
domingo, 30 de novembro de 2008
O optimismo é piroso

sábado, 29 de novembro de 2008
Envelhecer aos fins de semana custa (ou como o frio e a chuva toldam a nossa capacidade de escrever algo que faça sentido)
Como aos fins-de-semana tenho mais tempo para pensar, normalmente fico mais angustiada. Por exemplo, hoje tentei ir ao cinema, mas a fila para estacionar era tão grande que desisti logo. Também não estava assim com tanta vontade de ir ao cinema ou a outro lado qualquer, e por isso fiquei ali parada no trânsito, a olhar para a fila de carros a tentar estacionar, e a pensar se aquela gente faz sempre a mesma coisa todos os sábados, isto é, sair de casa e procurar um sítio para estacionar e, se o encontrarem, arranjar depois qualquer coisa para fazer. Mas toda a gente parecia muito ocupada menos eu. Toda a gente parece sempre que tem imensa coisa para fazer menos eu.quinta-feira, 27 de novembro de 2008
(outra) Gaja que faz o meu estilo: Charlotte Gainsbourg

quarta-feira, 26 de novembro de 2008
Nota mental 2: com o Corto Maltese não resulta, mas e com Marlon Brando...?
- Olha, Marlon, tu só queres andar aí no engate e nos copos, não é? Então põe-te daqui para fora e é já. Dura vita sed vita
Memórias de uma menina bem impressionada

de Jesus do que as outras mães gostam dos seus filhos. Valeu-me a minha própria mãe para me explicar que aquilo não era bem assim, caso contrário sofreria até hoje de um sentimento bastante forte de rejeição.El Greco é para adultos, é o que eu defendo.
terça-feira, 25 de novembro de 2008
Vã glória de mandar: uma análise (mais ou menos) linguística
- Não estou aqui a ver nenhum anexo A1234567899668654687/F.
Eu fico perplexa, pois não percebo o que é que eu tenho a ver com aquilo que o funcionário consegue ou não ver. Normalmente digo:
- Ah, não? Ah... que pena.
Mas o funcionário volta a insistir na sua falta de visão, talvez para eu ter ainda mais piedade, e suspira ainda mais fundo, dando à voz algumas entoações irritadas, para eu me compadecer mesmo dele:
- Pois não, não estou a ver não. É que não estou mesmo a ver.
E depois fica a olhar para mim, com ar zangado. Depois de alguns minutos, eu percebo finalmente que o que ele está a tentar fazer é avisar-me, de forma delicadíssima, de forma muitíssimo indirecta, como quem se compraz em apontar ao cidadão aquilo que ele fez mal (o que eu sei que não pode ser verdade), que eu não entreguei o papel que devia ter entregado, e que a culpa é toda minha de ele estar tão zangado. E decido arriscar:
- Então... quer dizer que vou ter de voltar cá... com o tal A123457857075086770764067/F?
- Pois com certeza! Pois com certeza!
- Então não posso preencher num instante agora? É que não fazia ideia e...
E agora, triunfante no esplendor de todo o seu poder, diz-me o funcionário/a:
-NÃO. NÃO PODE.
Também gosto da atitude pedagógica dos portugueses quando mandam. Uma vez, no meu local de trabalho, perdi o cartão de identificação e tive de ir tratar do assunto com o senhor dos cartões. Expliquei-lhe que precisava de um cartão novo porque tinha perdido o meu, e responde-me o senhor:
-Então mas acha que eu lhe posso dar um cartão assim sem mais nem menos? (aqui está, método socrático no seu melhor - fazendo perguntas para a pessoa responder é a melhor forma de aprender!)
- Sim, eu trabalho aqui e... e portanto, acho que preciso de um cartão novo... não é?
- Ah pois, mas não. Isto há métodos. Eu tenho de seguir métodos. Sente-se aqui que vai ter de abrir um processo novo para ter cartão, não vê que isto há métodos!
E, neste saudável exercício de diálogo platónico, lá fiquei eu, mais uma vez preenchendo papelada, seguindo os "métodos" impostos pelo senhor dos cartões, cujo rigor profissional impedia de me dar um cartão provisório do pé para a mão para eu poder sair do parque de estacionamento.
segunda-feira, 24 de novembro de 2008
(outra) Gaja que faz o meu estilo
Grace Slick, dos Jefferson Airplane. Comecei a gostar dela devido à capa de "Surrealistic Pillow", álbum da mesma banda, em que ela tem um cabelo impecável, e o meu sonho, há uns anos, era ter um cabelo assim, mas ou o meu cabelo tem algum problema, ou é o meu cabeleireiro que tem, pois nunca consegui atingir este ar assim cool aqui da Grace. Para remediar, decidi ouvir o disco e fiquei fã dos Jefferson e fã da Grace enquanto nova, porque entretanto envelheceu e ficou uma velha maluca que, na meia-idade, decidiu fazer parte de um grupo indescritivelmente piroso chamado "Starship" (bbrrrrrr, só de pensar até dá arrepios, o que está a minha Grace a fazer cantando aquele insultuoso "and we can do this thing together, standing strong forever, nothing's gonna stop us now, aaaaaaaaaaaaaaah! A princípio nem quis acreditar, disseram-me que era ela e eu não acreditei, eu ouvia a música quando era pequena e já na altura não gostava, depois cresci e descobri a verdade, afinal era a Grace, ai).Adiante. Num filme que pelos vistos foi mal amado pelo público, mas que eu não acho muito mau, e ao qual até acho piada, que é o Melga, o Jim Carrey faz uma imitação suprema e de morrer a rir da Grace Slick a cantar aquela que é provavelmente a sua canção mais conhecida - Somebody to Love (mas tem mais graça se já conhecermos bem o original):
Lin-dooo. Grace, pede desculpa por essa coisa do Starship e voltamos a ser amigas. Mas continuo a adorar o teu cabelo. Sou uma fraca.
sábado, 22 de novembro de 2008
Em que demonstro porque é que não sou a Virginia Woolf,e/ou James Joyce e/ou restantes modernistas
sexta-feira, 21 de novembro de 2008
Gajas que fazem o meu estilo

quinta-feira, 20 de novembro de 2008
Politécnicos e universidades: não podemos ser todos amigos?
Rui Reininho vai lançar um álbum a solo. Não sei se vou comprar ou não (embora tenha ouvido ontem uma das canções do disco na Radar e tenha de facto gostado), mas fico contente por saber da notícia. Reininho tinha uma aura um tanto ou quanto original, escrevia letras engraçadas (lembro-me de ser muito pequena e ouvir o "Efectivamente" com uma amiga da escola porque era a tal música do "adoro as pulgas dos cães"; ríamo-nos sempre perdidamente com isto, sendo que o resto da letra nos passava um tanto ou quanto ao lado), tinha piada, boa apresentação e era meio irreverente - noutro dia, encontrei na Bertrand um livro com excertos de entrevistas com Reininho, nos idos anos 80, e ele dizia coisas como "quero ser reformado" ou "quero escrever música para reformados", algo deste género, assim como "quero escrever para o Marco Paulo". Era calculadamente cool - e isto num país em que as bandas ainda não tentavam, de forma tão deliberada, apresentarem-se como cópias formatadas de bandas britânicas e americanas, todas com roupa da moda, cabelo desfeito em cor e gel, de boca prontíssima para o inglês (já toda a gente percebeu que falam muito bem em estrangeiro, petizada, portanto agora já se podem calar, obrigadíssima) e para tiradas retumbantes como "queremos agradecer este querido EMA"; quando as ouço é que penso mesmo "faz-me impressão o trabalho, oh oh, que se tem em ser superficial" - de modo que, cantando e falando só em português, o que chegava e sobrava, Rui Reininho conseguia ter um ar algo rebelde e diletante que lhe ficava mesmo bem, e que a mim me encantava.
Almas penadas

Nunca me revejo naquilo que escrevi no passado. Leio e releio os textos e encontro sempre algo de que não gosto, ou algo que, muitas vezes, acho terrivelmente piroso, e este confronto com a falta de qualidade daquilo que escrevemos é duro. É quase alienante – releio os mesmos textos muitas vezes e é-me difícil acreditar que a pessoa que eu hoje sou escreveu aquilo há apenas três meses atrás, de modo que a minha identidade parece transfigurar-se numa espécie de alma penada que reside em palavras antigas que pus no papel e que agora voltam para me assombrar, vindas de algum lugar alheio a que eu, seguramente, não pertenço. E volto a lembrar-me do meu doce Bernardim: “de mim me sou feito alheio”.
Mas este lugar alheio é pura ilusão - ele existe, mas não é alheio. Este lugar alheio, onde escrevi textos tão maus que me envergonham, sou eu, é a minha casa. E por isso é que escrever é, por vezes, uma actividade tão dolorosa. O espelho mais revelador que podemos ter daquilo que somos. O confronto penoso com o eu como se fosse o outro, mas não é o outro, sou mesmo eu. Que confusão.
Tudo isto poderia fazer-me perguntar porque é que ainda tento escrever o que quer que seja, mas para isto o meu “eu”, ou talvez o “eu” que é o “outro” (simplifiquemos: “qualquer coisa de intermédio”) tem uma resposta: como o meu plano é endireitar a minha vida, estou à espera do dia em que vou olhar para o espelho e vou mesmo, mesmo gostar do que lá está, sem reservas de qualquer espécie.
quarta-feira, 19 de novembro de 2008
O país do "você"
Making of Eric, The Presbyter

terça-feira, 18 de novembro de 2008
Como ando a ler muito Pessoa, lembro-me de que seria bom que eu fosse tão interessante por fora como sou por dentro.

segunda-feira, 17 de novembro de 2008
Mestres


A mim parece-me que sim:
- Não quero que matem Phillis e Elijah. Do Abner não sei o que pensar, sempre foi louco... e os loucos são sagrados, porque pensam de olhos abertos.- Tudo isto me parece um disparate!
- Sim, tens razão!...É uma loucura, mas temos de fazer de conta que é uma coisa muito séria...é uma velha tradição índia, respeitar os disparates!
"Estranjas"
Octávia e Marco António.Silvia Plath e Ted Hughes.
Bertha Manson e Mr Rochester.
Penélope e Ulisses.
Ariane e Teseu.
Medeia e Jasão.
O que estas mulheres têm em comum é fácil de perceber - todas elas foram abandonadas, de forma mais ou menos óbvia, pelos maridos (Penélope é talvez um caso à parte, pois o marido só queria voltar para casa e não o deixavam, mas enfim). Lembrei-me disto nem sei porquê, talvez por de vez em quando pensar no belo Wide Sargasso Sea, de Jean Rhys, que resgata a figura da pobre Bertha Manson. Esta última, personagem de Jane Eyre, e antes da obra de Jean Rhys, resumira-se a um empecilho desnorteado impedindo a felicidade da frágil Jane com o seu bígamo Mr Rochester. Fechada no sótão por ser louca desvairada, a pobre Bertha não tem outro remédio senão tentar reclamar o marido, que agora se prepara para casar com a doce Jane, através de desvarios, grunhidos e actos piromaníacos. Em Wide Sargasso Sea, Jean Rhys dá a Bertha uma vida anterior ao casamento, uma personalidade, anseios e medos, isto é, faz-lhe justiça. Ao ler Jane Eyre (e li mesmo muitas vezes), nunca me lembrei da vida desta Bertha, sempre pensei que era uma doida parva a empatar o Mr Rochester e a fazer a minha pobre Jane infeliz, e foi preciso ler Wide Sargasso Sea para começar a olhar para o tal Mr Rochester com outros olhos e pensar que este, afinal, antes de ter pedido Jane em casamento, devia talvez ter-se lembrado de que já tinha outra mulher convenientemente trancada no sótão com as suas loucuras.
A história de Medeia, por seu lado, é a mais terrível, a mais insuperável, e provavelmente aquela com quem não se pode deixar de simpatizar, ainda que tenhamos imensa pena dos filhos sacrificados. No entanto, quem tem de aguentar não só o marido que a troca por uma princesazinha qualquer mais nova, como o exílio que lhe é imposto, como também ainda ouvir, do próprio Jasão, que muita sorte teve ela, Medeia, em ter casado com ele e ter ido morar para a Grécia, ela que era uma estrangeira bárbara vinda das profundezas do Terceiro Mundo, tem com certeza mais do que motivos para se indignar. Não admira que Medeia tenha dado em doida e exercido a sua vingança da forma mais retumbante possível, e não deixa de ser curioso este olhar reprovador e duro que recai sobre as mulheres como “seres estrangeiros” – Medeia e Bertha (crioula das Índias Ocidentais que segue o marido para Inglaterra), por exemplo, são duas estrangeiras que o pagaram caro. Cleópatra, que neste caso não foi abandonada, mas antes envolvida em grande tragédia por gostar de Marco António, também era constantemente vilipendiada em Roma por ser uma bruxa egípcia.
O que custa nas histórias destas mulheres abandonadas, principalmente aquelas da vida real, é o facto de ilustrarem a escassez de opções que assolou, durante séculos, as mulheres que permaneceram sós, repudiadas por um qualquer marido. E muitas delas, mesmo assim, enfrentavam as misérias e “davam a volta por cima”, para usar uma alegre expressão dos dias de hoje (como bem representa Hester Prynne de The Scarlet Letter, que até foi escrito por um homem). As suas histórias não deixam, porém, de impressionar. Catarina de Aragão fechou-se num convento e morreu para o mundo, e esta sim é que provavelmente se terá dado por felizarda ao ouvir dos destinos bem mais duros das outras esposas (e respectivos pescoços) de Henrique VIII. Octávia ficou a tratar dos filhos até morrer, e ainda por cima parece que um deles morreu e que lhe despedaçou o coração de vez (para ser sincera, li isto na Wikipedia, portanto tanto pode ser verdade como mentira). O caso de Silvia Plath é ainda mais cruel, quanto a mim. Também de coração estilhaçado ao ver-se abandonada por Ted Hughes, poeta que na altura aliava o sucesso literário ao sucesso entre as mulheres, Silvia Plath suicidou-se, mas o que aqui impressiona é que, neste caso, estamos a falar de alguém brilhante, inteligente, que escreveu uma poesia vigorosa, estranha, bela, e que era igualmente magnífica na prosa – a “Bíblia dos Sonhos”, colecção de contos de Silvia, é provavelmente o melhor livro de contos que já li, ou pelo menos aquele de que mais gosto. Uma pessoa que, ao que me parece, deveria ter muitas razões para viver. Mas os caminhos tortuosos da mente humana são, de facto, insondáveis.
E é isto, hoje deu-me para pensar sobre a condição feminina. Gosto de viver no século XXI, apesar de tudo o que ainda há para fazer relativamente à condição das mulheres no mundo, e gosto de saber que, se não tenho o talento de Silvia Plath, pelo menos tenho uma compensação, que é a de viver como quero (ou quase, aquele problema da assimetria...)
domingo, 16 de novembro de 2008
Seguindo esta sugestão, e ainda bem que o fiz, tive oportunidade de assistir a uma apresentação muito interessante de Patrícia Portela acerca dos seus dois livros e da forma como os livros também podem pertencer ao campo das artes perfomativas.