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quarta-feira, 5 de maio de 2010

Desculpas que se arranjam para não ir limpar a casa

1 - estar a ler um texto com a expressão "queda livre", em vez disso ler "queca livre" e ficar a pensar em possíveis ilações que se poderão retirar de algo que Freud, com certeza, designaria por acto falhado

2- pôr-me a ver o Henrique Sá Pessoa a cozinhar ao ar livre (sim, cozinhar ao ar livre, não em queda livre e nem sequer a tal outra hipótese), tipo Jamie Oliver, e pensar que há pessoas que têm uma maneira lenta de falar que é muito engraçada. É o Henrique Sá Pessoa e o Nicholas Cage. São lentos a falar. Acho piada a esta idiossioncrasia porque eu sou o contrário, falo muito depressa e ninguém percebe o que eu digo, o que complica a minha vida.

3 - reparar que o Henrique Sá Pessoa está a cozinhar com a música pirosa dos Journey no background (aquela que é "don't stop believing, just a small town girl", blá blá) e ficar a pensar que isso quer dizer alguma coisa que eu não estou a atingir. É que eu, por acaso, até acho piada à música

4 - estar sentada no sofá e olhar para o chão e pensar, "ah, afinal também não está assim tão sujo"

5 - estar sentada no sofá e pensar que afinal não almocei bem e tenho de ir comer mais qualquer coisa, se não começo a limpar e depois fico sem forças, e depois como é que é?!

6 - escrever este post

7 - ir ao youtube procurar o vídeo que aqui vai figurar

8 -pensar que, realmente, o Henrique Sá Pessoa e o Nicholas Cage têm mesmo uma maneira engraçada de falar, são assim lentos.

terça-feira, 20 de abril de 2010

Música para "começar"




Aquela música que ouvimos, por magia, quando "ele" (ou ela, dependendo dos casos) chega. Assim, mesmo à filme.
Que lamechiche tão fofinha.

Música para "acabar"




A música perfeita, perfeita para o desgosto. É assim a vida, sem contemplações ou festinhas na cabeça. Pronto.

(não sei se já disse, mas o Revolver é uma obra-prima.)

quarta-feira, 31 de março de 2010

Karaoke

Esta música permite-me um momento de pausa, em que canto com toda a moral que consigo, escova na mão a fazer de microfone, olhos fechados se preciso for, com toda a alma e todo o sentimento de que sou capaz, assumida e convictamente pirosa, lamecha, de lagriminha ao canto do olho, absolutamente arrebatada, rendida à doçura fofinha, queridinha, tudo acabado em inho, desta maravilhosa canção. Uma absoluta delícia.
Não resisto, mesmo. Adoro, adoro, adoro. Viva o Stevie.

terça-feira, 16 de março de 2010

Desampara da minha janela

Há coisas que me dão um certo nó no estômago.
Por exemplo, aquela música linda do Bob Dylan chamada It Ain't Me. O poema é sobre um homem que se vai embora porque não quer ser o amor da vida de uma qualquer mulher. Eu compreendo a posição do Bob Dylan - também compreendo a posição da qualquer mulher. No entanto, indendentemente disto, o que me angustia levemente nesta canção é o tom de desilusão que estes assuntos acarretam sempre. Admite-se que, por alguns momentos breves, a ideia de felicidade foi de facto possível, mas o mundo, ou o pessimismo, ou o tédio, ou a preguiça, foram mais fortes, e resta a ruína. É tal e qual como a canção do Serge Gainsbourg sobre a qual escrevi há mais de um ano - Je Suis Venu Te Dire Que Je M'En Vais. Esta é, tal como a canção de Dylan, cruelmente bela, e trata do mesmo assunto, que não deixa de ser quase um lugar-comum: o homem que parte, a mulher (que não passa de uma personagem-sombra, em ambas as canções) que fica, chorosa e estilhaçada. É uma pena. Eu tenho, de facto, pena desta sombra, desta mulher invisível.
Tem graça que, no caso das canções masculinas que falam sobre a ruptura, a ideia é tentar sempre amenizar a coisa com palavras sensatas e bonitas, mas não necessariamente justificar, ao passo que, quando as mulheres cantam sobre deixar maridos ou namorados, justificam-se sempre com "eu dei-te tudo e tu eras um grande estúpido", ou "eu dei-te tudo e tu mesmo assim não quiseste". A verdade é que me baseio em apenas três canções para esta asserção, e que são as supra-citadas Bob Dylan e Serge, sendo que a terceira é aquela dessa grande cantora com toda uma séria carreira por trás, Leona Lewis, apropriadamente designada por "Better in Time".
Pensando bem, é capaz de não ser grande amostra.
Esqueci-me do objectivo inicial deste post. Vou ter de terminar por aqui.
Nota apenas para dizer que, quanto a mim, a perfeita canção de Bob Dylan é, com certeza, sobre muito mais do que uma ruptura amorosa. Mas enfim.



segunda-feira, 1 de março de 2010

Coisas que não compreendo

Há coisas neste mundo que a minha vã filosofia não alcança, talvez por ser vã, talvez porque o engenho e a arte não me têm ajudado.
Primeiramente, não compreendo o beicinho da Angelina Jolie. Quer dizer, um monumento lindo de morrer, com uma das combinações de que eu mais gosto (cabelo escuro e olhos claros), giríssima, e depois estraga tudo sempre com aquela boquinha irritante:


Porquê?! Não compreendo.
O meu conselho à Angelina é: como diz Castiglione, sobre o qual escrevi ali em baixo, um pouquinho de naturalidade é o que se pede. Veja lá isso, Angélica.

A segunda coisa que eu não compreendo, e que é ainda mais grave, é a Kelly Family. Eu não sei se a Kelly Family ainda existe. Aliás, eu não tenho sequer a certeza de a Kelly Family ter alguma vez existido. A minha opinião é a de que alguém pegou nas tartarugas ninja e as tornou mais antropomórficas, em versão alemã (a Kelly Family era, alegadamente, um grupo musical composto por uma família alemã, tios, irmãos, primos, cunhados, uma misturada, que vinha da Alemanha. Em Portugal, lembro-me de serem muito populares quando eu era adolescente, há muitos anos):




Estes Kelly Family, como se constata, tinham dois predicados: eram todos feios; eram todos assustadoramente parecidos uns com os outros. Pareciam os Habsburgo, o produto de incesto e reprodução plurigeracional sempre dentro da mesma família. Ou então, pareciam a versão mutante dos Habsburgo. Um susto.
As raparigas cantavam como os rapazes e os rapazes cantavam como as raparigas. Era uma coisa incompreensível. Banda que desafiasse tanto, e tão ostensivamente, as convenções de género, só talvez os Hanson, outro fenómeno musical que a História, e bem, escolheu não registar (pelo menos, espero que não):



Estes são os rapazes/raparigas dos Hanson.
É isto. Alguém que me explique a Kelly Family, se alguém ainda se lembrar deles. E, já agora, também os Hanson. Bandas familiares não é comigo, é a conclusão que retiro desta história toda.
Devo confessar que tinha saudades de um post maledicente, que me esvaziasse toda a bílis. É feio. E já está.
Para acabar em beleza, deixo aqui a Kelly Family em acção. Acho que o Wes Craven devia pôr os olhinhos na performance desta gente, é o que tenho a dizer.

Será talvez um lugar-comum, mas esta canção do Morrissey é suprema. E, para mim, condensa exemplarmente duas coisas que considero supremamente deprimentes: os Domingos e as cidadezinhas costeiras.
Há algo de muito estranho, quase fantasmagórico, nas terrinhas ao pé do mar. São bonitas, por um lado, mas têm sempre uma atmosfera de enterro que não consigo compreender. Alguém se esqueceu de as fechar ao público, como diz o Morrissey.
Quanto aos Domingos, penso que não preciso de me alongar relativamente ao potencial desanimador destes dias. Não conheço ninguém que goste de Domingos.

Esta canção é linda.


Morrissey - Everyday Is Like Sunday
Enviado por scootaway. - Veja mais vídeos de musica, em HD!

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Febres de Domingo à noite

Ontem foi Domingo à noite e, como se não bastasse, chovia.
Fui a uma pastelaria ao pé da minha casa que tem sempre pão a sair, faça chuva ou faça sol (por acaso, fazia chuva), seja dia, seja noite (por acaso, já era de noite). Entrei e estavam dois gatos pingados sentados a uma mesa, à espera da fornada que estava para sair (dali a cinco, seis minutos, disse o senhor). Sentei-me também, à espera.
Havia um silêncio deprimente. Ouviam-se os pingos de chuva lá fora, um casal bichanava no canto, o balcão estava já todo despejado e limpo, sem bolos, sem nada. Esperava-se, apenas, pela última fornada de pão.
Talvez para cortar o ar estranhamente pesado, o senhor da pastelaria pôs um CD qualquer a tocar. Qual não é o meu espanto quando reconheço a voz do Donovan, a cantar o Atlantis. Já não ouvia Donovan há anos, e, que me lembre, sempre o ouvi em casa; nunca por nunca, mas mesmo nunca, estive ou soube de qualquer estabelecimento público que passasse como música ambiente a voz melosa do Donovan.
Sentada ali, à mesa da pastelaria, a um Domingo à noite, a chover lá fora, senti-me verdadeiramente uma Tom Waits, ou uma personagem de um dos quadros do Hopper. Talvez isto:



Ou, de forma ainda mais precisa, isto:



Faltava-me, talvez, um cigarro e uma voz de whisky queimado, como a Mercedes McCambridge, que dobrou a menina do Exorcista e fumou dois maços por dia para soar, mais ou menos, como um qualquer demónio. Nunca tinha passado por uma experiência assim.
Podia ter entrado um indivíduo de calças de ganga, botas caneleiras e chapéu à cowboy, com cara de Tom Waits em novo, que me tivesse dito:
- Mas estás aqui, miúda? Fartei-me de procurar por ti! Anda, que tenho o Jolly Jumper à nossa espera.
- Não, que ainda não te perdoei - diria eu, a chorar por entre o fumo do cigarro.
- Deixa lá isso, que não fiz por mal. Vamos embora ser felizes. - diria ele.
E pronto, lá iríamos nós a cavalo do Jolly Jumper em direcção ao pôr do sol, a chuva magicamente evaporada.
Mas não aconteceu nada disso. Veio a fornada de pão, comprei pão e pronto. Senti-me mesmo como num quadro do Hopper.
O Donovan é um grande cantor.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

O amor dos outros

A Edit Piaf tem uma canção que eu adoro, que ouço em repeat até mais não poder, e que se chama Les Amants D'Un Jour. A narradora é uma rapariga que trabalha num hotel em que se alugam quartos baratos, e que limpa os copos ao fundo do café (do hotel, presumo eu), como ela diz logo nos versos iniciais. A canção é a história dos tais amantes por um dia e que esta rapariga recorda, num tom muito melancólico. Num dos versos da canção, diz a narradora que y avait tant de soleil au fond de leurs yeux que ça m'a fait mal, que ça m'a fait mal...
Sempre achei muitíssimo comovente esta subtileza da solidão da narradora, quando confrontada com o sol radioso do amor dos outros. É que, de facto, constantar o afecto alheio é de uma melancolia entristecedora, quase de levar lágrimas ao olhos. Já escrevi antes os lugares-comuns do amor ser tão piroso, e de como é constrangedor ver pombinhos apaixonados, e isto e aquilo. Mas, quando nos deparamos com duas pessoas que parecem gostar uma da outra a sério, a constatação do amor é tão bonita que chega a ser triste. Para mim, é triste principalmente porque nunca acredito e tenho pena das pessoas. Tenho uma pena imensa, ponho-me a olhar para elas e a pensar, "o que será deste casal daqui a dez anos, gordos e feios, a levar os filhos para o centro comercial? Será que se vão lembrar desta tarde de sol, deste jardim, onde foram jovens, felizes, com um futuro que vai desaparecer tão depressa?", e foi exactamente o que pensei uma vez, numa tarde de chuva em Inglaterra (olha a novidade), ia eu para a biblioteca, e passa por mim uma rapariga alta a correr, com uns ténis Converse All Star impecáveis, e se lança nos braços de um tipo também alto e giro. Que lindos que eles eram, os dois. Talvez ainda se mantenham giros, não passou muito tempo desde essa altura. Mas daqui a 15 anos, quem sabe.
Quando vemos casais de uma certa idade, é, por vezes, tão difícil acreditar que também eles passaram pela felicidade pirosa do amor, que também eles palpitaram de emoção ao saber que naquele dia se iam encontrar, que também eles foram iluminados pelo tal "sol" do amor de que fala a canção da Edit Piaf. Há, em certos casais, de uma certa idade, um tédio tão grande, uma solidão que parece tão terrível. A solidão deve ser, de facto, ainda mais terrível quando se está com alguém.
É sempre no centro comercial que eu vejo estas pessoas. Tenho de deixar de ir a centros comerciais, venho de lá sempre com uma depressão monumental, de tanto casal e criança de ar amorfo que por lá pulula.
Eu acho que a piada acaba toda com o casamento. Sinceramente, a minha teoria é esta. Acho que é fácil viver muito amor, muito amor, muito entusiasmo, enquanto formos todos namorados e namoradas. Quando se assina o papel e o estado burguês e confortável do casamento invade a nossa vida, começa verdadeiramente o frango assado ao domingo, o centro comercial, o Seat ibiza, as crianças aos berros, etc. Faz-me muita aflição. Mas talvez esteja errada.
A canção da Edit Piaf acaba mal, os amantes matam-se.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Solidao

Le-se n'O Ano da Morte de Ricardo Reis a seguinte clarividencia:

"a solidao nao "e" viver so, a solidao "e" nao sermos capazes de fazer companhia a alguem ou a alguma coisa que esta dentro de nos"

(favor colocar os acentos devidos que eu mais nao posso, obrigada)

Esta observacao esta muitissimo bem vista (nao fosse ela uma observacao), como alias todo o livro esta muito bem visto ("e" uma obra-prima, verdadeiramente). A solidao, curiosamente, nao "e" o estarmos fisicamente sozinhos, vivermos sozinhos, viver a nossa vida sozinhos. A solidao "e", de facto, o nao sermos capazes de fazer companhia a nos proprios, de nao sabermos o que fazer de nos.
Quando nao somos capazes de nos entreter sozinhos, e a nossa propria companhia se torna um enfado, ai sim, estamos embrenhados numa solidao custosa (o tipo de solidao que leva as pessoas a psiquiatras e, de forma ainda mais grave, a psicologos tipo Eduardo de Sa, que medo).
O estarmos meramente solitarios nao e, de todo, solidao. "E" vivermos com a nossa companhia, que "e" uma boa companhia. Gosto, apoio e dou aval.

(que desespero, a falta de acentos, mil desculpas, nao consigo escrever assim)

Nota final: como a chamada "alma portuguesa", se "e" que ela existe, soube transformar a solidao num elevado sentimento estetico, deixo a bela cancao da grande Amalia, precisamente denominada "Solidao", desta feita com os arrebites jazzisticos dum tipo conhecido que agora o nome nao ocorre, e que sao mesmo de uma pinta insuperavel.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Rebelde ma non troppo, a bem da moral, ó faxavôr

No Reino Unido, há uma campanha, com grupo no facebook e tudo, que tenta que Killing in the Name, dos grande Rage Against the Machine, seja o número 1 de downloads do Natal, ao invés da cançãozita do palerma anódino qualquer que ganhou o X-Factor, convenientemente, nestas últimas semanas, em que anda tudo a gastar o salário em prendas.
Os Rage gravaram uma entrevista para a BBC, sessão onde também tocaram Killing in the Name, que já é dos anos 90. Acontece que esta música termina com um repetido "fuck you, I won't do what you tell me", rebeldia que a BBC considerou ser um bocadinho, digamos que , despropositada (segundo a tola da locutora, "nós tínhamos pedido à banda para não dizer isto!", pegando depois do seu chinelo de salto alto para lhes dar tau-tau). É assim, uns lutam pelo direito à ofensa, outros, como a estimada BBC, tentam poupar os nossos delicados ouvidos à dita ofensa.
De qualquer forma, os Rage Against the Machine já fizeram saber que ficam muito felizes por ter sido a sua música a escolhida para, de alguma forma, combater a piroseira comercialona e vazia que é a música "pop" dos dias de hoje, Mariahs Careys e quejandos (sinceramente, não me consigo lembrar de tipa com menos dignidade e valor para a música do que esta Mariah Carey. Consegue ser pior que a Celine Dion, outra cidadã de voz retinta cheia de fru-frus exagerados que até arrepiam de medo). Disse o guitarrista Tom Morello (que, a solo, tem um disquinho muito interessante, The Nightwatchman):

...the internet campaign "tapped into the silent majority of the people in the UK who are tired of being spoon-fed one schmaltzy ballad after another". (tirado daqui)

Não só no Reino Unido, diria eu. O que acontece é que, em Portugal, o top de singles e discos (mesmo o de downloads), que é o caso aqui, é indiferente a quase todos, ao passo que em Inglaterra ainda mantém a notoriedade, de modo que conseguir levar uma canção como Killing in the Name ao topo assume uma relevância que cá, provavelmente, não teria.
Apesar de os Rage Against serem também uma banda que precisa, e com certeza quer, promoção e dinheiro, nunca enriqueceram de forma absurda (tanto quanto sei), mantiveram sempre uma faceta clara de rebeldia e optaram por um percurso mais underground, menos exposto, do seu trabalho. Gostei de saber desta iniciativa de levar ao número 1 o Killing in the Name, com o seu veio quase violento, anti-Establishment, para derrotar nos tops a músiquinha anódina, produzida em série e empacotada, que normalmente se consome.
Espero que o Killing in the Name ganhe. Deixo aqui o vídeo de os Range censurados pela BBC. É apreciar.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Muito obrigadinho, muito obrigado


Há um disco mítico da minha infância que se chama Jardim Jaleco, de Carlos Mendes. (e que, indecentemente, e tanto quanto sei, nunca foi lançado em CD; infelizmente, o vinil que eu tinha, parafraseando o grande Herman, "viste-lo? Era o visteze-o").
O Jardim Jaleco era sobre uma ida ao jardim zoológico, conduzida pelo Guarda Ezequiel, e em que cada animal cantava a sua cantiga. Ainda hoje me recordo do Elefante D. Henrique que tinha um amigo que era cão e se chamava Diogo (insuperável), da Serpente Serafina, uma das minhas preferidas, mas, acima de tudo, o que recordo com muita saudade, à boa maneira portuguesa, é a música do crocodilo, o Casca-Grossa, que era fadista.
Esta musiquinha é de um humor imbatível, e só consigo perceber isto agora, com esta idade avançada que tenho. Na altura, como o crocodilo Casca Grossa era fadista e eu não gostava nada de fado, não apreciava muito o que ele cantava, embora soubesse a canção de cor. E ainda hoje sei, e por isso lhe acho tanta graça. O Casca-Grossa queixava-se de que as pessoas andavam atrás dele para fazer sapatos e malas com a sua bela pele, e ele, na mais apurada voz de Alfama, cheia de trejeitos, rematava com: "mas eu não me rendo, só pretendo a igualdade! Sou casca grossa, mas nunca pus a pata na poça!"
Lin-do. A "igualdade" e a "pata na poça" são demais para mim e ainda hoje me fazem rir desalmadamente ao recordar o crocodilo fadista. E o melhor ainda era mesmo no fim da canção, em que o público, igualmente à boa maneira portuguesa, se desfazia em palmas e gritos de "eh, fadista!", para receber do Casca-Grossa um sentido agradecimento: "muito obrigadinho, muito obrigado. Muito obrigadinho, muito obrigado". Foi o meu primeiro contacto com o humor conseguido através das frases feitas, das convenções da linguagem, e por isso continua bem presente na minha memória.
Acho que o Casca-Grossa e o Tal Canal são, ainda hoje, as grande fontes de humor que adoçam a minha vida (é piroso, mas é verdade). O que reforça uma teoria que eu tenho, que acalento e continuarei a acalentar, e que é: as crianças têm de ser expostas ao bom humor desde tenra idade, ainda que nem sempre o percebam ou achem graça. Eu não achava graça ao Casca-Grossa, e agora adoro. Também não percebia muito bem o Tal Canal (nem a Marilu eu conseguia compreender bem), e agora não passo sem a minha edição especial em DVD. Também não entendia nada, mas é que mesmo nada, do Flying Circus dos Monty Python que passava na RTP, e agora passo a vida no canal dos Monty Python no YouTube. É assim, a vida muda, os gostos discutem-se, e as referências que trazemos da infância acabam por ser fundamentais no nosso (bom) humor.
Saber rir é das coisas mais compensadoras que existe. Tão bom como o Côte D'Or Truffé Noir. Ou quase tão bom.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Toy-like people make me boy-like


Ai, gostei tanto de os ver este fim-de-semana. De tanto cantar, saltar e dançar, saí do Campo Pequeno a sentir-me quase "expurgada" de aborrecimentos, contrariedades, irritações. A música tem este efeito de catarse. Se todos os fins-de-semana as pessoas pudessem ir a um concerto de uma banda de que gostam muito, muito, muito, não precisavam de ser alcoólicas nem de se meterem na droga. É um conselho que eu aqui deixo, em vez da metadona, que se experimente a música.

domingo, 15 de novembro de 2009

Manhã Pura

Agora que tenho o meu ipod e respectivo itunes de volta ao seu estado normal (um obrigado encarecido às almas caridosas que me auxiliaram), volto ao fru-fru (haverá expressão mais pavorosa que esta, eh eh?) das playlists e dos shuffles e dessas coisas todas muito deslumbrantes.
Bom, uma coisa que tem despertado o interesse é o facto de haver certas músicas que se adaptam particularmente bem a certas alturas do dia. Já escrevi que, por exemplo, ouvir Tom Waits de manhã é coisa que não resulta. O Tom tem de ter um espírito e um ambiente bem mais obscuros - o que o torna particularmente bom para um dia escuro e chuvoso como este.
No entanto, como ouvir música de manhã é muito importante para mim, pois se não ouço algo de jeito antes de começar a trabalhar, sou, digamos que, uma mistura de zombie ressacado deprimido mal disposto com sede de sangue, o que é bastante negativo (exemplo, retirado convenientemente desse grande filme que é A Noite dos Mortos - Vivos:







mesmo de meter medo),






dizia, como fico num estado miserabilíssimo, preciso, de facto, de uma música matinal eficaz. De modo que ando a estudar uma playlist matinal que resulte mesmo, que condense a mistura ideal de energia, melodia, profundidade e alegria inconsequente, para dispor bem.
Até agora, tenho um top 5, como diria John Cusack nesse outro grande filme que é o Alta Fidelidade, do qual constam:
1. o fundamental e indispensável Unfinished Sympathy, Massive (já escrevi sobre isto antes, não me vou alongar muito sobre esta canção; tenho apenas uma pequena ressalva, que é: bilhetinho para o Campo Pequeno já cá canta, ponto de exclamação)
2. o imprescindível Pure Morning, Placebo (o que eu gosto destes indivíduos, gosto, gosto)
3. Are You Ready To Be Heartbroken, do grande Lloyd Cole (esta música traz à playlist aquela parte da profundidade, da filosofia, para nos convencer que o dia que está prestes a começar tem uma qualquer relevância. Infelizmente, não encontro um vídeo decente desta canção no youtube para postar aqui)
4. Postcards From Italy, dos Beirut (a alegria inconsequente, meio folk, meio havaina, dá vontade de cantar, muito giro e querido)
5. uma escolha recente, mas que não consigo parar de cantarolar, e que portanto consolida o sentimento eufórico e alegre que já vem dos Beirut, e que é You Don't Know Me, Ben Folds e Regina Spektor.

O importante para começarmos bem a manhã é mesmo, reitero, o equilíbrio perfeito entre a euforia alegre e a filosofia. Até hoje, estas musiquinhas têm impedido o meu lado zombie-feio de emergir de uma forma absolutamente descarada, mas sei que ainda há muito trabalho a fazer.
Tenho também pensado na playlist adequada para o fim do dia, quando se sai do trabalho, cansada e farta e a precisar de um mimo. Mas isso fica para outro post, que é matéria mais complexa.


sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Gaja que faz o meu estilo: Elis Regina


Ilumina a mina escura e funda, o trem da minha vida

Esta frase, cantada pela voz grande da Elis e que ouvi em pequena, produziu uma marca indelével na minha imaginação infantil, pela sua força intensa, que me impressionava.
Lembro-me de, em pequena, ver a Elis na televisão, muito sorridente e de cabelo curtinho, e de a ter achado fascinante (sempre fui uma criança com apurado sentido estético no que toca a cabelos). Lembro-me de a minha mãe ouvir "em repeat" este Romaria, de arrepiar. Ouvir a Elis continua, surpreendentemente, a produzir em mim exactamente o mesmo efeito de quando eu era pequena - uma comoção que quase dá um nó na garganta. Límpida e intensa - a voz, a presença, tudo.
E deixo aqui este vídeo. Também de arrepiar, de dar nó na garganta. Grande Elis.




quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Kafka está a rir-se de mim


Provavelmente, este seria o tipo de coisa que deveria escrever no facebook ou twitter, que não tenho, ou quejandos. Mas vou escrever aqui.
Comprei um ipod. Um objecto minúsculo que custa centenas de euros. Enchi-o de música até transbordar. Mudei de computador. E a música que tenho no ipod, que eu comprei, que é meu, por alguma razão que desconheço, não pode ser transferida para o computador, que também é meu. Quer dizer, é tudo meu, paguei tudo sem ficar a dever nada e, alegremente, a querida Apple, qual velha beata a velar pelos seus ricos santinhos, parece não ter pensado num método prático e simples que me permita ter a minha musiquinha na minha biblioteca do itunes, facilmente, sempre que mudo de computador. Se o disco vai abaixo, pumba, vai tudo abaixo. Então mas o quê, agora tenho de ir "queimar" os CDs todos outra vez e perder horas neste processo? Compro um ipod novo?
A culpa é toda minha. Isto é uma grande lição. Gasta-se o virtual dinheiro, que julgamos nosso, num deslumbramento bimbo pelas tecnologias que facilitam tudo, facilitam imenso, e algo tão simples, como ter a nossa música (sublinho o determinante possessivo e, já agora, sublinho possessivo) no nosso pc a partir do nosso ipod (reitero o determinante possessivo) é impossível.
Por favor, alguém que me diga que isto é tudo uma grande inépcia da minha parte, fraca de espírito que sou em relação a tecnologias e informáticas, e que poderei, num ápice, transferir a música do ipod para o novo pc. Que isto sou tudo eu, que sou estúpida, e venho para aqui injustamente vilipendiar a sedenta Apple, na sua enjoada e insuportável missão de proteger direitos de autor e, já agora, ganhar uns trocos à custa disso (e à nossa custa, também). Digam-me que isto é tudo injustiça minha e, já agora, em podendo e por caridade, informem-me de como proceder para efectuar a dita transferência. Um sentido bem-haja.

(estão a ver, este sorrisinho ironicozinho do Kafka, pior que a Mona Lisa? Ah, pois. Quem sabe, sabe, e os parvos como eu ficam a olhar).

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Não sou eu, não

Estou cheia de sono.
Estou a morrer de sono.
E o mundo lá fora quer coisas práticas, respostas directas, sucesso, competência, eficiência.
Eu tenho uma resposta muito clara a estas coisas que o mundo quer. E vou dá-la da forma mais clara possível, para que o mundo perceba bem, de uma vez por todas:





Há muitas alturas na vida em que eu gostaria de cantar esta canção, ou por outra, recitar esta canção. Resolveria muita coisa.

domingo, 8 de novembro de 2009

O artista é um bom artista

Espero ansiosamente por qualquer estreia dos Irmãos Coen - A Serious Man, neste caso. Alguns filmes são melhores do que outros, já se sabe, e daí estes realizadores passarem do 8 ao 80 aos olhos da crítica - tanto são adorados com Fargos, Este País..., Bartons Finks, como são vilipendiados com Lady Killers, Burn After Reading e até (esta, sinceramente, não percebo), o magnífico Oh Brother Where Art Thou, que eu adoro, mas acerca do qual nunca li críticas tão entusiastas como deveria haver (quando Este País... estreou, cheguei a ler uma crítica em que se dizia que os Coen tinham, finalmente, feito o seu primeiro grande filme desde Fargo. Infelizmente, não consegui encontrar esta pérola na internet para postar aqui, mas tenho a certeza absoluta de ter lido tal monstruosidade, penso que no Público; no entanto, como digo, não posso provar).
Há pessoas que já fizeram coisas tão boas que não precisam de comprovar constantemente a sua genialidade. Tudo o que fazem que não é uma obra-prima é, pelo menos, bom. Os Irmãos Coen (tal como o Woody Allen, o Tim Burton ou o Nick Cave, quanto a mim) são exemplos paradigmáticos desse tipo de pessoas. Nunca vi nada deles que não merecesse ser visto.
Também gosto daquele tipo de artistas que recompensa o público. Adoro quando o Woody Allen recheia os seus filmes mais recentes com diálogos e citações de filmes anteriores, como que a piscar o olho àqueles que reconhecem de imediato a referência; gosto quando Nick Cave conta uma história do princípio ao fim nas suas canções, terminando numa apoteose (daí coisas como Stagger Lee serem fabulosas, na escalada narrativa e de violência que oferece); gosto quando os irmãos Coen pegam num elenco reduzido, em cenários simples, em narrativas vindas do noir, contadas anteriormente centenas de vezes, e conseguem um diamante perfeito como este:




ou:





The Man Who Wasn't There é, visualmente, dos filmes mais bonitos que existe. Esta foto aqui acima parece quase retirada do Citizen Kane. Além disso, tem o Billy Bob Thornton a fumar da forma mais estilosa que já vi, em, literalmente, todas as cenas. Deve ser dos filmes em que mais se fuma, mais ainda do que os originais noir que serviram de inspiração. E que bem que se fuma neste filme, é uma beleza...
Tal como este Nick Cave, cheio de pinta, a destilar pinta, diria até, é também uma beleza, a cantar Stagger Lee.
O artista que é um bom artista, mesmo que tente, nunca consegue deixar de ser bom. E, como diz Truman Capote, se isso é uma vantagem, também não deixa de ser um chicote, permanente a exigir mais.


sábado, 31 de outubro de 2009

Something in the way she looked


Esta menina, a Patty Boyd, que agora já é uma senhora idosa, foi mulher do George Harrison e depois também foi mulher do Eric Clapton, o que quer dizer que:

- "Something", do álbum Abbey Road, foi escrito por Harrison para ela
- "Layla", de Eric Clapton, também
- "Wonderful Tonight" também

O que dizer sobre isto? Que Boyd devia cumprir (e parece que sim, que cumpriu) a regra que a Maria Rueff, uma vez há tempos, disse que as mulheres deveriam adoptar em relação a certos homens: usa - passa - a - outra - não - à - mesma.