meu chateau e tal, mas pronto, agora não vai dar. Estes tipos da revolução, também, são um bocado exagerados, até eu acho que são.
10 Outubro 1803, 14h47m
Haja pachorra, pá, haja pachorra! Agora é este Napoleão, este Bonapartezeco, que me vem chatear! Era o que mais me faltava. Agora mandou-me prender. Diz que não gosta da Justine. Pois não gosta, se ele gostasse é que eu me surpreendia, aliás, se ele gostasse nem eu tinha escrito a Justine. Eu tentei falar com este Bonapartezeco, eu disse-lhe: "Senhor, em duas palavras dir-lhe-ei o que sou: orgulhosa ira, tudo levando ao extremo, de um desajustamento do pensamento face aos costumes que não tem igual, ah, e ateu até ao fanatismo. OK?". Mas ele é lá capaz de respeitar as opiniões dos outros. Agora estou para aqui num asilo de porcaria, estou outra vez preso, pá! Mas vocês acreditam nisto? Leitores, toca a mexer, olhem que eu desta vez quero sair daqui... tenho umas festarolas organizadas no chateau, vocês podem ir. Vá. Toca a mexer. Tirar o Marquês daqui.
Mudam-se os tempos?
Espero não estar a infringir nenhum direito de autor ao transcrever parte da entrevista a Herman José incluída no DVD do Tal Canal:Entretanto, estava longe a perspectiva de poder vir a fazer um programa, e a administração que estava na altura na RTP não morria de amores comigo […] aquela zona política do PSD para a direita viu-me sempre com algum desconforto. Eu representava uma certa indisciplina que não era cordial. Democracia sim, mas com um certo músculo. Foi de resto essa lógica, muito arrumada e muito social-democrata, que fez com que o Humor de Perdição fosse tirado do ar, uma vez que estava a incomodar a Igreja e alguns sectores que achavam que, apesar de tudo, a democracia tem de ter os seus limites – que continua a ter, em Portugal, limites extraordinários, noutros poderes onde Abril ainda não chegou, portanto as coisas são feitas de uma certa maneira. A liberdade tem de ser decente. E é um advento de um certo PS, linha José Niza, que ganha as eleições na altura, que faz com que, até com uma certa loucura, me seja proposta a feitura do programa. O José Niza era um fã, um soixante-huitard romântico, faz parte daquela geração, do alegre Abril, meu cravo, minha liberdade… abençoada geração. E então ele, à maluca, encomendou-me o programa.
Esta entrevista é muito elucidativa, como se vê por este excerto, e, de facto, não posso senão olhar para o Herman com uma admiração renovada. Já gostava dele antes, agora ainda gosto mais. Este homem, além de ser um inovador, o rosto do grande humor em Portugal, tem esta inteligência, esta lucidez extrema, que não se coíbe de desmascarar a pequenez deste país. Pensar no Portugal dos anos 80 é, infelizmente, um susto. Pensar em Portugal em 2009 também é, mas temos de acreditar que nos anos 80 era pior. Mas o que me faz reflectir, ao ouvir o Herman dizer coisas semelhantes às que aqui transcrevi, é saber que, infelizmente, as coisas não parecem ter mudado assim tanto. O “certo PS” de que Herman fala já não existe, e não há nada que se assemelhe a uma alternativa válida. A “abençoada geração” do cravo e da liberdade também já se parece ter esgotado. O que é que restou? As mesmas peias, os mesmos entraves, as mesmas terríveis ideologias de “democracia sim, mas com músculo”, “a liberdade tem de ser decente”, a mesma alergia à crítica, a mesma demagogia de que o bom governo é aquele que se faz com mão pesada, com autoridade, para pôr o povo na ordem, num país onde a indisciplina, curiosamente, cresce como cogumelos, como fungos mal cheirosos por todo o lado, onde todos aqueles bafejados pelo chico-espertismo se conseguem escapulir com pouco mais do que um ralhete bem disposto. Ao pensar nisto tudo, até me surpreende que um programa tão visionário com o Tal Canal tenha sido feito. Pelos vistos, não fosse um soixante-huitard de visão, e nunca teria acontecido. Tal como não acontece hoje, no Portugal de hoje, ainda o mesmo que, infelizmente, proibiu o Herman de ir para o ar porque apresentar a Florbela Espanca como uma flausina com tendência para o deboche, de facto, não se faz. Liberdade sim, mas decente.
É ao ouvir coisas como estas, que o Herman vai dizendo, e ainda bem que o faz, que me apercebo que, de facto, a nossa democracia está ainda em botão. Ainda nos falta comer muita sopa, como se diz, e isso entristece-me, principalmente porque é a minha geração, aqueles que nasceram já depois do 25 de Abril, que mais é atingida por este desnorte do país. Alguma coisa falhou nisto tudo. Foram eles, os velhos, que deixaram que, afinal, ganhasse o reaccionarismo, que as muralhas das velhas instituições, nunca renovadas, ainda nos emparedassem, como dizia Cesário Verde no grande Sentimento de Um Ocidental? Ou fomos nós, a grande esperança portuguesa, a primeira geração nascida em plena democracia, que deixámos o país ficar mal?
Não sei responder, e, aliás, nem sei porque é que escrevi isto, quando a minha intenção era voltar a escrever sobre o Herman.
Não gosto de escrever sobre isto.







