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terça-feira, 19 de outubro de 2010

Sôbolos rios que vão

Descobri hoje que o novo romance de Lobo Antunes tem como título este verso do Camões. Não sei se vou ler, se não (o mais recente que li de Lobo foi "Não Entres Tão Depressa...". Não gostei, houve ali qualquer magia que não se deu). De qualquer forma, fiquei com um certo apetite, porque o título é espectacular. E é espectacular porque o poema também o é. A minha parte favorita (do poema) é:


Bem são rios estas águas,
com que banho este papel;
bem parece ser cruel
variedade de mágoas
e confusão de Babel.

Como homem que, por exemplo
dos transes em que se achou,
despois que a guerra deixou,
pelas paredes do templo
suas armas pendurou:

Assi, despois que assentei
que tudo o tempo gastava,
da tristeza que tomei
nos salgueiros pendurei
os órgãos com que cantava.
Aquele instrumento ledo
deixei da vida passada,
dizendo: - Música amada,
deixo-vos neste arvoredo
à memória consagrada.

Se calhar, foi por isto que Lobo deu ao livro o título de Camões - é o guerreiro que se retira, que pendura as armas, que já não tem força para a guerra. Não sei, pode ser. Talvez. 

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Razões pelas quais estou contente de ler as BDs do Corto Maltese (para além das óbvias razões estéticas, o brinco na orelha, o cabelo escuro, moreno, alto, lindo, ai, ai, pronto, vou parar)

 
Na aventura na Sibéria, Rasputine, que é um doido, tenta matar Corto com um punhal, mas falha a facada. Corto pergunta-lhe o que se passa com ele, Rasputine, que costumava ser exímio matador. Rasputine diz que era só uma partida, e continua:

Hoje, escondi-me enquanto falavas e feri-me ligeiramente para te fazer crer que me tinha acontecido alguma coisa. Quis dar-te uma emoção, Corto, porque gosto de ti...

É mesmo das coisas mais bonitas que nos podem dar, uma emoção. Com ou sem punhalada, é uma coisa bonita. Concordo com Rasputine. Ainda melhor é conseguirmos ser nós a dar a emoção.
Pode ser uma lamechiche, mas tudo isto é verdade.

Razões pelas quais estou contente por persistir na releitura do Auto dos Danados

Como tudo na vida, há vantagens e desvantagens. Comecemos pelas desvantagens, que são:

1) "Como os corpos na morgue, a Ana embrulhava-se naa colcha na extremidade da cama, e o piaçaba dos cabelos emaranhados despontava da roupa. O pingo triste de cera de um calcanhar defunto tombava no chão"

2) "Edward G. Robinson observou de esguelha o pechisbeque enquanto contornava o capot. A pistola debruçava-se do sovaco como uma lágrima de um olho"

3) aquela sensação mais ou menos desconfortável, ou pouco original, de que estamos face a uma versão portuguesa do Som e a Fúria, mas no mau sentido, porque cada livro deve ser único; ainda que um livro faça lembrar outro, uma proximidade tão grande, ou uma inspiração tão pronunciada noutra obra, não é muito agradável para o leitor. Isto, a meu ver, claro.

Passemos às vantagens, que superam as desvantagens, como penso que este excerto demonstra amplamente:

"... e eu calei-me por prudência, absorvido no caminho, em lugar de dizer que se tratava de uma família nojenta de cabras e bois mansos a devorarem-se mutuamente no casarão do Guadiana, a sonegarem-se as heranças, a odiarem-se, a roubarem-se, a esmagarem-se, a destruírem-se, e tudo isto debaixo da boquilha e da pálpebra cáustica do avô, derramado na cadeira de baloiço da sala, a assistir numa alegria formidável à agonia da sua matriz, como se não suportasse que nada de seu sobrevivesse no fim..."

Safa. Nos Danados, há este efeito quase de espiral destruidora, que eu acho que Lobo Antunes consegue muito bem em certos livros, e em que se descobre mais e mais das personagens e da história, e é tudo cada vez mais estéril, horrível, desesperado. A estrutura da narrativa, fragmentada em várias vozes, vem de facto do Som e a Fúria, mas acaba, de uma certa forma, por compensar o leitor, porque o deixa em sofrimento absoluto ao ir descobrindo cada vez mais da força avassaladora de uma família em derrocada.
E depois há esta ideia central nos Danados, que explica o título do livro e também o verdadeiro sofrimento que provoca (pelo menos em mim, provoca): a destruição total que a família, como unidade primordial da sociedade (as sociologias e as economias dizem que sim) pode representar. Se há força que consegue dar tanta felicidade como também esterilidade total, por mais paradoxal que seja, é a família.
Agora estou a sentir-me um bocado mal. Vou ter de ficar por aqui. A ler o Auto dos Danados, que vale a pena, pá.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Reencontros

Ultimamente, tenho andado frouxa, e isso não se deve ao tempo, deve-se antes ao facto de não andar a ler nada de jeito. Até faz impressão.
Costumo ter um certo método na leitura, e consiste este método em começar a pensar no próximo livro para ler antes de terminar o que estou a ler. Ora acontece que acabei um livro há pouco tempo, gostei relativamente, e não acautelei esta situação de ficar sem nada para ler. Pensei que tinha em casa um livro que ainda não tivesse lido, mas realmente não tenho, isto é, tenho talvez um ou dois que não li, mas que agora também não me apetece nada, nada ler. E ando nesta perdição estultificante.
Para me entreter, e para ajudar a dormir, pus-me a ler um livreco que já tinha tentado ler antes e que é uma espécie de biografia do Marlon Brando mas que, além de estar ridiculamente mal traduzido, acaba por ser muito entediante, de tal modo que nem sequer me ajuda a adormecer. A verdade é que a vida sexual de Marlon Brando, que é efectivamente o tema do livro, não tem assim muito que dizer - consistia em dormir com quem lhe aparecia à frente. Mal o livro faz menção a uma personagem nova que Brando conhece, já eu sei onde é que aquilo vai acabar. Peca por ser previsível, portanto.
De modo que ontem decidi voltar a ler um livro de Lobo Antunes, o primeiro de todos os seus romances que li, e que é o Auto dos Danados. Já há algum tempo que queria relê-lo, porque me lembrava de ter adorado. Mas, afinal, não sei se é assim tão boa ideia. Não estou a gostar tanto como da primeira leitura. Uma coisa que nunca tinha sentido em Lobo era exagero linguístico - neste livro, tenho sentido um bocadinho. Por exemplo, há uma personagem, Nuno, que se levanta da cama e diz qualquer coisa como "levantei-me pingando noite". É um imagem bonita, uma descrição eficaz, mas há aqui qualquer coisa de escrita que se esforça demasiado. Nunca tinha sentido isto nos romances do Lobo, e não me ocorreu, com toda a certeza, da primeira vez que li os Danados. Porém, é a escrita em si que me tem causado mais estranheza, e não a história. Como sempre em Lobo Antunes, o enredo é de uma intensidade e dureza evidentes, de modo que o Auto dos Danados continua a ser, obviamente, um belíssimo livro.
E porém, entristece-me sempre reler livros que, afinal, não correspondem ao impacto soberbo da primeira leitura. É como encontrar alguém de quem gostámos muito uns anos depois, e a pessoa mudou para pior, está mais parva, verificamos que afinal não é assim tão inteligente, e a vida dela é muito mais desinteressante do que pensávamos.
É evidente que vou continuar a ler o Auto dos Danados, esperando mudar de opinião e reencontrar o livro que, dantes, eu adorava. Mas começo a pensar que re-leituras, reencontros, confrontos com o passado, nunca são grande ideia. Aquilo que correu bem no passado deve permanecer assim, uma memória agradável. Não deve voltar a fazer parte da realidade.

domingo, 19 de setembro de 2010

Um Eléctrico Chamado Desejo - a peça no D. Maria (SPOILERS)


A primeira coisa que gostava de dizer é que, indubitavelmente, gostei do espectáculo - dos actores, do cenário, do guarda-roupa, da encenação. Gostei também de ver a Alexandra Lencastre num palco, e não nos dejectos da TVI por onde andou a perder tempo, e ainda por cima num papel tão exigente como é o de Blanche Dubois. Não é apenas a Alexandra Lencastre que está bem - todos os outros elementos do elenco são sólidos, e Pedro Laginha no papel de Mitch surpreendeu-me particularmente. Stanley Kowalski interpretado por Albano Jerónimo também não desilude nada. É evidente que Stanley tem de ser corporizado não apenas por um bom actor, mas também por um actor bonito, e a mim parece-me que Albano Jerónimo reúne muito bem estes dois predicadozinhos.
No entanto, e isto é problema meu e não da peça, eu penso que tinha demasiadamente presente tanto o filme como o texto da peça, uma vez que a li há pouco tempo e conheço muito bem o filme, de o ter visto tantas vezes. Quem vai ver a peça na mesma situação do que eu não se consegue esquecer de Vivien Leigh nem do impossivelmente magnífico Brando, passando o tempo a pensar, "ah, no filme o Brando também faz este gesto", "ah, no filme a Vivien também se debruça assim", "ah, no filme o Brando também diz isto assim e assim", e por aí fora. É irritante, mas não é defeito da peça, é defeito meu. Daí que eu ache que quem já viu o filme há muito tempo ou pura e simplesmente não está familiarizado com a peça tem muito mais condições para se deleitar verdadeiramente com o espectáculo, ao evitar uma postura demasiadamente analítica, que, acho eu, foi o que me aconteceu e não teve piada.
No entanto, a peça no D. Maria chamou-me a atenção para outras leituras possíveis da peça que nunca me tinham ocorrido. Há um certo elemento cómico em Stanley Kowalski, na sua brutalidade, na sua masculinidade tirânica, que no filme não é revelado e que, nesta interpretação de Albano Jerónimo, é saliente. Nunca me tinha passado pela cabeça que o Streetcar desse para rir, mas a verdade é que há elementos na interacção entre Stanley e Blanche, um tão exageradamente bruto, e a outra tão exageradamente coquette, que de facto fazem rir, ou por outra - podem fazer rir, dependendo da leitura do texto. Eu nunca o lera sob esta perspectiva, e portanto Stanley e Blanche sempre me haviam parecido intensos, desgraçados, soturnos, perdidos num jogo de poder cruel e trágico. Sem obliterar esta evidência, a encenação de Diogo Infante consegue ressalvar a potencialidade cómica do texto de Tenessee Williams, que a mim nunca tinha ocorrido. E constatar que a riqueza expressiva do mesmo texto é ainda superior àquilo que inicialmente pensei foi bastante bom, ou por outra, foi "profícuo", para dar nível aqui ao postezeco.
Pus-me a pensar no que seria se fosse a Cornucópia, por exemplo, a levar à cena o Streetcar. Seria, com certeza, bastante diferente, e o meu palpite é que, precisamente, a interpretação aqui recairia mais na intensidade trágica de Blanche e Stanley do que no potencial cómico destes dois. Por acaso, ao lembrar-me disto, fiquei com vontade de ver a mesma peça encenada pela Cornucópia, que sempre que fazem qualquer coisa, fazem-no epicamente. Seria interessantíssimo comparar, depois, as duas produções e verificar como o mesmo texto poderia sofrer alterações expressivas muitíssimo diferentes. Mas isto sou só eu a especular.
Alguns excertos do diálogo foram, não percebi bem porquê, eliminados. Não me pareceu que a sua falta afectasse o impacto da peça em geral, mas de qualquer forma tinha muita curiosidade para ver traduzida e representada a seguinta fala de Stanley Kowalski:

Listen, baby, when we first met — you and me — you thought I was common. Well, how right you was. I was common as dirt. You showed me a snapshot of the place with them columns, and I pulled you down off them columns, and you loved it, having them colored lights goin.' And wasn't we happy together? Wasn't it all okay till she showed here? And wasn't we happy together? Wasn't it all okay till she showed here, hoity-toity, describin' me like a ape?

Na peça em cena no D. Maria, Stanley interrompe a fala, se bem me lembro, na parte do "how right you was". A tal questão das colunas não fica resolvida. Na famosa cena da varanda - de que por acaso receei não conseguir gostar por apenas me conseguir lembrar de Brando, e que, afinal, está muito bem representada e ainda bem - a súplica de Stanley a Stella (don't ever leave me, sweetheart, baby) é igualmente eliminada. Também estava à espera desta fala, de modo que continuei mesmo sentada à espera. Mas, como disse, o impacto geral permanece.
Em resumo, e para acabar a composição, gostei muito do espectáculo, dos actores e de tudo, e vale muito a pena ir ver. É preciso é despachar com os bilhetes, que até Outubro só há lugares de visualização reduzida, e a partir de Outubro sabe-se lá. É peça blockbuster sem dúvida, e quanto a isto nada a fazer. Mas a ir, com muita veemência, que é uma grande peça.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Colégios internos


Há uns mesitos, vi um documentário sobre Enid Blyton num canal qualquer. Os livros da sua autoria de que eu gostava mais eram o Colégio das Quatro Torres, em que a personagem principal era a Diana, que tinha muito mau génio, e as Gémeas no Colégio de Santa Clara. Tudo o que se passasse em colégios internos ingleses, porém com professoras de francês que eram as Mademoiselles, piqueniques à meia-noite e refeições que incluíssem rosbife com pickles, eu adorava. Isto já para não falar de aulas de natação em piscinas naturais, desportos que eu ignorava por completo como se jogavam, como o lacrosse, e o maravilhoso sistema hierárquico e quase militar em que as meninas mais novas, caloiras reles, tinham de ir às salas de estar que as alunas mais velhas partilhavam com as suas melhores amigas à frente da lareira, e limpavam tudo e engraxavam sapatos. Nunca tendo eu gozado do direito de ter alguém para me engraxar os sapatos, queria muito ir para um destes colégios internos, esquecendo-me convenientemente de que entraria como caloira e estaria, literalmente falando, feita ao bife.
A mania dos colégios internos passou-me, e passou-me definitivamente depois de ver o If, que narra precisamente a história de um rapaz (o mesmo da Laranja Mecânica, o impecável Malcolm McDowell) que, tendo passado a vida num colégio sofrendo violências físicas por parte de alunos mais velhos e professores, decide reunir um grupo de revoltados como ele e matar toda a gente à metralhadora. Sei que não parece, mas há alguma beleza nisto.
De modo que a mania de colégios internos, efectivamente, já não tenho, e além disso esta minha mania antiga não se relaciona de modo algum com os propósitos deste post, que têm antes a ver com aquilo que concluí depois do tal documentário sobre a Enid Blyton e ao esforçar a memória para me lembrar das historietas das Quatro Torres e de Sta Clara - todas as meninas tinham uma melhor amiga, já se sabendo que a menina y era a "pertença" da menina x, envolvendo normalmente um elemento dominador, que falava mais e tomava mais decisões (a menina y, por exemplo) e um elementos mais passivo (a menina x). Nada mais óbvio do que a relação entre Diana e Celeste, na série das Quatro Torres, amiguinhas, amiguinhas, sendo a Diana um vendaval de mau génio e a Celeste uma certinha querida. Complementam-se, portanto.
Não era só de amizade que estes livros falavam. A conclusão que eu retirei disto tudo era que se estava na presença de verdadeiros casais. Depois fui ler coisas à Wikipedia e vi que tinha razão, e portanto contra os factos da Wikipedia não há argumentos.
É só isto, peço desculpa se estavam à espera de outra coisa.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Stella!


Outro livro, por acaso também drama, que li este Verão foi, finalmente, o Streetcar Named Desire.

Como já falei muito sobre o filme, que segue a peça, não tenho muito a dizer, para além do óbvio, que é o facto de a Stella, na versão cinematográfica, ser mais decidida e politicamente correcta, aparentando livrar-se do marido abusador, ao passo que no livro já não é bem assim. A pobre Stella prefere acreditar que o seu Stanley é incapaz de abusar de uma alma desprotegida como a Blanche e permanece, mais ou menos alegremente, casada com ele.

No fundo, pode pensar-se que Stella é fraca e alienada, mas ela talvez seja uma sobrevivente. Acredita no que tem de acreditar para se sustentar, a si e ao filho. E, na falta de outros meios, um marido violento e abusador, que ela quer acreditar ser gentil e forte, é o seu único sustento.

Quando vemos nas notícias casos imperdoáveis e incompreensíveis de violência doméstica, é fácil pensar "que tipo de mulher fica com um homem destes, se fosse eu pegava nas malas e era divórcio e polícia na hora, etc, etc.". Não me passa pela cabeça vir para aqui adiantar qualquer tipo de explicação para estes casos, que não compreendo e espero nunca vir a compreender. Mas, por vezes, as pessoas fazem aquilo que consideram ser a única alternativa possível.

E portanto, talvez a Stella do Eléctrico Chamado Desejo, no final da peça, corresponda mais à figura de sobrevivente do que de fracalhota. A sobrevivência nunca é assim muito bonita, e a decisão da Stella também não.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Miss Julie e um muito necessário Tampax


Um dos livros que li este Verão foi Miss Julie.

O Strindberg diz, no seu prefácio, que a Miss Julie é meia maluca devido à má educação que recebeu, ao seu cérebro fraco, e também devido à menstruação, que a faz andar no enxovalho com criados de menos nível.

Eu devo dizer que concordo com Strindberg, porque realmente, uma mulher com menstruação é como se diz no South Park, bleeds for five days and doesn't die, o que quer obviamente dizer que, em aberrações destas, não se pode confiar.

Mas, fora isto, ou também por causa disto, vale a pena ler Miss Julie, ou possivelmente ir ver a peça, que eu penso ter estado há relativamente pouco tempo no D. Maria. Não fui ver, mas a leitura do livro deu-me que pensar.

Essencialmente, estamos a falar de um romance estéril entre uma menina nobre (uma maluca, mas para o caso não interessa) e um criado de classe baixa (um oportunista deslumbrado com a superioridade que ele próprio atribui às classes altas). Para Strindberg, este tipo de relação está condenado e é, mais uma vez, estéril. Poderemos argumentar, com pertinência, que hoje em dia este tipo de distinção social já não existe ou que já não tem tanta importância. Não tenho tanta certeza. Se há coisa que estes naturalistas, Strindberg e quejandos, gostavam de demonstrar é que as forças da História e da sociedade são maiores que o indivíduo e que normalmente destroem quem se lhes opõe. Pode não ser verdade. E porém, não vivemos numa sociedade tão livre de estratificações como seria desejável. Pelo contrário, a estratificação existe, e é só pensar no feudalismo que a nossa pequena Lisboa pode encerrar para percebermos isto.

Mas pronto, vamos admitir que isto é só converseta e que, nos nossos dias, a Miss Julie casava com o criado Jean e compravam o tal hotel e pronto. Ou um café na Damaia, um talho em Alcobaça, uma mercearia nos Sapadores, qualquer coisa assim que dê felicidade terrena. E, uma vez que o século XXI já tem à disposição Tampax, Evax, Ausónias e quejandos, talvez a menstruação se acalme e deixe a Miss Julie em paz.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Livros que engatam

Este artigo da Slate é engraçado - o autor interroga-se de como serão as suas futuras possibilidades do chamado engate quando toda a gente se converter aos livros electrónicos, em grande detrimento do livro em papel; como se diz no título do artigo, deixamos de poder julgar as pessoas pela capa, o que causa problemas consideráveis quando estamos naqueles momentos de indecisão, "avanço ou não avanço", "digo ou não digo", e etc. Momentos, aliás, que já na sua essência se revestem de stress insuportável, stress esse que um bom livro, como tema de conversa, ajudaria a dissipar. Se nem sequer isso existe, o engate está condenado.
Devo dizer que me entristece. Entristece-me porque o meu sonho foi sempre ser alvo de uma interpelação daquelas super-intelectuais e com imenso nível no autocarro ou no metro. Acho que há uma certa magia em entrar na carruagem, sentarmo-nos no banco, e haver ali um tipo que, só por acaso, pode parecer-se com este outro indivíduo:

e, dizia, esse tal indíviduo dar-se ao trabalho de reparar no que estamos a ler, só depois olhar para o resto, e pensar, "bem, que criatura magnificente, a única no mundo que lê aquele livro, o livro que eu sempre quis ler e nunca consegui mas que agora vou com certeza acabar, que ser glorioso é este que adoça os meus olhos e que nunca mais vou esquecer, vou já entabular conversa e falar de coisas terrivelmente interessantes, exposições, arte, música, poesia".
E depois o indivíduo, que se parecer com este também está optimamente:
e, continuando, o indíviduo que a gente conhece no metro é culto, culto, giro, giro, já leu tudo o que havia para ler excepto, é claro, o livro que nós próprias estamos a ler, conhece os restaurantes todos, cozinha muito bem e não se importa nada de ser ele a cozinhar todos os dias sem excepção e lavar ele a louça. E que pena, pensamos nós, dada a sorte inacreditável de termos conhecido um elemento do sexo masculino deste calibre, já termos encontrado o nosso "tal", mas pronto, a vida é assim e há que fazer escolhas. Sorte macaca, se ao menos tivéssemos começado a ler o livro uns anitos mais cedo, mas pronto, vivendo e aprendendo.
E assim se vê como um livro pode perfeitamente transformar a nossa vida, radicalmente.
Vem este encadeado de parvoíces acompanhado de uma pergunta que levanto à minha própria consideração, e que é: quais são, então, os melhores livros para causar "a" impressão? Por exemplo, tenho para mim que o Guerra e Paz não é um desses livros. Não é, há que ter paciência. Se eu visse este indivíduo:


a ler o Guerra e Paz, talvez eventualmente desferisse uns olhares de soslaio, mas sinceramente, rapidamente me desinterassaria, porque ler o Guerra e Paz publicamente dá a ideia que, ou a pessoa o lê por obrigação para um qualquer curso, ou se está a esforçar demasiado. Preconceito? Será, mas a vida é assim, uma cruz muito grande a carregar. Já o Crime e Castigo - excelente opção. Livro fundamental, repleto de temas de conversa, personagem principal impressiva, nervosa, com um grande nome (Raskolnikov é de facto inesquecível), de modo que sim senhora. Crime e Castigo no metro está muito bem. No caso das raparigas, estou igualmente convencida que Sylvia Plath é sempre uma escolha muito segura e com margem de erro mínima ao nível de impressionar o outro. Melhor ainda - deixar o Ariel "esquecido" na mesinha de café, quando alguém lá vai a casa. Não me estou a lembrar de um efeito melhor do que este, embora alguns, de carácter mais implicante, possam considerar que não passa de um cliché. Eu acho que está óptimo, talvez apenas ultrapassado pelas Birthday Letters do Ted Hughes, que eu acho que é um livro com muita classe, acho, pronto. Metro, mesa de café, autocarro, vai bem em todo o lado e adapta-se a qualquer tipo de situação, devido à sua temática agridoce.

Para os rapazes, tenho mais dificuldade em falar em geral, porque apenas posso dizer o que me impressiona a mim. Normalmente, um Lorcazinho cai sempre bem, seja poesia, seja peça, seja ensaios sobre. Tudo o que meta Lorca, no caso dos homens, é usar e abusar, que é coisa de estilo, de leitor exigente. Ultimamente, a tendência concentra-se em Jorge de Sena, portanto não deve haver aqui medo de usar profusamente, e autores portugueses vão sempre bem. O Bukowski, o Kerouac, o Hunter S. Thompson, o ubíquo Philip Roth, para rapaz, sinceramente, é como o rissol e o croquete, começa a estar um bocadinho estafado, começa a cansar um bocadinho. Coisas novas, coisas frescas, é o que se quer - uma Carson McCullers; uma irmã Bronte (escolher uma de três); uma Daphne du Maurier; um Great Gatsby; um Trumanzinho Capote; eis aqui algumas tendências, que de velhas se fazem novas, que eu acho que os rapazes, para impressionar as indígenas, poderiam começar a prestar atenção.
Isto sou só eu a pensar. Quem tiver opções de bons livros para engate, é favor dizer, que esta temática apraz-me. Sem outro assunto, despeço-me atentamente.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Sinais de Fogo

Acabei de ler Sinais de Fogo, de Jorge de Sena, e tenho uma coisa a dizer - Jorge de Sena é O homem. Obrigada à minha querida S., que me ofereceu, pelo meu aniversário e num gesto de grande generosidade, a sua própria edição, numa altura em que, ainda por cima, Sinais de Fogo estava esgotado (que vergonha - agora já não está, sabias, S.? Queres que te ofereça pelos anos? Eh eh).
Bom. Como ultimamente a minha vida anda em período de, digamos que, entre a revolução e a modorra, que parece impossível mas é verdade, não tenho tido inspiração para escrever grande coisa, mas queria aqui dizer que Sinais de Fogo tem absolutamente de ser lido. Tem de.
E um livro assim, que chega até nós pela amizade e ainda por cima é glorioso, sabe mesmo bem. E quando o acabamos de ler à mesa do café, quando lá fora chovisca (ah, pois, que o calor de Portugal de que toda a gente se queixa não me tem chegado, e eu bem precisada dele estou), é mesmo perfeitinho.
O George Orwell escreveu sobre livros e cigarros. Eu gostaria de escrever sobre livros, cigarros e amigos, tudo à mesa dessa invenção indispensável que é "o café". Sim, porque, se formos a ver bem, o que é que eu tenho a menos que o George Orwell, não é? Nada, não é? Não precisam de responder, eu sei que todos concordam. [insert ironical emoticon]
Uma justificação mais profunda do poder de Sinais de Fogo vai ter de ficar para a próxima.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Cantar a gente surda e endurecida

Vejo semelhanças n'Os Maias e n'O Ano da Morte de Ricardo Reis. Quanto mais penso neles, mais semelhanças vejo. Até chego a pensar no Ano da Morte como Os Maias em prosa poética. O contraste está precisamente aqui, na poesia que é a prosa do Ano da Morte e na narrativa realista, propositadamente viva e absolutamente novelística, dos Maias.
Ambos são livros, histórias, sobre Portugal. Ambos têm como conclusão fundamental uma posição muito clara sobre a chamada "portugalidade". Ambos representam uma possível mudança nesta entidade estranha que é a "portugalidade"por via de duas personagens masculinas estrangeiradas, distintas da massa de Lisboa, iniciadoras da história - Ricardo Reis, recém chegado do Brasil, Carlos da Maia, recém-chegado das suas muitas viagens por países civilizados e cosmopolitas. Por ambas as obras perpassa um cinismo quase existencial. A diferença é que, no Ano da Morte, o cinismo está em Ricardo Reis, a personagem, e nos Maias o cinismo provém do narrador, interveniente nos comentários impiedosos, duros, entristecidos, que lança sobre os enredos e as personagens. Chega-se a ter pena das personagens e quase do pobre país, levado ao extremo do ridículo naquele delirante, medíocre, cruelmente engraçado sarau da Trindade. N'Os Maias, o narrador nunca cede, ou por outra, cede apenas no final - sei que o final dos Maias é visto com grande pessimismo, o país perdido, e a sua única esperança, o superior Carlos da Maia, reduzido ao dandy rico e inútil, mas eu penso que há, no término desta obra, um folgo vivaz de esperança, de algo melhor que ainda pode acontecer. "Ainda o apanhamos, ainda o apanhamos" - João da Ega e Carlos ainda poderão fazer alguma coisa pela sombria estátua de Camões, outra esperança perdida que eles talvez possam resgatar da apagada e vil tristeza.
O final do Ano da Morte é, quanto a mim, parecidíssimo, com a importante diferença, porém, de não deixar grande espaço para o optimismo. Ricardo Reis falha do princípio ao fim, deixando tudo perdido na inconsequência. Versos, poesias, o amor de uma boa mulher, como Adrian Mole definia a sua Pandora (referência despropositada, esta, mas lembrei-me dela), possíveis contestações políticas anti-fascistas, anti-pidescas, tudo cai em derrocada.
No fundo, talvez Os Maias o O Ano da Morte me pareçam semelhantes porque há neles uma relação íntima com Portugal que se estabelece através de personagens que parecem tão vencedoras e que, em última instância, perdem. E, como padroeiro de toda esta reflexão literária e quase interventiva sobre o país, como grande impulsionador do pensamento sobre o mal-estar português, estarão muitas pessoas de que eu não faço ideia, mas está com toda a certeza Camões e a desilusão que cristaliza nos Lusíadas e nos seus lamentos profundos sobre o desconcerto do mundo. Ouvi uma vez alguém dizer que Camões representava o lado solar da literatura portuguesa, ao passo que Pessoa materializava o lado lunar. Não concordo nada (humildemente, acrescento, que fica sempre bem). O lado negro, pessimista, de Camões, e que é inultrapassável e sublime, é fundador deste tal mal-estar, que depois resulta nos Maias, resulta no Ano da Morte, resulta no pensamento de Eduardo Lourenço e o irrealismo prodigioso com que nos define, resulta até em Sinais de Fogo, esta glória do romance português, de Jorge de Sena, que estou agora a ler, e que teria de bom grado introduzido neste post se já o tivesse terminado.
Bom. Quer dizer, isto é só a minha opinião.

terça-feira, 27 de julho de 2010

Má memória


Estive a ver se encontrava, na Crónica Geral de Espanha, a narrativa da Batalha do Salado, em que o herói é o mestre da Ordem dos Hospitalários, que por acaso calha ser também D. Álvaro Pereira, o pai do Santo Condestável. Giro.

Neste episódio, em que está tudo ocupado a lutar contra os mouros, D. Álvaro está à procura de qualquer coisa de que eu agora não me lembro mas que é essencial para ganhar a batalha, e dizem-lhe algo que eu agora também não me lembro, mas que resulta no Mestre não conseguir encontrar o que procurava, que, como disse, não me lembro o que era. O que me lembro é que há uma frase magnífica em que se descreve o pesar de D. Álvaro pela aparente derrota, e que reza mais ou menos assim: "...e D. Álvaro foi d'esta muy coitado".

Tão lindo. Tão lindo, tão lindo.

Outra coisa de que me lembro é de ter gostado muito de todos os excertos da Crónica Geral de Espanha e dos Livros de Linhagens de D. Pedro que li. Não foram muitos, mas chegaram para compreender que a prosa narrativa medieval é encantadora, porque é ali que nasce tudo.

Este excerto do D. Álvaro muy coitado foi sublinhado por mim e tudo. E agora não o encontro de forma nenhuma. Deve estar enterrado algures, nas resmas e resmas infindáveis de papéis que por aqui pululam. É exasperante.

E deste me vou mui coitada. A Crónica está disponível online, edição crítica de Lindley Cintra, o Grande, de modo que se alguém souber novas do tal excertozinho, alvíssaras, ai Deus e u é.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Escritas


Quando escrevi este post, não tinha encontrado muitos exemplos de mulheres detentoras de uma escrita masculina. Agora, acho que já encontrei:

I'm member and preacher to that church where the blind don't see and the lame don't walk and what's dead stays that way.

Não sei definir o que é uma escrita masculina ou feminina, como disse antes, nem quero dizer que uma escrita dita "masculina" é superior à feminina (as irmãs Bronte, por exemplo, que eu adoro e admiro desde sempre, têm uma escrita feminina, quanto a mim; até o Monte dos Vendavais, tão violento e intenso e tal e coisa, me parece muito feminino). E, no entanto, Flannery O'Connor, neste Wise Blood, tem uma dureza, uma circunspecção, uma sobriedade que, não soubesse eu ser este um livro escrito por uma mulher, diria vindo do Cormac McCarthy ou assim. Hazel Motes, personagem principal, é de uma brutalidade e antipatia tais que fazem lembrar aquele sociopata do Haverá Sangue.
É assim tudo a mesma coisa, tudo do sul.

quarta-feira, 7 de julho de 2010


Mas, neste edifício, há, em compensação, muitas pessoas inteligentes, que lêem livros e falam de coisas super-científicas quando vão tomar café. Não sei é dizer se jogam Sims3 ou não, porque muitas deles têm computadores e podem muito bem jogar às escondidas.
Agora a sério - a Biblioteca Britânica tem um painel bem visível à porta, lindíssimo, que diz: "Come in. Knowledge freely available".
É mesmo de graça. Com ou sem Sims3.

Cotovia voa voa


Comemoram-se os 50 anos de To Kill a Mockingbird (nota para dizer que a tradução do título em português, Não Matem a Cotovia, não faz justiça à grandeza do livro; o título português parece uma coisa Paulo Coelho - hippie - ecologista chato. Há que pensar noutras opções).
Harper Lee, que escreveu o livro, ainda vive, é uma reclusa e não fala com ninguém, apenas ocasionalmente permitindo que os seus amigos e familiares dêem entrevistas por ela. O seu grande amigo de infância, Truman Capote, gostou sempre de espalhafato até morrer, mas não escapou a um certo anti-climax à hora da morte. Talvez Lee queira evitar esse sentimento de perda e, antecipando-o, refugia-se do mundo, evitando que este a deite fora no fim, qual Greta Garbo.
Sempre me interroguei porque é que Harper Lee nunca voltou a escrever um romance, considerando que o único que produziu é tão bom. E talvez a razão se encontre aqui, na qualidade imensa do primeiro romance.
Talvez haja um limite, um racionamento, da inspiração. Talvez certas pessoas sejam brilhantes, mas apenas consigam usar o seu brilhantismo uma vez na vida. Escrevem aquilo e pronto. Harper Lee escreveu a cotovia. Orson Wells fez o Citizen Kane. Emily Bronte escreveu Wuthering Heights.
Outras pessoas há que conseguem racionar com mais equilíbrio o seu talento. Picasso não pintou só a Guernica; Saramago não escreveu só o Memorial; Truman Capote não escreveu só o In Cold Blood; Beethoven não compôs apenas a 9ª Sinfonia, e por aí fora.
Porém, o que parece certo é que há sempre um momento maior, uma chama mais intensa, que depois se apaga necessariamente. Há pessoas que escrevem melhor quando começam, e para o fim da vida já não se aturam. Há outras que estão apenas a praticar com os primeiros livros, e os últimos que publicam são verdadeiramente os monumentos. Seja qual for o caso, o momento de glória parece ser escasso, reduzido, único.
Não faço ideia porque é que Harper Lee não fala com ninguém, não publica romances, prefere que se esqueçam dela. Talvez saiba que nunca conseguirá escrever outra cotovia. Talvez prefira não escrever. Talvez tenha escrito mas não queira publicar. Talvez tenha medo do olhar crítico daqueles que esperam dela um outro rasgo de brilhantismo.
As pessoas brilhantes têm, de facto, um caminho duro a percorrer. Têm a responsabilidade de cumprir sempre com as exigências do seu brilhantismo, e o que fazer naqueles dias em que a cabeça só dá para pizza e cerveja? O mundo à espera, necessitado, de um monumento, do romance, filme, quadro fundamental, ou da revolução do século XXII, e a pessoa capaz de fazer tudo acontecer está ali, a beber cerveja e a comer pizza.
Talvez Harper Lee tenha decidido que a sua contribuição para o mundo estava feita, concretizada e acabada com um único romance. Humildemente, a minha opinião é que deveria ter continuado a publicar romances, mesmo que tudo o que escrevesse não passasse de algodão doce que enjoa e dá dores de estômago.
Mas talvez seja um peso demasiadamente grande, aquele que Harper Lee escolheu não carregar. E, considerando o livro que nos deixou, a gente perdoa.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

A merda acontece


Ao que parece, o escritor Martin Amis recusa-se a aceitar, e consegue até bloquear, uma sua biografia escrita por um professor da Universidade de Ulster, Richard Bradford. Amis não gosta de certos aspectos e eventos mencionados, não concorda com o retrato que é pintado, é amigo de quem se diz que é inimigo, inimigo de quem se diz que é amigo, e quer manter a ex-mulher bem resguardada de atenções bisbilhoteiras.
A vida retratada é, de facto, de Martin Amis. Parece natural e legítimo que tenha uma palavra a dizer. Mas, como igualmente se compreende, a palavra que Amis tem a dizer não é apenas uma palavra ou um esclarecimento de factos - é, verdadeiramente, uma errata. O que ele quer, como qualquer ser humano, é, muito naturalmente, fazer uma errata à sua vida - elimina o que ficou mal escrito, apura o que está bem escrito.
Eu adorava, também, poder fazer tal coisa. Já escrevi antes que me dava um jeitão fazer uma errata à vida - onde fui burra, deve ler-se "fui extremamente inteligente"; onde fiz figura de parva e sofri rejeições, embaraços, parvoíceis, desentendidos, equívocos e quejandos, deve ler-se "fui presciente, consciente, ciente, inteligente". E assim por diante. Se, para além disto, eu pudesse publicar esta errata, sabendo que os olhos do mundo pousavam, interessados, em mim, tanto melhor. Qual seria a diferença entre aquilo que realmente sou e aquilo que o mundo acredita que eu sou? Além de mim, não haveria ninguém que pudesse contradizer a errata e afiançar a verdade - a verdade, era eu que a construía. E o meu novo Eu, corrigido e emendado, permaneceria irrepreensível, à imagem e semelhança da perfeição que eu quisesse.
Ou seja - com uma errata, seria a minha hagiografia, e não a minha biografia, que eu poderia construir, e fá-lo-ia com todo o prazer. Martin Amis está na posição de o conseguir.
Mas, como Bardford aponta e bem, uma biografia não é uma hagiografia. Como se diz em estrangeiro, a merda acontece e faz parte da vida. É uma chatice, mas também uma evidência a que ninguém escapa - a vida, no fundo, é como um cadastro que nunca se apaga. A gente faz uma parvoíce qualquer e aquilo fica lá sempre, no passado, a pulsar, a lembrar-nos daquela vez em que fomos tão imperdoavelmente parvos, e agora o precedente está criado e não há perdão.
Kierkegaard sabia disto muito bem e Martin Amis devia lê-lo.
É o meu conselho para ti, ó Martin.

sábado, 3 de julho de 2010

Normal

Conheço uma pessoa que tem muito jeito para descrever gente normal, como se constata pelo seguinte excerto:

...e, finalmente, aquela categoria de pessoas que é possível caracterizar com uma só palavra: cinzentas. São pessoas que, por força da roupa, da cara, do cabelo e dos olhos, têm uma aparência turva, cinzenta, como um dia em que não há tempestade no céu mas também não há sol, nem isto nem aquilo: paira uma neblina que tira toda a nitidez aos objectos. (...) Tais pessoas são completamente impassíveis, caminham sem olharem para nada, calam-se sem pensarem em nada.

É a mesma pessoa que, no seu Almas Mortas, descreveu certa personagem como "daquelas pessoas que não é carne nem peixe", o que está bem visto.
A normalidade parece muito simples, sem nada que se lhe diga, mas na verdade não é. Carne é carne; peixe é peixe; ambos são possíveis de definir. O que é não ser carne nem peixe, nem um nem outro? Não se consegue explicar.
Toda a gente pensa que não é normal porque toda a gente quer ser especial. Mas, na verdade, toda a gente é normal. A normalidade também tem destas coisas - quanto mais lhe queremos fugir, mais normal nos tornamos, porque é normal querer ser especial e não conseguir.
Gosto de ler sobre a normalidade. Aprecio muitíssimo quem a identifica e cristaliza exemplarmente. Não é fácil. O extra-ordinário chama mais a atenção do que o ordinário. É mais fácil escrever sobre ele.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Umberto Eco vs Dan Brown

Não sei porque não se refere mais vezes que o Código Da Vinci copia descaradamente o Pêndulo de Foucault de Umberto Eco. Basta comparar as cenas iniciais destes dois livros - iguais. O resto, enfim, não é igual-igual porque o Pêndulo é uma coisa mais esforçada, mais bem argumentada, com mais referências. Enfim, é um Código da Vinci mais inteligente e labiríntico, uma coisa assim com mais nível.
O Código da Vinci, por seu lado, é o Pêndulo de Foucault versão Praça de Espanha. Mas não deixa de ser largamente inspirado (arriscaria quase plágio, mas enfim) do Pêndulo.
Acho sinceramente estranho que, dado o mediatismo do livro de Dan Brown, não se tenha falado mais disto.
Lembrei-me disto ao almoço. Eu e a minha amiga L. estávamos a falar sobre isto. Nós achámos interessante.
É assim.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Monogamia

Tenho dormido muito com os contos de S. Petersburgo, que é como quem diz, tenho dormido muito com Gogol.
Mas a magia não está a acontecer.
Vou ter de ir seduzir os Maias outra vez. Ora que cousa.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Dormindo com livros


Gosto de livros velhos que cheiram mal.
Os livros novos, para mim, só servem para eu adormecer com eles e acordar com páginas dobradas e vincos na capa, para os pôr e tirar da mala até de lá saírem sovados, gastos, abertos muitas vezes.
Gosto muito de dormir com livros. O livro com que eu dormi mais vezes foi Os Maias. Ontem até deu um programa sobre este livro e tudo, e estava ansiosa por ver, mas infelizmente o cansaço foi mais forte e adormeci. Quando acordei, era de madrugada. Os Maias já se tinham ido embora e não deu para dormir com eles.
Mas como, por alturas do Verão, gosto sempre de reler este livro, porque acho que as férias correm melhor repletas de novas perspectiva e ideias sobre Carlos e Maria Eduarda, ainda devo ter tempo para dormir com Os Maias. O Verão todinho.
É tão bom dormir com livros, usar e abusar deles, até ficarem todos sovados, dobrados, cansados, gastos. É para isso que eles servem.