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sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Before Midnight - pequeno comentário (SPOILERS)

Vi, finalmente, o Before Midnight, com grande entusiasmo, muito contente por saber que o Jesse e a Celine se tinham casado e tinham tido bebés e tudo (aleluia!). Bom. Na verdade, este post é um bocado supérfluo porque concorda com a maior parte das observações que vi escritas sobre o filme na imprensa - nada mal, um retrato quase fiel, algo desiludido, do desgaste do casamento, e etc. e tal. Sim, penso que é isso. Exageraram em certas coisas, penso eu - a Celine tornou-se numa louca desvairada, por exemplo (basta dizer que passa seis semanas numa Grécia eternamente deslumbrante e diz que nunca lá queria ter ido. Louca insana). Quando o marido lhe diz que ela é uma grande doida e que, se não fosse ele, não encontrava ninguém que a aturasse por mais de 6 meses, penso que tem uma certa razão. Por outro lado, Jesse, menos ideal, mais feio, mais magro, mais mal vestido, mais quarentão, é um retrato honesto do envelhecimento, do chegar àquela tal idade dos quarenta, que é tão complicada, assustadora (ouço eu dizer, porque felizmente ainda não sei, ah, ah, ah). A quase confissão de infidelidade, de ter enganado a Celine uma noite quando andava ocupado a fazer promoção ao livro, é triste, mas parece-me realista, e a posição da mesma Celine, que lhe diz que para ele é fácil falar quando é ela que organiza tudo em casa, as filhas e etc., faz todo o sentido. Parece um rol interminável de queixas, mas não deixam de ser verdadeiras, e portanto é preciso saber o que fazer. Eles, Jesse e Celine, ainda estão a descobrir. 
Não gostei do cinismo todo que o filme lança sobre o casamento, aquelas conversas parvas a desvalorizar o amor, e que o amor não sobrevive como as pessoas pensam, e que a amizade é tão mais importante, e que ao fim de x anos as pessoas já não se podem ver à frente, ou até podem mas têm de ser muito independentes, e isto e aquilo. Aquele senhor velhote que era dono do hotel onde eles estavam irritou-me imenso com esta conversa, por exemplo. Que homem irritante, cuja única coisa que tem a dizer sobre a mulher falecida é "eu ainda aqui estou, e ela não". Olhe, que bom para si. Se o casamento é assim tão mau para vocês, parem de falar e divorciem-se, mas não assumam que a vossa experiência triste é igual para toda a gente. 
No entanto, o final do filme é optimista, o que de certa forma desmente este cinismo insuportável. E sim, há desgaste, mas lidar com o desgaste faz parte de querer, ou não, continuar um casamento (uma união, o que seja). E o filme mostra que é possível ultrapassar dificuldades interpessoais se a pessoa estiver disposta a muita ginástica.
Eu, que preciso imenso de ginástica e de emagrecer uns dez quilos (é um facto científico), estou mais do que pronta, portanto gostei do filme. Fim. 

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

O complexo-Ashley Wilkes

Ashley Wilkes é uma personagem de Tudo o Vento Levou, e das mais desprezíveis que eu já vi em cinema. Quem já viu o filme sabe porquê, mas para quem ainda não viu, eu explico - a protagonista do filme, Scarlett O'Hara (insuperável Vivien Leigh) passa o filme perdida de amores por este Ashey Wilkes, que como ela é herdeiro de uma enorme plantação do sul dos EUA, até rebentar a Guerra Civil e perderem tudo. O Ashley Wilkes encoraja, de forma subtil e melosa, o amor de Scarlett de tal forma que esta até pensa que ele a vai pedir em casamento e tudo, até descobrir que Ashley vai mas é casar com uma prima, a impossivelmente boazinha Melanie. Scarlett fica destroçada, não tem outro remédio senão ir casando com outros homens para se entreter, ainda por cima ela que é dura, fogosa, deslumbrante, mas sempre que confronta Ashley com as cinzas do seu amor, ele diz-lhe "oh, gosto tanto de ti, oh, lembro-me de ti quando eras menina, cheia de pretendentes, e tenho tantas saudades, oh, és tão maravilhosa", e o resultado obviamente é Scarlett pensar que ele gosta tanto dela como ela dele, apesar de Ashley estar casado com outra e gozar de um casamento feliz. Entretanto, o último marido de Scarlett, um canastrão absolutamente delicioso chamado Rhett Butler, ama-a perdidamente até que perde a paciência, diz-lhe "frankly, my dear, I don't give a damn", e vai à sua vida à procura de uma mulher que o faça feliz e que não desperdice beleza e juventude com arremesos de cio adúltero para cima de homens inanes como Ashley Wilkes. O trágico disto é que, no momento em que Rhett se vai embora, Scarlett percebe que perdeu a vida toda em perseguição de um amor que não existe, que Ashley nunca gostou dela, que ela gosta verdadeiramente do marido Rhett, e que agora é tarde demais. A oportunidade passou.
Onde é que eu quero chegar com esta história toda? Quero chegar a isto - há pessoas, como Ashley Wilkes, que enfermam desta cobardia subtil, que nunca assume nada, e que portanto também não tem de recusar nada. Isto é particularmente grave quando, por via deste modus operandi, conseguem que as outras pessoas passem a vida toda à espera deles. Se há alguém com a miséria de se apaixonar por eles, os Ashley Wilkes desta vida rebolam-se na adoração, porque adoram ser adorados; não querem é ter de assumir nada, e se a pobre mulher se tenta libertar, eles arranjam maneira de apertar a corda à volta do seu pescoço, "ah, mas eu tenho tantas saudades tuas", "ah, eu adoro-te, tens é de me dar tempo", e etc. e tal.
A Scarlett passou a vida toda à espera de um homem que nunca foi forte o suficiente para lhe dizer na cara que não queria nada com ela, nem decidido o suficiente para ser adúltero e assumir um affair, um divórcio, o que fosse. Estes homens (e mulheres, porque também há mulheres assim) são uma espécie de lesmas peganhentas que não sabem por onde ir e agarram-se ilegitimamente à afeição dos outros, como parasitas. E o pior é que conseguem, por vezes, que lhes dêem muita afeição, porque na verdade toda a gente quer ter alguém na sua vida, e o Ashley Wilkes disfarça bem o cobardolas que é.
Quem se deixa apanhar por esta gosma tem de ter a presciência e consciência de dizer que não, sob pena de perder aquele momento da vida que nunca mais se repetirá, e que nos passará ao lado por perdermos tempo com a pessoa errada. Mas as ilusões conseguem ser quase tão poderosas como a realidade, e dizer que não, às vezes, é difícil. Este post é só para dar uma fórcinha, como diria o grande Herman. Fim.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

A oportunidade faz o ladrão

Sinceramente, houve um momento na vida em que, se eu tivesse engenho e arte, tinha surripiado uma coisa. Há uns anos, vi este poster na Cinemateca, encostado a uma parede, enorme e lindo, lindo, lindo. É uma imagem tão bonita, esta, e na Cinemateca ainda era mais bonita porque, se bem me lembro, as letras eram mais pequenas, os rostos tinham ainda mais impacto e pareciam quase desenhados a carvão (pelo menos, é assim que eu me lembro). 
Não deu para roubar, porque o poster era muito grande e estava emoldurado. Foi pena, porque ficava a matar em minha casa. Ainda nem sequer vi o filme, mas um poster destes na parede, tão bonito, daria um tal élan, um tal ambiente, que mais facilmente eu encetaria esforços para ver o filmito. 
Há que tempos que não vou à Cinemateca, de modo que não sei se o poster ainda lá está.
Gosto tanto de olhar para esta imagem, é que gosto mesmo. 

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

O cinema não teme, o cinema não deve

Este artigo do Público, ao qual cheguei via facebook, é interessante porque fala daquilo "que o cinema deve à literatura". Não sei se concordo inteiramente com esta ideia de que o cinema deve algo ao que quer que seja, porque me parece minimizar o cinema como arte, mas a verdade é que se ouve sempre falar de grandes filmes baseados em grandes livros, sendo que o inverso raramente acontece; também é frequente o filme ser francamente pior do que o livro, o que nos pode fazer chegar à conclusão de que a literatura é a arte maior e o cinema uma arte irredutivelmente, inevitavelmente menor.
E porém, todos sabemos que não é assim, de modo que o que eu gostava de descobrir são os casos em que o filme é francamente melhor do que o livro, ou tão bom quanto o livro. Penso que já escrevi que, na minha opinião, Lolita  do Kubrick é tão bom como o original de Nabokov; apesar de nunca ter lido a Última Hora (25th Hour no original), de David Benioff, aposto, e aposto mesmo, que este livro será claramente inferior ao filme maravilhoso de Spike Lee com o mesmo nome. O conto que deu origem a Brokeback Mountain, apesar de ser muitíssimo diferente do filme,  é tão bom como o filme, mas não o ultrapassa (mais uma vez, apenas na minha opinião); nunca li o Padrinho, de Mario Puzo, mas estou igualmente disposta a apostar que ou é pior do que o filme ou tão bom como, mas não melhor; E Tudo o Vento Levou, que me dei ao trabalho de ler por gostar muito do filme, é bastante inferior ao magnificente e arrebatador pastelão melodramático e lindo que é o próprio filme. E o que dizer da dupla 120 Dias de Sodoma, Marquês de Sade/República de Saló, Pasolini? O que dizer? Alguém que responda a isto, por favor, já que eu não li o livro nem vi o filme, por falta de engenho, arte e estômago; no entanto, gostaria de poder opiniar sobre os mesmos (idem aspas para a saga Twilight; por acaso, tenho uma amiga que disseca os livros e os filmes e farta-se de protestar contra aquilo e acha que é tudo uma manobra nojenta e manipuladora dos Republicanos mais extremos lá dos States e etc. e tal, e ou ela tem razão ou leu a converseta toda nalgum lado, mas de qualquer forma, o que ela diz parece fazer sentido; eu vi o filme em que a Bella tem o bebé e meu Deus, se há visão mais castigadora da sexualidade adolescente e da emancipação feminina, não estou a ver, nem quero ver).
Continuando. Só me consigo lembrar destes exemplos. No fundo, apenas queria dizer que a arte, quando nasce, é para todos, e que o cinema é arte a par da literatura, sendo ambos, até, relativamente semelhantes. Assim, o que há a fazer é complementá-los, isto é, há que ler bons livros e ver bons filmes e exigir sempre bons filmes e bons livros para nos salvar a vida. Sem isso, a gente não vive. 

quinta-feira, 29 de março de 2012

É que não há hipótese

No outro dia, estava a dar o Reality Bites na televisão, e lá fiquei eu especada a ver. Este homem, para mim, é um íman. Pronto, entre mim e ele há uma grande barreira que é um écrã de televisão ou cinema, mas fora isso, é um íman. Ainda por cima, no Reality Bites ele faz de cínico adorável e filosófo, tão pretensioso, e eu em vez de me irritar continuo a adorar como no primeiro dia, principalmente quando ele olha directamente para a câmara e diz "nobody can eat fifty eggs". Tão pretensiosozinho, tão fofinho. Ai, ai.



Doidas, doidas, doidas andavam as galinhas

Eu conheci a C. há dez anos. Éramos duas galinhas malucas, sem mais nada que fazer do que calcorrear a pequena cidade onde vivíamos, falar do curso que estávamos a tirar e trocar canções, livros, cds, dvds, batons, pulseiras, roupa, ganchos para o cabelo, chapéu. Falávamos dos namorados que tínhamos, que queríamos ter, que havíamos tido, e de que como eram todos uns parvos e nós mais parvas ainda por gostarmos deles, e ríamos por causa disto. Falávamos de como era bom estar ali, naquela pequena cidade por onde percorríamos todas as ruas, de como era bom não ter mais nada que fazer se não estudar, eu queixava-me de ter de escrever os mini-trabalhos para Sintaxe, que detestava, e a C. ajudava-me, ela que era, e ainda é, um ás na Sintaxe, uma chomskyana irredutível e competentíssima. Em compensação, eu conseguia ser ligeiramente melhor a Fonologia, e tentava ajudar a C. por aí. E entendíamo-nos bem.
A C. fumava muito e eu pedia-lhe sempre para nunca deixar de fumar, porque ela fumava tão bem, parecia uma versão mais nova e morena das starlets dos anos 40. A C. ria-se e dizia que gostava muito da teatralidade do cigarro. Ao fim da tarde tomávamos café, ou íamos ao inenarrável "pub" e olhávamos para os caloiros entretidos no "pub crawl", perdidos de bêbedos, mas sempre muito educadinhos. Surpreendentemente. E ríamos e ríamos e falávamos do Pulp Fiction e atirávamos as falas uma à outra, eu imitava a vozinha irritante e doce da Maria de Medeiros, "whose motorcycle is this", depois a voz mais despachada do Bruce Willis, "it's a chopper, baby", "whose chopper is this", "Zed's dead, baby, Zed's dead", e esta era a minha fala, e a da C. era "I say god damn, god damn, god damn", e esfregava o nariz da forma elegante como a Uma Thurman o fazia depois de inspirar a cocaína. É claro que a C. não tinha nenhuma cocaína, aquilo era tudo a brincar.
E, nessa altura, quando éramos assim, tudo o que conhecíamos e queríamos resumia-se àquilo, a filmes de que gostávamos, a música, a tudo o que não tinha importância, e às vezes o Corto Maltese pegava na guitarra e começava a tocar, a C. cantava e eu ficava ali a olhar para eles, a aplaudir secretamente, encantada.
Era, portanto, como a música do Paulo de Carvalho, mas sem a parte da "Nini" - eles cantavam uma música só para mim e eu olhava, olhava.
E desde então é só recordar. A C. é respeitabilíssima, e esperançosamente eu também, e já não cantamos no meio da rua nem nada. A C. vai-se casar e tudo, e eu acredito no casamento, a sério que sim, quer dizer - é o pior dos estados à excepção de todos os outros e é quase inevitável. Não nascemos para estar sozinhos. Mas também é o fim de uma era. Não vale a pena pensar que ainda podemos fazer isto ou aquilo, porque não podemos. Acho que quando a vida se compõe e a pessoa se casa ou tem filhos ou, sei lá, de uma forma ou de outra se acalma, há muitas portas que se abrem e é um momento feliz. Mas fecha-se definitivamente a porta a tantas outras coisas, coisas que passam a ficar só, apenas e só, na nossa memória. E nada disto é mau - é assim, apenas. 
Bom. Hoje estou melancólica. Acontece.
I say god damn.

quinta-feira, 15 de março de 2012

Resposta pronta

Num filme de que gosto muuuuuuuuuuuuuuuuuuito, High Fidelity, com um actor de que gosto muuuuuuuuuuuito, John Cusack, há uma cena em que este último tem de se confrontar com o namorado actual da ex-namorada, isto é: neste filme, o John Cusack tem uma loja de discos e uma namorada, Laura, que acaba com ele e vai viver com um tipo todo piroso que usava anéis (papel desempenhado pelo Tim Robbins, sempre irrepreensível em tudo o que faz). Este namorado piroso, agastado pelo facto de John Cusack estar sempre a  telefonar à ex-namorada, decide ir à loja de discos do mesmo John Cusack e pedir-lhe, de uma forma toda zen e parva, que ele acabe com a perseguição. Quando John Cusack o vê, fica fora de si, e o que se segue são três diferentes formas hipotéticas de como ele poderia lidar com o caso: insulta o homem, expulsa-o da loja, ou atira-lhe com uma televisão à cabeça. É uma cena linda de ver, por acaso, e das minhas preferidas do filme. E assim ficaria John Cusack esplendorosamente vingado.
Acontece que isto é apenas hipotético. Na realidade, John Cusack ouve o que o outro lhe tem a dizer, diz "está bem" e o Tim Robbins vai-se embora tranquilamente, com as integridades física e moral intactas.
Sempre gostei deste pequeno episódio porque infelizmente se assemelha ao que nos acontece na vida real. Pelo menos, a mim, acontece. As pessoas estão sempre a dizer-me coisas parvas ou com as quais não concordo e nunca consigo responder da forma que eu acho que elas mereciam, assim do estilo "esteja mas é calada, pá". Acontece às vezes chegar a casa e pensar que devia mesmo ter respondido "esteja mas é calada/o, pá". 
Não o faço, porque por um lado a sinceridade traz chatice, e por outro lado a sociedade baseia-se na mentira bem-educada, se não estávamos bem arranjados. Mas isso não que impede que eu simpatize com a situação do John Cusack e não queira, de vez em quando, atirar televisões à cabeça de certas pessoas. Embora, com toda a probabilidade, eu não conseguisse "acartar" (lindíssimo verbo) com a televisão.


Correcção: afinal não é uma televisão, é um amplificador ou assim. De qualquer forma, penso que também não conseguiria acartá-lo.

domingo, 11 de março de 2012

Ninguém se chama "Baby"

Quando vi o Dirty Dancing, tinha já 17 anos. O filme já era antigo nessa altura - gostava de esclarecer este aspecto. 
Continuando. Venho por este meio dizer que este filme é uma bodega e não quero saber. A miúda tem o nariz torto e o Patrick Swayze faz o que pode, dança bem, mas enfim, já no Ghost é uma seca e aqui também. E depois a própria história é seca, é a miúda a aprender a dançar enquanto passa férias no Inatel. E que idade é que ela tem para ainda andar de férias atracada à família? Oh pá, que vá fazer o inter-rail, sei lá. 
Mas o que me faz mesmo, mesmo não gostar deste filme é o nome da rapariga. Baby. Baby. Sei que agora toda a gente caçoa disto e diz "no one puts Baby in the corner", mas não deixa de ser muito parvo. Baby.
Se a miúda tivesse outro nome qualquer, mais normal, talvez o filme se conseguisse ver. Assim, não.
Peço desculpa a quem gosta do filme, a sério que sim. Eu também gosto de milhentos filmes parvos e anódinos, para compensar o facto de não gostar deste. Olha o Príncipe em Nova Iorque do Eddie Murphy. Adoro este filme e não é grande coisa, de modo que assim me redimo. 
Boa noitinha, sim?

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Isto é que são descrições realistas de filmes

O que tenho a dizer sobre os Oscars está aqui. Os meus filmes favoritos são:


Seguido de:


Sem esquecer este outro magnífico:


Ah, ah, ah, ah! O "Analyse Dat Ass" também vale muito a pena.
Um pequeno apontamento de humor. 

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Oscars - alguns comentários

Eu tento ver os Oscars todos os anos. Adormeço sempre, não sem antes me irritar com as escolhas da chamada "Academia", que escolhe sempre tudo ao contrário daquilo que eu acho. E há exemplos clássicos disso - o Citizen Kane não ganhou Oscar de Melhor Filme;  o Crash ganhou ao Brokeback Mountain (! - esta foi das poucas vezes que fiquei até ao fim a ver e fiquei fora de mim); A Halle Berry e a Gwyneth Platrow também já ganharam Oscars (mais uma vez -!), e por aí fora. 
Bom. É interessante pensar quem é, afinal, esta "Academia" e porque é que tanta gente, inclusive eu, presta tanta atenção às escolhas que faz. Descobri, por exemplo, que o Lorenzo Lamas faz parte da Academia e vota. Palavras para quê, não é (a propósito, confirmar artigo interessante aqui, que explica quem são afinal estes indivíduos da Academia. Uma massa multicultural e multiétnica, como se verifica).
No que me diz respeito, penso que ainda sigo os Oscars porque não resisto ao espectáculo de encher o olho que os americanos fazem na perfeição e que, fraca que sou, me cativa por completo. A passadeira vermelha, os vestidos, aqueles actores todos, uns de que gosto verdadeiramente, outros que apenas considero esteticamente aprazíveis e isso também é respeitável, e depois a excitação de abrir o envelope, and the Oscar goes to, e aquelas músicas todas épicas, e depois as pessoas choram e agradecem ao marido ou à mulher e é tão romântico, e pronto. É bonito. Enfim, gosto. Lembro-me de que uma vez a Whoopi Goldberg apresentou os Oscars e disse, no final, qualquer coisa como "estou a a falar para o menino que está a ver a cerimónia e a pensar "qualquer dia, uma daquelas estatuetas será minha". Depois fez uma pausa, apontou para a câmara e rematou "kid, you'd better believe it". Neste tipo de épica, não há quem suplante os americanos, de facto. E portanto tudo isto é um espectáculo que eu aprecio, além de também apreciar cinema americano. Já se sabe que não é o único cinema que existe, mas é evidente que consegue produzir coisas muito boas (a par de grandes porcarias, mas isso já se sabe).
O que já não aprecio tanto são as escolhas da tal "Academia" e o "hype" (brrrr, palavra feia) que criam em torno de certos filmes. Vou ser completamente injusta e começar pelo Artista - sou injusta porque não vi este filme até ao fim e não o vi no cinema. Um filme destes tem absolutamente de ser visto no cinema. Mas ignorando estes dois factores, o que vi do Artista não me seduziu assim muito. Tem imagens bonitas? Tem, mas quer dizer, os filmes mudos originais são mais bonitos (alguns, pelo menos). A história não me pareceu grande coisa (não vi até ao fim, repito), porque o excerto que vi me parecia uma narrativazita banal, tipo comédia romântica de Domingo à tarde. O actor principal também não me cativou. Estava a pensar num actor subtil e pareceu-me apenas exagerado, e a câmara obcecada em registar-lhe todos os sorrisos, todos os olhares descaradamente. Enfim, não gostei muito, e a não ser que tenha oportunidade de o ver como deve ser, no cinema, não me parece que vá tentar ver outra vez. Peço desculpa a quem gostou do filme, porque eu de facto não vi até ao fim. São comentários com base apenas no excerto que visionei. 
Isto para dizer o quê? Que ainda a procissão vai no adro e já o Artista é dado como vencedor, e provavelmente será. É um exercício engraçado, não duvido, mas não é a salvaçao do cinema, "ai, não precisamos de filmes em 3D para apreciar cinema!". Não, realmente não. Também não sei é se precisamos do Artista, mas enfim.
E todo este post se justifica porque o filme que eu gostava de ver a arrasar completamente é este, e nem sequer foi nomeado:



Estilizado ao máximo, propositadamente estilizado, até, elegante, muito giro. Eu próprio sou vítima do tal "hype", que também não prejudicou este Drive. Não foi nomeado, mas tem já uma legião de seguidores.
No fundo, os Oscars são de facto uma celebração da festarola que um certo tipo de cinema é. Não há nada de mal nisso, especialmente quando filmes merecedores ganham Oscars. Também não há nada de necessariamente bom. 
Mas enfim. Isto é só converseta. Amanhã lá estarei eu muito irritada a ver a "cerimónia".

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

As convenções de género do filme de terror estão cá todas

Este ano, já vi pelo menos um filme de terror daqueles tradicional:
- cenas de sadismo e tortura
 - objectificação do corpo humano, mormente rostos macilentos, nódoas negras, ossos a chocalhar, olhos cadavéricos e vazios
 - consequências sangrentas e massacrantes da gravidez não planeada, nomeadamente trabalhos de parto com cesarianas a sangue frio e sangue a rodos
- pormenores macabros como uma mulher grávida a beber sangue humano e a dizer "hmmmmmm", labendo os lábios, deliciada
- noite de núpcias com claras fantasias de violação
Um filme de terror série ZZZZZZZZ, portanto.




quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

"Eu vi mas não agarrei", cantavam os Ornatos. E que tal ver e agarrar?

Ora, ouvi dizer que Ethan Hawke, Julie Delpy e Richard Linklater estão em conversações para realizar a sequela de Before Sunset. Espero bem que se despachem.
Eu gostei muito, mas mesmo muito, do Before Sunrise, porque era pouco mais nova do que as personagens quando vi o filme e portanto identifiquei-me muito com o que diziam e com a história em si. Amores à distância sempre me atraíram, e nunca consegui ultrapassar o facto de, parvamente, Jesse e Celine não terem trocado moradas nem números de telefone nem...? Hã? Estavam a pensar em quê? Foi bem feita terem de esperar nove anos para se encontrarem novamente.
Também gostei muito, mas mesmo muito, de Before Sunset, porque era pouco mais nova do que as personagens quando vi o filme e portanto identifiquei-me muito com o que diziam e com a história em si. A noção de que é preciso trabalhar para tudo na vida, até para mantermos as pessoas de quem gostamos perto de nós, sempre fez muito sentido para mim, e nunca consegui ultrapassar o facto de, parvamente, Jesse e Celine terem passado o filme todo a falar e a trocar impressões sobre coisas vagas quando é tão óbvio que, ponto um, o que Jesse tem a fazer é divorciar-se e ficar com a Celine, ponto dois, o que Celine tem a fazer é dizer a Jesse que gosta dele e que quer que ele se mude para Paris. Ou vai ela para os States, já que o Jesse tem um filho pequeno, se calhar é mais fácil assim.
Às vezes perdemos muitas oportunidades na vida e ficamos a pensar, ah, que parva que eu fui em não ter aproveitado isto ou aquilo melhor, este ou aquele emprego, o curso, porque é que não fiz uma pós-graduação, porque é que não concorri a não sei onde quando ainda era nova e etc. e etc. Já não há nada que possamos fazer e ficamos carcomidos por dentro devido a estas coisas parvas, externas, que não podemos mudar. Com as pessoas é um bocadinho assim, há pessoas que passam por nós e não aproveitamos quando devíamos aproveitar. No entanto, a vantagem das pessoas é que podemos sempre telefonar-lhes, mandar-lhes um email, combinar um cafezinho, e quando estivermos a tomar esse cafezinho temos de aproveitar e de lhes dizer o que realmente queremos dizer, "olha, tu para mim és o Corto Maltese", por exemplo. 
Deixamos as pessoas passar por nós porque às vezes achamos que é tudo muito difícil e complicado e que não vale a pena. Foi o que aconteceu ao Jesse e à Celine e perderam nove anos. Tudo bem que são personagens ficcionais, mas são ilustrativas dos erros parvos que às vezes cometemos porque a "convenção" diz-nos que uma coisa não vai resultar só porque há distância e milhares de quilómetros no meio.
O que a gente não sabe nem pode saber na altura é que resulta, sim. Resulta, resulta e resulta. E se pensarmos assim, resulta mesmo (parece que li aquele livro que é o Segredo, não é? Mas não, realmente não li. Consigo escrever posts deste calibre elevadíssimo mesmo sem ler livros de igual calibre elevadíssimo.). 

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Não tenho título, é sobre a Leni Riefenstahl

Graças às maravilhosas benesses da "hiperligação" da internet, descobri este site com uma série de artigos de Clive James, à borlix (adoro esta expressão). Ando a ler uns quantos, e dos que li gostei particularmente do artigo (no fundo ensaio) sobre Leni Riefenstahl. O texto é muitíssimo eloquente, quanto a mim, e diz-se a certa altura:
Some spectators thought even at the time that her cinematic gift had served to legitimize a murderous ideology, but almost nobody belittled her artistic talent. She was thus able, when the Nazis lost, to invoke the principle that art trumps politics. (...) Steven Spielberg said he wanted to meet her. If he had made Schindler's List ten times, he could not have undone the portent of such a wish, because he was really saying that there can be art without a human framework, and that a movie can be made out of nothing but impressive images. 
O texto é bastante duro, até impiedoso, e tem necessariamente de ser assim, dado o objecto de estudo. O caso de Riefenstahl é curioso porque, como disserta Clive James, o talento que quase todos lhe atribuem foi completamente dividido, arrancado até, à ideologia que o permitiu, como se fosse uma entidade completamente à parte do nazismo. 
Eu já escrevi, talvez até demasiadas vezes, sobre como, quanto a mim, a arte tem de ser tomada em si mesma, e como o Bloom tem toda a razão em adoptar um critério puramente estético para o cânone, dissociado do dado social, político, até ético, mas casos como o de Riefenstahl fazem-me pensar e, acima de tudo, repensar tudo isto. Uma coisa é a gente achar piada ao Sean Penn no Sweet and Lowdown de Woody Allen, que é um ser humano execrável mas um músico sublime - além de ser ficcional, a personagem de Sean Penn nunca andou a matar gente. Outra coisa é ver o Triunfo da Vontade, por exemplo, e admirar e gabar o talento que o produziu, e que as imagens são tão bonitas e isto e aquilo, estando perfeitamente ciente da ideologia (assassina, como a qualifica James) que justificou o filme. Interessa verdadeiramente saber se Leni Riefenstahl sabia ou não dos campos de concentração (e tudo indica que sabia, por mais que o tivesse negado)? Alguns dirão que não, que isso é uma questão ética que não prejudica a beleza do filme. Eu acho que, para mim, prejudica. Lembro-me de ler um artigo no Público, há imenso tempo, precisamente sobre o Triunfo da Vontade, em que se descrevia o filme como "horrivelmente belo" e Riefenstahl como "do lado errado da história". Mas a questão do seu talento, e da validade do filme, permanecia intocável, dissociada da moral e da ética.
Não tenho a certeza de que as coisas possam ser assim. É evidente que não me passa pela cabeça vir agora dizer que os filmes dela deviam ser proibidos ou coisa do género, nada disso. Penso apenas que a "human framework" que James menciona não pode, de facto, estar ausente quando se vê algo como o Triunfo da Vontade (e concordo com ele quando insinua que o facto de Spielberg querer conhecer Riefenstahl seja no mínimo grotesco). Podemos ver o filme, podemos achar bonito - mas temos de saber, nuito claramente, que é um filme assassino. Se isso não nos incomodar, se acharmos que não influencia a forma como pessoalmente o visionamos ou, até, a recepção do filme em geral, então há algo de errado connosco. Acho mesmo que sim.

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Pessoas incompletas

O Corto Maltese acaba de me perguntar: "como é que é possível que nunca tenhas visto o Rei Leão?!"
Olhou para mim de forma tão chocada que me sinto uma pessoa incompleta.
Pois é. Nunca vi o Rei Leão nem nunca vi o Bambi. Pode parecer insignificante, mas interrogo-me se isto não terá consequências mais profundas. Será que este tipo de lacunas nos torna pessoas incompletas a nível "coltural"? Será que as mesmas lacunas me impedem de participar activamente no imaginário colectivo de toda uma geração, neste caso a minha, explicando-se assim porque me sinto às vezes tão desligada da sociedade em geral? Dou um exemplo - eu podia ter escrito esta pergunta no facebook, mas não valeria a pena, porque só tenho cinco amigos no facebook, não reunindo assim amostra representativa. Sou uma pessoa de quem ninguém gosta, e se eu tivesse visto o Rei Leão em pequena, a coisa talvez se tivesse resolvido. Será que a ausência de imaginário colectivo vai provocar em mim uma psicopatia a longo prazo, enveredando eu pelo caminho de serial killer? São estas as questões que eu levanto.
Há pessoas que se calhar nunca viram o Último Tango em Paris ou o Elton John em Vilar de Mouros e isso, para a geração delas, é fundamental. Se calhar, também elas são, como eu, pessoas incompletas.
De modo que a minha pergunta para o fim-de-semana é: há alguém incompleto como eu que nunca tenha visto o Rei Leão e se sim, o que fazem para colmatar a lacuna (tarefa importante, a de colmatar lacunas)?

domingo, 22 de janeiro de 2012

Eu hoje gostava de fumar. Eu, que nunca fumei.
Gostava de pegar num cigarro e pôr-me à janela a fumar.

E talvez assim ficasse com o estilo e o talento destes indivíduos acima,embora saiba que não, que o cigarro é só um elemento que os filmes tornaram na corporização de um certo je ne sais quoi, mas que não quer verdadeiramente dizer nada. E no entanto.
Como não fumo, pego no meu copo com leite quentinho e bebo.
Pronto.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Chega-se a um ponto em que só apetece mandar um grito.
O meu grito seria certamente diferente dos gritos que aparecem no vídeo abaixo. Há, neste documentário, uma cena horrível em que uma das vítimas da doença de Minamata agarra pelo colarinho o patrão da fábrica que poluiu durante anos as águas em que se pescava, e grita com ele, grita, grita, diz que perdeu os pais, que o irmão é deficiente e que as pessoas se riem dele, e grita e grita, e o homem a olhar para o ar, a olhar para todo o lado menos para ela.
Minamata, The Victims and Their World, de Noriaki Tsuchimoto. Descobri-o há um ou dois meses e voltei a lembrar-me dele hoje. Nem sei porquê, mas deve ser porque, felizmente por razões diferentes, me apetece gritar e é o grito dela que me tem vindo à cabeça.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Globos de Ouro, alguns comentários modestos

Golden Globe celebrities enjoy meal of real gold as poverty tightens grip on US 

 Uma perspectivazinha  diferente sobre os Globos de Ouro neste artigo. Banho de ouro, que fabuloso.
Comentando a cerimónia em si, e apesar de o artigo referido me ter posto imediatamente de má vontade, enfim, acho que alguns dos filmes nomeados/vencedores são interessantes. Ainda não vi o Artist, nem sei se já estreou em Portugal, mas hei-de ver. Já vi o The Help, e apesar de ter gostado, não estou inteiramente convencida. O filme oscila entre uma crueza triste e um paternalismo irritante. Mas gostei do filme, sim, principalmente de Viola Davis. 

Uma das coisas de que gosto nos Globos é que estes apresentam a categoria de televisão. Houve vencedores seguros e bonzinhos, a Kate Winslet, a Modern Family (sem surpresas, já que esta série ganhou todos os Emmys que havia a ganhar), e reparo que houve uma actriz qualquer que também ganhou um prémio pelo desempenho na American Horror Story. Acontece que vi ontem, pela primeira vez, um excerto de um episódio desta série e fiquei aterrada, mas no mau sentido. A cena que vi constava de uma pobre senhora visivelmente grávida (de gémeos, como vim a descobrir), a tentar descansar na cama, e enquanto isto a pobre senhora é violentamente despertada por uma adolescente fantasma aos gritos e às asneiras, que entratanto chama um tipo num fato preto latex, que não percebi ser fantasma ou ser real, que começa a desenvolver esforços para violar - sim, perceberam bem - a pobre mulher grávida. ?! Hã? Então mas eu estou muito bem a tentar ver uma série que penso que mete assim uns fantasmas e tal, e depois tenho de levar com uma cena destas, que transcende em muito qualquer violência que se poderia esperar? Há alguém que veja esta série e que me possa explicar se isto faz algum sentido, ou se é mesmo violênciazeca barata e evitável? É que não vi ali grande mérito ficcional, sinceramente. Como se não bastasse, o marido da pobre senhora, com o auxílio da filha adolescente de ambos, chama as autoridades e faz com que a mulher seja enviada para um hospital psiquiátrico, ignorando, ao que parece, o visível facto de a pobre senhora estar visivelmente grávida. De modo que agora, se por um lado quero continuar a ver a série, por outro lado não quero.

Bom. É isto, desculpem a pobreza do post. Talvez tenha algo mais a dizer quando vierem os Oscars ou quando visionar, finalmente, o Midnight in Paris.