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quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Colégios internos


Há uns mesitos, vi um documentário sobre Enid Blyton num canal qualquer. Os livros da sua autoria de que eu gostava mais eram o Colégio das Quatro Torres, em que a personagem principal era a Diana, que tinha muito mau génio, e as Gémeas no Colégio de Santa Clara. Tudo o que se passasse em colégios internos ingleses, porém com professoras de francês que eram as Mademoiselles, piqueniques à meia-noite e refeições que incluíssem rosbife com pickles, eu adorava. Isto já para não falar de aulas de natação em piscinas naturais, desportos que eu ignorava por completo como se jogavam, como o lacrosse, e o maravilhoso sistema hierárquico e quase militar em que as meninas mais novas, caloiras reles, tinham de ir às salas de estar que as alunas mais velhas partilhavam com as suas melhores amigas à frente da lareira, e limpavam tudo e engraxavam sapatos. Nunca tendo eu gozado do direito de ter alguém para me engraxar os sapatos, queria muito ir para um destes colégios internos, esquecendo-me convenientemente de que entraria como caloira e estaria, literalmente falando, feita ao bife.
A mania dos colégios internos passou-me, e passou-me definitivamente depois de ver o If, que narra precisamente a história de um rapaz (o mesmo da Laranja Mecânica, o impecável Malcolm McDowell) que, tendo passado a vida num colégio sofrendo violências físicas por parte de alunos mais velhos e professores, decide reunir um grupo de revoltados como ele e matar toda a gente à metralhadora. Sei que não parece, mas há alguma beleza nisto.
De modo que a mania de colégios internos, efectivamente, já não tenho, e além disso esta minha mania antiga não se relaciona de modo algum com os propósitos deste post, que têm antes a ver com aquilo que concluí depois do tal documentário sobre a Enid Blyton e ao esforçar a memória para me lembrar das historietas das Quatro Torres e de Sta Clara - todas as meninas tinham uma melhor amiga, já se sabendo que a menina y era a "pertença" da menina x, envolvendo normalmente um elemento dominador, que falava mais e tomava mais decisões (a menina y, por exemplo) e um elementos mais passivo (a menina x). Nada mais óbvio do que a relação entre Diana e Celeste, na série das Quatro Torres, amiguinhas, amiguinhas, sendo a Diana um vendaval de mau génio e a Celeste uma certinha querida. Complementam-se, portanto.
Não era só de amizade que estes livros falavam. A conclusão que eu retirei disto tudo era que se estava na presença de verdadeiros casais. Depois fui ler coisas à Wikipedia e vi que tinha razão, e portanto contra os factos da Wikipedia não há argumentos.
É só isto, peço desculpa se estavam à espera de outra coisa.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Stella!


Outro livro, por acaso também drama, que li este Verão foi, finalmente, o Streetcar Named Desire.

Como já falei muito sobre o filme, que segue a peça, não tenho muito a dizer, para além do óbvio, que é o facto de a Stella, na versão cinematográfica, ser mais decidida e politicamente correcta, aparentando livrar-se do marido abusador, ao passo que no livro já não é bem assim. A pobre Stella prefere acreditar que o seu Stanley é incapaz de abusar de uma alma desprotegida como a Blanche e permanece, mais ou menos alegremente, casada com ele.

No fundo, pode pensar-se que Stella é fraca e alienada, mas ela talvez seja uma sobrevivente. Acredita no que tem de acreditar para se sustentar, a si e ao filho. E, na falta de outros meios, um marido violento e abusador, que ela quer acreditar ser gentil e forte, é o seu único sustento.

Quando vemos nas notícias casos imperdoáveis e incompreensíveis de violência doméstica, é fácil pensar "que tipo de mulher fica com um homem destes, se fosse eu pegava nas malas e era divórcio e polícia na hora, etc, etc.". Não me passa pela cabeça vir para aqui adiantar qualquer tipo de explicação para estes casos, que não compreendo e espero nunca vir a compreender. Mas, por vezes, as pessoas fazem aquilo que consideram ser a única alternativa possível.

E portanto, talvez a Stella do Eléctrico Chamado Desejo, no final da peça, corresponda mais à figura de sobrevivente do que de fracalhota. A sobrevivência nunca é assim muito bonita, e a decisão da Stella também não.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

O Ilusionista (ligeiro spoiler)


Gostei muito deste filminho, como já tinha gostado das Triplettes. Quer dizer, não gostei exactamente da mesma forma. Adorei as Triplettes de Belleville, e do Ilusionista apenas gostei, porque é um filme muito terno, cheio de sensibilidade. Não vi o original de Tati, e devo dizer que também não me apetece muito ver. O Ilusionista é tão engraçado, tão bonito, tão doce que me encheu as medidas - e apenas pelo lindo poster podemos constatar que o que digo é verdade.

Só para dizer isto. Podia estar aqui a dissertar sobre a condição do artista e de uma coisa que se diz no filme ("os mágicos não existem"), mas não me apetece. Quem quiser que vá ver o filme em vez de andar a perder tempo a ver televisão, que faz muito bem.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Nada em que pensar

Eh pá, está a dar o Titanic na televisão e lá está a cena da porta.
Isto intriga-me, a sério que me intriga. A rapariga em cima da porta e o rapaz a congelar na água. Mas porque é que não se revezaram? E agora lá está ela a chorar, muito espantada e triste por ele ter congelado.
Um bocadinho mais de realismo. Se for só com o barco a partir-se ao meio e a afundar, não vamos lá. Um bocadinho mais de realismo.

terça-feira, 22 de junho de 2010

Streetcar


Embora saiba que Viven Leigh protagonizou Um Eléctrico Chamado Desejo (doravante designado por Streetcar, porque eu sou uma pessoa que é asim), e que tal consumou uma injustiça para a também grande Jessica Tandy, que fazia de Blanche na peça da Broadway, dizia, embora estando ciente desta injustiça, não posso deixar de me deliciar com a Vivien enquanto Blanche Dubois.
Primeiro, sou fã da Vivien Leigh desde pequena. Teria talvez uns 10 ou 11 anos da primeira vez que vi o Gone With the Wind e me apaixonei por Rhett Butler e Scarlett O'Hara. Que fogosos, que bonitos, que imperiosos, os dois. É impossível não gostar de os ver a trabalhar, ainda que o filme dure quatro horas e que eu hoje em dia esteja em condições de admitir que, enfim, talvez seja um tanto ou quanto pastelão.
Bom. Isto para dizer que tudo em Vivien Leigh como Blanche é frágil e adocicado e perigosamente instável na medida certa. O tom é irrepreensível, e a forma como Blanche balança na corda bamba, entre a sanidade mental e a loucura, é admirável. Os olhos ligeiramente desvairados, por exemplo - como é que se conseguem uns olhos apenas ligeiramente desvairados? Não sei, mas a Vivien consegue-o.
Talvez tenha sido ajudada pela força incontida de Brando, que, sendo tão impossivelmente lindo, dá ao seu Stanley uma única vantagem, que não chega para o redimir - o facto de ser bonito e uma força da natureza. Tudo o resto, nele, é bruto e primário. A mulher, Stella, tem-lhe afecto devido essencialmente a questões de ordem física, ao tal desejo que às vezes complica a vida de uma pessoa. Quanto a Blanche, o seu problema é, exactamente, não saber bem o que fazer às tais questões de ordem física e descontrolar-se com isso. Depois faz figura de desavergonhada e é escorraçada da cidade onde vive. Stanley, por seu lado, sabe exactamente o que faz quando se trata de matéria carnal - domina. E a sua única superioridade assenta nisso. De modo que a pobre Blanche, que com a força mental não pode contar, e dada como é a atracções físicas desorientadas, não tem qualquer hipótese.
É um problema grave quando o corpo pede coisas que a cabeça não quer dar. Criam-se discrepâncias de grande impacto social.
Vale a pena ver e rever o Streetcar. Só me falta ler a peça. Ainda não resolvi este problema.

Não quero Paris para nada


Não gosto muito do Casablanca.
Não quer dizer que não considere um grande filme. Com ou sem a minha consideração, é evidente que Casablanca é um grande filme.
E porém não gosto.
O meu desagrado prende-se com aquela tristemente famosa história do "we'll always have Paris". É tão inútil. De que é que serve a alguém estar para sempre ligado a um romance acabado, de lágrimas, que já não traz felicidade e que, por acordo de ambas as partes, foi terminado? Não compreendo.
A questão é que para mim foi sempre óbvio e terrivelmente claro que Ingrid Bergman deveria ter ficado com o Rick. O facto de ter apanhado o tal avião para Lisboa é incompreensível. Pode ter sido o mais nobre, o mais sensato, o mais fácil - mas não foi o mais acertado. Escolher a infelicidade para o resto da vida não pode ser o mais acertado. O marido da Ingrid arranjava-se sem ela, com certeza. Continuaria a liderar a Resistência e conhecia a sua "Jeanne Moulin" ou algo parecido.
Também não gosto muito da versão do As Time Goes By que aparece no filme, ao pianinho, mas isso já é outra questão. Em vez do Sam, lamento muito mas devia ser a Billie Holiday ali a cantar. Assim, sim.
Mas voltando à questão dessa problemática terrível do "we'll always have Paris" - hã? Mas isto é para servir de consolo? Não me parece consolo de qualquer espécie. Parece-me uma triste, inaceitável despedida. É isso que me transtorna em Casablanca - a separação de Rick e da Ingrid é inaceitável. A ordem natural das coisas diz que devem ficar juntos. Mas eles insistem em viver apenas de memórias - porque se enganam e insistem no erro de que a memória é algo que se tem.
O meu conselho a Rick e a Ingrid (não me lembro do nome dela no filme, não quero saber) - vejam Another Woman, do Woody Allen. Aí, vão perceber que uma memória é algo que se perde. Não é algo que se tem. E talvez aí decidam ter, e não perder.

terça-feira, 15 de junho de 2010

Mundial


Para mim, o Mundial é.
Para mim, o mundial é o México 86, o mundo unido num balón.
E beber Milo de manhã. Ainda se vende Milo no Chipre (talvez se venda noutros países, mas vi à venda no Chipre e comprei 300 latas. Não sabia ao mesmo. Foi uma desilusão).
E o Micha dos Jogos Olímpicos.
E, ao jantar, engolir uma colherada de um líquido verde e amargo, que era para abrir o apetite. Abriu de tal forma que o apetite dura até hoje.
E ir andar de bicicleta no passeio à frente de casa, pedalar, pedalar, pedalar até conseguir deixar de andar com rodinhas.
E ler o General Dourakine da Condessa de Ségur e ficar muito impressionada com o feudalismo russo e com tanta chicotada. Tudo corrido à chicotada. Já escrevi antes que a Condessa de Ségur era uma sádica. Maluca.
Ver o Sítio do Picapau Amarelo e adorar a Emília e o Sassi Pê-rê-rê (não sei se é assim que se escreve) e sentir pavor, terror até, daquele óbvio boneco que para mim era um verdadeiro crocodilo de cabeleira, dentes arreganhados e garras ameaçadoras, chamado Cuca.
E ver as Irmãs Bronte, as minhas irmãs Bronte, do Techiné e achar que a Isabelle Adjani era linda (e é). Ainda hoje, a Emily Bronte tem, para mim, a cara de Adjani. No filme, veste-se de homem e apanha tuberculose quando experimenta um casaco do falecido irmão Branwell. Começa a tossir, a tossir, a tossir e tem de se sentar na cama vazia e desconsolada, os cabelos pretos e longos a cobrirem-lhe a cara afogueada. Ao ver esta cena, o meu sonho passou a ser ter ataques de tosse assim, que me obrigassem a sentar-me na cama daquela forma derreada, dramática, romântica. Ainda não aconteceu, o que, hoje em dia, me parece claramente vantajoso.
Ir brincar à apanhada depois do jantar, se não estivesse a chover, ou andar de bicicleta, ou ir ao poço dar à manivela para de lá sair água.
Fugir dos cães. Havia sempre tanto cão, quando eu era pequena, e eu sempre convencida que eles me queriam morder.
Ver o Amor de Perdição e a cara pálida, sugada, da Teresa, que repete o nome de Simão. De arrasar, especialmente aos olhos de uma criança.
Ouvir a Balada da Rita do Sérgio Godinho e ficar aflita - mas isto é para mim? Sempre agradeci os conselhos. Deve ser por isso que, ainda hoje, gosto tanto do Sérgio.
Uma vez, estar a brincar com amigos, olhar para o céu e ver umas luzes. Ficámos a pensar que eram ovnis. Fomos a correr dizer aos respectivos pais. Ninguém acreditou em nós. Disseram-nos "agora vamos para casa, vamos tomar banho e beber leite quentinho. Não viram nada ovnis". Foi mesmo isto que nos disseram - beber leite quentinho, tomar banhinho, inho, inho. Não há ovnis. Mas que nós vimos, vimos.
O que é certo é que nunca por nunca voltei a ver ovnis. Já não há luzes nos céu, como cantava o outro (ou seriam estrelas. Sei lá. O que é que interessa).
Pois, e tudo isto era a propósito do Mundial. Para mim, o Mundial é.

domingo, 13 de junho de 2010

Mas porque é que eu havia de querer...?

A prova de que não cresci é que, a primeira vez que vi Trainspotting, e apesar de ter adorado o filme, não me identifiquei muito com o discurso inicial de Renton, que entretanto se tornou de antologia ('choose life, choose a job, choose a career', etc).
A prova de que não cresci é que hoje, ao rever o mesmo discurso, identifico-me com quase tudo, excepto a parte da heroína, porque felizmente eu não sou nenhuma heroína nem preciso de me sentir heróica.
A prova de que não cresci é que um discurso que me deveria parecer uma imaturidade, um lugar-comum escrito para vender livros e seduzir gente influenciável com a mania que é esperta e que não leu tantos livros quanto os que julga que leu, a mim que vou nos alvores da provecta idade balzaquiana, parece-me muito certo e razoável. Todas aquelas dúvidas são legítimas. Toda aquela incerteza e recusa são justificadas. Justificadas porquê? Não sei, mas são.
E é engraçado, porque toda esta inquietação, esta incerteza, esta recusa, tudo isto podia ter uma aura muito filosófica. Mas não tem. É mesmo só chatice, sem desculpa nenhuma.

Choose a life. Choose a job. Choose a career. Choose a family. Choose a fucking big television. Choose washing machines, cars, compact disc players and electrical tin openers... Choose DSY and wondering who the fuck you are on a Sunday morning. Choose sitting on that couch watching mind-numbing, spirit crushing game shows, stucking junk food into your mouth. Choose rotting away in the end of it all, pishing your last in a miserable home, nothing more than an embarrassment to the selfish, fucked up brats you spawned to replace yourself, choose your future. Choose life... But why would I want to do a thing like that?



domingo, 30 de maio de 2010

Oh Denis doo-be-do


Por outro lado, e complementando o post anterior, gostaria muito de ter visto o Easy Rider no cinema, ao invés de em DVD, que é sempre uma coisa inferior. É a recordação que deixo aqui de Dennis Hopper, de quem gostei muito no próprio Easy Rider (o final é inesquecível; este filme vale muitíssimo a pena), tal como em Apocalypse Now, em que estava bastante cómico. A entrevista de Dennis Hopper nos extras do DVD do Easy Rider (ligeira vantagem do DVD) também é engraçada - Dennis Hopper diz que queria sempre tudo à maneira dele, mesmo quando isso era, claramente, a pior das opções possíveis. Uma vez, os outros produtores do filme fizeram tudo às escondidas, ele só descobriu no fim e, em vez de partir tudo (como parece que era sua característica), riu-se e disse "eles tinham razão, ficou muito melhor assim".
Era um gajo fixe, ao que parece. E que bonito que ele estava no Gigante, a fazer de filho da Lizzie.

sábado, 29 de maio de 2010

Ainda esta semana tentei ir ao cinema e não encontrei nada que me apetecesse, verdadeiramente, ver. Tudo deslavado. Uma dor de alma. A crise está por todo lado.
Como diz um amigo meu, a solução é passar a ir única e exclusivamente à Cinemateca e esquecer o resto.

terça-feira, 11 de maio de 2010

Ah! E ainda a respeito do que se passa no youtube, o pessoal que se dá ao trabalho de ir lá retirar material devia pôr os olhos nos grandes Monty Python, que criaram um canal onde disponibilizam todo o seu material, porque sabem, e provavelmente apreciam, que as pessoas gostam deles e da obra que criaram.
Só gente medíocre é que tem medo da pirataria, é o que eu acho. Os DVDs dos Monty Python deixam de se vender? Eles perdem dinheiro? Não me consta que isso aconteça (posso estar errada, mas penso que não).


(E também me esqueci de juntar à lista dos descontrolados raivosos aquele horrível do Manual de Instruções para Crimes Banais, filme do qual penso que falarei em breve. Foi dos filmes mais terríveis que vi, e o criminoso do filme foi dos que mais detestei. Explicarei porquê.
Mas agora não.)

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Umas notinhas sobre uns documentários que tenho visto


Há pouco tempo, vi na televisão o filme, presumo que mais ou menos ficcionado, sobre Grey Gardens, uma casa decadente nos Hamptons onde viviam Big Edie e Little Edie, mãe e filha, dementes, doces e completamente afastadas do mundo. Conheci-as ao ver o documentário dos irmãos Maysles, que me impressionou muito, e sobre o qual escrevi aqui; vi também, há relativamente pouco tempo, um outro documentário destes realizadores sobre os Beatles (The Beatles - The First US Visit) que, incrível e supreendentemente, me desapontou.
Estes documentários, tal como o recente Fantasia Lusitana de João Canijo, recusam muito claramente a voz off e vão mais longe - recusam entrevistas com possíveis "especialistas" a opinar sobre o assunto, deste modo evitando quaisquer cortes entre o espectador e o objecto a documentar. É o objecto que tem a única voz do filme, inteira e ininterrupta. Quando este objecto consiste em duas senhoras divertidas e com uma vida tão estranha e inimaginável como as Edies, corre tudo bem. Quando o objecto consiste num país que sofre do tal irrealismo prodigioso, também corre tudo bem. Então, porque é que não resulta com os Beatles?
Porque a única coisa que decorre de um documentário filmado nos anos 60 e que se limita a filmar os Beatles em todas as ocasiões possíveis é o facto de se tornar penosamente óbvio que nenhum dos quatro elementos da banda estava alguma vez sozinho, ou tinha tempo para reflectir, ou para pura e simplesmente ficar calado. Tinham sempre gente à volta, e o que o documentário regista é que os quatro Beatles passavam a vida a mandar bocas inconsequentes e a "entrar no personagem", correspondendo à performance que deles era constantemente esperada. A autenticidade, que enternece e seduz em Grey Gardens, é evitada e nunca transparece no documentário sobre os Beatles.
Talvez a conclusão a retirar seja isto mesmo, a de que os Beatles, coitadinhos, tinham sempre gente à volta, ou então eram pura e simplesmente ocos e não tinham nada para dizer. Eu, porém, acho que tinham porque já li entrevistas bem mais interessantes com a banda. De modo que este estilo documental de dar voz, directa e ininterrupta, àquilo que se retrata nem sempre é boa ideia. Às vezes, não faz mal haver voz off, os tais especialistas a explicar tudo bem explicadinho como se o espectador fosse parvo e tal. Dá mais substância.
Bom. Não tenho mais nada a dizer. Parece que, depois de tanta frase, teria assim uma conclusão mais retumbante, não é? Mas não, fico mesmo por aqui. Não era a minha intenção escrever um post enganoso, e portanto desde já aqui deixo as minhas desculpas.

domingo, 2 de maio de 2010

A propósito de louras



Agora fala-se muito da Grace Kelly; é capa da Vanity Fair, é exposição do guarda-roupa no Victoria & Albert, que eu hei-de ir ver, se a tanto me ajudar o engenho e a arte, é reminiscência saudosa do incomparável estilo, eterna elegância, inimitável porte principesco, tanto que até casou com um príncipe e tudo (e que caro o pagou). Aliás, a reportagem da Vanity Fair chega aos píncaros do risível, sendo um bom exemplo do que acontece quando certos e determinados desejos e anseios humanos são canalizados para estrelas de Hollywood e se desenvolvem fixações pouco saudáveis que levam a que se escrevam coisas como isto:

As for color, Grace was given her own, Apollonian palette. Wheat-field and buttercup yellows, azure and cerulean blues, seashell pink and angel-skin coral, Sun King gold and Olympus white—no one wore white like Grace Kelly. To those with a feeling for history, beauty, and style, Grace Kelly’s late-career wardrobe—the huntress Artemis during the day and Aphrodite at night—is unforgettable if not positively Delphic.

Bom. Eu, por acaso, gosto da Grace Kelly. Primeiro, o louro americano sempre me deslumbrou, em particular o louro gélido da Grace Kelly, que resultava tão bem nos filmes do Hitchcock. Aliás, nos filmes deste, as louras são sempre heroínas corajosas, e as morenas não necessariamente más, mas sempre umas pobres tristes (exemplo paradigmático, as duas meninas dos Pássaros - a loura sobrevive e fica com o namorado, a morena morre depois de ter sido sempre desprezada pelo seu amor). Mas continuando.
A propósito de louras, de quem eu sempre gostei foi da Marilyn. Comparada com a Grace, a Marilyn parece a desleixada com um palmo de cara que se enganou e, em vez de entrar na tasca onde habitualmente cantava o vaudeville de collant rasgado, entrou no restaurante fino onde se toca piano e come lagosta. E, no entanto, há um encanto mais autêntico na Marilyn, uma certa espontaneidade que eu acho enternecedora. A Grace não enternece. É uma estátua de gelo que ali está para deslumbrar, para ser admirada. A Marilyn, de busto emproado, cabelo platinado, cara de falsa ingénua, parece mais perdida, mais tonta, menos séria, menos perfeita. Tem uma sensibilidade que a Grace não consegue, ou, pelo menos, nunca conseguiu nos filmes que vi dela.
E por isso gosto mais da Marilyn, porque na vida real também me interessam mais as pessoas que revelam as fragilidades que têm, que não se envergonham disso. Os que as tentam esconder, muitas vezes mal disfarçadamente, irritam-me um bocadinho.

Fantasia Lusitana


Ao ver "Fantasia Lusitana", de João Canijo (sou fã absoluta deste homem), confirma-se plenamente o que Eduardo Lourenço, com toda a sabedoria e pelos vistos presciência, escreveu no Labirinto da Saudade: o irrealismo prodigioso com que Portugal se vê ao espelho.
O documentário de Canijo revela como toda a propaganda do Estado Novo, alguma dela até, devo confessar, tristemente divertida ("os nossos mercados são tão bonitos, as belas cebolas, as batatas, suas irmãs, que só esperam pelo seu melhor amigo, o bacalhau", coisas assim), dizia, toda esta propaganda disseminava a imagem do pobrezinho mas honrado Portugal, reduto intocável de paz, felicidade, alegre modéstia, mimosa fé, alheio à guerra, ao holocausto, aos próprios refugiados que invadiam Lisboa - "pois que tudo são coisinhas", como escreveu Garcia de Resende (quer dizer, escreveu mais ou menos isto, não posso garantir que saiba de cor) a propósito da corte portuguesa renascentista. Era o que se passava em Lisboa - tudo eram coisinhas, alegres, frescas, fadistas. Interessantíssimos os relatos de Saint-Exupery e Alfred Doblin, que eu não fazia ideia que tinham passado por Lisboa, mas que estiveram de facto cá em 1940 - ambos falam de como a luz da nossa belíssima cidade (aqui, sem sombra de ironia - Lisboa é efectivamente uma beleza, e ainda bem) acaba por ter um efeito muito mais desconcertante do que apaziguador. Um falso paraíso, uma paz prestes a desmoronar-se, todo um povo que quer com toda a força acreditar, prodigiosa e irrealisticamente, que a guerra está lá longe, que não o afecta.
Algumas imagens do documentário são aterradoras, e isto porque ainda se reconhece tanto do país da altura naquilo que o país é agora (sim, isto é um lugar-comum mais do que comum, bem sei; já quando se lê o Eça se percebe que ainda há tanta coisa igual, blá, blá... mas os lugares-comuns têm uma vantagem, é que normalmente são verdadeiros).
Mas quem sou eu para me queixar. Vamos ter feriado porque o Papa nos vem visitar, e isso para mim é sinal dos tempos, que a liberdade está a passar por aqui. Há que rejubilar.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Salvação, meu irmão

Li aqui (um blog lindo!) o seguinte excerto de uma entrevista a Stanley Kubrick, a propósito da Laranja Mecânica:

Q.
Alex loves rape and Beethoven: what do you think that implies?

Stanley Kubrick: I think this suggests the failure of culture to have any morally refining effect on society. Hitler loved good music and many top Nazis were cultured and sophisticated men but it didn’t do them, or anyone else, much good.

É aterrador. Kubrick tem razão.
Quando li, lembrei-me daquele texto incontornável de Almada Negreiros, que entra numa livraria, conta os livros e os anos que tem para viver e chega à conclusão de que nem para metade da livraria tem tempo. E que a salvação tem de estar noutro lado.
Não está nos livros, nem na música, nem em Beethoven, ou Wagner, ou sushi e caviar, ou Dior e Chanel. A questão, porém, é que a salvação também não estará, com toda a certeza, em Ágata e Emanuel, Paulo Coelho e Nicholas Sparks.
Talvez tenha de me resignar ao facto de a arte não servir para nada. E o seu valor residir nisso, em não servir para nada. Quer dizer, serve para nos fazer sentir melhor, o que é importantíssimo, mas talvez não tenha, efectivamente, um propósito social e político de maior.
E porém, esta inocência, ou imunidade, da arte é algo que me recuso a aceitar. O estético pelo estético, que Harold Bloom diz definir o cânone, não pode ser aceite como inocente, resguardado, separado do mundo e das vidas dos homens, que incluem, essas vidas, o bem e o mal. Tal como a arte.
Onde estará, então, a salvação? Aguarda-se e agradece-se rapidez na resposta. Sem outro assunto, subscrevo-me atenciosamente.

Talvez por estar enredada no império do cinema hollywoodesco (que é bastante bom, em minha opinião), devido a anos e anos de visionamente, espero sempre mais de filmes que não sejam americanos. Vou sempre a contar com um filme artístico, actores sensíveis, realizadores informados e empenhados, esquecendo-me de que, tal como no cinema americano, qualquer filme, europeu, asiático ou o que seja, pode ser tão mau como um qualquer Van Damme (que, curiosamente, nem sequer é americano; o Steven Seagal, por seu lado, é americano demais, e o seu rabo-de-cavalo tornou-se já num tal lugar-comum do ridículo que nem sequer me atrevo a dissertar sobre isso). Enfim. Como dizia, vou sempre com grandes expectativas relativamente a filmes que não venham de Hollywood. Os últimos que vi desiludiram-me, porém, levando-me à conclusão de que, hoje em dia, como em tudo na vida, é verdadeiramente difícil, diria até árduo ("árduo" dá aquela ideia de que temos de trabalhar para obter; é uma palavra esplêndida), encontrar originalidade seja onde for.
Bom. Vi o Thirst, de Park Chan-wook, e devo dizer que este filme me enchia de expectativas. Primeiro, porque adorei os filmes anteriores de vi do Park, momemente Lady Vengeance, mas mais especificamente Old Boy, que é uma obra prima. Em segundo lugar, os temas que este realizador normalmente retrata (violência, vinganças, traições, crimes, mistérios, etc.) também me interessam, no sentido em que acho que, normalmente, resultam em grandes filmes.
Mas não foi isso que aconteceu. Thirst não é mau. Também não é brilhante. É, meramente, normal. Transformar as personagens principais em algo que se assemelha a vampiros já começa a ser estafante, mas enfim, a perspectiva de Thirst sobre o vampirismo até é gira. E porém, tudo culmina na mediania. Entristeceu-me, porque quando ouvi falar de Thirst e de Park Chan-wook a fazer um filme sobre vampiros pareceu-me, sinceramente, ouro sobre azul. Mas não, na verdade foi apenas, digamos, latão sobre azul-cueca (que designação deslumbrante) deslavado. Cobre, pronto, para compor. Mas não mais do que isso. No entanto, o poster do filme é bem bonito:

A minha segunda desilusão prende-se com Tony Manero, de cujo brilhantismo só duvidei quando efectivamente vi o filme, tanto mais que este último vinha muitíssimo bem recomendado, repleto de críticas a rebentar de elogios e untuosidades várias. E, de facto, a ideia de retratar a história de um tipo vadio, perdedor e falhado, de cinquenta e tal anos, que vive obcecado com a personagem de John Travolta em Febre de Sábado à Noite, na ditadura chilena, pareceu-me assim gira, gira, gira.
Mas não é. Quer dizer, a ideia, quanto a mim, continua gira, mas o filme é que não é. Irritou-me a forma martelada e quase irresponsável com que, de vez em quando, o filme se lembrava que afinal a acção se passava sob a violência de uma ditadura sanguinária, para mostrar umas pessoas à toa que eram presas ou mortas por distribuir panfletos. Só isso. Li uma crítica que considerava que a personagem principal, ele próprio violento e estéril, seria a personificação da ditadura, mas eu não vou muito nisso. Não me convence. Tony Manero é, infelizmente, pouco original e pouco interessante. Vê-se. Já vi pior. Também já vi melhor.
Ainda bem, porém, que isto aconteceu, para eu aprender de uma vez por todas que não vale a pena querer ser artística, usar óculos de massa e ir ver cinema não americano só porque não é americano. O que interessa é ir ver cinema bom. E isso, felizmente, existe em todo o lado, em todos os países. É conseguir descobrir onde ele está (nota para dizer que nada tenho contra cinema americano, pelo contrário, até - tenho tudo a favor. A maior parte dos meus fimes preferidos é americana, começando logo pelo inesquecível Sunset Boulevard, a doce Annie Hall, etc., etc., etc. ... imagens que ficam e ficarão comigo para sempre. A embelezar os meus pensamentos, que precisam sempre muito de renovações estéticas).

terça-feira, 6 de abril de 2010

Ir ao cinema


Tive a sorte de, recentemente, poder ver Psycho no escurinho do cinema. Tudo colado ao écrã, cabecinhas espetadas, sem perder um único movimento do Norman Bates na sua fúria raivosa.
E isto para dizer que, sinceramente, o Anthony Perkins é mesmo bom actor. Verdadeiramente muitíssimo eficiente.
E também para dizer que nada é comparável a ver um filme no cinema. Nada. Os filmes foram feitos para serem vistos no escuro, com toda a concentração, sem telemóveis, telefones, televisão, internet, jornais, a atrapalhar. A cena do chuveiro, que eu tinha visto tantas vezes na TV, ganhou todo um novo impacto no cinema, onde os meus olhos apenas podiam olhar, sem descolar, para a pobre Janet Leigh a desfazer-se num grito estridente, a mãozinha estendida, a resvalar cortina abaixo. E os violinos descontrolados que acompanham as facadas, e o desvairado Norman Bates, com as roupas da mãezinha, que na TV já são quase um lugar-comum, transfiguram-se no cinema e regressam ao horror original.
O cinema é a melhor invenção de sempre. Ir ao cinema ver cinema (de preferência num daqueles a sério, onde não há pipocas à venda, tipo Monumental, King, Londres) e deixar os home theatres para mediocridades, é o que eu defendo.
E reiterar que o Anthony Perkins como Norman Bates é mesmo excelente. No cinema, é toda uma outra dimensão que projecta este actor, que realça a sua falsa doçura e a sua insanável loucura. Soube-me muito bem assustar-me verdadeiramente com este Psycho.

domingo, 14 de março de 2010

Sentidos de humor


Soube agora que a chamada "Academia", aquela que dá Óscares, decidiu retirar da cerimónia um sketch de Sacha Baron Cohen destinado a James Cameron, que era para não ofender o senhor.
A questão é que o (bom) humor pode, muitas vezes, ofender, o que é pena, mas é assim mesmo.
Lembro-me, com muito pesar, de ter estado uma vez numa conferência em que, num dos intervalos, para descontrair, se falou de filmes. Era o ano em que Borat, o filme do supra mencionado Sacha Baron Cohen, tinha sido exibido nos cinemas, deixando alguns muito agastados, e outros, como eu, perdidos de riso. Acontece que os colegas da conferência pertenciam aos primeiros, aos que tinham ficado agastados. A cena em Borat luta nu contra um bojudo, repugnante homenzinho gordo e peludo, cena inesquecível de tão irreal, ousada, inacreditável que é, foi descrita por todos como de mau gosto e nojenta. Eu concordei, de mau gosto e nojenta. E, curiosamente, é isso que faz dela algo de tão inesquecível. Mais do que fazer rir, a dita cena prolonga-nos o queixo até ele ir ao chão, porque parece impossível que alguém tenha filmado tal coisa.
Mas não, os colegas da conferência não iam na conversa. O Borat era coisa do diabo, repulsiva, boçal, sem a mínima piada, ao passo que eu estava ali especada, desesperada, a tentar explicar que sim, repulsivo, sim, boçal nem tanto, porque tem piada!, estranhamente, tem piada, e é tão difícil alguém conseguir um humor que roça o limite do mau mas nunca chega a ser mau, e por isso é tão bom. Fui muito infeliz na explicação deste paradoxo. Ainda me lembro de um rosto que se contorceu a olhar para mim, esganiçando-se a exclamar, do alto da sua pobre petulância ,"o Borat?! Que horrível".
Senti-me, naquele momento, absolutamente alienada do meu semelhante. O pior distanciamento que pode acontecer entre as pessoas é não serem capazes de se rir juntas. É um muro intransponível, um sentimento de solidão inexpugnável. Detestei, naquele momento, todas as pessoas à minha volta, detestei a conferência, quis voltar para casa. Depois encolhi os ombros e resignei-me.
O Rui Veloso cantava que não se ama alguém que não ouve a mesma canção. Eu acrescentaria: não se ama alguém que não se ri da mesma canção. É muito triste.

sexta-feira, 12 de março de 2010

Com que voz

Numa cena de Blue in the Face (vide vídeo abaixo), Jim Jarmush decide deixar de fumar e partilhar o seu derradeiro cigarro com Harvey Keitel, que trabalha numa tabacaria e que lhe vende tabaco há anos. Jim Jarmush diz que, entre outras razões, vai sentir muito a falta do cigarro porque, e passo a citar: sex and cigarettes, you've got to admit...having a cigarette after sex, that's like... a cigarette never tastes like that, you know. To share a cigarette with your lover...
Ao que Karvey Keitel responde, ah, that's bliss.
Eu não fumo, porque sou tisicazinha e não posso, embora ninguém diga olhando para mim, porque não me dá para emagrecer, mas enfim, são os padecimentos da alma e do corpo que por vezes assumem estranhas formas. Continuando. Não fumo, portanto não sei de que é que o Jim Jarmush fala, não faço ideia absolutamente nenhuma, nenhuma.
Sei, porém, o que é partilhar uma canção com um amigo. Isso sei bem o que é, e tenho sempre muitas saudades das nossas cordas vocais sintonizadas, gargantas esganiçadas mas muitíssimo empenhadas e convictas, absolutamente dedicadas àquela canção do princípio ao fim. Os poucos minutos que dura a canção são uma espécie de concretização da amizade. É verdadeiramente lindo. Chego a fazer playlists de canções que já cantei, no carro, na rua, numa festa, com este ou aquele amigo, quando tenho saudades dele ou dela. Quando volto a cantar a canção, é uma espécie de evocação da pessoa de quem sentimos a falta. E nem sempre se trata de boa música. Às vezes, são canções pirosíssimas. Mas sabe sempre tão bem cantá-las a plenos pulmões com um amigo. Partilhar uma canção com um amigo - ah, que felicidade.


quarta-feira, 10 de março de 2010