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sexta-feira, 27 de setembro de 2013

'Death Comes to Pemberley', de PD James - um pequeno apontamento.

Bom. Já escrevi que gosto muito de PD James e dos seus livros entusiasmantes, e que aprecio a forma como ela respeita as suas personagens, aprofundado-lhes a psicologia, coisa que nem sempre acontece nos romances policiais. A PD decidiu, em 2011, escrever uma sequela a Pride and Prejudice, de Jane Austen, já que é grande admiradora desta escritora, e até aqui tudo bem. A premissa é, então, a de que acontece um grande e horrível crime em Pemberley, o casarão de Mr Darcy e Elizabeth, já depois destes se terem casado e viverem em felicidade matrimonial.
Antes de ler o livro, o receio que tinha era que este 'Death Comes to Pemberley' resultasse num esforço de imitação algo desajeitado. Depois de ler o livro, posso confirmar que resulta num esforço de imitação algo desajeitado. Nada a apontar ao enredo - a PD tece uma trama excelente, um crime enredado, e a gente entretém-se a ler. O estilo de escrita é que é difícil de digerir - um inglês propositadamente formal, de vocabulário propositadamente antiquado, formas de tratamento propositadamente rebuscadas (a palavra-chave, aqui, é "propositadamente", só para que fique claro; é que, quando a escrita nos parece propositada, estamos perante um mero exercício de estilo sem grande criatividade, que é o que se passa com este livro). A PD quer, como se compreende, tentar escrever como a Jane Austen para dar um tom realista ao livro, já que não faz sentido que o Mr Darcy e a Lizzie falem com um casalinho que vai ao centro comercial comprar um plasma. No entanto, o problema é que a PD não é a Jane Austen, e isso, tristemente, nota-se. De modo que toda a escrita é um esforço demasiado, quase absurdo, e é pena, porque acaba por estragar o resto.
A mimesis, dizia Aristóteles, é mais do que imitação, é representação (e, logo, criatividade também). Mas eu acho que a PD, com este livro, esqueceu-se ligeiramente deste conceito e ficou-se apenas pela imitação que, como todos sabemos, não aproveita a ninguém. Mas hei-de continuar a ler tudo o que escreve, e nota apenas para dizer que tenho curiosidade em saber como ficou a tradução portuguesa, nomeadamente se mantém este ar forçado, encafuado, do original - se alguém tiver lido, comentariozinho, assim o ajude engenho e arte. Obrigada e até a uma próxima. 

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Pela milionésima vez, Rebecca (spoilers)

Eh pá, estou tão farta de ouvir dizer (ler, para ser mais precisa) que a Mrs Danvers estava apaixonada pela Rebecca, e que a sua devoção por esta última era um grande subtexto para demonstrar uma relação lésbica e etc. e tal.
Ao ler o livro, conseguimos perceber que Rebecca era um espírito muito livre, muito dado à rambóia, e que provavelmente não lhe interessaria distinguir entre homens e mulheres, desde que se divertisse com um ou com outro. Fala-se imenso da possível bissexualidade de Rebecca, e penso que o livro o dá de facto a entender.
Mas o caso de Mrs Danvers é inteiramente outro. A sua história com Rebecca é uma história de amor profundo, sim, mas o que me parece óbvio é que é de amor maternal que se trata. Quando Rebecca morre, Mrs Danvers perde a sua única filha, a única pessoa que ela amava mais do que tudo, por quem daria a vida, a pessoa que justificava a sua própria existência. O ódio, a amargura de Mrs Danvers, aquilo que a encerra numa morte em vida vem do facto de ter perdido aquela a quem queria como uma verdadeira filha. 
Não admira que ela passe o livro todo em esquemas odiosos, a tentar tramar a pateta da segunda Mrs de Winter (ai, meu Deus, tenho sempre uma vontade tão grande de lhe pregar um tabefe para ver se lhe dá a espertina!). Mrs Danvers tem de recuperar, sozinha, da morte da filha e ainda tem de aturar uma tonta que casa com o marido da filha, que vem ocupar o lugar da filha, e que ainda por cima é uma mosca morta que não sabe o que há de fazer à vida (e está viva, ao passo que Rebecca está morta).
Isto tornou-se claro para mim ao ler aquela cena, tremenda, em que a segunda Mrs de Winter encontra Mrs Danvers no antigo quarto de Rebecca (preservado como no dia da sua morte) e ela, Mrs Danvers, depois de destilar toda a sua fel, começa a chorar, de boca aberta, sem lágrimas. Este "choro seco", como é descrito no livro, pareceu-me condensar um sofrimento horrível, insuperável, de quem perdeu uma parte de si, um filho. Horrível.
É só isto.

Livros electrónicos não são para mim

Eu pensei que me habituaria a livros electrónicos, mas a verdade é que não penso que isso vá acontecer. Não me dá jeito nenhum ler um livro num écrã, por mais avançado e confortável ao olhar que este seja. Não me dá jeito marcar páginas num écrã, não o sei fazer; não me dá jeito não virar páginas de papel; não me dá jeito ir ao índice e depois voltar à página onde estava; normalmente não sublinho livros, mas se o fizesse o écrã tecnológico também não me daria jeito. Enfim, nada num livro electrónico me dá jeito, a não ser a importante razão, que não desvalorizo, de ser mais amigo do ambiente. Foi este, aliás, o principal motivo que me levou a tentar optar pelo kindle, sem grande sucesso.
No entanto, tenho esperança que os livros se continuem a imprimir em papel reciclado para eu poder continuar a lê-los. Preciso de um livro feito de papel, que eu possa dobrar, pôr na mala, deixá-lo escorregar na almofada enquanto adormeço (adoro dormir com livros), uma coisa que tenha peso. Mais importante do que isto, porém, são as memórias que um livro nos deixa. 
Um livro electrónico é um ficheiro num écrã. A única substância que tem é virtual. Se sempre tivessem existido livros virtuais, eu não teria a afeição que tenho pelo meu querido livro Rebecca - lembro-me de, certo  dia, há décadas e décadas, ter contemplado a estante da minha avó, repleta de livros antigos, poeirentos, comos os livros devem ser. Li as lombadas uma a uma, e estaquei nas pequenas letras petras contra um fundo branco, manchado pelo tempo, e que formavam um nome, um nome que eu por acaso adorava, já que sempre gostei da pirosice: Rebecca. Pensei logo que um livro com este título tinha de ser magnífico. E era. 
Se Rebecca apenas existisse em formato electrónico, talvez eu nunca o tivesse encontrado. E, meu Deus, não concebo sequer ler Os Maias pela primeira vez num kindle ou coisa que o valha.  A minha cópia dos Maias anda comigo para todo o lado e gosto de reconhecer todos os riscos, dobras, rugas da capa e das páginas. Como é que isso se faz num livro electrónico, que é sempre igual, todos os dias? Os livros em papel mudam, o papel rasga-se, ou há uma criança que faz um desenho, ou a capa dobra-se e fica meio estragada, mas a beleza deles é mesmo essa, essa imperfeição. 
E depois dizem-me, "ah, mas no kindle podes levar centenas de livros para ler nas férias!", mas o que é que isso me interessa, se eu não consigo ler centenas de livros nas férias, infelizmente? 
E é isto. Sou conservadora, sim, e para bem do ambiente deveria mudar. Talvez isso aconteça, um dia. 

quarta-feira, 17 de julho de 2013

A crítica fácil

No Expresso desta semana, a revista Actual tem o Dan Brown na capa, o que se percebe, porque diz que tem novo livro à venda. Pensei que fosse uma entrevista com o homem, o que seria de esperar num suplemento de um jornal, mas não, o que há é um longo texto da Clara Ferreira Alves a descascar em Dan Brown, com os mesmos argumentos previsíveis de sempre e com uma pretensão que me parece não ficar muito longe daquela que imputa ao mesmo Dan Brown.
Esta crítica ao homem, sinceramente, já cansa. Aquilo que a Clara Ferreira Alves diz do novo livro de Brown aplica-se sem tirar nem pôr ao Código Da Vinci e, aposto, a todos os outros livros que Dan Brown publicou ou publicará. Mais, tudo o que ela diz (e que são críticas absolutamente pertinentes, disto não há que duvidar) já se disse antes a propósito do Código. Para quê repetir os mesmos argumentos estafados? O Expresso não encontra mais nada com que encher três páginas? Ponham a senhora a falar de outra coisa, ela ao menos tem opinião sobre tudo e ainda bem.
Apesar de me ter divertido com o Código Da Vinci, que li e que não me arrependo de ter lido, reconheço que é um livro trapalhão e que não está assim muito bem escrito. Concordo com CFA quando diz que o que Dan Brown escreve não é literatura. E então? Paulo Coelho também não é, e as pessoas gostam. Aquela do 50 Sombras também não deve ser, e as pessoas gostam. Vem assim tão grande mal ao mundo? Os grandes clássicos, os bons escritores, continuam e continuarão sempre a ser lidos. Inevitavelmente, estes últimos ficarão para a história e ganharão massas de leitores através dos tempos, ao passo que os "escritores" estilo Dan Brown ganham massas de leitores num momento histórico específico, e passado umas décadas ninguém se lembra deles. Sempre foi assim, sempre assim será. Não vejo onde está o problema, as pessoas que leiam o que quiserem, o que quer que seja que as torne feliz.
Este texto poderia muito bem ser uma defesa de Dan Brown, mas não é. Nunca na vida o defenderei, e não é por ser mau escritor ou por não escrever literatura, porque com isso posso eu bem. Como disse, até achei o Código Da Vinci bastante divertido. Não defendo Dan Brown, e espero que arda no Inferno sobre o qual gosta aparentemente de escrever, porque é um mentiroso. Isto, sim, é verdadeiramente imperdoável, especialmente considerando que se trata de alguém lido por milhares de pessoas. Sem aquele fim desastroso, escrito por quem efectivamente não sabe escrever, o Código Da Vinci até se aguentava; na verdade, conseguiria suportá-lo mesmo com o tal término incompetente da história. O que não suporto, porém, é ler um livro que goza com a minha cara e insulta a minha inteligência, que é o que Dan Brown faz a todos os leitores ao declarar, numa espécie de epígrafe, que a existência do Priorado do Sião é um "facto" e que Leonardo Da Vinci fez parte dessa tal organização. Não foi Dan Brown que inventou este Priorado fictício, mas toda a gente sabe que não passa disso mesmo, de ficção, de invenção - minto, não é ficção, é uma mentira, e Dan Brown, quando escreveu o seu livro na esperança absolutamente fundada de ganhar milhões, sabia disso muito bem e escolheu mentir e enganar, a troco de lucro que não merece (mereceria os seus milhões se o seu livro fosse um best-seller honesto, mas não é). 
É a mentira de Dan Brown, a sua profunda desonestidade intelectual da qual ele não parece envergonhar-se minimamente, que o torna tão mau. Clara Ferreira Alves aflora isto, ao acusá-lo (quanto a mim de forma mais rebuscada do que seria desejável) de não investigar as coisas como deve ser, de ir pelo caminho mais fácil (Wikipedia e toca a andar). Mas todo o seu esforço de retórica mereceria ir ao cerne da questão e chamar as coisas pelos nomes - Dan Brown é mentiroso. 
Não é preciso dizer mais.

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Poderzinho

A par da Clarice Lispector, de quem acabei de falar, estou também a reler a Rebecca, obra retumbante, super telenovelística, muitíssimo bem escrita, e adorável de ler. 
Eu gosto de reler livros. Muitas vezes desiludo-me na releitura, mas não faz mal. Também se aprende com a desilusão (relativamente a livros, quero eu dizer). Bom. Quando comecei a reler Rebecca, pensei, "bem, lá tenho eu que gramar com a parte inicial em que eles se conhecem em Monte Carlo, antes de irem viver para Manderley. E se eu saltasse logo para a parte de Manderley?". Mas não o fiz, por respeito ao livro (ou é para ler ou não é, e se é lê-se do princípio ao fim), e ainda bem, porque descubro agora, nessa parte inicial em que a "2nd Mrs de Winter" ainda não casou com o futuro marido, observações bem interessantes e acutilantes relativamente ao estatuto de uma certa classe de serviçal, que era o caso da personagem principal. Relata-se, de forma relativamente fria, como a dama de companhia da insuportável Mrs Van Hopper (a tal "2nd Mrs de Winter, a protagonista de quem nunca sabemos o nome próprio) era sujeita ao tratamento de indiferença, ou quase desprezo, por parte dos seus pares - o empregado de mesa que lhe servia o pior pedaço de carne, já rejeitado por alguém, a criada de quarto que nunca respondia às suas chamadas e recusava tratar-lhe da roupa ou dos sapatos, tarefas normalmente incluídas na sua rotina laboral, a modista que a quer gratificar com 100 francos porque a patroa lhe tinha encomendado vestidos. Quando a oferta é recusada, a modista encolhe os ombros e com maus modos diz que, se quiser, lhe paga em vestidos novos. E a pobre Mrs de Winter, sem perceber bem em que mundo está, é permanentemente vítima da fome de poder dos outros, principalmente daqueles que não têm poder nenhum.
É engraçado, ou por outra, tristemente engraçado, que isto aconteça. "Não sirvas a quem serviu", diz o ditado, porque normalmente quem serviu, em vez de sentir a solidariedade que seria normal para quem está em situação pior, regozija-se num exercício de poder um bocadinho insano. O poderzinho é o pior. Por acaso, a personagem que eu achei mais interessante no Django Libertado, que vi há muito pouco tempo, foi a de Stevens, o escravo negro que passou tantos anos em contacto com a tirania dos patrões brancos que se comporta de forma ainda mais cruel do que eles, contra os seus próprios pares, ainda por cima. 
O poderzinho. Aquele que toda a gente já teve de contornar, de uma forma ou de outra, nas Finanças, no trabalho e em sítios parecidos. É perigoso e, para uma coisa tão pequena, tão insignificante, estranhamente destrutivo. 

Não haver deuses

Estou a ler "Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres", de Clarice Lispector. Adoro o nome - Clarice Lispector. Acho que foi este nome enrolado e elegante que me fez ter vontade de a ler. Estou a gostar relativamente. É indubitavelmente um livro bem escrito, e elegante como o nome da autora. O estilo sentencioso não ofende, e de alguma forma faz lembrar a Agustina (a mim, faz, pelo menos), porque a meio do texto deparamo-nos com uma daquelas verdades bem urdidas, bem explanadas, bem escritas, para não conseguirmos duvidar delas. Boa técnica, sim senhora.
Mas não é exactamente sobre o estilo (que o tem) de Clarice Lispector que quero falar. Ontem à noite, foi esta frase que me deteve: 'De Ulisses ela aprendera a coragem de ter fé - muita coragem, fé em quê? Na própria fé, que a fé pode ser um grande susto, pode significar cair no abismo'.
Esta questão da "coragem de ter fé" deu-me (dá-me) muito em que pensar. De facto, parece-me que é preciso coragem para ter fé. Eu nunca tive grande fé em nada, continuo a não ter, e sempre atribuí isto a um certo temperamento (certas pessoas não são propensas à vontade de acreditar, não têm essa vontade) e, por outro lado, a uma certa cobardiazeca. Custa ter fé, porque é preciso dedicação, confiança ilimitada naquilo em que se tem fé, vontade de abandonar o racional e conseguir abraçar esse mundo de escuridão irracional de onde vem a fé. E lembro-me das eternas explicações que me davam em criança - ter fé é acreditar e pronto. É sentir que é assim.
Eu nunca fui capaz de sentir que nada é assim ou assado, e nunca fiz disto uma questão de dúvida metódica, um exercício intelectual, ou uma demanda de uma racionalidade na fé. Simplesmente sou incapaz de ter fé, porque essa vontade de acreditar é sempre combatida e deitada abaixo por um pessimismo crónico, que duvida de tudo, que evita a desilusão. Quem tem fé e depois descobre que está errado arrisca-se a desilusões fortíssimas, existenciais, cai no abismo, como diz a Clarice, e eu não quero, nem nunca quis, passar por isso, não tenho uma força espiritual deste tipo. De modo que rejeito instintivamente a fé de uma forma errada - não se deve rejeitar nada porque não queremos arriscar a perda e a desilusão. Daí eu perceber a Clarice quando fala na "coragem de ter fé". Eu não tenho essa coragem e, tristemente, penso que não a quero ter.
E porém. Há alturas em que não ter fé me consola, principalmente quando me confronto com aquilo em que os outros acreditam e em que eu não acredito, tipo Fátima ou isso. Não gostaria de acreditar no milagre de Fátima, da mesma forma que as pessoas que acreditam provavelmente gostam de o fazer. Neste caso, o não ter fé é para mim uma consolação, num mecanismo de facto muito semelhante ao das pessoas que têm efectivamente fé. Giro. O Fernando Pessoa não dizia que "não haver deuses é um deus também?". Pois é. Pois é, pois é.
Obrigada pela atençãozinha e boa continuação.

terça-feira, 4 de junho de 2013

Melhor Blogger Hipotético: the 2nd Mrs De Winter (spoilers)

April 1938

Today Mrs Danvers looked at me and told me I was ugly and got a whip and proceeded to whip me with it and it was positively and truly ghastly. I cried and cried. I shan't get out of bed ever again, I am so devastated. Chuif, chuif.
To make things worse, Maxim does not love me. He does not. He thinks of his superb dead wife all the time. Oh, why can't I be more like Rebecca? Chuif, chuif.

May 1938

Maxim doesn't love me. Chuif, chuif. Ooooooh. Has every living soul quite such a ghastly existence like mine? I am so ugly. Nobody loves me. Maxim does not love me. I am so young, I know nothing of the world. That is why today Mrs Danvers pull my knickers down and spanked me like the bad, bad girl I am. Chuif, chuif. She is so mean to me. And I deserve it. Chuif, chuif.
Why can't I be more like Rebecca? Chuif, chuif.

June 1938

I wish I were older. Older and wiser. And beautiful. A woman of the world, like Rebecca, who knew how to dress and eat and charmed everyone around her. If only I were older and wiser, Maxim would love me and come to my bedroom every night. But no, not my handsome husband. He just sits there looking upset. I know I am the one who makes him upset, all clumsy and ugly. He should kill me and feed me to the dogs! Chuif, chuif. 
Nobody loves me. Why can't I be more like Rebecca? She was so beautiful and intelligent and gorgeous and beautiful. I am not and Mrs Danvers hates me and she should hate me. Everybody should hate me. I hate myself. Chuif, chuif.

July 1938

Oh! Maxim does love me! He loves me so! I am so happy! I am beautiful and interesting after all!
As it turns out, the reason why he always looked so gloomy and positively tired was not because he was married to me, it was merely because he killed Rebecca in a fit of rage because he couldn't stand the sight of her anymore and because he thought she was pregnant with another man's child! I am so happy right now, I am not married to someone who doesn't love me, I am merely married to a cold-hearted murderer who shot his pregnant wife! Oh, bliss!!!!

July 1938

Well, she wasn't pregnant in the end, so it's not that bad. In fact, it's not bad at all. I love him so!

August 1938

Today I told Mrs Danvers to get the F***** OUT OF MY SIGHT! TO P**** WELL OFF! And she did! Ah, ah, ah! She burnt the whole house down in the process, but who cares, right.
Aaaaaah, Maxim loves me. I feel pretty, oh so pretty. Rebecca can f'**** off. Need a bleedin' cigarrette now...


quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

A qualidade que resiste ainda e sempre ao invasor

Há um certo argumento quantitativo que me irrita bastante, mormente porque discordo absolutamente dele mas não tenho inteiramente a certeza de estar errado. Isto é muito desconcertante.
Por exemplo, quando passava aquela série, Friends, costumava dizer-se que "40 million viewers can't be wrong"; havia quem criticasse a série (eu, por acaso, achava bem gira), e que uns quantos pobretanas não podem viver em Nova Iorque com um estilo de vida tão bom, e que não era realista, e que além disso era tudo filmado em Los Angels, e etc. e tal, e respondia-se a isto com o tal argumento da quantidade - se há tanta gente que vê o programa, seguramente que haverá algo de qualidade no mesmo. Como se a quantidade acarretasse, por si só, a qualidade.
Recentemente, ouvi argumento semelhante relativo ao livro 50 Shades of Grey. Estava a falar disto com alguém, entretida nas diatribes do costume, "bem, eu nunca hei-de ler o livro, já se sabe que é uma grande merda, e a mulherzinha que o escreveu é uma bimba que nem ler sabe e etc. e tal", e respondem-me, "dizes isso, mas há milhares de pessoas que leram o livro e que gostaram. Essa bimba deve estar a fazer qualquer coisa bem".
Fiquei desconcertada com isto. É que fiquei mesmo. Por um lado, diz-me o coração que este argumento está profundamente errado - o Van Gogh, por exemplo, nunca vendeu nenhum quadro na vida, não apelava às massas, e se este tipo de lógica da quantidade lhe tivesse ocorrido, com certeza que em vez de uma orelha cortava logo as duas, mas era. Por outro lado, o mesmo Van Gogh, hoje em dia, goza da sua merecida glória, tornou-se um artista reconhecido pelas massas, e o mesmo se pode dizer de outros artistas soberbamente bons a quem o tempo, acompanhado pela quantidade, isto é, pelo número de pessoas que os reconhecem, fez justiça. E será verdade que, fosse o 50 Shades assim tão mau, haveria tal número de pessoas a lê-lo e a apreciá-lo?
Haveria, sim, Haveria porque aquilo a que a contemporaneidade presta atenção é, muitas vezes, lixo do qual ninguém se lembra daqui a dez ou vinte anos. O facto de toda a gente ler o livro da tal bimba não quer dizer nada (se percorrermos a lista de best-sellers e, até, de poetas laureados em Inglaterra ao longo do século XIX, por exemplo, verificaremos que hoje em dia ninguém se dá ao trabalho de ler metade). Se, porém, ainda houver muita gente a ler o livro daqui a cem anos, talvez isso signifique alguma coisa "no que concerne" à qualidade do mesmo livro. 
De modo que a conclusão que eu retiro de tudo isto é que esta história da petição absurda contra o abate do cão que matou um bebé não quer, felizmente, dizer grande coisa. Há idiotas em todo o lado que, como diz o Ricardo Araújo Pereira, gozam de liberdade de expressão para a gente os poder identificar e ficar a saber que são idiotas. A quantidade de gente que assina a petição não muda as leis gerais e abstractas que nos regem, nem muda o valor absoluto da vida humana. A qualidade resiste à quantidade. Por enquanto. 

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

A minha Fada Oriana, chuif, chuif

O livro que eu mais adorava quando era pequena era a Fada Oriana, da Sophia. Li-o até à exaustão, não sei quantas vezes, e lembro-me de, ainda antes de começar o primeiro parágrafo, no vulto esguio, impreciso, uma silhueta apenas, que aparecia na magnífica capa da Fada Oriana:


Este vulto fazia parte da história, era a antecipação da Fada Oriana, do Peixe, do Poeta, de toda a história que eu conhecia tão bem e de gostava tanto. Imaginava, e imagino, a Fada Oriana assim, uma figura feminina leve, com esta cor azulada, roxa, verde, esquiva como uma verdadeira fada deve ser. O resto, inventava eu.
Foi, portanto, com grande tristeza e consternação que este Natal, quando quis comprar a minha Fada Oriana para dar de presente, soube da notícia que as edições antigas estão a ser substituídas por outras feiosas, mas mais modernaças, mais espalhafatosas, que entopem a imaginação e explicam tudo bem explicadinho, não vá a gente não saber como é que as fadas são:


A minha desilusão foi tão grande que até a senhora da livraria sentiu a necessidade de demonstrar alguma simpatia por mim: "eu também gostava mais das edições antigas, mas eles acham que assim é mais apelativo..."
De modo que fui a outra livraria e adquiri todas as edições antigas que consegui encontrar dos livros para crianças que a Sophia escreveu. Consegui o Cavaleiro da Dinamarca, a Floresta e o Rapaz de Bronze, mas duvido que consiga a Menina do Mar e a minha Fada. 
É muito mau corromperem-nos as memórias de infância desta forma. A minha Fada Oriana, pá. Não se faz! 

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Ataque fácil

Não diferindo grandemente das pessoas que gostam de criticar livros que já se sabe que são maus, vou aproveitar e lançar a minha facadinha inconsequente não ao livro 50 Shades of Grey, que não li nem vou ler, mas antes à sua autora, EL James. O Guardian compilou uma lista de vários escritores que apresentam os seus livros preferidos de 2012 e, sem qualquer supresa, é evidente que a mesma EL James começa logo por se desculpar - It's been a whirlwind year for me so finding time to read has been difficult
 Muito mau. Muito mau, mesmo. Um "escritor" que diz que não teve tempo para ler, que começa a justificação das suas leituras com esta desculpa desleixadíssima? Mesmo que eu fosse uma pessoa melhor, que não sou, isto presta-se tanto ao enxovalho que não sou capaz de resistir ao dito enxovalho, e daí passar imediatamente para a afirmação seguinte, que é a que duvido muito que a EL James seja verdadeiramente uma escritora. Ora compare-se a sua horrível desculpa com o que diz a grande Sue Townsend: Have you ever seen Mr Magoo standing on the end of a girder, arms outstretched over the void? Well, I'm Mrs Magoo. I've not been able to read a book without a magnifier since I turned into her 10 years ago. But I didn't stop buying books...
A Sue Townsend tem tido problemas de saúde graves, e comoveu-me o amor que revela por livros e pela leitura, tão diferente da leviandade da outra James. 
Livros escritos por quem não gosta verdadeiramente de ler, por quem consegue viver sem ler, não podem ser bons, e este é um excelente argumento, se outros não existissem, para não perder tempo com o tal 50 Shades. E porém, tenho de ser absolutamente honesta e dizer que eu bem posso estar para aqui a criticar a EL James, que se presta a ataques fáceis, mas a verdade é que ela conseguiu publicar um livro que muita gente tem interesse em ler, e eu não; que ela pode confortavelmente viver da sua escrita, e eu não. De modo que ela ganhou, e eu não. Não muda em nada a crítica que lhe dirijo, mas enfim, certas coisas têm de se admitir.

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

O cinema não teme, o cinema não deve

Este artigo do Público, ao qual cheguei via facebook, é interessante porque fala daquilo "que o cinema deve à literatura". Não sei se concordo inteiramente com esta ideia de que o cinema deve algo ao que quer que seja, porque me parece minimizar o cinema como arte, mas a verdade é que se ouve sempre falar de grandes filmes baseados em grandes livros, sendo que o inverso raramente acontece; também é frequente o filme ser francamente pior do que o livro, o que nos pode fazer chegar à conclusão de que a literatura é a arte maior e o cinema uma arte irredutivelmente, inevitavelmente menor.
E porém, todos sabemos que não é assim, de modo que o que eu gostava de descobrir são os casos em que o filme é francamente melhor do que o livro, ou tão bom quanto o livro. Penso que já escrevi que, na minha opinião, Lolita  do Kubrick é tão bom como o original de Nabokov; apesar de nunca ter lido a Última Hora (25th Hour no original), de David Benioff, aposto, e aposto mesmo, que este livro será claramente inferior ao filme maravilhoso de Spike Lee com o mesmo nome. O conto que deu origem a Brokeback Mountain, apesar de ser muitíssimo diferente do filme,  é tão bom como o filme, mas não o ultrapassa (mais uma vez, apenas na minha opinião); nunca li o Padrinho, de Mario Puzo, mas estou igualmente disposta a apostar que ou é pior do que o filme ou tão bom como, mas não melhor; E Tudo o Vento Levou, que me dei ao trabalho de ler por gostar muito do filme, é bastante inferior ao magnificente e arrebatador pastelão melodramático e lindo que é o próprio filme. E o que dizer da dupla 120 Dias de Sodoma, Marquês de Sade/República de Saló, Pasolini? O que dizer? Alguém que responda a isto, por favor, já que eu não li o livro nem vi o filme, por falta de engenho, arte e estômago; no entanto, gostaria de poder opiniar sobre os mesmos (idem aspas para a saga Twilight; por acaso, tenho uma amiga que disseca os livros e os filmes e farta-se de protestar contra aquilo e acha que é tudo uma manobra nojenta e manipuladora dos Republicanos mais extremos lá dos States e etc. e tal, e ou ela tem razão ou leu a converseta toda nalgum lado, mas de qualquer forma, o que ela diz parece fazer sentido; eu vi o filme em que a Bella tem o bebé e meu Deus, se há visão mais castigadora da sexualidade adolescente e da emancipação feminina, não estou a ver, nem quero ver).
Continuando. Só me consigo lembrar destes exemplos. No fundo, apenas queria dizer que a arte, quando nasce, é para todos, e que o cinema é arte a par da literatura, sendo ambos, até, relativamente semelhantes. Assim, o que há a fazer é complementá-los, isto é, há que ler bons livros e ver bons filmes e exigir sempre bons filmes e bons livros para nos salvar a vida. Sem isso, a gente não vive. 

terça-feira, 27 de novembro de 2012

The Plot Against America, Philip Roth (SPOILERS!)

Breve nota (adoro esta expressão: "breve nota") para comentar o livro que recentemente acabei de ler, The Plot Against America, de Philip Roth. 
Foi o primeiro livro a sério de Roth que li. Há anos li "The Dying Animal" e não gostei muito. É daqueles livros que nos deixa um bocadinho indiferentes, nem bom nem mau, nem carne nem peixe, acho eu. No entanto, este Plot.. é bem giro, bem construído, e em geral bastante catita. Tem, contudo, uma falha grande que não consigo ultrapassar, que é aquele fim absolutamente desajeitado. Ora pensem comigo (outra expressão parva que adoro): Lindbergh é presidente, a América é varrida por uma grave onda anti-semita, a sombra ameaçadora da Alemanha nazi paira sobre a soberania dos Estados Unidos; de repente, Lindbergh tem um acidente de avião, desaparece, especulação para aqui e para ali para saber o que lhe aconteceu, a Primeira-Dama é raptada da Casa Branca e a presidência é ocupada por um facínora ainda pior que o Lindbergh, que permite que violentíssimos motins e rixas produzam uma noite em tudo semelhante à Noite de Cristal e que morram centenas de judeus, isto na terra da liberdade que deveriam ser os Estados Unidos; de repente, a Primeira-Dama, viúva de Lindbergh, escapa do colete de forças em que a haviam aprisionado, regressa à Casa Branca, diz que isto assim não pode ser, que se Lindbergh desapareceu tem de haver eleições outra vez, vai-se a eleições, felizmente ganha o Roosevelt e não o outro tal facínora, e depois de sofrimento e muita angústia e de anos a viver em efectiva ditadura, a vida volta mais ou menos ao normal, sendo que a lição a retirar é que a democracia facilmente se desmorona e se transforma em totalitarismo quando as pessoas não têm os olhos bem abertos e não defendem acerrimamente os seus direitos, liberdades e garantias. 
Esta é, sem dúvida, uma boa lição, mas o livrinho deixou-me assim um tanto ou quanto insatisfeita. Não sei, acho que falta ali uma personagem maior, mais desenvolta; por exemplo, a figura do pai Roth, que é uma figura tão interessante, fica sempre dependurada sem nunca obter o justo papel no romance que deveria ter, e o fim pareceu-me muito à pressa. As pessoas babam-se pelo Roth mas se calhar ele não é assim tão bom (digo eu, do alto da minha imensa e conhecida autoridade que qualquer dia me vai valer um Nobel ou coisa que o valha).
Mas atenção, o livro está muito giro e vale a pena ler.
Se alguém tiver lido o Plot... e tiver uma visão diferente da minha, ou igual, porreiríssimo, é usar caixa de comentários e assim "encertar" uma piquena discussão. 
Até breve.

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

A bola de cotão

Há muitos anos, passei um Verão a viajar por todo o lado, tendo o périplo começado num comboio que ia de Santa Apolónia a Hendaia, sendo que aqui, no meio dos Pirinéus, a gente saía (era o "transbordo") e apanhava outro comboio que atravessava a França inteira e desembocava em Paris. Espectacular.
Bom, eu tinha decidido que o melhor era poupar todos os trocos que conseguisse e reservar um lugar normal no comboio, passando a noite a dormir no banco e não naqueles vagões-cama com beliches. Assim como assim, as minhas insónias não se iam deixar abater por beliche alheio, de modo que o banquinho normal estava perfeito, ao pé da janela e tudo, a ver as vistas. Tive sorte com os companheiros de viagem, porque ao pé de mim sentaram-se uns rapazes giros que iam não sei para onde (tenho a vaga ideia de que iam de comboio até à Grécia, mas não me lembro) e um senhor muito querido e simpático, este sim, também com destino a Paris. E o senhor, como é normal, começou a conversar e a contar coisas da vida dele - que toda a vida tinha trabalhado em França mas que agora, já mais velhote, vivia em Portugal para estar perto da filha e dos netos. No entanto, de vez em quando, dava-lhe jeito trabalhar em França, e apanhava o comboio para Paris, suportando assim, ciclicamente, aqueles dois dias de viagem. 
Lembro-me de termos chegado a Paris e de nos termos despedido calorosamente e de ele me ter tratado por "Ritinha", dizendo qualquer coisa como "adeus, Ritinha, corra tudo bem, tenha uma boa viagem a partir daqui". E lembro-me de o ver a afastar-se, de boné na cabeça, e a carregar uma mala pesada, daquelas antigas sem rodinhas, daquelas que a Linda de Souza designaria por "mala de cartão".
E lembro-me de ter pensado que, se fosse escritora, pegava naquele senhor e escrevia um livro inteiro a partir do episódio em que o conheci. Nunca consegui. 
E hoje em dia penso que, se calhar, nunca consegui porque não há mais nada para dizer. A vida, se calhar, é mesmo só isto, estes pequenos episódios em que conhecemos pessoas e elas, por alguma razão, deixam uma memória. Mas não dá para fazer mais nada com essa memória. Começou e acabou, pronto.
Os Saramagos, os Hemingways deste mundo estão, no fundo, a escrever sobre eles, sobre a tralha que eles carregam e que de alguma forma tem de sair cá para fora. Não escrevem verdadeiramente sobre os outros. 
Eu não tenho tralha suficiente para escrever, e isso entristece-me. Ou por outra, tenho, toda a gente tem, mas a minha está lá para o fundo, recusa-se a sair e é como ver uma bola de cotão debaixo da cama, a gente querer lá ir com o aspirador, e o tubo ser curto de mais e ficar a bola de cotão debaixo da cama para sempre, a crescer, cada vez com mais cotão, sem nada nem ninguém que a consiga limpar. Os Saramagos e os Hemingways deste mundo são pessoas higiénicas, ao passo que eu não sou. E isso custa um bocadinho. 
O senhor era mesmo querido. Espero que tudo lhe tenha corrido bem. Sinceramente. 

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Brideshead Revisited e considerações inconclusivas

Com isto tudo e com a bandeira ao contrário, esqueci-me de dizer que já acabei de ler Brideshead Revisited, obra que recomendo. E porquê?
A princípio, e apesar de se tratar de um livro muitíssimo bem escrito, a historiazinha irritava-me um tanto ou quanto. A personagem de Sebastian como Rei-Sol, toda aquela atmosfera de deslumbre e fascínio pela aristocracia, parecia-me pouco interessante, de tal forma que comecei a pensar que, se era para ler um sonho húmido sobre a aristocracia inglesa, conseguia o mesmo efeito a ver o Downton Abbey ou coisa que o valha. E porém, convém que não nos deixemos enganar pelas erróneas primeiras impressões (as minhas primeiras impressões são quase sempre erróneas, mal informadas e desleixadas), e ainda bem que levei o mote a sério e persisti na leitura do livrinho, já que este se veio a revelar como o oposto (quase o oposto, vá) daquilo que eu pensava. 
Na verdade, quanto mais penso em Brideshead, mais o encaro como um relato bastante desiludido de um admirável mundo prometido que não encerra mais do que desilusões e mentiras. E esta conclusão baseia-se em coisas várias - o destino do pobre Sebastian que, de tão acre face à magnificência insuportável da família, prefere encafuar-se num mosteiro longínquo, desterrado, bêbedo, alvo de pena e caridade; Cordelia, tristonha, solitária; Julia, tomada de tanta religião e aristocracia que recusa uma história de amor que talvez lhe trouxesse alguma felicidade; o capitão Charles Ryder, o narrador que, por se ter metido com gente acima daquilo que a sua vã filosofia conseguia alcançar, termina, nas suas próprias palavras, sem filhos, sem casamento, sem amor, sem nada; o patriarca dos aristocratas Flyte, que percorre a Europa com a amante em constante fuga da esposa legítima, e que no fim da vida não consegue nada de melhor do que o perdão espiritual, um sinal da graça de Deus - em si mesmo, é algo poderosíssimo, claro, mas não deixa de representar igualmente o falhanço das opções que este homem tomou em vida, como marido, como pai, como ser humano.
E tudo acaba em apagada e vil tristeza, a sumptuosa Brideshead uma penosa memória da fortuna de outros tempos que acaba por não trazer nada de bom a ninguém.
Evelyn Waugh explica, no prefácio à obra, que o excesso com que às vezes se descreve a família Flyte, o palacete onde viviam, as festas, a riqueza, tinha a ver com nostalgia de um passado que ele receava ter-se perdido para sempre (diz logo a seguir que toda esta nobreza se levantou das cinzas e regressou aos palacetes, embora ele, na altura em que escreveu o livro, não pudesse prever tal ressurgimento). A graça é que essa nostalgia do passado (um passado aristocrático do qual quase ninguém no mundo, nem em Inglaterra, faz parte) continua bem presente hoje em dia, sabe-se lá porquê. O que mudou foi o "medium", já que agora as pessoas suspiram por épocas mais benevolentes e esteticamente aprazíveis quando vêem televisão, nomeadamente séries de época como a supra mencionada Downton Abbey. 
E esta nostalgia, este suspirar contente, é aquilo de que eu, não deixando de perceber, discordo. Sem dúvida que esta série está muito bem feita, mas não deixa de ser um apagar completo das contradições, dos conflitos de classe que sempre existiram e continuam a existir, especialmente se há criados e patrões  a viver na mesma casa. E chateia-me um bocadinho que esta visão falsamente benévola do mundo seja tão popular, um mundo já descrito por alguém como "upstairs, downstairs", em que todos sabem o seu lugar e satisfazem-se com isso; um mundo em que o dono do palacete é bonzinho e querido e justo para os seus empregados, fazendo com que nós, a audiência, pense que afinal este modo de vida, pouco distante do feudalismo, era tranquilo, aprazível, aceitável. Faz lembrar a morte de Vilaça n'Os Maias, em que as suas últimas palavras são "saudades ao patrão". Tristes últimas palavras. 
Talvez tudo isto seja inevitável. Como bem explica o "dilema dos Habsburgo", sobre o qual já escrevi não sei bem quando, temos sempre a tendência para relembrar certos momentos do passado  evocando apenas a sua beleza perdida, uma glória que talvez nunca tenha existido, o esplendor na relva. Quando esse passado nem sequer nos pertence, então o esplendor é ainda mais fácil de embelezar e, consequentemente, é também ainda mais fácil sentir saudades do que nunca tivemos. 
E penso que por hoje chega de filosofia de café, excepto para dizer que me ofereceram a edição especial do Brideshead em DVD, com o agradabilíssimo Jeremy Irons, e vou eu e descubro que aquilo é região 1 e só funciona nos States. E depois queixam-se dos downloads, da internet e tal. 

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Livros fáceis e difíceis

Meu Deus, dois meses e tal sem escrever. Ah, vida, erros meus, amor ardente. São estes os culpados, já dizia Camões.
Bom, passando ao que interessa. O Guardian tem uma lista daqueles que são considerados os livros mais difíceis de ler, com base nos critérios que a seguir se enunciam: "their length, or their syntax and style, or their structural and generic strangeness, or their odd experimental techniques, or their abstraction". 
De modo que, na mesma lista, figuram obras como A Fenomenologia do Espírito, de Hegel, e To the Lighthouse, da Virginia Woolf, entre outros. Curiosamente, o Ulysses não consta, embora Finnegan's Wake lá esteja. Nunca li nem um nem outro, mas não duvido que sejam dificílimos. 
E porém. Isto de um livro ser "fácil" ou "difícil" é uma coisa estranha e ambígua, especialmente se atentarmos apenas a critérios formais, como o são essas entidades amaldiçoadas tipo "sintaxe", "estilo", "técnicas". A abstracção também é traiçoeira. Um dos livros mais fáceis (e piores) que li, The Awakening, da Kate Chopin, tinha alguma abstracção. A cena final até é digna de ser descrita como condignamente abstracta. Pelo menos simbólica, vá. 
A minha ideia principal é que o livro normalmente apelidado de "fácil" é enganoso, porque na verdade não é fácil, é difícil. Ler Paulo Coelho é difícil porque é seca. Conclusão: os livros de Paulo Coelho são difíceis. Também li uma vez um livro da Rita Ferro e considero que foi dos mais difíceis que li, porque era tão chato que não consegui acabar. Resultado: os livros de Rita Ferro são difíceis. 
E venham agora dizer que os meus exemplos são tão lugares-comuns que até faz impressão, olha esta parva a dizer mal de Paulo Coelho e Rita Ferro e Nicholas Sparks, que exemplos tão estafados, só lhe falta incluir a Margarida Pinto Rebelo. Desta, não li os livros, mas li uma crónica(zeca) que andou por aí a circular sobre  as "gordas" e devo dizer que foi muito difícil de ler. Foi penoso, digamos. Mas dou outros exemplos - sobre um dos livros mencionados na lista, To the Lighthouse, posso comentar porque li, e poderei talvez dizer que é difícil, mas não necessariamente pela sintaxe, ou abstracção, ou experimentação técnica. Achei difícil porque não gostei muito, penso que foi mais isso. A nível técnico, não considero que haja algum leitor que leia este livro e seja incapaz de perceber pelo menos alguma coisinha do que lá se passa - não desmerece em nada a obra, até a engrandece, penso; a conclusão a que quero chegar é que um livro não é fácil ou difícil pelos seus aspectos formais, tirando algumas excepções como o Som e a Fúria - um livro que dá vontade de ler mas que, pelo menos até chegarmos mais ou menos a metade, cria resistência por ser difícil. O mesmo se poderá dizer de Waste Land, propositadamente escrito para ser "difícil", e de certa forma é - mas acaba por não ser, se insistirmos e conseguirmos decifrar o código.
E de livros fáceis e propósito de códigos, o que podemos dizer? O Código Da Vinci não me custou a ler. Até li bastante bem e achei divertido (exceptuando o final, que é muito preguiçoso e estúpido). O homem (Dan Brown) pode ser um mentiroso ganancioso, mas o livro lê-se bem. Este sim, é um livro fácil.
Os livros da PD James, que eu adoro, são fáceis de ler, e não é por isso que são maus. À partida, qualquer bom livro devia ser igualmente um livro fácil porque atrai o leitor - e daí eu não concordar necessariamente com os critérios formais que definem livros fáceis e difíceis.
E foi isto que eu consegui arranjar para, ponto um, voltar a escrever, ponto dois, distrair-me do massacre que ocorre no mundo e no país, que me deixa tolhida e incapaz de fazer coisas. Como quero voltar a fazer coisas, voltei a escrever aqui.
Obrigada e boa continuação. Boa noite e boa sorte. Até a uma próxima. 

segunda-feira, 2 de julho de 2012

O Drácula é um ser tradicional

O Câmara Clara de ontem foi o meu preferido até hoje, a par daquele em que a Alice Vieira foi entrevistada.
O convidado do programa de ontem foi, então, Francisco Vaz da Silva, que tem investigado profundamente contos orais tradicionais e que organizou recentemente um colóquio sobre os Irmãos Grimm. Foi um programa delicioso e assustador, em que se falou da violência comum a este tipo de contos que, curiosamente, os Grimm aliviaram bastante. Não sendo originalmente contos para crianças, estas histórias tradicionais foram "depuradas" (como se disse até à exaustão no programa) para que se tornassem matéria infantil mais própria. Se ainda hoje estes contos nos parecem tão violentos, o que seriam na sua forma original - uma verdadeira crueza brutal, ao que parece, repleta de relatos de canibalismo, abusos, mutilações. 
A história do Capucinho Vermelho, por exemplo, conta com várias versões, uma delas rezando que, no momento em que a Capuchinho chega a casa da Avó, já o Lobo comeu parte desta última, armazenou o sangue numa garrafa de vinho e reservou suculentos nacos da senhora para conservar na salgadeira. Diz o Lobo ao Capuchinho, com todo o desplante, "vem descansar para a cama comigo, mas antes prova este vinho revigorante e sacia-te com estes suculentos nacos de carne", sugestão que Capuchinho aceita de bom grado antes de ir para o descanso, também ele bastante carnal, com o Lobo, e o resto a gente já imagina (ou não). Este canibalismo descarado, contado de uma forma tão normal, faz lembrar uma outra personagem que conhecemos bem e que também tinha uma mania, canibalesca e um bocado bruta, de corromper as suas vítimas ao fazê-las beber o seu sangue. Essa personagem é o Drácula - a forma de vitimizar as presas não passava só por beber o seu sangue, mas também por fazê-las beber o sangue dele próprio, Drácula, consumando assim a corrupção total da vítima. Ao beber o sangue de Drácula, o incauto inicia um processo de transformação vampiresco, e se insistir na beberagem, acaba mesmo por se tornar  vampiro e nada a fazer. É quase o que acontece à personagem de Mina (na obra de Bram Stoker, diga-se), que Drácula seduz e a quem dá a beber o seu sangue milenar. Lixado, este Drácula. Rancorosozinho.
Bom. Numa outra versão de Capuchinho Vermelho, a menina transforma-se em loba para, de igual para igual, lutar com o Lobo e matá-lo, dispensando a figura masculina do Lenhador. O mesmo se passa com Drácula - ao transformar-se em seu igual, a vítima deixa de ser vítima e reúne a força e o conhecimento necessários para o destruir. Assim o confirma Mina que, depois de ter bebido o sangue do vampiro, mantém com ele uma espécie de laço espiritual, telepático, etc., conseguindo adivinhar-lhe o paradeiro, os desejos, as necessidades, e tornando-se fundamental para que Drácula seja localizado mesmo a tempo, estaca no coração ao nascer do sol, cortar a cabeça e está feito. 
De onde se conclui que isto anda tudo ligado e que as histórias que povoam a nossa cabeça são, no fundo no fundo, as mesmas, o que também quer dizer que a nossa cabeça é, no fundo no fundo, a mesma. Faz lembrar a carruagem que leva a Cinderela ao baile - consegue ser ofuscante na sua sofisticação e brilho, mas não deixa de ser uma abóbora, que é abóbora desde o princípio dos tempos e abóbora permanecerá até ao fim dos tempos. 
Fim.

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Eu queixo-me de insónias

Já percebi que a melhor maneira de a pessoa aprender uma data de História (literalmente aprender "uma data" de História, ahah! Não resisti à piadola foleira) é ler sobre crime cometido numa determinada época. É uma premissa que, não deixando de ser premissa, me parece muito verdadeira.
 Eu aprendi imenso sobre a história de Londres, uma cidade de que gosto muito e que conheço relativamente bem, devido a tudo o que li sobre o Jack o Estripador e, mais recentemente, com este livro da PD James que ainda estou a ler, The Maul and the Pear Tree. Pode ser mórbido, e é, mas é muito interessante. No entanto, e devido à natureza do crime cometido, tenho de admitir que me dá muita volta ao pobre estômago.
Ultimamente tenho tido pesadelos. É desagradável.
A Amazon uk diz:

In 1811 John Williams was buried with a stake in his heart. Was he the notorious East End killer or his eighth victim in the bizarre and shocking Ratcliffe Highway Murders? In this vivid and gripping reconstruction P. D. James and T. A. Critchley draw on public records, newspaper clippings and hitherto unpublished sources, expertly sifting the evidence to shed new light on this infamous Wapping mystery. '

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Deve haver certamente outras maneiras de uma pessoa conhecer o Corto Maltese


Este excerto, retirado de um artigo da Slate, é muito interessante, debate o problema das livrarias independentes que lutam pela sobrevivência face à Amazon e ao e-book e tal, mas o que me traz aqui não é esta preocupante problemática. É aquele excertozinho que anuncia que as livrarias são boas para "cruise for a date".
Isto foi coisa que nunca me aconteceu na vida e o meu coração enche-se de pena de mim própria ao admitir isto, porque o meu sonho sempre foi encontrar o príncipe encantado numa livraria. No entanto, nunca, nunca, nunca mas nunca alguma vez encontrei "date" algum numa livraria, e isto agasta-me, porque não consigo imaginar sítio mais encantador e romântico do que uma livraria, ainda por cima com as potencialidades que apresenta de se ficar a conhecer tão bem a outra pessoa. Se o conhecemos na secção dos romancistas russos, por exemplo, há ali pés para andar. Eu nem sequer sou fã acerba dos russos, mas um namorado que conhece o seu Dostoevsky tem classe, há que admitir.
E depois podemos apurar a escolha consoante a livraria de que gostamos mais - se somos mais para o popularucho e queremos alguém que não nos despreze porque de vez em quando lemos porcaria, vamos à Fnac; se queremos um poeta, vamos à Poesia Incompleta; se queremos um alternativo indie, vamos à Buchholz, (continua aberta, não continua? Espero bem que sim) e ainda nem sequer estamos a introduzir a Barata, a Assírio e Alvim, a Babel e outras que não sabe/não responde aqui na equaçãozinha.
Portanto, as livrarias poderiam ser o mais próximo de que dispomos de uma espécie de "pick and choose" no que concerne (não resisto a esta pirosíssima expressão) a namorados e namoradas. De modo que, como se diz no excertozito acima, as livrarias não existem primordialmente para vender livros - pois não, é para conhecermos o Corto Maltese.
No entanto, diz-me a experiência que o Corto Maltese anda por aí em aventuras e em livrarias é que ele não está. O mais próximo que estive de conhecer um "date" numa livraria foi uma vez em que estava a comprar um livrinho, muito interessante por sinal, de Nick Danziger (este - de facto, era mesmo para impressionar o indígena, ah ah). O rapazinho que estava a atender era da minha idade e, também por sinal, bastante agradável ao olhar, e ficou a mirar e a remirar o livro, disse-me que era uma escolha fantástica, e se eu era fotógrafa. Eu, parva, respondi com a verdade e disse que não. Ainda ficámos ali uns minutos a falar de fotógrafos de que gostávamos, mas a coisa ficou por ali. Que desilusão.
Porque é que a vida não está nos livros? Porque é que a gente não há de ir a uma livraria e escolher a pessoa acertada para nós com base naquilo que ele lê, quando este é um critério tão agradável, tão simpático, tão importante? E, sendo um critério tão agradável, simpático e importante, porque é que nunca se conhece ninguém de jeito nas livrarias? Eu, pelo menos, nunca conheci. Já sei, o defeito é meu.
De qualquer forma, para mim é tarde demais. A vida já me disse que o Corto Maltese não é para ser encontrado em livrarias.
Mas, para quem não for ainda tarde demais, eu desejo não só um feliz Natal como um excelente Corto Maltese (versão feminina e/ou masculina) numa livraria perto de si.

Boas razões pelas quais não quero ler este livro (Room, de Emma Donaghue)

Alguns excertos da entrevista com a autora, publicada no Expresso:

Pergunta: Este romance é narrado por um rapazinho de cinco anos. Foi difícil encontrar o tom certo, a voz ideal para o Jack?
Resposta: Para ser sincera, não foi nada difícil. O meu filho tinha cinco anos na altura e pedi-lhe emprestada muita coisa. (...)
Pergunta: A sensação com que se fica, ao longo do livro, é que o texto não foi escrito por um adulto que finge ser uma criança, mas por uma criança capaz de contar uma história terrível (...) O que é que sacrificou para chegar a esta nova linguagem? Teve de abdicar do seu estilo?
Resposta: Felizmente, eu não tenho um estilo de escrita. (...)

Se calhar, o livro é mesmo bom, e eu estou a perder uma coisa imensa.
Quando as pessoas descrevem aquilo que fazem como "fácil", fico sempre com a sensação de que lhes está a falhar qualquer coisa. O caso agrava-se quando há crianças à mistura - Picasso dizia que queria recuperar a expressividade dos desenhos das crianças, e como isso era tão difícil.
Mas pelos vistos é fácil, especialmente quando não se tem um estilo pessoal. O problema do Picasso era esse, tinha estilo a mais. Nunca se lembrou de ter menos estilo e assim resolver uma data de problemas.
Bom. A não ler, é a minha conclusão.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Não é para todos

No Brideshead Revisited, a personagem Sebastian é uma espécie de rei-sol em torno do qual orbitam uma série de súbditos voluntários e fascinados. Nunca lhe acontece (a Sebastian) nada de mal, tudo lhe é perdoado desde os tempos da escola, alunos e professores sorriem-lhe igualmente fascinados. 
Num episódio do 30 Rock que vi há pouco tempo, a Liz arranja um namorado lindo e giro, de tal forma que até os polícias lhe perdoam as multas. Ao falar com o patrão, com quem ela se dá bem, e que é interpretado pelo Alec Baldwin, que está tão engraçado nesta série, dizia, ao falar com o Alec Baldwin, a Liz chega à conclusão de que as pessoas bonitas vivem numa bolha que as protege de quase tudo, porque os outros não conseguem atingi-las e olham para elas em êxtase. Como as pessoas da Idade Média olhavam para a estátua da Virgem Maria, por exemplo. Na altura não havia super-modelos.
O caso de Sebastian e de pessoas como o Sebastian é, porém, diferente. Não é só o ser bonito. É uma espécie de aliança à super-herói de beleza e de uma piroseira qualquer que às vezes é designada por "magnetismo". Eu gosto mais da palavra "pinta".
E sobre isso já escrevi num post muito mais antigo sobre Marlon Brando. Não valerá a pena repetir.
É estranho pensar como isto acontece, este fenómeno da pintarola. Nasce-se com ele? À partida, sou um pouco avessa a inatismos, que serviam, no século XVIII, por exemplo, para justificar a condição de aristocrata e de como alguns homens seriam, pura e simplesmente, melhores do que outros apenas pelo nascimento. Eu gosto mais de acreditar no mérito. Mas esta pinta que algumas pessoas têm atinge-se com o mérito? Este Sebastian, por exemplo, é herdeiro de uma grande família nobre, vive num casarão, estudou nas melhores escolas, etc. Tem pinta por mérito ou porque a sua vida fácil lhe permitiu o tal magnetismo?
Há pessoas que têm uma espécie de poder. É estranho, é só isso.
O Alec Baldwin disse à Liz que, com o passar do tempo, a bolha rebenta e quem lá está dentro cai desamparadamente, e acaba-se a glória. Ah, ah.