segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

You're living for nothing now, I hope you're keeping some kind of record

Este post serve dois propósitos.

Primeiro, dizer que gosto muito do filme aqui da fotografia, Sunset Boulevard, em português Crepúsculo dos Deuses (este título até está giro), que acho assombroso. A Norma Desmond, personagem do filme, interpretada por Gloria Swanson, também ela uma diva envelhecida e démodé na vida real, é uma velha actriz cujos dias de glória já passaram, só que ela ainda não sabe, e vive fechada em casa, nos seus delírios de outrora, convencida que o mundo ainda a adora e aguarda ansiosamente o seu próximo, e sempre adiado, e consequentemente inexistente, filme. A Norma Desmond vive, apenas e só, na sua cabeça, completamente alheada do mundo exterior, num castelo de ilusões que a sua imaginação,e a devoção do seu fiel mordomo, alimenta. E, por isso, fez-me lembrar esta frase de Famous Blue Raincoat, de Leonard Cohen, "I hear that you're building your little house deep in the desert, you're living for nothing now, la, la, la". É isto que a solitária e abandonada Norma Desmond faz - constrói a sua casa no deserto, em completo isolamento. Ela não é muito diferente de todas as pessoas solitárias, apenas leva a solidão ao extremo, a preparar-se para o seu eterno close-up, uma última vez, frente às câmaras de Cecil B. deMille. É um filme maravilhoso, este, com excertos de filmes mudos protagonizados pela própria Gloria Swanson nos tempos de celebridade. É também neste filme que esta última pronuncia aquele famoso ditado sobre o cinema moderno - "agora têm vozes; nós, naquela altura, não, só tínhamos a cara. Já não há caras no cinema, excepto talvez a de Garbo". Realmente, Garbo tinha uma grande cara. Garbosa e tudo (não resisti à piada seca, peço desculpa).

Também gosto muito de Leonard Cohen. Adoro-o, para ser mais precisa, e infelizmente, por estar, na altura, longe de Lisboa fisicamente, embora presente em espírito, perdi o seu concerto na urbe, e agora tenho de me habituar à ideia de que, com a idade do senhor, nunca o irei ver ao vivo. É tristíssimo. O que me leva ao segundo propósito deste post. A lindíssima canção Famous Blue Raincoat, para mim, pura e simplesmente, a canção perfeita, é sobre quê? Sempre pensei, e a cada audição vou confirmando a minha conjectura, que a história reza assim: o Leonard tinha um amigo que se meteu com a mulher dele (and you treated my woman to a flake of your life, and when she came back she was nobody's wife), e para seu descomunal azar, este grande amigo era Corto Maltese (well, I see you there with the rose in your teeth; one more thin gipsy thief - a mãe de Corto era uma cigana de Gibraltar; Corto é meio cigano, também); o amigo foi-se embora, porque é um solitário, um lobo das estepes, não lhe interessa estar com ninguém (you're living for nothing now, aí está), mas fez a esposa do Leonard feliz por uns tempos, porque, precisamente, era o Corto Maltese (thank you for the trouble you took from her eyes, etc), de tal forma que, ao pé dele, o próprio Leonard, poeta magnífico e perfeito, sente-se meio aburguesado; isto passa-se, e o Leonard percebe que ele nunca poderá fazer a sua mulher feliz, agora que ela conheceu o indomável Corto, e escreve ao amigo (a canção, como percebemos, é uma carta . sincerely, L. Cohen) a dizer-lhe que se vai divorciar (your enemy is sleeping and this woman is free) e que ele pode voltar à vontade (what can I tell you, my brother, my killer, I guess that I miss you, I guess I forgive you, I'm glad you stood in my way). O próprio Leonard tem muitas saudades do seu grande amigo Corto e perdoa-lhe o facto de se ter enrolado com a sua mulher Jane. Esta última, depois da partida de Corto, decidira permanecer com Leonard (I see Jane's awake, she sends her regards - ela ainda vive com Leonard à altura em que este escreve a carta), mas agora que o marido percebeu que o casamento não está a resultar, e com o regresso iminente de Corto, quem sabe?! Narrativa aberta.
Consegui tornar a canção perfeita que Famous Blue Raincoat é numa telenovela. Sou um monstro.
Aceitam-se outras interpretações.
Antes de terminar, queria só reiterar que Famous Blue Raincoat é a canção perfeita.

Famous Blue Raincoat

It's four in the morning, the end of December
I'm writing you now just to see if you're better
New York is cold, but I like where I'm living
There's music on Clinton Street all through the evening.

I hear that you're building your little house deep in the desert
You're living for nothing now, I hope you're keeping some kind of record.

Yes, and Jane came by with a lock of your hair
She said that you gave it to her
That night that you planned to go clear
Did you ever go clear?

Ah, the last time we saw you you looked so much older
Your famous blue raincoat was torn at the shoulder
You'd been to the station to meet every train
And you came home without Lili Marlene

And you treated my woman to a flake of your life
And when she came back she was nobody's wife.

Well I see you there with the rose in your teeth
One more thin gypsy thief
Well I see Jane's awake --

She sends her regards.
And what can I tell you my brother, my killer
What can I possibly say?
I guess that I miss you, I guess I forgive you
I'm glad you stood in my way.

If you ever come by here, for Jane or for me
Your enemy is sleeping, and his woman is free.

Yes, and thanks, for the trouble you took from her eyes
I thought it was there for good so I never tried.

And Jane came by with a lock of your hair
She said that you gave it to her
That night that you planned to go clear

Sincerely, L. Cohen

Saiba tudo o que sempre quis saber. Os Beatles respondem.

A este desafio, é impossível de resistir. Responder a algumas perguntinhas típicas daqueles testes de personalidade da Internet com letras de canções. À semelhança da Tia Sócrates, também escolhi os Beatles, muito obviamente, porque sempre achei que tudo o que há para saber está na música dos Beatles. É ouvi-los com atenção, pois. Qualquer pergunta, eles respondem, como aliás este desafio prova.

1. És homem ou mulher? Her Majesty
2. Descreve-te: I am the Walrus
3. O que as pessoas acham de ti? Lovely Rita (optimisticamente falando)
4. Como descreves o teu último relacionamento? A Hard Day's Night
5. Descreve o estado da tua actual relação: You never give me your money
6. Onde querias estar agora? Strawberry Fields (Forever)
7. O que pensas do amor? A Day in the Life
8. Como é a tua vida? Fool on the Hill
9. O que pedirias se pudesses ter um só desejo? Please please me
10. Escreve uma frase sábia: Tomorrow Never Knows

domingo, 11 de janeiro de 2009

Este post é um lugar comum (centros comerciais, consumismos e quejandos)

No espaço de poucos dias, tive a oportunidade de observar não uma, mas duas, criancinhas, que se queixavam aos respectivos pais de que estes nunca lhe compravam nada. Uma chorava, gritando, na caixa de supermercado, "mas tu há uma semana que não me compras nada!", ao que a mãe, empedernida, respondia "pois, temos pena". O outro, ligeiramente mais velho, e desta vez nas escadas rolantes de um centro comercial (foi onde me cruzei com ele), pedinchava "mas compra lá! porque é que não me compras, são só 25 euros. Ó mãe, são só 25 euros!".
Numa tentativa vã de evitar discursos conservadores e perfeitamente estéreis como "quando eu era pequena, ninguém ia tão longe quando pedinchava aos pais, embora pedinchássemos", às vezes imagino as décadas futuras como dominadas por hordas de pequenos monstrinhos desempregados, a clamar, qual Oliver Twist (mas com mais determinação e petulância, coisa que o pobre Oliverzinho não se podia dar ao luxo de ter), please, sir, can I have some more, sir, now sir!, em inglês e tudo, não porque tenham lido o Oliver Twist, mas antes porque agora toda a gente fala inglês logo na primária, portanto o que será daqui a 10 ou 20 anos. Mas isto são apenas fragmentos da minha imaginação, nada que, espero eu, seja minimamente realista.
Quando a peça Shopping and Fucking, de Mark Ravenhill, estreou no CCB, há uns quantos anos, o encenador português que a levou à cena dizia que Portugal, no início do século XXI, atravessava aquilo que o Reino Unido atravessara no fim dos anos 80 e também na década de 90, consumismo desenfreado consequência do liberalismo desenfreado thatcheriano, além de frágeis relações humanas, amoralidade, etc. Talvez sim, talvez não. Gostando muito de Sara Kane, essa sim, que escreve peças tão cruas que custam a ler, e que faz parte da mesma escola de Ravenhill, , o in yer face theatre, devo dizer que não gosto particularmente deste Shopping and Fucking. Já se sabe que as relações humanas são muito vazias e tal, não é de agora. Olha o Hamlet, que teve de aprender isso duramente, e que viveu há que séculos atrás. O Hamlet não teria um centro comercial para destilar frustrações, mas tinha uma caveira e tinha a Ofélia, vai dar quase ao mesmo, porque desde que se destilem frustrações para algum lado, é o que importa.
Bem. Já me esqueci do que queria dizer. Acho que era só mesmo mencionar que, apesar da minha queda para as compras, que a tenho e bem, agora com os saldos então (eu própria sou produto do thatcherismo, liberalismo, capitalismo, etc., tudo muito desenfreado) aquelas criancinhas, já tão cientes de que 25 euros, pelos visto, não é assim tanto, me fizeram um bocadinho de impressão.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Personagens literárias mais cool de sempre e que eu não me importava de ser (num universo alternativo, talvez)

Holden Caulfied, Catcher in the Rye, evidentemente. A personagem mais cool de sempre. Se eu fosse o Holden, sei lá o que é que eu faria... fumava muitos cigarros, sentava-me à chuva a olhar para o meu irmãozinho mais novo e a sentir-me feliz apenas com isso. Saberia, amarga e sarcasticamente, que o mundo é hostil e sem esperança, era uma rebelde sem causa, mas, no entanto, correria sempre atrás de uma causa, a ajudar pessoas no centeio, a tentar que as coisas fizessem sentido, e mesmo que não fizessem, eu ficava ali no centeio, a fumar, a ser cool e a apanhar pessoas, logo, a ser útil.



Philip Marlowe, The Big Sleep, outro cool a valer. Se eu fosse o Philip Marlowe, aí é que fumava sem parar e teria um diário sempre bem actualizado, para escrever coisas assombrosas como she approached me with enough sex appeal to stampede a business men's lunch. Her smile was tentative but could be persuaded to be nice, e outra coisas similares. Passava o dia a investigar crimes, com o calo amoral que a experiência me daria, e expirava o fumo do meu cigarro na cara de senhoras tipo Veronica Lake, ou então de pessoas com nomes de sonoridade exemplar, como Regan Sternwood. Elas depois começavam a tossir e eu ia-me embora, toda convencida (convencido, aliás, esqueci-me de que sou o Philip Marlowe - já agora, convencido e também gingão).

Catherine Earnshaw, Wuthering Heights. Esta mulher, para mim, é o máximo. Gostaria muito de ser a Catherine, porque para já casava-me logo com o Heathcliff, nunca com o Edgar Linton (apesar deste último ser bonzinho, o que é uma coisa muito positiva). O Edgar ficava livre para procurar outra pessoa com quem ser mais feliz, e eu ficava com o Heathcliff, no meio do vento e da tempestade, os dois muito intensos, a viver uma vida muito intensa. Também evitaria morrer cedo, à semelhança do que aconteceu à Catherine, para poder desfrutar desta tal intensidade com alguma qualidade de vida.

Há muitas mais personagens literárias que admiro e que não me importaria de ser (por alguns dias, para experimentar). Mas, por enquanto, consigo lembrar-me destes três grandes catitas.

Candle Chant, DJ Krush. Porreiro, pá.

As línguas do mundo são uma coisa impressionante.
Não percebo nada do que se diz nesta canção, mas gosto tanto dela. Consiste apenas numa pessoa a falar (japonesa, tanto quanto sei), e numa melodia simples por trás, mas basta para que a canção seja bonita, quanto a mim. E o japonês, aqui, soa muito bem.
Quando não se percebe nada de uma determinada língua, parece que os sons são pronunciados apenas para enfeitar, pelo seu valor estético, não pelo significado. O significado imaginamos nós.
Bem giro.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Bataille, Fnac, coisas em geral

Este livro é estranhíssimo. Li-o há uns meses e ainda estou a decidir se gostei, se não. Há livros assim, que nos fazem demorar algum tempo a formarmos algo que se possa designar por "opinião". Agora, que a"História do Olho" tem partes que me interessaram muito ao nível da escrita, isso é inegável, principalmente aquelas descrições obsessivas e muito físicas de ovos e glóbulos... interessante, sem dúvida.
O que queria realmente ler de Bataille agora são os ensaios, mas devo dizer que nunca os vi em nenhuma livraria. Talvez a falha seja minha, mas espanta-me aquilo que as livrarias não têm. Há obras fundamentais que qualquer livraria deveria ter. Uma coisa que me deslumbra e que ao mesmo tempo me entristece é que qualquer livraria em Inglaterra (não apenas em Londres - passa-se o mesmo em livrarias da "Inglaterra profunda") tem um pletora de clássicos (e, também, de contemporâneos) impossível de encontrar em qualquer livraria portuguesa, grande ou pequena. Do ensaio do século XXI aos clássicos gregos, encontramos de tudo, a vários preços, de várias editoras, em várias traduções. Sei que em Portugal as coisas não poderão nunca ser da mesma forma, mas de qualquer modo não me parece que uma livraria como a Fnac, que se farta de fazer dinheiro neste país, e isso é bem sabido, tenha qualquer desculpa para a paupérrima secção de Gregos que apresenta, e em geral a paupérrima secção de certos géneros canónicos e essenciais. Nem Fernando Pessoa têm em condições. Nem literatura portuguesa ou lusófona em geral. Também é sabido que as coisas melhoram sempre um bocadinho por alturas do Natal, em que há mais selecção, mas mesmo assim o panorama geral é um bocadinho pobre. E não é só na Fnac que isto acontece. Recuso-me, pura e simplesmente, a compreender quaisquer razões que impeçam a Bertrand do Chiado a não ter disponível qualquer obra que seja do Fitzgerald, que é um clássico, é canónico; se não têm Fitzgerald, têm o quê?! Espero que a situação já tenha melhorado e que a Bertrand do Chiado já tenha corrigido esta grave lacuna.
Por mais que digam que há alternativas à Fnac, em livrarias mais pequenas e que tentam ter uma selecção mais apurada, ou mais alternativa, ou o que seja, fico sempre supreendida que seja difícil encontrar Gregos, que seja difícil encontrar ensaio, que seja difícil encontrar um acervo básico de livros que, para mim, enquanto leitora, qualquer livraria deveria ter. Mas percebo, ou pelo menos desconfio, que haverá razões financeiras subjacentes a esta falta de selecção no caso das pequenas livrarias, e o meu coração e cartão multibanco estarão sempre, indubitavelmente, com elas (o coração, sempre; o cartão multibanco, enquanto me for possível. Não é, porém, por reconhecer a pequenez de mercado deste país, ou o que quer que seja que explica estas lacunas, que a situação me entristece menos.
De qualquer modo, serve este post não para vilipendiar a Fnac, onde vou muitas vezes e continuarei a ir, e onde sou detentora do recentemente famigerado cartão Fnac e continuarei a ser, mas antes para dizer que gostaria de encontrar, e quiçá até comprar, os ensaios de Bataille. Quem os vir à venda, se tiver a gentileza de me informar, um grande bem haja antecipado (bem-haja é uma alternativa super-catita a obrigado, acho eu).

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Linha do horizonte

Há alguns dias, vi na televisão um documentário sobre John Ford, onde Steven Spielberg participava numa pequena entrevista. Disse Spielberg que conheceu Ford quando ainda era um adolescente já aspirante a realizador. John Ford concedera-lhe 1 minuto do seu precioso tempo e mandou Spielberg olhar para uma série de quadros (acho que de Turner, como um destes que pus aqui, mas não tenho a certeza; o outro quadro que figura aqui é de Renoir) e perguntar-lhe o que tinha a dizer daquilo. Spielberg fico algo atrapalhado, e Ford mandou-o olhar para a linha do horizonte em cada quadro que via. "Onde é que está a linha do horizonte neste quadro? Em cima, a meio ou em baixo?", perguntou o velho realizador, que já na altura, ao que parece, era irascível e intimidante. "Em baixo", respondia Spielberg, ou "em cima". Não havia nenhum quadro em que a linha do horizonte estivesse a meio.
"Quando souberes a diferença ente colocar a linha do horizonte em cima ou em baixo, e não ao meio, serás um grande realizador", foi a avisada e peremptória sentença de Ford a Spielberg. Está mesmo muito boa, esta, achei eu. Fui ver uma data de quadros, e tenho prestado atenção à linha do horizonte nos filmes que vejo, e de facto está mesmo bem visto.

Guns of Brixton (o título não tem nada a ver com o post, mas sinceramente este é o melhor título de canção de sempre)

"A good many times I have been present at gatherings of people who, by the standards of the traditional culture, are thought highly educated and who have with considerable gusto been expressing their incredulity at the illiteracy of scientists. Once or twice I have been provoked and have asked the company how many of them could describe the Second Law of Thermodynamics. The response was cold: it was also negative. Yet I was asking something which is the scientific equivalent of: Have you read a work of Shakespeare's?"
C. P. Snow, "The Two Cultures" (citação retirada da Wikipedia, mas a mim parece-me fiável, por acaso)

Eu acho que as pessoas, às vezes, não gostam mesmo nada de mim.
Disse, há horas atrás, a uma amiga minha que em geral não costumo apreciar grandemente filmes sobre histórias de amor (excepção feita a Woody Allen). Ficou a olhar para mim, horrorizada. Também fica a olhar para mim com expressões de repulsa quando eu lhe repito que gosto muito do Exorcista. Uma vez disse a outra amiga que não tinha gostado nada d'As Horas, nem do filme, e muito menos do livro, e também lhe meti nojo. E outra vez também disse a uns amigos que não ia nada, mas é que mesmo nada, à bola com Sigur Rós e aí, bem, caiu literalmente o Carmo e a Trindade, e deixaram de me falar e ostracizaram-me e "baterem-me" (quer dizer, isto sou eu a exagerar, mas ficaram a olhar para mim como se eu fosse uma má pessoa).

A verdade é que as pessoas, todos nós, e eu também, temos ideias pré-concebidas e muito formatadas daquilo que se deve gostar e do que não se deve gostar. É algo semelhante às "duas culturas" que C.P. Snow distinguia - a científica e a humanista, sendo que os que pertencem a uma nada sabem da outra, e depois é um problema e uma vergonha. A nossa vida social também se divide em duas, ou talvez mais, culturas, a cultura caviar das coisas de que se deve gostar, e a cultura parola daquilo de que não se deve gostar (ou então, de que só se deve gostar de forma muito secreta, porque senão é uma vergonha. Os chamados "guilty pleasures"- o inglês dá tanto jeito, não consigo evitar) - como todos sabemos, esta cultura parola rege-se por estereótipos como ir a centros comerciais ao fim de semana, música pimba, Paulo Coelho, ao passo que os esterótipos que me ocorrem para a cultura caviar é dizer que se vai ao King três vezes por semana, ou, de forma mais extrema, descrever o "Branca de Neve" de João César Monteiro como um filme belíssimo (aqui, não posso mesmo concordar. Gosto de muitos filmes de João César Monteiro, mas ouvir as pessoas a dizer, ao sair de "Branca de Neve", que o filme era "extraordinário"... bem). Episodicamente, há elementos que passam de uma cultura para a outra, e, por exemplo, quando o filme português "Aquele querido mês de Agosto" saiu, de forma óbvia apelando à cultura caviar, havia muita gente da mesma cultura a dizer, condescendentemente, que achavam muita gracinha à música pimba.

Há coisas genuinamente más, lixo absoluto e fétido de que é impossível gostar, e não é paternalismo nenhum dizer que não se gosta de lixo (televisivo, literário, musical, etc.). Há coisas que, pelo contrário, são magnificentes e de que toda a gente gosta. Se há alguém que não goste, é porque ainda não perdeu tempo suficiente a apreciar. E depois há as coisas que estão no meio, entre o fétido e o magnificente. Normalmente, é sobre as coisas que estão no meio que as opiniões se dividem, dando origem ao grupo das pessoas cool e ao grupo das pessoas menos cool. A gente pensa que isto dos grupos acaba quando se ultrapassa a adolescência, mas infelizmente não, fica para sempre. As pessoas são assim.
Irrita-me um bocadinho. Infelizmente, não tenho uma conclusão mais inteligente do que esta a retirar desta história toda.

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

8 constantes da vida para 2009

A princípio pensei que não fosse capaz de responder ao desafio simpático da S.M., mas acho que afinal até consigo. Tenho de revelar oito sonhos para 2009, embora seja uma tarefa mais complicada do que parece. Mas vou tentar.
Assim, à partida, diria que os meus sonhos para este ano, sem nenhuma ordem em particular, são:


1) ser a melhor amiga de Woody Allen, aquele tipo de amiga que ele até menciona nas entrevistas; por exemplo, perguntam-lhe "Sr Allen, como é que se lembrou de fazer um filme tão profundamente brilhante, que disseca toda a problemática existencial da vida humana até ao seu mais escondido âmago e responde a todas as questões que atormentam a humanidade há séculos, e que mesmo assim tem imensa piada, aliás, é até hilariante, ainda mais hilariante do que o Bananas, e ainda mais mimoso e querido do que Annie Hall?", e ele responde, "Olhe, foi tudo ideia da minha amiga Rita. A minha amiga Rita é linda. Gosto mais de falar com ela do que com qualquer outra pessoa. Ela admira muitíssimo o meu intelecto pessimista e o meu humor impecável, e adora em absoluto os meus filmes, e eu acho que ela é a pessoa mais espectacular de sempre, a fonte de toda a minha inspiração, de modo que nos damos muito bem. Queria deixar aqui bem claro que a minha amiga Rita é imprescindível à minha vida, até mais do que a minha própria mulher e filhos. Aliás, a minha mulher também foi minha filha... aaaaaah... se não fosse a minha amiga Rita, eu já tinha perdido a sanidade mental". (o que posso eu fazer, o Woody precisa de mim, só que ainda não sabe)


2) comer chocolate belga e charlotte de chocolate belga (e com natas frescas, não com arraçados de chantilly, atenção!) e em geral tudo o que contenha chocolate belga à vontade sem ficar com dor de barriga e sem engordar


3) "peace to my black and empty heart", como canta a grande PJ Harvey, e já agora, peace não só para o meu coração, mas assim para o coração do mundo em geral, que precisa ainda mais do que eu (qualquer semelhança entre isto e os discursos muitíssimo inteligentes das misses é pura coincidência)


4) tentar ler o Ulysses (e conseguir acabar o livro e gostar, porque não)


5) ler tudo o que há para ler de F. Scott Fitzgerald


6) conseguir ver o Exorcista à noite, na cama, com a luz apagada e ficar sobressaltada, mas não ter medo (o máximo que consegui até hoje foi ver o Exorcista às seis da tarde e acabar mais ou menos às oito, e já com a luz bem acesa. Este filme é grande filme de terror, sem dúvida nenhuma)


7) apaixonar-me por Portugal, mas não aquela paixão idiota que nos faz ver tudo cor-de-rosa e elimina o sentido crítico; antes, quero o afecto que nos faz gostar tanto que queremos sempre mais e melhor para o objecto da nossa afeição. A ver se este ano a coisa se dá.


8) que todos estes sonhos se cumpram, e mais alguns (acabar a tese e tal também calhava bem, mas este não pode ser sonho, tem de ser mesmo facto consumado, de modo que só o incluo nesta lista a 50%, não na sua totalidade)


Acho que é mais ou menos isto.

Dias de cão

Este é um filme de que gosto muitíssimo.
Lembro-me sempre dele assim que toca a porcaria do despertador.

Sell out

Neste blog, cometi pecados graves de que não vejo maneira de me redimir. Neste blog, fiz concessões linguísticas que tinha jurado nunca fazer. Mormente pontos de exclamação e frases bilingues, com expressões em inglês. Que nojo! Ou melhor: que nojo.
Sou uma vendida. Daí o título ilustrativo deste post. Sou uma pessoa cujos padrões de exigência face ao esplendor da língua portuguesa caíram em derrocada. Sinto-me muito mal. Ou será melhor : sinto-me muito mal! Perdido por cem, perdido por mil, right?
Mas que posso eu fazer, quando as influências anglófonas são uma bi-atch e inescapáveis? Eu admito a minha anglofilia. Mas nunca pensei que se tornasse numa shit tão grande que me levasse ao horror das frases bilingues, like uma que figura ali em baixo no texto da biblioteca. Fuckin'hell, pá.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Demonstração de como todos os livros nos fazem pensar, até mesmo aqueles que não são assim muito bons

Quando era mais pequena, li um livro daqueles típicos de literatura para mulherzinhas, um clássico francês que se chamava "O Romance de Isabel", de Berthe Bernage, penso. Deveria, aliás, ter dito "livros", pois este "Romance" era uma coisa estóica de não sei quantos volumes, que eu li avidamente, porque gostei muito. (na hipótese, que me aventuro a classificar de improvável, de alguém querer ler esta obra, devo avisar que daqui para a frente há spoilers). Não me lembro bem da história toda, que ainda dava umas voltas, mas lembro-me de que, quando Isabel adormecia, a cena era descrita de forma muito poética ("e, quando os olhos se fechavam sobre a claridade azul..." - a tenra idade fez-me achar isto lindo); lembro-me também de que Isabel tinha um noivo que foi para a II Grande Guerra; que tinha uma madrasta má que, tendo fatalmente escolhido a Normandia para ir de férias no Verão de 1944, acabou por ser severamente castigada. Que justiça poética tão cruel.
De qualquer forma, lembro-me de forma vívida que esta madrasta, antes do azar do Dia D, fazia da vida do pai da Isabelinha uma verdadeira miséria, tratava-o por "manga de alpaca" e dizia que ele era pouco homem, e portanto o pai de Isabel, qual recatado Kafka na repartição, escrevia poemas angustiados nas horas livres. Depois publicou os poemas e ficou famoso, e aí já a madrasta gostava dele, mas o pobre pai da Isabel pagou caro esta felicidade conjugal, porque a sua veia artística começou a declinar e passou a escrever maus poemas, levando os críticos a interrogarem-se:"Será que um artista, para ser bom, precisa de ser infeliz?".
Nunca me esqueci deste pormenor do "Romance de Isabel", e sempre pensei nisto. Alguém me dizia, há uns anos atrás, que tinha deixado de gostar de Paul Auster agora que ele estava bem casado, com filhos e feliz, porque só escrevia superficialidades. A felicidade impedia-lhe a boa escrita.
Acreditando na capacidade criativa do pessimismo, e desconfiando sempre da displiciência do optimismo, tenho tendência para pensar que isto será verdade.
Haverá exemplos de grandes poetas e escritores abertamente felizes, que não têm nenhuma ferida aberta, nenhum problema mais marcante que os torne interessantes? Não me consigo lembrar de nenhum. Como já escrevi antes, se até o Almeida Garrett, que me vem sempre à cabeça por se saber que foi vaidosão e exuberante, tinha os seus sofrimentos e torturas, e que escrevia, precisamente, sobre isso, talvez a felicidade impeça, de facto, a boa escrita.
É em momentos como este que o meu pessimismo até sorri e fica contente por não ser artista.

domingo, 4 de janeiro de 2009

Saudades dessa minha biblioteca

Que saudades de lá ir e tudo funcionar exemplarmente em redor dos livros, e por causa dos livros. A certeza de encontrar, sempre, em cinco minutos, o livro de que precisava. O conforto, sofás, cadeiras, mesas para PCs, cafetaria, pátio interior, sempre lugares disponíveis, estantes e cotas de livros exemplarmente bem indicadas, nada de preencher papelada, entregar e ficar à espera (a não ser que o livro fosse raro). Eficiência e informalidade, o que interessa é o livro. Gosto mais do que da própria British Library, onde também ia muitas vezes, e que é absolutamente profissional, mas também muitíssimo mais impessoal e onde, para além disso, se pede um preço imoral por fotocópias e ainda ralham connosco (pus-me a tirar fotocópias a duas páginas de seguida, encaixando-as numa folha A4 para poupar dinheirinho, e veio logo uma British empertigada ter comigo, arrancando-me literalmente o livro das mãos e informando-me, de sobrancelha erguida e voz bem colocada, que ali, naquele estabelecimento, só se tira fotocópia a uma página de cada vez. E depois ficou ali especada, a vigiar a forma como eu tirava fotocópias, desconfiada da minha má índole). Mas enfim, beggars can't be choosers.
Esta querida biblioteca, apesar de ter este ar lúgubre e sóbrio, desenhada pelo mesmo arquitecto da Tate Modern (é daí que vem a torre), é mimosa e confortável por dentro, tem estantes bonitas nos corredores principais, e encerra em si todo (ou quase todo) o conhecimento de que precisamos, o que é um alívio e uma alegria. Sempre me deu tudo o que eu queria. A princípio meteu-me medo - " Mas como é que eu alguma vez me vou entender nesta coisa que mais parece um asilo para malucos", pensei eu. Era mesmo estúpida. Porém, devo admitir que o medo nunca desapareceu totalmente - para o fim da tarde, a biblioteca começava a ficar vazia e eu saía dali também, disparada, com medo que um qualquer psicopata escondido entre as sombras das estantes, maleficamente à espera, me tentasse matar, e depois eu gritava mas quem é que me ouvia naqueles corredores imensos e vazios, só os livros ali para me defender, e depois como é que era!).

Tenho tantas saudades da minha querida biblioteca.
Ó tempo, volta para trás. Volta lá. Volta lá.

Não estou a começar o ano lá muito bem.

sábado, 3 de janeiro de 2009

Relativizar

Com a minha idade,
Emily Brontë tinha escrito O Monte dos Vendavais e já tinha morrido
Orson Wells já tinha escrito e realizado Citizen Kane
John Keats já tinha produzido toda a sua poesia e morrido
o Marquês de Sade já tinha blasfemado e sido preso um ror de vezes.

Penso nisto a olhar, convenientemente, para a minha muito inacabada tese, que aliás está a chamar por mim, ou melhor, a clamar por mim, enquanto eu venho para aqui, inutilmente, escrever isto, sem Monte dos Vendavais ou Citizen Kane que me safe.

a pátria, os camões, os aviões, os gagos coutinhos, etc.

Estou a esforçar-me como nunca antes me esforcei para gostar mesmo a sério de Portugal. Que me lembre, nunca na vida tive saudades de Portugal, por mais longe que estivesse. E estive muito longe, muitas vezes. Agora, tenho tantas saudades destes sítios longínquos, saudades como nunca tive de Portugal, que me sinto uma má cidadã.

Mas este sentimento está errado e eu quero modificá-lo. Quero gostar muito de Portugal. Quero sentir muitas saudades de Portugal. Releio as poesias do Trovador e do Novo Trovador do século XIX, escritas, muitas delas, por miguelistas exilados depois do advento do Liberalismo, e aqueles poemas, alguns tão pirosos, estão cheios de imagens douradas da pátria, de recordações mimosas e perfeitas, de saudades a rebentar a escala. Aquela gente, exilada, a viver no estrangeiro, só queria poder voltar para aqui, para este país, e eu, apesar de saber que é estúpido, tenho tanta inveja deles, tanta inveja desse amor que eles revelam por Portugal, porque eu também queria esse carinho lamechas pela terra, eu também queria ter a capacidade de sentir as saudades que eles sentiam - "E quero descantar na lira d'oiro/O meu berço natal; quero imprimir-lhe/Num ósculo d'amor minha saudade", de J. Freire de Serpa, um dos poetas da revista Trovador, que não deixou grande memória, mas que eu invejo, porque queria que o meu coração sentisse o mesmo entusiasmo amoroso e nostálgico para escrever uma coisa assim.

A verdade é que há algo encantador quando sabemos que somos os "estrangeiros" num país estranho. Contamos apenas connosco, vivemos apenas connosco, confrontamo-nos verdadeiramente com quem somos. Em Portugal, não dá para se ser estrangeira. Quer queiramos quer não, a nacionalidade impõe-nos uma vida em comunidade, um acervo inescapável de memórias e valores que não são apenas nossos, são comuns. E, se por um lado estas memórias e valores são enternecedores e nos ajudam a construir uma certa identidade e vivência social, por outro lado são também amarras, coisas exteriores ao Eu que acabam por o sufocar. Ou talvez isto se passe apenas comigo, que não tenho grande apetência para a "comunidade", para os direitos e deveres a que temos de aderir em conjunto, para as afinidades culturais que nos foram impostas quando nascemos. Gosto mais da individualidade irredutível, que é o que nos resta quando saímos daqui, quando ninguém fala a nossa língua, quando não há família para nos ajudar, e quando os amigos, se existem, nem sempre estão disponíveis. É um grande desafio, um desafio impossível de vencer quando vivemos no nosso pequeno país, em que, com mais ou menos percalços, conhecemos os cantos à casa, sabemos aquilo com que podemos contar.

Quanto a mim, o meu desafio para 2009 será, de facto, fortalecer os laços com este país. Sou como uma pessoa à beira do divórcio, mas que quer fazer um último esforço para ver se as coisas resultam, e todos os dias diz de si para si, "vai resultar, vai resultar, vou voltar a gostar dele, vou voltar a gostar dele, vai ser tudo como dantes". Não me quero divorciar do meu país. Quero apaixonar-me por ele (pelos camões, pelos aviões e pelos gago coutinhos, coitadinhos), com muita convicção.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Prémio para Melhor Blogger Hipotético vai para: Marquês de Sade

infortúnios da virtude

a vida, as aventuras e as tropelias
de um Marquês com muito para contar...
um pouco de mim, dos meus pensamentos,
dos meus amores e desamores,
para todos aqueles
de coração aberto e mente arejada...

17 Agosto 1768, 13h00
A rapariga de hoje teve piada. Era a Alphonsine, de lá debaixo, da aldeia. Girinha, saudavelzinha, rosadinha, porreirinha, correu tudo lindamente.


17 Agosto 1768, 13h30m
A rapariga de hoje teve piada. Era a Madame de Laclos, do castelo aqui ao lado. Girinha, cheia de rendas e laçarotes, perfumadinha, porreirinha, correu tudo lindamente.

17 Agosto 1768, 14h00m
A rapariga de hoje teve piada. Era uma criadinha aqui da minha casa. Girinha, gordinha, a cheirar a bolinhos, porreirinha, correu tudo lindamente.

17 Agosto 1768, 14h30m
A rapariga de hoje teve piada. Era a minha mulher, que vive aqui comigo e que descobriu da criada. Girinha, caladinha, acabou por ficar porreirinha, correu tudo lindamente.

17 Agosto 1768, 15h00
A minha mulher não me deixa em paz. Voltou a abrir a matraca para resmungar por causa da criada. Não sabe ela da missa a metade, e mesmo assim só sabe chatear um gajo. Eu já me fartei de lhe dizer, "Ó senhora, mas não vê que eu sou um libertino! Matai-me ou aceitai-me tal como sou, porque nunca mudarei!", e ela mesmo assim sempre a chatear. Anda por aí a falar, qualquer dia ainda vou mas é parar à Bastilha.

19 Agosto 1768, 10h00
Pronto, vim mesmo parar à Bastilha, estou aqui no PC da biblioteca deles a actualizar o blog, para ver se escrevo qualquer coisa. E agora, pá? Já tinha uma data de coisas acertadas com o Conde de Lacoste para a gente ir fazer uma ronda a uma aldeia que ele conhece, que era para depois levar o pessoal todo para aquele chateau que eu já aluguei, grande festarola já toda preparada, e é que ainda por cima tenho o aluguer pago e tudo, e à conta da festarola eu queria ver se escrevia um livo a contar tudo, pelo menos os primeiros 120 dias da festarola (dá jeito serem 120 dias, é o título do livro). Até já tinha uma editora em vista. Bem, isso também se resolve, se não escrever o livro pode ser que consiga publicar o que escrevi aqui no blog, os primeiros 120 posts.
Raio da minha mulher, eu bem sabia que ela me ia complicar a vida. E agora, pá... queridos leitores, se lerem isto falem com o Lacoste para ver se ele consegue o dinheiro do depósito de volta, que eu estou mesmo a ver que tão cedo não saio daqui!

20 Agosto 1768, 10h00
Bem, a minha sogra é uma bruxa do pior. Quer dizer, quando foi para casar com a filha dela, tudo bem, para isso eu era só Marquês e não era libertino (e eu sempre a avisá-la, "ó senhora, olhe que eu sou libertino", e ela a insistir, que fazia gosto que a filha se casasse com um marquês), e agora, que estou aqui na prisão, ela ainda a fazer pior, quer ver-me em tribunal, enxovalhado, quer que eu morra aqui. Queridos leitores, vocês que gostam do meu blog, apoiem-me se fazem favor, arranjem-me uma petição online que é para ver se eu ainda vou a tempo da tal festa no chateau, tanto trabalho a organizar aquilo...
Hei-de escrever cada livro que há-de pôr as orelhas da minha sogra a ferver. Cá se fazem, cá se pagam, minha linda, portanto se estiveres a ler isto ficas a saber.
Agora tenho de me ir embora, o guarda aqui da prisão diz que eu tenho de ir fazer a minha cama (enxerga, quer ele dizer) e limpar a minha cela. LOL! Ele ainda não percebeu bem quem eu sou. Ai se eu te apanho lá fora, filho...

14 Julho 1789, 19h37m
Bem, ó leitores, lá consegui sair da prisa, mas quer dizer, graças a vocês é que não foi! Mas agora também já não é preciso fazerem nada, porque estes revolucionários são do melhor e ficaram todos contentes com o meu apoio. Já não posso ser Marquês, tenho de ser só cidadão, mas tudo bem. Agora é que vai ser o deboche a valer! Para este pessoal da revolução, não há regras nenhumas. Nem a Maria Antonieta pouparam, e isso eu por acaso tive pena (tive pena, vocês acreditem que sim! Tive pena pela primeiríssima e única vez na vida), porque sempre achei que aquela Maria Antonieta tinha um je ne sais quoi que eu gostaria de levar para o meu chateau e tal, mas pronto, agora não vai dar. Estes tipos da revolução, também, são um bocado exagerados, até eu acho que são.

10 Outubro 1803, 14h47m
Haja pachorra, pá, haja pachorra! Agora é este Napoleão, este Bonapartezeco, que me vem chatear! Era o que mais me faltava. Agora mandou-me prender. Diz que não gosta da Justine. Pois não gosta, se ele gostasse é que eu me surpreendia, aliás, se ele gostasse nem eu tinha escrito a Justine. Eu tentei falar com este Bonapartezeco, eu disse-lhe: "Senhor, em duas palavras dir-lhe-ei o que sou: orgulhosa ira, tudo levando ao extremo, de um desajustamento do pensamento face aos costumes que não tem igual, ah, e ateu até ao fanatismo. OK?". Mas ele é lá capaz de respeitar as opiniões dos outros. Agora estou para aqui num asilo de porcaria, estou outra vez preso, pá! Mas vocês acreditam nisto? Leitores, toca a mexer, olhem que eu desta vez quero sair daqui... tenho umas festarolas organizadas no chateau, vocês podem ir. Vá. Toca a mexer. Tirar o Marquês daqui.

Mudam-se os tempos?

Espero não estar a infringir nenhum direito de autor ao transcrever parte da entrevista a Herman José incluída no DVD do Tal Canal:

Entretanto, estava longe a perspectiva de poder vir a fazer um programa, e a administração que estava na altura na RTP não morria de amores comigo […] aquela zona política do PSD para a direita viu-me sempre com algum desconforto. Eu representava uma certa indisciplina que não era cordial. Democracia sim, mas com um certo músculo. Foi de resto essa lógica, muito arrumada e muito social-democrata, que fez com que o Humor de Perdição fosse tirado do ar, uma vez que estava a incomodar a Igreja e alguns sectores que achavam que, apesar de tudo, a democracia tem de ter os seus limites – que continua a ter, em Portugal, limites extraordinários, noutros poderes onde Abril ainda não chegou, portanto as coisas são feitas de uma certa maneira. A liberdade tem de ser decente. E é um advento de um certo PS, linha José Niza, que ganha as eleições na altura, que faz com que, até com uma certa loucura, me seja proposta a feitura do programa. O José Niza era um fã, um soixante-huitard romântico, faz parte daquela geração, do alegre Abril, meu cravo, minha liberdade… abençoada geração. E então ele, à maluca, encomendou-me o programa.

Esta entrevista é muito elucidativa, como se vê por este excerto, e, de facto, não posso senão olhar para o Herman com uma admiração renovada. Já gostava dele antes, agora ainda gosto mais. Este homem, além de ser um inovador, o rosto do grande humor em Portugal, tem esta inteligência, esta lucidez extrema, que não se coíbe de desmascarar a pequenez deste país. Pensar no Portugal dos anos 80 é, infelizmente, um susto. Pensar em Portugal em 2009 também é, mas temos de acreditar que nos anos 80 era pior. Mas o que me faz reflectir, ao ouvir o Herman dizer coisas semelhantes às que aqui transcrevi, é saber que, infelizmente, as coisas não parecem ter mudado assim tanto. O “certo PS” de que Herman fala já não existe, e não há nada que se assemelhe a uma alternativa válida. A “abençoada geração” do cravo e da liberdade também já se parece ter esgotado. O que é que restou? As mesmas peias, os mesmos entraves, as mesmas terríveis ideologias de “democracia sim, mas com músculo”, “a liberdade tem de ser decente”, a mesma alergia à crítica, a mesma demagogia de que o bom governo é aquele que se faz com mão pesada, com autoridade, para pôr o povo na ordem, num país onde a indisciplina, curiosamente, cresce como cogumelos, como fungos mal cheirosos por todo o lado, onde todos aqueles bafejados pelo chico-espertismo se conseguem escapulir com pouco mais do que um ralhete bem disposto. Ao pensar nisto tudo, até me surpreende que um programa tão visionário com o Tal Canal tenha sido feito. Pelos vistos, não fosse um soixante-huitard de visão, e nunca teria acontecido. Tal como não acontece hoje, no Portugal de hoje, ainda o mesmo que, infelizmente, proibiu o Herman de ir para o ar porque apresentar a Florbela Espanca como uma flausina com tendência para o deboche, de facto, não se faz. Liberdade sim, mas decente.
É ao ouvir coisas como estas, que o Herman vai dizendo, e ainda bem que o faz, que me apercebo que, de facto, a nossa democracia está ainda em botão. Ainda nos falta comer muita sopa, como se diz, e isso entristece-me, principalmente porque é a minha geração, aqueles que nasceram já depois do 25 de Abril, que mais é atingida por este desnorte do país. Alguma coisa falhou nisto tudo. Foram eles, os velhos, que deixaram que, afinal, ganhasse o reaccionarismo, que as muralhas das velhas instituições, nunca renovadas, ainda nos emparedassem, como dizia Cesário Verde no grande Sentimento de Um Ocidental? Ou fomos nós, a grande esperança portuguesa, a primeira geração nascida em plena democracia, que deixámos o país ficar mal?
Não sei responder, e, aliás, nem sei porque é que escrevi isto, quando a minha intenção era voltar a escrever sobre o Herman.
Não gosto de escrever sobre isto.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

E uma vez que hoje é o último dia de 2008

Apesar de todo o pessimismo e tal, e como não quero que as minhas últimas palavras para 2008 sejam "sou má pessoa", queria desejar a todos que lerem isto, certamente muito boas pessoas, eu pelo menos acredito nisso, um bom 2009.
É um desejo altruísta, mas ao mesmo tempo não é. Se toda a gente em Portugal tiver um bom 2009, as hipóteses de eu também ter um bom 2009 aumentam exponencialmente. E eu não me importava nada de ter um bom 2009, embora não possa pedir muito mais se, pelo menos, não for ainda pior do que 2008.
Portanto, para resumir: bom 2009.

Self improvement is masturbation

Aquilo que eu tenho a dizer às pessoas que passam a vida a suar no ginásio, convencidas que estão a praticar uma boa acção, é:

"Self improvement is masturbation", in Fight Club (Tyler Durden)

Portanto, uns precisam disso mais do que outros. E nada mais do que isso.

Irritam-me as pessoas que passam a vida a pregar os benefícios do ginásio e depois vão para lá aos pulos, todas contentes, falar de pastéis de bacalhau e do marido que não as ajuda a virar o colchão da cama e que o colchão é pesado, sempre sorridentes, sempre a dizer que o ginásio faz tão bem, e que não se deve ir para ali com "cara de pau", e que se metem com o professor durante a aula e começam aos gritos divertidos quando têm de esticar mais a perna a dizer que vão "morrer". Não sei porquê, mas sempre que as pessoas me tentam convencer do benefício extremo de algo, perco logo a vontade de experimentar. Tudo o que seja "saudável", "benéfico", "edificante", "exemplar", à partida, provoca em mim uma grande desconfiança. Não me parece que as pessoas em geral sejam grande exemplo de como viver uma vida feliz, portanto parece-me um tanto ou quanto inútil que encetem conversas deste estilo com quem que seja.

Tudo isto faz-me chegar à conclusão de que pessoas sorridentes são insuportáveis.

Sou uma má pessoa.

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Being Caravaggio

Caravaggio, de Derek Jarman, é um filme lindíssimo por várias razões. Visualmente, é perfeito. É um jogo de reconhecimento constante com as obras de Caravaggio (e não apenas com estas, recriando outras obras de arte como a Morte de Marat, por exemplo, que é a que me lembro melhor). Não é um filme-biografia sobre Caravaggio mas é muito mais do que isso, uma história de amor, um triângulo amoroso, um homem valdevinos, a crueza da vida, um ensaio (ou uma explicação) sobre a criação e a arte, a cisão entre o homem e o artista. Já Woody Allen também pensou sobre isto, mas de forma completamente distinta, no também belíssimo Sweet and Lowdown, em que Sean Penn é um músico divino, mas um homem insuportável.
Gosto muitíssimo de Caravaggio, de modo que este filme me atraiu naturalmente. Mas penso que qualquer pessoa poderá gostar do filme mesmo que não goste particularmente de Caravaggio. Basta gostar de filmes muito bonitos.
Encontrei aqui, num blog qualquer, um texto bastante interessante sobre o dito filme, muito bem acompanhado de fotografias que comparam cenas da película com quadros de Caravaggio, para quem gostar deste último e de Jarman. Muito giro.
Resta dizer que Derek Jarman já morreu, vítima do HIV, em 1994. Mas era um fixe.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Temos pena


Não era tão bom se eu agora, esta noite, acabasse a tese e de seguida acabasse também um grande livro, um romance estrondoso super bom e depois ganhasse o Nobel?

Eu acho que era muito bom.

É por estar ciente desta perfeita impossibilidade que volto a reiterar que o optimismo não vale a pena.

A farsa

Porque estamos no countdown final de 2008, penso que este belíssimo poema de Eugénio de Andrade sobre o belíssimo Pier Paolo Pasolini se adequa, muito e bem, ao infeliz air du temps que estamos a viver. É um poema triste, mas a poesia é uma entidade estranha, porque pode ser triste mas faz-nos sempre felizes, deixa-nos com uma alegria que, ainda que melancólica, nos vai ajudando. Mistérios desta vida.

De Eugénio de Andrade, dito por Mário Viegas, brought to you by esta invenção maravilhosa chamada Internet:


Requiem para Pier Paolo Pasolini - Mario Viegas

Eu pouco sei de ti mas este crime
torna a morte ainda mais insuportável.
Era Novembro,devia fazer frio,mas tu
já nem o ar sentias,o próprio sexo
que sempre fora fonte agora apunhalado.
Um poeta, mesmo solar como tu, na terra
é pouca coisa: uma navalha, o rumor
de Abril podem matá-lo - amanhece,
os primeiros autocarros já passaram
as fábricas abrem os portões, os jornais
anunciam greves, repressão, dois mortos na
primeira página, o sangue apodrece ou brilhará
ao sol, se o sol vier, no meio das ervas.
O assassino, esse seguirá dia após dia
a insultar o amargo coração da vida;
no tribunal insinuará que respondera apenas
a uma agressão (moral) com outra agressão,
como se alguém ignorasse, excepto claro
os meritíssimos juízes, que as putas desta espécie
confundem moral com o próprio cu.
O roubo chega e sobra excelentíssimos senhores
como móbil de um crime que os fascistas,
e não só os de Saló, não se importariam de assinar.
Seja qual for a razão, e muitas há
que o Capital a Igreja e a Polícia
de mãos dadas estão sempre prontos a justificar,
Pier Paolo Pasolini está morto.
A farsa, a nojenta farsa, essa continua.

Melhor de 2008 (lista em crise)

É impressionante, mas se tento fazer uma lista dos melhores livros que li, dos melhores filmes que vi e da melhor música que ouvi em determinado ano, nunca me lembro de nada. Quer dizer, quando faço a minha vida normal lembro-me do que gostei e do que não gostei, mas quando tenho de fazer uma lista, o meu cérebro fica Cerelac.

Posso, no entanto, dizer que me lembro, e bem, de ter lido O Idiota algures no ano de 2008. E que gostei muito deste livro e que aconselho. Também me lembro de ter descoberto a poesia de Johannes Bobrowski, editado pela Cotovia, e de ter gostado. Sei que um aspecto positivo (talvez o único) de 2008 foi ter ido ver muito cinema português, e que o Mal Nascida vale mesmo muito a pena, não desilude nada em relação a Noite Escura, grande Johnny Canijo.

Sinceramente, e para grande vergonha minha, e chegando também à constatação de que ipods e restantes tecnologias e gastar a "mesada" toda no cinema não mudam necessariamente a nossa vida, não me consigo lembrar de mais nada para dizer. Sem mais assunto, sou lamentavelmente obrigada a subscrever-me já aqui, com a certeza porém de ter aprendido uma grande lição.

domingo, 28 de dezembro de 2008

Bordalo Pinheiro


Faianças Artísticas Bordalo Pinheiro, Lda., constituída em 1922, é a sequência inequívoca da Fábrica de Caldas da Rainha, fundada em 1884 por Rafael Bordalo Pinheiro (1846-1905).
Ao longo dos anos, as Faianças Artísticas Bordalo Pinheiro, Lda., mantêm na sua produção, o design e a colecção do seu mestre, garantindo uma qualidade superior, desenvolvendo linhas que se ajustam de algum modo à sua tradição que sempre a tem distinguido.
É sem dúvida o elo de ligação entre a Natureza e a Faiança.
Aqui, encontramos uma infinidade de peças de utilidade e decoração, nomeadamente, terrinas, pratos, travessas, etc., com as diferentes formas desde couve, animais, frutos, mariscos e outros motivos ligados à Natureza.
(http://www.bordalopinheiro.com/)


A fábrica Bordalo Pinheiro, das Caldas, vai fechar.

De alguma forma já se previa, a fábrica já mandara muita gente embora e já tinha anunciado que corria sérios riscos de fechar as portas. Não têm encomendas, quando dantes não tinham mãos a medir e a dificuldade fazia-se sentir na resposta ao volume de encomendas, não na falta destas. Fui há pouco tempo às Caldas e calhou encontrar uma senhora que conhecia na rua, a quem cumprimentei e desejei Feliz Natal, tendo como resposta lacrimejante que, para ela, o Natal não ia ser muito bom, porque tanto a filha como o genro trabalhavam na Bordalo e já tinham sido dispensados.

A Bordalo Pinheiro não é caso único neste país, infelizmente, mas é o caso que mais me rasga o coração. Para além de fazer parte da história das Caldas, e de todo o país, porque fundada por Rafael Bordalo Pinheiro, o que saía desta fábrica eram objectos que sempre me acompanharam, que me lembro de ver em casa, que via abundantemente nas montras das lojas das Caldas, que recebi de presente, objectos de que eu gostava, e gosto, muito. As andorinhas que se podem pendurar na parede, para termos um par de asinhas negras a esvoaçar em casa; os pratos e as terrinas em forma de couve que eu adoro, populares, coloridos; as travessas de uma fina rede branca, umas com rosinhas a enfeitar, outras sem (prefiro sem); o Zé Povinho, com ou sem manguito (prefiro com); o fabuloso grou e a raposa da fábula de La Fontaine, tudo em louça resplandecente, que me davam pela cintura e que sonhei, um dia, ter em casa, e que ia arranjar uma maneira de fazer aquilo ficar bem na minha sala. Parece que agora não vai acontecer.

Gostava, e gosto, da Bordalo Pinheiro porque era um traço forte de identidade, de identidade das Caldas e de identidade portuguesa, e como acho que o nosso país, infelizmente, precisa tanto de identidade, e como eu própria sinto tanto a necessidade de viver num país que demonstre um pingo de identidade, de preferência identidade portuguesa, gostava da personalidade forte da Bordalo Pinheiro. E, além disso, foram estas faianças que me deram as cores da infância, cores vivas, fortes, "o elo de ligação entre a natureza e a faiança", cores que estavam por todo o lado e que agora se vão resumir às que tenho em casa e pouco mais.

A Bordalo vai fechar e é terrível e dramático para quem lá trabalhou uma vida inteira, ou pura e simplesmente trabalhava lá, e eu não sei o que posso fazer, mas acho que não posso fazer nada. Normalmente não penso muito em lotarias e Euromilhões, mas neste momento queria tanto, tanto, tanto estar cheia de dinheiro para encher a Bordalo de encomendas e resgatá-la da falência, salvá-la, voltar a contratar toda a gente com aumentos brutais de salário.

A crise é isto: quando não afecta apenas as nossas carteiras, mas também as nossas memórias, o nosso coração, e nos começa a dar mágoa e uma sensação terrível de perda. Assim é que a crise, de facto, nos atinge em grande.

Branca (ou talvez apenas Pálida?) de Neve


Lindíssimo espectáculo, este, a Branca de Neve, que está no CCB até amanhã, penso. Tudo deslumbrante, desde a dança aos cenários aos figurinos, muito high profile, como é sabido.

Vim do espectáculo de barriga cheia (ou de olhar cheio, talvez faça mais sentido), e a pensar nos contos de fadas que me contavam quando era pequena. Eram ligeiramente diferentes daqueles que ouço contarem-se às crianças nos dias de hoje, em que até os contos de fadas foram parvamente contaminados por esta mania do politicamente correcto e de suavizar tudo para não traumatizar as criancinhas, como se estas últimas fossem parvas e não conseguissem destrinçar o crime do castigo (se calhar ainda não o conseguem fazer e precisam de aprender - e os contos de fadas têm aqui uma função importante).

Devido ao contacto que vou tendo com criancinhas, e respectivos brinquedos e livrinhos de histórias, reparei em três coisas infectadas por isto do politicamente correcto que, quanto a mim, são elas sim perniciosas:

1 - Na história do Capuchinho Vermelho, o Lenhador não abre a barriga do Lobo para tirar de lá a Avó, matando-o; antes, a Avó esconde-se no armário, o Lenhador assusta o Lobo, e este foge assustado para nunca mais voltar. A morte do Lobo é, talvez, demasiado "forte" para os mais pequeninos.

2 - No conto da Sereiazinha, o conto infantil que eu mais adoro, há versões em que a Sereiazinha não morre, como reza a versão original de Andersen, mas torna-se humana de verdade e casa-se com o Príncipe;

3 - A canção "Sebastião come tudo, tudo, tudo". Eis um excerto da canção como eu a aprendi: "Sebastião come tudo, tudo, tudo, Sebastião come tudo sem colher, e no fim dá pancada na mulher"; a versão "restaurada" desta canção, na versão que eu ouvi, é: "e no fim dá beijinhos à mulher" (se calhar, a coisa ainda é pior e o que se canta é "dá beijinhos na mulher", sendo generosidade minha o uso da contracção "à", mas enfim).

Eu e muitas outras pessoas da minha geração tivemos direito às versões "uncut", originais (e brutais, talvez digam alguns) dos contos de fadas e das cantigas tradicionais, em que o Sebastião dá pancada na mulher (penso que todos percebemos que o Sebastião é uma grande besta), em que o Lobo morre (também penso que todos percebemos que o Lobo, efectivamente, era um criminoso sacana) e em que a querida Sereia morre sem o Príncipe (penso que todos percebemos que às vezes a vida é triste e injusta, por mais doce e adorável que se seja, e que não vai haver sempre um Príncipe especado à espera que arranjemos pernas ou voz ou lá o que era que a minha querida Sereiazinha tinha de arranjar). E não conheço ninguém que tenha ficado traumatizado com isto.

Por isso é que eu tenho alguma dificuldade em perceber esta suavização, quanto a mim bastante parva, de contos e canções infantis. As crianças são pequenas mas não são estúpidas, não precisam destes paternalismos um bocado idiotas.

E foram estes os pensamentos que um bailado tão bonito como a Branca de Neve me suscitou.

Fim

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Sequim d'Ouro e demonstração de como o optimismo não é sustentável

Uma das outras conclusões a que cheguei durante a época natalícia é que o Sequim d'Ouro é dos mais tenebrosos espectáculos de sempre, superando em muito o horror da Semente do Diabo, por exemplo.
Ao ver criancinhas a esganiçar a pobre garganta em meneios de macaquinho amestrado, sabemos que vivemos no pior dos mundos possíveis.

Também sabemos que Leibniz diria o contrário, que vivemos no melhor dos mundos possíveis, tendo sido muito criticado por isso, e ainda bem, porque assim o mundo, pior ou melhor, veio a conhecer o grande Candide. Mas, pensando bem em ambas as asserções (vivemos no pior dos mundos possíveis/vivemos no melhor dos mundos possíveis), qual delas é pior? É que, se vivemos no pior dos mundos, há sempre a esperança de podermos fazer algo para o tornar melhor, embora normalmente não dê em nada porque a esperança pode ser a última a morrer, mas não quer dizer que em vida faça grande coisa. Por outro lado, se vivemos no melhor dos mundos, e se este mundo é o melhor dos mundos, então.. o que fazer? Se não há nada melhor do que isto, estamos tramados.
Qualquer das hipóteses é negra e não permite optimismo, sendo que as minhas celebrações relativamente a 2009 vão ser por isso escassas e contidas, porque em grandes celebrações desenfreadas da entrada de novo ano já não me apanham, que eu não sou parva a ponto de desperdiçar a minha energia num ano que eu nem sequer conheço.

Tudo isto para dizer, se vejo o Sequim d'Ouro fico com arrepios de horror, de modo que normalmente abstenho-me de ver. É uma decisão sensata para qualquer ano, vindouro ou não.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Post que não interessa a ninguém a não ser a mim - sinto-me na obrigação de avisar que é sobre cabelos


Agora que o fim deste terrível ano se aproxima, e que o Natal é daqui a dois dias, toda a época é propícia a que pensemos a sério sobre a vida.

Eu tenho pensado muito a sério, e cheguei a uma conclusão que vou escrever aqui.

A conclusão é que me arrependo de tudo o que fiz no passado, excepto de uma única coisa: ter cortado o cabelo. Cortado bem cortado. Sou uma mulher da qual se pode verdadeiramente dizer que é de "cabelo curto", embora eu prefira "de cabelo curtinho". Disto não me arrependo nada.

Olho ao espelho de manhã e posso dizer: "olha, correu-te mal o ano, mas o teu cabelo está mesmo fixe. Tudo bem, não é o da Grace Slick nem o da Marianne Faithfull, mas está fixe a valer".

E pronto, esta futilidade parva, apesar de tudo, vai consolando.

Não vou desejar Feliz Natal, nem bom Ano Novo, porque a atitude mais sensata a tomar nesta época é, quanto a mim, a atitude existencialista, de modo que o que vou desejar a toda a gente e ao mundo em geral são escolhas acertadas. Acertadíssimas. Eu, pelo menos, preciso de escolhas acertadas, e muito. Já acertei no cabelo, agora só preciso de acertar no resto. O que, de resto, deve ser tão fácil, tão fácil, tão fácil... até tremo de medo só de pensar no fácil que vai ser.

De notar que esta fotografia que aqui está não sou eu (com alguma pena minha). É a Astrid Kirchher, que inventou o look de franja dos Beatles, e é um auto-retrato dos anos 60. Além da fotografia estar muito bonita, quanto a mim, o cabelinho é mesmo à maneira.

Esta é a ditosa Grécia, minha amada



Se eu tivesse o mínimo jeito para escrever sobre a actualidade, escrevia sobre Atenas.


Mas não tenho.
Talvez possa escrever sobre o comovente pôr do sol grego, ilustrado aqui ao lado pelo sol que lá apanhei este Verão e que é o mais bonito do mundo, não apenas em Santorini, mas sim em toda a Grécia.
No entanto, considerando o que se está a passar em Atenas, não me parece profícuo ou oportuno escrever sobre o pôr do sol grego. Direi apenas que, tal como o que conheço do país, é muito bonito, simpático, afável, reconfortante, caloroso.
Enfim, gosto muito da Grécia. Tempos difíceis, estes. Lixados, mesmo. Para a Grécia e para o resto da Europa e para Portugal e para o pessoal dos trinta anos que é português e vive em Portugal. Tal como acontece aos Gregos, deitam-nos fora todos os dias.
Isto já não diz respeito à situação que se vive em Atenas, mas enfim.

(outra) Gaja que faz o meu estilo: Marianne Faithfull

O máximo de tudo, esta Marianne. Por onde começar?

Primeiro, novamente o cabelo, o cabelo da Marianne quando era nova, comprido, com a franja dos sixties, ai o que eu queria ter aquele cabelo.


Segundo, uma arrojada, uma maluca, aos pinotes com os Rolling Stones, assim é que é.

Terceiro, canta bem. Uma voz de bruxa cheia de personalidade. Canta o que quer quando quer. Adoro o seu álbum Strange Weather, e aquele Boulevard of Broken Dreams, logo a primeira canção, que ela canta dolorosamente, como uma bruxa roufenha, que dito assim parece feio mas não é, é lindo (I walk along the street of sooooorrooooow....)

Quarto, ainda faz música (vai sair um álbum novo em breve) e faz filmes porreiros. Quer dizer, digo isto devido a Irina Palms, que eu não vi, mas disseram-me que era bom, eu é que me tenho esquecido de ir alugar o DVD para ver. Mas parece ser bom, tem a Marianne a fazer de prostituta velhota para arranjar dinheiro para a operação do neto.

Gosto desta tipa, gosto mesmo. E, por isso, segue-se um vídeo muito interessante, visual e musicalmente, em que a Marianne canta Sony & Cher com David Bowie. Sinceramente, não sei o que é melhor, se a versão deles de "I've got you babe", se a maquilhagem do David Bowie que lhe fica a matar, se o hábito de freira da Marianne. É difícil decidir.



domingo, 21 de dezembro de 2008

Errar na nacionalidade?

Tenho pensado muito no Herman. E apeteceu-me recordá-lo em toda a sua glória devido ao Tal Canal ter saído em DVD. Como existe um magnífico site chamado YouTube, tenho podido apreciar o Herman em grande. Sem ele, não havia Gato Fedorento nem Contemporâneos nem humor de jeito em Portugal nem nada, mas apenas Malucos do Riso e teatro de revista que, peço muita desculpa, talvez tenha cumprido o seu papel na altura da ditadura, mas graça é que aquilo não tem. Aprendi a rir com o Herman, e provavelmente muitas pessoas da minha geração também, ao verem os pais perdidos de riso com o Tal Canal embora sem perceberem muito bem as piadas todas. E por isso gosto do Herman, que me habituou ao riso com qualidade, apesar da preguiça que o fez passar a apresentar talk shows foleiros e, a partir de uma certa altura, pura e simplesmente bimbos.

À semelhança do que diz a minha amiga Alexandra (falo muito dela porque devemos ter aproximadamente um milhão de coisas em comum) do Vasco Santana e do António Silva, talvez o erro trágico do Herman não tenha sido "engajar-se" em programas espúrios e miseráveis como o Hora H, mas antes não ter nascido inglês ou até americano.

Estou perfeitamente convicta de que, se acaso o Herman fosse inglês, há muito que o mundo teria encontrado o seu Ricky Gervais.

No entanto, ainda bem para mim que, tal como Camões, Herman José é português (meio alemão, ao que parece, mas mais português). Assim, ele pode aplicar o seu arguto e espantoso poder de observação, que não sei de onde lhe vem, aos hábitos e aos pormenores tristemente engraçados da vida comum dos portugueses, deste modo fazendo-me rir muito. De facto, o que me faz fã absoluta do Herman é a capacidade extrema de observação, aquela sensação de reconhecimento quando o vemos encarnar uma determinada personagem. Uma das minhas personagens favoritas do Herman é sem dúvida o Nelo. Deixo aqui um vídeo que escolhi por ter uma das tiradas mais fabulosas de sempre, quanto a mim: "pois tá, pois estão a olhar para mim, eu tenho muito poder!" (além do Nelo a falar espanhol, que é inenarrável no bom sentido, de ir às lágrimas).


Eu concordo, o Herman tem poder. Tem é de fazer uma forcinha, porque ultimamente anda em baixo. Não fosse o programinha na Antena 1, o Tal País, e as ruas da amargura por onde anda a SIC (ruas essas de onde provavelmente nunca saiu) davam cabo dele em absoluto.



sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Rui


Tenho-me esquecido de comentar sobre o facto de já ter saído o disco do meu Rui.

Enfim, gosto.

Há quem diga que a versão dele das Doce está feia. Outros dizem que está bonita. Eu sou dos que diz que está muito bonita.

Portugal: acho que o que gosto em ti, o que me motiva, é o teu sorriso transversal

Há tantos temas que me interessam em Portugal que tenho muita dificuldade em escolher, embora à partida me interesse a inveja, por um lado, e a lágrima, por outro.
A inveja é uma baixeza, e penso que todos os Portugueses, em geral, o sabem. Mas a verdade é que me parece, de facto, que somos um país invejoso. No entanto, não somos abertamente invejosos, abertamente retorcidos e asquerosos como os bastardos das peças do Shakespeare. A nossa inveja consegue uma subtileza de que só nos apercebemos através de pequenos indícios, como pequenos olhares azedos escondidos por detrás de um sorriso, ténues ataques verbais, ligeiras tentativas de demonstrar uma autoridade inexistente e absurda. Quando invejamos, demonstramos a inveja ao tentar, de forma inútil e estéril, ser melhor de quem nós sabemos que é melhor do que nós. Em vez de nos encherem de alegrias, as pessoas de qualidade, inteligentes, sensíveis, competentes, são antes consideradas aves raras e incomodativas que nos obrigam ao confronto com as nossas próprias limitações. E preferimos então entregarmo-nos à bílis da inveja, conscientes da nossa mediocridade, mas incapaz de a admitir.
A nossa incapacidade para a lágrima é outra coisa que me intriga. Tenho pensado nisto, e não me parece que os Portugueses sejam muito dados ao choro, o que me espanta verdadeiramente, dado a miséria e as queixas em que somos peritos. Queixamo-nos tanto, e ainda mais ao percebermos que temos todas as razões para isso, porque somos pobres e feiosos. Devíamos chorar todos os dias. Mas não. A nossa cara é enfiada, olheirenta, estafada, mas não choramos. Mesmo os fadistas, que se entregam tanto ao negro e à sombra, não choram. Parece-me que, apesar de toda a educação ultraromântica de que se queixava o Eça, e que me parece ainda permanecer (a titi a tratar do seu Eusebiozinho, o tesouro da casa, sobreprotegido e medíocre, a recitar um poema que era bonito por ser muito triste, coitadinho), as lágrimas não são o nosso forte. Somos educados a engolir as lágrimas, literalmente. Aguentar e falar, queixar até que a voz nos doa, mas nunca chegar ao ponto de chorar.
No fundo, tanto a inveja subtil como a nossa contenção com as lágrimas reflectem, de alguma forma, uma característica nossa que talvez seja aquela que de facto me interessa verdadeiramente: a “transversalidade”. A incapacidade de sermos preto no branco, directos, incisivos. Fazemos tudo por portas travessas – e esta expressão é muito significativa. Não me parece que seja necessariamente um defeito. Não pretendo apresentar a nossa “transversalidade” como se fosse um defeito, pois não é assim que eu penso nela. Aliás, a primeira vez ouvi que ouvi falar disto até foi sobre as formas de tratamento da língua portuguesa, tema que me é caro. A miríade interminável de formas de tratamento de terceira pessoa (formas nominais, verbais, sem esquecer o famigerado “você”!) demonstra bem a nossa sofisticação e vontade, pelos visto indómita, de evitar o confronto directo que a segunda pessoa exige. Sempre o você, nunca o tu.
Porque será?

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Miscelânea, mas principalmente Mariana Alcoforado - payback


Queria mencionar aqui dois pontos que me tenho esquecido de mencionar. Um é inofensivo, o outro é ofensivo.
Começando pelo inofensivo, faz-me sempre rir quando as pessoas, em vez de dizerem, por exemplo, "eu sou uma pessoa estúpida", introduzem uma oração relativa completamente inútil, e dizem "eu sou uma pessoa que é estúpida". Esta capacidade dos portugueses para tornarem tudo distante de si mesmos, falando da "pessoa que é estúpida" ao falarem deles próprios é fascinante.

O ponto "ofensivo" relaciona-se com uma coisa que eu li. Gosto de biografias, e portanto li, no Verão, um livro com o tenebroso título "Luís XVI e o amor", escrito por uma senhora chamada "Lady" Antonia Fraser, que também escreveu a biografia da Maria Antonieta na qual a Sofia Coppola se baseou para fazer aquele filme de que ninguém gosta, embora eu goste, e publicado em Portugal pela Oceanos. Bom, estou confortavelmente a ler o livro, e no capítulo 6, p. 135, faz-se referência às Cartas de Uma Freira Portuguesa, acompanhadas por uma interessante nota de roda-pé, que, passo a citar, informa que "alegadamente escritas em português, em 1667-8, por Mariana Alcoforado, e posteriormente traduzidas para francês, as Cartas de uma Freira Portuguesa foram, na verdade, compostas por Gabriel-Joseph de Guilleragues". E está tudo dito.

Portanto, segundo esta nota de roda-pé (que, por sua vez, remete para uma Short History of French Literature, de uma Sarah Kay, Oxford 2003), a Soror Mariana é uma ficção, nunca escreveu nada. Tratei de me informar nesta inesgotável e mágica fonte de informação absolutamente fidedigna que é a Internet e aprendi que há de facto uma tese que afirma que a Marianinha nunca escreveu nada, mas sim esse tal Gabriel. Mas não é certo. Embora para esta senhora, esta Lady Antonia, e para esta tal Sarah Kay (que, pelos vistos, afirma isto numa Short History), é tudo claro como água. As Cartas não são da Mariana, ponto final.

Não é nada de especial, eu sei, mas não gosto de ver a Mariana mal tratada. Gosto da Mariana. Gosto das cartas que escreveu. Quis fazer-lhe justiça. Eu acredito em si, Soror Mariana.

Tu quoque, Nicola


Tenho uma desilusão profunda, ou pelo menos considerável, que se chama Nicholas Cage. Normalmente, nunca me lembro desta desilusão, mas há dias como o de ontem, em que estava a dar a "Cidade dos Anjos" no Hollywood, em que a minha amargura provocada pelo Nicholas se adensa. Vê-lo a representar num filme que merecia ganhar o prémio pela pior e mais horrível e pirosa adaptação de sempre de um grande filme já é doloroso; vê-lo a sorrir com ar de parvo absoluto, a fazer de anjo, é insuportável.

De modo que a minha pergunta é: porquê? Também tu, Nicholas, também tu te vendeste. Eu, que te adorei a fazer de Sailor nesse filme assombroso que é Wild At Heart, quase que me apaixonei por ti, eu que adorei o teu discurso quando ganhaste o Óscar (qualquer coisa como "sei que não está na moda dizê-lo, mas espero que se continue a apoiar o cinema independente"), tu que tinhas (e tens) essa maneira lenta de falar, vagarosa, esse olhar meio tolo e inocente, essa rosto feioso de bom rebelde, aquele casaco de pele de cobra quando levavas a Laura Dern a dançar, esses maneirismos à Elvis tão engraçados, para onde é que isso foi tudo?! Que tenhas feito o Face Off, digo-te já que não só percebo, mas até concordo. Se bem que achei mal teres deixado que o John Travolta tenha representado bem melhor do que tu, mas pronto, o filme vê-se bem, é giro, estavas a experimentar coisas novas. O Con Air já custou mais a aceitar, mas pronto, afinal também estavam lá bons actors, o Malkovich, o Cusack (sweeeeeet), o Buscemi, e o filme é um filme de acção que também se vê bem. Agora - a Cidade dos Anjos?! Aquela porcaria do Tesouro?! Mas o que é que te deu? E depois tentas compensar com coisas mais ou menos independentes mas que também não são boas, que confundem ser seca com "ser indie", tipo Weather Man. Embora admita que, naquele filme em que vendes armas, não me lembro agora o nome, estavas bem. Mas começa a ser excepção.

Se tu soubesses as saudades, as saudades que eu tenho de ti como Sailor, as saudades de te ver a fumar, a acender o cigarro (o Wild at Heart fez-me desesperadamente querer fumar para ter um ar todo cool, mas não fumo e não tenho um ar cool porque sou doentinha, sou tísica, e os cigarros
dão com certeza cabo de mim), as saudades desse ar de quem se está a marimbar mas tem bom coração, as saudades de te ver como nesta fotografia, olha para ti na fotografia, estás o máximo, mas agora já não és o máximo, agora és parvo como os outros.
Nunca devias ter saído do Wild at Heart. Devias lá ter ficado para sempre. Já que não posso dizer "Sailor and Rita forever", que seja "Sailor and Lula forever". Ouviste?

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Melhor prenda de Natal de sempre

A minha querida amiga Alexandra deu-me o melhor presente de Natal de sempre. É um DVD imbuído do mais puro espírito natalício e que eu vou adorar ver:

É mesmo do melhor, um clássico absoluto do terror e estou muito contente de o ver figurar na minha dvdtecazinha. Já vi há uma data de anos, adorei, e de facto só a Alexandra para me dar uma coisa destas no Natal. Sabe do que eu gosto, a malandreca. O horror, o horror.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Let me count the ways in which I love thee...?

Além das terças-feiras, além de 2008, eu tenho ainda um outro problema. Um problema que presumo ser comum, sobre o qual sei que muita gente já escreveu, e que portanto me torna também num grande lugar-comum. Mas isso eu já sabia.
O meu problema é: não consigo dizer às pessoas que gosto delas. Embora goste, e muito. Quanto mais gosto, menos consigo dizer. Sinto-me muito desconfortável, e todos os sinais de carinho com que me acenam enchem-me de uma alegria imensa, mas que me impede de agir, não sei porquê. Se me telefonarem, se me mandarem um email, fico tão contente, mas ao mesmo tempo tão sem saber o que fazer, tão incapaz de lhes dizer "também tenho saudades tuas", "também gosto muito de ti", ou simplesmente "quero ver-te". É tão difícil.
Não percebo porque é que é tão difícil. Gostava de ser capaz de, agora mesmo, pegar no telefone e percorrer todos de quem gosto, só para lhes dizer que gosto deles e mais, que preciso deles para continuar a ter uma vida decente. Mas não sou capaz.
Curiosamente, sou capaz de escrever esta lamechiche ao deus-dará, na Internet, para toda a gente ler. Portanto, quem estiver a ler isto, e for daquelas pessoas de quem eu gosto, fica a saber que eu gosto muito dela ou dele. Ao menos isso.
Se continuar assim, tenho perfeita consciência que fico como aquele poema do Borges (diz-me a Internet que é apenas falsamente atribuído a Borges) em que ele desfia tudo o que gostaria de ter feito e não fez, para depois concluir "mas tenho 85 anos e sei que estou a morrer". Ou seja, já não vai dar.
Mas para mim talvez ainda dê, porque apesar da minha idade respeitável, ainda estou muito longe dos 85 anos. Ou não, as pessoas estão sempre a dizer que a vida passa a correr.
De qualquer forma, nada muda o facto de ser tão difícil. É tão difícil, resolver este problema. O que é que se passa comigo, estou cada vez mais lamecha, odeio ser lamecha, mais outro problema a resolver, agora já são as terças, 2008, ser verbalmente limitada e a lamechice, ai, e agora...

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Annus horribilis (ou: epá, estou de tão mau humor que me irrito a mim própria)

Resmungar contra as terças-feiras, para mim, não chega.
Tenho de resmungar contra o ano inteiro.
2008 foi uma porcaria pegada, do princípio ao fim, e cá para mim o fim adivinha-se ainda pior do que o começo, se é que é possível.
O Natal só serve para me pôr o pessimismo à flor da pele. E o cinismo, também. Aliás, se tivesse um mínimo de jeito para escrever um texto com o máximo de cinismo, era o que faria já a seguir. Mas não tenho o mínimo de jeito. Embora sinta que tenha um máximo de cinismo que já pesa, mas que não se vai embora.
A culpa é toda de 2008, toda, toda, toda, toda, e só de pensar que o melhor que consigo pensar é "esperemos que 2009 não seja, pelo menos, ainda pior", fico muito mais deprimida.
Se alguém ler isto, e apanhar com este "esvaziar de toda a bílis", como dizia o Eça, peço muita desculpa. É que peço mesmo. Mas o Natal, e esta porcaria do 2008, e tudo, deixam-me assim, com a acrimónia a azedar de dia para dia, qualquer dia sou mais do que um limão, sou um limão verde, sou leite estragado, bolsado de bebé, nem olhar para mim podem.
Brrrrrr.
PS: agora lembrei-me que 2008, no fundo, me disse, logo em Janeiro "vai à merda". Eu podia ter dito, com um ar muito fofinho e uma vozinha muito doce, "vai tu", assim como aquele diálogo parvalhão entre o Joaquim de Almeida e a Maria de Medeiros daquele filme também parvalhão que é o Adão e Eva. Mas esqueci-me de dizer. Agora se calhar é tarde demais, assim como assim 2008 está a acabar, ao passo que eu cá estou para as curvas. Embora preferisse estar cá para a linha recta, era bem mais fácil.

Birra

É terça-feira, feira da ladra
Acordei hoje de madrugada
Saí de casa, bem apressada
Antes do emprego já estava cansada


E cheguei lá por fim
Já bastante mal disposta
Mas há que produzir, é o que o patrão gosta


É terça-feira, das cinzas talvez
Amanhã que é quarta-feira há trabalho outra vez
Eu já sei que é preciso
E tento ter o juízo
De não me queixar, ai as contas p'ra pagar


É terça feira, feira da ladra
Trabalho muito, mas não em demasia
E por mais que eu queira, não há maneira
De sentir aquilo qu' o Sérgio dizia

Diz o Sérgio que a rapariga
Troca a tristeza pela alegria
Mas eu à terça-feira
Sinto-me sempre tão foleira

Não vamos brincar ao Natal

No colégio em que andava em pequena, se alguém queria brincar a qualquer coisa e não tinha com quem, começava a percorrer o recreio, lentamente, a cantarolar "quem quer brincar aos carrinhos, quem quer brincar aos carrinhos" (ou às bonecas, ou à apanhada). Quem quisesse, juntava-se ao menino ou à menina num abraço, e percorriam os dois o grande pátio, a cantarolar, até se juntarem crianças em número suficiente para se iniciar a brincadeira.
Estava hoje a pensar que eu queria mesmo, mesmo, mesmo que as coisas ainda se passassem assim. Se precisássemos que alguém nos ajudasse, bastava ir para a rua, cantarolar e pronto. Seria um mundo bonito.
Ultimamente, só me dá para estes pensamentos lamechas. Não há nada que eu deteste mais do que lamechiche. Mas sou tão lamecha.
Deve ser o raio do Natal, aí à porta. No entanto, o Natal não deveria ser desculpa para a minha lamechiche, pois não tenho grande paciência para esta época. Este ano, a publicidade parece ainda mais desavergonhada. Desde os anjinhos da Samsung no Cristo Rei (!) até às bolas de Natal TMN no Terreiro do Paço, tornou-se absolutamente impossível sair à rua sem estas ofensas à integridade física das nossas carteiras e da nossa razoabilidade. Parece que vivemos todos num enorme centro comercial, como "A Caverna" do Saramago.

Amanhã, vou começar a percorrer o pátio, lentamente, em círculos, a entoar "quem é que não tem paciência para o Natal, quem é que não tem paciência para o Natal, quem é que não tem paciência para o Natal..."

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Aspectos linguísticos de pouco interesse mas que a mim interessam (e por vezes enervam)

Reparei que alguns falantes portugueses têm um problema de pronúncia e que talvez precisem de terapia de fala. Estes falantes são normalmente jovens nacionais-cançonetistas ou jovens que ganham a vida a "representar" nos Morangos com Açúcar. O problema de fala concentra-se fundamentalmente na pronúncia das consoantes oclusivas linguodentais, vulgo "t" e "d", que eles insistem em tornar sibilantes: "Entsão, tsudo bem contsigo? Tfona, tsiz-me qualqué coisa, tsá bem?"
Outro problema em que reparei, e que não se relaciona necessariamente com este, é a mania que as pessoas agora têm de juntar "lá" ao "desculpe". "Olhe, desculpe lá, dê-me licença", "desculpe lá, dê-me um café", "desculpe lá, isto não pode ser assim", etc. O "desculpe" já cumpre as funções que tem a cumprir, não é preciso juntar o "lá", que torna a frase feia e mais informal. As pessoas, no fundo, têm vergonha de serem delicadas, devem pensar que lhes caem os parentes na lama, como se costuma dizer. Não basta recorrerem ao "você" permanentemente, ainda insistem no "lá". Se pensarmos bem, "lá" estraga todas as nossas tentivas de mostrarmos algum cuidado para com a outra pessoa: "ouça lá" ao invés de "ouça", ou "desculpe lá" ao invés de "desculpe", é bastante mais intrometido e desleixado.
Este país não tem futuro.

domingo, 14 de dezembro de 2008

Artigos impróprios para o Domingo

I must have been here for hours, everything's stiff and my head throbs like someone's drumming on china. The car stops. He turns off the motor but there are no traffic sounds. No people sounds. No wind. What place has no wind? As I wake up I hear a dog barking in the distance and I think I'm in my parents' house in South Carolina. When I open my eyes, there's a shotgun pressed between them. I'll never get married. I'll never have kids. I'll never go to Europe. I'll never learn to play piano. I'll never write a book. The last thing I hear is a click.

Golden Palominos, "Victim"


My old lady also understands that a man must have respect. What I mean is, if she must play around don't let me catch her, because what I don't see cant hurt me, you understand? But on the other hand, if I should ever catch her I'm not gonna talk about and call her a bunch of bad names like you all might. No, no. What I'm gonna do, I'm gonna go down-town to the hardware store and buy myself a double blade axe, come back, square off, and her soul better belong to the good Lord because her head's gonna belong to me.

Ray Charles, "Understanding"


That moment she was mine, mine, fair, perfectly pure and good: I found a thing to do, and all her hair in one long yellow string I wound three times her little throat around, dnd strangled her. No pain felt she; I am quite sure she felt no pain. As a shut bud that holds a bee, I warily oped her lids: again laughed the blue eyes without a stain. And I untightened next the tress about her neck; her cheek once more blushed bright beneath my burning kiss: I propped her head up as before only, this time my shoulder bore her head, which droops upon it still...And thus we sit together now, and all night long we have not stirred, And yet God has not said a word!

Robert Browning, "Porphyria's Lover"


Then one morning I awoke to find her weeping, and for many days to follow she grew so sad and lonely, became Joy in name only. Within her breast there launched an unnamed sorrow and a dark and grim force set sail. Farewell happy fields where joy forever dwells (hail horrors hail).Was it an act of contrition or some awful premonition, as if she saw into the heart of her final blood-soaked night, those lunatic eyes, that hungry kitchen knife, ah, I see sir, that I have your attention...

Nick Cave, "Song of Joy"


There's a killer on the road. His brain is squirmin like a toad. Take a long holiday, let your children play. If you give this man a ride, sweet family will die. Killer on the road.

The Doors, "Riders on the Storm"


His legs suddenly went horribly weak, a chill ran down his spine, and for a moment his heart almost froze; then it suddenly began to beat as though it had been released from a catch. In this manner they walked for about a hundred yards, side by side, and again without saying one word. The artisan did not look at him.

'What are you talking about?... Eh?... Who's a murderer?' Raskolnikov muttered, barely audibly.

'YOU are a murderer', the artisan said, even more distinctly and reprovingly, with a smile that expressed something akin to hate-filled triumph...

Dostoyevsky, "Crime e Castigo" (só tenho a tradução em inglês, infelizmente)


And still, as he continued to fill his pockets, his mind accused him with a sickening iteration of the thousand faults of his design. He should have chosen a more quiet hour; he should have prepared an alibi; he should not have used a knife; he should have been more cautious and only bound and gagged the dealer, and not killed him; he should have been more bold and killed the servant also; he should have done all things otherwise; poignant regrets, weary, incessant toiling of the mind to change what was unchangeable, to plan what was now useless, to be the architect of the irrevocable past. Meanwhile, and behind all this activity, brute terror, like the scurrying of rats in a deserted attic, filled the more remote chambers of his brain with riot...
R. Louis Stevenson, "Markheim"

Acho que era a isto que os Românticos chamavam o locus horrendus. É horrendus mas também é muito bellus.

sábado, 13 de dezembro de 2008

Hermengard


A minha amiga S. deu uma belíssima ideia para auxiliar o meu working project de Eric, The Presbyter. Parece que temos uma potencial Hermengard na calha, que é esta senhora, a Helena Bonham-Carter. Parece-me uma escolha acertada por vários motivos: primeiro, tem um rosto que faz lembrar, efectivamente, as damas da Idade Média, objecto de desejo dos pobres trovadores (não pode é ir a fumar para o filme, com grande pena minha); em segundo lugar, é boa actriz, e em terceiro lugar acho que faz muito bom "pandã" (expressão engraçada) com o Eric, que, como já anteriormente escrevi, será, quanto a mim, muito bem encarnado pelo Gonçalo Waddington.

O único impedimento é a questão da linguagem. A Helena não fala português nem é portuguesa, e eu acho que convinha que os actores fossem portugueses, para sentirem o filme com um coração mais aberto. De modo que tenho uma solução, caso a agenda da Helena estiver toda preenchida e ela não conseguir um furinho para participar no Eric. É esta senhora, a Rita Loureiro, que vi na lindíssima encenação da Cornucópia dos Gigantes da Montanha e que é intensa, competentíssima e que daria uma Hermengard à maneira:
Está tudo bem encaminhado.