Eu gosto muito de genéricos, porque considero que são uma parte importantíssima de qualquer filme ou série. Quando bem feitos, entusiasmam, comovem, criam uma pré-disposição para assistir ao que se segue com atenção e, mais importante, no estado de espírito correcto. Veja-se o genérco do grande Twin Peaks, que comecei a rever ontem e que já me deu pesadelos (quando mais velha estou, mais mole fico) - a banda sonora fantasmagórica (e incomparável), a sequência vagarosa da serração, dos bosques, da queda de água, tudo para o espectador ficar logo meio nervoso, meio interessado no que se vai passar.
Assim sendo, e seguindo John Cusack no necessário High Fidelity, deixo aqui o meu top 5 dos genéricos de séries que, para mim, são dos melhores que já vi. Quem ainda ler isto e quiser dar a sua opinião, faça favor. A lista está mais ou menos por ordem de preferência, mas é flexível (e é lista de genéricos, não propriamente de séries, embora normalmente um bom genérico corresponda a uma boa série):
5. True Blood
4. Luther
3. The Wire
(o vídeo abaixo tem os genéricos das temporadas todas)
2. Sopranos
1. Twin Peaks
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quinta-feira, 24 de outubro de 2013
sexta-feira, 27 de setembro de 2013
A questão que Stringer Bell levanta (SPOILERS)
Stringer Bell é uma personagem do The Wire, um criminoso de rua muito cruel e muito mau que ganha rios de dinheiro a vender droga, juntamente com o seu companheiro de rua e irmão de vida Avon Barksdale. Bom. A uma certa altura, Stringer decide que quer uma vida mais legítima, isto é, transformar o dinheiro ilegal que tem num negócio que lhe continue a dar dinheiro, mas que seja legal aos olhos da sociedade. Ele, Stringer, não se torna numa pessoa melhor, o seu coração não adocica, nem reconhece a ordem social - apenas considera que tem mais a ganhar se deixar de vender droga nas esquinas. Vai daí, enceta esforços para se tornar um magnata do "real estate", o que implica subornar gente de toda a espécie, mormente políticos, que têm a particularidade de serem ainda mais corruptos do que ele. E o pobre Stringer iludido, a pensar que não havia ninguém mais empedernido do que um homem como ele, que construiu o seu império nas esquinas de droga dos guettos de Baltimore...pobre coitado.
Passa-se, então, que Stringer Bell gasta rios de dinheiro a tentar legitimar o seu negócio, dá dinheiro a um senador que o esmifra e ainda se ri dele, e não consegue, de forma nenhuma, ultrapassar o estádio em que está - vendedor de droga do guetto. O seu amigo Avon, que sempre recusou ultrapassar a sua condição e ser qualquer outra coisa que um 'soldado das ruas', diz-lhe qualquer coisa como "they saw your ghetto ass coming miles away", e Stringer Bell responde com fúria.
Quando Stringer morre, o detective que passa a série toda atrás dele, McNulty, passa-lhe revista à casa e depara-se com um apartamento lindo, organizado, com um pequena biblioteca onde figura Wealth of Nations, de Adam Smith (anteriormente na série, mostrara-se Stringer Bell a ter aulas de economia à noite). E interroga-se McNulty - quem é que eu andei verdadeiramente a perseguir estes anos todos?
E interrogo-me eu - o que nos demonstra a história de Stringer Bell? Demonstra-nos que a vida (sim, eu sei que é uma série de televisão, mas pronto) não é assim tão diferente dos romances naturalistas em que as personagens são afundadas pela força da sociedade. Stringer Bell, à sua maneira, tenta aperfeiçoar-se e não consegue - o peso da sociedade, ainda pior do que ele, mais corrupta, mais dura, cai-lhe em cima e ele morre na derrocada. E enfim, com a vida como está, com esta crise toda, que é moral e social ainda mais do que financeira (e aqui reside, penso eu, o verdadeiro perigo da crise), não posso deixar de pensar que Stringer Bell quer dizer muita coisa. Quer dizer que a chamada "mobilidade social" deixou de existir, se alguma vez existiu. Quer dizer que é cada vez mais difícil melhorar, ultrapassar a nossa condição. É verdade que podemos não o querer fazer, mas também é verdade que podemos querer ser mais, viver mais, e não conseguir, porque há muito contra nós.
Mas enfim, talvez seja apenas o meu conservadorismo a falar. Espero bem estar profundamente errada, e além disso também já não tenho mais tempo para escrever mais, de modo que fica assim.
Adenda: descobri este artigo giro, quanto a mim de interesse para quem gosta do The Wire.
Passa-se, então, que Stringer Bell gasta rios de dinheiro a tentar legitimar o seu negócio, dá dinheiro a um senador que o esmifra e ainda se ri dele, e não consegue, de forma nenhuma, ultrapassar o estádio em que está - vendedor de droga do guetto. O seu amigo Avon, que sempre recusou ultrapassar a sua condição e ser qualquer outra coisa que um 'soldado das ruas', diz-lhe qualquer coisa como "they saw your ghetto ass coming miles away", e Stringer Bell responde com fúria.
Quando Stringer morre, o detective que passa a série toda atrás dele, McNulty, passa-lhe revista à casa e depara-se com um apartamento lindo, organizado, com um pequena biblioteca onde figura Wealth of Nations, de Adam Smith (anteriormente na série, mostrara-se Stringer Bell a ter aulas de economia à noite). E interroga-se McNulty - quem é que eu andei verdadeiramente a perseguir estes anos todos?
E interrogo-me eu - o que nos demonstra a história de Stringer Bell? Demonstra-nos que a vida (sim, eu sei que é uma série de televisão, mas pronto) não é assim tão diferente dos romances naturalistas em que as personagens são afundadas pela força da sociedade. Stringer Bell, à sua maneira, tenta aperfeiçoar-se e não consegue - o peso da sociedade, ainda pior do que ele, mais corrupta, mais dura, cai-lhe em cima e ele morre na derrocada. E enfim, com a vida como está, com esta crise toda, que é moral e social ainda mais do que financeira (e aqui reside, penso eu, o verdadeiro perigo da crise), não posso deixar de pensar que Stringer Bell quer dizer muita coisa. Quer dizer que a chamada "mobilidade social" deixou de existir, se alguma vez existiu. Quer dizer que é cada vez mais difícil melhorar, ultrapassar a nossa condição. É verdade que podemos não o querer fazer, mas também é verdade que podemos querer ser mais, viver mais, e não conseguir, porque há muito contra nós.
Mas enfim, talvez seja apenas o meu conservadorismo a falar. Espero bem estar profundamente errada, e além disso também já não tenho mais tempo para escrever mais, de modo que fica assim.
Adenda: descobri este artigo giro, quanto a mim de interesse para quem gosta do The Wire.
terça-feira, 2 de julho de 2013
Televisão vs cinema
A propósito deste post do Tolan, lembrei-me de uma coisa de que já queria falar há algum tempo, e que concerne toda a problemática das séries de televisão, mormente séries de televisão vs cinema. É uma problemática que concerne, de facto.
Bom, e agora que já não me apetece andar a brincar com palavras caras, e além disso feias, vou passar à temática (rima com problemática) que me leva a escrever o post, que é então séries de TV. Há uns anos atrás (não vejo aqui erro nenhum, estou já a avisar; quanto muito vejo um pleonasmo, mas erro gramatical em "há anos atrás", sinceramente, não vejo), dizia, há anos atrás a televisão era um parente mais que pobre, paupérrimo mesmo, do cinema; quando os actores passavam do cinema para a televisão, era sinal de que a carreira estava no último fôlego, como aliás se vê pela pobre Mira Sorvino, excelente actriz que depois do Óscar passou a filmes de cinema da treta, depois a filmes de TV da treta e hoje ninguém sabe dela. Eu, pelo menos, não sei.
Hoje em dia (isto também está mal, é? Se "há anos atrás" é erro, porque é que "hoje em dia" também não é? Não se devia dizer só "hoje"? Pois, pois.), dizia, nos dias de hoje (melhor), a televisão está melhor do que nunca, com séries irrepreensíveis, direcção de actores impecável, narrativas complexas, muitíssimo bem escritas. É claro que isto não se passa com todas as séries de televisão, mas passa-se com muitas, a saber Sopranos e o Wire (deve haver outros exemplos mais recentes, mas eu continuo fixada nestas duas séries, em respeito maravilhado). Enquanto o cinema americano se embrenha em filmes inanes e adolescentes a 3D, a TV recompensa o adulto cota. Como dizia Pedro Mexia na sua crónica sobre a morte do querido James Gandolfini, há umas semanas atrás, os Sopranos trazem-nos a televisão adulta, complexa. Por acaso, esta crónica de Pedro Mexia está bem interessante, principalmente quando fala da tristeza que Gandolfini trazia à personagem de Tony Soprano, aquela sensibilidade magoada que às vezes víamos no seu olhar e que nos fazia gostar dele. Coitado do homem, quero lá saber se ele é padrinho da Máfia, ele até é boa pessoa, pensava eu. Até pensava mais - ele é mesmo boa pessoa.
E, quanto a mim, o grande triunfo da televisão americano é precisamente este - o de criar personagens tão bem concebidas, intrincadas numa narrativa tão desenhada, que, durante aqueles 40 minutos em vemos o episódio, acreditamos que elas são mesmo pessoas, e não o produto de uma qualquer imaginação para vender a série e ganhar dinheiro. A força da personagem é cada vez menos conseguida no cinema, penso eu, e cada vez mais conseguida na televisão. As duas personagens maiores, para mim, são Tony Soprano e, principalmente, Omar Little do Wire. O Wire é uma série num tom muito mais documental (o próprio criador da série, David Simons, disse estar muito mais interessado no género do documentário do que no da série), de modo que a vida íntima das personagens, as suas redes familiares, de afectos, as suas tormentas mentais, são pouco exploradas, ao contrário do que acontece nos Sopranos, herdeiro mais directo da telenovela e que retirou deste género todas as vantagens, livrando-se de todas as desvantagens. No entanto, a força da personagem está bem presente no Wire, de Avon Barksdale a este magnífico, avassalador Omar Little, justiceiro, traficante de droga, gay, orgulhoso da sua vida de crime, seguidor fiel do código de valores que cria para si próprio (nunca envolver "civis"), absolutamente arrasador no seu longo casaco de abas ao vento, espingarda ao ombro, a entoar um assobio que faz com que toda a gente corra para casa para não se deparar com ele. Nunca vi coisa mais épica em televisão.
E é assim, às vezes vale mais a pena ver uma série do que ir ao cinema, infelizmente. Digo "infelizmente" porque, apesar de tudo, cinema é cinema e nada se compara.
quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013
Humor britânico ou tragédia grega
Concordo. Nem tenho muito mais a dizer - apesar de gostar de certo humor americano, encabeçado por Seinfeld e passando por coisas mais lamechas como a Modern Family, penso que não há humor que ultrapasse o britânico "no que concerne" a uma auto-imposta crueldade que nos faz sentir desconfortáveis, sabendo secretamente que já passámos por aquelas humilhações pequeninas, porém cumulativas.
Se é assim, porque não preferir a comédia americana, em geral mais boazinha e, exceptuando Seinfeld, com abracinhos e moral reconfortante no fim? Não sei, depende de cada um, porque cada um é como cada qual. Por mim, gosto do efeito catártico do humor britânico, daquela vergonha alheia ao ver o horrível e genial David Brent iludido na sua vida sem sentido, daquela sensação de desconforto ao assistir ao Peep Show e confrontar-me com personagens como o Mark e o Jeremy, imaturos, vazios, pouco inteligentes, com azar ao jogo, ao amor, à vida em geral. Por um lado identifico-me, por outro sinto um enorme alívio por não ser como eles (pelo menos, não me sinto como eles) - a comédia britânica acaba, por isso, por ter quase o mesmo efeito da tragédia grega, curiosamente. E todos os exemplos que mencionei provêm da televisão - no standup, os britânicos são completamente (ou ainda mais) arrasadores,
Nada contra o humor americano, mas as comédias de Judd Apatow ou Steve Martin, por exemplo, entediam-me sempre. Só me rio com esforço, ou não me rio de todo. E porém, pérolas como Seinfeld são, para mim, imprescindíveis, sem falar sequer de Woody Allen, embora a causticidade deste tenha mais a ver, quanto a mim, com os ingleses do que com os americanos. Basta ver as versões que os americanos fazem das comédias inglesas para constatarmos como preferem adocicar tudo - o Shameless britânico é empedernido no seu retrato de uma certa classe de "chavs", ao passo que a versão americana nem sequer parece um programa sobre pessoas pobres, parece um programa sobre pessoas normais, bonitas e como o Guardian já observou, "com dentição impecável".
De modo que é assim. O feio resulta mais para mim, e por isso acabo por ir para os britânicos. Sabe-me bem respirar de alivio no fim, mas manter o secreto conhecimento de que a vida é como eles dizem, sem sentido e um bocado ridícula. E no entanto, vive-se. Ainda bem.
quarta-feira, 28 de novembro de 2012
segunda-feira, 24 de setembro de 2012
Telefonas ao papá e ele orienta-te
A Lena Dunham, ao que parece, é o sucesso do momento e tem uma série chamada Girls, já de grande popularidade; antes da mesma série escreveu e realizou um filme indie denominado Tiny Furniture. Vi o filme e um episódio da série e não tenho muita coisa a dizer que não argumentos que outros já escreveram - não fiquei convencida porque tanto em filme como em televisão tudo aquilo me parece um relato pouco interessante de miúdos sem grande coisa a dizer.
Fala-se da Lena Dunham, que tem uma beleza tão pouco convencional e mesmo assim faz imensas cenas de sexo, e de como os encontros sexuais são esquisitos, frios, sem aquela magia do cinema a que estamos habituados, e de como o não encontrar emprego e depender dos pais e tentar encontrar um caminho na vida são temas tão realistas e tão bem desenvolvidos, talvez porque aquilo que escreve tenha um veio muito autobiográfico.
Eu achei que não, que não eram temas bem desenvolvidos. Esta Lena não tem culpa de ter nascido num meio cosmopolita privilegiado, com dinheiro, com amigos artísticos e tal. Não só não tem culpa, como é de louvar que uma pessoa com, aparentamente, tão poucas preocupações tenha tido o empreendedorismo e o talento de transformar a sua vidinha em produtos mediáticos que agora lhe dão dinheiro (imagino que já não viva com os pais). Mas a verdade é que não consegue dizer grande coisa que se aproveite, nem ela nem as personagens que ela inventa, ou em quem se baseia.
Não digo que a única ficção sólida e digna de elogio seja o "kitchen sink drama" à Ken Loach ou neo-realismo italiano ou coisa que o valha. Apareceu por aí um filmito há uns tempos, "Fish Tank", sobre a adolescente alienada e pobrezinha dos bairros sociais ingleses, que parecia muito decente mas que também não era nada de especial.
Aquilo a que quero chegar, penso, é que um filme, ou uma série, ou um livro que valha o nosso esforço e atenção tem de ter alguma honestidade que compense a sua eventual superficialidade ou vacuidade. E os Pulp cantam uma coisa muito importante e que explica isto - "you'll never live like common people, because when you're in bed at night, watching roaches climb the wall, if you call your dad, he can stop it all". E aquilo que os Pulp dizem é absolutamente verdadeiro e eloquente, quanto a mim.
PS - o poster é um ataque fácil, eu sei, mas achei tanta piada que tive de postar aqui. E também deixo a cançãozinha dos Pulp porque gosto tanto dela que não resisto. Bem haja.
sexta-feira, 29 de junho de 2012
Cenas que ficarão comigo para sempre
O grande Herman José em inglês. Inesquecível, este David Brent.
quarta-feira, 2 de maio de 2012
O Tony em Lisboa
No sentido de escrever um post um bocadinho mais alegre, vinha por este meio dizer que o programa do Tony Bourdain sobre Lisboa já se encontra disponível por essa internet fora. Eu vi ontem, e é evidente que gostei considerando que o tema era Lisboa. Acho sempre que o Tony acaba por arranjar coisas interessantes para dizer nos programas dele, e em Lisboa não foi excepção, principalmente quando foi a uma casa de fados passar tempo à conversa com Lobo Antunes. Só por isso, valeu tudo o que ele deixou de fora.
Tentem encontrar, que o programa está giro. Quem não gostar do Tony, eh pá, paciência. Como se diz na nossa magnífica língua, deviam de gostar.
Tentem encontrar, que o programa está giro. Quem não gostar do Tony, eh pá, paciência. Como se diz na nossa magnífica língua, deviam de gostar.
quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012
British Office vs American Office (alguns spoilers, poucochinhos)
Durante muito tempo, achei que não valia a pena ver a versão americana, por razões várias. Primeiro, era impossível ser melhor do que o Office britânico. Segundo, era impossível alguém comparar-se a Ricky Gervais a fazer de David Brent. Terceiro, era impossível alguém comparar-se a Ricky Gervais a fazer de David Brent. Quarto, era impossível alguém comparar-se a Ricky Gervais a fazer de David Brent. Quinto, parecia-me também impossível recriar o humor cáustico, desconfortável, do Office, em que a pessoa sente tanta vergonha alheia que se quer enfiar num buraco. Sublime, mesmo.
Bom. Acontece que comecei a ver uns episódiozitos do Office americano aqui e ali, e comecei a gostar. O truque é a gente deixar de comparar, porque a versão americana, com o avançar das temporadas, deixou de ser de facto uma versão e ganhou autonomia e mérito próprios. É claro que o Office americano é uma sitcom americana, logo muito mais doce e mais fofinha do que o Office britânico, que era terrível no seu retrato da rotina cinzenta do escritório. Os americanos não resistem a tornar o escritório mais aprazivelzinho, e em geral todas as personagens são mais queridas, mais bonitas, mais fáceis de gostar do que na versão britânica (basta comparar o Jim e a Pam, lindos, com o Tim e a Dawn, normais). Passa-se exactamente a mesma coisa com o Shameless britânico e o americano, por exemplo, e sobre isso já escrevi, portanto não repetirei.
Há uma grande diferença entre David Brent e Michael Scott, o patrão americano, porque este último, por mais idiota que seja (e é bastante), é genuinamente afectuoso. De certa forma, gosta-se dele, ao passo que é impossível gostar de David Brent. Michael Scott também tem a vantagem de ser interpretado por Steve Carrell, que, independentemente das escolhas desastradas que por vezes faz em termos de filmes (excepção feita ao Virgem de Quarenta Anos, ao qual acho piada embora não queira achar piada, mas acho, porque tem piada), enfim, apesar de filmes menos bons, consegue ser quase perfeito. Mas não o queiramos comparar a David Brent, porque senão não resulta. David Brent foi muito mais longe do que qualquer espectador de sitcoms alguma vez poderia esperar, e Michael Scott fica, por comparação, a meio do caminho.
Mas não era propriamente sobre isto que eu queria falar, embora possa parecer que sim. Num determinado episódio do Office americano, a empresa de papel onde todos trabalham está a falir e é vendida a um monstrengo qualquer, uma nova empresa empenhadíssima no lucro e na produtividade e tal. Os empregados ficam a saber que, ao invés das 6 semanas de férias de que anteriormente gozavam, passam a ter apenas duas; é-lhes dado um termo com água para não andarem sempre a passear pelo escritório a caminho da máquina de água (aquelas que têm uns garrafões, não sei como se chamam); todos os sites "recreativos", como facebook, email pessoal, youtube, são bloqueados.
Eu sei que algumas empresas fazem isto, de facto, e que já ninguém discute muito porque se tornou aceitável e legítimo que a empresa não pague aos trabalhadores para eles andarem no facebook. Por um lado, é legítimo. Por outro, é horroroso. Eu, por exemplo, nunca vou ao facebook no trabalho por vária ordem de razões, a saber, ponto um, a minha senha do wireless tem um problema que ninguém consegue resolver. É só por isto. Se trabalhasse num sítio em que a entidade patronal confiasse tão parcamente em mim ao ponto de me infantilizar (a menina não vai ao facebook antes de fazer o trabalho de casa), acho que me sentia, digamos que, mal. E foi isto que aconteceu às pessoas nesse episódio do Office, coitadas. Resmungaram imenso, mas ou aceitavam, ou iam para a rua.
Trabalhar para o cheque ao fim do mês custa muito, sinceramente. Não é um favor que façamos a alguém oito horas por dia. De modo que não vejo o problema de se ter acesso livre ao youtube, facebook e quejandos. Ou talvez seja apenas eu que estou mal habituada. Mas acho mesmo que não, que não estou. Pelo contrário.
Your teacher preaches class like you're some kinda jerk. Fight for your right to party. Cantam os Beastie Boys e canto eu.
segunda-feira, 16 de janeiro de 2012
Globos de Ouro, alguns comentários modestos
Golden Globe celebrities enjoy meal of real gold as poverty tightens grip on US
Uma perspectivazinha diferente sobre os Globos de Ouro neste artigo. Banho de ouro, que fabuloso.
Comentando a cerimónia em si, e apesar de o artigo referido me ter posto imediatamente de má vontade, enfim, acho que alguns dos filmes nomeados/vencedores são interessantes. Ainda não vi o Artist, nem sei se já estreou em Portugal, mas hei-de ver. Já vi o The Help, e apesar de ter gostado, não estou inteiramente convencida. O filme oscila entre uma crueza triste e um paternalismo irritante. Mas gostei do filme, sim, principalmente de Viola Davis.
Uma das coisas de que gosto nos Globos é que estes apresentam a categoria de televisão. Houve vencedores seguros e bonzinhos, a Kate Winslet, a Modern Family (sem surpresas, já que esta série ganhou todos os Emmys que havia a ganhar), e reparo que houve uma actriz qualquer que também ganhou um prémio pelo desempenho na American Horror Story. Acontece que vi ontem, pela primeira vez, um excerto de um episódio desta série e fiquei aterrada, mas no mau sentido. A cena que vi constava de uma pobre senhora visivelmente grávida (de gémeos, como vim a descobrir), a tentar descansar na cama, e enquanto isto a pobre senhora é violentamente despertada por uma adolescente fantasma aos gritos e às asneiras, que entratanto chama um tipo num fato preto latex, que não percebi ser fantasma ou ser real, que começa a desenvolver esforços para violar - sim, perceberam bem - a pobre mulher grávida. ?! Hã? Então mas eu estou muito bem a tentar ver uma série que penso que mete assim uns fantasmas e tal, e depois tenho de levar com uma cena destas, que transcende em muito qualquer violência que se poderia esperar? Há alguém que veja esta série e que me possa explicar se isto faz algum sentido, ou se é mesmo violênciazeca barata e evitável? É que não vi ali grande mérito ficcional, sinceramente. Como se não bastasse, o marido da pobre senhora, com o auxílio da filha adolescente de ambos, chama as autoridades e faz com que a mulher seja enviada para um hospital psiquiátrico, ignorando, ao que parece, o visível facto de a pobre senhora estar visivelmente grávida. De modo que agora, se por um lado quero continuar a ver a série, por outro lado não quero.
Bom. É isto, desculpem a pobreza do post. Talvez tenha algo mais a dizer quando vierem os Oscars ou quando visionar, finalmente, o Midnight in Paris.
domingo, 18 de setembro de 2011
We are are currently wealthy, fat, comfortable, and complacent. We have a built in allergy to unpleasant or disturbing information; our mass media reflect this. But unless we get up off our fat surpluses, and recognize that television, in the main, is being used to distract, delude, amuse, and insulate us, then television and those who finance it, those who look at it, and those who work at it, may see a totally different picture, too late.
Tirei esta citação do excelente filme de George Clooney, Good Night and Good Luck, que revi na TV há uns minutos (a citação em si foi copy paste do IMDB). Aquilo que se diz da televisão aplica-se, penso eu, aos meios de comunicação social em geral (rima, que cacofónico) - distrair, iludir, divertir e isolar. "Informar", pouco, e infelizmente mal. Sempre esta sensação de que estou a perder, como cantava Variações.
O mundo existe, está lá fora, e a gente nunca o consegue apanhar. Era bom que os media nos ajudassem na tarefa e fossem um exemplo de cidadania.
Não é o caso. Que pena.
Boa noite, e boa sorte para todos nós. Ou, como a língua portuguesa alegremente permite, para a gente todos.
quarta-feira, 24 de agosto de 2011
Atracção do abismo: Glee
A série Glee é daquelas que eu tenho vergonha de dizer que gosto. Na verdade, e na maior parte das vezes, é um programa que me irrita ligeiramente devido às interpretações péssimas que os miúdos fazem de canções de que eu até gosto. Esganiçam a garganta impossivelmente, são excessivamente formatados, fazem os movimentos todos certos, e o pior é quando olham uns para os outros a rir, muito horrivelmente, como hienas a estudar o ataque. Quem me irrita tanto que se torna impossível para mim não ver a série, porque o abismo me atrai sem possibilidade de resistência, é a rapariga principal, a Rachel, toda certinha, toda com voz à Celine Dion, que quase chora enquanto grita, bate com as mãozinhas no peito ou no ar e em geral tem todos os tiques exasperantes das más cantoras com boa voz. Entretenho-me a pensar no que faria a esta miúda se a conhecesse na vida real, e penso que puxar-lhe os cabelos com toda a força e dizer que ela é feia estaria no topo da lista. Sou tipo sádica.
E porém. Gosto da filosofia subjacente à série, a de que os miúdos totós, impopulares, conseguem alcançar o que querem porque têm moral e são boas pessoas. Gosto do conceito de série musical, apesar de me contorcer um bocado no sofá sempre que os miúdos começam com coreografias impossivelmente pirosas - fico sempre com aquela sensação arrepiante de vergonha alheia, às vezes nem consigo olhar. Mas depois aparece a má, a Sue, que me faz rir sempre, e continuo a ver, além de que os miúdos são pirosos mas são bonzinho e triunfam sempre, e eu gosto de ver os bonzinhos a ganhar.
Mas irrito-me bastante. Para comprovar isto, deixo abaixo um vídeo que eu penso que demonstra bem a vontade que se gera dentro de uma pessoa de fazer a estes miúdos saltitantes aquilo que se faz no Lucky Luke, e que é atirá-los todos para dentro de uma tina de alcatrão, cobri-los de penas e aplicar-lhes uma medida punitiva corporal, vulgo "pontapé no cu". Peço desculpa pelo vernáculo. Estou quase a dar o salto final para o abismo.
sexta-feira, 19 de agosto de 2011
True Blood, 4ª série - SPOILERS
Pronto, avancei na visualização dos episódios todos do True Blood disponíveis até agora, e a Sookie foi finalmente despedida, embora não propriamente pelo patrão - mas foi despedida. O mais engraçado é que ninguém deu por nada, nem o patrão, nem os colegas, nem os clientes nem nada. Penso que nem a própria Sookie deu pelo facto de ter sido despedida. Onde é que ela arranja dinheiro para sobreviver, são os vampiros que lhe dão? Esta é uma questão que eu gostaria de ver discutida.
Acrescento também que, embora lamentando a separação da Sookie e do Vampire Bill, estou a apreciar muitíssimo o romance entre a primeira e o Vampire Eric, que se tem pavoneado largamente em tronco nu, coisa sempre bonita de se ver. O actor que faz de Eric é muito profissional, de facto, e só por isso vale a pena visionar esta série.
E aquele genérico tão giro, é que é mesmo giro e lúgubre, o genérico.
Bom. Não tenho mais nada a dizer. Bem-haja.
segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Então a 4ª série do True Blood já começou e eu andava aqui feita parva, sem saber?
Agora ando a tentar apanhar os episódios todos, mas ainda só consegui ver metade do primeiro, que me pareceu prenunciar uma temporada ainda mais delirante do que a anterior, que já foi bastante delirante.
Gosto muito de delírios.
E por favor, quem segue a série que me explique, por obséquio: como é que a Sookie continua a trabalhar no bar do Sam e não é despedida? Eu sou tolerante "no que concerne" a relações laborais, mas isto ultrapassa tudo o que eu, se fosse entidade patronal, estaria disposta a aceitar, porque a rapariga tanto vai trabalhar um dia, como no outro vai não sei para onde fugir dos lobisomens, como no outro vai salvar o namorado vampiro, como volta na semana a seguir para trabalhar só à noite, e depois é só de dia, e depois tem de se ir embora outra vez porque descobre que é fada, e etc. e tal. Não deve ter grande subsídio de férias, esta Sookie. Digo eu.
Mas, pensando bem, nós também não temos grande subsídio de Natal e ninguém nos dá folga para tratar de assuntos pessoais, seja fugir de lobisomens ou de vampiros. Hmmm. Acho mal.
sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011
Acabo de assistir a um magnífico exemplo de excelsa opinião por parte de dois comentadores na SicNotícias, Maria de Belém de um lado, e um indivíduo do PSD que agora não me lembro do nome, mas é que não me lembro mesmo; o que interessa é que este indivíduo, que comenta as escutas do Face Oculta, diz que "estranha esta ânsia de matar uma Inês que não está em Alcobaça, está viva, porque as escutas existem e continuam a existir" , ao que Maria Belém replica "mas olhe que a Inês quando morreu não estava em Alcobaça, estava na Quinta das Lágrimas", respondendo logo o outro, "mas foi para Alcobaça depois, como sabe", "jazente", retorte a outra, "jacente, sim", diz-lhe ele, e ficam ali a discutir a problemática da jazente e/ou jacente Inês de Castro em Alcobaça e/ou Coimbra. O do PSD remata que gosta "de os ver os dois juntos em Alcobaça".
A Inês, diz que é as escutas. D. Pedro não sei o que é. Alcobaça e a Quinta das Lágrimas também não, mas começo a calcular.
Que comédia de enganos tão gira. Gosto muito de ver televisão e as notícias, é sempre tão divertido.
terça-feira, 8 de fevereiro de 2011
Para conhecimento
Venho por este meio dar conhecimento aos chamados fãs "die hard" da série televisiva Os Sopranos, The Sopranos no original, se há ainda por aí alguns, nomeadamente aos sujeitos passivos que, em tempo útil e em sede própria, se recusaram a dispender 200 e remanescentes euros no sentido de adquirir a referida série em disco DVD, temporadas um a seis, por considerarem, em tal momento, que teriam mais do que fazer ao dinheiro, de que a mesma série, temporadas um a seis, em disco DVD, se encontra de momento, e até à data de 9 de Fevereiro do ano de 2011, em promoção no sítio de internet amazon.co.uk, ostentando o preço de 51.24 libras, vulgo 60 euros, IVA e portes de envio incluídos, deste modo representando significativa redução face ao preço inicial. A gerência deste sítio da internet toma a liberdade de aconselhar a aquisição destes discos aos supra-mencionados sujeitos passivos, sem prejuízo de possível e eventual fruição do visionamento de episódios da referida série na internet, por meios cuja legitmidade não nos é dada apreciar, por não se encontrar sob o escopo do presente post (nem sequer do presente blogue).
Mais se informa de que a escassez de posts neste sítio da internet é profundamente lamentada pela responsável, que se tem encontrado em situação que a impede de actualizar de forma regular um blogue que se deseja abundante em escrita, por ser seu objectivo primordial e fundador a já referida escrita e consequente leitura. A lacuna aludida será colmatada assim que possível, com a maior brevidade, e pela ausência e falha deseja a responsável apresentar as suas sinceras desculpas.
Gratos pela atenção dispensada, subscrevemo-nos atenciosamente,
A Girência
segunda-feira, 24 de janeiro de 2011
O Dexter
O Dexter é uma série interessante. Gosto. E tem aquele actor espectacular, o Michael C. Hall; quem o viu nos Sete Palmos de Terra nem acredita, o homem é mesmo profissional.
Dexter conta com o aspecto engraçado de a personagem principal ser um assassino em série, mas com a particularidade de ter sido educado para dirigir o mal a quem o merece, por assim dizer. Também trabalha para a polícia, o que é outro aspecto original, além de desencadear o efeito Tony Soprano, que é a pessoa saber que a personagem principal faz parte do grupo dos "maus", mas não deixar de simpatizar com ela, gostar dela e querer que ela ganhe, deste modo reflectindo sobre a relatividade da vida, os valores do Bem e do Mal, e que nem sempre as coisas são o que parecem e assim e assado. No fundo, ver séries de televisão dá-nos muita filosofia.
Também há uma outra perspectiva sobre Dexter que discuti noutro dia com um amigo, que não gosta da série e já a deixou de ver. Disse-me ele que a acha reaccionária, demasiadamente impregnada de uma certa ideologia de direita americana com a qual ele não pode. Achei isto muito estranho - como, se o principal é um assassino, criminoso, completamente fora dos padrões da chamada decência? E diz-me o meu amigo que o problema da série é aquela ideia de que não faz mal matar alguém, e talvez possa ser até desejável, desde que essa pessoa o mereça. Quando apoiamos o Dexter e as suas decisões, apesar de ele andar por aí a matar outros assassinos, ou talvez por causa disso, apoiamos igualmente este poder individual, fora dos tribunais e da lei, sobre a vida e a morte. É uma outra forma de se concordar com a pena de morte, é como dizer "ah, eu não acho que deva existir pena de morte, mas acho que há gente que merece morrer e portanto não vejo problema nenhum se houver um Dexter por aí a matar escumalha".
Pois é. Não deixa de ser verdade. No entanto, é também verdade que a série não mostra a personagem principal como inocente, inteiramente justa e íntegra. Mostra um assassino que calha matar outros assassinos, mas que sabe que não é muito diferente deles - e também não é muito diferente de qualquer outra pessoa dita normal (foi casado, agora é viúvo, tem um bebé, um emprego estável, etc), residindo aqui o busílis da questão. Afinal, este Dexter é criminoso, é bonzinho, ou é os dois?
Conclusãozinha? Não há, para variar. Parece-me ser certo que concordar que há quem mereça morrer é a mesma coisa do que apoiar qualquer pena de morte, imposta ou não pelo Estado. Sempre fui contra a pena de morte e é das poucas coisas sobre as quais não quero mudar de ideias. Também não me parece que o Bem e o Mal sejam assim tão relativos como querem fazer crer - há coisas que estão bem e outras que estão mal. E porém - há muitas partes da vida mal iluminadas. Delas, não sabemos o que esperar porque, como já advertia Camões, esse deus terreno, "muda-se o ser, muda-se a confiança. Todo o Mundo é composto de mudança, tomando sempre novas qualidades".
E essas qualidades podem ser boas ou más, sabemos lá nós. É ir andando.
segunda-feira, 17 de janeiro de 2011
Gajo que faz mesmo o meu estilo: Anthony Bourdain
Comecei a ver o programa deste senhor, "No Reservations," na SicRadical, e a princípio achava aquilo um bocado parvo, porque este Tony tem a mania de que é um rebelde mal comportado, drogas e tal, ex-portador de brinco na orelha e cigarro ao canto da boca, e tudo se conjugava para que eu o considerasse um bocado falso, ou com a adolescência mal ultrapassada. Depois percebi que ele é mesmo assim - é o chamado "cool". E , ainda que de facto insista demasiadamente na sua veia de rebelde com pouca causa, este homem é mesmo um fixe. Viaja e come com um prazer que me parece sincero, e interessa-se genuinamente pelos sítios que visita, pela comida que prova. Aprecia tudo, mesmo comida rápida, desde que seja boa. Uma vez, vi-o a provar uma sanduíche gigante, com meio quilo de bife, queijo derretido, salsichas, ketchup, salada, tudo lá para dentro, e, enquanto a degustava, dizia: "Este é o antídoto para a Alice Waters". Lindo.
Portanto, tudo o que seja delicodoce, levezinho, e chato como tudo, o Tony não gosta. A comida é para a gente gostar. Sempre que me vêm falar de comida assim e assado, ah, porque é mais saudável assim, ah, porque é mais "bio", ah, porque tem muito sal, eu respeito, sim; respeito, e levo a sério, porque, por exemplo, há determinados assuntos, como o tratamento que se dá aos animais que depois consumimos, que devem ser também levados a sério. No entanto, a onda da comida asséptica e queridinha tipo Jamie Oliver (e eu gosto do Jamie Oliver, a sério que gosto) irrita-me. Acho que só pensa em comida como se fosse uma mercadoria qualquer da moda quem nunca comeu verdadeiramente bem - e isto facilmente explica a proliferação de programas culinários fofinhos na televisão inglesa (atenção ao adjectivo gentílico), ele é Jamies, ele é Nigellas, ele é Gordon Ramsays, uns que cozinham na natureza com produtos biológiocos, outros que vão à caça, outros que fazem desafios culinários a ver quem cozinha mais depressa e melhor, tudo como se a comida, ou o acto de comer, fosse uma espécie de cristais Swarovski, não propriamente diamantes, mas algo que convém usar, ou ter em acessórios ou "bibelot" porque dá aquele toque de classe, um certo je ne sais quoi - em vez de vinagre Cristal, um balsâmico; em vez de mozarella, que também já cansa, um queijinho burrata, nome deslumbrante; em vez da tasca da esquina com bebida+prato+café a cinco euritos, porque não um gourmet low cost, onde se come alheira à mesma, mas assim como assim é mais caro, ainda que low cost - é a beleza da coisa. E é bom, em podendo, uma pessoa marcar bem o seu lugar na sociedade - a comida serve também para isso, e por mim está tudo bem, afinal, se passámos por uma ditadura, depois por uma revolução, e por tantas amarguras, já ganhámos o direito a ser finalmente burgueses, toca a aproveitar.
No entanto, tenho para mim que quem gosta de comer bem identifica-se com certeza com o Tony, que gosta de qualquer prato desde que seja bom. Se é ou não vegetariano, se é ou não saudável, ou gourmet, disso ele já não quer saber, e pelos vistos tem-se dado bem, porque basta olhar para ele e ver que é um indivíduo todo jeitoso. Além disso, o Tony vai aos sítios, a países diferentes, e tem um olhar bem mais interessante, e bem mais profundo, do que o dito Jamie Oliver, que de vez em quando também viaja e acaba sempre por cozinhar a mesma coisa, sem grande esperteza para aprofundar costumes ou peculiaridades da região. Por exemplo, uma vez foi à Grécia e cozinhou bife de atum (!) na praia. É que me deu logo vontade de ir ali à Madeira, por exemplo, onde têm uma coisa mais ou menos parecida (só mais ou menos) e parecendo que não, sempre sai mais em conta do que ir agora apanhar avião para ir experimentar essa iguaria rara e super-grega, aliás, tipicamente grega, que é o bife de atum.
Mas não vou bater mais no ceguinho, ou como quem diz, no sopinha-de-massa, que o Jamie Oliver tem muito mérito, não é pretensioso e preocupa-se com aquilo que os miúdos comem nas cantinhas e tal. No fundo, o meu propósito era apenas e só dizer isto: gosto muito do Tony Bourdain porque, tendo sido chef profissional, tem autoridade na matéria e gosta de qualquer comida pelo prazer que a comida dá (além disso, escreve bem; estou agora a ler um dos seus livros, Kitchen Confidential, e estou a gostar bastante).
Não me parece que a comida deva ser mais ou menos do que isto - um prazer da vida.
sábado, 18 de dezembro de 2010
Amo-te, amorê!
Tenho de fazer qualquer coisa para combater o frio, e dedilhar o teclado com força e vigor ajuda. Pelo menos, evita que ande de luvas em casa.
Agora, para continuar o exercício de aquecimento, vou escrever mais qualquer coisa. Não tenho pensado em nada de muito relevante, mas tenho-me rido muito com um vídeo que descobri no Youtube em que Yanick Jaló ou lá como se chama o senhor faz uma declaração de amor a Luciana Abreu e grita: amo-te, amorê!
Antes de prosseguir, vejo-me obrigada a encetar esforços para de alguma forma proteger a minha reputação insegura e explicar que a razão pela qual encontrei o tal vídeo foi porque apareceu relacionado com um outro que eu estava a ver em que os Contemporâneos gozam com a "Luce" e lhe perguntam se ela quer amêndoas. É muito lindo e natalício. Enfim, foi assim que descobri o Yanick a gritar "amo-te amorê".
Não vou troçar disto. Há alvos fáceis, de quem é terrivelmente fácil e conveniente dizer mal. Aliás, se não fosse o meu lado burguês tristemente forte, eu arranjava tomates e punha aqui ao lado uma coluna intitulada "Odiozinhos", encabeçada, como é por demais evidente, por Eduardo de Sá, , mas o que é certo é que, em primeiro lugar, não tenho tomates (sou menina) e em segundo lugar o tal lado burguês escandaliza-se com isto e exclama "ai, mas que desagradável, deixe lá os senhores em paz". De modo que podia escrever de forma virulenta, acérrima, mas não, é tudo ordenadinho. Misérias.
Voltando novamente à temática primordial do post - ora, Yanick diz aquilo à Luciana, ela diz que ele é um gatinho, um príncipe e mais isto e mais aquilo e é uma choradeira pirosa frente às câmaras de televisão. Melhor do que isto, só quando o Telmo e a Célia do Big Brother se dedicaram aos regabofes carnais, perguntando-lhe ele quando terminaram, para o país inteiro compreender o ser sensível que ali estava - "gostastes, filha?". "Gostei", respondeu ela, melosa. Que remédio, diríamos nós. O amor é uma coisa muito bonita, como se vê.
E no entanto. A gente goza com isto tudo, ri-se disto, porque não são exemplos de amor, são exemplos de parvoíce. O amor é para viver com dignidade, com classe, a portas fechadas. É que é uma coisa tão pirosa que ninguém com alguma inteligência pode suportar vivê-lo à frente do mundo inteiro. De modo que aqueles casos inexplicáveis em que nos dá uma vontade imensa de viver momentos à filme, em que nos atiramos para os braços do Corto Maltese e fica tudo a olhar, ou o Corto Maltese se ajoelha e, enquanto nos mostra um cachucho a rebrilhar, diz assim, "amo-te, amor", este tipo de coisas, pirosas, indesejáveis, que ninguém quer, enfim, às vezes se calhar até queremos.
Embora "amo-te, amor" seja diferente de "amo-te, amorê". O Corto Maltese tem classe até ao fim.
E pronto, eu disse que isto era uma desculpa para aquecer os dedinhos e assim foi, não havia que esperar nada de melhorzinho. Umas boas festas se até lá não nos virmos.
segunda-feira, 13 de dezembro de 2010
Embirração da semana, deste ano, de anos passados e de anos vindouros: Anatomia de Grey
Há por aí alguém que goste de ver a Anatomia de Grey? E, se tal for o caso, talvez não se importe de elaborar porque é que gosta de ver esta coisa?
Eu já escrevi aqui que não gosto nada da série, e ainda hoje falava disso com uma amiga - parece uma coisa com diálogos lamechas e falsamente profundos a despachar, em que todas as personagens são absolutamente iguais, falam da mesma forma e têm os mesmos problemas. Mas também não sei, não consigo ver por mais de 5 minutos porque me aborrece. O problema principal aqui é o problema principal de qualquer outra série, filme ou livro que seja mau - às vezes, não estão mal escritos nem nada, mas são um tédio tão banal que é de uma pessoa se exasperar.
É que continuo a não perceber porque é que esta série tem tanto sucesso, e gostava de perceber porque normalmente costumo gostar de ver séries. Ultimamente, porém, e sem ser o True Blood cuja temporada também já acabou, não arranjo nada de jeito para visionar. Talvez a Anatomia de Grey atraia porque tem um tom de sentimentalidade (que, como disse, a mim me parece falsamente profundo) que faça as pessoas pensar que estão a ver qualquer coisa com algum tipo de significado. Como quando se escolhe ler a Profecia Celestina ou assim. Nesta altura de crise, deve saber bem ver umas quantas pessoas médicas que salvam vidas e ao mesmo tempo têm a mania que a própria vida é uma coisa intensa, na qual convém pensar muito e mais isto e mais aquilo. Talvez isto explique a audiência da série, não sei, e talvez também explique porque é que as personagens falam todas de forma semelhante, com os mesmos diálogos e as mesmas expressões. Mas onde estão os Sete Palmos de Terra, Os Sopranos, dos nossos tempos? Ai que saudade.
Ou talvez seja porque o médico de barba e olhos azuis é um actor que, enfim, digamos que trabalha muito bem. Dá gosto vê-lo a trabalhar. Deve ser mais por aí.
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